MAGALHÃES LIMA

COSTUMES MADRILENOS

NOTAS DE UM VIAJANTE

SEGUNDA EDIÇÃO

COIMBRA
LIVRARIA CENTRAL DE J. D. PIRES—EDITOR
1877

COSTUMES MADRILENOS

COSTUMES MADRILENOS

NOTAS DE UM VIAJANTE

POR

S. DE MAGALHÃES LIMA

SOCIO HONORARIO D'EL FOMENTO DE LAS ARTES DE MADRID

2.ª EDIÇÃO

COIMBRA
LIVRARIA CENTRAL
DE
JOSÉ DIOGO PIRES—EDITOR
1877

IMPRENSA ACADEMICA

AO

SENHOR.

D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ

Off.

O auctor

{7}

COSTUMES MADRILENOS

[I
CARACTERES E COMPARAÇÕES]

Leitor amigo, se queres possuir a chave da vida, se queres ter o segredo da existencia, aprende a viajar.

A viagem tem, como todas as cousas d'este mundo, a sua pequena philosophia e as suas theorias, mais ou menos complicadas, e os seus progressos mais ou menos notaveis.

Viajar não é uma variedade de sensações apenas; mas ainda mais, e principalmente,{8} uma fonte inexgotavel de boa e salutar experiencia, um manancial perenne de vividos enthusiasmos por tudo quanto é bello, novo e original, e uma origem fecunda de analyse, de observação e de critica, que de ordinario raro é de encontrar-se no paiz onde nascemos, ou na cidade onde residimos.

E assim é realmente que, se tu quizeres admirar a seriedade nos costumes, a robustez no corpo, a soberania na guerra, o metaphysico na sciencia, o imperio na familia, a fidelidade nos affectos, e a superstição na religião—tu irás á Allemanha.

Se pelo contrario, tu desejares vêr a frouxidão no corpo, o indifferentismo em politica, a lassidão nos costumes, a perversão nos principios, a fraqueza na sciencia, o theologismo na religião, o lyrismo na vida—tu, sem mais trabalhos nem violencias, ficarás em Portugal.

Mas se tu, embora não te repugne a debilidade physica e a pusillanimidade de espirito, quizeres o ideal da arte e a architectura da sciencia—então procurarás Italia.{9}

Por outro lado ainda, se te impressiona o ruido das palavras, a viveza do olhar, a facilidade dos affectos, a modestia do trajar, a generosidade do coração, o esplendor do ménage—parte para a Hespanha.

Com uma mulher hespanhola vive-se bem um mez, num sensualismo delicioso, numa voluptuosidade tepida e numa ardencia de amores que nem sempre é vulgar nas outras mulheres do mundo.

Com uma mulher franceza, porém, o espirito não se cança nunca, nem o coração chega jámais a desesperar—e se um seculo vivessemos, um seculo tambem consagrariamos a essas fadas, mais demonios do que anjos, e quasi sempre mais amantes do que esposas.

No francez dá-se, a par da elevação da idéa, a agilidade elegante do corpo, a simplicidade maravilhosa do trajar, a delicadeza sem igual da cosinha, a intrepidez risonha dos factos e das circumstancias, a attenção magnetica das palavras, a originalidade dos costumes.

Com elles contrastam os inglezes, os{10} quaes, não obstante serem mudaveis em religião, são, todavia, prudentes nos seus negocios, zelosos na sua vida intima, affaveis nas maneiras, orgulhosos no trajo e astuciosos na guerra.

Subordinados ás circumstancias, ao tempo e aos logares—os povos são um resultado do meio em que se acham mergulhados.

O que promoveu a questão do Oriente não foi verdadeiramente a ambição dos monarchas, mas antes o imperio que a civilisação moderna tem direito de exercer sobre tudo e sobre todos.

E por isso a Turquia, como vestigio de barbarismo que ainda é hoje na Europa, foi de ha muito condemnada á morte e ao ostracismo.

O caracter turco era facilmente domavel, mas por natureza fanatico, supersticioso, intolerante—tal qual como as verdades do Alcorão.

Por isso, leitor, embora tu sintas grandes saudades do harem e das houris, resigna-te, e deixa de combater pelos turcos.{11}

Que elles e os seus sultões se dignem subir ao setimo céu de Mafoma, e que nos deixem.

Mas, francamente, se tu queres viver pela natureza, se soffres dos pulmões, se és pantheista, se gostas das borboletas e das flores, se te enthusiasmas com os limpidos horisontes das montanhas e dos rios, se és socegado, melancholico, um tanto nostalgico e triste, escolhe a peninsula, aluga uma casa todos os annos no Bussaco, percorre a Andaluzia na primavera, visita as praias, e deixa-te ficar por cá.

Se, porém, não temes os frios do norte, se és audaz, intrepido, valente, corajoso, se amas a sciencia e a arte, se não te canças em subir a uma montanha e em correr num trenó num dia gelado, e por um rio coberto de neve, se gostas da vida, tal como ella deve ser—valorosa, hygienica, e grande, então vai á Suissa, á Allemanha, á Italia, e até mesmo á Russia, se tanto fôr da tua vontade.

Convém que faças uma viagem todos os annos na primavera. Para isso basta apenas, que no teu viver domestico, no{12} teu gastar quotidiano, tu adquiras uma sciencia tão difficil, como rara de conservar-se—a sciencia da economia.

No fim de oito ou dez annos, tu sentir-te-has forte, cheio de critica, vigoroso na discussão, capaz de entrar em todos os assumptos, que por acaso se ventilarem, e susceptivel de comparar, entre si, não só todos os paizes do mundo, mas ainda os homens e as sociedades.

E assim tu terás o dom do historiador, a evidencia dos factos, a observação da natureza e o estudo das cousas em geral.

Eu não quero que tu te faças misanthropo, doente, regenerador. Não! Porque sou portuguez, e desejo que tu sejas alegre, feliz, espirituoso, bom amigo, excellente marido e cidadão prestante.

E para isso, para afugentar terrores e negrumes, para que tenhas saude, vida e amor—é forçoso que tu viages, que deixes a tua aldeia e as tuas arvores, que arranjes a tua mala, que te despeças dos teus conhecidos e que partas.

Nada de esperas. Quanto mais cedo melhor. O mundo é para quem caminha;{13} e a viagem é como a sciencia, tambem um progresso.

Aqui tens o teu casaco. Cabeça alta e adeus á patria querida.

Cocheiro—açoute nesses cavallos!

Para deante. Para deante é que é o caminho.{14}
{15}

[II
NÓS E ELLES]

Não ha duvida que nós não somos elles, nem elles são nós.

Não obstante, elles querem ser nós, mas nós é que não queremos ser elles.

Coisas d'este mundo!

Nós, não nos fartamos de elogiar Madrid; e elles não se cançam nunca de exaltar Lisboa.

Mutatis mutandis, ninguem está bem senão onde não está.

A verdade, porém, é que nem a patria do sr. Fontes é má, nem as terras do sr. Canovas são detestaveis.{16}

Lisboa tem, como Madrid, as suas pequenas corrupções, os seus ministros ociosos, a sua realeza inutil, o seu credito abastardado, a sua administração vacillante, os seus empregados preguiçosos, a sua fama em decadencia e o seu futuro compromettido.

Tudo isto temos nós, e tudo isto têm elles—mercê de Deus.

Por cá, como por lá, multiplicam-se os bailes, rangem as sêdas, reluzem as toilettes, scintillam os chrystaes, refervem os vinhos nas suas taças preciosas, adelgaça-se o corpo, polvilham-se os cabellos, tingem-se as faces, alarga-se a consciencia, confundem-se os factos, adora-se a elegancia, e todos—ó céus! sem mesmo o presentirem—caminham para o bom tom, impellidos pela magreza, que os devora, arrastados pela falta de hygiene e seduzidos pela eterna sereia das humanas velleidades.

D'onde se conclue que cá e lá más fadas ha.

Mas Lisboa, com franqueza, não é de todo má: as suas ruas estão povoadas de{17} bellos e formosissimos edificios; os seus jantares, embora sem dinheiro, são abundantes; os seus hospedes vestem-se bem, não obstante faltar-lhes para isso o corpo e o sangue; as suas filhas de aguarella sabem calçar uma bota á Benoiton; Aline, a sua modista, tem algum gosto; Stellpflug e Manuel Lourenço, os seus sapateiros predilectos, contentam os seus freguezes; Barral tem bons remedios; o café, em geral, não é mau; os charutos satisfazem; os assassinos não tem sido demais; quem quizer tambem póde deixar de se suicidar; emfim, ella não é despiciente, acreditem:—unicamente o que lhe falta é o espirito, isto é, o tic nervoso, que dá o bom senso; o enthusiasmo, que eleva as gerações; o fanatismo scientifico, que torna os homens celebres e audazes; o que lhe falta verdadeiramente é isso—essa primeira parte da humanidade a que Shakespeare chamaria, talvez, o to be da humana existencia—o caracter.

Emile Péreire, no tempo em que escrevia no Nacional, sob as ordens de Armand Carrel, tão pobre era que longe estava{18} de imaginar o futuro de riqueza que o esperava.

Foi, recordando-se d'esse passado de miseria, que elle pronunciou aquella esplendida phrase, de que Charlet fez uma caricatura:

—Aos trinta annos tinha dentes e não tinha pão; aos sessenta tenho pão e não tenho dentes.

Pois assim está a nossa capital—quando tinha caracter e dinheiro faltava-lhe o espirito e o desenvolvimento intellectual; agora que naturalmente está mais desinvolvida e mais apta para as concepções do mundo moderno, escasseia-lhe o caracter e a franqueza.

Façamos como Paulo Vernet, o pintor realista—abramos a janella, e olhemos serenamente o que se passa.

Em Madrid vive-se no café e pelo café. Quando se quer procurar qualquer pessoa importante, não se pergunta nunca pela casa onde reside, mas sim pelo café que costuma frequentar. E ahi está tambem o motivo, porque, na capital da Hespanha, os cafés, que quasi se podem dizer{19} pequenas aldeias pela extensão e pelo comprimento, estão cheios, perfeitamente cheios, durante a noite e durante o dia. É ahi que se faz a politica, e é ahi tambem que se preparam os futuros acontecimentos do paiz.

Dizia madame de Grirardin que um dos primeiros deveres da mulher era ser bonita. Pois o hespanhol tem para si, que um dos primeiros deveres do homem, em geral, é ser fallador, ruidoso, amante das revoltas e sinceramente admirador do extraordinario.

Lembro-me que, numa noite, no theatro da zarzuella, um meu companheiro de viagem havia sido apresentado a uma distincta familia de Madrid, com quem travou estreitas relações de amizade e de quem recebeu os mais inequivocos testemunhos de affecto.

Eram pae, mãe e duas filhas.

No dia immediato ao da apresentação um grande acontecimento echoou na cidade. Dizia-se que uma senhora havia sido ferida na cabeça por um tiro de rewolver, desfechado á queima roupa por seu{20} marido, o qual, julgando-a morta, se suicidára logo em seguida.

Este facto, importante em qualquer outro paiz, ali mal despertou a curiosidade publica. Quasi que passou desapercebido.

Averiguado, porém, o caso, soube-se effectivamente que a heroina era nem mais nem menos do que a tal senhora, que, na vespera, pela sua attenciosa bizarria confundira o meu amigo, com attenções e delicadezas. Ella exigira do esposo dinheiros avultados, que elle asseverava abertamente não ter em casa, naquella occasião. Então a mulher, enfurecida, gritou, fingiu-se morta, até que emfim se atirou ao marido, o qual, não constando que fosse santo, se atirou por seu turno a ella.

E assim, travados de razões, armaram aquella tragedia, digno exemplo de duas filhas menores e edificante monumento da civilisação de um povo.

Madrid tem, sobretudo, um vicio de origem—a falta de agua. O caracter hespanhol, tão contradictorio em si e nas suas manifestações, é todavia secco, aspero{21} ás vezes, e irreflectido quasi sempre.

A escassez de agua, além de escurecer toda a paisagem da Estremadura, faz ainda, porém, com que as flores sejam raras na cidade, e de todo o ponto destituidas de gosto.

Ora todos sabem que a flôr entra hoje na vida do ménage como uma necessidade, insubstituivel. Muitas senhoras têm nella uma companheira e uma amiga. A aridez da vida domestica é muitas vezes compensada pela existencia de um jardim, ao qual a dona da casa consagra todos os seus ocios e em virtude do qual ella cura todos os seus tedios.

A mulher hespanhola, como não tem flores nem jardim, procura naturalmente os cafés e o mundo exterior, de que aliás precisa para conviver e para se entreter; cousa que, em nosso juizo, ninguem, em verdade, lhe poderá levar a mal.

E, no meio de tudo isto, não ha povo que sinceramente comprehenda melhor as leis da hospitalidade e que melhor e{22} mais bizarramente saiba attrahir a si os estrangeiros.

Mas, embora elles queiram ser nós,—nós é que, em boa logica, não podemos ser elles.

Elles, por exemplo, empregam o adjectivo largaesta calle es muy larga—para significar o comprimento, ao passo que nós o empregamos para exprimir a largura.

Antithese completa!

Oh! não—decididamente nós não podemos ser elles..

Mas, se ellas quizessem ser nós!...

Se nós fossemos ellas!...{23}

[III
A CIDADE]

No centro de uma extensa planicie, acompanhando a margem esquerda do Manzanares e alteada sobre differentes collinas de arêa de pequena elevação, ergue-se a cidade de Madrid, a formosissima villa coronada, prodigiosa de encantos, opulenta de prazeres e esplendida de vida.

Data do reinado de Philippe II, em 1560, a mudança da capital do reino hespanhol de Toledo para Madrid.

Perde-se na bruma dos tempos a origem etymologica d'esta cidade. No entretanto{24} julga um illustrado escriptor que a verdadeira derivação de Madrid é Magerit, palavra arabe, que na nossa lingua significa corrente de agua.

Muitas foram, e successivas, as invasões por que passou a cidade. Não vem para aqui, por deslocada, uma resenha historica de todos esses tempos de agitação, mais ou menos intimamente ligados com as coisas do nosso Portugal.

Philippe IV foi para a Hespanha o mesmo que Luiz XIV foi para a França. No seu reinado brilharam as artes, as sciencias e a litteratura. Quiz, porém, a fatalidade, como que para realçar o dominio dos contrastes do mundo, que o seu herdeiro Carlos II fosse um rei pusillanime, fraco, fomentador da intriga e iniciador d'uma crise, que cessou com a assolação d'uma tremendissima guerra civil no tempo de Filippe V.

Madrid soffreu immensamente nestas lutas intestinas. Sem embargo, os sacrificios compensaram as perdas. E quando depois Carlos III subio ao throno de Hespanha, a um sorriso do monarcha privilegiado{25} desabroxou a paz, e as reformas brotaram por completo naquelle paiz.

Este estado foi, porém, de curta duração. Napoleão I, senhor da França, põe a Hespanha novamente em tumulto e deixa-a entregue á fome e ao saque das hordas estrangeiras.

Expulsos os francezes de Madrid, começou então a luta entre realistas e liberaes, os quaes depois se subdividiram ainda em progressistas e moderados, dando assim logar a uma infinidade de fracções, que só deviam abortar na mallograda revolução de 1854.

Foi d'aqui que se originaram os partidos unionista, o democrata e mais tarde o neo-catholico; e foi d'aqui tambem que nasceu a Hespanha revolucionaria moderna, de todos conhecida, desde 1868 até nós.

*
* *

Madrid é, pois, uma cidade pequena, não talvez muito maior que o Porto, com um clima excessivamente regular, comportando na sua área 360:000 habitantes,{26} cuja indole póde naturalmente e com o maximo rigor ser observada á luz do gaz e durante a noite em qualquer dos principaes cafés.

Conta-se que um alcaide hespanhol se compromettera certo dia a fazer tres discursos numa dada povoação.

Chegou o primeiro dia, e perguntou á turba:

—Entenderão o que lhes vou dizer?

Ninguem respondeu.

—Pois se não têm de entender-me é escusado pregar no deserto.

No segundo dia voltou, e repetiu a mesma pergunta.

—Sim! responderam todos, já zangados com a occorrencia do dia anterior e desejosos por saber o que tão illustre orador d'elles queria.

—Nesse caso, se comprehendem, são inuteis as explicações.

Chegou, porém, o dia da terceira e ultima prelecção, e o povo concordou em responder indistinctamente.

—Serão capazes de perceber qual é o fim do meu discurso?{27}

Sim! Não! conclamou a turba em dois córos.

—Então aquelle que percebeu que explique ao que não entendeu.

E assim é, na verdade, o caracter hespanhol. Todos se entendem, e ninguem se entende. De modo que, no seio de tão estranha confusão, a vida domestica de Madrid, toda anarchica, toda exterior, toda ficticia, vai naturalmente reflectir-se nas coisas publicas—no commercio, na industria, na arte, na litteratura, na politica—pondo a cidade em continuo alvoroço, e deixando o viajante profundamente assombrado de tão fortes e repetidas contradicções.

E tudo isto, o que mais é ainda para estranhar, num paiz onde os grupos dissidentes são quasi tantos como os talentos politicos, e onde o caracter de cada individuo varia e se modifica em justa proporção com a sua leviandade de espirito e seguindo naturalmente as differentes oscillações da opinião publica, sempre precipitada e louca.

Obedecendo á influencia do meio que{28} os domina, os estadistas hespanhoes são mais theoricos do que practicos, mais litteratos do que politicos, e, sem duvida alguma, mais poetas do que observadores.

D'aqui a impossibilidade de uma união séria, progressista e trabalhadora. As subdivisões prolongam-se até ao infinito. Antes de 30 de dezembro de 1875, os moderados formavam um unico partido. Agora, porém, avultam os moderados transigentes, tendo por orgão o jornal El Tiempo: os moderados intransigentes com La España e os moderados de estola com El Siglo Futuro.

O mesmo com o partido constitucional, que hoje se acha subdividido em constitucional do sr. Sagasta, representado na imprensa pela Iberia; em constitucional dissidente do sr. Santa Cruz, representado pela Patria e em constitucional do sr. Ulloa, representado outr'ora pelo periodico El Constitucional, que já não se publica.

As celebridades não escasseiam. Antes, pelo contrario: ao passo que em França{29} quasi todos os homens illustrados são escriptores, em Hespanha quasi todos são oradores.

Abstrahindo mesmo de Emilio Castellar, o luminosissimo vulto do seculo XIX, que só em Gambetta encontraria um rival condigno, e porventura, como politico, mais pratico, mais accentuadamente positivo do que elle; abstrahindo do sympathico materialista Figueras e do advogado Martos, poucos ha, naquella adoravel nacionalidade, que não possuam o fogo sagrado dos sublimes enthusiasmos patrioticos e a brilhantissima scentelha dos grandes espiritos revolucionarios.

Numa palavra, a Hespanha é o paiz solemne das occasiões, o paiz do à propos, o paiz do momento.

Os generaes Prim e O'Donnel andam ainda hoje apregoados pela fama publica. Pois bem. Muitos annos não se haviam passado depois do seu regresso da Africa, e concluida a guerra de Marrocos, que Prim, collocado numa das janellas do Hotel de Paris, recebera a mais enthusiastica ovação que humanamente era licito dispensar{30} a um idolo. Uma noite regressava o illustre general do congresso, quando, subito, uma detonação acordou a cidade. Correram todos. Duas balas haviam-lhe destruido a emoplata, o ante-braço e a mão direita. Estava morto o heroe de tantas victorias e o deus de tamanhos enthusiasmos. A policia não apparecera. Ainda presentemente nas cadeias de Madrid se conservam presos, por suspeitos, seis homens. O resto, sabem-n'o os seus inimigos, d'elle.

Madrid, a cidade imperial e coronada, a mui nobre, mui leal e mui heroica cidade, como em 1814 lhe chamou Fernando VII, tem, porém, ainda uma outra face, que realmente não deve esquecer ao historiador; e essa face, esse lado immensamente grande e extraordinario, que a Cervantes valeu uma reputação e uma immortalidade, é a anecdota, o delirio da bagatella e do ridiculo.

Sim! a Hespanha, como bandoleira que é, tem uma lenda—a lenda do bandido.

Estudando essa lenda, melhor e mais facilmente poderemos fazer uma idéa do{31} que é e do que foi a Hespanha nos seus movimentos, nas suas idéas, na sua politica, no seu commercio, na sua industria, no seu progresso e na sua civilisação.

Voltemos, portanto, a pagina.{32}
{33}

[IV
A LENDA DO BANDIDO]

O bandido!... Mas quem o não conhece? Elle, o maganão, o seductor, o adultero, o perverso, elle tem vivido sempre e sempre impune, sempre ironico, sempre chasqueador, sempre rapaz, sempre diabo. Com mil granadas! Que sublime ratão...

Houve quem lhe chamasse espirito das trevas; houve tambem quem o appellidasse com o epitheto de carne, de Satan, de magico, de serpente, de lagarto e não sei tambem se de D. Juan, se de Mephistopheles, se de Falstaff.

E é que elle realmente tem esse condão.{34}

Todos os dias se renova, renascendo das proprias cinzas, como a phenix mythologica, mudando de pelle como qualquer simples giboia, usando barba postiça, como um grotesco que é, e dando-se os ares frescos e traiçoeiros de velha rapoza, já useira e veseira nos altos assumptos de quem tem o olho em Deus e a unha no proximo.

Não! Elle não é simplesmente o palerma namorador, que, á meia noite, de guitarra em punho, vai desferir uns estupidos landuns, mal tocados, debaixo da janella da sua pallida amante; tambem não é apenas o ebrio impenitente, que, pela madrugada, carregado de vinho e de tosse, corre as ruas num tropego cavallo de aluguer, atropellando quem passa e vomitando injurias aguardentadas sobre a honestidade de quem trabalha. Porque, sendo tudo isto, o nosso typo tem, todavia, uma feição proeminente, feição grave, enormissima, que ninguem jámais lhe poderá disputar. Oh! sim, só elle é o bandido por excellencia, bandido de casaca e luva branca, mas bandido de alma larga{35} e coração esperto, emquanto a mim o peior de todos os bandidos.

Cautella, meu fidalgo, que nós já te conhecemos. Tu, que não duvidaste vestir a farda de imperador; tu, que tens levado as insignias da realeza até á crapula dos bordeis; tu, que enlameaste o teu brazão ao contacto effeminado da fadistagem de navalha e faixa encarnada; tu, meu politico, tu, meu banqueiro, tu, meu villão, é que verdadeiramente és o rei do mundo, porque te falta a vergonha e a decencia.

Eu queria fazer de ti um Sancho Pança, mas Sancho é gordo e póde cair na embuscada; não, não serás Sancho, nem D. Quixote pela razão opposta; mas o que tu podes ser realmente é um Claret—um Claret sem corôa, de olhar mellifluo, doce no dizer, suave na convivencia e insinuante nos modos.

Que o jesuitismo esteja descançado emquanto a nós. Unicamente nós pedimos licença a suas reverendissimas para pegar num dos seus mais respeitaveis membros, para o virar, para o revirar, para{36} lhe dar umas palmadinhas no ventre; e feito isto, para o despedir com um piparote—tal qual, como se faz a um boneco de papel. E nada mais. Depois nem sequer pensaremos em similhante entidade. Tentaremos dormir sobre o caso, fazendo cama—e que boa cama!—de tão beatificas proezas.

Agora o touro que saia: bandarilhas na mão e firmeza no pulso.

Era uma vez um paiz, rico, poderoso, rodeado de magnificas paisagens, realçado pela formosura de mulheres peregrinas, e dominado pela ambição de politicos tresloucados. Um dia, porém, o sol, que era ardente, trouxe á cidade febres incuraveis. Adoeceram, então, os estadistas; e no delirio da doença cousas espantosas e horripilantes se começaram a ouvir de suas bôccas evangelicas. A febre tomou-os dos pés á cabeça; e então—ó céus!—doidos, perdidos, alucinados, elles, os doces, elles, os virtuosos, elles, os santos, que precisavam de saude e de vida, porque estavam mal, inventaram uma cousa muito melhor do que a agua circassiana, muito melhor{37} ainda do que a Revalescière du Barry... elles deliberaram segurar as vidas em perigo.

E a população mecheu-se activa, energica, em favor de tão alta instituição.

Estava salva a patria.

Contra o abysmo, que a perseguia, contra o diluvio, que a ameaçava, tinha o governo tambem inventado a sua arca santa—as companhias de seguro de vida.

E sem embargo, os typhos, as bexigas, os sarampos, as erysipellas não haviam desapparecido da terra. O paiz continuava a soffrer as suas doenças, a alimentar rivalidades no seu seio e a prestar-se como sempre ás mil intriguinhas da côrte.

Vai então o bandido amigo, irrequieto e nervoso, começa de farejar novas vias de exploração.

—Nada! dizia elle. Segurar a vida é pouco; é preciso tambem segurar o capital. Mãos á obra!

E formaram-se os bancos e as casas bancarias.

Mas bandido—manhoso tinha já propensões para abusar. A policia ia-lhe sempre{38} na pista. Todavia, elle, o heroe, elle não descansava nunca.

Ah! bandido! ah! brejeiro!

Ainda era pouco. Claret tinha a ambição louca e avara de um Shylock hespanhol. Queria ser rico, queria jogar, queria amar, queria divertir-se. E para tudo isso era preciso inventar, ser original, ter idéas.

Crearam-se os bancos; o credito, porém ficou o mesmo, isto é, um pouco peior do que estava. O paiz não melhorava a sua riqueza publica. Então o governo pensou comsigo mesmo e disse:—Maldito bandido!—sempre desassocegado e criança: por Deus, cautella! nem mais um passo...

E bandido—esperto abriu o olho e principiou a ver, ao longe uma cousa que lhe fallava em inscripções e em fundos publicos. Olé! Olé! Cá está a incognita! A elles, aos fundos publicos!

Ao que o sr. Salaverria sorriu ironicamente, como querendo dizer:—Espera maroto, que te escacho!

E assim foi.

Bandido foi já derrotado na politica, no commercio, na industria, na economia,{39} nas artes e nas sciencias. Mas apesar de tudo elle não descrê. É forte, tem bom pulso, jámais teve uma dôr de dentes e nunca cortou os callos, porque tambem nunca os teve. Abençoado patife! Creado nas montanhas e industriado nas altas tricas da politica, elle só espera momento opportuno para tornar a apparecer em campo.

E depois hão de vel-o. Pois julgavam que elle era sujeito para se curvar a qualquer Salaverria? Enganaram-se.

Nem a Salaverria, nem á honestidade. Unicamente elle tem em vista—alcançar os seus fins sejam quaes forem os meios.

E assim é a Hespanha na sua evolução social.

Ah! Machiavel! ah! bandido!{40}
{41}

[V
EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS]

Dizia um celebre escriptor allemão que a vida era uma viagem em caminho de ferro: o casamento um choque de trens; o somno a passagem de um tunel; um negocio a passagem de uma ponte; o destino um machinista que nos leva silencioso ao termo da viagem.

Nestas circumstancias, e a ser verdade o que nos diz tão excentrico pensador, parece, de facto, que ao homem nada mais resta neste mundo do que uma vida de sensações rapidas e imprudentes, sem um{42} unico pensamento, que o preoccupe, sem repouso, sem ligações, sem familia, sem crenças, sem humanidade.

E apesar de tudo, e sem embargo do auctor citado, o universo apresenta-nos um aspecto perfeitamente em contrario do que acima transcrevemos.

Por toda a parte a fixidez se nos antólha como elemento essencialissimo na vida dos povos. Na evolução das sociedades a primeira cousa que o homem teve em vista foi certamente fixar-se, construir a cabana onde tinha de pernoitar e estabelecer definitivamente a séde dos seus trabalhos e operações.

Imagine-se o leitor, em Madrid, no meio de uma praça irregular, que se chama Puerta del Sol. É o coração da cidade. Conta-se que em 1520 houvera alli um castello, sobre a porta do qual se encontrava uma pintura representando o sol. Desde então para cá póde dizer-se que é aquelle o logar destinado, aos despreoccupados do mundo, aos flaneurs do bom tom e á fina èlite dos salões madrilenos.

Que contraste! Na propria sociedade{43} hespanhola, que mais pensa na vida externa do que na vida interna, pacifica, de casa, nessa mesma nos foi dado admirar a impretrerivel tendencia da natureza humana para o viver confortavel, commodo, alegre e quasi poderiamos tambem dizer luxuoso.

Poucas familias ha, em Madrid, que não tenham a sua casa, excellentemente mobilada, e que, pelo menos, não possuam o modesto segredo do savoir-vivre, isto é, o segredo da conservação e da hygiene individual.

Sem sahir da Puerta del sol, o viajante poderá, se quizer, fazer um telegramma aos seus amigos, dirigindo-se áquelle magnifico predio onde actualmente se acha o ministerio da governação, e poderá, tambem, se assim lhe aprouver, tomar uma chavena de chocolate no magnifico café Imperial ou subir mesmo ao primeiro andar d'esse mesmo edificio, e ordenar que lhe reservem um quarto no Hotel de Paris.

Sahindo da Puerta del sol encontramos duas ruas quasi parallelas—a rua Alcalá{44} e a Carrera S. Jeronymo. Na primeira d'estas ruas eleva-se um soberbo arco triumphal, erecto no reinado de Carlos III, a fim de perpetuar a memoria da sua vinda á côrte de Hespanha. Consta de cinco entradas, sendo tres eguaes, no meio, e em fórma de arco, e uma quadrada em cada extremo. A Puerta de Alcalá, a primeira de Madrid, conta 70 pés de altura, com a seguinte inscripção:

REGE CAROLO III
ANNO MDCCLXXVIII.

Além d'esta ha ainda a Puerta de Toledo, situada no fim da rua do mesmo nome, consagrada, no anno de 1827, a Fernando VII, o desejado.

E, visto estarmos fallando nas maravilhas da arte hespanhola, bom será que não esqueçamos as duas principaes praças da cidade—la plaza de Oriente e la plaza Mayor.

A primeira tem fórma circular, e é circumdada exteriormente por um formosissimo passeio, onde estão collocadas quarenta{45} e quatro magnificas estatuas, destinadas a representar os monarchas hespanhoes.

No centro da praça ergue-se a estatua de Filippe IV, symbolisando o seu disvelo pela arte nacional, e dando-nos em allegoria o solemnissimo momento em que tão generoso monarcha se dignava condecorar o celebre pintor Velasques com a cruz de Sant'Iago.

O theatro real faz tambem com que este logar seja um dos que melhor perspectiva apresentam na cidade.

A segunda—a plaza Mayor—foi construida em 1619, sob a direcção do architecto D. Juam Gomes de Mora. É o logar destinado ás festas da côrte hespanhola. Antigamente a fidalguia armada costumava, em actos solemnes, esperar ali a sahida dos touros, que eram picados com a maxima destreza e pericia por parte dos amadores da arte de Pepe-Híllo. Já por duas vezes o incendio tentou destruir tão formoso recinto. No seu centro está collocada a estatua equestre de Philippe III, obra começada pelo architecto{46} Juan Bologna e terminada por Pedro Tacca.

Presentemente a plaza Mayor acha-se reduzida ás condições de um deliciosissimo jardim e pouco mais.

Passemos, porém, ao Palacio Real. É uma das obras de arte, que mais particular attenção merece da parte dos entendedores.

Foi construido este palacio em meados do seculo passado. Situado no extremo occidental da povoação, precisamente no logar onde outr'ora se erguia o famoso alcaçar de Madrid, a sua origem remonta, segundo uns, ao reinado de Affonso VI, e segundo outros ao reinado de Pedro I. No cimo da escada, que é de marmore, existe uma estatua de Carlos III, o qual, parece, concorrêra bastante para a melhoria d'aquelle edificio.

Começando pela fachada do Oriente, a pintura, que se vê na primeira sala, representa o Tempo descobrindo a Verdade; na segunda encontra-se Apollo premiando o talento; na terceira a queda dos gigantes, que uma vez tiveram a ousadia{47} de attentar contra os céus; na quinta a apotheose de Hercules; e na sexta, septima, oitava e nona a representação da philosophia, da pintura, da musica e da poesia.

Além do que aqui deixamos mencionado, muito mais, porém, poderiamos accrescentar. O Palacio real é uma das maravilhas da capital de Hespanha, já pela sua riqueza, já pelos seus valiosissimos quadros, já, emfim, pela sua vasta opulencia.

Não pára, comtudo, aqui a nossa admiração. Cumpre egualmente não esquecer outras maravilhas da cidade, taes como o Palacio do Senado, onde pela primeira vez se reuniram as côrtes hespanholas em 1820: o palacio do congresso, edificio muito moderno, principiado a construir em 1834, os ministerios publicos, as reaes cavallariças situadas ao norte do palacio, e ainda como reliquias de architectura dos seculos XVI, XVII e XVIII até nós, os palacios particulares de Medinacellí, de Liria, do duque de Abrantes, do marquez de Salamanca, etc.{48}

E ainda, se o leitor fôr poeta e se interessar pelos grandes homens, não deixarei de recommendar-lhe a visita ás casas de Cervantes, de Lope de Vega, de Torrijós, de Cisneros e da beata Maria Anna.

A casa de Cervantes, edificada na rua do mesmo nome, tem, por cima do portal da entrada, em marmore branco, a seguinte inscripção:

«Aqui vivió y murió Miguel de Cervantes Saavedra; cuyo ingenio admira el mundo. Falleció em MDCXVI».

Na parte superior está o busto do poeta.

A casa de Lope de Vega foi recentemente restaurada, e a de Torrijós, celebre general, tem tambem um distico, em que se lê pouco mais ou menos o seguinte:

«Aqui nació el general D. José Maria Torrijós; defendia la independencia e libertad de la patria e murió em 11 de deciembro de 1831, arcabuceado em Malaga por haber intentado restabelecer con las armas la Constituicion».{49}

*
* *

Agora, permitta-me o leitor que lhe offereça um charuto. Emquanto se espera entremos aqui neste café, no café de Sevilha. Uma chavena de chocolate não lhe fará de certo mal.

—Rapaz!—Chocolate!...{50}
{51}

[VI
A INSTRUCÇÃO PUBLICA]

«Deixae-me instruir a juventude, e eu reformarei o mundo»—dizia Leibnitz.

E assim é, com effeito.

Reforma que não seja acompanhada de raciocinio, pecca por falta de seriedade scientifica e por ausencia de dados positivos. E por isso é que a Allemanha, pelo espirito de Luthero, e a França, pelo espirito de Fénelon, foram sempre as primeiras a accordar o coração do povo pelo sol da instrucção. Jules Simon, o sympathico auctor da Politica radical, tem consagrado quasi todos os annos da sua{52} vida á solução d'este notavel problema; e a verdade é que a França, neste ponto, em nada fica a dever ás nações, que, ainda mesmo como os Estados-Unidos, a Suissa e a Belgica, caminham na vanguarda da civilisação.

É ainda o mesmo Jules Simon que nos diz:

«No dia em que a lei obrigasse toda a gente a saber lêr, toda a gente estaria mais perto da liberdade».

E assim deviam fallar todos os verdadeiros democratas; porque, sem instrucção, é impossivel a educação, do mesmo modo que sem o desenvolvimento intellectual se atrophiaria o desenvolvimento moral.

E o homem não é só intelligencia, mas tambem coração. Desenvolver uma e outra cousa é hoje a missão da escola moderna, sanccionada pela philosophia positiva.

Levasseur, acceitando a obrigação da instrucção, pretende, comtudo, que aos interessados se deixe a livre escolha de escola, confessando ao mesmo tempo, que, onde as escolas escasseiam, ou onde a{53} maioria da população não está no habito de concorrer a ellas, a experiencia prova que a obrigação não passa de uma disposição inutil; asserção que elle confirma pelos exemplos de Portugal, Hespanha e Italia.

Emile de Girardin, o celebre publicista, que em duello matou Armand Carrel, fazendo depois elle proprio a apologia do seu infeliz adversario;—Emile de Girardin, embora não combatesse a instrucção obrigatoria, achava-a comtudo, ephemera e subjeita a erros. Assim como ninguem obriga o seu semelhante a comer um pedaço de pão, assim nós tambem não podemos obrigar ninguem a ser instruido.

Necessaria, portanto, é que a instrucção devia ser, isto é, todos deviam saber ler, contar e escrever—o que, mutatis mutandis, vinha a dar o mesmo.

Em Portugal já a instrucção obrigatoria havia sido consignada no decreto de 20 de setembro de 1844, onde a penalidade, imposta á negligencia das familias, appareceu pela primeira vez neste paiz.

E, no entretanto, as escolas continuam{54} sem frequencia, os methodos peioram de dia para dia, o professorado anda equiparado aos creados das cavallariças reaes, e nós, os preguiçosos do occidente, navegamos em mar de bonança na quietação mais materialmente feliz d'este mundo sub-lunar.

O sr. Levasseur, membro da commissão franceza, na ultima exposição internacional de Vienna d'Austria publicou a estatistica do movimento das escolas primarias nos diversos paizes do mundo, e achou que a frequencia das escolas, no Baixo Canadá, está na relação de 23 alumnos por cada 100 habitantes, na França 13 por 100 e em Portugal 3 por 100.

Este facto, horroroso em si, não nos é, todavia, extremamente desfavoravel.

Em Hespanha, onde a instrucção superior está tão profusamente derramada, a ponto de haver um sem numero de universidades, de escolas, de academias, de archivos, de institutos e de bibliothecas; em Hespanha a instrucção primaria, se não é inferior, corre, pelo menos, parelhas com o nosso paiz.{55}

Quer-nos parecer que sem uma remuneração, concedida pelo estado aos paes de familia, nunca a instrucção obrigatoria será levada por deante, na peninsula. No inverno a grande distancia dos povoados a que ficam as escolas, faz com que ellas sejam menos frequentadas; no verão, as colheitas obrigam os lavradores a não dispensar seus filhos dos trabalhos ruraes. E por isso é, creio, que de facto existe uma desproporção enorme entre os algarismos da população rural e a frequencia numerica das respectivas escolas.

Mas a Hespanha, litterariamente, ao menos, tem uma vida propria, sua, original, ao passo que nós tanto na arte, como na politica, estamos fatalmente destinados á morte e ao esquecimento.

Entre nós o ultimo poeta, verdadeiramente, interprete do sentimento nacional foi Garrett. Desde então para cá a influencia da litteratura franceza tem-se feito por tal fórma sentir, que os nossos poetas, embora dotados de muitissimo talento e de vivissima imaginação, mais parecem conhecer a vida de Paris do que a vida de Lisboa;{56} e de tal modo que o nosso povo mal os lê, porque mal os entende tambem. O resultado é que vamos atravessando um periodo de transição e que a historia não poderá nunca registrar esta época, senão como um facto accessorio da vida portugueza.

E, cousa singular! a causa, que tão poderosamente actua nos nossos costumes e na nossa vida nacional, é a mesma que, passando por cima da Hespanha nem sequer vestigios deixa da sua passagem. Victor Hugo, assimilado e imitado pelos portuguezes, emprehendeu na sua infancia uma viagem á Hespanha. «Essa viagem—escreve Castelar—tem analogia com a de madame de Stäel á Allemanha. A eminente escriptora trazia o romantismo idealista do norte, o sublime escriptor o romantismo pratico do Meio-Dia; Stäel inspirava-se nos tristes e profundos sonhos de João Paulo Richter, Victor Hugo nos singelos versos do Romancero e nos conceitos de Calderon, impressos na consciencia, como esses listrões de materia cosmica, a que damos o nome de nebuloses,{57} e dos quaes talvez em cada minuto se desprende como uma gota de luz um novo planeta na vastidão do espaço. Victor Hugo sahiu de Hespanha com o animo disposto a incendiar o templo dos deuses e da velha arte. Reinava desassombradamente a poesia classica, desde a epoca de Luiz XIV. Se o povo de 93 descobrisse esta realeza, tambem a teria derrubado no seu incansavel afan de renovar a vida. Era a Academia, o Versailles, onde aquella corôa estava enthesourada».

Podem os poetas hespanhoes não ser melhores que os nossos, mas a verdade é que são mais originaes, e mais do seu paiz. Foi da Hespanha que partiu o grito destruidor do velho convencionalismo poeta, em redor do qual se haviam agrupado Racine, Voltaire, Corneille o outros. E esse revolucionario audaz e intrepido foi Lope de Vega.

A vida litteraria de Hespanha é tal que só em Madrid se publicam aproximadamente 60 jornaes. Da Universidade Central, situada na rua de S. Bernardo, e dividida em 6 faculdades, sahem annualmente para cima de cem bachareis.{58}

Por onde se vê que a instrucção superior em Hespanha tem attingido um enormissimo progresso; progresso, em nosso entender, que lhe ha de assegurar sempre virilidade, independencia e vida propria, o sufficiente para que uma nação, em poucos annos, se eleve e conceitúe no animo dos seus inimigos.

E posto isto, tratemos d'outro assumpto.{59}

[VII
TEMPLOS E RELIGIÃO]

Desapparece o carnaval, e a mulher hespanhola, de todas as mulheres do mundo a mais alegre, a mais festiva e a mais ruidosa, sacode os seus cabellos, desgrenha a sua fronte, pintada a carmim, rasga a sua ligeira mascara de seda, põe de parte o seu vestuario extravagante, descalça os seus sapatinhos de setim, toma o seu véo de Sevilha, calça a sua luva preta, e penetra soberanamente no templo, onde o Christo a aguarda, para, num sorriso de perdão, a absolver das suas culpas e dos seus peccados.{60}

É que ella, a feiticeira, comprehende o mundo, tal como elle é—de alegrias e de tristezas, de esperanças e de duvidas, de amor e de descrença, de riso e de lucto, de primavera e de outomno, de vida e de morte.

O templo veste-se de negro; o orgão faz resoar os seus canticos plangentes; Jesus, a pallida creança, ostenta uma face macerada, e o padre, oh! o padre, o grande ladrão!—como raposa que espreita o galinheiro innocente, acocora-se no confissionario, á semelhança de gallo, que em materia de instinctos é useiro e vezeiro.

E tu, minha pobre peccadora, ó minha querida—terás de ouvir silenciosamente, concentradamente, todos os lamentos do propheta, todas as dôres da mãe, todas as lagrimas dos pequeninos.

Um dia levantar-te-has mais cedo; com ar triste e melancolico seguirás a via do resgate; ajoelharás timidamente deante do sr. cura da freguezia, que depois te dará a communhão.

Que maldicta manhã não passarás, minha pequena catholica!—lembrando-te{61} das travessuras de que a consciencia te não accusa, e tendo de abrir ao padre, ao negro carcereiro da tua alma, os segredos que te vão no coração atribulado.

Mas tu tens pae, bem o sei; tua avó não te dispensará o sacrificio de todos os annos, e tua propria mamã exigirá de ti nesse dia um beijo e um affecto.

Que louca extravagancia! Confessar-se a gente a um homem desconhecido, que toma rapé e usa lenço encarnado, quando, ao contrario, podia revelar a sua vida ao ente predilecto da sua existencia, áquelle, que, au clair de la lune, fuma debaixo das nossas janellas um delicioso breva e nos diz umas doces palavras mysteriosas....

E depois—que horror!—cahir no velho tumulo catholico, quando toda a natureza, como que por contraste, é um encanto e um paraizo?!

Oh! mon Dieu, que c'est trop fort....

Mas, emfim, sevilhana amiga, tu que, durante o carnaval, escapaste, de uma bronchite, faze tambem diligencia para, durante a quaresma, te furtares á insolita constipação catholica.{62}

Á la belle etoile cantaremos e libaremos aos nossos amores. Bem vês que o convite attrahe. Tu fallar-me-has no bigode preto do teu amante, nos seus cabellos de azeviche, na sua fronte pallida, nos seus olhos profundos e apaixonados; de tudo me has de fallar, gentilissima menina, que, eu, no entretanto, sem deixar de ouvir-te, irei preparando uma delicadissima ceia, toda ella de boas aves saborosas e de finissimos vinhos francezes.

Acceitas? Por Deus não pretendas imitar o lyrismo de Santa Thereza, aquella boa alma mystica, que «morria de não morrer!»—ou antes «por não morrer». É verdade que escusas tambem de seguir madame Roland, indo para o cadafalso, vestida de branco e Carlota Corday apunhalando Marat; escusas mesmo de te aproximar de madame de Maintenon, no seu odio contra a religião protestante: e escusas tambem de ser Joanna d'Arc, uma Margarida d'Anjou, uma Joanna de Montfort. Tudo isto seria desnecessario e inutil. Para serdes respeitadas e felizes, bastava apenas, minhas boas andorinhas{63} ideaes, que vós possuisseis o orgulho e a consciencia das vossas acções; porque emfim, se o homem é o orgulho de Deus, a mulher é o orgulho do homem, como mui judiciosamente escreveu um espirito comtemporaneo.

Conta-se que o chefe arabe dissera da actriz Rachel:—«É uma alma de fogo num corpo de gaze», e que a actriz, á hora da morte, exclamára:—«O fogo queimou a gaze!»

Assim, pois, que a minha gentilissima hespanhola não possa tambem nunca dizer, á imitação de Rachel:—O fogo matou a mulher!

*
* *

Em Madrid os templos são de somenos importancia. E, embora a religião catholica-apostolica tenha ali fanaticos e fanaticos decididos, não nos parece que os edificios destinados ao culto sejam dignos de uma menção especial. Ao ouvir fallar nas cathedraes de Cordova e Sevilha, de{64} Toledo e Burgos, de Valladolid e Zaragoza, quasi se nos afigura impossivel, senão mesquinho, que Madrid não possua tambem o seu templo official. A verdade, porém, é que, apesar de todas as tentativas, ainda até hoje não foi possivel levar por deante o velho projecto da edificação de uma cathedral na côrte de Hespanha.

Entretanto, forçoso é confessar, que poucos paizes ha na Europa onde o fanatismo religioso tenha attingido tão elevadas proporções de hypocrisia e de retrocesso. Philippe I assemelha-se a Luiz XI, o qual antes de mandar enforcar qualquer subdito do seu reino, supplicava sempre a Nossa Senhora, cuja imagem trazia no bonnet, para que tivesse dó d'elle, e assim tambem a Hespanha deve a Philippe I uma grande parte do seu carlismo e da sua reacção.

Os hospitaes, todavia, as casas de beneficencia, os asylos, e as associações philantropicas são innumeras em Madrid. A alta sociedade exerce mesmo a caridade em larga escala. Unicamente nos parece{65} que a razão publica entra pouco n'estas cousas.

Seja, porém, como fôr, o certo é que um pouco menos de fanatismo e alguma cousa mais de raciocinio, nenhum mal faria a Hespanha.

Porque, de facto, uma nacionalidade que possue criticos tão notaveis como Francisco Maria Tubino, director da excellente revista La Academia, e poetas tão distinctos como D. Ventura Ruiz Aguillera, fundador do magnifico Museu archeologico, e Zorrilla, o arrojado trovador peninsular, que, por fórma alguma, deve ser confundido com o politico, seu homonymo; uma nacionalidade tão forte e tão vigorosa sempre merece ser mais alguma cousa do que uma simples expressão dos velhos tempos theologicos.

Toda a vida de um paiz se resume numa palavra—bom-senso.{66}
{67}

[VIII
A POLITICA]
[1]

[(CONTRASTES)]

Ainda hontem a vimos expulsa da patria, que ella de creança aprendera a renegar no vilissimo ensinamento de um jesuitismo perverso; ainda hontem, humilhada, mas não contricta, lhe mostravam as bayonetas nacionaes que não podia ser{68} aquelle o coito das suas devassidões infrenes; ainda hontem, offendida no seu amor proprio, e sempre arrogante, ella transpunha os Pyrineus, como as columnas de Hercules, por onde jámais lhe seria dado volver ás terras das suas hybridas façanhas e ao solar das suas sabidissimas intrigas.

E no entretanto esse magnifico sol, que parece ter brilhado para toda a Europa, no explendido fulgôr de uma vivissima luz, apagou-se subito no horisonte, deixando empós de si o triste e doloroso prenuncio de uma tempestade eminente.

E, coisa singular, nada faltou áquelle dia de festa.

Ayalla coloria o seu estylo brilhante; e com as côres douradas da sua divina palheta, quasi se sentira feliz por festejar aquelle sahimento funebre de uma mulher, justamente condemnada pelos fastos da historia e merecidamente repellida pelos progressos da humanidade; o duque da Torre alçava para o céo a sua cabeça de cidadão arrojado, congratulando-se com os seus e com os estranhos pela{69} victoria da justiça do seu paiz: Sagasta tinha a convicção de uma grande causa conquistada, e persuadia-se ter concluido uma obra meritoria; Prim, o esforçado batalhador de Marrocos, ostentava em pleno dia as alegrias que lhe iam na alma, e as esperanças que se lhe occultavam no coração; Castelar, emfim, com todo o arrojo da sua notavel eloquencia, suppozera-se victorioso, e victorioso para sempre.

Mas, coisa ainda mais singular! todas estas acclamações de momento, todas estas palmas improvisadas, todos estes delirios de occasião, todas estas festas, todas estas vertigens, todos estes rumores, cahiram, n'um minuto, inesperadamente, abruptamente, revelando-nos, mau grado nosso, que a politica foi, é, e será sempre a suprema contradicção das cousas humanas e a mais evidente demonstração de quanto a humanidade é inconstante, leviana e traiçoeira.

A entrada de Isabel II em Hespanha é a abjuração cabal da revolução de Cadiz.{70}

Pouco nos importa que o sr. Sagasta fosse agora o primeiro a cumprimentar a ex-rainha expulsa, acceitando-lhe o retrato e as perfidias; pouco nos importa que o sr. Ayalla abra tambem o cofre dos seus gabos e a cornucopia da sua generosidade. Tudo isso é do mundo, e nós estamos no mundo. Unicamente, nós temos direito a perguntar aos nossos vizinhos qual é actualmente o seu rei.

Quem governa? Isabel II ou Affonso XII?

A abdicação da rainha por ninguem foi ainda reconhecida. Não é ella de facto que occupa o throno, sabemol-o; mas na realidade é ella quem governa, desde o momento que o consentimento lhe foi dado, para de novo residir no palacio del Oriente.

Que diria a isto Prim, o heroe de 1868, se por acaso hoje vivesse? Que dirão a isto os senhores liberaes de Hespanha, que, por suas proprias mãos, acabam de cavar o proprio sepulchro? E que fará o sr. Canovas del Castillo, o amigo duvidoso da ex-rainha?{71}

E a Hespanha, a nobre filha da peninsula, consentirá impunemente n'este attentado contra a sua dignidade? Volverá ao nefasto governo dos Clarets sem um protesto, sem um brado de indignação, sem uma affirmativa do seu brio e do seu pundonor?

Nada temos com personalidades. A politica pessoal é, de todas as politicas, a mais detestavel e a mais perniciosa. Mas se isto nada é, o principio é tudo. É forçoso respeital-o e seguil-o. De outro modo não ha paiz que se sustente, da mesma maneira que sem leme é impossivel a navegação no mar.

Amadeu I, pela sua demasiada simplicidade, não logrou nunca que os hespanhoes o guindassem ao fastigio da gloria. Muito bem. O sr. Zorrilla dispensa-o do seu serviço, e prepara-se para dirigir a politica do seu paiz. Mas, ó incoherencia! o proprio sr. Zorrilla, segundo affirmaram alguns, é o primeiro a divorciar-se dos republicanos, emigrando e dizendo-se apenas radical. E, por incoherencia ainda, é elle hoje o conspirador por excellencia,{72} e, segundo todas as vistas, o chefe do futuro gabinete republicano.

E tão odioso é de facto o seu nome ao actual governo, que, ainda ha pouco, o jornal El Globo, orgão do sr. Castelar, e de que é director o sr. Olías, foi supprimido por apenas lhe ter estampado a photographia na primeira pagina.

E esta suppressão indigna, violação manifesta do direito, da justiça e da propriedade, foi feita sem denuncias, sem accusações fiscaes e sem que os tribunaes fossem, ao menos, ouvidos.

Tal é, em geral, o fructo dos governos restauradores!

Quando Affonso XII subiu ao throno não faltaram, nem as apostas, nem os protestos, nem as indignações.

Mas tudo isso passou. E el niño de su madre, o pequeno authomato dos tempos modernos, convicto de que o seu reinado havia de ser de ouro, sentou-se no throno, com o serenidade de um fingido Bourbon, sem consciencia e sem reflexão.

Agora, porém, falla-se com insistencia numa nova revolução. Madrid agita-se; o{73} exercito divide-se; a fazenda publica está num estado desesperador; a população descrê; tudo isto, aggravado ainda com a vinda da rainha Isabel para Madrid, que a todos inspira odio e antipathia, faz suppôr que o movimento revolucionario se não demorará muito no seu apparecimento.

Ninguem hoje tem o poder de resuscitar cadaveres. A elevação de Affonso XII ao throno nunca passou mesmo de uma mera phantasmagoria politica, especie de entreacto entre o passado e o futuro. Hão de tornal-o a enterrar, estou convencido, e sem grande difficuldade.

Conta-se que num jantar, ultimamente dado em Barcelona, se reuniram seis politicos de vulto. Travada a discussão viu-se que cada um d'elles professava opinião differente ácerca do estado geral da patria. Progrediram assim as cousas; e de tal maneira que, no fim do banquete, os copos voaram pelos ares ao clamor estridulo e confuso de uma contenda infernal. Ninguem se entendia. O meio de persuasão estava já nos punhos arregaçados e{74} nos calices feitos pedaços. Finalmente parece que tão delicioso repasto terminou, sem levar a convicção ao espirito dos convivas, é verdade, mas deixando-lhes, todavia, a liberdade do vinho absorvido, e a gloria dos destroços por cada um operados em favor da sua causa.

E assim é, em quanto a nós, tambem a politica em Hespanha—uma Babylonia!{75}

[1] Este artigo, embora restricto a um facto particular da actual dynastia reinante em Hespanha, póde, todavia, ampliar-se á politica geral do paiz, e por elle ser criticada.

[IX
MUSEUS]

No seculo XVI, ao mesmo tempo que tudo decahia em Hespanha—politica, commercio, industria—como que para contrastar, surgia, por outro lado, o primeiro poeta hespanhol, Calderon, e o primeiro pintor, Velasquez.

E desde então para cá as artes e as sciencias têm tomado um incremento verdadeiramente assombroso; a ponto de, ainda ultimamente, muitos professores da Universidade de Heidelberg, varios homens politicos francezes, e alguns sabios de Inglaterra, se terem reunido afim de{76} lançar os primeiros fundamentos da Universidade livre de Madrid, que o sr. Canovas del Castillo referiu que se chamasse Instituto livre de ensino.

Em todos os museus de Madrid, que são muitos e admiraveis, se encontra a immortalidade da historia hespanhola aliada á eloquencia do genio e da inspiração individual.

O Museu real de pintura e esculptura, situado no passeio do Prado, é ainda hoje um dos melhores do mundo, e foi fundado por Fernando VII, a rogo de sua esposa Maria Christina.

Impossivel nos seria dar aqui uma resenha historica de todos os principaes quadros que adornam aquelle paraiso. Apontaremos no entanto alguns.

A escóla de pintura hespanhola resente-se extraordinariamente do catholicismo que lhe servia de inspiração. Assim, para exemplo, pódem ver-se, entre outros, os quadros de Murillo, um, symbolisando a Annunciação de Nossa Senhora, outro, representando a Familia Sagrada, outro desenhando a Concepção, etc.; e os de Velasquez,{77} que tem um Nosso Senhor Crucificado maravilhosamente acabado, assim como um outro intitulado o Quadro dos bebedores; os de Rivera, que produziu o Martyrio de S. Bartholomeu, S. Jeronymo em oração, etc.; e os de Zurbaran sobre assumptos mysticos, e os de Goya, que realça principalmente por um retrato a cavallo de Carlos IV, etc.

A escóla florentina é, como a hespanhola, uma escola religiosa. Assim, temos de Leonardo de Vinci dois esplendidos quadros: o retrato de Mona Lisa, mulher de D. Francisco Gicondo, cavalleiro florentino, e a representação da Familia Sagrada, tendo S. João e o menino Jesus em attitude de se beijarem; de Andréas del Sarto, chamado Andrea Vennucci, um retrato em busto de sua mulher Lucrecia Fede, e muitos outros; de Miguel Angel Buonarroti um Nosso Senhor atado á columna; e, como estes, outros de Bronsino, de Allori, de Carducei, de Vanni, etc.

Na escóla romana o principal expositor é Sanzio Rafael, chamado Urbino, que possue, entre outros, A queda de Nosso{78} Senhor Jesus Christo com a cruz, conhecido pelo nome de Pasmo de Sicilia, e muitas allegorias á familia sagrada, umas conhecidas por Ecce Agnus Dei, outras pela Rosa, outras pela Perola, etc. Seguem-se-lhe Julio Romano, Sassaferrato, Barroci, etc.

Na escóla veneziana o mais importante é Piciano, que tem uns magnificos quadros de Carlos V a cavallo, de Jesus Christo apresentado ao povo, do peccado original, da Victoria de Lepanto, da Virgem das Dôres e do Ecce Homo; depois temos Bellino, Tintoretto, Bassano e mais alguns.

As menos notaveis, talvez, neste museu são as escolas, bolonheza, lombarda, a de Milão, e a de Napoles, as quaes, não obstante, ainda apresentam nomes como os de Corregio (lombardo), Dominiquino e Guido (bolonhezes) e Salvator Rosa (napolitano).

Nas escólas franceza, hollandeza e allemã ha cecebridades, como Pedro Paulo Rubens, que apresenta o Castello de Emaus, A serpente de metal, Orpheu e{79} Euridice, A dança dos paizanos, As tres Graças, Perseu libertando Andromeda, e outros, sendo 62 a somma total dos seus quadros, ali expostos, a 28 os da sua escóla.

Antonio Van Dyck dá-nos retratos admiraveis, taes como o do pintor David Rickart, o da duqueza de Oxford, o de Carlos I a cavallo, e o de D. Henrique, conde de Berga.

David Teniers é pintor quasi bucolico, e offerece-nos quadros d'um mimo inexcedivel—Um colloquio pastoril, Uma festa de paizanos, Um banquete campestre, etc.

Antonio Raphael Mengs (allemão) é auctor de Santa Maria Magdalena; Rembrandt (hollandez) tem A rainha Artemisa; e Moso Antonio (da mesma escóla) pintou a esposa de D. João III, rainha de Portugal.

A escóla franceza tambem ali se acha dignamente representada por Pousin, Claudio de Lorena, Antonio Watteau, Claudio Vernet e muitos mais.

Emfim, só a narração circumstanciada d'este museu daria para um grosso volume,{80} não incluindo já na conta a galeria de pinturas da Academia de S. Fernando, na rua de Alcalá, que possue mais de 300 quadros, e o Museu nacional de pintura, na rua da Atocha.

Se o leitor fôr curioso, com certeza não deixará de visitar os museus de Madrid, que evidentemente constituem os monumentos mais notaveis da civilisação hespanhola.

Só no museu de antiguidades e medalhas, na Bibliotheca nacional, se pódem ver mais de 98:000 medalhas de ouro, prata, ferro, bronze, cobre e barro, e muitissimas e numerosas antiguidades egipcias, etruscas, gregas, romanas, godas, arabes, etc.

Na rua de Alcalá encontra-se o Museu de historia natural, que foi fundado no tempo de Carlos III, e que possue ricas collecções de mineralogia, de paleontologia e de zoologia.

Dos melhores do seu genero são tambem o Museu anatomico de S. Carlos, na rua da Atocha; o Museu de artilheria, no Buen Retiro, e o Museu naval no{81} ministerio da marinha, o qual contém uma rica collecção de armas, tropheus, e outros muitos vestigios de guerra e de combate.

Em Hespanha ha uma tendencia especial para esta arte. Raros são os particulares que não possuam tambem o seu museu.

Um vi eu que me maravilhou devéras. Pertencia a Romero Ortiz. Entre outras raridades, foi-me dado vêr ali o mappa em que o general Moltke traçára a guerra franco-prussiana, e a faixa encarnada que Prim tinha cingida á cinta na noite em que o assaltaram. Muitas reliquias portuguezas me foram tambem mostradas, e creio até que uma do fallecido visconde de Castilho.

Não ha de facto palavras que facilmente descrevam tanta arte, tanto aceio e tanta maravilha.

Sobretudo—que maravilha!{82}
{83}

[X
A MUSICA]

Poucas cidades ha já hoje na Europa que não tenham o seu theatro lyrico. A musica não é apenas um entretenimento agradavel; é ainda mais, uma necessidade impreterivel.

Aos domingos e dias santificados, aquelles que, por falta de meios, não podem concorrer a espectaculos pagos, procuram naturalmente os jardins publicos, onde, gratuitamente, lhes é dado ouvir uma orchestra ou uma banda musical. E assim, este simples divertimento faz com que muitas vezes se afastem da taberna muitos{84} centenares de operarios. É que a attracção de uma boa musica traz-nos frequentemente o esquecimento das proprias dôres e dos proprios soffrimentos.

Tres escólas se disputam a palma no campo da lucta.

Uma (a escóla allemã) é a harmonia: raciocina, descreve as lendas do seu paiz, e obriga á reflexão; outra (a escóla italiana) é a melodia: corre atraz da sua imaginação, queda-se com um sentimento triste, expande-se com a dôr, e recolhe-se com o amor. A primeira é grave, solemne, austera, e pertence naturalmente aos povos do norte; a segunda é meiga como uma mulher portugueza, leviana como a natureza em que vivemos, doce como os costumes da Italia, e a sua vida está subordinada aos povos do meio dia.

Na Africana, por exemplo, ha gritos selvagens, notas lancinantes, harmonias plangentes; mas tudo isto com a inexcedivel pericia de um maestro consciencioso, e, sobretudo, pensador.

Beethoven tem o condão maravilhoso de nos compellir ao estudo, á concentração{85} intima, ao seguimento de uma idéa, que é como que o desabroxar do espirito para um mundo novo.

Grottschalk e Mendelssohn têm nas suas composições o cunho indelevel da tristeza, prevêem a morte, e cantam-n'a. Não têm horror ao mysterio, e por isso as suas partituras avivam em nós um não sei quê de vago, de indefinido, que involuntariamente nos obriga a interrogar os arcanos da consciencia.

Mozart tem uma certa vivacidade que seduz; em meio das suas lucubrações pára, e, espraiando a vista pelos horisontes além, sente-se feliz, e sorri; e tão formosos são os seus sorrisos, que d'elles, como se fossem um sol, partem os raios animadores das suas obras monumentaes.

Ricardo Wagner, hoje o maior vulto musical da Allemanha, tem nas suas obras, a par do rythmo, profundamente cadenciado e harmonico, uma feição notavelmente litteraria e artistica; estudando as lendas do seu paiz, conta-as com a superioridade de uma grande potencia, a quem não escasseia nem o genio nem a phantasia.{86}

A terceira escóla é a franceza, sem ideal definido, portentosa umas vezes, com os arrojos de Meyerbeer, e suavemente deliciosa n'outras occasiões, com as meigas melodias de Bellini ou Donizetti. E no entretanto uma coisa distingue esta escóla: é a verve, o frescôr animadissimo, transparente, que se exhala de todas as notas; a harmonia que nos leva á meditação; a melodia que nos arrasta os sentidos, á selhança de quem vive numa atmosphera impregnada de vapores e de perfumes.

A escóla franceza tem, é verdade, muito de condemnavel como escóla ecletica; mas ainda assim não devemos nunca esquecer que a ella pertencem talentos soberbos, como o de Gounod, compositor do Fausto, e o de Berlioz, auctor do Manfredo, que para muitos foi o predecessor de Ricardo Wagner, e o de Auber, e o de Herold e o de muitos outros.

A escóla franceza é, pois, uma intermediaria entre a escola allemã, toda subjectiva, inspirando-se nos grandes arrebatamentos da consciencia humana, cheia de gravidade, como a justiça, rodeada de{87} esplendores, como a verdade e infiltrada de meditações, como o espirito da humanidade, e a escóla italiana, toda objectiva, obedecendo mais ás impressões dos sentidos, tendo por norma de vida o ideal da natureza, cercada de flôres, de primaveras e de aves, e cantando o paraizo ao som das intimas alegrias e dos intimos prazeres.

Os dilletanti do nosso theatro lyrico quasi que chegam a menosprezar hoje a musica italiana, por obnoxia e anachronica.

Não nos parece razoavel semilhante proposito. A não ser a moda, não sabemos que outros factos possam abonar tão disparatada opinião.

Portugal não tem uma educação musical verdadeiramente avigorada. Está longe ainda de poder attingir o classicismo allemão.