Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1894.
Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Os erros tipográficos que nos suscitaram dúvidas foram também corrigidos, e foram assinalados com um comentário do tipo: texto corrigido.
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA—25.º Volume
Contos phantasticos
{II}
{III}
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
THEOPHILO BRAGA
CONTOS PHANTASTICOS
SEGUNDA EDIÇÃO
CORRECTA E AMPLIADA
LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor
50—RUA AUGUSTA—54
1894
{IV}
{V}
PRELIMINAR
(DA 2.ª EDIÇÃO)
Vae para trinta annos que estão publicados os Contos phantasticos. Em boa verdade, nunca mais passei os olhos por este livro, que me apparece agora como obra de um extranho. Não tornei a lêr esses contos, não por um affectado desdem pela minha obra, desdem que condemno em todo o escriptor que se não preoccupa com a coordenação definitiva dos seus trabalhos, mas porque este pobre livro ficára ligado a impressões dolorosas cuja renovação evitava.
Foram reunidos em volume em 1865 os Contos phantasticos no meio das refregas da conhecida Questão de Coimbra; publicára a maior parte d'elles no Jornal do Commercio, em cuja collaboração litteraria auferia uns tantos réis com que ia seguindo o meu curso na Universidade. De repente achei-me cercado de odios; cortaram-me os viveres na empreza do jornal, nas aulas de Direito tiraram-me a mesquinha distincção academica, os criticos espalmaram-me rudemente, os livreiros recusaram-se a dar publicidade ao que escrevia, e os patriarchas das lettras com o peso da sua auctoridade sorriam com equivocos sobre o meu valor intellectual, chegando a circularem lendas depressivas do meu caracter e costumes que só consegui desfazer{VI} com uma vida ás claras e cheia de ignorados sacrificios. Outro qualquer ter-se-hia rendido.
Vi-me forçado a inverter as bases da minha existencia, abandonando a Arte que me seduzia, porque me abandonara a serenidade contemplativa, e lancei-me á critica, á erudição, á sciencia, á philosophia. N'este campo os meus erros e exageros bem merecem ser perdoados. Só muito tarde é que consegui conciliar em mim estas duas tendencias do espirito; mas não pensava em reimprimir os Contos phantasticos, a não sêr um dia em uma collecção de cousas avulsas constituindo a ingenua miscellanea das minhas Juvenilia.
Uma carta do meu bom amigo Antonio Maria Pereira surprehendeu-me, manifestando o desejo de fazer uma nova edição d'estes Contos. Como recusar-me a uma tão honrosa proposta?
Resalvei a condição de revêr isso de que nem já formava ideia. Foi assim que tive de lêr os Contos phantasticos, do rapaz de vinte e dous annos que existiu em mim, e a frio pude julgar da impressão por elles produzida. Achei ali uma fraca penetração do mundo subjectivo ou moral, encoberta com o esforço das comparações poeticas e dos epithetos; desgostou-me o estylo em que a prosa se confunde com o verso,—apresentando ainda a falta de nitidez de quem não pensa com segurança; e emquanto ao drama da vida, que é o thema eterno das obras de arte, notei tambem pouco movimento, as situações são narradas em vez de succedidas.
O que salva então o livro?
Uma pequena cousa, que é tudo,—a paixão. Ao fim de trinta annos ainda achei ali calor, a ardencia de um organismo que se queima, a vibração sensorial de uma mocidade plena que se lança de peito aberto ao combate da vida.
Foi esta paixão flagrante que fez com que esses Contos não ficassem esquecidos no Jornal do Commercio de 1865; voltando então de umas ferias para Coimbra, felicitou-me{VII} Eça de Queiroz, affirmando-me que nos cafés em Lisboa cortavam-se os folhetins, quando traziam algum conto meu. N'esse mesmo anno José Fontana quiz publical-os em um livro, que seguiu o seu fadario, sendo o mais glorioso o andar na algibeira do celebre engenheiro João Evangelista, que morreu devorado por uma violenta paixão amorosa. O pequeno livro estava na mesma afinação da sua alma. Cartas, que ainda guardo, me fallaram da impressão de um ou outro conto, por esse tempo.
Tudo isto me lembrou ao sentir que effectivamente o fogo que ha n'esses mesquinhos quadros se communica. E n'este dilemma dos dois amores, em que ainda se debate o espirito, attrahido para a arte e seduzido pela sciencia, hoje repassando as paginas d'este livro, é com uma certa piedade saudosa que o deixo reviver na publicidade, e lhe inscrevo com a frieza do Qualificador inquisitorial: Feitas as emendas necessarias póde correr.
Fevereiro de 1894.
THEOPHILO BRAGA.
{VIII}
{1}
As azas brancas
I
Sempre o mesmo olhar doloroso! uma constante expressão de magoa, esse abandono, que é o tedio da vida! Porque é que na flôr dos annos, quando a existencia se purpurêa com todas as graças que se entrevêem apenas em sonho e se veste das alegrias que a rodeiam, como uma criança enfeitando-se distrahida com as florinhas espontaneas, tu, bella, sentida, deixas reflectir pela transparencia da tua face pura um clarão pallido e incerto como de agonias e desespero, como a phosphorecencia de um grande mar que estúa? Diante de ti sente-se uma oppressão estranha, a mudez sagrada de uma grande floresta, o terror gélido, de quem entra na caverna de uma sibylla. Porque é que os teus vinte annos, as fórmas arrebatadoras{2} do teu flexuoso corpo de sylphide, que verga pela dôr, mais languido e gentil do que a palmeira solitaria embalada nas bafagens mornas vindas da amplidão remota do deserto, como é que toda esta adolescencia, que te cinge como auréola de encanto e attractivos, me faz ter medo de ti, me prende a voz temerosa e balbuciante, que ousa ás vezes perguntar-te:
D'onde vieste? Em que scismas? Que véo te acena e está chamando de longe? Porque te escondes dos olhos que choram de vêr-te assim desolada, na consternação de uma angustia intraduzivel por palavras humanas? Porque não fallas, e nos contas o que soffres? Porque te deixas ficar horas esquecidas com a mão firmada ao rosto, suspensa n'uma contemplação divina, irradiante, de um modo, que ninguem ousa dizer se és da terra, se és a incarnação de alguma essencia archangelica que anda errante no mundo a sanctificar o amor no soffrimento?
II
Ás vezes o teu semblante, onde se póde lêr um enigma que se não destrinça, tem a lividez de cera, e a claridade que parece conter em si o jaspe. Então julgo vêr-te uma santa, sob o aspecto de penitente que acha em cada successo da vida uma tentação occulta nas apparencias mais risonhas, no folguedo mais descuidado e innocente, do{3} mesmo modo que o áspide se esconde no alegrete das mais perfumadas flôres ou o somno lethal na sombra da mancinella verdejante e copada, aberta ao sol, como uma escrava sustentando a umbella com que abriga do rigor das calmas a voluptuosa odalisca.
Os vinte annos são a alegria, a innocencia, a expansão; ainda não viveste bastante para provar o travo amargo da vida, não sabes conhecer a tormenta que ha de vir pela nuvem que negreja, nem a bonança pelo santelmo, nem os parceis pelo refluxo da vaga marulhosa, nem o porto pelo perfume embalsamado da terra. Tu passas na vida como um meteoro fulgurante que não procura aonde irá caír, como uma creatura somnambula que não vacilla, não hesita diante do abysmo que transpõe, nem deixa possuir-se da attracção irresistivel porque a desconhece. A vida é assim para ti; passas despreoccupada do mundo, levada na ondulação saudosa d'essas vozes interiores que te segredam mysterios indefiniveis que fazem sentir o desejo de voar para o alto, até perder-se no azul.
Os teus cabellos, quando os deixas cair destrançados sobre os hombros de marfim, agitados pela brisa vespertina que vem confidenciar comtigo á janella, que olha para o occidente, esses cabellos louros, extensos, são como as cordas de uma harpa, em que as imagens incoerciveis de teus pensamentos vêm fallar do céo, do amor, no frémito ligeiro, quasi imperceptivel das vibrações que só tu comprehendes.{4}
Consternada e muda como uma estatua, a Niobe grega, o teu silencio incute uma sublimidade prophetica; parece guardar a impressão do sêlo mais tremendo do Apocalypse,—a missão da mulher forte.
III
Quem sabe se é o amor que a transporta assim para as solidões, como a pomba que vae esconder-se na rocha alcantilada? O amor que esmalta a vida de harmonias e encantos, que acorda as virações para levarem longe o pollen fecundante, que abre o calyce das flores para as abelhas tocarem os nectarios deliciosos, que une o gemido do regato trepido com o ruido, brando que adormece, do canavial que orna as margens sinuosas? O amor é um amplexo, a identificação; como poderia divorcial-a com a vida, mudar a sua alegria em uma tristeza que é como o presentimento do sepulchro? Aquelle segredo incommunicavel opprime, aterra como a sphinge propondo o enigma.
Ella cada vez andava mais desfallecida, pendia de cansaço, offegava; mas procurava illudir os disvelos da familia com um vigor que não tinha, como succede ao naufrago quasi a afferrar a terra, de que a ressaca da onda o afasta, e que hesita se deve luctar mais tempo, se deixar-se engulir nas voragens do oceano. Gravitaria ella em volta de um mundo em que procurasse absorver-se, e{5} a vida da terra, de cá, fosse como o refluxo que a impellia para longe? Pobre flôr, que se debruça nas bordas da sepultura, será uma illusão quanto a sua alma ingenua sente? Serão uma mentira todas as harmonias que se modulam lá dentro? O tapiz verde da relva fresca, lubrica, que a chama para vir doidejar ali n'um volteio feérico, febril, esconder-lhe-ha o lodo de um charco estagnado que a ha de engulir para sempre?
Tenho medo de vêl-a assim, com os olhos fitos no horisonte, n'essa morbidez do extasis; a vertigem póde sacudil-a, e precipitar-se, como a borboleta prateada e indiscreta. A sua alma eleva-se para o céo; porque vôa tão cedo para cima a nevoa da madrugada, de uma alvura nitente? A andorinha quando parte, vôa na aza da rajada hybernal que a arrebata.
Mas o mundo acariciou-a sempre; porque se esconde pois e foge d'elle? Será a reminiscencia viva do foco de luz d'onde saiu, que lhe inspira tamanha anciedade, e lhe abre n'alma uma saudade vivissima, que mata? Ás vezes está tranquilla, immovel, como quem escuta a toada de um concerto mavioso que embala e com que se adormece. Oh, quem ousará despertal-a? Seria perturbar a crystalisação de uma gota de orvalho que se transforma em perola. Outras vezes tem o olhar pavido, firme, de quem contempla e pasma ante uma visão immensa e augusta. Que apparição risonha virá fallar-lhe? Eros, na solidão remota da noite? Será o desejo de vêl-o, o desalento{6} do impossivel, que a fazem reconcentrar assim n'essa dôr? Uma lagrima era a gota do oleo aromatico da alampada escondida; em vez de fazel-o desapparecer, envolto na nuvem branca e etherea, a lagrima trazel-o-hia como um grande astro que attrae após si myriades de planetas.
IV
A tarde declinava amena, festiva, com o ultimo lampejo de graça que deixa presentir já a melancholia do outomno. Emma ergueu-se da mesa; o rosto estava deslumbrante de transfiguração, possuida do sentimento do infinito, que lhe dava uma expressão sobrehumana, excelsa, que se não podia fitar, similhante á Seraphita enlevada nas illuminações swedenborgianas, ao transpôr os precipicios icarios, inaccessiveis dos fiords da Norwega.
N'aquella tarde parecia oppressa por uma angustia mais intima. Segui-a, queria admiral-a na altura a que se remontava, queria que me fizesse herdeiro do seu manto prophetico, no instante em que se librasse no carro de fogo, como Elias. E ella era bem a prophetisa do deserto. Approximei-me. Estava serena e placida, como quem mergulhára no oceano da contemplação. De mais perto vi que dormia, com um somno hypnotico. Ficára-lhe um sorriso estampado nos labios; parecia o involucro de uma chrysalida mysteriosa;{7} a borboleta voára para a luz, abandonára-o na terra.
Conservava então um livro sobre o regaço; a mão inerte repousava sobre a pagina. Um leve signal notava uma phrase profunda em que a alma se lhe absorvêra: «Um anjo está presente a um outro, quando elle o deseja.»
Procurei vêr de quem era o livro. Era escripto por Swedenborg, o patriarcha dos theosophos do norte, o que levou mais longe as relações com o mundo invisivel. O livro intitulava-se: A sabedoria angelica da omnipotencia, omnisciencia, omniprezensa dos que gosam a eternidade, a immensidade de Deos.
Emma acordou de subito. Senti um estremecimento de terror, começava a comprehender a sua solidão. Eu mesmo tinha estudado a segunda vista, colligido alguns phenomenos de suggestão que se passavam no meu espirito, conseguira por uma excitação nervosa perenne a hypnotisação voluntaria.
V
Tambem no livro De varietate rerum descreve Jeronymo Cardan a faculdade que tinha de experimentar o extasis espontaneo, e de tornar objectivas as imagens creadas na sua mente: «Quando eu quero, vejo o que me apraz, e isto não só com o espirito, mas com os olhos, com essas{8} imagens que eu via na minha infancia. Mas agora creio que ellas são o resultado de minhas occupações. É certo que nem sempre possúo esta faculdade, comtudo não a tenho senão quando quero. As imagens que eu vejo estão sempre em movimento; é assim que vejo as florestas, os animaes, os diversos paizes e tudo quanto eu quero vêr. Creio que a causa de todos estes effeitos está na actividade da minha imaginação e n'uma vista penetrantissima. Desde a minha infancia tinha de commum com Tiberio Cesar o poder vêr na obscuridade mais profunda, como em pleno dia. Porém não conservei muito tempo esta faculdade. Apesar d'isso vejo ainda alguma coisa, postoque não posso distinguir bem o que vejo; e attribuo este effeito ao calor do cerebro, á subtileza dos espiritos vitaes, á substancia do olho, e á energia da imaginação.» (Lib. IV c. 43.)
É esta uma qualidade vulgarissima nos povos do norte, principalmente os insulares, conhecida sob a denominação de Second sight. Ahi a imaginação tendo pouca variedade de paizagem que a fecunde, volta sobre si o que ha edificado e exagera-lhe as proporções. Por isso as theogonias do norte são terriveis. As avalanches suspensas a precipitarem-se, os nevoeiros diffundidos por toda a parte como um sudario immenso e frio, a aurora dos polos a desdobrar-se esplendida, tudo faz sonhar de um mundo phantastico, escutar essas toadas vagas, indefiniveis dos espiritos que se annunciam pelo ressoar de uma harpa longinqua.{9} O dom da visão é commum; é assim na ilha de Ferroë. Que virgens se não ostentam n'uma apparição repentina, e que o vidente procura, sem nunca mais poder encontral-as! Balzac, o observador sem egual do coração, sentiu toda a poesia do norte no poema de Seraphita; é um mysterio, o enlace da philosophia e da poesia, um extasis indecifravel de Swedenborg, contemplado nas fiords da Norwega. O delirio de Seraphita é o problema incessante da percepção immediata; o seu amor é mais puro que o ideal de Dyotima, é elle que lhe dá a segunda vista.
Taishatrim e Phissichin são os nomes que em lingua gaëlica se dão aos que tem esta faculdade. Os factos observados são innumeros, o seu estudo é dos nossos dias. Kant combateu a doutrina visionaria de Swedenborg, mas não attendeu que este phenomeno physico era todo sentimental; viu no patriarcha dos videntes do norte um impostor. A vida exemplarissima de Swedenborg é um desmentido completo e irretorquivel aos argumentos d'esta ordem.
Como explicar a inspiração continua, a segunda vista? A alma paira entre dois mundos—o physico com que se relaciona pelos sentimentos, o psychico com que se relaciona pelos presentimentos; se é attrahida para o mundo dos corpos, predominam n'ella os instinctos, e as sensações, todas relativas, só lhe advém pela presença dos objectos; se a alma por um desejo vehemente se eleva do estado de anima ao de spiritus, os sentimentos{10} desprendem-se do nexo das relações terrestres, e conhecem tudo independente das sensações pela representação subjectiva. É o que acontece aos poetas, cantando a belleza de fórmas não sonhadas, a reminiscencia de harmonias não ouvidas.
VI
Emma estava n'aquella tarde tão affavel! tinha por certo a consciencia de ir em breve completar-se na essencia de algum anjo. As suas fallas eram como suspiros. Lançou-me um olhar interrogativo, de quem temia fazer-me uma pergunta indiscreta. Eu desconhecia-lhe aquella affabilidade de seraphim, costumado a vêl-a sempre aéria, desdenhosa do mundo, radiante como na transfiguração do Thabor. Apertei as mãos d'ella entre as minhas, queria tirar um som d'este instrumento celeste, cujo segredo de harmonia era só percebido pelos anjos. Se podesse desferil-o, havia de perguntar-lhe o motivo de tanta tristeza, a intensidade d'essa dôr tão intima, tão espiritual, que se não póde exprimir na materialidade phonica da palavra. Ella adivinhou o meu desejo:
—Tens uma vontade energica?—perguntou-me quasi a medo e de um modo sybillino. Seria uma phrase abrupta para qualquer, e inintelligivel até; eu porém que devo á actividade só d'esta{11} faculdade tudo quanto sou, as grandes dôres, os impulsos irresistiveis, as glorias sonhadas, a realisação dos mais exiguos appetites, que a encontro na intensidade absoluta do Fiat, que é Deus, que a vejo nos grandes factos do espirito, a Religião, o Direito e a Arte: na religião manifestando-se emotivamente na fé; no direito, no accordo dos contractos individuaes; na arte, no ponto onde os gostos diversissimos se harmonisam, isto é o bello; eu, repito, comprehendi aquella interrogação na sua plenitude. E começava a conhecer mais o poder da vontade porque acabava de observar o resultado do acto em que a exercera.
Emma fitou-me com um olhar profundo; o semblante era magestoso e santo, como o frontispicio de uma cathedral da Edade média; as flexas, as linhas architectonicas a infinitivarem-se para o alto, eram os seus cabellos; o olhar, o olhar que me opprimia n'esse instante, era mysterioso como uma ogiva sombria. Tive o medo do neophyto, quando ouve mugir a caverna, e escoar-se a brisa gelida e olorante pela fenda do penhasco, e quasi que se esvae em terra sem sentidos, ao vêr attonito as convulsões do hierophante. Emma perguntou-me se eu cria nas relações com o mundo invisivel. Hesitei um instante, depois volvi:
—Creio, mas não as sei demonstrar por uma fórmula, que, embora refutavel, tenha valor philosophico.—Ella ouviu-me com o pezar e serenidade de uma joven esposa na sua viuvez, que{12} ouve o filhinho a perguntar-lhe pelo pae. Depois murmurou, encostando a face sobre o meu peito:
—És tão novo ainda, e porque matas em ti já o sentimento pela reflexão? A reflexão é fria, é terrena, não comprehende sem decompôr para recompôr. Como se ha de ella elevar ao simples, ao absoluto, que tem por attributo supremo a indivisibilidade? A luz, que é incoercivel, não se espelha na face quieta do lago? O sentimento é assim; só elle te póde levar além das relações e das contingencias. A substancia é unica; esta essencia d'ella é que prende pela unidade a multiplicidade dos attributos. Todas as vezes que te absorveres na unidade que te allia como attributo ou modo á substancia, entraste na essencia de todas as cousas, porque o simples que actua n'esse momento em ti, é o mesmo em que tudo existe. Vibra em ti a harmonia universal.
E continuou com palavras quasi imperceptiveis. Estava em extasis, no extasis da abstracção, como o sentia Newton quando determinava a essencia de uma ordem de factos complexos, na lei que havia ficar eterna, e a que havia imprimir o seu nome. Tive vontade de lançar-me por terra, diante d'aquelle espirito incomprehensivel; precipitava-me se ella me dissesse como satanaz, quando arrebatou Jesus ao pinaculo do templo:—Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me.{13}
VII
Quando Emma saiu da sua mudez sublime, recostou-se sobre o meu hombro com uma graça infantil:
—Ainda não sabes porque ando triste? Olha, uma tarde, puz-me a escutar o murmurio de um regato; parecia-me ser uma musica interior. Tive vontade de saber o que dizia, de confidenciar com elle, de communicar minha alma, que aspirava n'uma sêde de amor. Ao trepidar mavioso da vêa crystallina, scismava, devaneiava, enleiada, embevecida. Adormeci. Pareceu-me então aquelle cicio, como de azas de um cherubim que baixasse a meu lado; via a claridade de alvura de suas roupagens longas, estava silencioso ao pé de mim. Mostrava a expressão da serenidade augusta, uma apparencia que consolava. Acordei, e o mundo affigurou-se-me um desterro, a vida um carcere, tinha uma impaciencia de voar, de fugir, o desejo irrepresivel de tornar a vêr o semblante risonho d'aquelle que me veiu mostrar o mundo intransitavel para a vida, como sarçal espinhoso. De outra vez appareceu-me, brilhante como Iahveh na sarça ardente. Era sempre silencioso. O amor emmudecia-me diante d'elle, quiz seguil-o na visão que se esvaecia lentamente, mas o corpo estava preso aos limos terrenos, como o cordeiro que se prende nas urzes do matagal. A ancia do extremo esforço despertou-me.{14} Foi assim que nasceu essa melancholia profunda, concebida diante do impossivel. Mais tarde conheci o mysterio da vontade; isolei-a em mim, para revocar o ente dos meus sonhos á realidade de um instante. Quasi que me abrasava na intensidade do querer. Elle appareceu-me mais triste. Perguntei-lhe se amava? Sorriu-se. Que era preciso para completarmos uma mesma essencia? o sorriso converteu-se em uma alegria doida, e disse-me vagamente—vôa da terra. Nunca mais tornou a visitar-me no desolamento em que vivo. A vida assim é o vegetar do lichen na humidade das lagrimas derramadas de hora em hora. Porque não hei de voar da terra?
VIII
Ouviu-se trindades n'esse instante; cerrava-se a noite, frigida; o luar vinha saudoso. Emma pediu-me para deixal-a só. Por alta noite via-se a luz derramar-se pela vidraça do seu quarto, luz viva, silenciosa, como da alampada do philosopho hermetico surprehendendo a natureza em algum dos seus segredos mais reconditos.
Emma lia no livro predilecto, que eu deparára aberto sobre o regaço. Pouco depois começou a alvorada. Quando o silencio era mais solemne e a natureza inteira parecia reconcentrar-se em santos mysterios, sentiu-se em casa um estrondo surdo, como o baque de um corpo morto, depois{15} o bracejar, de quem se debatia nas vascas do paroxismo. Ergueram-se á pressa, foram apoz o ecco. Era no quarto de Emma. Seria algum pezadello longo? A porta cedeu á promptidão do soccorro. Foram encontral-a em terra, morta, a pouca distancia do fogão, que saturava o ar ambiente de exhalações carbonicas. O corpo já estava frio; o rosto tinha a pallidez do marmore. A pouca distancia d'ella estava aberto o livro fatal das exaltações mysticas de Swedenborg.
Lia-se esta phrase profunda:
«A innocencia dos céos produz uma tal impressão na alma, que os que são affectados d'ella guardam um transporte que lhes dura toda a vida, como eu mesmo experimentei. Basta talvez ter uma minima percepção para ser para sempre mudado, para querer ir aos céos e entrar assim na esphera da Esperança.»
Seguiam-se outras palavras. Tive medo de lêr mais, porque começava tambem a sentir a seducção da melancholia e reconcentração subjectiva, que leva ao suicidio.{16}
{17}
O véo
Tive apenas um amigo na infancia.
Sinto abrir este conto com a minha personalidade; e, sem pretenções a humorismo, nem a estylo digressivo, conheço que a pessoa de um auctor inculcando-se na sua obra produz o effeito desagradavel, que o senso esthetico original de João Paulo nota no quadro em que o pintor agrupasse tambem a palheta, o cavallete e os pinceis. O valor da personalidade pouco é; os antigos comprehenderam-n'a perfeitamente, quando deram o nome de persona á mascara que o actor trazia para reforçar a voz. A personalidade que se toca, serve para o trato da rua; a individualidade, o caracter, revelado na vontade, são immanentes no livro, são o livro. Antes porém de fechar o parenthesis ahi vão algumas linhas sobre a pessoa do meu unico e primeiro amigo, um alter ego, ou fidus Achates, como diriam{18} dois estudantes de selecta. Não nos démos de repente. Tinhamos o mesmo nome de baptismo, faziamos annos no mesmo dia, começámos a versejar ao mesmo tempo; a affinidade electiva entre nós não provinha d'estas coincidencias, nunca reparámos n'ellas; era uma amizade de terror, respeitavamo-nos. Na eschola fômos sempre antagonistas; quando passámos a estudar latim, ficámos surprehendidos ao vermo-nos algemados ao hora, horæ. Ainda os mesmos desforços, o mesmo orgulho. Então já nos consultavamos sobre alguma duvida de syntaxe, como de potencia a potencia. Mais tarde encontrámo-nos sobre o mesmo banco a ouvir as prelecções estupidas de logica, a logica que nos havia de tornar máos, capciosos, ergotistas. Já não nos temiamos, eramos amigos, tinhamos necessidade um do outro. Depois vieram as confidencias estreitar mais esta affeição. Foi elle o primeiro a fazel-as. Não sei se era amor, compaixão ou cynismo a primeira aventura que me contou. Era assim:
«Eu tive uma prima, não sei em que gráo, culpa das subtilezas canonicas. A pobre criança possuia uma morbidez voluptuosa no olhar, não os tirava de mim. A côr morena dizia tão bem com as linhas nitidas da physionomia arabe, que ella sabia animar com um ár doloroso de uma melancholia expressiva, que se lhe reflectia na face! Eu ficara orphão de mãe e costumara-me a brincar sósinho; ella procurava-me na minha solídão, sentava-se junto de mim; o seu olhar incommodava-me.{19} Mas tinha medo de fugir-lhe, doía-me esta indifferença e para disfarçal-a trepava acima das arvores carregadas de fructos do pomar onde passavamos o verão, e de lá deixava cahir aquelles que mais se douravam com os raios do sol de agosto, os que me expunham a maiores perigos. Ella aparava-os no regaço com a affabilidade com que se queria associar aos meus folguedos.
«Afinal teve vergonha de mim; córava, escondia a face entre as mãos, ficava pensativa e depois fugia-me. N'este tempo contava eu algumas lições de desenho; os meus arabescos tinham uma frescura de innocencia, uma rudeza que parecia uma creação pura arte medieval. Eu tinha a monomania de esboçar cabeças. Não sei quem na familia, me pediu que fizesse o retrato d'ella. Fil-o. O caso deu-lhe uns longes de similhança, tive vergonha da verdade; quando ella me agradeceu com um sorriso timido, eu rasgava o papel com a crueldade de uma criança que brinca. Não a tornei a ver n'aquelle dia, escondera-se a chorar. Não tinha culpa d'esta frieza brutal; a falta de carinhos perdidos logo no berço, a verdade d'esse verso eterno de Virgilio:
Est mihi pater domi et injusta noverca
tornaram-me taciturno, incredulo antes de tempo. Ás vezes obrigavam-me a brincar com ella. Uma vez fômos todos banhar-nos no Atlantico. A pobre criança tambem foi. As marés eram gigantescas;{20} era dia para mim de um orgulho immenso, gostava que me vissem nadar; mostrava uma superioridade minha. O acaso seguia-me o desejo. Uma onda envolveu no seu marulho a infeliz Branca; no refluxo levou-a comsigo. Desfalleceu de susto e foi levada pela vaga, como Ophelia na corrente. Quem sabe se ella no seu coração tecia alguma corôa para mim.
«Abracei-a pela primeira vez, impellido por uma força interior; sustive-a nos braços, estava fria, pallida. Quando abriu os olhos teve vergonha de mim; era já o pudor de senhora. Trouxe-a sem custo para a praia, e continuei em carreiras no dorso da vaga, que se encapellava. Fôra o meu primeiro passo para homem.
«N'esse mesmo dia brincámos, jogando o anel, um divertimento infantil, de que ainda guardo saudades. N'este folguedo de crianças o que tem o anel é sentenciado pelos demais a levar beijos e abraços, ou a dal-os, segundo o capricho. Tinha o anel a filha do feitor que brincava comnosco, Annita, uma rapariga de uma candura estreme. Branca pediu-lhe em segredo que ao percorrer a roda deixasse cair o anel entre as minhas mãos. Assim se deu. Um perguntava o que promettiam a quem tivesse o anel. Cada qual se lembrou de uma prenda innocente e insignificativa; Branca prometteu um beijo e um abraço muito apertado.
«Eu não devia contar-te mais, porque me sinto infame! Este beijo perdeu-a para sempre, como o beijo de Paulo e Francesca di Rimini. Branca foi{21} crescendo, tornou-se formosa á luz de uma esperança fugitiva, como a flôr de um vaso, quando recebe, ao estiolar-se, o calor ephemero do ultimo raio do sol da tarde. Quando ella me sorriu com amargura, e córou de sua queda, sorri tambem por compaixão, illudi-a. Que fazer, se eu era tão novo, inconsciente, e queria divertir-me, gosar o mundo?
«Uma vez tinha eu voltado pela ante-manhã de uma festa louca. Dormia a somno solto, prostrado pela fadiga, esgotado da orgia desenfreada. Senti uma mão fria passar-me de leve nas faces, acordei.
«Era ella! Appareceu desmaiada, como a vi uma vez ao luar silencioso, com uma côr que lhe realçava a candidez, e disse-me:
—«Vim vêr-te na despedida do tumulo. Desde que adoeci nunca mais me appareceste. O esquecimento é frio e pesado como a lagem sepulchral. Eu não queria dizer-te isto, não quero magoar-te; perdôa. Olha, hoje acordei de um sonho tão lindo! deu-me forças para levantar-me do leito e vestir-me de branco para vir contal-o a ti só. Como não choraria minha mãe que me vela se o soubesse! Não sei se velava, se dormia; minha alma parecia voar, suspensa n'uma como cadencia, vaga, quasi imperceptivel, confundia-se com ella até perder-se no céo. Acordei de subito; restava-me só a illusão. Olhei em roda; a alampadasinha tornava a solidão pungente, augusta; pavoroso o silencio do meu quarto. Comecei{22} a lembrar-me de ti, dos passados tempos; estava já na terra. Foi quando descobri a meu lado uma apparencia angelical, a falar-me de mansinho uma linguagem que eu mal entendia: que o Senhor o enviara para chamar-me. Eu não pude voar, voar com elle, e sinto agora que a alma me foge; venho dizer-te adeus.
—E o que lhe respondeste?
—Elle continuou:
«Disse-lhe que os sonhos mentiam sempre, que elles a matavam.—«Não são os sonhos que me matam, gemeu a desgraçada, é a realidade, a realidade. Bem o sabes, e esse que tudo vê. As recordações são para mim como um remorso. Que noites, que vigilias inteiras a pensar em ti! cada palavra tua, que eu decorava, era um poema de amor e esperança; ao repetil-as na mente diziam-me quanto a alma anceava, e mais ainda, mas enganaram-me sempre. Lembras-te d'aquella noite? Oh! meu Deus, meu Deus. Não sabes quanto me fizeste soffrer! Não conheceste a profundidade do golpe quando o descarregaste! Disseste-me essas palavras só para perder-me. É impossivel que isto te não dôa? Quando me appareceste n'aquella noite era o luar tão sereno, tudo confidenciava comnosco. Estava adormecida quando chegaste. Depois de me estreitares nos braços e beijares as faces geladas pelo rociar da noite, porque sorriste de um modo incomprehensivel? Descobriste-me que não casavas commigo, que outro havia polluido a minha candura!{23} Era uma blasphemia brutal. Deixei-me cair em teus braços, sacrificando-te a virgindade para que a reconhecesses. Desde essa noite não me tornaste mais a amar. Illudi-te? Porque assim me fugiste? Uma lagrima só rehabilitava-te diante de Deus. É tarde, muito tarde. Vim só para despedir-me e perdoar-te. Adeus.»
—E tu que lhe respondeste?
«Voltei-me sobre o outro lado, e continuei a dormir.
—Prosegue.
«Foi um pezadello atroz aquelle somno. Julgava-me em uma orgia immensa, na hora ominosa do sabbat nocturno. Um bando de mulheres volteava reunido em uma corêa desenvolta, n'um tripudio infernal, ao redor de um carvalho lascado pelos raios que se cruzavam a espaços na solidão e escuridade absoluta da noite. Dançavam como possuidas do mesmo furor que inspirava a corneta de Oberon. Quando eu ia mais arrebatado pelos requebros voluptuosos, enlaçado a um par ligeiro e flexivel, senti um leve suspiro a meu lado, que se perdeu nos áres. Era como o segredo de uma magoa que eu bem conhecia. Parei. Adormecera a ler uma ballada dos peregrinos do Rheno contada por Bulwer. Junto a mim descobri uma figura de mulher linda, etherea; o semblante tinha a serenidade de uma grande agonia que cauterisa, uma tristeza mais vaga do que a impressão de saudade que a lua desperta quando se reflecte n'uma lagoa quiéta. Era como um seraphim{24} quando chora. Não pude olhal-a; a candura do seu antigo amor exprobrava-me o cynismo. A viração que ciciava não repetiria tão brandamente o que ella disse:
—«Não sabes como te amo ainda além da campa! o gelo do sepulchro não pôde apagar o fogo em que os teus olhos me abrazaram. Esqueci o teu desprezo para perdoar-te. Para que havia ter mais esse flagicio na eternidade? Que destino, que felicidade a nossa, que regosijo no céo, se não houvesses ludibriado este amor! Nossas almas absorver-se-hiam na essencia de um anjo, enlevadas n'um sonho de harmonia, até despertarmos no empyreo. Assim precipitaste-me na mansão das penas e soffrimentos, onde o meu espirito se apura. O amor terreno tenho-o expiado no fogo. Vês este cendal de alvura transparente? estava quasi a tornar-se brilhante de gloria! Pedi a Deus este momento tão breve para poder agora ver-te; o goso fugitivo de contemplar-te, a esperança de te achar triste, scismando em mim com pezar e saudade, a troco de mais cem annos de novos soffrimentos! Cem annos mais, depois de te encontrar nos braços de outras descuidado, rindo desvairado n'uma orgia dissoluta. Oh, mas eu não sei senão perdoar-lhe.»—E desappareceu-me, continuou elle, como um meteoro fugaz, quando passa nos céos, e deixa após si um rasto luminoso. Acordei.
«Em casa ouviam-se gritos, alaridos, como de um successo repentino e funesto. Fui a vêr. Disseram-me{25} que Branca desapparecêra. Cheguei a convencer-me da realidade do sonho, que um anjo a levára comsigo. Perguntei debalde. Passou-me pela mente um presentimento horrivel. Branca costumava ir sentar-se sobre uma rocha que se debruça sobre o mar, e em cujas furnas as vagas restrugem com um stridor surdo, como o anceio do ultimo esforço n'uma lucta desegual. Protegida pelo nevoeiro da madrugada, mais veloz que a ondina da mythologia slava, a pobre fôra saciar os pulmões ralados da febre lenta que a devorava. Houve quem a visse dependurada na aresta dos fraguedos, o véo branco que levava fluctuar ao vento, como n'um adeus de despedida. Ella sentira n'esse instante a attracção do abysmo, lembrou-se d'aquella tarde de agosto, em que eu a salvara, trazendo-a com um abraço á vida; quiz morrer com a recordação mais doce que levava do mundo. Precipitou-se. E o mar murmurava sereno e manso, como a embalar-lhe o seu ultimo somno.
«Comecei então a sentir uma paixão por ella, depois de morta; se a terra a tivesse escondido, eu a iria arrancar ao repouso sagrado da sepultura, beijal-a, animal-a com o fogo do meu delirio, despedaçal-a n'estes braços convulsos, e cair tambem inanime. Queria sentir bem junto do peito o contacto gélido de um corpo que eu tantas vezes apertei, das faces que eu devorava, quando ella se dava aos caprichos da minha vertigem. Havia n'este amor um pensamento de halucinado,{26} um tanto de selvagem, de monstruoso; impellia-me uma inquietação continua, sentia em mim um como ranger de puas do remorso, a voz que interroga Caim. Fugia, não queria consolações. Eu ia sentar-me tambem na rocha escarpada, a vêr o mar, procurando a serenidade que me inspirava a contemplação do sepulchro da minha amada. Vinha visital-o, á busca d'esse allivio de que fala o poeta do Oriente.
«Eram decorridos já tres dias, não se vira mais o corpo de Branca; o mar queria-o para si, mas eu tinha uma vontade fervente, absoluta, o desespero de tornal-a a vêr linda, roxa, núa, desfigurada. Era o mais que podia soffrer. Ia a maré na vasante, no fim da tarde, as ondas gemiam brandamente no areal deserto, as virações da noite sopravam frias, humidas das bandas do poente. Quando desci da rocha escarpada, encontrei inesperadamente o corpo de Branca estendido na area. Era uma criança descuidada, adormecida; a onda que a tinha despido para namorar-lhe a alvura do corpo, viera deposital-a na praia. Ia a precipitar-me para ella, unil-a a mim no frenesim d'essa loucura. Tive medo! recuei sem encaral-a. Temi profanal-a com a vista; estava quasi núa, de costas, com os olhos no céo, como pedindo á noite que viesse recatal-a no seu manto de trévas. Quando tornei junto d'ella com o lençol para a envolver, senti uma ancia de passamento, a lucidez de quem entrevê a eternidade: conheci que o cadaver de Branca se voltara{27} de bruços, furtando á vista profanadora o verticello pudibundo da flor que eu fizera pender sobre o caule e cahir emmurchecida. O inexplicavel deixou-me um terror que ainda me dura...»
Não tive animo para lhe pedir que continuasse.{28}
{29}
A estrella d'alva
(CONTO MARITIMO DO SECULO XVI)
N'isto andava tudo, que se não poderiam pôr os olhos em parte onde se não vissem rostos cobertos de tristes lagrimas, e de uma amarelidão, e trespassamento de manifesta dôr, e sobejo receio que a chegada da morte causava, ouvindo-se tambem de quando em algumas palavras lastimosas, signal certo da lembrança, que ainda n'aquelle derradeiro ponto não faltava dos orphãos e pequenos filhos, das amadas e pobres mulheres, dos velhos e saudosos paes que cá deixavam, etc.
Hist. tragico-maritima, t. I, p. 55.
O sol esmaltava as côres limpidas do horisonte com uns cambiantes de purpura e de azul, cujo cariz incompleto e vago reflecte a melancolia suave em que a alma se concentra n'essa hora fugitiva da tarde. O horisonte fechava-se lentamente, como o véo de um templo que se cerra. As virações travéssas da noite volitavam encrespando a face trémula das aguas, que lhes respondiam ás caricias inquietas, confidenciando com um murmurio sonoroso e confuso. O galeão soberbo da India singrava{30} ufano, buscando em prôa a terra querida da patria; levado nas azas das monções propicias, a vela branca desfraldada aos ventos, tinha o garbo da garça altaneira que se libra vaidosa por sobre as ondas, que ella vae roçando de leve. A flamula ondulante, hasteada no tope do mastro de mezena, serpeava nos áres como em adeus silencioso ás ribas odoriferas do Oriente, a despedida ao paiz dos sonhos e das maravilhas. A natureza como que se absorvera nos encantos d'esta hora; havia um segredo intimo em cada toada perdida d'este concerto do declinar do dia.
Longo tempo um mancebo encostado á amurada do navio, com os olhos fitos na corrente das vagas, permanecêra absorto n'um scismar incessante, como quem atava na mente as apparencias de um sonho mentido, como quem procurava alentar a ultima esperança que prende á vida, e que é como a hera das ruinas. Conhecia-se-lhe na respiração comprimida no peito, que offegava de cansaço, o esforço acintoso com que procurava afastar da lembrança um sentimento funesto.
A pallidez retincta nas faces cavadas pelas insomnias longas e afflictivas, era a expressão dos pensamentos tenebrosos, confusos, incoherentes, que vinham povoar-lhe a anciedade das vigilias. Quem o visse sentiria uma dôr egual áquella, uma vontade irresistivel de entornar-lhe em sua alma o balsamo das consolações, com a prodigalidade do affecto com que a moça desenvolta de Magdala vinha derramar aos pés do divino{31} Mestre os perfumes inebriantes da sua urna de alabastro.
Quem o visse na mudez expressiva d'aquelle desalento, no desamparo e soledade de todas as alegrias da vida, sentia-se levado para elle, como por um condão fascinador, que ás vezes possuem certos olhares que ninguem póde fitar e de que se tem medo. A brisa fresca da noite, que soprava do poente, como trazendo-lhe o presagio do ocaso de suas esperanças, vinha volatilisar a lagrima timida e ingenua que tremeluzia viva na pupilla scintilante.
A este tempo appareceu sobre o convés do galeão alteroso um outro vulto, todo armado contra a rajada asperrima da noite, que se ia cerrando:
—Ainda aqui, Fernão Ximenez? embebido n'esse longo scismar em que o passado se te affigura doloroso e feio? Para que foges de teu irmão? Bem vês que eu procuro distrair-te d'essa agonia lenta que te vae minando a essencia debil da vida, d'esse espasmo da atonia que produz em ti a mudez do sepulchro. O que tens tu em uma vida de criança, innocente, sempre desprevenida, para que o occultes a teu irmão, ao amigo que soffre com o teu soffrimento, e que exulta com as tuas alegrias? Uma ave, quando é levada para um paiz distante, longe do ninho que lhe ouviu balbuciar os primeiros trillos de amor, quando lhe falta a bafagem tepida das auras em que se espanejava contente, desfallece á{32} mingua, prisioneira, ralada pela saudade pungitiva que lhe amofina o sêr. Tu, pelo contrario, á medida que os aromas quasi imperceptiveis da terra abençoada da patria nos vêm dar força para affrontar as tormentas escuras, as cerrações e os cabos perigosos, perdes o animo ante uma dôr imaginaria, e deixas-te apossar de uma ancia, que um instante só de reflexão tranquilisaria. Vamos, serena o teu espirito; seja-te o meu coração o porto almejado onde encontres abrigo. Que receias pois? temes encontral-a na volta desposada, nos braços de outro? Conta-me a verdade toda; amas?
—Se com vinte annos apenas haverá quem não tenha sentido ainda esse desvario divino, que acorda de subito em nós todas as potencias da alma, que rasga brilhante a manhã de um eden terreal, dando realidade á vida, e que a um tempo vibra o estertor e o cicio horrivel dos que se confrangem no barathro do desespero que elle gera! Eu amo, sim. É um amor que tem purpureado de risos todas as horas que me absorvo a pensar n'ella. Para mim é o resumo de todas as bellezas do mundo. Onde a vista depára uma apparição grandiosa, deslumbrante, ahi sinto uma reminiscencia d'ella; ás vezes procuro em vão formar na mente o composto do semblante engraçado, quero tel-a presente pela imaginação á minha idolatria; mas a phantasia não póde reunir em uma mesma auréola de encantos tudo quanto ha de mais puro no céo e na terra. Eu estou doido. É{33} o frenesim d'este amor que me enlouquece. Eu não a vejo, nem sei mesmo já se existe, mas sinto-a como a essencia de um licor suavissimo e volatil, que inebria a distancia os sentidos. Ella fluctua-me pairando ante a vista, como um nevoeiro da madrugada que se esvaece nos áres ao romper da claridade, e de que o sol faz realçar a alvura esplendente. Ella nunca me disse que me amava. Quando só em pensamentos a escuto, a dizer-me segredos intraduziveis, parece-me a bayadera indiana requebrando-se flascida, com uma morbidez encantadora, a voltear brandamente ás vibrações remotas das gandharvas, instrumentistas do paraizo. Eu vôo na mesma ondulação de harmonia, e sonho um goso indefinivel, que me exacerba mais as angustias cruciantes, quando desperto á realidade. Eu não sei mesmo se me ama. Costumado a brincar desde criança, unindo as nossas orações infantis em noites de tormenta, quando seu pae andava sobre as aguas, esta confiança torna impossivel o mysterio, que alimenta todo o amor.
—«Aldonça! repetiu desapercebidamente Gaspar Ximenez;—a mesma, a que me torna aguerrido, audaz para affrontar estas regiões nos términos do mundo; a que jurou um dia ser minha e me prometteu a mão de esposa, que eu beijei e apertei tremulo, convulsivo!
Fernão Ximenez comprehendeu estas palavras. Foram como um clarão subito, que lampeja e cega. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua, sem as{34} lagrimas poderem rebentar. Era incrivel o que se passava em sua alma. A colera, a alegria, a contrariedade das aspirações mais ardentes da vida, o desinteresse sublime de um coração generoso debatendo-se tudo n'aquella alma deserta de esperança! Gaspar Ximenez continuou, como delirando:
—Amas tambem Aldonça? Como ella é meiga e docil! É a rola innocente do sacrificio. Ella ha de querer a tua felicidade. O que eu disse era uma loucura. Amo-a como irmã apenas; ama-a tambem, mais do que eu, e será tua.
Ao ouvir estas palavras, proferidas com uma accentuação dolorosa, por uma abnegação quasi impossivel, Fernão Ximenez não poude represar mais tempo as lagrimas, que lhe rebentavam ferventes dos olhos. Os soluços entercortaram-lhe a voz. Elle jurára dar-lhe tambem um dia a maior prova de dedicação.
A este tempo, ouviu-se um berro do gageiro gritando da gávea:
—Mestre Fernão Mendonça, um negrume espesso se alcança no horisonte, que levamos, pois que a não ser a cerração do cabo, mais me parece presagio de tormenta.
O mar começava já a cavar-se. O piloto mandou logo ferrar o traquete, cassar a escota á bijarrona, e que o homem de quarto amurasse mais para sotavento, antes que a borrasca rebentasse de chofre. Instantes depois a marinhagem tripulava afanosa sobre o convés; a noite estendera{35} pela amplidão dos mares o seu manto gélido de sombras, como um sudario de morte. O vento frigido sibilava na enxarcia; parecia uma serpente escamosa quando assovia na floresta intrincavel. A orchestra da procella rompia sonorosa e esplendida, como a retrata Virgilio n'um incomparavel hemistichio.
—Por San-Thiago, disse Fernão Ximenez, saindo da mudez do espanto em que o deixára a longanimidade do irmão;—adivinhava-o o diabo do gageiro, pois já as ondas guidam os castellos de prôa, e lambem a ponta do gorupés. Diabo! que se tivesse mando no timão amurava mais para sota-vento, e talvez que escapassemos á furia da tormenta.
Continuava o ennovellar das vagas como grandes cordilheiras sacudidas por um vulcão subterreo. Instantes depois, o moço descia para o porão, e as marés gigantes em vagalhões, salvavam o baixel. Soltos, desencontrados dos quatro pontos, os ventos cáem de estouro sobre o galeão.
—Que San-Thiago, o bom apostolo das Hespanhas, seja comnosco, murmurou o homem do leme, ao apagar-lhe uma maré a luzinha da bitácula. Que o bom Jesus dos mareantes nos ampare n'esta tribulação, Ave Maria!
A tempestade recrudescia surda á voz do pobre homem de quarto, que não sabia já o rumo que levava. Pouco depois, as ondas envolveram-n'o no seu marulho, e o sorveram no pelago insondavel.{36}
Sem governo, o galeão altivo, cruzando-se sobre duas ondas que rebentaram sobre elle, estremeceu como aluido pelo cavername e costado; o mastro grande, gemendo sobre si, estalou, e sumiu-se na corrente das aguas. Por instantes ninguem respirou. Só o capitão Fernão de Mendonça, conhecendo que o temporal amainara, gritou com intrepidez:
—Salta arriba!
A tempestade amançara consideravelmente; via-se espelhado em todos os semblantes um sorriso de esperança, illuminado ao clarão diaphano do santelmo, que reluzia no tope dos mastros.
—Salvé! salvé, oh Corpo Santo!—gritaram todos possuidos de um regosijo expansivo.
—Podemos agora contar com a bonança,—disse a voz animadora do padre capellão,—que o sacro fogo de Santelmo se nos mostra risonho e mensageiro de paz. Oxalá que sem mais desgraças possamos dizer como o malaventurado soldado das Indias, o bom Luiz de Camões:
Vi nos ceus claramente o lume vivo,
Que a maritima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
—Mestre Fernão de Mendonça!—interrompeu o gageiro,—o galeão tem um enorme rombo na prôa, e d'aqui a meia hora estaremos todos no fundo, se vos não apraz lançar esta lancha ao{37} mar.—E foi-se cantarolando aquellas trovas do Auto da barca do Inferno, do popular Gil Vicente:
Á barca, á barca, boa gente,
Que que queremos dar a vela;
Chegar a ella, chegar a ella.
O tom frio com que dissera a ruim nova fazia julgal-o filho da rajada, como se cria nas incarnações da mythologia grega. Ouvida a falla do capitão, foram saltando todos para o batel. Pouco depois a náo soberba da India começara a afundar-se. Ao vêl-a sumir-se, o padre capellão lançou-lhe a benção, e proferiu uns versiculos da oração dos mortos. A mudez tornava mais sublimes estes instantes. Era como na morte de um heroe, que baqueia ferido no auge da luta. As lagrimas borbotavam dos olhos dos velhos mareantes ao perderem para sempre aquelle companheiro das refregas. O batel não podia com a tripulação toda; o mar estava brazeiro e a cada momento entrava-lhe pela borda.
Assim foram andando á mercê das correntes, sem que transluzisse no horisonte escuro um clarão de esperança. O ranger dos remos fazia lembrar de hora em hora o estertor de uma vehemente agonia. O mar e a fome infundiam n'alma o tedio da vida.
O mar continuava roleiro. A este tempo uma onda encapellada rebentou quase de choque sobre{38} o batel. Era preciso alijar para alivial-o. O capitão deitou sortes, para vêr os que iriam ao mar. Caiu a sorte sobre o intrepido gageiro. Pero Gutterrez, um velho marinheiro, atirou-se de livre vontade. Fernão Ximenez parecia de tal modo embebido na dor funda que alentava n'alma, que não sabia o que se passava em volta de si. A sorte fatidica caira tambem sobre o irmão. Despertou da abstracção dolorosa, ao abraço fraterno extremo. Repentinamente comprehendeu tudo com a lucidez de que o espirito se apossa nos momentos solemnes da vida. Deteve-o um instante:
—Uma vez sacrificaste ao meu amor todas as tuas esperanças! É bem que o reconheça; agora estimo a vida só para dal-a por ti.—E desprendeu-se dos braços do irmão, com a resolução do desespero, e arrojou-se á voragem.
Gaspar Ximenez permaneceu attonito, interdito ante o estranho heroismo. O sol ia já alto, o céo tornava-se limpido e sereno, o horisonte abria-se immenso, como a expansão de um pensamento de alegria. Depois de haverem remado bastante ainda, descobriram-n'o a distancia seguindo extenuado o batel. A energia sublime do seu heroismo e dedicação commovera todos os corações. Quizeram unanimes recebel-o, estava já sem forças, quasi immovel. O amor fraternal resplandecera com espanto. Os membros regelados começaram de novo a sentir vida com a reacção do calor.
O mar ia amansando progressivamente, e antes{39} do cair da noite viram com pasmo e alegria doida alvejar uma vela. Saudaram-na com a celeuma do regosijo. Quando passados dias chegaram a beijar a terra de seus paes, Fernão Ximenez foi professar, cumprir o voto n'um mosteiro, para não tornar o amor do irmão impossivel.{40}
{41}
[Lava de um craneo]
Quantas risadas se escutam perdidas no ár, que ás vezes são um punhal invisivel, brandido por mão diabolica, um veneno propinado a occultas, que infunde na vida o desalento, o tedio, a indifferença por todos os grandes sentimentos que nos agitam e nos elevam! O riso é a expressão mais energica do desespero, quando elle tem um timbre satanico, que gela, e se repercute na alma como o estampido de uma detonação que fulmina; então, mata mais do que a ponta de um estylete penetrante, embebida no aconito baço, que fere e não deixa vêr a cicatriz. Quem não ha soltado uma vez na vida uma d'essas risadas, que não seja uma loucura, uma impiedade, uma provocação, uma mentira, talvez um crime? Um dia ri tambem d'esse modo; é remorso que ainda hoje me punge.{42}
Eu vivia ignorado, obscuro, trabalhando na minha agua-furtada, alimentado pela febre da aspiração, pelo pensamento de exageradas vigilias; era a contumacia da desesperação que me dava forças, e me fazia caminhar incansavel sem saber para onde. Este vacuo da existencia amputava-me para todas as distracções, via em tudo uma futilidade, sentia-me máo, com uma vontade de torturar, de contradizer, de estar sempre em hostilidade com todas as idéas que não fossem as minhas. A dialectica fôra para mim uma arma, que ao passo que a manejava com mais presteza, me tornava mais intolerante. A solidão déra-me por um excesso de vida subjectiva uma susceptibilidade tactil, tornava-me perscrutador, analysta; pretendia lêr em todas as physionomias, deprimil-as ante a minha consciencia, como um juiz boçal, que não póde convencer-se de que o réo que interroga esteja innocente. Saía para as ruas, a luz opprimia-me, a multidão atropellava-me, sentia-me olhado, como nos tempos do absolutismo theocratico aquelle que vergava ao peso do anathema.
Um dia saí para respirar o ár livre de uma bella manhã de verão; uma veia sarcastica, provocadora, não deixava harmonisar-me com a serenidade da natureza. Vinha pelo mesmo passeio um sujeito magro, fumando uma ponta de cigarro. A distancia ainda comecei a analysal-o; cada vez que o fitava sentia em mim uma hilaridade irrepressivel; parecia-me uma cara insignificativa.{43} De mais perto representava-me uma incarnação do grotesco, do comico objectivo, como se encontra nas goteiras das cathedraes da Edade media. Trazia uma vestimenta velha, esfarrapada, que produzia uma antithese perfeita com a sua edade. Mais ao pé, vi que tinha um fulgor de vida nos olhos, o movimento, a expressão de uma intensa actividade interior. Eu tinha caminhado para elle com um riso mofador, com pretensões a observal-o, este casquilho em quinta mão, e fui-lhe ao encontro a pretexto de accender um charuto.
Conheci então o valor da phrase com que o povo exprime um desgosto intimo e repentino: caiu-me o coração aos pés. Via n'aquelle fato esfarrapado de escovado, a lucta de uma alma, que arcava com a miseria, de um homem, que aspirava á decencia, e que proseguia temeroso, como conhecendo que a vestimenta o degredava e o destituia de importancia, que um descuido qualquer o expunha aos apupos da vadiagem. Assim explicava commigo aquelles áres affectados de elegancia, que despertaram a risada, que resôou só dentro em mim. Era tambem criança, tinha uma figura trigueira, uma certa vivacidade de movimentos, uma timidez que se não accusa e se transforma em reconhecimento á menor consideração.
Pedi-lhe lume com um tom levissimo de ironia. A affabilidade desarmou-me; o coração doeu-se ao primeiro impulso de sua crueldade. Tinha{44} vontade de confessar-me seu amigo; era-o n'esse instante, com todas as veras de alma.
Dias e noites a imagem do pobre rapaz a fluctuar-me na mente; eu estava indisposto commigo, procurava equilibrar a vida de modo que podesse alcançar essa virtude sublime da bondade, filha quasi sempre da serenidade e da superioridade de espirito. Era ainda cedo para mim. Não tornára mais a vêl-o: julguei-o uma apparição diabolica, que viera inverter uma acção innocente da vida em uma preoccupação, que me perturbava a tranquilidade.
Uma noite, saia eu do theatro: o frio regelava os membros, a escuridão era profunda como as trevas visiveis de que falla Milton. Esperei á porta que escampasse. Por um acaso feliz deparei a meu lado com o mesmo sujeito que um dia soube inverter-me um riso insignificativo em remorso. Tinha ainda a mesma compostura, esse apuramento que fazia rir os que não soubessem penetrar os dolorosos mysterios da sua existencia.
O pobre rapaz, não sei que franqueza leu no meu rosto, que se chegou para mim. Poz-se a commentar o espectaculo; pouco depois, estiou e partimos juntos. Até aqui nada de interessante.
—Quanto mais estudo (disse-me elle, cansado de andar e de fallar), tanto mais se me alarga a solidão do espirito; cada dia encontro menos pessoas com quem prive, caminho, e a cada passo me vão ficando mais longe. Quem não entender{45} isto e se revoltar contra a minha frieza, dirá que é orgulho, e egoismo até; os que se doerem de mim dirão que é misanthropia. A meditação é como um segredo, que pésa quando não ha a quem se conte; mas se eu encontrasse uma mulher a falar-me de amor, sacrificava-me a ella, para vêl-a mais ditosa que a pobre Frederica de Göethe. É a primeira vez que conversamos. O meu amigo deve estranhar esta liberdade; sou assim, amo a franqueza quando não busca rodeios para convencer, e tem a força da expansão sincera, a ingenuidade simples, que não sabe alliar a amisade com as pragmaticas. A franqueza d'este modo admira-se, e eu tanto mais, porque a tenho visto sempre usada como pretexto para dizer insultos impunemente. Acho-me solitario no meio da sociedade, e tenho ainda não sei que terror de me vêr perdido, atropellado entre as massas. Vivo assim desde criança; como criança fui tambem poeta, cantei porque tinha medo, queria distrahir-me. Eu chamo-lhe meu amigo, porque me escuta; era quanto bastava para lhe ficar reconhecido. A maior parte das pessoas que me ouvem riem-se de mim. Falo sobre a genese das religiões, a origem dos governos, as relações da arte com a sociedade, todos os grandes problemas que nos agitam; abanam a cabeça, e dizem com ár compassivo: «Utopias dos vinte annos.» Outras vezes, descrevo a formação da terra, procuro explicar as evoluções da anthropogenia com a cosmogonia, o aperfeiçoamento{46} dos sêres e a sua decadencia pelo gráo do calor que a materia conserva e vae irradiando; obedeço á pressão da causalidade que me obriga a explicar a mim mesmo os phenomenos que vejo, e riem-se, perguntam-me onde estudei, que diplomas tenho das Academias, e voltam-me as costas ludibriando-me, porque não querem admittir a sciencia sem a auctoridade, vêem como profanação um leigo explicar o que só está á altura da intelligencia dos cathedraticos. Tenho tido muitos d'estes desgostos na vida. Os homens que têm certa bondade, tambem me dizem, que a edade me fez todo idealista, que os annos me darão um caracter pratico de que careço. Ás vezes, tendo passado a noite em vigilia a pensar, cheio de frio, com fome, canso-me a fallar, para receber, ao cabo de um esforço inaudito, uma gargalhada brutal. Deos sabe quanto custa affazer-me á solidão absoluta. A solidão, é verdade, devasta o espirito, porque obriga á representação interior, dando-lhe um relêvo maior do que a realidade. Serão utopias tudo quanto tenho na cabeça? É uma lei natural. Ha na vida intellectual dois periodos, um de creação, outro de realisação. Hoje concebo um ideal que não posso determinar; porque ha de vir tempo em que saberei sómente dar fórma ao que senti. Convem não rir desapiedadamente de todas as theorias da mente febril da mocidade, porque ao approximar-se a edade esteril da força, quem ha de realisar o que não ideou? Bem sei que um grande poeta{47} disse antes de mim: «Uma grande vida, é um pensamento da mocidade realisado na edade madura.» Em tudo isto vejo uma força desoladora no homem, que o domina em tudo, e era pela analyse d'ella que poderiamos entrar na essencia dos actos de sua vida—é o egoismo. Quando o homem se vê compellido a reconhecer uma superioridade no seu semelhante, fórma d'elle um semi-deus, porque, então já não é outro homem que o sobrepuja. Christo é uma idéa transmittida ás gerações, que ellas concretisaram em um nome para comprehendel-a. E depois, porque um homem egual a nós a manifestava, o egoismo salva-se fazendo-o—filho de Deos. Arranca-se a Illiada das mãos de Homero, porque o orgulho do homem não consente que o homem o exceda. Vico representa na sua hypercritica a humanidade. Perguntamos, quem inventou a alavanca antes de Archimedes demonstrar a sua lei? quem descobriu o parafuso, a serra, bases de toda a mechanica? O egoismo occultou quanto pôde o segredo; apenas a mythologia responde com uma divindade allegorica, um Saturno, Perdice, Pan e Triptolemo.—
O pobre rapaz falava de um modo precipitado, convulsivo, como se lhe faltasse o ár. A escuridão da noite não deixava lêr-lhe no rosto a volubilidade da expressão. De repente, parou á porta de um casebre velho, situado em uma viella estreita e infecta. Pediu-me para subir. Eu não podia resistir-lhe; cada palavra vibrava-me cá{48} dentro como um arranco. Fomos tacteando nas sombras, por um caracol de escadas carcomidas, que nos faltavam aos pés. Ia-se-me esclarecendo o mysterio d'aquella existencia. Por fim chegamos a um quarto pequenino e baixo, com um ár mephitico, saturado de fumo de tabaco. Elle acendeu uma vella de cebo roida dos ratos, que tinha presa no gargallo de uma garrafa; a enxerga com uma manta embrulhada achava-se a lastro. A miseria arripiava-me. O pobre rapaz deitou-se sem forças; vi-lhe então, á luz mortiça, uma pallidez cadaverica. Tive medo do seu silencio. Elle estava envergonhado de tanta indigencia, e procurava rir-se, ridicularisando-a:
—Não extranhe vêr-me n'esta trapeira; ha uma analogia entre ella e a minha cabeça, onde as idéas refervem em tropel confuso, e se conflagram e se destroem. Estas teias de aranha são ás vezes a minha distracção nas horas de enfado; divirto-me como o Mascara-de-ferro, como Spinosa, Magliabechi e Silvio Pellico. É em que me pareço com os grandes homens. Deixemos isto; conversemos a serio diante de quem não sabe rir-se de mim. Eu tambem tenho pensado na organisação de uma sociedade perfeita, como Platão e Cicero, Campanella, Thomaz Morus e Fenelon; mas só encontro essa perfeição no momento em que os vinculos do direito que prendem as nossas relações sociaes, e os mysterios e terrores que as religiões incutem, fossem excluidos pelo desenvolvimento completo da idéa{49} do Bello; quando deixassemos de praticar uma acção, que vae contra as maximas do direito ou da religião, não por ser injusta ou immoral, mas porque repugna ao sentimento do bello. A Arte sobre tudo! é ella só que nos póde alcançar conjunctamente a perfeição plastica. Assim a anarchia, a negação absoluta de todo o governo fóra de nós, constitue o ideal do estado; a lei era a consciencia de cada um, a consciencia sempre incorruptivel a todo o interesse egoista. Porque a Arte é synthetica, mais do que a religião, a philososphia e a moral, porque só ella faz o accordo incondicional das vontades por uma emoção universal. Como chegar um dia a esta perfectibilidade! Não se vae lá de repente, a natureza não dá saltos. As revoluções pela idéa pódem tudo; não se confia n'ellas, nem se emprehendem, porque os resultados só os gosa o futuro. É esta sciencia nova da Sociologia que ha de levar mais longe a humanidade. A Edade media, o grande lethargo depois da civilisação da Grecia e Roma, foi ampliada pela passividade mystica do christianismo; é uma impiedade que ninguem talvez acredita. A esmola, a onzena sobre a bemaventurança, era o principio da dependencia e da desegualdade, a aniquilação do trabalho e da actividade; a reprovação dos juros, o stigma impresso sobre o judeu, elemento industrial na sociedade nascente, eram a inercia do capital e do espirito de empreza. A verdadeira doutrina é um cathecismo popular de economia social. É por esta{50} sciencia que nos ha de vir a libertação, desde que o homem reconheça que produz mais do que consome. O trabalho é o unico titulo da propriedade, a sanctificação da vida. O trabalho é para mim uma consolação, um orgulho; sou como Plauto, que fazia rodar um moinho, e nas horas de descanço escrevia as suas comedias; como Spinosa, que gravava vidros para se alimentar nas horas em que se absorvia no quietismo do pensamento e ampliava a synthese physica de Descartes á moral humana; eu toco na orchestra de um theatro; de dia penso.
E o pobre rapaz parou em meio, de cansado; depois recomeçou, fazendo-me a historia do trabalho:
—O homem ao destacar-se do ultimo élo da cadeia dos sêres, sentiu-se forte e senhor da terra. A natureza offerecia-lhe por toda a parte seus peitos uberantes, e este rigosijo de harmonia ligava a sua existencia á vida pantheistica do universo. A grandeza do homem n'este cyclo genesiaco, symbolisaram-na os escriptores sagrados no reflexo de graça e de innocencia que descia das alturas sobre a sua fronte; os escriptores profanos, menos inspirados pelo idealismo espiritual, retrataram-a na plastica, nas fórmas gigantes do corpo e na magestade homerica de uma estatura heracleana. N'este primeiro dia, foi o homem como os anjos, via e falava face a face com a divindade; n'este primeiro dia foi um gigante da terra, dominava pela força cyclopica. Ambos{51} os dois mythos têm um fundo de verdade revelada pela inspiração e intuição do passado aos prophetas da historia. Senhor e rei na creação, o homem deixou-se enleiar no seio voluptuoso da natureza. Admirou e caiu adorando. N'esse instante descobriu a sua nudez, e escondeu-se; sentiu a fome e a sede e as dôres do desterro. O outro mytho, mais violento e terrivel, para filiar n'essa queda o naturalismo e anthropomorphismo, fal-o mergulhar no bruto, e o satyro, o minotauro, é o homem a confundir-se na cathegoria inferior dos primates. Á queda succedeu a rehabilitação, como ao occaso a nova aurora de luz. Era a lei eterna das antitheses. Foi o trabalho o signal da rehabilitação, será o caminho para a apotheose. Sic itur ad astra. Nos mythos do Oriente, tenebrosos e tragicos, o trabalho é um stigma que pésa sobre o homem, é a dor, a atribulação, é a terra produzindo cardos e espinhos, fecundada pelo suor do seu rosto. É o enigma da vida a ser iniciado pelo soffrimento e o soffrimento a retratar a vida nomada da raça primitiva, na sua passagem através do dezerto. Nos mythos do Occidente é sublime o ideal do trabalho: ahi é a gloria dos semi-deuses, é a vida errante mas heroica. Chiron ensina o mysterio da força. Os trabalhos de Hercules, os trabalhos de Theseu, eis outros tantos passos para a elevação do homem, perdidos hoje completamente nas sombras imperscrutaveis do mytho. Nos trabalhos de Jason e dos Argonautas está{52} symbolisada a inauguração do commercio de toda a raça jonica. No Oriente, o trabalho é uma fatalidade religiosa, um anathema do primeiro passo do homem. O christianismo, creado no berço de todas as religiões, vindo da Asia, transportou comsigo o mesmo dogma fatidico, mas com expiação. Suavisou o golpe da espada flammejante, que lançou o homem fóra do Eden. Exagerou a culpa para perdoar o castigo; suscitou no interior do homem uma luta, luta escura e tremenda, um eu a combater outro eu, a carne a revoltar-se contra o espirito, a confusão e o cahos onde havia a ordem e a harmonia, e para este dualismo desesperado apontou como panacêa—o trabalho. D'esta idéa proveiu um diluvio de sangue para rehabilitar a raça futura; foi o sangue dos martyres; a arca fluctuante a egreja; o ramo de oliveira, representando a paz universal e a fraternidade a cruz. Só tarde estes symbolos foram comprehendidos; tinham sido como o enigma da Sphinge, que devorava os que iam passando. O christianismo ao ideal do trabalho-pena ligou a universalidade. Na Edade média a ordem social era classificada pela propriedade territorial; a posse era a caracteristica do senhor, o trabalho da cultura o ferrete do servo. A Edade média feudal é uma antinomia na historia; a influencia manifesta do christianismo é a communa. O abraço dos povos pelo trabalho do commercio e da industria, eis o segredo das riquezas de Pisa, Gand, Veneza, Genova, Bruges e Florença, ao pé da barbarie dos{53} estados feudaes. Virtus unita fortius agit. No dia em que o homem descobriu a alavanca, o parafuso, a força da agua, foram outras tantas fadigas de que aliviou seus hombros, sobrecarregando-as na natureza. Hoje o trabalho não é o sello da culpa segundo a antiguidade biblica, não é o signal da escravidão como na Edade média, nem o tributo dos párias, como concebia Aristoteles: hoje é o symbolo da dignidade do homem. São as machinas que vão conseguindo pouco a pouco esta realeza do homem sobre o universo. O hymno do trabalho eleva-se por toda a parte, e as strophes perpetuam-se ao estrepito das grandes descobertas de Galvani, Fulton, Watt, Pascal. Pelas machinas ganha o homem tempo á custa da força, mas força dispendida pela natureza. Virá uma epoca em que elle se liberte do trabalho material; abre-se então outro horisonte mais vasto—o trabalho da intelligencia. Prometheu ergue-se dos rochedos caucasicos, não para roubar o fogo celeste, porque é Deos, mas para atear aquelle que occultou longo tempo no encéphalo. O homem desprender-se-ha da animalidade para absorver-se no anjo. Se elle se destacou de uma animalidade inferior, não está terminada a sua progressão ascencional. Esta theoria explica já a prodigiosa actividade e precocidade intellectual d'este seculo.»
A voz foi-se-lhe enfraquecendo, até que se calou; estava macilento, tiritando de frio; a vista com um brilho phosphorecente, felino. Depois de{54} alguns instantes de silencio, disse-me com um modo secco, que não comprehendi logo:
—O succo gastrico é bastante corrosivo e dilacera-me as fibras do estomago.
Conheci que era a fome que lhe dava esse aspecto, essa consumpção em que o via prostrar-se. Disse-lhe que esperasse um instante, e sai á pressa para comprar em uma espelunca uma posta de peixe. Quando voltei, a luz bruxuleava quasi a extinguir-se; o pobre rapaz estava voltado para a parede. Sacudi-o. Achei-o frio, com a rigidez cadaverica.{55}
Beijos por facadas
(CONTO DE UMA SERENADA EM HESPANHA)
I
A guitarra
Corria lenta e socegada a noite. Ha n'estas vozes indefiniveis das horas mortas a suspensão de um segredo, que se não articula; o silencio remoto parece escutar as musicas de dentro, que se espraiam na alma, como os sons eólios que a brisa entorna da escarpa.
O céo estava profundo e puro, recamado de estrellas, brilhando silenciosas, absortas nas côres spectraes de sua luz, com que confidenciam e exprimem entre si as sonhadas harmonias das espheras. Cada traço radiante que se projecta nos áres lá vae perder-se n'um fasciculo mais intenso, pensamento de amor, energia inextinguivel que{56} vôa a despertar e embalar um devaneio ditoso, que não finda.
Os ventos sopravam macios, remurmurejando na folhagem verde; a veia crystalina e sinuosa do Manzanares derramava seus aljofres, onde se reflectiam as graças e a alegria das myriades de astros que bordavam a cupula do empyreo.
Soaram vagarosamente, como as palavras de uma sentença irrevogavel, onze horas na torre da Cathedral. A vibração argentina do sino, ondulando na calada da noite, fazia escoar-se pelo corpo um estremecimento gelido, como o pingo de agua que se infiltra das stalactites e cae, de quando em quando, no pavimento petrificado de uma gruta escura e sem fim.
E a noite proseguia lenta e socegada. Pouco a pouco, uma viração travessa, vinda dos valles longiquos, dispersou nos céos uma nuvem espessa, que se havia levantado das bandas do mar. Assomou um leve resplendor, um clarão incerto na cima dos montes; depois, os arvoredos deixaram jorrar por entre as ramas entrançadas um alvor suave. Era a lua que se alevantava serena do topo das serranias, ostia branca erguida na reconcentração intima dos mundos. Á luz diaphana e branda, que devaneios principiados e interrompidos no vago das aspirações que não têm realidade! que confissões vehementes, que palavras sentidas, que protestos fogosos, apaixonados, gerados pelo influxo da saudade e da melancholia!
Á luz tranquilla do astro dos namorados, meditava{57} distrahida em seu balcão, virgem, enleiada nos caprichosos desejos que lhe tumultuavam no coração infantil. Quinze annos! a efflorescencia da vida no seu viço exuberante; as alegrias perennes, sem motivo, um transporte a cada sensação que se ignora e que o acaso revela! Quinze annos! e o peito a palpitar apressado a cada presentimento de ventura.
Estava em seu balcão a donzella timida; as tranças soltas, espalhadas pelos hombros, eram os jorros de uma catadupa que se despenha; respirava anciada, como quem acabára de brincar e sente na fadiga, que a prostra, a tentação de se precipitar novamente na vertigem da corêa que passa ligeira como um volteio de fadas em areal deserto.
A lua illuminava-lhe o semblante com a magestade com que se reflecte n'uma janella gothica. Parecia adormecida, criança, embalada pela toada das harpas dos seraphins, que a vinham abrigar do rocio da noite debaixo da sombra de suas azas brancas. O vento levava-lhe as roupagens longas, que fluctuavam como uma nuvem rescendente que a envolvesse.
Ella não estava adormecida, scismava. Que mysterios intraduziveis de amor não lhe viria descobrir esta hora! A natureza, mais velha e experiente, vinha ensinar sua irmãsinha, mostrar-lhe os philtros que um sorriso esconde, a fascinação de uns olhos humidos de volupia. Sentiria ella as primeiras notas do amor, pulsando levemente dentro do peito?{58}
O sitio, a hora, a mudez confidente da noite tepida e sombria, tornavam propicias as palavras timidas, balbuciadas tremendo, com um languor communicativo.
A este tempo a lua brilhava esplendida de encantos pela amplidão celeste. A donzella cada vez apparecia mais radiante de graça; o luar tornava-a mais bella, como em uma transfiguração repentina.
Será uma realidade a existencia d'este typo divino? Será uma creação apenas, uma visão chimerica da mente do poeta? Um sonho que a arte sabe encarnar e insuflar-lhe o sentimento de Rosina, quando espera anciosa detraz do cortinado alvejante Almaviva, a identificação de um sêr n'outro sêr? Não. Como uma filha, a mais linda das filhas de Eva, irmã das que foram amadas pelos anjos que se esqueceram do céo, ella tambem sente e ama. É Marcella, Marcella, o sol da velhice do grande poeta da Hespanha Lope da Vega.
Cançado de triumphos, de glorias e pesares, o cantor de Dorothea ama-a, como um viandante do deserto que ama a brisa fresca da collina que lhe vem alentar os pulmões exhaustos. Coração immenso de um pae, que enlouquece de alegria ao vêr perpetuar-se-lhe no mundo a intelligencia, os sentimentos que o animaram e lhe trouxeram soffrimentos e glorias, n'aquella que o abraça como uma vergontea airosa á sombra do roble secular.{59}
Marcella é o seu pensamento predilecto das horas pacificas da existencia, a que ha de herdar-lhe o manto prophetico com que o pae penetrava nos mundos da poesia. Poeta, enleva-se diante da sua obra, a ideal Galathea, onde vive uma alma afinada pelas mesmas harmonias; ama-a, com que ternura! É mas galan que padre.
Marcella estava distraida ao luar no balcão; era na rua dos Francos; estava deserta e escura pela sombra. Começou então a sentir-se um som incompleto, como o gemido de um queixume que expira; depois, mão ignota a dedilhar vehemente, com força, nas cordas de uma guitarra. As auras levavam as melodias, ais de um peito que gemia de amor em segredo, e que ia ditando ao instrumento sonoroso as palavras, que não podia proferir. O silencio da noite destacava as notas delirantes, como o azul a um carbunculo que scintilla.
A innocente criança despertou do sonhar aério em que permanecera absorvida; comprehendeu a linguagem suprema do sentimento, era a primeira confissão de amor que escutava na vida. Receiou correr o cortinado. Era a innocencia na sua timidez. A curiosidade, o orgulho de criança a impellia; começava a sentir-se bella, formosa. Debruçou-se desprevenida ao balcão, mirou, prescrutou nas sombras. A guitarra fascinadora emmudecêra.
Depois, ella viu dois vultos aproximarem-se,{60} traçarem as capas, desembainhando as espadas reluzentes. A mudez tornava assombroso o recontro. Os ferros cruzaram-se faiscando; eram os rivaes, que se encontravam ali, levados pelo mesmo amor e pelo mesmo odio, a grande contrariedade d'este sonho da vida. Não se ouvia um gemido; os botes eram a fundo. Uma espada tiniu no chão partida; o outro galanteador, generoso, deixou a sua de mão e sacou um punhal do cinto. Era um duello a todo o transe, questão de vida ou de morte. Marcella nada discriminou nas sombras; sentia apenas o fragor de uma lucta porfiada. O outro rival alçou o punhal tambem; arrojaram-se aos braços um do outro, espumando de raiva, cozeram-se de facadas desapiedadamente, até que, escoados em sangue, cairam desfallecidos.
O vento da noite refrescava; a lua mostrou-se no seu esplendor e deixou ver o campo do torneio. Marcella recolheu-se aterrada para o seu aposento; orou a noite toda ante o retabulo de Santa Maria d'Atocha, promettendo fechar para sempre o seu coração ao amor do mundo.
II
La blanca palomica
Depois dos inesperados transes e provações, a que ás vezes a alma resiste para novos desastres,{61} Lope de Vega fugiu ás tempestades da vida, envolvendo-se no burel de uma ordem penitente, unindo a contricção e a poesia no mysticismo radiante das effusões lyricas com que desabafava nas horas comtemplativas. Quando o espirito solitario descia á terra e se deixava tocar pela dor, tinha então o encanto da sua prole, dos filhos que estremecia. Como se não lembrava elle, com pesar e saudade indelevel, do seu pequenino Carlos, côr de lirio e de rosa, quando vinha acariciar-lhe a alma com umas palavras de ternura infantil, quando o via pular de contente ao vir o dia, como uma antilope nos prados, quando os seus vagidos eram um gorgeio entrecortado que lhe pareciam um vaticinio encantador! Pobre criança, ainda coberto do orvalho matinal, de te expandires á bafagem perfumada da nova aurora, quando, lirio fanado pela geada, desappareceste na terra para seres transplantado no céo.
O poeta buscava consolação na poesia; era ella que o cercava de uma aureola de felicidade. Distraia-se cuidando do seu pequeno horto. Era a imaginação que o revestia, aquelle exiguo canteiro, ornado apenas de duas arvores, dez florinhas, uma laranjeira e uma roseira, onde casualmente cantavam os rouxinoes, e onde dois cantaros de agua formavam a fonte, que gemia e adormecia seus pesares. Contenta-se de pouco a natureza; elle não trocava este canto da terra nem pelo monte Hybla, nem pelo valle fertilissimo de Tempe, nem pelos jardins suspensos de Semiramis,{62} como elle proprio confessa; porque a phantasia creadora reveste-o de todas as graças de um paraiso sonhado, mostra-lhe columnas brancas de marmore com inscripções gloriosas, fontes que jorram e se despenham em borbotões de perolas e aljofres, lagos profundos e limpidos sulcados por canôas que desfraldam as vélas como cysne voluptuoso que deslisa, rodeados de sombras amenas e encantadoras de arvores soberbas similhando os gigantes da terra, a vinha entrançada aos platanos, dourada pelo sol de agosto, bustos entre a ramagem espessa, satyros que se adormecem ao som da lympha fugitiva, nymphas travessas errando na relva macia, que tapeta o recinto... É um sonho de poeta na sua soledade. Que tem que seja uma ficção esta magnifica paizagem? Elle sente as emoções que lhe traz o retiro que fórma, e para onde se refugia.
Seu filho levado pelos brios cavalheirescos, pelo impulso dos quatorze annos, deixou-o para seguir a expedição contra os hollandezes e os turcos. Uma catastrophe desastrosa veiu roubar-lhe mais esta esperança; a náo em que partira havia soçobrado.
Restava-lhe só junto de si Marcella, para amenisar as horas lentas e enfastiadas da velhice. O pae offerecia-lhe seus livros, dedicava-lh'os, pedindo que os corrigisse; ella reunia ás graças do corpo, a harmonia da plastica com um sentimento delicado, uma penetração viva e lucida. O poeta recebêra todas as consolações do{63} céo n'aquella filha; era a sua creação mais perfeita, a admiração dos poetas do seu tempo, era todo o seu orgulho.
Marcella começou a apparecer triste; tinha na face a pallidez da planta que esmorece. Nem uma palavra só de queixume; a mesma abstracção sempre! Os labios pareciam emmudecidos pelo sello do mysterio. Cercava-lhe os olhos languidos um disco roxo de maceração, ennublava-lhe o semblante a preoccupação de uma dôr, que não sabia confessar. Quando Lope a chamou para de junto a si, e a estreitou nos braços beijando aquella flor da mocidade que o Senhor fizera brotar de suas ruinas, sentiu uma dilaceração interior, ao ver uma lagrima pura, candida, ingenua, resvalar-lhe na face em que a dôr empanava o viço infantil:
—Oh minha filha! quem podera adivinhar o segredo de tua angustia, e inverter os pensamentos afflictivos de magoa n'um extasis perenne de felicidade. Marcella, Marcella! Eu dizia-te um dia, lembras-te ainda? era n'aquelle livro, que o presentimento me fez intitular Remedio na desdita: «Deus te proteja, e te faça ditosa, postoque teus dotes o não consintam, principalmente se fôres herdeira do meu destino.» A coróa de gloria que me cinge sangra-me na fronte com dolorosos espinhos; o que a poesia me ha ditado tenho-o soffrido primeiro. Tu, alma da minha alma, vás pisando a mesma via dolorosa. Ergue-te d'essa prostração do desalento em que te deixas cair! Conta-me o que assim{64} vem perturbar teus pensamentos tranquillos, roubar-me as tuas caricias que me fazem rejuvenescer? Eu não sei como amparal-a, interrogal-a, sem que esta planta mimosa languesça como a sensitiva. Menina, moça, ignorando a vida, acordaria ella senhora? Leval-a-hia o amor em sonhos ao seu mundo de aspirações infindas? Ella inclina-se sobre meu hombro e chora. Como posso eu consolal-a, dar-lhe as esperanças que não tenho e que de ha muito me desampararam? Marcella! Ergue a tua cabeça; deixa-me vêr-te, beijar-te, enxugar as tuas lagrimas, filha. Dize-me o que te afflige tanto. Pobre creança, ella cada vez me estreita mais a si.
—Oh meu pae! eu não sei o que me faz tão cedo aborrecer as galas, as seducções do mundo, e me mostra a vida como um dezerto invio, intransitavel. A alma sente um vacuo que ninguem pode encher. É o christianismo que me faz germinar no espirito este sentimento vago, uma sêde d'esse goso sem limites da visão beatifica, uma aspiração, um desejo ardente de regressar á eterna patria, de me confundir nos córos archangelicos, ao som do trissagio perenne. A natureza por mais esplendida e vicejante, as flores de aromas mais exquisitos, o céo mais admiravelmente cravejado de estrellas, o azul, o espaço aberto, causam-me o desgosto que havia sentir Moysés do alto da montanha vendo ao longe a terra promettida e sem poder attingil-a. Quanto mais me sinto enleada n'este encanto divino da{65} contemplação interior, torna-se-me mais intenso o desejo de abandonar o desterro d'este valle de lagrimas, quebrar os vinculos da carne, e acordar no empyreo. Este corpo que me déste é a prisão em que a alma suspira e anceia por soltar-se; ella é a escrava da Escriptura que vaga á mingua de uma gôta de agoa no dezerto: ella tem diante de si um abysmo, que precisa transpôr sem o fitar. Eu senti em sonho este hymeneu recondito e incomprehensivel do amor divino. O Amado erra pelas brenhas, chamando a Esposa perdida. Eu não me posso elevar até Deus, o Deus absconditus, pela intelligencia, como os doutores; deixae que a alma vulgar e humilde, desconhecendo essa vereda intrincada, caminhe conduzida pela intensidade do seu desejo á eterna fonte suprema do bem. Eu quero professar em um mosteiro, seguir a regra da penitencia austera, voltar para a arca santa, como a pomba do diluvio. Quero envolver-me no burel, mergulhar-me na escuridão de uma cella, e scismar embalada nas musicas do extasis.
—Marcella! para que vaes tornar assim a minha solidão mais dolorosa? Teu irmão, perdi-o ainda tão criança! Eras só tu que me restavas no mundo. Sem ti, de que serve a vida que levo devorada pelas recordações do passado. Eu perdi uma esposa, que asserenava em meu coração as tempestades do amor. Tinha em ti meu unico refrigerio, e desamparas-me quando me vejo mais só! Pobre filha! Terá ella vergonha do mundo?{66} do seu nascimento illegitimo? Que provação tão dura e repentina me estava reservada em castigo de uma mocidade turbulenta! Vae, filha, corre aos braços do divino Esposo: elle só póde dar-te a grinalda immarcessivel, servir-te com uma legião de anjos. És o ultimo ramo virente que o destino arranca de um tronco carcomido pelos annos. Vae, vae.—E apertou-a nos braços a chorar como uma criança.
Tempo depois, a engraçada filha do maior e mais fecundo poeta de Hespanha entrou para o convento das Carmelitas descalças, em Madrid. Lope de Vega descreve esse abandono do mundo com expressões sentidissimas:
«Marcella, o primeiro pensamento do meu amor paternal, cuidava em casar-se, e uma noite me disse o nome d'aquelle que desejava para esposo.
«E eu, que sabia quanto é prudente deixar amadurecer um tal pensamento, porque ha decisões que provêm de causas accidentaes, fiz minhas excusas, esperando sempre não contrariar seus desejos, se elles se fundassem na verdade de sua alma. Mas vendo cada dia esse desejo a augmentar-se, determinei-me dar-lhe esse esposo, que sollicitava seu amor. Esse esposo é bello, é rico, é sabio, e de uma estirpe illustre, e seu pae é nada menos do que todo poderoso. Eu juro que por parte de sua mãe é de sangue real, e que ella é tão boa, que não ha attractivos, nem virtudes que não possua. É uma mãe tão cheia de graça, que pelas suas mãos Deus a dispensa{67} ao mundo. Ella é juntamente rosa e lirio, cypreste e palmeira.»
A egreja estava ornada como o thalamo de um noivado. Então, o poeta viu sua filha n'esse dia com uma graça, uma belleza, uma perfeição inexcedivel, que a alegria fazia realçar sobre os dons da natureza, que o contentamento animava de vivacidade e elegancia. O esposo recebia-a nos seus braços carinhosos. O amor divino transfigura-se sempre na infancia. Myriades de luzes, damascos e brocados enfeitavam o aposento nupcial.
«Marcella,—continua o poeta—as faces coloridas como duas rosas, e os labios como banhados por um sorriso honesto, fitou-me: o ultimo adeus que separava duas existencias.
«Sua alma trasbordava de felicidade com esta vocação; e por um ultimo adeus de seu corpo, ella voltou costas a tudo que o mundo chama festas e prazeres.
«Depois, offerecendo ao joven esposo sua casta grinalda de virgem, ella estreitou-o a si, cobrindo de beijos seus olhos de esmeralda.
«O céo fechou a porta ao meu coração cheio de amor paternal; arrebatava-me a melhor parte da minha alma; e eu era o unico a lamentar n'esta multidão de espectadores. Tornámos á egreja; a desposada deixara seus habitos de festa, os enfeites, para envolver-se no burel grosseiro. Suas tranças foram cortadas, porque, como as outras virgens que povoavam o côro, ella não devia ter para ser bella, mais do que a sua belleza.»{68}
Sente-se n'estas palavras do poeta a dôr do coração de um pae, a quem todo o sentimento e uncção religiosa não podem consolar. Verga diante d'essa agonia, resigna-se. Passado o anno do noviciado ainda o coração virginal de Marcella palpitava com o amor divino. Pronunciou os votos, e professou.
«Ella dormia sobre a palha fria e dura, e andava descalça; o corpo andava occulto em uma vestimenta humilde; só os olhos eram a expressão de sua alma. Oh bemaventurado desengano das cousas da terra!—exclama o poeta na solidão do seu amor.—Esta virgem tão bella, tão casta, tão pura, consagrou a Deus os seus dezesete annos!»
Estes desgostos da vida foram-o levando á sepultura; Lope de Vega succumbiu no auge da admiração. O seu funeral foi imponentissimo, como o de Miguel Angelo. Marcella, a intelligente filha do poeta, pediu para o cortejo passar pelo convento das Trinitarias descalças. No momento em que o préstito parou diante do mosteiro, viu-se apparecer por entre as grades avaras um semblante macerado por uma dôr lenta. Era Marcella chorando a morte do pae, talvez pungida pelo abandono em que o tinha deixado. Instantes depois, sumiu-se na escuridão da cella, e ninguem soube o que a levara na candura dos dezesete annos a abandonar seu pae na desconfortada velhice.{69}
A Ogiva sombria
Sem duvida, no tempo da mais bella flôr da architectura gotica, quando foi construida a cathedral de Colonia, ligava-se uma grande importancia a estes numeros symbolicos, porque a concepção ainda confusa das idéas racionaes, contenta-se facilmente com estes signaes exteriores.
HEGEL—Esthetica.
A Cathedral! a creação suprema da Edade média, em que a arte, pelo sentimento, em uma strophe de pedra, sabe concentrar o espirito radiante do christianismo, pela força audaciosa do symbolo! Ella representa a aspiração incessante da alma que se eleva para o céo; é ella como a Esposa dos Cantares, que espera em silencio a visita do Amado, e se veste de suas galas e realça de encantos. A curva suave da Ogiva imita uns párpados languidos, uma pupilla scismadora, enleiada n'aquelle extasis sensual do amor divino, que Thereza de Jesus sentia nos seus delirios mysticos; as flexas atrevidas,{70} atiradas para os áres, a linha a infinitivar-se, a perder-se no espaço, as agulhas bordadas, rendilhadas, são os cabellos dispersos, fluctuantes da donzellinha, que se assenta cansada de errar pelas brenhas e em volta da cabana dos pastores á busca do amado. A cupula altiva, representando aquelle momento em que a alma se desprende dos limos terrenos e se absorve toda na mystica unitiva, é o collo, que o poeta dos Cantares comparava á torre de marfim que olha para o occidente, e cuja magestade é similhante á da lua que se alevanta. Miguel Angelo chama tambem a uma egreja, nas effusões do seu pantheismo artistico, mia sposa.
Cada monumento antigo é como uma fronte veneranda, enrugada pelos seculos, animada por uma expressão profunda. Essa expressão é a linguagem dos évos, creada pelo espirito que não póde contemplar um facto, acreditar na sua existencia independentemente de uma idéa, de uma razão de ser que procura achar n'elle. É a fatalidade do enigma do sphinge. As Cathedraes goticas reunem quasi sempre a lenda piedosa com a lenda grotesca e diabolica; ellas são como a incerteza da alma que paira duvidosa entre a possessão e o extasis. Umas vezes, são os anjos que vêm de noite trazer de longe grandes blocos para a edificação da fabrica, que lavram a pedra, que alevantam o mosteiro. É a inspiração do anonymo nas obras grandiosas. Ás vezes, é o diabo, que com a mira em dilatar o seu imperio faz tudo, e{71} transporta para a construcção as melhores peças que rouba de outros monumentos, como uma columna do templo de Diana em Epheso para o templo de S. Zenão em Verona. A alma do architecto está retratada na sua concepção; receiando de suas forças para realisar o ideal sublime dos sentimentos do christianismo nos monolithos de marmore para que cria uma fórma, não teme evocar a potencia das trevas. Nas Ogivas escuras, soturnas das Cathedraes goticas, nos arabescos extravagantes das janellas esguias, nos monstros boqui-abertos que servem de goteiras, nos basiliscos informes dos pedestaes, reflecte-se esta alliança do mysticismo poetico com o mysticismo divino. Muitas vezes a Cathedral tem o mysterio de um symbolo que se mobilisa para exprimir os sentimentos da humanidade; com as invasões e descobrimentos maritimos ella toma a fórma de um navio voltado para o Oriente, d'onde lhe vem a luz; tambem imita uma cruz estendida ao longo, como na nossa maravilha de architectura, a Batalha, o poema da crença e do heroismo de um seculo.
Estamos em plena Edade média. A noite era caliginosa e tetrica; o coriscar frequente dos relampagos, o ribombo estridente dos trovões repercutindo-se distante, e o restrugir medonho da floresta, completavam as harmonias intraduziveis da tempestade. A alma, diante d'este espectaculo estupendo da natureza, sentia uma pressão que a fazia concentrar-se possuida do sentimento do infinito,{72} a que os homens que tudo indagam e submettem ás formulas metaphysicas chamam—o sublime.
Via-se através da escuridade absoluta das horas mortas um clarão incerto, como de alampada veladora. Seria algum discipulo de Flamel ou de Lullo absorvido pelos mysterios da alchimia, submettendo a materia, interrogando este Proteo eterno, que, a cada pergunta ostenta uma fórma diversa, e responde de mil modos differentes, sem que cheguem a surprehender-lhe o segredo de sua simplicidade? Seria um monge solitario enlevado na paz ignota da vigilia, procurando, no silencio da noite, elevar-se pelo coração até Deus? A luz jorrava da janella do aposento humilde e sombrio. Dentro, sentia-se o respirar cansado de um peito oppresso; a alampada espalhava em tôrno uma penumbra em que fluctuavam as visagens caprichosas de uma mente tresvariada, e vinha reflectir-se pallida, descorada sobre o rosto macilento, em que os gestos davam uma expressão incomprehensivel como os pensamentos que o agitam. Via-se n'aquelle rosto impressa a anciedade dos que penetram pela intuição a verdade de um problema insoluvel, e uma distracção leve lh'a fez esquecer. Sobre uma mesa estavam pergaminhos extensos, desenrolados, cobertos de linhas cabalisticas, com que se evocam os espiritos nocturnos, compassos e astrolabios, espheras e mappas.
Era alli que morava mestre Gerardo, o architecto{73} da Cathedral de Colonia. Estava contemplando o traçado da sua obra; a physionomia animava-se-lhe de quando em quando com uma luz, um resplendor vivo de transfiguração, como n'um extasis em que o ideal se deixava tocar, determinar em uma fórma só concebida pela mente do homem. Os cabellos andavam-lhe revoltos, espalhados sobre a fronte, como nas convulsões de uma sibylla quando entrevê o futuro, e sente o influxo vertiginoso que lhe dicta o vaticinio. Depois, uma sombra espessa, como de um desgosto repentino, veiu offuscar-lhe a serenidade que se lhe espelhára na fronte, em que os annos redobravam a magestade. N'isto, levou a mão á cabeça, como para suster o impulso de uma idéa que lhe occorrêra:
—A arte! a arte! é ella que me vem descobrir estas linhas que eu fixo no marmore, e que hão de ser a admiração dos seculos. Ella vem-me ensinar este segredo do ornato, a variedade disposta de modo, que leva o espirito á unidade do pensamento. A arte é uma religião que inspira tambem uma fé viva, ardente, intensa, e dá forças para affrontar a duvida, que cerca e punge o espirito creador. Um dia duvidaram de mim; não imaginavam que eu podesse levantar essa mole de pedras, uma Cathedral representando o vôo mystico da alma! Riram-se do plano da minha obra! Eu tenho pensado dias e noites, como na virgem eleita dos sonhos da mocidade. A Cathedral! ella apparece-me na phantasia, illuminada{74} por um sol fulgurante, trasbordando de musicas e harmonias suaves, perfumada de incenso, revestida de purpura, recamada de ouro, como a noiva que se veste para entrar no aposento do real esposo. Cada pedra que se vae dispondo, cada arco, cada pilastra erguida, é a ponta de um véo que se alevanta e me deixa vêl-a, sonhal-a, idealisal-a sobre essa realidade incompleta. É como a terra que vae apparecendo vagarosamente ao nauta cansado das tormentas, á medida que se esvaece o nevoeiro da madrugada. A Cathedral! a Cathedral! eu scismo e estremeço diante d'ella, quando a contemplo; sinto o delirio do artista grego apaixonado pela carnalidade que ia descobrindo o seu escôpro. Ella parece-me uma fada escondida, e que a arte me descobre o segredo para quebrar-lhe o encantamento, e mostral-a excelsa, bella, radiante elevando-se para o alto n'uma ascenção divina. Eu queria vêl-a suspensa nos ares, servindo-lhe as nuvens e os cumulos alvacentos de pedestal! Agora já me não inspira terror o desdem dos meus inimigos: descobri a ultima strophe do poema da minha vida, hei de confundil-os, fazel-os curvar-se adorando-a: é o zimborio, a cupula arrojada ás alturas, similhante ao vôo extatico da alma até á absorpção em Deus.
Havia n'estas palavras a vibração frenetica do delirio; mestre Gerardo de Colonia ficou silencioso como na prostração dos fortes impulsos que lhe déra a alegria. Os olhos brilhavam humedecidos,{75} scintilantes, exprimindo o regosijo intimo da contemplação da sua alma. E tornou a inclinar-se sobre a folha de pergaminho, a recompôr na mente as linhas que alli traçara n'um momento de inspiração. Depois, accometido por um novo accesso de enthusiasmo, arremessou de si o traçado; os olhos flammejaram coruscantes, parecia que estava doido:
—Eu quero mostrar assim, que essas Confrarias dos obreiros constructores de Strasburg, de Vienna, de Zurich e Magdeburg não podem disputar a proeminencia a Colonia. Todos os obreiros e artifices da Baixa-Allemanha hãode reconhecer em mim a supremacia do chefe. Que importa que Strasburg queira ser a séde da grande mestria? De que vale a homenagem prestada pelas confraternidades maçonicas da Alta-Allemanha, de uma parte de França, da Hesse, da Suabia, de Thuringe, da Franconia e da Baviera? O zimborio da Cathedral ha de erguer-se bem alto para a admiração de todos.
E calou-se de repente, como envergonhando-se diante de si mesmo, de se haver deixado possuir d'aquella vaidade. Depois continuou com dor:
—Quantos monumentos estupendos, quantos obeliscos gigantes, que assombram as edades, e que mostram o poder creador do homem, competindo com as creações de Deus, quantas maravilhas espalhadas pela superficie da terra, e que o architecto não quiz que se soubesse o seu nome, com uma abnegação sublime da gloria do{76} mundo! Eu que ainda não completei a minha obra, que a tenho aqui na cabeça, nem sei mesmo se chegarei a realisar este sonho, se terei a força de Atlante para suster nos ares a cupula audaciosa, eu, mesquinho, ufano-me, ensoberbeço-me! O genio não tem consciencia de si, não conhece o poder magico de que dispõe, por isso não se infatua. O que é a gloria do mundo ante a gloria celeste! Illusão que nunca chega a ter um momento só de realidade; é uma nuvem tenuissima que tolda o azul diaphano do empyreo. Para a alma do que preliba os encantos do céo, a gloria do mundo é uma tentação dolorosa, um martyrio incessante; porque então para ella a vida é como a luz vivida da alampada, que se consome no silencio da noite diante da imagem veneranda; assim, a alma procura envolver-se no olvido, no esquecimento de si para resplandecer mais pura.
Os legendarios estão cheios d'estas luctas violentas com os sentimentos mais profundos do coração do homem. Um dia Rubens estremeceu attonito diante de um quadro escondido na penumbra de um côro em uma egreja hespanhola; o quadro era um mysterio quasi impossivel de ser traduzido, divulgado pelas côres sobre a tella. Era a morte do justo. A morbida expressão do rosto macilento, uma auréola divina diffundindo-se em roda, a alma anciosa pelo jubilo do céo a exhalar-se docemente, como o ultimo raio do sol da tarde, e por sobre a cabeça os anjos{77} debruçando-se das alturas a contemplarem o monge na hora do passamento! Era uma transfiguração sublime, a idéa mais bella, a que resume todo o christianismo, revelada pela arte. Quando o grande pintor voltou a si d'aquelle extasis imprevisto, sentiu-se pequeno ao pé de uma creação tão perfeita. Perguntou ao monge que o conduzia, que pincel realisára tamanha obra, para confessar-se seu discipulo, e proclamal-o á admiração do mundo. O monge sentiu um estremecimento convulsivo, e respondeu-lhe apenas:—«Não é já do mundo!» e quando elle voltou á sua cella, juntou os pinceis, a palheta e lançou-os na corrente de um ribeiro que deslisava manso á falda da janella; e para esconder as lagrimas que ainda uma vez lhe escaldaram as faces retinctas na palidez da penitencia, foi procurar conforto na oração fervorosa. Como não teria tambem esta energia para luctar comsigo aquelle que escreveu na mudez da cella um livro de resignação e conforto, a Imitação de Christo, e que abnegou d'essa gloria para não tornal-o uma mentira!
Mestre Gerardo de Colonia ficára absorvido em uma meditação profunda. A tempestade continuava solemne e grandiosa na mudez da noite. Sentiu um leve rumor no aposento, que a contenção de espirito em que estava mal deixou perceber. Prestou ouvidos. Batiam á porta.
—Quem será? assim tão fóra de horas!—e correu os ferrolhos. Entrou uma figura alta, embuçada{78} em um gabinardo longo, o rosto assombreado pelas abas de um largo chapeirão.—Quem sois?—inquiriu o architecto, preoccupado ainda na sua abstracção.
—Sou um irmão da Confraria dos obreiros constructores de Strasburg;—tornou o desconhecido com uma voz cava.
—Entrae.
Sentaram-se, contemplando-se um instante silenciosos.
—A que vindes?
—O que me traz?—redarguiu o desconhecido com um tom de ironia acerba,—deves sabel-o melhor do que ninguem. Confias no zimborio da Cathedral de Colonia, para quereres assim submetter á tua supremacia a mestria central de Strasburg. É impossivel e chimerica essa tua loucura. As grandes lojas querem todas a independencia. Demais o zimborio, a obra que é o teu orgulho, não está prompta e talvez nunca a possas levar ao cabo.
Mestre Gerardo ficou espantado, hirto de raiva diante da audacia do desconhecido. Depois, volveu-lhe com uma severidade que lhe abafava a voz:
—Ainda sou architecto! e o zimborio ha de ser o primeiro a saudar no alto os alvores do sol quando se alevanta. Juro pela minha alma.
—Aposto em como te enganas!
—Aposto em como te hei de confundir, e a todas as mestrias rebeldes da Allemanha!—insistiu o architecto.{79}
—Pois bem! Eu comecei ha dias a obra do Aqueducto de Treves, e espero ainda vel-o acabado antes de teres prompta a Cathedral. Se assim não for, no dia em que deres por acabada a tua obra, despenho-me do Aqueducto. Tu precipitas-te tambem dos coruchéos da Cathedral se eu vier reclamar primeiro? Acceitas a aposta?
—Acceito.
—Juras?
—Juro.
A este instante ouviu-se longe o canto do gallo. O interlocutor mysterioso desappareceu subitamente ás primeiras notas do nuncio da alvorada. Foi então que o architecto reconheceu o—diabo; não quiz acreditar na realidade d'aquelle pesadello. O canto do gallo é celebrado nos hymnos da egreja, principalmente nos de Santo Ambrosio. Gallo canente vigilemus omnes. Elle symbolisa a voz interior que desperta a alma do somno da tentação; foi o canto do gallo que despertou tambem a Pedro no atrio do Pretorio, quando renegou o Mestre. No mysticismo poetico elle representa uma parte importante. A imaginação exaltada pelos sonhos da noite não podia deixar de revestil-o de mysterio. Já a Grecia lhe havia formado o mytho: é o castigo de Alectrião. A sombra que reclama de Hamlet uma vingança, o côro das feiticeiras de Macbeth, desapparecem com a magia d'esse canto.
Um dia o architecto subira á Cathedral; estava prestes a terminar-se a cupula. A alegria hallucinava-o.{80} Appareceu-lhe então uma cabeça disforme, rindo, confrangendo-se em esgares satanicos por entre as sombras profundas de uma ogiva. Disse-lhe que estava prompto o Aqueducto de Treves. Mestre Gerardo empallideceu e voltou o rosto á pressa! Aquella nova enterrava-o. Baixou os olhos como para suspender uma vertigem instantanea, fatalmente o relance mediu a altura da Cathedral; o angulo visual dilatou-se de modo que lhe produziu a attracção do abysmo. Resistiu debalde, vacillou um instante e despenhou-se por fim. Disseram que fôra a alegria explosiva de vêr a sua obra, que lhe causara o desvario que o precipitou.
Assim conseguiu estabelecer o seu predominio a Mestria central de Strasburg.{81}
As aguias do norte
(CONTO POLACO)
Harpa sacrosanta, orvalhada pelas lagrimas dos videntes, que repousam sobre ti frontes encanecidas, banhadas no pranto do captiveiro, quando á tarde abandonada na solidão do exilio, á beira da torrente, a aragem vespertina vinha gemer em tuas cordas, o cantico remoto era como o anceio de um coração oppresso, ai, que se perde confundido com o rojar das cadeias.
Inclina-te agora em meus braços, e vibra-me um canto de desespero, insoffrido, eterno, para acordar a turba, que dorme sob o peso das gargalheiras.
O vento livre saberá levar a toada longinqua, para achar ecco no peito dos desgraçados. Patria! patria! és a tunica inconsutil sobre que rodam os dados do infortunio.{82}
Polonia! tu és o peito exangue, ferido pela lança do incredulo. Podesse o teu sangue dar a vista ao que te fere com mão obstinada. Ao menos, que o teu ultimo arranco afaste para bem longe o bando dos abutres selvagens que pairam sobre ti, Prometheu, algemado em terra, mas, que ainda nas convulsões da agonia mostra a animação do fogo divino da liberdade.
Oh! mas o que vale ao poeta desterrado contemplar a ruina da patria! Para que ha de elle pedir á sua harpa um canto de angustia e saudade, se aquelles que o escutam e se sentem fortes para luctar com um esforço sobrehumano, são depois martyres do sublime enthusiasmo?
Que tristeza profunda o lembrar-me que o meu poema a Tentação, exaltando os estudantes da Lithuania para sacudirem os tyrannos, fez com que os oppressores arrojassem para os steppes e minas da Siberia a flôr da mocidade da Polonia! Pobre Karl; ainda tenho aqui a carta em que elle me conta os trabalhos da jornada para o desterro:
De um estudante de Lithuania ao Poeta anonymo da Polonia
«Em todos os tempos a poesia tem sido a expressão dos sentimentos profundos da humanidade; chora com as suas dôres, e é ella que vae ao sepulchro das nações proferir o Surge et ambula á raça supplantada pela pressão dos despotas.{83} Desde os prophetas de Israel, e Tyrteu e Callino até Rouget de Lisle, Kerner e Poetefi, a poesia tem dirigido as revoluções; é como a columna de fogo que leva á terra promettida através dos errores do dezerto.
Nós eramos crianças, animados dos sentimentos mais puros, que a edade não deixa contaminar; choravamos de magoa e despeito, com vergonha de vermos envilecida, sob o jugo obscurante dos czares, esta pobre patria esmagada por um colosso de inercia e barbarie. Um dia appareceu-nos um poema estranho, novo, um grito ancioso em que se exhalava uma alma. Pareceu-nos a voz da Polonia que nos chamava em seu desalento; sentimo-nos fortes no primeiro impulso.
Estudavamos em Lithuania; uma noite reunimo-nos para lêr o poema. Brilhava em cada rosto um lampejo de colera e esperança. Cada estrophe era um sobresalto, a anciedade do sacrificio. Eramos como aquelles crentes dos primeiros seculos do christianismo, tinhamos a sêde do martyrio. A noite da conjuração era tempestuosa como os pensamentos que nos agitavam. Jurámos alli, com as mãos sobre as estancias mysteriosas que nos vieram despertar do lethargo da oppressão, abnegar do amor, da familia, da vida, por esta desgraçada Polonia. A alampada solitaria que allumiava o aposento deixava uma penumbra phantastica e terrivel, como em um tribunal whemico; os olhos coruscavam com brilho de alegrias{84} sanguinarias. O enthusiasmo precipitava-nos. Sentiamos forças de Atlante, uma audacia e tenacidade para a lucta; mas, via-se ao mesmo tempo em cada rosto a sombra, não sei de que pensamento funesto, de uma aspiração irrealisavel. Seria uma desgraça imminente?
Quando nos abraçamos como irmãos na mesma crença, para os transes mais dolorosos, correram as lagrimas, ferventes, como nos momentos rapidos de uma despedida para sempre. Havia um silencio augusto. Parecia que o céo e a terra escutavam o nosso juramento; que a patria agrilhoada interrompera os lamentos para escutar a voz consoladora de seus filhos, que esperavam o dia da redempção.
Foi então que ella appareceu, Hedwige, a mulher que eu amava, o cabello destrançado pelo vento da noite, cansada, offegando, sem côres, enfiada de susto. Julguei-a uma apparição angelica, que baixava para trazer-nos a palma do martyrio, a annunciar os transes d'este horto em que estavamos recordando as agonias da Polonia. Como ella estava bella, radiante; era uma prophetisa, altiva como Débora quando proclamava ás gentes a lei, a sombra das palmeiras entre Rama e Bethel, sobre as fronteiras de Benjamim e Ephraim. Ficámos suspensos, esperando o hymno que havia romper dos labios sellados por um mysterio profundo. Como deixou ella a casa de seus paes, nas sombras da noite medonha? Como soube onde estavamos; quem a trouxe aqui?{85} Fôra o amor, esta illuminação da segunda vista. Hedwige proferiu, depois de alguns instantes de repouso, com a voz entrecortada e tremula:
—Ainda é tempo! Os soldados russos vêm em busca de nós; sabem da conjuração, e perseguem-nos; poupemo-nos para a hora suprema do resgate.
Depois ella veiu para mim e abraçou-me. Ia começar a fallar, quando se sentiu na rua o estrepito de armas, e vozearia de uma soldadesca brutal e desenfreada. Não me custava a vida; mas tel-a a meu lado, alli! vêl-a sujeita á irrisão e malvadez dos que vinham para prender-nos! Pobre Hedwige; ella abraçou-me e sorriu-se:
—Tens medo? vejo-te tão pallido! Receias que eu não tenha coragem para corresponder á tua bravura? Eu sou mulher, é verdade. Era ao suspiro de uma mulher que a liberdade romana acordava sempre. Lucrecia e Virginia ensinaram-me tambem a ser forte um dia. Karl! eu sinto que n'este instante nos une um amor mais alto e desinteressado, que nada tem das paixões terrenas. Dá-me o abraço que ha de fundir n'uma só as nossas almas para sempre. Agora já te posso dizer como Arria, se te visse esmorecer no perigo, o que elle disse levando o punhal ao peito: Pœ, us, non dolet!
O tumulto, o som confuso das armas, o tropear dos soldados, não me deixaram ouvil-a mais. Entraram na sala sombria, como uma onda turbulenta que irrompe derrubando os diques e{86} se precipita como um vertice fremente. As armaduras reluziam, e nos causavam a vertigem do terror. Um frio lethal escoou-se por mim; lembrou-me luctar para defendel-a.
Reinava um silencio de morte. Já sabiamos a sorte que nos esperava. Depois vieram lançar-nos as cadeias pesadas, as gargalheiras infamantes da escravidão, ultrajando com risos aquelle sentimento puro que nos dava constancia para o martyrio. Era impossivel resistir; todo o esforço seria inutil. Deixei passivamente algemarem-me. Um olhar firme de Hedwige inspirou-me uma resignação indizivel. Não sei que apparencia divina, que irradiação sublime, etherea, envolvêra o rosto da minha amada, que os soldados não se atreviam a aproximar-se. Seria esse terror, que fazia cair em terra, fulminados, os que tocavam na Arca sacrosanta? Na serenidade altiva que ella mostrava n'este instante, conheci-lhe uma resolução extrema; Hedwige queria tambem ser prisioneira, para soffrer commigo as dores do desterro. Ella lançou mão do poema que estava sobre a mesa, e começou a recitar algumas das estrophes mais arrebatadas, com uma voz prophetica, no tom mysterioso de uma sibylla. A magia d'aquella voz sentida prendia; ficaram immoveis, quedos, escutando-a:
Fragmentos de uma Elegia polaca
—«E lentamente, mui lentamente, por detraz do Homem-Deus, avança deslumbrante de belleza{87} e sem vestigios de morte a minha dilecta Polonia.—Ella pára sobre os umbraes da Sião promettida a todos os povos, e—d'estas alturas sagradas sua voz retumba, dirigindo-se ás nações reunidas muito longe, lá em baixo, nos términos do espaço.
«A mim, a mim, oh vós, raças fraternas! A ultima lucta do derradeiro combate terminou;—os embustes das traições e das mentiras terrestres estão destruidos.—Subi commigo para o reino da paz.»—E o côro das nações lhe responde: «Benção e gloria a ti, oh Polonia! porque ainda que tenhamos todas soffrido,—tu supportaste mais tormentos que nenhuma de nós,—Pela enormidade das injustiças accumuladas sobre ti, conservavas constantemente o inimigo debaixo do raio de Deus!—No transe do martyrio, tiravas de teu coração uma vida mais energica que a dos teus oppressores,—e pelo teu sacrificio nos salvaste.—Benção e gloria a ti, oh Polonia!»
Oh! quantas vezes por uma noite sombria do outomno, a voz de minha mãe ou de algum antepassado sáe do tumulo, e chega até mim para me fallar do futuro.—Eis que a este ruido mysterioso, visões estranhas me apparecem.—O canto de triumpho soltando-se do peito de milhões de homens, resôa em derredor.—Os vencedores passam em phalanges innumeraveis,—eu vejo as brancas, resplandecentes figuras das irmãs e dos irmãos libertados da escravidão;—a centelha da immortalidade faisca de todas as frontes.—Mesmo{88} sem azas, elles vogam no ár, como se fossem alados; sem corôas brilham como se fossem coroados.—E eu mesmo prosigo no meio de todos, e me sinto em uma especie de céo desconhecido, antecipado.
E, quem sabe? talvez que a prophecia dos meus sonhos se realisasse já sobre o tumulo da Polonia! E não havia senão eu, eu cadaver, que faltava entre os resuscitados! Oh, através d'estas grades e d'estes muros que me fecham como as taboas de um feretro, o meu espirito se illumina e se expande ao longe, transpondo o tempo e o espaço!—Sim, eu vejo: além, por toda a parte myriades de estrellas e flores;—o mundo regenerado celebra suas nupcias com a joven liberdade!—Na aresta dos Alpes, no cimo dos Carpathos, o céo resplandece com os raios da mesma aurora,—e todos os povos unidos, confundidos, parecem formar um só oceano, por sobre o qual é levado o espirito de Deus[[1]].»
Á medida que ia proseguindo no canto, Hedwige, como a Sulamite dos Cantares, comparada á torre que olha para o occidente, parecia suspensa; o semblante com a graça diaphana de um seraphim. N'aquella elevação surprehendente, a commoção embaraçou-lhe a voz; não pôde fallar; ficou hirta, livida, como na concentração violenta do extasis. Era o genio da Polonia incarnado{89} em uma mulher que soffria. Hedwige ficou silenciosa; nem um queixume, uma lagrima sequer, quando lhe roxearam os pulsos. Quando tornou a si, e conheceu que ia compartilhar commigo a mesma sorte, sorriu-se, com a expressão divina da alegria dolorosa e da resignação.
Dias depois leram-nos a sentença. Doze annos de desterro e trabalhos na Siberia. Hedwige escutou impassivel. Custava-me tanto vel-a soffrer em silencio; ella fazia um esforço inaudito para não vergar com as dores excessivas; não queria redobrar o meu soffrimento. Oh meu Poeta! foi então que me convenci de que o homem é o lobo do homem; peior ainda que o lobo cerval, porque espia os segredos da nossa alma, e antes que nos inflijam as sevicias do corpo, torturam-nos o espirito, insultando os sentimentos mais recatados e santos que nos dão coragem nos desalentos da vida.
Partimos todos na carroça dos desterrados, um kibitka peior que o tormento inventado para matar o integerrimo Atilio. As rajadas do inverno eram cortantes, e tiravam-nos todo o vigor para avançar; depois, vieram amontoando-se os gelos, e nos obrigaram a proseguir a pé; a desolação dos steppes, por onde passavamos, despertava-nos não sei que sympathia, talvez porque eram uma similhança visivel do abandono e ruinas em que estavam nossas almas.
Hedwige, delicada e fragil não podia caminhar mais, via-a desmaiar pouco a pouco; a lividez{90} do sepulchro no semblante desbotado! Parecia-me a flor mimosa, emmurchecida com as geadas da noite. As pancadas do knut, um látego formado de tiras de couro crú e rosetas de ferro, com que a verberavam para adiantar caminho, esgotaram-lhe as forças. Eu não sei que haja palavras humanas para exprimir a dor e a raiva que senti n'esse instante, porque o coração do homem nunca soffreu tanto, para descobrir uma expressão para este infinito da angustia. Hedwige nem se atrevia a olhar para mim; depois vi-a cair transida de frio e cansaço; esgotára o ultimo esforço. Quizeram deixal-a sepultada entre o gelo. A noite vinha a fechar-se asperrima, atroz; eu não podia sequer lembrar-me que o corpo da minha amada ia ser em breve pasto dos abutres. Via-me tambem já sem forças. Pedi para leval-a aos meus hombros.
Era a loucura e egoismo do amor, que fazia com que a conduzisse, para sentir ainda agonias mais violentas que a morte.
—«Oh! antes me deixasses sepultada na solidão dos steppes, exposta ás aves nocturnas, do que vermo-nos agora separados para sempre!»—Disse-me ella a abraçar-me phrenetica, louca, quando nos separaram, mal que chegámos ás minas da Siberia.
Os meus companheiros do infortunio não os tornei mais a ver; Hedwige foi condemnada ao trabalho das minas de mercurio, muito longe. Não soube mais d'ella. A mim, enfiaram-me um{91} capote de feltro e desceram-me por uma corda pelas gargantas da terra, por um boqueirão escuro; á medida que ia baixando, ia sentindo vozes confusas, ruido de enxadas. Então, vi na obscuridade profunda a luz baça e mortiça das lampadas de segurança, e uma multidão de homens escaveirados, magros; era uma cidade de mumias. Era aquella a minha habitação para doze annos de existencia. Admirava-me de ver alli crianças; filhos dos desgraçados obreiros, rachiticos, enfezados, não conheciam a luz do mundo, a vida resumia-se no trabalho insano. As dores que supportava haviam-me embotado o sentimento, tinha a impassibilidade do idiotismo, a mudez do assombro. Ás vezes uma lembrança longiqua de Hedwige e de minha mãe, a quem não pude dizer ao menos o extremo adeus, me davam a consciencia de que ainda vivia; mas não podia alliviar-me com as lagrimas.
Os que me viam nunca se atreveram a perguntar qual o meu crime. Não sei que esperança me prendia á vida, para que me não despedaçasse contra as rochas que ia arrancando. Estava já acostumado á obscuridade. Um dia começou a lembrança de Hedwige a occupar-me a imaginação. Seria uma saudade viva? algum presentimento? Lembrar-se-hia ella tambem de mim n'esse instante? Julgava-a já morta, criança e debil como era. Sem Hedwige, para que queria eu a vida? Oh! se a visse ainda uma vez morreria contente, resignado, perdoando tudo quanto{92} os que se dizem meus similhantes me fizeram soffrer.
Era uma loucura esta idéa. E continuavamos silenciosos a romper a mina lobrega e funda. Começámos a sentir um écco surdo; eram os trabalhadores de outras minas, que se encontravam. Continuei a trabalhar com mais afan, na direcção d'onde vinham os sons abafados.
Encontrámo-nos dias depois. Que alegrias, que abraços intimos entre aquelles socios da desgraça. Se estivesse ali Hedwige! Que fatalidade! o meu desejo era o presentimento. «Já te esqueceste de mim?» Senti um abraço sem vigor; fitei nas sombras o vulto, que me fallava e me estreitava a si. Era ella, livida, desconhecida, com a magreza da consumpção; o mercurio penetrára-lhe a parte esponjosa dos ossos. Tive horror do ente que amava, era só a compaixão que me prendia a ella.
—«Lembras-te das palavras de Simeão quando na apresentação do templo viu o Messias em seus braços? Hoje digo-te o mesmo, Karl; já posso morrer.»
E eu continuei a viver para vêr prolongados a miseria e os flagicios incriveis, que me cercavam. Já não tinha o amor, que alimentava as horas da minha solidão. Hedwige tinha-me expirado nos braços; soltára a alma candida, acrysolada nas tribulações, no ultimo beijo, que recebeu de mim. D'ahi por diante a vida pareceu-me mais impossivel de supportar; eu não vivia, vegetava como{93} o lichen no fundo de uma caverna escura. A imbecilidade proveniente da atonia e dos pesares indescriptiveis prolongara-me a existencia vegetativa.
Lembrava-me minha mãe. Se a tornaria a vêr ainda! Estaria ella já no sepulchro, ralada com a saudade da ausencia, cansada de esperar a volta do captiveiro? Sem successos, nem distracções, que me preoccupassem a vida, cada momento parecia-me um seculo de desesperação. Estes doze annos foram uma outra existencia. Quando voltei á patria julguei um renascimento; mas tornava a apparecer á luz do mundo para mais provações e dôres, porque minha mãe estava morta; a patria, o que ainda me fazia palpitar o coração com vida, vejo-a esquecida, inerte sob o jugo prepotente da Russia. Hoje escrevo-lhe, meu Poeta, porque é a unica pessoa, que me resta no mundo, e só me prende á vida o juramento, que fiz de immolal-a no altar da patria.—Karl.»
O Poeta anonymo da Polonia produziu com os seus poemas o mesmo que Mickiewich, o auctor do Banquete de Walenrood. Só depois de morto é que se soube o seu nome; era o conde Sigismundo de Krasinski. A liberdade da Polonia fôra o unico ideal da sua inspiração; é ella sempre que transluz nas maravilhas com que enriqueceu a litteratura polaca, nos Psalmos do Futuro, no Iridion na Comedia Infernal e na Tentação, a que anda ligado este facto que narrámos.{94}
{95}
[[1]] Strophes XIX, XX, XXI do poema O Ultimo, do conde Sigismundo Krasinski.
O relogio de Strasburgo
(CONTO DE 1352)
A Edade média está completamente caracterisada nas suas lendas; porque se não hade por ellas recompôr a historia, animal-a com essas côres vivas, dar-lhe movimento. A mais extensa, a que absorveu todas as imaginações rudes e creadoras, foi a lenda do Diabo, reproducção do dualismo persa, que apparece fatalmente no periodo instinctivo da genése religiosa. D'esta idealisação do mal provém, na arte, a realisação anonyma do grotesco, muitos dos velhos fabularios, e na ascese divina a tentação de que estão cheios Ribadaneyras e Bollandistas.
A sciencia, nos primeiros seculos da Egreja, foi despresada, amaldiçoada como inutil e perigosa,{96} porque tornava o espirito rebelde, orgulhoso; a alma perdia com ella a simplicidade, que a elevava até Deus. A observação das leis physicas do mundo era uma impiedade; Bacon e Sylvestre II foram olhados como feiticeiros. É um martyrologio interminavel o desenvolvimento da razão. Foi um dos algozes Sam Paulo: «Eu destruirei a sabedoria dos sabios e rejeitarei a sciencia dos eruditos. O que é feito dos sabios? O que é feito d'estes espiritos curiosos das sciencias do seculo? Não os ha convencido Deus da loucura das sciencias d'este mundo?» A Egreja não se contentou com a acrimonia da invectiva, quiz encarnar este verbo do obscurantismo. As luctas e as agonias que se seguiram estão perpetuadas em um sem numero de lendas sobre as revoltas do espirito, que vieram a synthetisar-se no typo do Fausto.
Em pleno seculo XIV. O sol brilhante, em um céo sereno e limpido de um dia de alegria, derramava-se em torrentes sobre a cathedral de Strasburgo. Voltada para o oriente, segundo o rigor do symbolismo religioso, recebia a luz do alto, como um cenaculo em que as linguas de fogo vinham revelar os mysterios da vida e a serenidade, que ella havia de infundir aos tristes que se accolhessem, corridos das tempestades do mundo, na tranquillidade do seu recinto. A luz reflectia-se coruscante das vidraças, que ostentavam um rosicler das côres mais caprichosas e vivas; cada pedra, cada angulo, cada saliencia destacava-se{97} mostrando os rendilhados e lavores exquisitos; a torre parecia então mais altiva, não topetava com as nuvens, perdia-se na profundesa do espaço azulado e puro. Era um bello dia de primavera.
Diante da cathedral magestosa foram-se agrupando pouco a pouco alguns vultos ociosos; e, attrahida na razão directa das massas, instantes depois a multidão fluctuava impaciente, como quem espera um prodigio annunciado, exempligratia, um ecclipse. Não era nenhum ecclipse, nem tampouco o apparecimento de um cometa, que então fazia tremer os pontifices e os reis. Não era mesmo procissão esplendida, que o povo e os amadores de tertulias estavam esperando com anciedade. O que seria então?
Uma figura extranha, embuçada em um tabardo escuro, chapéo emplumado ao uso da côrte, vinha montado, a passapello, em um cavallo fouveiro; custava-lhe a romper por entre a turba apinhada; estrangeiro ali, não quiz atropellar ninguem, e resolveu esperar que o concurso fosse diminuindo.
—O que está toda esta gente aqui a fazer, em um dia de trabalho?—perguntou o desconhecido para um rapaz, que parecia esconder-se entre o vulgo, com um ár de tristeza e de uma dôr indizivel.—Ha alguma procissão ou festa de jubileu? Ainda as portas da cathedral estão fechadas.
—É certo que vindes de bem longe,—volveu-lhe vivamente o pobre rapaz—pois que ainda vos{98} não chegou a fama do grande Relogio de Strasburgo. É uma maravilha da Allemanha. Não vêdes aquella estatuasinha da Virgem? Diante d'ella, vem ao bater do meio dia os trez Reis Magos com seus presentes, e o Gallo automato, que lá está, saccode as azas logo que o sol toca o zenith.
O cavalleiro não teve tempo para comprehender o que ouviu, porque um susurro immenso, repentino, burburinhou por toda a praça. O carrilhão de Strasburgo dava meio dia. Ficaram boquiabertos, attentos esperando o apparecimento dos Reis Magos. Sentiu-se primeiro o ruido estrepitoso de umas azas pesadas, depois o clangor de uma voz énea, soturna. O cavalleiro estava pasmado com o que via. A fama do Relogio de Strasburgo correra as partidas do mundo. Os palacios, os mosteiros, os castellos desejavam uma maravilha egual. Ignorava-se o nome do artista. O cabido da cathedral ufanava-se com tão magnifico e singular artefacto.
—Oh! dize-me,—acudiu o cavalleiro, saindo do espasmo da admiração—dize-me quem fez esta obra prodigiosa, que é a inveja de todas as cidades do mundo! Porque se não fala no nome d'elle? Onde está o artista? Venho de França para vel-o.
—Perguntaes, nobre cavalleiro, como se eu pudesse violar tal segredo! Mal sabeis que as vossas palavras acordam na minha alma uma dôr profunda como um ecco n'um páramo aziago.{99} Quem fez o Relogio, perguntaes vós, e a gloria tenta-me, precipita-me, impelle-me a arriscar a vida! Foi meu pae!—E as lagrimas de alegria e pesar foram-lhe arrasando os olhos, até que rompeu em um choro insoffrido de criança. O cavalleiro apeou-se e estreitou-o nos braços.
—É a saudade de teu pae, que te lava o rosto com esse pranto de ingenuidade e amor? Não soube a morte respeitar tão preclaro engenho? E eu que vinha da parte de Carlos V, de França, para visital-o e fallar-lhe!
—Elle ainda vive, senhor. Mas que vida! Oh! antes a morte o tivesse envolvido nas suas trevas geladas; antes houvesse nascido sem aquella luz do talento, que é sempre a predestinação do martyrio.
A praça estava já deserta, e os dois partiram enleiados n'esta conversação. Chegaram á officina do relojoeiro. Era um velho; as cans alvissimas formavam-lhe um diadema venerando; tinha o rosto escondido entre as mãos, como quem se abysmára n'uma abstracção intensa, ou n'uma grande e entranhavel agonia. O estrangeiro permaneceu hirto sob a soleira da porta; não se atrevia a interromper os processos mysteriosos d'aquella mente perscrutadora. A criança aproximou-se com familiaridade, e segredou-lhe longamente umas palavras mal articuladas e confusas. O velho ergueu então a fronte banhada em uma alegria suave, e voltou-se para a porta:
—Buscam-me da parte de el-rei Carlos V de{100} França?—perguntou elle com um ár affavel e indicando um assento ao desconhecido.
—Em verdade, el-rei me envia aqui.
—E o que pretende de mim, que nada posso, el-rei, que tudo manda?
—Conhecendo a vossa boa fama, vendo que enriquecestes a Allemanha com essa maravilha do Relogio de Strasburgo, elle quer tambem collocar na torre do palacio da Justiça uma machina, que dividindo com justeza as doze horas do dia, ensine a observar a justiça e as leis.
—Como o não serviria eu de boa vontade, se me não houvessem apagado para sempre o lume dos olhos. Não vêdes estas orbitas vasias? Cegaram-me. Ha já dezeseis annos que vivo mergulhado n'estas sombras cerradas, que me antecipam a escuridão tetrica do sepulchro, mas que me prolongam a vida, no abandono da desgraça, para soffrer a cada instante as mais excruciantes provações. Eu vivo ao desamparo; nem sei já trabalhar. N'esta solidão do espirito, para esquecer o tedio e a desesperação que me pungem, eu invento machinismos complicados, que o meu pobre filho executa. É elle o herdeiro do meu engenho. Cada pancada do relogio no carrilhão da cathedral, é uma palavra de sarcasmo, um insulto vibrado por uma lingua satanica, só entendida por mim. Vou contando as horas na mudez das noites de insomnia, e cada uma me descreve com mais feias côres esta morte onde fui precipitado em vida.{101}
Havia nas palavras do velho um mixto de resignação e dor, uma conformidade, uma santidade admiravel. A fronte, enrugada pelos annos e o estudo, pendia-lhe sobre o peito; o filho ainda imberbe, engraçado, ingenuo, estava de pé a seu lado, mudo, com os olhos no chão.
—Como houve mãos tão barbaras, que ousaram pôr diante do vosso espirito, para sempre, a sombra eterna da morte? Foi o acaso? Foi a malvadez que vos despenhou n'essa desgraça? Seria a inveja quem vos supplantou á traição, vendo-se obrigada a admirar os artefactos que não podia exceder? Oh, contae-me. Não! não! tenho horror de ouvir; deve custar-vos muito isso. El-rei ha de sabel-o e acudir-vos.
O velho ergueu lentamente a fronte; poisou as mãos sobre a cabeça loira do filho, brincando distraido com os cabellos anellados. Depois de um momento de indecisão, começou:
—O bispo João de Lichtenberg encommendou-me um relogio grande para a torre de Strasburgo. Era preciso que as horas canonicas fossem observadas com escrupulo; as irregularidades na divisão do tempo causavam graves inconvenientes ás resas e officios divinos do côro. Eu trabalhei dois annos consecutivos; tinha empenhada n'aquella obra a minha fama. Inventei um kalendario em que representava as indicações das principaes festas moveis: ao lado puz-lhe um quadro em que estavam escriptas em verso as principaes propriedades dos sete planetas; ao meio colloquei-lhe{102} um astrolabio, em que os ponteiros notavam o movimento do sol e da lua, as horas e os quartos. Ao alto estava uma estatua da Virgem, ante a qual se inclinavam, ao dar do meio dia, as figuras dos tres Reis Magos. Ficaram espantados com a maravilha da obra; soôu por toda a parte a fama d'ella. O povo agglomerava-se na praça para vêr. O cabido receiou que os outros mosteiros ou as côrtes da Europa quizessem ter um monumento egual. Como impedil-o? Uma noite, estava eu descançando do trabalho assiduo, improbo que levava, quando me bateram á porta. Vieram dizer-me que o relogio estava parado. Levantei-me á pressa, atterrado, confuso, e dirigi-me para a torre. Quando ia subindo, e já a uma altura vertiginosa, apagaram-se de repente os archotes; os que me acompanhavam, lançaram mão de mim para me precipitar; as unhas prenderam-me ás fendas da cantaria, com a tenacidade do amor á vida. Por fim, cansados, agarraram-me, arrancaram-me os olhos. Aos meus gritos, os malvados respondiam que me désse por feliz em não ser queimado vivo na praça publica, exposto á irrisão da plebe, por feiticeiro; que eu tinha pacto com Satanaz, que o evocava com linhas cabalisticas com que formava as rodas denteadas.
O pobre velho permaneceu um instante silencioso reflectindo no assombro d'aquella noite infernal; depois mudando de conversa, o embaixador pediu-lhe para levar o filho, que havia de fazer{103} por certo o relogio para o palacio da justiça. Não faltaram negações e hesitações. O velho conhecia o talento do filho, e temia um egual desastre. O cavalleiro jurou protejel-o com a vida, e trazel-o incolume a casa de seu pae, logo que tivesse findado o trabalho.
O relogio foi posto na torre do palacio da Justiça, e, elle que aconselhava a observancia da justiça e das leis, foi o mesmo que, dois seculos mais tarde deu o signal para a execranda carnificina da noite de S. Bartholomeu.
Quando o filho do relojoeiro de Strasburgo voltou á patria, ainda o pobre velho vivia. Estava no meio da sua desgraça, possuido de uma alegria infinita. Na solidão do espirito em que ficara, procurara constantemente vingar-se. Vingou-se afinal. Um dia conseguiu aproximar-se do Relogio, e tocou em uma roda de tal forma, que não tornou mais a regular, apesar de todos os esforços; em 1574, intentou restaural-o Dasypodius, outros em 1669, em 1731, até que cessou de trabalhar em 1789, como uma riliquia ultima da Edade media que arrebatava a Revolução. O desgraçado levava esta unica consolação do mundo. A mesma lenda se conta dos relogios de Nuremberg, de Auxerre e Lyon, em que as versões parecem filhas da comprehensão de uma mesma verdade.{104}
{105}
Um erro no kalendario
EPISODIO DA HISTORIA DA INQUISIÇÃO EM HESPANHA
I
Quem o visse sentia-se atrahido para elle por uma fatalidade irresistivel. O olhar encovado e scintilante tinha a fascinação da onça refalsada. A estamenha monastica da humildade era uma arma de que se servia. A côr sombria do remorso, que o ralava interiormente, sabia invertel-a tão bem na maceração da penitencia, que assim facil lhe era devassar todas as consciencias, e submettel-as ao seu capricho, tyrannisal-as, alimentando sempre uma infinidade de horrores futilissimos, com que as trazia suspensas. Cabisbaixo, meditando continuamente um longo plano de vingança, de uma sevicia obscura e mesquinha, os que o viam achavam n'aquella gravidade satanica de monge um ár contemplativo de compunção piedosa.{106}
O frade fez-se Director espiritual.
De uma extração illustre, rico, herdeiro de um grande nome, porque despresaria as pompas do mundo, os amores do seculo, as glorias? Acordar-lhe-hiam os annos todos esses sentimentos a um tempo na alma, e o horror do impossivel tornal-o-hia hypocrita, apagando-lhe a esperança com o sopro do cynismo? Elle amára a filha de um velho fidalgo de Hespanha, que desejava tambem realisar essa alliança dos seus pergaminhos com as grossas sommas do enamorado de Hernanda, a madrilena engraçada, de ingenua desenvoltura. Hernanda, na morbidez voluptuosa da sua natureza oriental, nunca mais sorriu, nunca mais deixou vêr aquella alegria impaciente que a animava, logo que soube a resolução da familia. Detestava o galanteador, aborrecia-o de morte, resistindo sempre ás instancias e ameaças do pae, que procurava sacrifical-a aos interesses e pompas do seu brazão de armas.
Hernanda tinha um amor de infancia, puro, recondito; como um raio de luz que nos fecunda ao desabrochar da vida, aquella affinidade precoce e ignorada de todos fora uma intuição do sentimento. Amaram-se longo tempo sem saber o que era amor. Quando um dia acordaram á luz sentiram necessidade um do outro, a anciedade de uma mesma aspiração identificou as suas almas para sempre. Cedo o noivo proposto soube da existencia de um rival obscuro. Procurou-o, farejou-o na sombra, lançou-lhe o repto. Encontraram-se.{107} Ambos corajosos e fortes bateram-se destemidos em um duello a todo o transe.
Logo que Hernanda soube da morte do seu amor primeiro jurou um odio eterno ao assassino. O velho fidalgo não comprehendia estas coisas; ameaçou-a com o convento. A idéa da clausura, em vez de amedrontal-a, sorriu-lhe; era um refugio, o unico que lhe restava no mundo, depois de perdida a esperança que resume todas as que se podem ter na vida. Professou.
O galanteador assistiu impassivel na egreja, para ouvil-a pronunciar os votos. Havia n'aquella coragem uma alegria selvagem, egoista, para vêr que a mulher que elle amava debalde, não havia de pertencer a mais ninguem. Depois de satisfeito este instincto, lembrando-se de que fôra ludibriado, despresado, passou-lhe pela cabeça uma idéa atroz de vingança. Queria salvar o seu orgulho ferido. Lembrou-se tambem de abandonar o mundo, esconder-se debaixo da cugula monastica. Para os que o conheciam foi um rasgo heroico de resignação; para elle era um meio de poder vêr de mais perto Hernanda: só assim podia tortural-a, vir a ser seu Director espiritual.
O socego da solidão deixa apreciar os ruidos mais imperceptiveis; Hernanda na mudez da cella, na ausencia completa de interesses que lhe povoassem a existencia, era impressionada profundamente pelos sentimentos mais leves que lhe passavam n'alma como as auras suaves pelas cordas de uma harpa. A imaginação desenvolvera-se{108} a tal ponto, que a fazia soffrer. Foi assim que frei Pedro, o disfarçado monge, veiu a ser seu Director de consciencia. Elle exagerava as doutrinas mysticas do dualismo, o predominio do mal, essa lucta incessante do espirito contra a carne, fortificada pelas mortificações do corpo, pela vigilia, cilicios, jejuns, e orações fervorosas. Provocava-a a abstrahir do goso dos sentidos, a contrariar a natureza e abnegar da vida. Apontava-lhe a natureza risonha e luxuriante como uma voluptuosidade, o regosijo e sêde de amor que a harmonia do universo infunde como uma infracção á regra austera da perfectibilidade.
Era preciso a solidão para gosar essa existencia intima, recondita, e arrebatar-se até Deus. Com o silencio imposto, arvorado em preceito, exaltou-lhe a vida interior, e o tumulto de idéas que se succediam prolongava a excitação cerebral. A vigilia extensa e continua, a maceração e a leitura piedosa foram-lhe desconcertando o equilibrio nervoso. As visões extravagantes cercavam-na; vozes estranhas segredavam-lhe palavras assombrosas, que ella repetia tremendo na penumbra do confessionario.
Foi então que o monge, depois de a ter desprendido pela ascese insistente dos limos da terra, lhe começou a falar de amor, o amor divino, a anciedade preenchida pelo vacuo, a sêde mitigada com a calma do dezerto. A imaginação perdida n'esse ideal vago, sem realidade possivel, delirava, revestia a imagem palpavel com todos{109} os encantos de um devaneio sensual, dava-lhe vida, amor, para corresponder ao que tumultuava na sua alma solitaria. Mulher, menos curiosa da razão sufficiente das cousas, sujeita a perturbações hystericas, enamorava-se da fronte altiva e conjuntamente modesta do Christo, como a representavam os pintores da Edade media; esquecia-se da vida exterior, parecia que a alma livre se absorvia na imanencia da divindade. Era este amor, inspirado pelas imagens dos templos, tão desvairado como a paixão do artista grego pela estatua eburnea que palpitava debaixo do escôpro. Santa Rosa de Lima amava uma imagem da Virgem que tinha nos braços o bambino. Ozana de Mantua, diante de uma imagem linda, caía em extasis. Estas figuras de Jesus, radiantes de candura e fascinação, bellas, fallavam aos sentidos; é por isso que o amor divino tem na sua vehemencia e transporte um caracter sensual, como o exprimiram o solitario da Ombria nos seus cantos a Santa Clara, S. João da Cruz a Santa Thereza de Jesus, Madame Chantal e S. Francisco de Sales, Fenelon e Madame Guyon.