A SENHORA VISCONDESSA

A SENHORA VISCONDESSA

ROMANCE ORIGINAL

POR

S. DE MAGALHÃES LIMA


COIMBRA
Imprensa Commercial e Industrial
1875

A TI

A ti, que hoje és ideal, e que um dia serás mãe; a ti, que foste filha e que has de ser esposa; a ti, mulher, a ti,

Consagro este livro.

Magalhães Lima

[I]

Um baile

Temos baile em casa da sr.a viscondessa de B***.

Á porta do palacete param trens sem conta. Descem os convivas, profusamente almiscarados.

No salão crusam-se os pares: elles, fragrantes, como uma rosa de Bengalla; ellas, voluptuosas e tépidas, como uma brisa do Oriente.

A sala é vasta, enorme, quadrangular. A cada canto uma mesa de marmore oleosa e de difficil lavôr. Do tecto dourado e semicircular pende um lustre de sessenta lumes, adornado de flores artificiaes e de vidrilhos verdes. A mobilia, de um estofo azul e assetinado, rivalisa em symetria com os mais encantados jardins de Granada.

As janellas abertas atraiçoam os segredos dos namorados. Como relampagos, reflectem-se na praça as vertigens da walsa.

Por sobre a sombra do arvoredo ondeia a luz phantasticamente. A cada um d'estes banhos despertam as aves nos seus ninhos. E a lua, a doce companheira da tristeza, vae illuminando o espaço, o mar e as solidões.

As flores derramam uns aromas acres e inebriantes. N'um esplendido vaso de porcellana de Sévres, abre uma mimosa camelia as suas longas e avelludadas petalas.

Umas plantas exoticas, orientaes, adornam o espaço ladrilhado das janellas de sacada.

Entra a viscondessa na sala. Os grupos cessam de falar. Em redor d'ella tudo se apinha, tudo se confunde, tudo se baralha.

A valsa recomeça. Nos espelhos de crystal reflectem-se as estranhas imagens, que, n'esta noite, povoam o salão. Sobre as piscinas de marmore debruçam-se as avesinhas artificiaes--pobres avesinhas implumes feitas de pedra e de calcareo.

Estremecem docemente os cortinados da janella. Os peitos arfam de cançados; e na parede o papel, como que exhala uns mysteriosos e prolongados calores.

--Quer v. ex.a conceder-me esta valsa?--diz um cavalheiro, offerecendo o braço a uma gentil dama de vinte annos.

E entrou no turbilhão.

--Mas perdão, senhora viscondessa... bem vê que na minha posição...

--Acompanhe-me, Alfredo.

E os dois seguiram para uma saleta proxima, situada á direita do salão.

Os creados serviram o chá. Na varanda fumavam e conversavam os cavalheiros. Algumas senhoras refaziam a sua toilette, em parte desfeita pelos ardores da dança.

--E acredita a senhora viscondessa, que eu realmente lhe podesse ser affeiçoado nas condições em que me acho?

--E por que não, Alfredo, se eu o amo loucamente.

Um leve ruido interrompeu o dialogo.

A saleta era assaz confortavel. Uns moveis escuros a guarneciam tristemente. Ao longo da parede destacavam uns quadros sombrios, meigos, phantasticos. Em cima do fogão agitava-se o pendulo do relogio, como se effectivamente nos quizesse recordar uma pulsação dolorosa.

A viscondessa, airosamente sentada n'um fofo sophá, volvia os olhos nervosos na direcção da porta do baile.

--Ninguem nos ouvirá--exclamava ella de si para si.

E continuou a fallar para Alfredo, que, a longos passos, percorria a sala de um a outro extremo.

Entretanto a orchestra convidava a uma quadrilha.

Um elegante moço entrou na saleta.

--Venho lembrar a v. ex.a, minha senhora, que esta quadrilha me pertence.

A viscondessa acompanhou-o.

Alfredo só, roia um charuto furiosamente, quando novo ruido o despertou.

Defronte d'elle, e ameaçando-o com um punhal, estava um rapaz, cheio de febre, de odio e de vingança.

--Ouvi tudo--exclamou o intruso. Ou tu me promettes nunca amar a viscondessa, ou eu te assassino aqui, como um miseravel que és.

--Nunca!...--vociferou Alfredo, arrancando-lhe o punhal da mão. Primeiro cahirás tu, desgraçado. Já, já fora d'esta casa.......................


Este incidente, como é natural, perturbou a quadrilha, que então se dançava. Acorreram todos. Os dois contendores haviam desapparecido da saleta.

O baile continuou.

[II]

A Senhora Viscondessa

É uma mulher da moda--chlorotica, anemica, febril.

Olhar vivo, e transparente, como um chrystal. Na sua doce pallidez o que quer que seja das visões de Schiller. No andar, porte altivo, donairoso, esbelto. As longas insomnias, apaixonadas, tornaram-n'a triste e contemplativa, como uma virgem de Murillo.

É viscondessa; faz muitas esmolas e possue trens faustuosos.

Acabam de soar duas horas nos relogios da cidade. Um calor intenso abrasa as calçadas. Corria o mez de Maio de 1859. No Largo de Camões, o sol, batendo de chapa, sobre um telhado visinho, reflectira-se estranhamente nos aposentos da viscondessa.

No corredor presentira-se o ranger de um leito. O cortinado de cambraia foi delicadamente afastado por uma mão de marfim, pequena e esculptural.

--Virginia, Virginia--gritou uma voz sonora, de timbre metalico e adocicado.

A porta do quarto, abrindo-se, deixou entre vêr o rosto de uma formosa creança, loura como um cherubim e tentadora como Eva.

--V. ex.a chamou, minha senhora?

--Sim, chamei.--Traze-me o meu roupão branco e vem ajudar-me a vestir.

E a viscondessa, bocejando infantilmente tornou a cahir no travesseiro, doida de somno e ébria de amor.

Adormeceu de novo.

Uma hora volvida veio Virginia encontral-a sentada n'uma poltrona, defronte do espelho.

Fingia que lia. Do regaço pendia-lhe um romance francez. Com a mão direita desviava as tranças fartas, que, por vezes caprichavam em cahir-lhe sobre o peito. O braço esquerdo, abraçando o espaldar da cadeira, servia-lhe de encosto.

De subito ergueu-se como uma estatua. Procurou um pente e largou-o com desfastio. Olhou para o relogio, tocou a campainha, e tornou a sentar-se.

--Estou aqui, minha senhora. Deseja alguma cousa?

--Ah! Estavas aqui. Ora vejam que cabeça a minha que nem sequer havia dado por tal.--Manda-me arranjar o almoço, anda.

--Por mais que me digam a senhora não anda bôa--murmurava a ladina da creada, correndo espevitadamente.

A viscondessa, sempre inquieta, ergueu-se novamente. Percorreu o corredor e entrou na sala de jantar. Dirigiu se a um periquito, que ali tinha, tirou-o da gaiola e começou de afagal-o meigamente.

--Coitadinho do meu bijou--exclamava ella com doçura.

Foi-se depois ao canario, trouxe-o para a mesa, e destribuindo com elle a comida, que mal provava, introduziu-o no seio.

Um cão pequeno, felpudo, ensaboado e luzente, como verniz, fazia pendant com os dois personagens, acima descriptos. Joli lhe chamava a viscondessa. Nunca sahia da sala de jantar. Era o seu theatro d'elle. Ali aprendêra a ser guloso e concupiscente. Quando a senhora chegava, elle, de um pulo, saltando lhe ao regaço, para logo principiava de lamber-lhe as faces e os cabellos. A dona da casa aceitára, sem repugnancia, este tributo quotidiano.

Alêm do cão havia um gato maltez, elastico, como uma serpente e indolente como um chin.

Entre o cão e o gato existia uma mediadora: era a viscondessa. Por fim os dois rivaes fizeram tréguas. Chegaram até a comer no mesmo prato, brincando como dois amigos.

Nos seus dias de melancholia, a viscondessa, orphã de pae e mãe, sem parentes, só no mundo e senhora de ricos haveres, reunindo em redor de si tão variada e interessante familia, sentia-se mais feliz, e porventura mais esquecida do que nunca.

O gato aquecia, o cão lambia, e as aves entretinham, cantando.

Emfim bateram quatro horas. A Viscondessa bocejou mais uma vez.

--Se elle, ao menos, me amasse...--dizia ella, erguendo-se.

E, continuando pelo corredor, entrou no boudoir, onde a esperava a cabelleireira.

Vestiu um chambrão de cachemira azul; e, sentando-se na cadeira que lhe offereceram divagou, ao acaso, durante uma hora.

Quando acordou estava realmente encantadora.

O cabello, frisado a capricho, imprimia-lhe um aspecto senhoril e grave. O rosto desanuviara-se-lhe. Foi ao espelho, e, como flôr que ao sol desabrocha, sorriu-se maliciosamente.

--Achas-me bonita, assim?--perguntou ella a Virginia.

--Deslumbrante--minha rica senhora.

E a viscondessa, toda vaidade e tentação, foi-se até á cosinha, pretextando umas ordens para o jantar.

Voltou depois ao quarto. A um ligeiro impulso cahira-lhe o roupão. Sorrindo-se, envergou umas saias pesadas e cheias de gomma. Remirou-se novamente ao espelho. Com um pincel, mergulhado em carmim, deu côr ao rosto, naturalmente desmaiado. Apertado o espartilho e collocada a tournure enfiou um rico vestido de setim. Chamou Virginia e pediu alfinetes. Pregou o vestido, pregou o cabello, pregou as saias, pregou-se a si e sahiu do boudoir.

--Ora esta! e não me ia agora esquecendo o crême imperatrice--monologava ella, voltando á saleta.

Defronte do espelho, recuando dois passos e fazendo tregeitos para um o outro lado, empoeirou-se gravemente.

Extrahiu do gavetão um lenço de cambraia; destapou um vidrito de jockey-club, perfumou-se e entrou na sala do baile.

O piano estava aberto. A viscondessa sentou-se. Dedilhou, ao acaso, uma escala e aborreceu-se.

Olhou para um espelho, mudou um dos ganchos do cabello e abriu a janella.

Uma brisa tépida soprava apenas. O sol ia declinando no horisonte. Nas ruas mexiam-se as multidões apressadamente. Alguns cavalheiros de chapéu na mão limpavam o suor da testa. As damas, mesmo á janella, agitavam os leques phreneticamente. Os freguezes entravam nos botequins, e pediam sorvetes.

Estava proxima a hora do passeio, a hora de luar, a hora de amor.

Seriam oito horas, quando a viscondessa cerrou a janella. Chegára-lhe finalmente a vontade de jantar.

Caminhou lentamente, deixando após de si um rumor surdo, e mui semelhante ao remexer de folhas, agitadas pelo vento.

Insaciavel, hysterica, nervosa, sentou-se á mesa pela segunda vez n'aquelle dia. Provou de tudo sem comer de nada. Bebeu um gólo de malvasia e fez-lhe uma careta insupportavel. Limpou os labios de coral e mandou arranjar o trem.

Prompta a carruagem e calçadas as luvas dirigiu-se para o theatro de D. Maria.

Representava-se a Vida de um rapaz pobre n'essa noite. A Viscondessa admiravel de bellesa e encanto, provocava de continuo os binoculos das plateias.

No fim do 3.o acto a porta da frisa abriu-se. Era Alfredo que entrava. A Viscondessa sorriu-se.

--Sabe, Alfredo, que o esperei hoje todo o dia?

--E não o ter eu adivinhado, senhora viscondessa?

--Se imaginasse o aborrecimento em que vivo decerto não seria tão cruel para commigo.

--Mas, minha senhora, a minha posição... emfim... eu não sei...V. ex.a...

E a orchestra, tocando uma symphonia, deu o signal de despedida.

--Alfredo, enleiado e timido, sahiu da frisa. A Viscondessa cumprimentou-o, e, como sempre sorriu-se tristemente. O espectaculo continuou.

Á sahida do theatro, quando a Viscondessa, acompanhada por um creado, punha o pé direito no estribo da carruagem um desconhecido, abeirando-se d'ella entregára-lhe um pequeno bilhete, ligeiramente perfumado.

Os cavallos partiram a galope. Apenas chegada a casa, a senhora, toda receio e anciedade, abriu o bilhete.

Desengano, desengano cruel! Não era de Alfredo a letra...

Mas de quem poderia ser? A quem attribuir aquellas palavras ardentes?

«Amo-te--escrevêra o anonymo.--Doidamente te amo. Tu decidirás da minha sorte. Sou pobre, sou operario. Embora! Hei de conquistar-te ainda mesmo atravez do sangue do meu rival.

--Sempre é muito atrevido!...--exclamava a viscondessa, despindo-se já.

Acendeu depois um charuto, um excellente charuto havano.

A pouco e pouco foram-se-lhe os olhos estreitando. Para um lado pendeu a cabeça abrasada, e para outro o braço, cuja mão deixava cahir o charuto, quasi apagado.

Languida, abatida, sensual a senhora adormeceu finalmente.

Virginia chegára pé ante pé e retirára a luz. O palacete, envolto em trévas, acompanhára o somno da sua rainha.

E assim se passava a vida da Viscondessa.

[III]

Alfredo

Alfredo da Silveira nascêra embalado pelos sorrisos da fortuna.

Teve uma casa que vendeu. E que bonita casa! Situada na orla da praia extendia-se deante d'ella o oceano como um vasto lençol, cujas dobras phantasticas se encolhiam e desencolhiam, consoante as horas e as marés.

N'essa casa viu a luz Alfredo. Ahi, envolto com o maternal carinho, aprendera elle a entoar as primeiras trovas da infancia; ahi tambem suspiroso, como um lago, e candido, como o céu, aprendêra a ser um filho honrado e um cidadão benemerito.

Mas a infancia, esvaecida n'uma manhã de rosas, deixára após de si o lucto de um coração e a orphandade de uma familia.

A solitaria vivenda, circundada de festões e madre-silvas, sentira-se isolada e triste. Na viração da tarde já as flores silvestres não derramavam, como outr'ora, uns aromas tão vivos e tão profundamente salutares e amenos.

Ausentara-se dali a mulher angelica, boa, virtuosa, cujo espirito, evolado nas azas da saudade, fôra perante Deus rogar pela felicidade de seu unico filho.

E Alfredo chorou e chorou deveras...

Estava, porêm, na primavera da vida. Auspiciado pelas brisas da mocidade demandou a capital, cujo ruido o captava em extremo.

Dirigiu-se para Lisbôa e ahi fixou residencia.

Para qualquer que o visse seria o seu rosto gentil e levemente effeminado o mais seguro passa-porte de uma fina e aprimorada educação.

Usava de ordinario fato preto a que dava realçe uma esplendida camelia, artisticamente collocada na boutonniére.

Elegiaco por condição nada havia que o satisfizesse. Um vacúo immenso lhe torturava a existencia. Filho do tédio e vivendo para o tédio o seu espirito, agrilhoado por uma nostalgia sem limites, experimentava de continúo um mal-estar insupportavel, atroz, corrosivo, e porventura uma doença impossivel de definir-se.

A sua compleição delicada, e consumida pelos vinhos, agitava-se alternadamente entre dois mundos infinitos e contradictorios. Amava e não amava, queria e não queria, pensava e não pensava.

Alto, magro, nervoso tudo o impressionava com uma fatalidade irresistivel. O mundo era-lhe um phantasma sombrio, chimerico, cuja sombra elle amaldiaçoava, a todas as horas, no café, na rua, no bordel, na sociedade emfim.

Mulheres havia que sonhavam com o seu bigode louro, a sua cabelleira phantastica, e os seus sorrisos provocadores, ingenuos e ligeiramente ironicos.

Elle, porêm, detestava as mulheres em espirito, aproveitando-lhes o corpo e a carne, como um mero passa-tempo social.

Só uma vez amou, e, como Christo, doidamente, loucamente, profundamente.

Então foi ditoso muito ditoso.

A felicidade mirara-se n'elle, como uma donzella no seu espelho. Não lhe faltaram nem as crenças do berço nem as extravagancias da juventude. Tudo lhe sorrira, desde o leito que primeiro o amamentou até ao vinho, ao terrivel vinho que ultimamente o prostituiu.

Fôra ditoso...

Viajando viu muita coisa!

Viu mulheres novas que se abandonavam aos velhos; creanças loucas que se entregavam ás orgias, cuspindo na face das mães; politicos mercenarios, que, á maneira das mulheres de Babylonia, alugavam ao primeiro, que na estrada passava, a honra e a consciencia; exploradores sem conta, eternas Shylocks da publica miseria; paes que despresavam os filhos, irmãos que matavam os irmãos, mães que vendiam as filhas.

Viu muita coisa...

Passeando, admirou muito!

No Oriente encontrou mulheres formosas, pallidas, sansuaes. Depois passou á Grecia, a sábia, a divina mãe, onde Corina mais tarde teve o seu berço de flores. E ainda percorreu Roma, aquella Roma dos Cesares e da rocha tarpeia e Verona a patria de Julietta, e a Escocia o theatro de Macbeth.

Admirou muito...

Bebeu sempre!

Provou o incomparavel tokai, esplendido falerno dos tempos modernos, encheu-se de absyntho e saboreou o alcool com delicia.

Bebeu sempre...

Fumou com ardôr!

O chibuca, o opio, o havano tudo lhe embriagou os sentidos, fazendo d'elle uma alma pagã e um corpo lascivo, môrno, cheio de tédio e de languidez.

Fumou com ardor...

Amou delirantemente!

Lembro-me tão bem...

A onda brincava travêssa sobre a praia longinqua. Uma brisa tépida, apenas, semelhando um leque de plumas, agitava docemente as vagas do Oceano. Como o arfar de uma mulher aos vinte annos, assim a natureza suspirava languida, nervosa, etherea.

E ao longe, atravez das brumas phantasticas, scintillaram seus vestidos brancos, suas faces pallidas e seu olhar azul.

Sorrira-lhe pela primeira vez o ideal no horisonte da vida.

Aproveitou a serenidade do crepusculo para lhe fallar. Disse-lhe o que sentia. A creança encarou-o duas, tres, quatro, cinco vezes, sorrindo-se amavelmente.

Volvidos dias tornou-se a encontrar com ella n'um immenso, escuro pinhal. Ali confidenciaram largamente. Juraram amar-se.

E elle na sua louca estulta ingenuidade ousou acredital-a.

Desgraçado do moço, que tinha um coração, impossivel de esmagar.

Quando, passados annos, lhe disseram que ella se havia tornado uma grande mulher do mundo, a eterna bas-bleu dos salões, sentiu-se inanimado quasi, imbelle, exangue.

Tentou afastar de si o gélido phantasma que o perseguia sem cessar, e que mesmo em vida lhe seria triste mortalha. Em cata d'ella correu, voou. Precipitou-se, finalmente n'um theatro, onde, pela quarta vez, a contemplou mais scintillante que uma esmeralda e mais loura ainda que um archanjo.

Á sahida do espectaculo experimentou um estranho choque no seu hombro direito. Olhou e viu-a a ella que lhe acenava com uma das mãos. Aproximou-se então. No lagedo da sala existia um pequeno bilhete que elle apanhou cuidadosamente.

«Espero-o amanhã, á uma hora da tarde»--escrevêra ella a lapis.

E, cheio de anciedade, tambem elle esperou pela aprazada hora.

Ao penetrar no seu quarto, d'ella, tremeu involuntariamente. Um singular ruido lhe captou os sentidos. Emilia jogava, e, na febre do jogo, ria descompostamente.

Sentou-se ao lado de um desconhecido.

Terminado o jogo seguira-se o Cognac.

Beberam todos.

Emilia levantou-se depois, e cerrou hermeticamente todas as janellas do quarto. Derramaram-se perfumes em larga escala. No centro foi collocado um braseiro.

D'entro em duas horas estavam todos adormecidos. Só Alfredo, sentindo-se abafado, morto, enraivecido e não podendo conter mais a asphyxia que lentamente o devorava, começou de gritar terrivelmente, terminando por desfechar dois tiros de revolver na direcção da porta de entrada.

Acorreu muita gente. A porta foi arrombada.

Entraram todos.

O feio silencio do tumulo envolvia a casa d'aquella mulher. Para um lado seis cadaveres de homens com os olhos arregalados, a bocca semi-aberta e o corpo ensanguentado; para outro lado uma mulher com os vestidos rotos, o cabello arrancado e as faces horrivelmente maceradas.

«Emilia, Emilia...--exclamava elle repetidas vezes.

E só os echos repeliam:

«Emilia, Emilia...[1]

Desde então para cá Alfredo, endurecido no cynismo e na indifferença, tem arrastado uma vida monotona, semsabor, aborrecida.

Levanta-se ordinariamente á uma hora da tarde doente, triste, sonhando uns males terriveis, imaginarios.

Não almoça nunca. O appetite fugiu-lhe com as extravagancias do estomago. Nem mesmo tem já paladar.

Percorre as ruas authomaticamente olhando as vitrines das lojas, a cujas esquinas estaciona.

Frequenta os bailes, mais por uma necessidade de espirito do que por um enthusiasmo juvenil.

Como Falstaff ceia muito: espantosamente, loucamente. Pela madrugada recolhe-se a um quarto solitario, que alugou e onde vive só, sem creado nem creada.

Lê e escreve no restaurante, sua habitual residencia.

Na noite em que o encontrámos no salão da viscondessa, recolhia-se elle a casa mais melancholico do que o costume.

--Mas quem será o maldito rival?--monologava elle de si para comsigo. Acham pouco ainda? pois bem. Tambem tu cahirás, minha querida viscondessa. Tentou-te o demonio estupido: serás uma das suas victimas.

E entrou no café.

[1] Este facto que para muitos passará por inverosimil, deu-se, todavia, proximo de Lisbôa, em 1854.

[IV]

Contrastes

O amor é o laço que une duas almas.

Quando as tempestades rugem, e os ventos bramem, e os mares se encapellam, a mãe, candido alento, apertando o filho contra o peito, diz amor; e o amor que é medo, afujenta o medo, e o amor, que é aprehensão, combate a aprehensão, e o amor, que é timidez, destróe a timidez.

Felizes, mil vezes, aquelles, que sabem amar e que tambem são amados!

A vida, sombria em si desabrocha por um beijo de mãe; e n'esse beijo, sêllo de Deus sobre a terra, que immensa effusão de affectos e que nobilissimo trasbordar de enthusiasmo.

Ó minha mãe, ó meu abrigo, tu, com o teu coração, foste o anjo providencial, que em mim encarnaste o sentimento do bem.

No esplendido poema da creação, em que tomam parte as aves com os seus cantos maviosos e os homens com o seu trabalho, quasi se poderia dizer que um suave perfume, ethereo e subtil, põe a terra em communicação com o céu.

Perguntae ao rio, porque geme, e ao oceano, porque brame, e ás arvores, porque crescem, e á terra, porque produz, e á nuvem, porque corre, e á flor, porque perfúma? Perguntae...

Amar, ser amado...--que sublime virtude, minhas senhoras.

Ás horas da tristesa, á tardinha, n'aquelles raros momentos, em que as arvores, estatuas da melancholia, nos deixam ouvir um funebre soluço; á hora em que o gentil pegureiro desfere na frauta umas sentidas notas; n'essa hora em que os crentes, saudando o creador, ajoelham aos pés da cruz:--como não é esplendida a visão do nosso espirito, iriada pelas mil côres da ventura e do amor.

Apparecei, sonhos da mocidade! Surgi de novo, ó santas crenças da minha vida!

Porque é que, com os primeiros raios do amor, desapparecem as alegrias primeiras, os indiscretos descuidos da infancia, os mimosos cantares da meninice?

Porque é que a mulher, amando, deixa de se pertencer a si, perdendo a individualidade e a iniciativa, a fim de se consagrar exclusivamente a um homem, ideal de perfeição e de virtude?

Porque é que o amor nos faz tristes, abatidos e concentrados?

Quem não sentiria, uma vez, ao menos, na sua vida, a dôr, que nos arrebata o coração e as lagrimas que nos inundam os olhos, ao despedir-mo-nos da pessoa que amamos?

Mulheres, que tendes amado o que na austeridade do sacrificio, tendes aprendido a virtude e o desinteresse--fallae por mim.

Homens, que em meio de vossos trabalhos e avergados ao peso das paixões vos sentis, muitas vezes, desfallecer--abri o coração, mostrae a dôr que vos opprime.

É doce o amor--pensa o mundo. Mas para amar, quantas inquietações, quantos supplicios!

É verdade que todos invejam uma mulher amada; é verdade que todos anceiam esse ineffavel momento, de poder dizer a um ser bom, generoso, sincero, sympathico, um ser, que nos delicia pelo seu olhar e que nos apraz pela sua bellesa--amo-te, sou teu; sim, sou teu, porque tu és o bom amigo sonhado em noites de intimos affectos; adoro-te, porque tu és a minha inspiração, a minha alma, a minha vida, o meu eterno pensamento: mas para tudo isto que lucta, que enorme lucta, meu Deus!

Amar é comprehender: comprehender a verdade, elevar-se ao bem pela contemplação do que é perfeito, subir até ao bello, guindar-se até ás luminosas regiões da arte e da consciencia.

O mundo fica-nos para traz; esquecem-nos as ambições; perdem-se os enthusiasmos; fojem-nos as lucidas chimeras da juventude: tudo se desvanece pelo amor.

Amar, ter um filho... que superior ventura se póde comparar a esta?

Um filho é uma parte de nós mesmo, uma continuação do nosso nome, da nossa existencia, do nosso viver.

Um filho?!... Quem se não terá enternecido ao contemplar essas louras creanças, vestidas de branco, e que, durante o dia, brincam nos jardins?

Um filho?!

Como é bella esta palavra e como ella sôa bem aos nossos ouvidos.

Ó santo amor paternal, ó paes, ó mães--vós que tendes chorado com as dores de vossos filhos e rido com as suas alegrias--dizei-nos--haverá, porventura, n'este mundo felicidade que se vos compare?

O amor de mãe é muito, mas não é tudo. Aos quinze annos, todos nós sentimos um vago ideal, que nos illumina o espirito, umas seductoras imagens que nos transportam a um ser longinqúo, mas realmente existente, um ser que é nosso, porque o sonhamos e que nos pertence, porque desde a infancia o anteviramos, claro, limpido, transparente, á semelhança de um horisonte que um dia contemplamos e que não mais nos esquece.

Esse ser é um marido; esse ser é uma esposa: um vinculo os prende--o amor; um ideal os incita--os filhos; uma virtude os reune--a conveniencia.

Á viscondessa tambem lhe chegára a sua vez. Sonhára e fora feliz. Alfredo era o doce amante, que lhe alimentava a phantasia ardente; Alfredo, o louro rapaz, era a formosa visão, que aos quinze annos, ella tivera por companheira inseparavel da sua vida.

Sejamos como a viscondessa. Amemos e seremos felizes.

[V]

No restaurante

Um mez volvido, após os acontecimentos, acima descriptos,--em Junho de 59--entrava eu casualmente n'um café do Caes do Sodré, situado por baixo do Grand Hotel Central--quando ouvi a voz de Alfredo, que de longe me chamava.

Ebrio e tumultuoso extendeu-me a mão direita, offerecendo-me um banco de palhinha em um dos extremos da mesa.

Com elle estavam quatro amigos, por egual risonhos e embriagados.

Sobre a pedra de marmore, pegajosa e cheia de cinsa de charuto, viam-se entre outras cousas cinco chavenas de café, quasi esgotadas, duas garrafas de cognac e uma de absyntho.

--Não podias vir em melhor occasião--exclamava Alfredo com o cotovello direito apoiado sobre a mesa e a cabeça inclinada sobre a mão.

--Antes de mais, vae-me bebendo esse cognac e ouve-me depois.

Alfredo tirou em seguida um masso de cartas do bolso interior da sobrecasaca, e desatando uma fita verde que as envolvia, começou de abrir uma por uma.

--Mal sabem vocês que temos por aqui uma paixão fidalga. Nem mais nem menos do que de uma viscondessa.

Esgotou um calix de absyntho, accendeu o charuto e encetou a leitura.


«Meu bom Alfredo.--Sabes que te amo e que te amo devéras. Não se passa uma hora, um minuto, um instante em que a tua doce imagem, pura como Eva...

--Devem notar que este pura como Eva tem sua graça e é original--reflexionava Alfredo.--Ah! Evas! ah, puras! ah, vestaes do lodo e da chocarrice...

«... pura como Eva, não venha irradiar-se sobre mim como luz redemptora e supremo consolo. Nem eu sei dizer-te o que sinto, meu amigo. Tenho ciumes dos que te acompanham. E não ser eu tambem homem para te seguir sempre e por toda a parte!

--Variante á mulher-homem de Girardin... Adeante.

«Que triste condição a da mulher, impellida a viver isolada do mundo e da sociedade...

--Sim, sim, bem te entendo, meu anjo.

«Vem, Alfredo, vem; vem ver-me muitas vezes, se queres que eu viva feliz e alegre.»

«A Viscondessa de B***.»

--Ora aqui teem Vocês o primeiro specimen da feminil intelligencia. Vamos ás outras e sem commentarios.

E n'isto Alfredo esvasiou de novo um calix de absyntho.

«Meu unico amigo.--Uma immensa, uma profunda saudade me agita o espirito. Sinto que me és e serás sempre um alento magnanimo.

«Á meia noite, quando a lua campeia no seu eterno throno de magestade e de bellesa, apraz-me pensar em ti, nos teus caprichosos desejos, e nas tuas phantasticas promessas.

«Eu amo o silencio, porque é vago, ethereo e cheio de sombras. Ha dias, entrando n'um pinheiral, cuja verde ramagem se agitava doce e harmoniosamente, como uma harpa do céu,--lembrei-me de ti.

«Ao acaso procurei um outeiro, onde me sentasse. Ao longe o oceano, como um leão esfaimado, enchia a terra com a sua musica rouquenha e sepulchral. Aproximava-se o crepusculo. Umas nuvens ainda, retintas pelos raios afogueados do sol, percorriam o espaço de norte a sul.

«Sentindo-me isolada e só, tremi involuntariamente. Soltei um grito e vi uma creança que para mim corria de braços abertos. Foi uma apparição de Deus.

«Que linda, que formosissima creança!

«Pensei, então, em ti, meu amigo, mais do que nunca; e, Deus me perdôe, pensei na creança, que, um dia, fructo das minhas entranhas, uniria para sempre as nossas duas existencias, n'um unico beijo, n'um unico abraço, n'uma unica ideia.

«Adeus, meu filho. Crê em mim, crê no futuro.

«A Viscondessa de B***.»

Alfredo, não podendo mais suster o riso, soltou uma furiosa gargalhada, deixando, ao mesmo tempo, cahir a carta que mal sustinha entre os dedos frouxos e nervosos.

--Ah! Ah! Ah!... Parecia-me mesmo um lyrio esta viscondessa, um lyrio a desabrochar. Se não fosse eu, ainda hoje estaria romantica. Ora oiçam esta, que é a ultima.


«Meu Alfredo.--A tua convivencia modificou-me fortemente. Comtigo murcharam as doces illusões que outr'ora me sorriam como estrellas do céu.

«Como a flor tristemente pisada pelo pé do viandante, assim o meu espirito succumbiu, sob a influencia do teu halito febril.

«Sem embargo, eu adoro-te, Alfredo.

«Tu polluiste-me as faces com os teus beijos escaldados, profanaste-me o corpo com as tuas paixões impuras, fizeste de mim uma mulher material, viciosa, corrupta.

«Eu pedia-te um amor puro, nobre, immaculado, e tu só me deste um desejo vil, trivial, insensato.

«Que fizeste da minha honra, Alfredo?

«Porque me não amaste d'outro modo?

«E queres-me ainda assim? pois bem: serei tua, tua para sempre.

«A Viscondessa de B***.

--Absyntho, rapaz--gritou o amante da viscondessa, batendo com a bengala no marmore da mesa.

E o creado, desarrolhando uma garrafa, offereceu-a ao freguez.

No relogio do restaurante soaram, então, 2 horas da madrugada.

Alfredo, bebendo sempre, resmungava imperceptivelmente. Ao lado d'elle os amigos proseguiam na mesma tarefa,

O dono do restaurante, vendo que o caso se demorava, mandou vir um trem.

Sobraçou Alfredo, a este tempo, já quasi debaixo da mesa, e introduziu-o na carruagem, cuja almofada era simultaneamente occupada por um cocheiro e um policia.

Fez o mesmo aos restantes e fechou as portas do estabelecimento.

Eu sahi tambem; mas, ao contrario dos outros, aterrado e confuso, com o que ali havia presenciado e ouvido.

Pensei em Luiz Veuillot e segui para casa.

[VI]

Sem sahir do mundo

Alfredo era um rapaz do seu tempo, e, como tal, um filho dedicado dos cafés, um amador do fumo e um apreciador exaggerado du vieux cognac.

No proprio desalinho ostentava elle uma generosidade fidalga, que o tornava sympathico e bem quisto por todos os que com elle mais de perto privavam.

Era exaltado em extremo, inconstante e leviano. Quando lhe fallavam em amor sorria-se meigamente.--Amor?...--respondia elle, como que acordando de um longo somno--Sim! já gostei d'elle. Hoje troquei as boas amigas pelos bons manjares.

E virava costas de aborrecido,

E, no entanto, as mulheres gostavam d'elle--talvez por essa rasão.--Não gostam as flores das borboletas?

A vida exterior, activa, intelligente é que, por via de regra, gera a inconstancia. De modo que aquillo que n'uma mulher constitue um crime de lesa-dignidade, é para o homem uma quasi urgencia, filha, sem duvida, das circumstancias especiaes que o rodeiam.

O homem obedece, em geral, mais ao seu organismo do que á sua vontade. A leviandade provêm, muitas vezes, de um impulso de temperamento. A imaginação nem sempre póde ser domada. Á uniformidade oppõe-se a variedade. A phantasia aprecia melhor esta do que aquella.

Ora semelhantes rasões não se dão já na mulher. A mulher tem uma vida limitada, restricta, puramente interior e domestica. Deve ter na sua existencia um unico amor, um unico interesse, um unico pensamento. E desde o momento que isto se despresar--podeis acreditar-me--em vez de uma mãe, em vez de uma esposa, em vez de uma irmã, apenas tereis deante de vós uma amante, isto é, uma companheira para alguns meses de praser e de sensualidade.

Creio porêm que tal vicio é puramente peninsular. Em Portugal é costume fazer a côrte da rua para as janellas. O namoro, se existe, é simplesmente no olhar. Tudo falla, menos o coração. E só depois de casados, reconhecem, então os noivos, que realmente os não fadára Deus um para o outro. Triste inconsequencia, na verdade, que muitas vezes traz comsigo o divorcio e emquanto a nós o peior de todos os desgostos, o desgosto do lar domestico.

Entre nós é a educação da mulher um fado quasi secundario. Que aprendem ellas nos collegios? que sabem ellas quando se casam? Por ventura saberão talhar os seus vestidos? porventura saberão manter o aceio e a limpesa, tão necessarios á cosinha como ao resto da sociedade conjugal?

Tudo, menos isso. Diz-se mulher do high-life, aquella que melhor valsa n'uma sala, a que mais prende pelos arrebiques do coquettismo, emfim, a que fôr mais imaginosa, a que tiver lido alguns romances francezes e a que mais amada souber fazer-se, n'um salão. Pouco monta que seja dedicada a seus filhos, e amiga do seu marido. A questão é ter côrte. O resto de nada vale, porque está abaixo dos sentidos; e os sentidos, são, n'este assumpto, uns mui respeitados directores.

Não quero eu com isto dizer que a educação do homem seja superior á educação da mulher. Os rapases nascem egoistas. Não amam o desinteresse, porque são naturalmente utilitarios e desconfiados. Desejam uma esposa, mais pelo dinheiro que ella lhes traz do que pela estima que os póde tornar felizes. D'esta maneira o casamento entre nós é um acto de commercio uma garantia de futuros interesses, muito de preferencia a uma garantia de amor.

Alfredo, porêm, desviára-se d'esta norma. De creança aprendêra elle a sondar a sociedade com todas as suas corrupções e inconsequencias. De sobejo sabia que a dança, toda exterior e ficticia, era a perversão do ideal conjugal. Por instincto aborrecêra o salão, soalheiro de intriga e de pequeninas miserias. Conhecedor dos homens, e das cousas cahira, finalmente, n'um indifferentismo, até certo ponto, deploravel, para um rapaz, mas, de certo, necessario e fatal para todo o organismo, digno de outra aspiração que não fosse a do animal, por naturesa inerte e estupido.

Alfredo resumia, portanto, uma energica reacção contra o estabelecido, e um vago aspirar para um futuro, ainda não bem definido.

Saudemos esse futuro.

[VII]

Entre amigos

Tudo disposto e preparado.

Somos quarenta convivas á mesa. A viscondessa está bella, verdadeiramente bella, sem os artificios que deslumbram, nem as vaidades que enojam. Completa agora vinte e seis annos, volvidos entre o regaço da mãe que se finou e os beijos do pae cuja existencia, por duvidosa, se ignora. Alfredo está tambem, mas triste, acabrunhado, pesaroso, olhando indifferentemente as pessoas que o rodêam, comendo pouco, bocejando muito e bebendo mais.