15.º VOL. DA COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
OS CONTOS DO TIO JOAQUIM
RODRIGO PAGANINO
COLLECÇAO ANTONIO MARIA PEREIRA
RODRIGO PAGANINO
OS CONTOS DO TIO JOAQUIM
3.ª EDIÇAO
LISBOA
PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
50, 52, Rua Augusta, 52, 54
1900
Typographia da Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
11, Beco dos Apostolos, 1.º
INDICE
| Prefacio da 2.ª edição | [5] | |
| I | —O tio Joaquim | [13] |
| II | —O romance de um sceptico d’aldeia | [21] |
| III | —A proposito da missa do dia | [37] |
| IV | —Os domingos de fóra da terra | [49] |
| V | —Os retratos de familia | [59] |
| VI | —O fructo prohibido | [69] |
| VII | —A gallinha da minha visinha | [95] |
| VIII | —O guarda do cemiterio | [107] |
| IX | —Como se ganha uma demanda | [133] |
| X | —O sexto mandamento | [155] |
| XI | —O Thomaz dos passarinhos | [173] |
| XII | —A historia do narrador | [199] |
PREFACIO DA 2.ª EDIÇÃO
Rodrigo Paganino e a critica
Um livro apparece, ao fugir do anno! Quando o sol está descoberto, quando tudo se cala no campo, como se o frio gelasse os menores ruidos, quando um somno lethargico se apodera das plantas, e as esperanças, a alegria, as flôres desapparecem da terra, um mancebo atira aos destinos o seu primeiro livro, atravez dos nevoeiros de dezembro!
Depois, como se fosse ainda pouco esta especie de ironia á sorte, habent sua fata libelli, declina a gloria de auctor sobre um pobre homem a quem conhecera em tempos, e que não tinha de litterato senão saber guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça de um arado, ser grande menino na poda e na empa, e, para fazer um pé de lagar ou erguer uma meda de pão, dar conselhos apenas comparaveis aos do Archivo Rural!
Tio Joaquim se chamava esse amigo, que, depois de narrar muitas historias a Rodrigo Paganino, lhe disse poucos momentos antes de morrer:—«Agora acabaram-se os contos. Lembre-se de mim quando se lembrar d’elles; é a herança que lhe deixo.» Para outro qualquer, este legado teria algum parentesco com o de Rebollo pae, que na hora extrema concedia a seu filho a certeza de lhe deixar uma boa cabeça; mas Rodrigo Paganino, para honrar a memoria do velho, entendeu que devia dos contos d’elle fazer um bom livro, e foi o que fez!
Ha qualidades n’esta obra que bastam por si sós para firmar a reputação de um escriptor. Um estylo espontaneo, claro, sem arrebiques nem pretenções, mas airoso, facil, cheio de côr, de propriedade, e, o que mais é, de razão. Conhece-se apenas que é um mancebo quem escreve, pelos dotes de imaginação, pela graça das divagações, pelo tom breve das phrases; a idéa é sempre séria, prudente, exacta. Não se deixa levar de extravagancias que tendam a affectar excentricidade; é excentrico ás vezes sem se sentir, excentrico com chiste, excentrico com feição. Não planeia os effeitos, não prepara a phrase final, não hesita ante um adverbio por ser commum; concebe a acção, dispõe-a, depois deixa-se ir escrevendo, com uma rapidez, com uma veia, com uma facilidade de elaboração, que julga sentir-se a penna a conduzil-o, em vez de o sentir a conduzir a penna. E isto é o que dá a principal individualidade do livro, é este o segredo d’aquella maneira regular e serena, que só procura encantos na sua simplicidade. Faz-me lembrar os primeiros livros d’Alphonse Karr, em que elle escrevia ao publico como a um amigo desconhecido, cheio de familiaridade e de confiança. Rodrigo Paganino é d’esta familia de talentos; não procura impôr-se ao leitor; simplesmente trata de se identificar com elle. O merecimento dos Contos do tio Joaquim não consiste na maior ou menor novidade da fabula, nos effeitos de surpreza mais ou menos habilmente preparados, mas na pintura dos caracteres e dos costumes. Cada um dos seus personagens é desenhado com tanta espontaneidade, que fica vivo, real, palpavel, e toma o seu logar n’esta grande familia de seres creados pela arte, mais verdadeiros do que a verdade, particulares e geraes, individuaes e humanos, corpos de carne transfigurados em estatuas. Ha escriptores para quem a rapidez de trabalho é uma condição favoravel, e com o auctor d’este livro julgo dar-se este caso; se elle escrevesse com uma pachorra de academico, faria talvez um livro indigerivel. O seu estylo é claro, preciso, e franco; e, a exceptuarmos algumas raras passagens em que apparece o auctor, cada personagem falla perfeitamente a linguagem do seu caracter.
Encontrei-me com o auctor dos Contos do tio Joaquim, ao entrarmos na vida; fizemos aulas juntos, e juntos fizemos versos; tinhamos quinze annos então:—hoje encontramo-nos de novo, cada um de nós, como outr’ora, com o seu livro na mão, mas a differença é que do livro que levamos hoje somos nós o auctor! Isto é mau, ou, pelo menos, bom não é. Mais valia talvez ser estudante ainda. Ao vêr-se no frontespicio de uma obra o nome do que a escreveu, qual de vós cogita que foi á força de trabalho, de paciencia, de miseria supportada heroicamente, de privações e de luctas de toda a especie, que ao fim de alguns annos, ao vencer os ataques da critica e as invectivas da inveja, teve um homem o direito de escrever o seu nome na primeira pagina de um volume, esquecendo-se de que o injuriaram no seu talento, na sua vida, no seu coração, e que o seu peito serviu de alvo luminoso ás flechas atiradas de noite por uma cambada de archeiros invisiveis?!
Para viver tranquillo e feliz, é melhor fechar hermeticamente a porta, e não abrir a quem bater, sobretudo se fôr a gloria. Apesar da sua mascara de anjo, não passa do esqueleto vestido de lantejoulas; namora-se uma pessoa d’ella, para se arrepender depois centos de vezes; em todo o caso, hoje que o barco vae n’agua, como dizem os maritimos, é continuar a remar! Que atraz dos Contos do tio Joaquim venha outra obra, na certeza de que, digo-o sem cumprimento ao auctor, o despedir-se o anno por este livro é o sufficiente para deixar lembranças na litteratura.
Dezembro de 1861.
Julio Cesar Machado.
Appareceu um finalmente, um livro, cujo auctor abençoei com todas as veras do meu coração. Infeliz! Morreu já.
A meu vêr, desappareceu com elle um dos mais promettedores talentos de romancista popular que teem surgido entre nós. O auctor era Rodrigo Paganino, o livro Os contos do tio Joaquim.
A imprensa havia recommendado pouco este livro.
Tem d’esses descuidos a imprensa. Li-o por isso sem a menor prevenção favoravel. Mas era justamente um livro assim, que Reine Garde pedia; é d’este genero de litteratura que o povo precisa; é por esta fórma que se resolve a importante questão das subsistencias intellectuaes, não menos valiosa do que a que occupa as attenções dos economistas.
Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusiadas e o poema do sr. Thomaz Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois seria preferivel como livro para leitura nas aulas de instrucção primaria.
Todos se lembram d’essas renhidas controversias. Eu por mim nunca pude tomal-as a sério n’aquelle ponto. Achei sempre muita graça ao empenho em que via mettidos os criticos. Quem se podia convencer sériamente que qualquer d’aquelles excellentes livros fosse proprio para as intelligencias infantis dos pequenos leitores? Um com o seu sabor classico e epico e suas comparações mythologicas, o outro com o seu pronunciadissimo caracter de lyrismo e suas imagens romanticas e arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas apprehensões nos mestres por um ou outro episodio que, baldados os esforços dos criticos, ninguem poderá considerar como demasiado edificantes.
Ora, quando eu li o livro de Paganino, pareceu-me encontrar n’elle justamente tudo o que debalde os criticos procuravam nos outros. Aquelle sim que era um livro verdadeiramente escripto para o povo e para as creanças! livro em que a attenção se prende pela verdade, em que o gosto se educa pelo estylo, em que o sentimento se cultiva por uma moral sem liga, porque é a moral do decalogo e do evangelho; livro escripto segundo o programma estabelecido por Lamartine n’aquelle bello prefacio da Genoveva e talvez mais fielmente observado ainda por o nosso romancista do que por o proprio legislador. Lembra-me bem que o li a um rancho de raparigas do campo e pude observar como ellas o comprehendiam sem custo. Não havia uma palavra que ignorassem, uma maneira de dizer que lhes causasse estranheza, as imagens faziam-as sorrir pela exactidão, como sorrimos ao vêr o retrato fiel d’uma pessoa conhecida; não eram caracteres extravagantes, paixões excepcionaes, situações inesperadas e unicas o que assim lhes absorvia a attenção; pelo contrario, era por aquelles personagens pensarem, sentirem e viverem como ellas, que tanto lhes interessava o livro.
Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam, aquelle volume, escripto para se lêr no campo, como eu o li, junto á fogueira que crepita no lar, sobre a ponte rustica que atravessa o ribeiro ou no degrau da ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a aldeia toda, passou quasi desapercebido no mundo das lettras. Não suscitou esse murmurio litterario, que acompanha certas obras felizes; murmurio em que se reune o louvor á maledicencia, a hyperbole laudatoria á calumnia escandalosa, os guindados elogios ás censuras exageradas. Foi um livro annunciado apenas, lido por poucos, comprado por menos, livro cujo auctor não tem sequer o seu retrato gravado na Revista Contemporanea e que por tanto quem quer tem o direito de desconhecer. E apezar de tudo isso, aquelle livro, como disse não sei quem a respeito de não sei que obra, era alguma coisa mais do que um bom livro: era uma boa acção!
Acceitem-se-me estas palavras, não a titulo de critica litteraria,—Deus me defenda de pretenções a esse genero—, mas como um tributo rendido á memoria de um escriptor infeliz a quem sou devedor de algumas horas de incomparavel prazer, que a sua leitura me proporcionou.
Maio de 1861.
Julio Diniz.
Rodrigo Paganino morreu ha pouco menos d’um anno, deixando de si, como homem, muita saudade em muitos; e, como escriptor, um livro precioso, e não somenos inedito. Morreu, passou, desappareceu d’entre amigos, levantou-se aos vinte e oito annos, como Gilbert, do banquete da vida, trocou a purpura do genio pela mortalha funebre; e a raça enorme dos papagueadores, dos chroniqueiros, dos assopradores encartados de reputações e de nomes, quando o via passar para a sua cova tartamudeou quatro palavras de requiem, como se a terra se tivesse defecado d’algum sandeu ou estadista.
Apenas Bulhão Pato n’uma breve noticia cheia d’aquella eloquencia que nasce dos mais entranhados affectos, apenas elle espargiu sobre a sepultura d’aquelle moço algumas flôres de saudade.
Isto é a verdade, verdade amarga é bem certo, porque attesta a deslealdade d’esses applausos que por ahi resoam, o immerecido d’esses triumphos que por ahi campeam, o nada d’essas glorias que por ahi balzonam, o facticio d’essas proeminencias que por ahi se decretam.
Em 1861 Rodrigo Paganino publicou os seus Contos do tio Joaquim. O que este livro significa, que o digam com a mão na consciencia todos esses criticos, florentissimos e profundos, que entendem por ahi de litteratura. Para mim, o que elle importa, é nada menos do que a implantação, entre nós, da litteratura popular. O nosso povo, quer dizer, a porção menos cultivada e mais numerosa da sociedade, carece de livros proprios. Rodrigo Paganino sentia, comprehendia esta falta; e foi no intuito, senão de a remediar completamente, ao menos de a attenuar pela sua parte, e de chamar a egual trabalho os obreiros do futuro, que elle escreveu o seu livro.
Ouçamol-o: «Entre nós, n’estes ultimos tempos sobre tudo, a litteratura tem desprezado um tanto o gosto popular. Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha, e nos demais paizes, em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem os resultados.»
Mais abaixo continua:
«Os Contos do tio Joaquim pertencem ao genero das obras de Emilio Souvestre, e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—Au coin du feu.»
Este é que é o valor litterario da obra; este é que é o seu alcance philosophico.
Hoje, a primeira condição de quem escreve, é ser essencialmente popular. Quando o povo não se eleva, como na Allemanha, á comprehensão do bello, é forçoso que o escriptor desça até elle, que lhe desenvolva a razão, que lhe eduque o espirito, que lhe vibre a sensibilidade.
Acabaram-se os almotacés da critica; o gosto é livre como a consciencia.
«Os livros para o povo, diz Lamartine na Genoveva, devem ser historias simples e interessantes; inspiradas dos costumes, das profissões, das amarguras, dos contentamentos do lar e da familia, e escriptas quasi na linguagem do povo; devem ser como que o espelho onde elle se veja em toda a sua simplicidade e candura; mas que em vez de reflectir as suas abominações e torpezas, reflicta com preferencia os seus bons sentimentos, os seus trabalhos, as suas dedicações e virtudes, para lhe dar o amor de si proprio, e ancia do aperfeiçoamento moral e litterario.»
E acaso não são isto mesmo os Contos do tio Joaquim?
Não se filiam n’esta escola Os retratos de familia, O sexto mandamento, O Thomaz dos passarinhos, e O romance de um sceptico?
Creio que me não engano; diz-m’o o coração, pelo menos, que é quem decide, em regra, do valor d’estas obras, que são todas coração e sentimento.
O livro de Paganino prima, incontestavelmente, pela sublime simplicidade do estylo, e purissima verdade de affectos. O primeiro dote era resultado da espontaneidade, da fecundidade, da força viva de imaginação, da caudal impetuosidade das idéas, do genio, emfim. O segundo refluia-lhe inteiro do coração,—do coração que lhe era manancial perenne de amarguras, depois de lhe ter sido ludibrio de desenganos crueis, das illusões dobradas, dos sorrisos desleaes e das palavras traiçoeiras, com que este mundo costuma pagar liberalmente a sinceridade do amor e das affeições mais intimas.
Que Deus perdôe, como elle havia perdoado, a quem pensou que esmagar o coração de um homem valia tanto, ou talvez menos que espedaçar o mais futil brinco de creança!
Relevem-me o intempestivo da digressão; eu torno ao meu logar de critico.
Publicados os Contos do tio Joaquim, Paganino, apesar do mal que o definhava a olhos vistos, e que elle, melhor do que ninguem, comprehendia, pensou em escrever successivamente algumas obras já delineadas. Em Pedrouços começou o romance Aos vinte e dois annos, romance a que se prendiam muitas saudades e ungido com muitas lagrimas; escreveu Beatriz, pequena historia affectuosa e apaixonada; e, afóra isto, um grande numero de trabalhos de indoles diversas.
Quando o futuro se lhe abria mais esplendido, quando a lição e a experiencia lhe amadureciam as prendas naturaes, quando aquelle fecundo talento devia produzir fructos mais sasonados, a morte veiu arrancal-o aos carinhos de uma familia estremecida, ao affecto de amigos que tanto o bem queriam, e á gloria certa que o esperava.
Os seus escriptos inéditos lá jazem na obscuridade, em quanto por ahi pompeam radiantes tantos abortos malfadados.
E os governos dos conventiculos, das commissões rendosas, das subvenções pingues, das prodigalidades ás mãos cheias, não sabem que ao lado d’esse progresso que faz machinas de vapor e telegraphos electricos, deve andar sempre, de continuo, emparelhadamente, o progresso que derrama a luz, que arrôtea os espiritos, que os educa, que os esclarece, que os distrahe, que os moralisa, e que vae desenvolver no coração muitos germens de grandiosos instinctos. Não sabem que, na vida dos povos, seis ou dez kilometros de linha ferrea não influem mais que a publicação de um bom livro.
É que elles cuidam, como diz o sr. Castilho, que nada ha sério, senão o coadjuvar ou impecer o bulicio governativo.
Isto disse eu por me lembrar que essas paginas de preço, escriptas por Paganino com tanto amor e tanto fogo, é provavel que, cedo ou tarde, se percam de todo, quando, dadas a lume, ganhariam mais um louro para elle, e mais uma gloria para a patria.
Maio de 1864.
E. A. Vidal.
Os Contos do tio Joaquim, livro de alto merecimento litterario, devido ao mallogrado homem de lettras, Rodrigo Paganino, que uma terrivel e fatal doença—a tysica pulmonar—arrebatou do mundo na primavera da vida, appareceram ha mais de vinte annos, quer dizer, n’uma epocha afastada, em que ainda ninguem fallava de processos realistas para a factura de um romance.
Pois apesar de não ser ainda conhecida n’esse tempo a escola realista, os Contos do tio Joaquim, mostram-se já seguidores dos seus preceitos pela naturalidade, singeleza e sentimento espontaneo das respectivas descripções.
Rodrigo Paganino, antes e depois de concluir em S. José o seu curso de medicina, foi um escriptor pujante, floreando na imprensa como jornalista notavel e no theatro como dramaturgo distincto.
Á pujança do seu talento não correspondia infelizmente o vigor do seu organismo; por isso a morte o derrubou a meio da carreira da vida, quando elle punha todo o seu empenho e boa vontade em terminar para o theatro de D. Maria uma comedia em 4 actos.
Infeliz Paganino! e duplamente infeliz, porque não gosaste, como homem, o lado risonho da vida, nem podeste, como escriptor, deixar apoz ti os fructos amadurecidos do teu brilhantissimo engenho.
Abril de 1885.
Pinheiro Chagas.
Ultimo adeus a Rodrigo Paganino
(A. Francisco Montez de Champalimaud)
1867 Agosto, 3.—Amigo do coração:—Hontem de manhã fomos esperar, no cemiterio dos Prazeres, os restos mortaes do nosso querido e desventurado amigo Rodrigo Paganino. Fomos sete, apenas, os que nos lembrámos de cumprir a dolorosa missão: José Elias Garcia, Manuel Roussado, Ricardo Cordeiro, Carlos Barreiros, Eduardo Gomes de Barros, José d’Avellar e eu. Ninguem mais! O ceu estava alegre; o sol brilhava com o natural esplendor do estio. Parecia uma pungente ironia á tristeza que apertava os nossos corações, em presença d’aquella sepultura! É porque os jubilos são apanagio do ceu, e as lagrimas a triste condição do mundo! A morte, meu amigo, phenomeno naturalissimo, trivialissimo, mas que nos espanta sempre, quando vem ferir o homem na força da vida, e o arrebata no momento em que a sua intelligencia começava a dar luz á humanidade, a morte, n’essas circumstancias, parece-nos um impossivel. Olhando para a arvore secular que abrigou á sua sombra o viajante, que floresceu em centos de primaveras, que produziu abundantissimas colheitas de fructo, se a vêmos cair falta de seiva, dizemos: «Cumpriste a tua missão; deste-nos sombra; embellezaste-nos com as tuas flôres; saciaste-nos com os teus fructos; chegou a tua hora; caiste porque eras da terra», e saudamol-a com veneração! Mas vendo a arvore robusta, que abre com as flôres do seu primeiro abril, flôres que são prenuncio de magnificos fructos, fulminada subitamente pelo raio, enfurece-nos a protervia do raio! Assim a morte, quando vem cortar o genio em flôr, nos produz muitas vezes o desespero! Rodrigo Paganino saía apenas da adolescencia, quando caiu no tumulo. Era medico e escriptor. Restam d’elle algumas folhas volantes, perdidas por aqui e por além, e um livro (os Contos do tio Joaquim), livro que ha de viver ao passo que muitas composições laureadas pelo capricho de hoje, morrerão ámanhã. Todavia, isso que Paganino nos deixou, não são mais do que as primicias do muito que tinha para dar aquelle grande talento. Rapida, brilhante, e, dolorosissima foi a carreira de seus dias! Ha quatro annos, n’uma carta que escrevi para a imprensa, desenhei o quadro que apresentava a familia de Rodrigo Paganino, pouco antes d’elle expirar. O pae, as duas irmãs, modelos de raras virtudes, e a mãe, pedindo em secreto, a Deus, um logar na mesma cova do filho. Tres annos a fez esperar a Providencia; finalmente concedeu-lhe a appetecida graça. Hontem, se Paganino fosse vivo, contava trinta e dois annos. Trinta e dois annos que a mãe o déra á luz do mundo; que o beijára entre dôres e alegrias, depondo o filho no berço; o filho hontem pagava-lhe essa fineza indo repousar ao lado d’ella, no berço do eterno descanço, onde para aquelles que padeceram com resignação, e que esperaram a morte, arrependidos dos erros mundanos, brilha a aurora da bemaventurança! O padre que acompanhou do Alto de S. João para os Prazeres os restos mortaes do nosso pobre amigo e que celebrou a missa, que nós ouvimos, pelo eterno descanço do nosso finado querido, fôra companheiro de estudos de Rodrigo Paganino. Terminada a missa, conduzimos o feretro para em frente do jazigo de familia onde havia de ser soterrado. Perguntou alguem, se queriam que o caixão se abrisse. José Avellar, de todos nós o mais intimo de Paganino, disse com a expressão tocante e varonil da sua bella physionomia: quero eu vêl-o. Mas que viu?! Quatro ossos e uma caveira a que se adheria uma pouca de terra! Era quanto restava do corpo que abrigara aquelle gentil espirito! O caixão foi collocado sobre o caixão da mãe, e nós, na extrema despedida, votámos á memoria do amigo quanto lhe podiamos votar: um adeus, e uma lagrima! Concluo esta carta, meu querido amigo pela verdadeira conclusão da dôr, que são as lagrimas. Um aperto de mão; volta quanto antes d’esse ponto do Alemtejo onde estás; lembra-te do anno passado!
Teu
Bulhão Pato.
I
O tio Joaquim
Ha de haver dez annos proximamente, fui passar o inverno a uma quinta, pouco distante de Lisboa; porque, segundo diziam, corria perigo de vida, se não mudasse de ares quanto antes.
O campo é sempre bello. Cada edade do anno imprime-lhe uma feição, differente embora, mas formosa sempre: e o inverno, apezar da sua fria nudez, tem attractivos, como os que nos fazem amar muitas estatuas antigas, em que a falta de roupas mais realça a magestade.
A uma legua apenas, parecia-me estar muito mais afastado de Lisboa. As noticias só repercutiam alli com ecco bem tardio; o apartamento do sitio, mais augmentado ainda pela quadra do anno em que se estava, parecia cortar de todo as relações com a capital: e se a vida latente que girava n’aquellas plantas entorpecidas pelo frio, não se deixasse transparecer de quando em quando, suppôr-se-hia, que um largo sarcophago nos encerrava: tão silenciosa, tão muda, tão melancolica era aquella solidão.
Os dias passavam-se facilmente; mas as horas do crepusculo, essas, é que pareciam immensas, insupportaveis. Quando a noite, começando a escurecer os campos, nos escurecia a alma com elles; quando as trevas desciam sobre a terra, e afastando diante de si alguma vida, que ainda por alli havia, nos entristeciam o coração: quando as oliveiras verdenegras, que ao longe limitavam o horisonte avultavam com as sombras, estreitando-se, e parecendo encerrar-nos n’um circulo sinistro, como deveria ser o das bruxas de Macbeth: então partia-se-nos a alma de saudades enlevada no viver folgasão e agitado, que n’esses momentos costuma offerecer a cidade. Tem-se dito, que nada ha mais triste, do que vêr cerrar-se o horisonte em mar alto á chegada da noite; mas dizem-no talvez os que não experimentaram ainda o angustiado negrume, que em similhantes momentos, no campo, nos confrange muitas vezes. Parece que tudo esmorece, e morre em redor: e n’essa hora, se no bater do pulso não encontrassemos provas da nossa existencia, chegar-nos-hiamos a convencer mesmo, de que a vida se nos esvaecia tambem, como se esvaece em tudo, que nos cerca.
Mas, ainda assim, havia compensação para nós na chegada da noite. Havia, porque de ante-mão contavamos passar essas horas, não muitas, que no campo precedem o deitar, n’uma conversa singella, e innocente; mas que d’essa singelleza e innocencia tirava os encantos que lhe sentiamos.
Á bocca da noite recolhiam os trabalhadores, os maltezes como ali lhe chamam, do trabalho e entravam para uma d’essas cosinhas do campo, tão nossas, tão conhecidas de todos: e que não faltam em quinta alguma de certa ordem.
Esperava-os um bom lume e uma boa ceia, e sobretudo esperava-os, que era o que elles mais queriam, as historias do tio Joaquim, e as suas narrações cheias de verdade e de moral.
Quem era o tio Joaquim, o que fôra, que papel representava, são perguntas, que naturalmente hão de vir á bocca dos nossos leitores, se os tivermos, e a que não poderemos responder como desejâmos. Tinha apparecido depois de uma das nossas guerras civis, e tinha pedido trabalho a um dos fazendeiros mais ricos do logar. D’onde viera, se alguem lh’o perguntava podia contar com a seguinte resposta, que não poucas vezes lhe ouvimos repetir: importem-se com a sua vida e deixem-me, que nada tenho que lhes contar; baste-lhes saber o que sou hoje, e não o que fui; agrada-lhes o meu trabalho; estão contentes comigo, que teem com o resto. Sempre ouvi dizer, que homem que muito se occupa dos outros, é porque se não póde occupar de si.
Todos voltavam sabendo talvez menos do que até então sabiam; mas curados da sua curiosidade indiscreta.
E depois, o tio Joaquim era velho, tinha sido honrado sempre, ninguem como elle sabia guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça d’um arado, ou fallar do tempo, olhando para as estrellas; na poda e na empa ninguem se lhe punha ao lado, e quando era necessario fazer um pé de lagar, ou erguer uma meda de pão, já era sabido que sempre o escutavam e lhe seguiam sempre os conselhos. No contar de historias não fallemos. O tio Joaquim era um livro aberto, como por ali diziam: e dava sota e az ao barbeiro do logar e ao mestre de meninos.
Este, contra as leis constitucionaes do paiz, ás quaes, aqui para nós, não era muito affeiçoado, accumulava ao seu mister de educador da mocidade, além dos empregos de escrivão de juiz de paz, escanhoador, tendeiro, agiota e outros encargos nem por isso muito compativeis, uma maledicencia sem egual. Pois cuidam que se atrevia a boquejar do tio Joaquim? Nem por sombras. Verdade é tambem, que lhe não fazia elogios, mas quando se tratava d’elle mudava logo de conversa, fazendo um tregeito desapprovador.
Diziam as velhas d’aquelles sitios, que eu não o sei ao certo pois nunca tratei de o averiguar, que o mestre Francisco, tal era o nome do professor, tinha tido n’outros tempos seus dares e tomares com o tio Joaquim, dos quaes tinha saido de cara a uma banda. Entretanto o silencio do mestre de meninos não influia pouco para a reputação favoravel do nosso bom velho, porque se dizia:—é tão boa pessoa, que o mestre Francisco não diz mal d’elle.
Pobre tio Joaquim! Assisti-lhe aos ultimos momentos e poude fazer idéa do que era a morte do justo. Sorria ainda, e já era cadaver. A hora do passamento foi para elle tão suave como o desprender da folha secca em manhã de outono. Momentos antes de fallecer voltou-se para o meu lado, e disse-me affavel e bondoso como sempre: agora acabaram-se os contos. Lembre-se de mim, quando se lembrar d’elles, é a herança que lhe deixo. Levou a mão ao peito, apertou um saquinho, que trazia pendente de um cordão, e que mostrava conter uma reliquia, voltou os olhos para o céo, pareceu procurar o rumo que a alma ia seguir em breve cortando o espaço, e expirou.
Foram as primeiras lagrimas, que derramei na minha vida; até então não sabia o que era morrer.
Guardei a herança. Bem ou mal administrada ella ahi vae em parte, tal como a memoria a conserva; mas não como me foi doada.
Havia um cunho tal de ingenuidade n’aquellas narrações, uma tal poesia e mimo de imagem, uma fluencia de dicção e uma propriedade de termos, que embora as procuremos imitar, não o conseguiremos nunca.
E não supponham, entretanto, que fosse buscar a figura ou a comparação a coisas de grande altura; ás sciencias, ou á historia: que ornamentasse o periodo com flores de rethorica, ou que procurasse guindar e alambicar a phrase, como tanta gente que por ahi vemos. Nada d’isso. Mais prudente e mais feliz, pois não commettia barbaridades, o tio Joaquim não saía dos limites das intelligencias dos seus ouvintes e ia buscar aos campos, ás flores, á agricultura, á mesma casa, (quantas vezes!) os similes de que se servia. Tudo era comesinho e humilde, sem ser rasteiro, e muitas vezes alcançava elle o que não conseguem muitos litteratos de polpa depois de terem trabalhado deveras—o sublime na simplicidade.
Mas nem só o estylo tornava recommendaveis os seus contos: se assim fôra, não ousariamos nunca encetar similhante tarefa. A idéa moral, que d’elles se deprehendia facilmente, a simplicidade dos episodios, e as curtas dimensões, que elle lhes dava, faziam com que fossem por mais d’um respeito dignos de publicidade. Confiados n’isto mesmo tambem é que começâmos esta collecção, de que somos meros reproductores, cabendo toda a gloria se a houver, ao tio Joaquim, e o desdoiro todo áquelles, que estragando-a talvez, a vêem agora dar ao publico.
Entre nós, n’estes ultimos tempos sobretudo, a litteratura tem despresado um tanto o gosto popular.
Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha e nos demais paizes, em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem os resultados. Muitos homens de vulto, intelligencias eminentemente superiores, tem-se approximado das turbas, e as obras, que se tem publicado com este intuito, não são as que menos contribuem para a sua gloria.
Dois exemplos bastarão: Lamartine e Emile Souvestre: o auctor da Genoveva e Canteiro de Saint-Point, e o auctor de Coin du feu e do Philosophe sous les toits. Ambos tem vindo por vezes conversar, como amigos e parceiros, com as classes rudes; ambos se teem por vezes esforçado para lhes fazer comprehender as suas idéas, e, tem conseguido verem-as admittidas e bemquistas na officina do operario, e na agua furtada do infeliz.
Sacrosanta missão da imprensa, como é admiravel e veneranda, quando evangelisa as turbas, dando consolação ao desgraçado e conforto ao que desanima! Como nos sentimos enlevar de respeito perante essa instituição maravilhosa, quando vemos os seus fructos sem vicio e sem defeito, alimentarem o que pede o pão do espirito, e darem refrigerio ao peregrino resequido d’este grande Saharah em que vivemos! É então, e não quando a vemos maculada pelas viltas e polemicas indecorosas, que devemos bemdizer os seus inventores, e pagar o devido tributo ao genio que similhante dadiva nos legou.
Mas não é esta a melhor occasião para similhantes dissertações; perdoem-nos o divagar intempestivo, e, se nol-o permittem, iremos ligar o nosso interrompido assumpto, no ponto em que o deixámos, ha pouco.
Os contos do tio Joaquim pertencem ao genero das obras de Emile Souvestre e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—Au Coin du feu. Dir-se-hia mesmo, que inspirado por este bello livro, se não commettia um plagiato, resentia-se muito da leitura do auctor francez; porém o tio Joaquim nunca soube ler e por isso nem de longe poude cahir em tão feio peccado.
Não é a primeira vez que a ignorancia se apresenta como pretexto para a originalidade de muito escriptor publico. Não é para admirar, que este nosso que se estrêa, comece no mesmo ponto, d’onde muitos, que já são veteranos, não teem podido passar.
As historias que lhe ouvimos são em grande numero. Não apresentaremos n’este livro senão as que mais notaveis nos pareceram e que mais profunda impressão nos deixaram, procurando, quanto nos fôr possivel, aproximar-nos d’aquella engraçada ingenuidade, que tanto nos encantava, quando lhe ouvimos a palavra facil e singela.
Não conseguiremos de certo imprimir-lhes aquelle cunho de originalidade, que o narrador lhes dava. Oxalá que possamos ao menos, fazer com que os nossos leitores passem algumas horas entretidas n’esta leitura: e que, esquecendo-se embora da pessoa que lh’as apresenta, não se esqueçam de todo do velho tio Joaquim.
II
O romance d’um sceptico d’aldeia
De tantos contos, que ouvi ao tio Joaquim, foi o seguinte, que maior impressão me produziu.
Tinha morrido nos sitios um fazendeiro, que não gosava de boa fama, e ao lembrarem-se d’elle começaram os homens do trabalho a cortar-lhe um pouco na pelle.
O tio Joaquim desde que se fallára no finado, fôra gradualmente entristecendo; e pela primeira vez na sua vida caiu-lhe a colher da mão, quando ia começar a comer.
Os maltezes, que estimavam devéras o velho narrador começaram a preoccupar-se com similhante tristeza, e, antes de acabar a ceia, já estavam todos em roda d’elle, a perguntar-lhe o que tinha.
—A morte do Manuel Simões fez lembrar um caso, a que assisti, ha tempos, quem sabe se o Manuel padeceria tanto como o outro, que eu vi morrer.
—Conta-nos isso, tio Joaquim?
—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos. Entretanto servir-lhes-ha de lição para deixarem em paz, quem já deu contas de si.
Callaram-se todos e o narrador começou por estas palavras:
Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o caso, que lhes vou contar. Defronte da egreja estava n’esse tempo uma loja de barbeiro, afreguezada como poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores. Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia: o mestre Ignacio sabia do seu officio como poucos, e cortava nas vidas alheias, como nos cabellos e barbas dos freguezes.
Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe acudiam á obra, acceiada na verdade; outros, que para ali iam dar á taramella e saber o que se passava pelos sitios.
Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os primeiros saiam com a pelle, que nem um setim; os outros levavam medida rasa de novidades e não poucas vezes acogulada de mentiras.
De todos os que por ali iam, um freguez havia a quem o mestre não gostava muito de vêr na loja. Ninguem o diria, porém, ao vêr as barretadas do velho Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de ter que vêr, que o não fizesse! Se era o sr. padre prior, o padre mais santo, que tenho conhecido e a melhor alma que Deus tem deitado a este mundo de Christo.
E sabem porque o mestre não engraçava com o padre prior, e até mesmo ardia por vêl-o pelas costas? Era porque, o unico talvez dos freguezes todos, não fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe muito os braços de fóra, quando estava presente.
—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes por ventura quantos annos de trabalho leva uma reputação a crear, quantos cuidados e lidas custa o ser honrado, para assim deitares essa obra toda por terra sem tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses cabedal e vida a fazer a tua propriedade e a amanhar as terras; se todos os dias regando-as com o suor do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho, conseguisses crear as arvores de um pomarsito, por bem pequeno que fosse, gostavas, que um alma damnada te deitasse fogo á casa; ou que te succedesse dar o mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar, casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas, se podem tornar a ganhar; mas o credito e a fama, esses é que não.
O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava sem saber da sua freguezia, e este então, que não era de reserva, nem homem, que gostasse de pôr as uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe logo mudando de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre, não desmanche creditos dos outros, pois que não póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de má lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto a obra, ninguem lh’a desfaz, por que não a tem feita.
Era n’um domingo de manhã e a loja do mestre Ignacio estava a deitar por fóra. O dono da casa tinha acabado de talhar umas poucas de carapuças e encaixava-as nas cabeças para que as talhára, quando entrou o padre prior. Calou-se logo o velho e deu um ponto na bocca; porém o padre, que lhe sabia da balda, e que desconfiou da alhada, começou a fazer-lhe a cama, quasi do feitio que acabei de lhes contar, e por modos taes, que deixou o pobre do homem em lençoes de vinho.
Os que por ali estavam, que não eram muito affectos ao dono da casa, e que por vezes tinham apanhado tambem a sua maquia, começaram a rir, e aos ditos, mais ajudando ainda para o deixar em tallas.
Elle já dizia mal á sua vida: para mostrar que não ia muito do vivo ao pintado, já tinha assente um formidavel lanho na cara d’um pobre trabalhador, que lhe caira nas unhas, e promettia continuar quando um novo freguez, que entrou na loja o veiu tirar do aperto em que se via, pondo ao mesmo tempo uma rolha na bocca de todos.
Nem mais um abriu bico. Parecia uma mó de creanças, que estando a fazer grande algaraviada em casa de escola, vêem chegar o mestre armado de palmatoria e com modos de dar a torto e a direito. Ficam logo calladinhos, que nem ratos; mas ainda bem o mestre não tem dado costas, tornam á mesma, ou ainda a peior, fazendo uma ingresia infernal.
Assim foram os nossos amigos. Alguns d’elles até pareceram que viam lobo, e tanto se lhes puzeram os cabellos em pé, que o mestre teve de dar mais vezes novo fio ás navalhas, porque já não queriam cortar nem por um Christo: elle mesmo, apesar de pouco medroso, sentiu seus calafrios, quando deu de rosto com o recem-chegado.
Este não era nenhuma cara de metter medo, mas tambem não mostrava ser de muitos amigos. Entre os trinta e os trinta e cinco, os cabellos já se lhe começavam a encher de brancas, e a cara de rugas. Parecia triste; e sem dar nem uma palavra esteve na loja até que lhe chegou a sua vez, barbeou-se e saiu, cumprimentando todos á saída como o tinha feito á entrada.
Levou comsigo a callada. Apenas voltou para a azinhaga mais proxima começaram todos a desenferrujar a lingua, como se tivessem medo de que lhes ficasse lesa com o tempo, que estivera sem bulir. E como de razão, foi o mestre Ignacio, quem atirou primeiro a sua bola.
—Excommungado d’uma figa! Cruzes demonio, e embirrou com a minha loja o maldito.
—Parece que anda em peccado mortal!
—Podera não, se elle desde que veio para estes sitios não foi ainda á missa.
—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo! É capaz de nos dar quebranto!
—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da Felicia, que desde que elle a viu não teve uma hora de saude.
—Quem a Felicia?
—Não a jumenta; se elle é lobishomem!
—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já é de mais; estarão vocês tão limpos de consciencia, para assim poderem entrar pela terra alheia, como se fosse roupa de francezes?
Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a ladainha, procurára logo pôr-lhe cobro, mas foi trabalho de malhar em ferro frio. Era um dize tu, direi eu, que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a sua sopa; porém quando um carreiro velho, que era pessoa acreditada na loja, affiançou que o tal estrangeiro tinha embruxado a burra da tia Felicia e que era lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração por um instante, e n’essa occasião mesmo, é que o prior poude socegar aquella algaravia.
Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus podresitos mais ou menos, que o parocho sabia; e por isso todos metteram a viola no sacco, quando lhes foi com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar com qualquer coisa, quiz vêr se fazia frente ainda, e se podia continuar amolando o caso.
—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima bem sabe que desde que veio para aqui este homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar de reza, ou em festas da freguezia.
—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam sem saberem o que dizem, o caso é dar á lingua. Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem é. Se não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle. O mestre bem sabe que não é esta a primeira pessoa de quem se duvida; outros havia que nem por muito irem á egreja, passavam por christãos de lei.
O padre tinha dado no vinte. O barbeiro ficou sem tugir nem mugir, porque se lembrava da fama de judeu que por aquelles sitios tivera, e que lhe ia acarretando mais de uma carga de pau; os outros, que viram as barbas do visinho a arder, foram deitando as suas de molho, esgueirando-se á formiga, apenas acabaram de fazer a barba.
O remedio do parocho não produziu effeito; por que, dias depois, já tornavam á mesma: agora se tinham razão julguem-n’o lá pela historia do tal homem, que mais tarde vim a saber.
O freguez com que tanto se estomagára o mestre Ignacio, tinha vindo para aquelles logares havia dez annos pelos tempos das vindimas. Alugára uma casita pequena, que fica mesmo defronte da egreja, onde está agora o Manoel Ferrador, e que tem vae por meia duzia de geiras de pertenças: para ali se mettera com mulher e filhita que trazia comsigo.
Parecia gente morta, não saiam nunca, salvo a mulher, que de manhã cedo ia aos seus arranjos: e não procuravam dar-se com pessoa alguma da visinhança. E lá n’isso faziam bem, que a maior parte das vezes estas velhas onzeneiras e visinhas palradoras vão ás casas dos outros para darem fé do que lá se passa, e para depois á porta da rua, á tarde ou pela manhã, cortarem pelas vidas alheias como ferro de arado por terra mechida de fresco.
O que é verdade porém, é que este seu systema, não lhe tinha creado amigos, nem levantado uma reputação de encher as medidas. Todos murmuravam d’aquelle modo de viver, e estavam de alcatêa sempre para vêr se achavam fio á meada.
Tinham reparado por vezes que a pobre mulher, que parecia boa pessoa, saía quasi sempre com os olhos inchados e como quem acabava de chorar; mas por mais que se pozessem á escuta não tinham topado nunca signaes de ralhos ou resingas: antes se poderia dizer, se o dono da casa não tivesse tão má fama, que viviam como Deus com os anjos.
Uma noite, alta noite, já tinham cantado os gallos, morava eu então ao pé da freguezia, ouvi tocar a Nosso Pae fóra, levantei-me e fui acompanhar o viatico. Era para casa do mesmo homem, que tinha visto, pela primeira vez, na loja do mestre Ignacio, e que estava para dar a alma a Deus.
Como o caso não era para se estar com pannos mornos, o parocho tratou de começar a confissão, e nós quizemos sair do quarto, para deixar o doente mais á sua vontade, como é costume. Elle porém não o consentiu, e, fazendo-nos signal para ficar, disse-nos com modos que me não passaram ainda:
—Grandes foram os meus peccados, se esta historia lhes poder aproveitar, que a oiçam todos; porque só assim servirei a alguem.
Não havia que dizer, e de mais a mais o demo da curiosidade apertava comnosco. Ficámos, e na verdade disse coisas para se ouvirem.
O quarto estava allumiado por uma lamparina a tremelicar e a dizer adeus. A luz, que espalhava pela casa tinha um tanto de soturna e de aterradora. Á cabeceira estava o padre, a alvejarem-lhe as roupas e cercado por um não sei que, mais do céo do que da terra; a seu lado, o moribundo, estendido na cama, e estorcendo-se na agonia.
Têem visto lá para o Minho, ao pé dos castanheiros, uma videira que levou um córte na cepa, e que em vez de enleiada aos troncos da arvore, se lhe roja pelo chão, quasi a morrer, como uma cobra, que leva com uma pedra na cabeça? Pois assim me parecia aquella vista, bem triste que ella era!
Mas o que me cortou o coração foi vêr a triste senhora lavada em lagrimas aos pés da cama, de joelhos, abraçada a uma creança que teria quando muito tres annos, e que, adivinhando o que ali se passava, tambem carpia, gritando quasi sem parar:
—Não quero que o pae morra, não quero que o pae vá para o céo!
Era uma dôr d’alma, e tanto me impressionou aquelle espectaculo, que, palavra a palavra, me lembra do que ouvi n’aquella casa.
—Meu padre, dizia o moribundo com voz sumida, conheço que a minha hora chegou, e preciso partir para essa jornada tremenda, limpo de culpas e cheio de arrependimento. Grande me vae esta empreza, mas com o perdão de Deus e vosso auxilio, espero leval-a ao cabo.
—Descance: a misericordia do Senhor é infinita, e se os meus soccorros lhe poderem servir, aqui estou d’alma e coração, como é meu dever, para lh’os ministrar.
—Ouça-me pois, meu padre, e na historia da minha vida veja a razão da minha desgraça.
—Para todo o peccado ha remedio na egreja; falle, e não se arreceie.
O moribundo começou assim:
—De ruim semente fraco fructo poderia sair, e meu pae, Deus lhe falle n’alma, andou n’este mundo, mais cuidando da vida em que vivia, do que da outra em que devia durar eternamente.
No seu tempo, d’involta com os livros bons, havia misturadas, como o joio com o trigo, essas más obras vindas de França, e algumas mesmo d’aqui, que prégavam a falta de religião e o despreso pela Divindade.
Pelo menos elle assim o acreditava, e esse effeito lhe tinham produzido. Mais tarde vim a saber que valiam muito, mas que não era para gente rude, que não as percebia, que só lhes apanhava o mau, mais facil de colher, deixando de parte o bom, que andava mais escondido.
O mesmo acontece ao podador novato, que deita fóra a vara do vinho, deixando em vez d’ella as outras que devia cortar.
Mas lá diz o rifão: quem não sabe é como quem não vê; e meu pae, andava tanto ás escuras, que fugia da luz da graça, como lobo do povoado.
Assim me creei, e assim vivi tambem até agora, e Deus sabe quantos desgostos me tem custado esta minha triste cegueira!
Pobre de mim! Não me lembrava de que o homem anda cá n’este mundo como o arado em terra de semeadura. Se o lavrador não tem mão na rabiça ou se descuida do trabalho, eil-o ahi vae corrido com os bois, como o homem com as paixões por terras e ribanceiras, enterrando-se aqui a mais não poder andar, resvalando além a não deixar rego.
Assim me ensinára meu pae, com magua bastante de minha mãe, que se finava e padecia; e assim ía creando meus filhos, se o lavrador sagrado, que lá de cima nos vê, me não encaminhasse, lançando mão do arado, que ameaçava partir-se de encontro aos barrancos d’este mundo.
Ainda em creança, os rapazes do sitio fugiam, quando procurava brincar com elles. Chamavam-me o diabo pequeno, e temiam-se de mim como do fogo. Eu em paga escarnecia-os por irem á egreja, ou dava-lhes pancada de cego quando fugiam de brincar comigo.
Todavia soffria immenso por me vêr sósinho.
Os entretenimentos de creança, que tanto agradam nas primeiras edades, não eram para mim, que vivia como o espargo no monte, á ventura e ao desamparo.
É voz do povo: só se veja quem só se deseja, e rifão bem verdadeiro. Tambem o é que a solidão nos dá maus conselhos e causa os maus pensamentos.
A planta lançada á terra sem cultura e sem cuidados, vegetando em mau torrão, crestada das geadas e dos soes, e sacudida dos ventos; se cria vigor e robustez, tambem ganha espinhos para os troncos e amargo para os fructos.
Entregue só a mim, conhecia que o coração se empedernia e apertava, ficando de rija tempera, sem se dobrar á compaixão nem ao amor do proximo. Se eu era assim, a culpa não era minha de todo; mas o castigo, esse aguentei-o em cheio.
Muito em creança me faltou minha mãe. E a triste consolação de a acompanhar á sepultura, de rezar por ella na egreja, de lhe derramar lagrimas e agua benta sobre a cova, foram coisas que a minha má sina me prohibiu.
Entrar na egreja, eu, e provar fraquezas dobrando-me a pedir ao Senhor! Não o podia, era de vil, e não de um espirito forte e desamparado de credulidades de velhas. Ir sobre uma pouca de terra, onde alguns ossos ficavam e a carne se apodrecia, recitar orações, em que não acreditava, era loucura que não devia praticar!
E assim, padre, com a morte de minha mãe perdia eu muito mais do que outros a quem semelhante desgraça succede. Esses ao menos esperam tornar a vêl-a na outra vida, e a morte sómente lhes é como separação de pouco tempo.
Para mim era o apartamento eterno. Aquella cova roubava-me minha mãe para sempre. Nada ali me podia fallar e a terra ficava muda, como os céus já de ha muito o eram para mim.
O que senti então, Deus o sabe, que eu nem o posso dizer nem mesmo sei o que foi. Era como a planta enfezada, que se lhe vê partir o extremo esteio, sem encontrar mão amiga que a ampare, e que desde então receia a menor aragem que a faça encurvar, ou o menor encontro que a derrube.
Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em mim. Semelhava-se aos animaes na dureza; a muitos na ferocidade, a todos no embrutecimento.
Por estes tempos ainda se me apresentou occasião de emenda; mas regato que de principio erra o caminho, não é quando se lhe engrossa a corrente com as cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de pequena vae torcida, póde, quando cria maior tronco, ganhar a direitura que perdeu.
Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em companhia de sua mãe e resguardada por ella, como o fructo pelas folhas, reparou em mim uma vez e tomou-se de amores por quem não a merecia.
Estas coisas não se explicam. Porque ha de a violeta dar-se e florescer escondida, quando outras flôres por ahi, que menos merecem ser vistas, não se querem senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas?
Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios de sol aqui do campo voltar-se sempre para o mesmo lado; ou porque ha de a flôr das boas noites abrir-se ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce?
Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo homem que vê pela primeira vez, e que muitas vezes a esquece depois?
São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar, mas que nem por isso deixam de existir.
Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora aos pés da cama, amou sem que lh’o merecesse, e o seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais m’os cerrou ainda.
Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei: mas desde esse momento todas as tardes nos procuravamos, e todas as tardes repetiamos juras de um amor eterno.
Começaram a estreitar-se as nossas relações como duas plantas que uma á outra ligadas mais se apertam com o crescer. Já na aldêa se murmurava, e já se espalhavam rumores contra a pobre Joanna, que se amofinava e entristecia.
Um modo facil de remediarmos tudo era o casamento; porém eu que não acreditava na santidade d’aquella ligação, não queria, nem por sombras, cair em semelhante fraqueza.
Ella acreditava em mim como n’um livro aberto. Convenci-a da loucura de seus desejos, e da fé que me prestava, nasceu a descrença na fé em que se creara. A minha maldade crestou a innocencia d’aquella virgem, como o mau vento cresta a relva: e a apaixonada donzella conheceu que era mulher, e envergonhou-se de o ser.
Como a flôr que perde as folhas e as bellezas quando se lhe desenvolve o fructo, tambem ella perdeu as rosas nas faces e as canduras da alma, quando conheceu que ia ser mãe: e de pejo do que soffrera, encerrou-se na sua magoa, como certos vermesinhos se involvem no casulo que lhe serve de protecção.
Para ninguem podia já ser mysterio o seu estado: a pobre mãe, que via a perdição da filha, deixou-se finar de magoa.
E nem uma flôr desfolhámos sobre a sua sepultura; nem uma queixa soltou a infeliz, porque dôres d’aquellas, não ha palavras que as expressem, como não ha côres que possam representar o negrume da tormenta.
Nossas mães, que hoje estão no céu, quantas lagrimas não carpiriam juntas, ao attentar nos desventurados erros de seus filhos; mas por mais que sobre nós ellas cahissem, de nada poderiam servir, como nenhuma chuva póde fertilisar o terreno maninho, ou a charneca esteril.
Desde então, padre, a minha vida tem sido um penar continuado, um soffrimento sem cessar.
O remorso rala-me a alma: a lembrança d’aquellas santas atormenta-me de dia e de noite: a vista da mulher, que perdi, desvaira-me; e a idéa da minha filha, a filha querida da minha alma, a quem não posso dar nome perante Deus, porque não foi ainda purificada pela agua santa do baptismo dos peccados de seus paes, nem perante os homens, porque seu pae e mãe não se podem assim chamar á face de mundo, quasi que me enlouquece.
E a duvida a perseguir-me como um demonio agachado em logar santo, e eu a abrir-lhe os braços como a seara ao fogo que a vae consumir, e a cerrar os olhos á fé, como a toupeira á luz do sol.
A natureza com as suas grandezas todas, a flôr com o seu aroma e côres, a ave com o seu cantar, o céu com as suas estrellas, e o mar com as suas ondas de prata, tem sido harmonias perdidas, que só me fallam do acaso e que nada mais me fazem lembrar. Tenho cerrado os olhos á luz e a alma á razão. Não tenho procurado coisa alguma no passado nem esperado do futuro.
Tenho sido o navio sem rumo e sem norte, que navega á tona d’agua; o viajante perdido, que não encontra fim ao caminho, nem trilho para voltar a d’onde partira.
Para que viera a este mundo, quando por acaso m’o perguntava a mim mesmo, era o que não sabia dizer; e cansado de o perguntar sem resposta, mudo de pensamento como o mendigo de porta a que tem batido debalde. Tenho-me supposto feliz e tenho vivido como as feras; tenho-me julgado senhor de mim porque não tenho conhecido o Senhor de todos.
Mas ha dias tudo se mudou em mim. Minha pobre filha sahira de manhã, e esteve lá por fóra mais do que o costume. Perguntei-lhe o que fizera, porque se demorára: e a sua resposta foi como a luz da madrugada rompendo em descampado para o viajante perdido.
«Meu pae, me disse, quando sai, ouvi ali defronte uma musica tão linda, tão linda como ainda não ouvira em minha vida outra semelhante. Vi uma porta aberta e entrei para ouvir melhor. Era uma casa muito grande, muito grande, e onde estava muita gente de joelhos.
«A musica vinha de uma janella de grades, d’onde saiam tambem vozes de senhoras; e os que ali estavam pareciam tão entretidos, que nem deram pela minha entrada. Com medo que me reprehendessem por ter entrado sem licença, perguntei a uma mulher, que me parecia boa pessoa, quem eram os donos d’aquella casa tão grande e que tão ricos deviam ser.
«Admirou-se da pergunta e disse-me se lhe fallava devéras.
«Devéras, minha senhora, eu não conheço ninguem d’esta terra; vim ha pouco tempo para aqui com meu pae e minha mãe, e nunca saio de casa.
«Pois olhe, minha filha, esta casa é uma egreja, e seus donos são aquelles que além estão, pae e mãe dos homens e do céu.
«Olhei e vi uma senhora e um homem, que me pareceram tão bons, tão tristes, que desatei a chorar.
«Elle estava de braços abertos, como o papá quando me chama para o seu collo, e ella parecia-me minha mãe, mais bonita ainda, quando está ao pé da cama olhando para mim com os olhos arrasados em lagrimas, emquanto não adormeço.
«Eu queria-lhes fallar, meu pae, conheço que me haviam de dizer muitas coisas boas, mas como me tem dito que não quer que converse com pessoa nenhuma de fóra, tive medo que ralhasse comigo, fui-me embora; mas com tanta pena! Por minha vontade estava ali sempre a olhar para elles até que olhassem para mim, e me fallassem tambem.»
Como ella chorára, chorei eu então. Aquella voz infantil veio despertar-me a fé adormecida, como á mãe extremosa, quando a dormir, os choros do filho querido.
Desde esse momento um raio de luz allumiou-me as trevas, em que vivia. A flôr, a terra, o mar e o céu, tiveram vozes que me fallavam e que eu percebia.
A flôr erguendo-se para as alturas; a terra levantando ao romper do sol os vapores tenues da madrugada como rolos de incenso á Divindade; o mar erriçando o seu dorso de vagas ao signal da tormenta e coroando-se de espumas; o céu recamado de estrellas, recordavam-me a existencia de Deus, creador de tudo que me cercava, e que em tudo tinha estampado o sello de suas mãos como o artifice nas suas obras.
Tambem o Senhor, que se parecia ter esquecido de mim, ao vêr-me arrependido lembrou-se de que existia: quer me chamar á sua presença, como o pastor, que ao vêr melhorias na rez contaminada, que lançou a monte, procura, pelos cuidados e disvelos, livral-a das enfermidades e males.
Hoje, padre, que avisto a immensidade da morte sem receio, e a eternidade sem pavor, hoje que tenho fé no meu Deus e esperança na salvação, peço-vos, padre, a benção para o contricto, e absolvição para o peccador.
—Eu te absolvo, disse o padre com voz solemne, que por muito tempo me estrugiu aos ouvidos, e o Senhor de caridade vos perdoa por minha bocca.
N’este momento em lagrimas chegou-se a pobre Joanna ao leito do moribundo: e a filhinha, que a acompanhava, ficou debaixo dos jorros d’agua que corriam em fio dos olhos de seus paes.
O parocho attentou n’aquella vista, e como levado por idéa do céu, disse, abençoando a creança:
Eu te baptiso em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo; as lagrimas de teu pae e as de tua mãe, peccadores mas arrependidos, essas lagrimas de contricção, tão gratas a Deus, te sirvam de agua de baptismo. Vae em paz, és christã.
Logo em seguida tratou de casar aquelles dois, que pela alma e pelo amor já estavam casados; e acabada a cerimonia, a alma do agonisante, que nada mais tinha que a prendesse á terra, começou a soltar-se do corpo para voar á morada eterna.
Elle conheceu-o, e com voz difficultada pela agonia disse ao sacerdote:
—Abri-me essa janella meu padre, vou morrer, quero adorar ainda o Creador na sua obra.
Um de nós correu a satisfazer-lhe a vontade. Já era manhã, e o sol vinha apparecendo fronteiro a romper por entre labaredas de fogo; o padre estava de costas para a janella; o vulto recortava-se-lhe sobre a luz, e os seus raios pareciam formar-lhe um resplendor de santo.—E se o era!
Desviou-se para o lado, e um raio de sol veio bater de chapa na face do agonisante; parecia um signal mandado por Deus em prova de perdão.
Foi elle quem chamou de novo á vida o que parecia já um cadaver, e lhe deixou proferir com grande esforço estas ultimas palavras:
—Illuminae minha alma com a vossa divina graça, como me allumia agora o sol, que desponta no firmamento, perdoae-me Senhor!
Passados momentos, o padre rezava sobre o cadaver as rezas de defunctos, e no dia seguinte nós todos iamos com os olhos arrasados de lagrimas, conduzir á sepultura o cadaver d’aquelle a cuja morte tinhamos assistido.
III
A proposito da missa do dia
Entre os trabalhadores da quinta, havia um chamado Antonio, bom rapaz, é verdade; mas que tinha um defeito, de que se não corrigia.
Era mentiroso, como os que o são, e quando o não acreditavam, amontoava juras, qual mais tremenda ou de mais responsabilidade e respeito para um homem de bem.
E era pena; porque poucos havia tão laboriosos como elle.
Era conhecido pelo—gallo da madrugada—titulo bem justificado em vista do que se apressava em concorrer ao trabalho: e não poucas vezes os pobres beneficios, que o seu magro peculio lhe permittia fazer, vinham a constar, pelos outros e não por elle, muito em seu abono e boa reputação.
O tio Joaquim, conselheiro honorario d’aquella republica tinha-o reprehendido muito; mas aquelle maldito sestro não o queria o Antonio perder nem a bem nem a mal. Era o seu senão, que lhe acarretava não poucos dissabores e com o que não pouco prejudicava os outros.
Era n’um domingo, e depois da missa do dia, no adro da egreja estavam reunidos, em mó, os saloios d’aquelles sitios que tinham concorrido ao santo sacrificio. De fatos domingueiros, e varapaus ferrados, discorriam pelas novidades do logar, exactamente como os nossos elegantes á porta do Marrare, ou nas salas do Gremio.
Diga se a verdade; as Marias e as Joannas não deixavam de influir n’aquellas reuniões, porque não poucos eram os que ali compareciam levando em mira fallar ás suas requestadas, ensaiar requebros, ou ajustar entretenimentos para as horas de sesta ou para as tardes dos dias santos.
O nosso Antonio tambem não faltava á reunião, e já por mais de uma vez fizera das suas, sem consequencias de maior, pelo pouco credito que tinham n’aquelle mercado campestre as notas do nosso caramboleiro.
Havia no logar uma rapariga que se podia chamar uma perfeição, e que fazia tanta differença das suas companheiras, como a rosa de musgo das rosas carrasqueiras dos vallados.
Era gentil e mimosa, não tinha as côres de saude, nem aquelle acerejado do sol, ou fórmas robustas e quasi viris da raparigada do campo; mas era mais esbelta, mais pallida, mais clara e com uns olhos tão negros, tão negros, que lhe saiam da alvura do rosto, como dois diamantes negros engastados em esmalte branco.
Vivia arredada e em recato, e não apparecia em arraial ou festa, senão de anno em anno e quasi por milagre.
Chamavam-lhe—a fidalga,—e o nome casava tanto com a sua distincção de maneiras e garbo de porte, como o soar das ave-marias com os descampados das serras.
Como já se deve suppôr, os fragatas da terra tinham pretendido as honras de arrojado; mas debalde, porque os rejeitava, e quasi todos descoroçoados tinham desistido da empreza.
Digo quasi todos, porque dois ainda lhe arrastavam a aza, um, (aqui em segredo,) era attendido e bem olhado; o outro, mais feliz, nem fallar n’isso é bom, mordia-se de raiva pelos desdens que soffria, e pelo pouco em que eram tidos os seus requebros e paixões.
A escolha de Emilia tinha sido acertada, porque o José da Avó era o mais guapo moço d’aquellas duas leguas em redor. Desempenado e direito como uma vara de abrunheiro, valente como um pau de carrasco, generoso e de brio, como nenhum: nem o mais pintado lhe levava as lampas em trabalho de fazenda, em jogos de pau, ou em balharicos de domingo.
E cantigas! Sabia-as elle cantar, como os que as sabem; entoava uma desgarrada ou sustentava um desafio, mais afinado e a preceito do que muitos d’esses italianos em segunda mão, que os empresarios nos impõem como notabilidades cantantes.
O outro pretendente não era muito cheio de não presta: mas ao pé do José da Avó ficava a perder de vista, o que não admira; porque vasados n’aquelles moldes não havia muitos no logar. Elle porém, como não queria attender á razão, damnava-se jurando pela pelle do ditoso preferido.
Este era o estado da questão na manhã do tal domingo, e os dois rivaes conservavam-se a distancia respeitosa no meio de dois grupos distinctos.
Tinha saido já quasi toda a gente da egreja, quando Emilia se retirou, sem que lhe faltassem commentarios, emquanto passava por meio dos grupos.
—Olha a delambida! soltou d’ali uma das raparigas mais feias da terra, parece que vae com o rei na barriga, nem olha para a gente.
—Era o que faltava, a fidalga!
—Vae toda enlevada no seu José, tem medo que lh’o tirem do lance.
N’isto o nosso Antonio, que não queria ficar atraz, tambem se intrometteu na conversa, dizendo com modos de quem estava corrente com os mysterios d’aquelle circulo:
—Pois faz elle bem em perder o seu tempo, porque ainda não ha muito que vi o Miguel de conversa com ella á porta de casa, e pelos geitos que a coisa levava, não era a primeira vez que se fallavam.
—Ora tu sempre tens uma lingua!
—Um raio me parta se minto; tinha-me calado e feito vista grossa, mas agora ferveu-me o sangue quando a vi assim como quem queria deitar lama para a cara da gente.
As palavras de Antonio não tinham caido no chão. José, desconfiado como todos, estivera de ouvido á escuta e não perdera nem syllaba. N’outra occasião voltaria de certo as costas ao maldizente, mas d’esta vez mudava o caso de figura: o ciume acreditava a voz do mentiroso e a tremer chegou-se ao pé d’elle, perguntando-lhe com voz indecisa:
—Juras que é verdade o que acabas de dizer?
—Se é! os diabos me levem se minto; eu por mim não queria causar-te nenhuma aquella; mas assim como assim mais tarde ou mais cedo havias de vir a sabel-o; e, verdade verdade, ella não te merece.
—Basta, lhe retorquiu o pobre José, e foi-se como um raio até onde estava o supposto arrojado.
Inutil é dizer que tinha sido tudo isto enredos e obra de Antonio. Soltára as primeiras palavras como por demais, sustentára o dito por capricho, mais tarde para que não suppozessem que tornára com a falla ao bucho por medroso.
Do outro lado do adro uma floresta de paus se levantava no ar, e já as navalhas estavam fóra das algibeiras; os dois tinham-se travado de razões, e como palavra puxa palavra, tinham passado dos ditos a vias de facto e malhavam um no outro como se fosse um monte de milho.
Ambos tinham partidarios, e por conseguinte a lucta assumiu proporções maiores; porém por muito encarniçada que fosse entre os partidos, parecia um brinco de creanças á vista d’aquella em que os dois se tinham travado. Davam como quem se despedia do mundo, e como quem desejava vêr estendido no chão o seu contrario.
Ao principio arrancaram dos paus e começaram a atirar as primeiras pancadas, que quasi todas cairam em cheio; até que Miguel, depois de ter jogado umas poucas de sortes ao seu adversario, e como ambos estavam descobertos e só queriam dar, dissimulando uma pancada á cabeça, lhe dirigiu o pau por meia volta no ar ás pernas. Quando lá chegou já o seu adversario o tinha procurado aparar, porém tanto em mal, e tão puxada d’alma ia a contraria, que o pau colhido no meio, não o aguentou e partiu-se; e o outro não encontrando resistencia no corpo de José, porque elle já lh’o tinha furtado, foi de encontro ás pedras do adro e partiu-se tambem.
Vendo-se desarmado, Miguel não perdeu tempo: correu sobre o inimigo com uma navalha e baldeou-o logo no chão jorrando sangue por uma ferida no ventre.
O assassino, apenas commettido o crime, tomou as de Villa Diogo, e a desordem começou a apaziguar-se com a chegada dos cabos da terra, que tratavam de remover o ferido e de prender os combatentes.
O causador de tudo isto tinha, logo que viu tomar ao caso uma feição que lhe não suppozera, procurando socegar o motim, confessando a sua mentira, porém já era tarde, n’aquellas alturas qualquer intervenção seria inutil; teve pois de assistir arrepelando-se, dizendo mal á sua vida, áquella triste scena, e promettendo, com mil juras que não mentiria nunca mais; ajudou soluçando a levar o ferido para sua casa na maca, que tinham ido buscar, e accusando-se todo o caminho de ter sido elle, e só elle, o culpado de tudo que succedera.
Nos tres dias, que succederam á catastrophe, não se fallou n’outra coisa nos serões da quinta. Conhecia-se que o tio Joaquim por vezes tinha vontade de fallar, porém tão sincero lhe parecia o arrependimento de Antonio, que sempre desistia do intento. Uma noite, porém, o nosso mentiroso, já esquecido das juras que fizera, começou, por uma coisa que nada valia, a invocar os santos todos do Paraizo em seu testemunho, e a pedir raios e coriscos para castigo se mentisse.
O velho narrador d’essa vez saltou lhe no gallinheiro, dizendo com aquella placidez de espirito, que tão habitual lhe era:
—Este Antonio faz-me lembrar o João da Tenda, que vivia lá em baixo ao pé das casas do mestre Raymundo e que por dez réis de mel coado fazia juras e protestos ás carradas. Em mal lhe deu o vicio, coitado!
—O que lhe aconteceu, tio Joaquim?
—O que foi, o que foi?
—Conte, conte; ha tanto tempo que lhe não ouvimos uma historia!