A REFORMA


A REFORMA

POR
T. M. LINDSAY
DOUTOR EM THEOLOGIA E PROFESSOR DE HISTORIA ECLESIASTICA

TRADUCÇÃO de J. S. CANUTO
(AUCTORISADA)

LIVRARIA EVANGELICA
RUA DAS JANELLAS VERDES, 32
LISBOA

LISBOA
TYP. ROSA, LIMITADA
29, Rua da Magdalena, 31


PREFACIO

As primeiras tres partes d’este livrinho são simplesmente uma compilação das melhores e mais accessiveis historias da Reforma, e de modo algum são apresentadas como uma dissertação original sobre o vasto e complicado movimento religioso que descrevem. Sou da opinião do dr. Merle d’Aubigné: a Reforma foi uma revivificação da religião, e não pode ser descripta com bom exito se não tivermos sempre deante de nós, e bem distinctamente, este seu caracter essencial. Os reformadores foram homens que, sob o impulso de um grande movimento religioso que se levantou n’uma occasião em que eram bem particulares as circumstancias intellectuaes, sociaes e politicas, se sentiram animados pelo desejo de que lhes fosse permittido dar culto a Deus segundo as direcções da Escriptura e os dictames da razão e da consciencia. Mas este desejo, apparentemente simples, envolvia uma tal mudança nas condições sociaes e politicas, não sómente em cada provincia e em cada nação, mas em toda a Europa, tomada no seu conjuncto, que não se pode escrever a historia da revivificação religiosa sem apresentar uma grande parte da historia politica e social de aquella epoca.

O dr. Leopoldo von Ranke tratou com tanta proficiencia da historia politica do periodo em questão, que o auctor até do mais humilde dos manuaes deve collocar-se quasi exclusivamente debaixo da sua direcção. Foi o que eu fiz, e em quasi todas as paginas me aproveito, com reconhecimento, das suas magistraes descripções do movimento politico e social.

Escusado seria mencionar toda a longa lista de auctores consultados na preparação d’este pequeno livrinho; como, porém, não se faz referencia alguma ás auctoridades citadas, cumpre-me dizer que, além de d’Aubigné e de Ranke, as pessoas que teem conhecimento do assumpto hão de notar um continuo uso das Historias da Egreja de Hagenbach e Henke, do Periodo da Reforma de Haüsser, dos Huguenotes de Baird, de dois volumes das Epocas da Historia Moderna de Longman, da Era da Revolução Protestante de Seebohm, e do Seculo de Isabel de Creighton. Refiro-me frequentemente á Historia dos Credos do Christianismo ao tratar das Confissões, e á inapreciavel collecção de Livros de Disciplina, de Richter, ao tratar da organização ecclesiastica das varias egrejas reformadas.

A quarta parte, que se occupa summariamente dos principios fundamentaes do movimento da Reforma, deveria talvez ter ido em primeiro logar, servindo de introducção, mas preferi collocal-a no fim; em parte, porque similhante introducção poderia assustar os leitores jovens, e em parte porque os principios do movimento podem ser mais bem apreciados depois do leitor ter algum conhecimento da sua historia. A quarta parte é a unica porção d’este pequeno manual que se pode dizer com verdade que pertence exclusivamente ao auctor, e que apresenta opiniões sobre o assumpto de que só elle é responsavel.

O summario chronologico foi extraido quasi inteiramente das admiraveis tabellas de Weingarten.

T. M. LINDSAY.


INDICE

PARTE I
A Reforma allemã, que deu origem ás egrejas lutheranas[PAG. 1-53]
CAPITULO I
A Reforma na Allemanha[PAG. 1-48]
O principio da Reforma, [pag. 3].—As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra as mesmas, [pag. 5].—As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias, [pag. 6].—A historia de Luthero, desde o principio, [pag. 7].—Partidarios e adversarios de Luthero, [pag. 9].—A disputa de Leipzig, [pag. 10].—A bulla do papa, e a queima da mesma, [pag. 12].—O Imperador e a Reforma, [pag. 14].—O estado politico da Allemanha, [pag. 15].—Luthero e a dieta de Worms, [pag. 16].—Luthero em Wartburgo, [pag. 18].—Regresso de Luthero a Wittenberg, [pag. 19].—A dieta de Nürnberg, [pag. 20].—A revolta dos nobres, [pag. 21].—A revolta dos camponezes, [pag. 23].—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529, [pag. 28].—O imperador pretende subjugar a Reforma, [pag. 32].—A Conferencia de Marburgo, [pag. 33].—Divergencia entre Luthero e os suissos, [pag. 33].—A Dieta de Augsburgo, [pag. 36].—A Confissão de Augsburgo, [pag. 38].—A Liga Protestante de Schmalkald, [pag. 39].—A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald, [pag. 42].—O imperador e o Concilio Geral, [pag. 43].—Loyola e os jesuitas, [pag. 45].—A paz religiosa de Augsburgo, [pag. 47].
CAPITULO II
A Reforma lutherana fóra da Allemanha[PAG. 49-53]
O lutheranismo fóra da Allemanha, [pag. 49].—Na Dinamarca, [pag. 50].—Na Suecia, [pag. 51].
PARTE II
A Reforma Suissa, que deu origem ás egrejas reformadas[PAG. 55-154]
CAPITULO I
A Reforma Suissa sob Zwinglio[PAG. 57-66]
As reformas suissa e allemã, [pag. 57].—A situação politica da Suissa, [pag. 58].—Ulrico Zwinglio, [pag. 60].—As theses de Zwinglio, [pag. 62].—A Reforma em Zurich, [pag. 63].—Basiléa, [pag. 64].—Berne, [pag. 64].—Os cantões florestaes, [pag. 64].—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, [pag. 65].
CAPITULO II
A Reforma em Genebra sob Calvino[PAG. 67-85]
Genebra antes da Reforma, [pag. 67].—Farel em Genebra, [pag. 68].—A mocidade de Calvino, [pag. 69].—Institutos da Religião Christã, [pag. 71].—Calvino em Genebra, [pag. 73].—A sua expulsão, [pag. 75].—Genebra não pode passar sem elle, [pag. 76].—As Ordenanças Eclesiasticas, [pag. 77].—Como differem dos Institutos, [pag. 79].—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, [pag. 81].—A morte de Calvino, [pag. 82].—Succede-lhe Beza, [pag. 83].—A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma, [pag. 83].—A Confissão de Zurich, [pag. 84].
CAPITULO III
A Reforma em França[PAG. 87-111]
Os principios da Reforma em França, [pag. 87].—Francisco I, [pag. 89].—A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, [pag. 89].—«Uma egreja debaixo da cruz», [pag. 90].—O anno dos placards, [pag. 92].—O Vaudois de Durance, [pag. 92].—Henrique II e os Guises, [pag. 93].—Organização da egreja reformada, [pag. 95].—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, [pag. 96].—O primeiro Synodo Nacional, [pag. 97].—Anne de Bourg, [pag. 98].—A carnificina de Amboise, [pag. 99].—Coligny na Assembléa dos Notaveis, [pag. 100].—Catharina de Medicis, [pag. 100].—A Conferencia de Poissy, [pag. 102].—O massacre de Vassy, e outros, [pag. 103].—A guerra civil, os iconoclastas, [pag. 103].—Coligny e Carlos IX, [pag. 106].—O massacre de S. Bartholomeu, [pag. 107].—A Santa Liga, [pag. 109].—Henrique de Navarra, [pag. 110].—O edicto de Nantes, [pag. 110].
CAPITULO IV
A Reforma nos paizes baixos[PAG. 113-116]
Os Paizes Baixos, [pag. 113].—A politica de Carlos V, [pag. 114].—Os principios da Reforma, [pag. 115].—Filippe II e os Paizes Baixos, [pag. 115].—A inquisição, [pag. 117].—Os novos bispados, [pag. 118].—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? [pag. 119].—Os mendicantes, [pag. 120].—Prégações ruraes, [pag. 120].—O duque de Alba nos Paizes Baixos, [pag. 121].—A prisão do conde Egmont e do conde Horn, [pag. 122].—A guerra civil. O principe de Orange, [pag. 124].—Os mendigos do mar, [pag. 124].—A tomada de Brill, [pag. 126].—Requescens y Zuniga, [pag. 128].—O cerco de Leyden, [pag. 129]. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, [pag. 130].—D. João de Austria, [pag. 131].—Alexandre de Parma, [pag. 132].—O tratado de Utrecht, [pag. 132].—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão, [pag. 133].—O Confessio Belgica, [pag. 134].—A constituição da Egreja hollandeza, [pag. 134].—A força da Egreja na Hollanda, [pag. 136].
CAPITULO V
A Reforma na Escocia[PAG. 137-154]
Preparação para a Reforma, [pag. 137].—A antiga Egreja celtica e a Educação, [pag. 137].—A Escocia e o lollardismo, [pag. 138].—A Escocia e Huss, [pag. 138].—A Egreja romana na Escocia e a situação politica, [pag. 139].—João Knox, [pag. 141].—A Congregação e a Primeira Convenção, [pag. 142].—A Confissão escoceza, [pag. 144].—A rainha Maria e a Reforma, [pag. 145].— O Livro de Disciplina e a Primeira Assembléa Geral, [pag. 147].—A educação, [pag. 148].—A morte de Knox, [pag. 149].—Os bispos tulchanos, [pag. 150].—André Melville, [pag. 152].—O Segundo Livro de Disciplina, [pag. 152].
PARTE III
A Reforma anglicana[PAG. 155-201]
CAPITULO I
A Egreja de Inglaterra durante o reinado de Henrique VIII[PAG. 137-174]
O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, [pag. 157].—Antecipações da Reforma em Inglaterra, [pag. 158].—O estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma, [pag. 159].—As relações de Inglaterra com o pontificado, [pag. 160].—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, [pag. 161].—Henrique muda de opinião, [pag. 163].—Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles, [pag. 164].—A submissão do clero, [pag. 165].—O progresso da separação de Roma, [pag. 166].—Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes, [pag. 168].—Execução de sir Thomas More, [pag. 169].—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades da Egreja, [pag. 170].—Os dez Artigos, [pag. 171].—O Estatuto Sanguinario, [pag. 173].—A Egreja de Inglaterra em 1547, [pag. 173].
CAPITULO II
A Reforma no tempo de Eduardo VI, e a reacção no tempo de Maria[PAG. 175-188]
Será adoptada a Reforma? [pag. 175].—A visita real, o Livro de Homilias e o Livro de Oração Commum, [pag. 176].—A alliança com o protestantismo continental, [pag. 178].—Os Quarenta e Dois Artigos, [pag. 178].—Os principios do puritanismo, [pag. 179].—A morte de Eduardo VI, [pag. 181].—O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria, [pag. 182].—A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra, [pag. 183].—Como Maria se firmou no throno, [pag. 183].—A alliança hespanhola, [pag. 184].—A reconciliação com Roma, [pag. 184].—Porque não foi bem succedida a reacção papal? [pag. 185].—As perseguições durante o reinado de Maria, [pag. 186].—A questão dos bens de raiz da Egreja, [pag. 186].—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, [pag. 187].—A morte de Maria, [pag. 187].
CAPITULO III
A Reforma no tempo de Isabel[PAG. 189-201]
A successão de Isabel, [pag. 189].—Como se liquidou a questão religiosa, [pag. 190].—Os trinta e nove artigos, [pag. 192].—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, [pag. 192].—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, [pag. 194].—A lucta interna com o catholicismo romano, [pag. 195].—A Armada hespanhola, [pag. 196].—As prophecias, [pag. 197].—Os conventiculos, [pag. 198].—Os pamphletos anti-prelaticios, [pag. 198].—A Reforma ingleza, [pag. 198].
PARTE IV
Os principios da Reforma[PAG. 203-236]
CAPITULO I
A Reforma foi uma revivificação religiosa[PAG. 205-214]
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes, [pag. 205].—Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus, [pag. 206].—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, [pag. 208].—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual, [pag. 209].—A imitação de Christo, [pag. 209].—Francisco de Assis, [pag. 210].—Os mysticos da Edade Media, [pag. 211].—A significação do perdão, segundo a Reforma, [pag. 212].—Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma, [pag. 213].
CAPITULO II
Como a Reforma se poz em contacto com a politica[PAG. 215-219]
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca, [pag. 215].—A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica, [pag. 216].—Revolta contra o mediavelismo, anteriormente á Reforma, [pag. 217].—O De Monarchia de Dante e o Defensor Pacis de Marcello de Padua, [pag. 218].
CAPITULO III
A catholicidade dos reformadores[PAG. 221-224]
Os Reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, [pag. 221].—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio medieval, [pag. 221].—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino, [pag. 222].—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos, [pag. 223].
CAPITULO IV
Os principios doutrinarios da Reforma[PAG. 225-236]
Os principios formaes e materiaes da Reforma, [pag. 225].—O sacerdocio de todos os crentes: o grande principio da Reforma, [pag. 226].—Explica a Doutrina da Escriptura, [pag. 227], e da Justificação pela Fé, [pag. 228].—A Doutrina da Escriptura da Reforma em contraste com a medieval, [pag. 228].—A Doutrina medieval da Escriptura, [pag. 229].—O quadruplo sentido da Escriptura, [pag. 229].—A definição medieval de fé salvadora. Interpretação infallivel, [pag. 230].—Os reformadores e a Biblia, [pag. 231].—A doutrina da justificação pela fé da Reforma em contraste com a medieval, [pag. 232].—A absolvição clerical e justificação pela fé, [pag. 233].—Justificação pela fé e justificação pelas obras, [pag. 234].—Conclusão, [pag. 235].
Summario Chronologico[PAG. 237-255]
Indice de Personagens, Localidades, etc[PAG. 257-261]

I PARTE
A REFORMA NA ALLEMANHA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS

Capitulos:

[I]—A Reforma na Allemanha.
[II]—A Reforma lutherana fóra da Allemanha.


CAPITULO I
A REFORMA NA ALLEMANHA

O principio da Reforma, [pag. 3].—As Indulgencias, e as Theses que Luthero escreveu contra as mesmas, [pag. 5].—As Theses de Luthero não atacavam sómente as Indulgencias, [pag. 6].—A historia de Luthero, desde o principio, [pag. 7].—Partidarios e adversarios de Luthero, [pag. 9].—A disputa de Leipzig, [pag. 10].—A bulla do papa, e a queima da mesma, [pag. 12].—O imperador e a Reforma, [pag. 14].—O estado politico da Allemanha, [pag. 15].—Luthero e a dieta de Worms, [pag. 16].—Luthero em Wartburgo, [pag. 18].—Regresso de Luthero a Wittenberg, [pag. 19].—A dieta de Nürnberg, [pag. 20].—A revolta dos nobres, [pag. 21].—A revolta dos camponezes, [pag. 23].—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529, [pag. 28].—O imperador pretende subjugar a Reforma, [pag. 32].—A Conferencia de Marburgo, [pag. 33].—Divergencia entre Luthero e os suissos, [pag. 33].—A Dieta de Augsburgo, [pag. 36].—A Confissão de Augsburgo, [pag. 38].—A Liga Protestante de Schmalkald, [pag. 39].—A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald, [pag. 42].—O imperador e o Concilio Geral, [pag. 43].—Loyola e os jesuitas, [pag. 45].—A paz religiosa de Augsburgo, [pag. 47].

O principio da Reforma.—A reforma principiou, se é que similhante movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca remotissima, teve realmente um principio, quando Martinho Luthero pregou as noventa e nove theses contra as indulgencias na porta da egreja da pequena cidade de Wittenberg, na Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido enviado á Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra com os turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar fundos para serem dispendidos pelo papa em quadros e outras obras de arte para a sumptuosa egreja de S. Pedro, em Roma. O dinheiro obtinha-se em troca de uma especie de recibos, em que se declarava que o comprador havia recebido perdão da perpetração dos peccados que mencionara e pago a respectiva importancia.

O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo de Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou durante o outomno de 1517 o centro da Allemanha, e chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia. A sua presença não tinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem pelos clerigos mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo facto de extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o todo para o papa; estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles não lhe deram licença para entrar nos seus territorios senão depois d’elle prometter que lhes dava uma parte do que adquirisse.

A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava d’elle pelo facto de, por onde quer que elle passasse, o povo se tornar peior; vendia por sete ducados o direito de assassinar um inimigo; aquelles que desejavam roubar uma egreja eram perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio de pae, mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens e mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como é natural, tirar algum lucro de aquillo que lhes custara o seu dinheiro, e por isso o crime abundava onde quer que o vendedor do perdão apparecesse.

As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas, pelo facto do tumulto e dos escandalos a que a sua presença dava origem. Enviava adeante de si homens extravagantemente vestidos, que fixavam annuncios pelas paredes, e que apregoavam pelas ruas e pelas estradas a sua proxima chegada, encarecendo a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia á venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna aquelles que o comprarem mais limpos do que o baptismo, mais puros do que Adão no seu estado de innocencia no paraiso»; «Assim que o dinheiro tilintar no fundo do cofre, o comprador fica perdoado, e livre de todos os peccados». Em seguida a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu ajudante, n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da praça do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro de cujas grades pendiam os celebres papelinhos, e do outro um cofre em que o dinheiro era lançado, offerecia ao publico a sua mercadoria, á maneira dos vendedores de elixires que costumam apparecer pelas feiras.

Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e a sua alma justa sentia-se indignada com o facto dos bispos, apezar de todas as suas cartas e protestos, permittirem que elle andasse de diocese em diocese. Não obstante haver prégado contra Tetzel e contra as indulgencias, o traficante do perdão ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a Jüterbogk, perto de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso como prégador e como professor da universidade, não poude conter-se por mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias, e pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas suas proposições, que, se havia na Egreja logar para Tetzel e para os seus bilhetes de perdão, não o haveria para elle, Luthero, nem para as idéas que elle tinha relativamente ao peccado e ao modo como Deus concede o perdão. Roma e as indulgencias estavam produzindo uma forte indignação em toda a Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram as theses que o ateiaram, dando principio á Reforma.

As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.—As indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma coisa nova na Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse, formavam um elemento tão preponderante da vida exterior da Egreja n’aquella epoca que seria dificil censural-as sem ir de encontro a muitas outras coisas. A Egreja da Edade Media preoccupava-se muito com a representação visivel dos factos e forças espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta importancia a essa manifestação externa que se chegava a perder de vista o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e excellentes verdades evangelicas se acharam envolvidas por uma espessa camada de formulas estereis que não permittiam que se desenvolvesse a vida espiritual.

É uma verdade evangelica que quando um homem se sente triste por causa dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza d’este ou d’aquelle modo; o verdadeiro arrependimento torna-se sempre manifesto. A Egreja da Edade Media pegou n’este axioma e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento deve manifestar-se sempre em certos e determinados modos prescriptos pela Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento, taes como, o dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos dias, ou o praticar outras penitencias mais ou menos dolorosas, vieram a ser consideradas como o verdadeiro arrependimento e a serem chamados por esse nome.

No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta, ficou estabelecido que o pagamento de umas determinadas sommas de dinheiro dispensasse os signaes exteriores do arrependimento, comtanto que o peccador penitente se sentisse compungido no seu coração por haver peccado. Quando a Egreja attingiu um estado ainda peior, decidiu-se, como coisa assente, que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o perdão de Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico das indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam esta doutrina muito lucrativa, e, como foi abertamente proclamado, diligenciaram extrair todo o dinheiro que lhes fosse possivel «dos peccados dos allemães». A indulgencia contra a qual Luthero protestou era a quinta das que nos ultimos dezesete annos tinham sido publicadas.

As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso encadeado contra a doutrina e pratica das indulgencias. E torna evidentes estas tres coisas: (1) É, de algum modo, digna de approvação a indulgencia quando significa simplesmente um dos muitos meios de proclamar o perdão do peccado, concedido por Deus; mas uma tal proclamação deve ser sempre gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao verdadeiro arrependimento, e a auctorisação para deixar de os pôr em pratica não pode, de maneira alguma, garantir que Deus tenha realmente perdoado. (3) Qualquer cristão que se sinta verdadeiramente arrependido recebe um pleno perdão, e é participante de todas as riquezas de Christo, por um dom directo de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar melhor as suas theses, declara que o arrependimento consiste na contricção, na confissão e na absolvição, e que a mais importante das tres coisas é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr verdadeira, sincera, seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão e a absolvição. Assim, para Luthero, a coisa essencial é o facto intimo, espiritual, da dôr produzida pelo sentimento do peccado; a manifestação do pezar é uma coisa boa, mas para o que Deus olha é para o estado espiritual, e não para a exteriorisação d’esse estado.

As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.—Luthero, nas suas theses e no seu sermão, declarou que os factos intimos, espirituaes, experimentados pelo homem, eram de um infinito valor, comparados com a expressão d’esses factos mediante formulas esteriotypadas que a Egreja reconhecia; e tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter directamente com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo isto, fez muito mais do que atacar as indulgencias; protestou contra as mais enraizadas noções da Egreja medieval.

A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos desde o dia de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição homens e mulheres, cheios de confiança em Christo, se teem dirigido humildemente a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes concedido esse perdão que solicitavam, e a sua simples experiencia christã foi cantada nos grandiosos e velhos hymnos da egreja medieval; encontrou expressão nas orações da Egreja; constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja, e agitou as multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como quer que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia era opposta ao maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja accumulava de tal fórma as coisas exteriores, que a vida espiritual ficou sepultada debaixo d’ellas, e na linguagem corrente da epoca havia-se mudado a verdadeira significação dos termos «espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem era «espiritual» quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o dinheiro tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio, com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual», ou «santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade.

E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos, com a sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes, e tão cega tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o homem, proclamando que ninguem se podia chegar a Deus senão por meio d’ella, e que Deus não poderia jámais fallar ao coração do homem senão egualmente por seu intermedio. A confissão dos peccados tinha de ser feita ao padre, e o perdão era concedido mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra tudo isto n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não sabia. A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade de se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos peccados comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus eram coisas que desappareciam mediante o desembolso de uma certa quantia. Ao dar saida á sua indignação, referia-se apenas ao sacrilegio que via deante de si; e, comtudo, atacou, não simplesmente a peior parte de um systema mau, mas o systema todo. A Reforma tinha começado.

A historia de Luthero, desde o principio.—O homem que se oppoz a Tetzel tinha, apoz um longo e encarniçado combate, chegado ao conhecimento do que o perdão dos peccados significa realmente. Recorrera a todos os meios que a Egreja poz ao dispôr dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles lhe proporcionara conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e achou a paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado com as armas pontificias, e lavrou o seu protesto em nome de todos aquelles que, em todos os seculos da egreja, sentindo-se vergados ao peso do peccado, tinham encontrado em Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle torna isto bem evidente, como vamos ver.

Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. «Sou camponez, e filho de camponez», costumava elle dizer. O pae era mineiro, e a mãe uma camponeza com fama de muita austeridade. Teve uma infancia muito pouco risonha, e, apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus caracteristicos, notava-se-lhe de quando em quando um certo ar triste que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros annos da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um homem. Como todos os homens de trabalho, tinha em desprezo os indolentes frades, e toda a sua idéa era que o filho fosse advogado; queria que elle se formasse em direito, conhecesse todas as engrenagens da lei, d’esse terrivel tyranno do camponez allemão, que o tratava como a um servo, quasi como a um proscripto. Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld, de Magdeburgo, de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle tempo, bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que não experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas vezes, forçoso cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu o primeiro lampejo da caridade humana, quando Frau Cotta, attraida pela triste solidão em que elle vivia e pela sua melodiosa voz, o introduziu em sua casa e lhe fez todo o bem que poude. De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade, onde não tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio. Leu as grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima de tudo, leu e tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos do bravo franciscano inglez Guilherme de Occam, que resistiu denodadamente aos papas no seculo quatorze, e que ensinou Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero chamava-lhe com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503 recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se notado pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia. Estava, pois, no caminho da posição em que o pae desejava vêl-o: a de um grande jurisconsulto.

Durante todo esse tempo, comtudo, a sua consciencia não tinha estado ociosa; os seus peccados atormentavam-n’o; a ira de Deus tinha caido pesadamente sobre elle. O amor de Deus era uma coisa que para elle não existia. O pae terrestre tinha-o tratado sempre com severidade, com dureza, e no Pae celestial via apenas um senhor que exigia d’elle esta e aquella coisa. No dia 17 de Julho de 1505, tendo elle 21 annos, os seus sentimentos religiosos poderam mais do que elle; entrou para o convento dos agostinhos de Erfurt, fugindo á sociedade de parentes e amigos, e desprezando todas as honrarias humanas. O seu Platão e o seu Virgilio, de que se fez acompanhar, ficaram sendo as unicas recordações da sua vida passada.

No convento poz-se a trabalhar para achar o caminho da salvação. Leu obras theologicas, jejuou, orou, submetteu-se a toda a sorte de privações, mas nunca logrou encontrar a paz. Não tardou em adquirir uma Biblia completa, coisa para elle inteiramente nova, e poz-se a estudal-a com todo o afan; o terror do peccado estava, porém, sobre elle, e não lhe deixava ver o Evangelho. Foi ter com o vigario geral da ordem, Staupitz, que era um homem muito fervoroso, e este encaminhou-o para Agostinho e para os mysticos allemães, em que encontrou um grande auxilio. Aquelle mostrou-lhe o que era o peccado, e o que era a graça soberana; e estes convenceram-n’o de que a verdadeira religião era a religião do coração. No emtanto continuava a faltar-lhe a paz.

No meio d’este conflicto, foi-lhe confiado um encargo especial. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, e o mais eminente dos principes allemães, fundou uma nova universidade em Wittenberg, e pediu a Staupitz que indicasse os respectivos lentes. Luthero foi então nomeado professor de philosophia, e começou logo a fazer prelecções. Em 1512 doutorou-se em theologia biblica, versando as suas conferencias sobre os Psalmos e as Epistolas de S. Paulo aos Romanos e aos Galatas. Como estudo, leu os Mysticos, os Sermões de Teulez, e aquelle pequeno mas importante livro, A Theologia Allemã. Chegou, porém, a crise da sua vida. Em 1511 foi enviado a Roma para tratar de negocios. Á ida era um theologo medieval; á volta era um protestante; á ida cria na justificação pelas obras, á volta cria na justificação pela fé.

Roma era, havia muitos seculos, um amontoado de corrupção moral, e Luthero descobriu isso immediatamente. Entrou n’aquella cidade como um judeu entraria em Jerusalem. Elle proprio nos conta que ao avistal-a caiu de joelhos e exclamou: «Eu te saudo, cidade santa, tres vezes santificada pelo sangue dos martyres que se tem derramado em ti». Viu que os monges e padres eram homens maus, que faziam zombaria dos serviços religiosos em que tomavam parte. Viu que havia no povo muita deslealdade e cubiça, e que até o papa pouco melhor era do que um pagão. Luthero havia-se dirigido a Roma com a idéa de achar na cidade santa, como elle lhe chamava lá na Allemanha, algum meio seguro de promover a sua salvação, e, caso estranho, foi o proprio Christo que elle achou. Foi em Roma, no meio da corrupção e da blasphemia, que de subito se compenetrou de que não havia outro meio de salvação senão procurar Christo e entregar tudo ao cuidado d’Elle; de que o perdão é gratuitamente concedido por Deus e dá principio á vida christã, em vez de ser penosamente ganho no fim della.

Ao regressar a Wittenberg, era outro homem. Era já afamado como prégador; mas depois da sua visita a Roma prégava como nenhum outro poderia prégar. Tornou-se a primeira figura da universidade, e tinha como amigos Staupitz, o seu geral, e Frederico, o seu principe. Foi então que appareceram as famosas indulgencias.

Partidarios e adversarios de Luthero.—Ao principio parecia que toda a Allemanha estava ao lado de Luthero. O trafico das indulgencias tinha sido tão escandaloso que as pessoas de bons sentimentos e todos os patriotas allemães se sentiam indignados. O golpe, porém, que Luthero vibrara ás indulgencias havia attingido outros pontos, e não tardaram a levantar-se antagonistas. Conrado Wimpina em Frankfort, Hogstraten em Colonia, Silvestre Prierias em Roma, e, acima de todos, João Eck, um seu antigo condiscipulo, em Ingolstadt, todos elles atacaram as theses, e descobriram heresias nas mesmas.

Resultou de ahi que Luthero foi citado a comparecer, em Roma, na presença do papa; mas o eleitor da Saxonia conseguiu uma modificação, recebendo, por fim, Luthero ordem para partir para Augsburgo, a fim de ser interrogado pelo cardeal Caetano, legado do papa na dieta allemã. O papa queria evitar uma desintelligencia com o eleitor da Saxonia, e recommendou a Caetano que se mostrasse conciliativo. Luthero foi, mas a entrevista não teve bom exito. O cardeal começou por reprehender Luthero, mas acabou por se sentir dominado por um certo mêdo d’elle. «Não posso discutir mais com este animal», disse elle; «tem um olhar maligno, e povoam-lhe o cerebro uns pensamentos estupendos». Luthero, por seu lado, dizia abertamente que o legado era tão competente para julgar de assumptos espirituaes como um burro para tocar harpa.

Ao deixar Augsburgo, levava sobre si a condemnação, mas havia appellado para o proprio papa, rogando-lhe que se informasse melhor do seu caso. O papa não queria indispôr-se com a Allemanha, porque a parte mais importante da nação parecia estar a favor de Luthero, e enviou o cardeal Miltitz a promover a paz. Este não chamou o moço frade á sua presença, mas teve com elle uma conversação amigavel em casa de Spalatin, o capellão do eleitor. Antes d’esta entrevista Luthero havia appellado para um concilio geral. O cardeal Miltitz declarou estar em desaccordo com Tetzel, reprovou as indulgencias, e concordou com muitas das asserções de Luthero; mas lembrou-lhe que não tinha sido bastante respeitoso para com o papa, e que estava enfraquecendo o poder e a auctoridade da egreja. O seu argumento era, em summa, o seguinte: «O senhor pode ter razão; mas para que ha de ser rude? Escreva ao papa, e peça-lhe desculpa». Luthero prometteu fazel-o, e entre elle e Miltitz ficou estabelecido um convenio, que, como elle depois referiu ao eleitor, continha duas clausulas:

1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre as materias em controversia.

2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios, e o papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão de theologos illustrados.

No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente que a auctoridade da egreja era superior a tudo, e que a coisa alguma, quer na terra quer no céu, se devia dar a prioridade, com excepção de Jesus Christo, que tudo governa. Isto foi em Março de 1519.

A disputa de Leipzig.—Luthero tinha promettido conservar-se quieto se os seus adversarios se conservassem quietos—era este o seu ajuste com o cardeal Miltitz; os seus inimigos, porém, não se conservaram quietos, e Luthero considerou-se livre para os atacar. O indiscreto amigo da egreja era João Eck. Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero, para uma discussão publica, e no entretanto publicou treze theses que atacavam as noventa e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente, e a polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia attingiu um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica, mas, sim, a opposição de duas series de principios em conflicto, affectando todo o circulo da vida ecclesiastica. Aqui, pela primeira vez, a christandade allemã desprendeu-se da christandade romana, insistindo no sacerdocio de todos os crentes e no direito de cada christão julgar em todas as coisas segundo a sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu Santo Espirito.

Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias, mas o debate em breve mudou para a auctoridade da Egreja romana e do papa. Eck mantinha a suprema auctoridade do bispo de Roma, como successor de S. Pedro e Vigario geral de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja romana sobre as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos mais santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou uma grande contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou Eck. «A egreja grega tem existido sem papa, e vós sois o primeiro a negar-lhe o nome de Egreja» respondeu Luthero. «Athanasio, Basilio e os dois Gregorios estavam fóra da egreja? O papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do papa». «Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de Huss eram erroneas» disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões dos concilios, eu recuso discutir comvosco», disse Eck, e por aqui se ficou. Immediatamente depois, porém, Luthero completou e publicou a sua argumentação. Declara, pela primeira vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa, mas o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o papa se mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos servos de Deus», elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a egreja é a communhão dos fieis—é constituida pelos verdadeiros crentes, pelos eleitos. Á egreja nunca falta o Espirito Santo, e aos papas e concilios falta muitas vezes. Esta egreja, que tem sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto, um leigo que possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de credito do que um papa ou um concilio que o não faça.

Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados. De um lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião que Luthero devia ser violentamente posto fóra de combate, e insistiram n’uma bulla papal que o condemnasse; e do outro, Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha chegado com a sua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia agostiniana, com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus, feria, em todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade media: mostrava que era impossivel a qualquer homem o ter uma vida perfeitamente pura e santa, e, por consequencia, não podia haver santos, e o culto dado aos santos era um absurdo; tornava inuteis as reliquias e as peregrinações, assim como a vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações. Todas estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira vida religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver mediador entre Deus e os homens, com excepção de Jesus Christo, a mediação do papa para nada servia.

A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia separado de Roma, e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso, chegando o seu enthusiasmo a um ponto extremo. O povo das cidades manifestou a sua sympathia pelo arrojado frade. Ulrico von Hutten e os outros homens de letras viram n’elle, desde então, o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros cavalleiros livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os pobres e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que elle os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam. Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo allemão. Isto teve logar em 1519.

A bulla do papa e a queima da mesma.—Eck e os demais adversarios de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia pôr em pratica para reduzir ao silencio o audacioso monge, e instaram com o papa para que publicasse uma bulla condemnando as suas opiniões. Luthero, por seu lado, não estava ocioso. Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua habitual actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre, e, comtudo, mandava todos os annos uma consideravel quantia de dinheiro para Roma.

N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico, tendo Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em bispados, e o clero era muito rico. Possuia extensos dominios, que arrendava; tinha tambem direito aos dizimos (a decima parte) de todas as outras propriedades; além d’isso, fazia dinheiro com os baptismos, com os casamentos, com as absolvições, com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros, e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se tambem tornado muito opulentas, sendo a sua maior riqueza constituida por terras que lhes haviam sido doadas ou legadas em testamento por pessoas devotas. Em quasi todos os paizes da Europa se haviam promulgado leis com o fim de impedir ou limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão inefficazes que ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras de quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os annos para Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram recolhidas pelo papa, que demorava sempre a nomeação de outro bispo. O papa diligenciava frequentemente que os bispos ou abbades fossem italianos, pois que estes ficavam residindo em Roma, e o dinheiro era-lhes remettido para lá. Quando um novo bispo era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento do primeiro anno (os annatas). Todo este dinheiro que era exportado para Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias. Luthero, no seu opusculo Á nobreza da nação allemã tornava tudo isto saliente, e perguntava por quanto tempo se estaria disposto a tolerar similhante coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista dos dois estados distinctos, um espiritual, incluindo o papa, os bispos, os padres, os frades e as freiras, e o outro temporal, constituido por todas as outras individualidades, era um muro levantado pelos romanistas para defenderem as oppressões da egreja. Dizia-lhes, outrosim, que todos os christãos são espirituaes, e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que do seu depauperado paiz fossem enviados annualmente para Roma 300.000 florins.

Escreveu tambem outro tratado, O captiveiro babylonico da egreja de Christo, para mostrar que elle não desejava destruir mas purificar a verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito. Luthero opinava que o papa e os romanistas tinham conduzido a egreja a um captiveiro, muito comparavel ao dos judeus em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O Senhor disse por occasião da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus discipulos, «Bebei d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes d’elle se não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros christãos tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo preparadas bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida uma retractação, sob pena de ser proclamado hereje. Se é verdade, desejo que este livrinho fique constituindo uma parte da minha futura retractação».

Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos da Allemanha, e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu, por fim, em 15 de Julho de 1520. Accusava Luthero de sustentar as opiniões de Huss, e condemnava-o. Eck levou-a para Leipzig em Outubro. Foi affixada em varias cidades allemãs, e em geral os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou, por fim, ás mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto, em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim annunciou em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro, á frente de um cortejo de professores e estudantes, Luthero saiu da universidade e dirigiu-se para o mercado. Um dos lentes accendeu a fogueira, e Luthero lançou a bulla ás chammas. Estava consummada a affronta. Foi tambem queimado um exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali em deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma. A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um enorme regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só o imperador é que tinha poder agora para reprimir Luthero.

O imperador e a Reforma.—O imperador era, por esse tempo, Carlos V. Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado na Allemanha, nem era tão poderoso como o seu titulo indicava. N’aquelles dias ainda predominavam as idéas medievaes de governo, e Carlos V tinha resolvido restabelecer o velho poder imperial com todos os seus attributos.

No principio da edade media os homens colhiam as suas idéas de governo do velho imperio romano—não do imperio pagão de Augusto Cesar e dos seus successores, mas do imperio christão de Constantino e de aquelles que vieram apoz elle. Posto que aquelle velho imperio tivesse sido destruido pelas invasões das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das conquistas ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram o governo e as leis da nação que haviam derrubado.

Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem social eram coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse concentrado n’um foco e identificado n’uma só pessoa—o monarca universal; e quando todo o governo ecclesiastico e communhão religiosa não obedecessem, da mesma fórma, ao arbitrio de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca universal era o imperador, que dominava circa civilia como vigario, ou representante, de Deus; e o sacerdote universal era o papa, que dominava circa sacra, como vigario, ou representante, de Deus. Um dominava nos corpos, o outro dominava nas almas, dos homens; e o dominio de ambos era universal. Um tinha o poderio da espada, e o outro tinha o poderio das chaves. Este sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade, até então; mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma, estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador e o papa.

No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão, concebeu o plano de, mediante um elaborado systema de enlaces matrimoniaes, restituir ao imperio a sua primitiva grandeza. Tinha tres filhas. A mais velha casou com o rei de Portugal, o que daria logar a que este paiz e Hespanha ficassem constituindo um só reino. A segunda casou com Filippe de Austria, chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor da Borgonha e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIII de Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e de Borgonha. Do terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos casou com sua prima Isabel, e ficou, portanto, reinando em Hespanha, Austria, Borgonha e Paizes Baixos. E mais tarde foi tambem imperador e rei de Italia.

Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha havido outro durante muitos seculos; e a sua ambição era ver-se investido da mesma auctoridade que tinham tido Carlos Magno e Otto I. Tinha os olhos constantemente fitos no passado; e lá no seu intimo arquitectava a maneira de restabelecer na Europa aquella unidade politica que desapparecera quando começaram a organizar-se as nações modernas. Esta velha unidade, porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem uma egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era por elle considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador, o seu imperio não estava muito firme. Era poderoso, não por ser imperador, mas por ter sob o seu dominio a Hespanha, a Borgonha, e a Austria; as luctas intestinas de que a Allemanha era theatro, e as muitas questões que surgiam, a que era necessario dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe algum tanto o poder.

O estado politico da Allemanha.—A Allemanha, no tempo da Reforma, não tinha uma unidade politica. Estava nominalmente unida sob o imperio, e era governada pela Dieta; mas o poder, tanto do imperador como da Dieta, era, praticamente, fraquissimo. O imperio era electivo, e desde o anno de 1356 a eleição havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres na região do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na do Rheno eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de Mayença, Trier e Köln. As successivas concessões que os principes obtinham á custa das eleições iam diminuindo o poder imperial.

Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande conselho do imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: I Seis principes eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres clerigos (não entrava o rei da Bohemia); II Os principes, ou gran-barões, seculares e ecclesiasticos; III Os representantes das cidades livres, que eram as que gozavam de privilegios concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi tantos principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado como instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. A Dieta, comtudo, tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava tão dividida que cada um dos principes independentes podia fazer o que muito bem quizesse. As cidades, formando ligas entre si, podiam offerecer uma certa resistencia á tyrannia dos principes; mas os aldeãos, incapazes de similhante combinação, eram acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes e pelos barões.

A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco de invejar. Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando as suas terras, mas os senhores feudaes foram, pouco a pouco, cerceando-lhes direitos, chegando ao ponto de lhes prohibirem a entrada nos baldios, de não lhes permitir que se abastecessem de lenha, que pescassem nos rios, etc. Não tinham a quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A sua unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem com o feudalismo, de se tornarem proprietarios.

O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, deparou com muitas questões graves que estavam á espera de solução; o povo estava ancioso por um governo central, as cidades queriam que se pozesse termo ás constantes contendas que havia entre os barões, os poderes, civil e ecclesiastico, accusavam-se mutuamente, e, por ultimo, a questão de Luthero continuava agitando os espiritos.

Luthero e a dieta de Worms.—A Dieta foi aberta por Carlos V em Janeiro de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar com os principes reunidos em assembléa para que pozessem termo ás heresias de Luthero, não sendo, na sua opinião, necessario que este fosse ouvido. Os principes, porém, que tambem tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem o ouvir e sem elle estar presente. Por fim o imperador intimou Luthero a apresentar-se, e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um arauto foi, pois, procural-o da parte do seu imperial amo, e em abril Luthero partiu para Worms. Ia resolvido a não se retractar, posto que o animasse a convicção de não voltar com vida. A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção de fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de Christo me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando mesmo deante da morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, se os meus inimigos me assassinarem, continúa tu, de todo o coração te imploro, a ensinar e a dar testemunho da verdade». Antes de deixar Wittenberg, havia preparado, de collaboração com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se compunha de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a respectiva explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma pagina apparecia Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra o papa estendendo o pé para que lh’o beijassem; a Christo levando a cruz contrapunha-se o papa levado em procissão pelas ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo expulsando os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo junto de si um monte de dinheiro.

Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando lhe chegou aos ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia lhe preparava uma emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria de me pôr a caminho, ainda mesmo que houvesse uma chuva de duques da Saxonia». E quando lhe disseram que o diabo se havia de apoderar d’elle por qualquer fórma, replicou: «Não deixaria de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá houvesse tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes multidões, ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, por fim a Worms, e logo no dia immediato foi apresentado á Dieta. O imperador tinha a seu lado o arquiduque de Austria, seu irmão, e a assembléa compunha-se de seis eleitores, vinte e oito duques, trinta prelados, e um grande numero de outras personagens de menor cathegoria, ao todo uns duzentos principes. Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de confessar a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se os havia escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum tempo para reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte e quatro horas, foi reconduzido á casa onde se hospedára.

Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de abrir caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o animava e lhe recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o velho general Frunsberg bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada receies, fradinho!» Na vespera havia-se mostrado um tanto confuso, havia denotado uma certa timidez, mas n’aquelle segundo dia estava de posse da sua coragem habitual. O chanceller do arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do imperador. «Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos seus livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação até dos proprios adversarios, e que não se podia esperar d’elle uma retractação no tocante a essas coisas; havia tambem protestado contra manifestos abusos, e seria, decerto, um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião affirmasse ser falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era verdadeiro; n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, era possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, estando, portanto, prompto a desdizer qualquer asseveração cuja injustiça lhe fosse provada. «Esse vosso arrazoado é inopportuno», replicou Eck; «o que o imperador quer é uma resposta definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes contra a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio de Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. «Vou dar-vol-a, pois. (Vou dar uma resposta sem pontas nem dentes, diz o original). Não me retracto de coisa alguma, a não ser que me convençam pela Escriptura ou por meio de argumentos irrefutaveis. É claro como a luz do dia que tanto papas como concilios teem algumas vezes errado. A minha consciencia tem de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra a consciencia é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero retractar-me. Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei chegou a crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, realmente, que um concilio é susceptivel de errar?», perguntou elle, por fim. «Affirmo», retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei sempre. Assim Deus me ajude. Amen». Aquella sua firmeza tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam que o imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á morte, sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que elle, ao mesmo tempo que combatia pela consciencia, combatia tambem pela Allemanha, pozeram-se do seu lado. Conseguiram que o imperador addiasse a sentença, e instaram depois com Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos os seus esforços.

Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo tomar o partido de Luthero e da Allemanha, para não quebrar relações com o papa, não desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, faltando assim á sua palavra. Ordenou, pois, a Luthero que se retirasse, mas fez publicar um edicto, condemnando os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio sob o anathema do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante ninguem podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o em sua casa: quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe a mão e entregal-o aos guardas do imperador, que ficavam com plenos poderes para o matarem. Tudo isto, porém, só podia ter logar depois de expirado o prazo que o salvo-conducto mencionava.

Luthero em Wartburgo.—Os amigos de Luthero foram de parecer que, depois do edicto de Worms, a vida d’elle corria perigo, até mesmo em Wittenberg; e o eleitor da Saxonia encarregou uns tantos soldados de o irem esperar ao caminho, apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de Wartburgo, que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se, sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos sabia, ao principio, onde elle se encontrava. Emquanto esteve em Wartburgo, submetteu-se a uma vida de isolamento, e para maior precaução deixou crescer a barba, vestiu-se de cavalleiro, e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez mezes n’aquelle seu esconderijo.

Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a traducção da Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu tornar conhecido dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon mandava-lhe de Wittenberg todos os livros de que elle necessitava. Começou com o Novo Testamento, e traduziu-o quasi todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento teve o que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez por semana em casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo auxilio nas passagens difficeis.

Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da Biblia um livro para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella phrases finas, phrases palacianas; desejava tornal-a um livro que fosse comprehendido por todos, homens, mulheres e creanças, e dedicou a esse trabalho todo o seu talento e actividade. Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que se vê o grande numero de emendas por que muitas das orações passaram, chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. «Estamos trabalhando com todas as nossas forças», escreveu elle em certa occasião, «para que os prophetas fallem na nossa lingua. Que grande e difficil tarefa é esta, de fazer com que os escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles offerecem uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por uma lingua barbara».

A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de quasi se poder dizer que não existia a lingua allemã. O allemão antes do tempo de Luthero, assim como o inglez antes do tempo de Chaucer, era um aggregado de dialectos; e, de facto, a Biblia de Luthero é que fez a lingua allemã, pois que tem servido desde então como que de modelo, e o seu estylo tem sido imitado por todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto, tornando-se gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz, e a linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de separação que passou depois por toda a Allemanha.

Regresso de Luthero a Wittenberg.—Emquanto Luthero esteve em Wartburgo, andaram os seus amigos prégando o Evangelho por toda a Allemanha, sem soffrerem o minimo incommodo, e os seus livros eram lidos por toda a parte. Dir-se-hia que toda a Allemanha se tornava protestante, a despeito do edicto do imperador. Havia de todos os lados um grande movimento a favor das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria. Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, a cabeça e querem que as coisas caminhem muitissimo depressa ou vão até demasiadamente longe; foi o que succedeu na Allemanha.

Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de Erzgebirge, ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada Zwickau. Os habitantes d’essa cidade acceitaram a Reforma. Entre elles havia um tecelão, Claus Storch, homem excitavel, que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e que reuniu em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de muito pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; a Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. Metteram-se a limpar a sua terra de todos os indicios da antiga religião—as ornamentações das egrejas, os altares, as cruzes, o clero, etc.—e deram logar a alguns tumultos, levantando-se, por fim, contra elles os seus conterraneos, que os pozeram fóra.

Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram as suas idéas ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, que eram ali os dirigentes espirituaes na ausencia de Luthero. Carlstadt adoptou por completo o seu modo de pensar, Melanchthon deixou-se persuadir até a um certo ponto, e a agitação começou a lavrar entre as massas populares. As imagens foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; a Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.

Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão de Wartburgo, e resolveu sair de aquella especie de sequestração em que se encontrava. Correu a Wittenberg, e o povo tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se familiarisara, trovejando do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a falta de caridade. Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por fim triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, e o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum com os excessos de Storch, e do seu companheiro Münzer.

Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma coisa boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as ceremonias do catholicismo romano, que foram substituidas por um serviço religioso mais em conformidade com as Escripturas.

A Dieta de Nürnberg.—O anathema do imperio ainda estava sobre Luthero, pois que não havia sido revogado; mas ninguem pensava em o pôr em execução. Luthero prégava, escrevia, e editava os seus trabalhos, sem que pessoa alguma na Allemanha o tivesse na conta de um proscripto. Ainda mais, alguns dos principes allemães eram de parecer que o edicto de Worms devia ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha, deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros conheciam bem o estado da Allemanha e os sentimentos do povo, e não se sentiam inclinados a desposar a causa do papa.

Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em 1522 e 1524, o nuncio do papa viu que os principes allemães não eram de modo algum favoraveis á sua proposta para que Luthero soffresse a pena de morte. Em vez de discutirem esse ponto, apresentaram differentes reclamações, insistindo muito com o nuncio para que chamasse para ellas a attenção do papa; e muitas d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os quaes se baseou a condemnação de Luthero.

Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os principes allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era necessario nomear uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos abusos fossem abolidos e se esclarecessem certos pontos duvidosos de doutrina que tinham surgido, annunciando, ao mesmo tempo, que toda essa questão de differenças religiosas havia de ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se em Spira. Toda a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero; e alguns estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam abertamente quaes as reformas por que a religião devia passar. Pediam a abolição dos cinco falsos sacramentos, da missa, do culto dos santos e da supremacia pontificia. A Reforma havia-se espalhado tambem para além da Allemanha, e já em 1524 havia discipulos de Luthero em França, na Dinamarca e nos Paizes Baixos.

A revolta dos nobres foi o primeiro dos grandes revezes que o movimento da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero tinham-se espalhado sem obstaculo de maior pela Allemanha e pelo estrangeiro. De toda a parte se protestava contra os cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a confissão auricular, o culto dos santos e das reliquias, o celibato do clero, a negação do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação episcopal e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era uma fórma de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, e uma fórma de governo que tornasse manifesto o sacerdocio espiritual de todos os crentes. A Dieta tinha repetidamente, na sua lista de aggravos, chamado a attenção do papa para os abusos que se observavam na egreja, e propoz, por fim, que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias reformas.

Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava de ser reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes era cada vez mais insustentavel; os principes, mais poderosos do que elles, supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes viviam, pela maior parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se em segredo para uma revolução. Tanto de um lado como do outro contava-se com a Reforma como com um poderoso auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto a inutilidade dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se d’este estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas assim o entenderam, e, porque assim o entendessem, entraram no caminho da revolta.

A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo, probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram n’ella estavam, realmente, luctando contra a orientação da epoca e contra a corrente da historia. Viam todo o territorio allemão caindo nas mãos de meia duzia de familias principescas, e todo o povo das cidades enriquecendo por meio do commercio e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam que a Allemanha não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam voltar aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam outra auctoridade que não fosse a do imperador. Tinham por cabecilha Francisco von Sickingen, homem muito notavel, de grande valor militar, e a quem se não podia negar um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os principes aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.

O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com a Reforma, mas muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar com a Reforma por causa do seu odio aos nobres revoltados. Sickingen tinha de muitos modos tentado fazer com que parecesse que a causa que defendia era a causa da liberdade religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms, Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e a dieta. Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados de perseguição depois da dieta de Worms, Sickingen prometteu proteger todos aquelles que se acolhessem a elle; e, ao levantar o estandarte da revolta contra os principes, declarou que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer as novas doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos principes apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de terem ajudado e instigado esta guerra civil.

De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção de Ratisbonna, ou Regensburgo, que era uma confederação, ou liga, dos principes catholicos romanos contra a Reforma; e assim a Allemanha, que até ali se tinha mantido n’uma união propicia ás reformas, dividiu-se em duas partes, o que tornou o trabalho muito mais difficil. Os confederados de Regensburgo diligenciaram chegar a accordo com o partido papista de Roma. O papa prometteu que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria aquella grande drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de reforma, oppondo-se tenazmente a qualquer modificação de culto ou de doutrina. A Baviera, a Austria e as grandes provincias ecclesiasticas do sul da Allemanha iam pôr-se ao lado de Roma na lucta que estava imminente. A Convenção de Regensburgo veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.

A revolta dos camponezes teve consequencias mais serias. Não fez sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima reformação; deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, por fim, de opinião a muitos respeitos. O movimento rural não tinha por objecto a Reforma; a sua origem foi a miseria profunda em que a gente do campo vivia. O soffrimento d’essa gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto que a morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo quinze que de quando em quando se levantava uma sedição de camponezes n’um ou n’outro ponto da Europa, e todas essas revoltas haviam sido suffocadas, sem que fossem concedidas as almejadas reformas, de modo que as causas da rebellião continuavam ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que as terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam eram as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam em harmonia com o valor do terreno. Além das rendas, eram tambem obrigados a prestar aos proprietarios certos serviços de que não recebiam remuneração alguma; esses serviços variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o senhorio tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser preciso metter a mão á bolsa.

A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes prohibido, sob pena de um severo castigo, o entregarem-se ao exercicio da caça ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos bosques, era-lhes vedada uma grande parte dos baldios, e de todos os modos se viam embaraçados no seu trabalho e na sua actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da propriedade tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma vacca, uma ovelha, ou até a propria cama.

A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava os dizimos: uma decima parte da colheita, que era chamada o grande dizimo; e uma decima parte do producto dos animaes, que era chamada o pequeno dizimo. Tinham de ser pagos depois de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se ter pago a renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a decima parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco ficava para o pobre camponez e sua familia.

Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, pode-se supportar as maiores agruras da vida, quando ha a certeza de que se não corre o risco de peiorar, e de que justiça será feita quando aquelles que occupam posições superiores quizerem tirar partido da pobreza e fraqueza dos seus similhantes. O camponez allemão, porém, não tinha essa certeza. O velho codigo romano havia substituido gradualmente a legislação allemã, e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, para amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, e quando as leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha viu-se logo que o camponez ficava, pouco mais ou menos, na condição de escravo.

Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, não ousavam recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o seu amo entendia que deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito algum; o proprietario podia tornar-lhes mais pesados os trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em summa, exigir d’elles o que quizesse.

N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido transportadas para a Europa enormes riquezas. A America, a terra da prata e do oiro, tinha sido descoberta, e o commercio augmentara consideravelmente. Estas riquezas tinham sido ganhas por mercadores e negociantes aventureiros, e a classe commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada e luxuosamente.

Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura ao pé dos negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem o mesmo fausto, e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres camponezes, cujo viver era cada vez mais miseravel, ao passo que a gente das cidades se rodeiava de commodidades que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem augmentados os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos os impostos.

Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito antes do tempo de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no Main e no Rheno os camponezes levantaram-se contra os seus tyrannos, e as associações secretas organizadas durante essas insurreições continuaram permanecendo até muito depois d’ellas haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas associações era a de Bundschuh, isto é, a do sapato atado. A liga de Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a de todo; e durante a agitação produzida pela estada de Luthero em Worms, quando todos os allemães receiavam pela vida do seu reformador, a sinistra palavra Bundschuh appareceu escripta a giz pelas paredes.

A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora das anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas, e podemos affirmar que os seus promotores contavam com que o Evangelho prégado por Luthero lhes proporcionasse um bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de Claus Storch, que havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau, mettera-se a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta. A Bundschuh reapparecera em Würtemberg, devido á cruel oppressão do duque Ulrico. Em 1524 os camponios do Rheno ergueram o estandarte da revolta, e a chamma propagou-se em todas as direcções.

Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por meio das armas. Se os camponezes tivessem começado por uma acção violenta, teriam, talvez, sido mais bem succedidos. A sua idéa era convocar grandes comicios onde fossem expostas as suas reclamações, pois julgavam que por esse meio viriam a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas das listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram por dizer que só pediam aquillo que os principios do Evangelho os auctorizavam a pedir, e que não desejavam entrar em lucta, porque o Evangelho os mandava viver em paz e amor. Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos, e vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo com o ensino da Palavra de Deus:

1. A congregação deve ter poder para eleger o seu ministro, e para o demittir no caso do seu procedimento ser censuravel; e o ministro deve prégar o Evangelho puro, sem lhe accrescentar mais nada.

2. Promettem pagar o dizimo do trigo para a sustentação dos ministros, comtanto que o que ficar, depois de pagos os respectivos estipendios, seja applicado no soccorro dos pobres; mas recusam pagar o pequeno dizimo, isto é, o dos porcos, dos ovos, etc., porque, dizem elles, Deus creou os animaes para uso do homem.

3. A servidão deve ser abolida. A Escriptura declara que os homens são livres.

4 Deve haver inteira liberdade para caçar e para pescar, pois que Deus creou as aves e os peixes para uso de todos.

5. As florestas que não pertençam a alguem por direito de compra devem ser restituidas á communa, ou municipio; e todos os habitantes devem ter liberdade para cortar madeira de que necessitarem para combustivel ou para trabalhos de carpinteria, devendo haver guardas, pagos pela communa, que impeçam qualquer acto de vandalismo.

6. Os serviços obrigatorios devem ficar restrictos ao que era permittido pelos antigos costumes.

7. Tudo o mais que se fizer deve ser condignamente pago.

8. As rendas estão muito elevadas; as terras devem ser avaliadas de novo, e pagar-se pelo seu aluguer uma quantia razoavel.

9. A lei deve determinar as penas que correspondem aos diversos crimes, ficando defezo a quem quer que seja a applicação de um castigo arbitrario.

10. Os campos de pastagem e outros baldios de que os proprietarios se teem apoderado devem ser restituidos ao logradouro publico.

11. Deve ser abolido o direito de morte (A faculdade que tem o senhorio de levar qualquer objecto da casa do rendeiro fallecido).

12. Todas estas proposições devem passar pelo cadinho da Escriptura, e serão retiradas as que fôrem susceptiveis de refutação.

Estes artigos eram, quasi todos elles, assaz equitativos, e estão agora incluidos na legislação allemã. Se as reivindicações dos camponezes fossem recebidas como elles esperavam, e como tinham direito a esperar, ter-se-hia chegado a um accordo. Os seus adversarios fingiram que se interessavam por ellas, para ganharem tempo; e os camponezes, por fim, vendo-se atraiçoados, pegaram em armas.

Recorreram a Luthero. Elle era filho de camponez; tinha conhecido a necessidade. E Luthero, respondendo ao appello que lhe fizeram, intercedeu por elles, dirigindo-se d’este modo aos proprietarios: «Posso agora fazer causa commum com os camponezes, porque vós attribuis esta insurreição ao Evangelho e ao meu ensino, quando a verdade é que nunca cessei de intimar obediencia á auctoridade, mesmo quando ella seja tão tyrannica e tão intoleravel como a vossa. Não quero, porém, envenenar a ferida; e, portanto, meus senhores, quer me sejaes benevolos quer me sejaes hostis, não desprezeis os conselhos de um pobre homem como eu, e não tenhaes em pouca conta esta sedição; não quero dizer com isto que temaes os insurgentes, mas que temaes a Deus, que está irritado contra vós. Elle póde punir-vos, e converter todas as pedras em camponezas, sem que nem as vossas couraças nem todo o poder de que dispondes vos possam livrar. Ponde, pois, limites ás vossas exacções, deixae de exercer uma deshumana tyrannia, e passae a tratar essa gente com bondade, para que Deus não incendeie toda a Allemanha com um fogo que ninguem será capaz de extinguir. O que n’esta occasião, porventura, perderdes, ser-vos-ha centuplicado mediante a paz futura.

«Ha tanta equidade n’alguns dos doze artigos dos camponezes, que constituem uma deshonra para vós deante de Deus e do mundo; cobrem os principes de vergonha, como diz o Psalmo 108. Tinha outras coisas ainda mais graves a dizer-vos, com respeito ao governo da Allemanha, e já me referi a vós no meu livro dedicado á nobreza allemã. Não vos importastes, porém, com as minhas palavras, e agora chovem sobre vós todas estas reclamações. Não deveis desattender o seu pedido de auctorização para escolherem pastores que lhes preguem o Evangelho; compete sómente ao governo o obstar a que sejam prégadas a insurreição e a rebellião; mas deve haver perfeita liberdade para prégar tanto o verdadeiro como o falso Evangelho. Os restantes artigos, que tratam do estado social do camponez, são egualmente justos. Os governos não se estabelecem para seu proprio interesse, nem para tornarem o povo subserviente aos caprichos e ás más paixões, mas para zelarem o interesse do povo. As vossas exacções são intoleraveis; arrancaes ao camponez o fructo do seu trabalho para poderdes sustentar o vosso luxo e os vossos prazeres. E é tudo quanto vos tinha a dizer.

«Agora, com respeito a vós, meus queridos amigos camponezes. Quereis que vos seja garantida a livre prégação do Evangelho. Deus ha de defender a vossa causa, se procederdes sempre com justiça e rectidão. Se o fizerdes, haveis de triumphar por fim. Aquelles de entre vós que succumbirem na lucta serão salvos. Se, porém, o vosso modo de proceder fôr outro, não podereis salvar nem a alma nem o corpo, ainda mesmo que sejaes bem succedidos e derroteis os principes e os senhores. Não acrediteis nos falsos prophetas que se teem introduzido no meio de vós, ainda mesmo que elles invoquem o santo nome do Evangelho. Pode ser que elles me chamem hypocrita, mas isso pouco se me dá. O que eu quero é salvar os que entre vós fôrem fieis e honrados. Temo a Deus e a ninguem mais. Temei-o vós tambem, e não useis o Seu nome em vão, para que Elle vos não castigue. Não diz a Palavra de Deus: «Aquelle que lançar mão da espada á espada morrerá,» e «Todos se submettam aos poderes superiores?» Não deveis fazer justiça por vossas proprias mãos; seria isso obedecer a um outro dictame da lei natural. Não vêdes que vos fica mal a rebellião? O governo tira-vos parte do que vos pertence, mas destruindo os principios estabelecidos tiraes aos outros tudo o que lhes pertence. Christo, no Gethsemane, reprehendeu S. Pedro por se ter servido da espada, ainda que em defeza do seu Mestre; e quando já estava pregado na cruz orou pelos Seus perseguidores. E o Seu reino não tem triumphado? Porque é que o Papa e o imperador me não teem feito calar? Porque é que o Evangelho progride á proporção que elles se esforçam para lhe pôrem obstaculos e para o destruir? Porque eu nunca recorri á fôrça, prégando, antes, a obediencia, até mesmo áquelles que me perseguem, fazendo depender exclusivamente de Deus a minha defeza. Façaes o que fizerdes, nunca tenteis cobrir a vossa empreza com o manto do Evangelho e o nome de Christo. Será uma guerra de pagãos, a que, porventura, vier a ter logar, porque os christãos fazem uso de outras armas: o seu General soffreu a cruz, e o triumpho d’elles é a humildade. Supplico-vos, queridos amigos, que vos detenhaes, e que considereis antes de dardes outro passo. O que citastes da Biblia não é applicavel ao vosso caso».

E conclue assim: «Como vêdes, estaes procedendo mal, tanto de um lado como do outro, e estaes attrahindo o castigo divino sobre vós e sobre a Allemanha, vossa patria commum. O meu conselho é que se escolham arbitros, sendo alguns nomeados pela nobreza e outros pelas cidades. É preciso que ambos os adversarios transijam n’alguma coisa: o negocio tem de ser equitativamente liquidado por um tribunal.»

O seu alvitre não foi acatado.

Os camponezes romperam hostilidades, tornando impossivel qualquer mediação. O proprio Luthero, logo que as coisas tomaram este caminho, deixou de se interessar pelos revoltosos.

Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes uma verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta mil o numero dos massacrados.

Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma.

Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha acontecido, e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu a influencia que tinha sobre as classes pobres, que se deixaram dominar pela idéa de que Luthero as havia abandonado; e entregaram-se com facilidade aos excessos anabaptistas, que tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O proprio Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem, e repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas foram um atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado que a revolta dos camponezes e a falta de coragem que Luthero mostrou n’essa occasião e depois d’ella tiveram por effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos de Luthero e da Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa.

Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a Allemanha o maior dos seus principes. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, havia morrido.

Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia partido para a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes; e os seus ultimos pensamentos foram para os maltratados servos. «Nós, os principes, fazemos muitas coisas aos pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco depois, tendo sido sacramentado, falleceu.

As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.—O imperador ainda não havia voltado á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois da Dieta de Worms. Estava em Hespanha, constantemente occupado com a sua idéa de abater o poder da França. Em 1525 esteve quasi a ver os seus planos coroados de bom exito. Deu-se a batalha de Pavia, e Francisco I de França, desbaratado o seu exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu rival. A Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra a Egreja se havia excitado na Allemanha; e os termos em que essa obrigação estava formulada mostravam o quão attentamente havia observado os progressos da Reforma e o quão empenhado estava em subjugal-a. Deu ordem para que fossem postas em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando assim claramente a entender que não consentia que dentro do imperio se propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa sua intimativa propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta que se reuniria em Spira.

As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar á Allemanha. O papa que dominava em Roma era Clemente VII, da familia dos Medicis, e em toda esta questão zelou mais os interesses do seu principado italiano do que os da egreja de que era chefe. O papa não queria que Francisco e Carlos se reconciliassem. Receiava que os pequenos estados italianos ficassem prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas, e por esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea. O imperador ainda não tinha conseguido o descanço de que necessitava para poder ir em seguida liquidar pessoalmente os negocios da Allemanha. E assim o proprio papa estava n’aquella occasião favorecendo a Reforma.

Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se logo bem manifesto que um grande numero d’elles não desejava que Luthero e as suas doutrinas fossem banidos da Allemanha; e a Dieta, de que se esperava a aniquilação da Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este famoso edicto, que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia de tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia de religião todos os estados se deviam comportar por tal fórma que estivessem promptos a responder por si deante de Deus e de sua Magestade Imperial. Assim ficou cada um dos estados auctorizado a declarar que religião se professaria dentro dos seus limites, e aquelle edicto foi como que uma predicção da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a religião official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem. Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram, segundo a lei imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a egreja dentro dos seus dominios, e levar a effeito as necessarias reformas.

O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões que entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer tentativa de introduzir nas provincias evangelicas um systema uniforme de governo da egreja e do culto; cada uma d’ellas estabeleceu os seus regulamentos. O primeiro a estabelecel-os, em conformidade com os verdadeiros principios da Reforma, foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert que lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica para uso nos seus dominios. E estes artigos são interessantes, porque reconhecem, até certo ponto, a auctoridade do povo christão dentro da egreja; e confiam tambem a disciplina das congregações a homens de seriedade, cujos deveres são parecidos com os dos anciãos presbyteriannos.

Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo todas estas indicações do reconhecimento dos direitos do povo christão, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a Guerra dos Camponezes tinha-o predisposto contra a auctoridade do povo. Era de opinião que o povo não tinha competencia para governar a egreja, e escreveu a Filippe, mostrando-lhe os inconvenientes de similhante plano de organização ecclesiastica.

Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do poder secular—dos principes quando se tratasse de principados, e das camaras municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa deu logar ao que se chama o systema Consistorial do governo da Egreja—systema peculiar da Egreja Lutherana, e de que, não obstante só mais tarde ter sido posto em pratica, cabe fazer aqui uma descripção resumida.

Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais alta importancia o guardar-se a chamada disciplina da egreja. Deus quer que todos os seus filhos tenham uma vida honesta, uma vida decente, e é do dever da Egreja cuidar que todos os seus membros procedam de uma maneira condigna com a sua profissão de fé. Quando qualquer membro sae do bom caminho deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer os castigos que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na edade media, os bispos responsaveis pela conducta dos membros das egrejas que constituiam as suas respectivas dioceses; e, como estas dioceses eram geralmente grandes, e os bispos não podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia, encarregavam d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e jurisconsultos. Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios, e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram tambem encarregadas da execução de testamentos e doações, e julgavam certos casos de calumnia e de maledicencia que os tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os bispos, nos estados evangelicos, foram expulsos, esses consistorios continuaram gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite. Passaram a chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação ficou dependendo da suprema auctoridade civil, em cujo nome governavam. Com o tempo foram introduzidas algumas mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda assim pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade civil substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar em toda a Allemanha depois da Dieta de 1526, nos estados que abraçaram a Reforma.

Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie d’elles para serem cantados nas egrejas; escreveu um catecismo para uso da infancia; e assim em toda a Allemanha, onde quer que as doutrinas evangelicas prevalecessem, eram organizadas egrejas, onde se rendia a Deus um culto simples mas sincero, e tratava-se de instruir e catequizar a juventude. Ainda não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo sabia perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de Luthero, Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam de mão em mão.

Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha logar uma coisa que bastante contrariou o imperador: uma alliança entre a França e os Estados Pontificios. Não esperava que o papa o abandonasse, e menos esperava ainda que elle o abandonasse na propria occasião em que elle se preparava para submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado por um grande numero de soldados allemães lutheranos, sob o commando de aquelle general Frundsberg que em Worms animou Luthero, e, levando á frente o condestavel de Bourbon, esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo por onde quer que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as suas tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a cidade foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram maltratados e mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas, e os rudes e mofadores allemães proclamaram papa a Luthero. Os francezes não poderam prestar grande auxilio aos seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o imperador e o papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava, para esmagar a heresia na Allemanha.

Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal para a Reforma. O edicto de Spira havia concedido tolerancia aos lutheranos, mas tambem tornou evidente, de uma maneira até então desconhecida, a separação entre os dois partidos. Isto viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em Spira em 1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o decreto de 1526, e que sustentava que o decreto de Worms estava ainda em vigor e se lhe devia dar força. Pela primeira vez pareceu que a maioria da Dieta estava disposta a obedecer á ordem do imperador e a dar força ao edicto contra Luthero. O decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não se tivesse executado não se fizessem ulteriores innovações e ninguem fosse impedido de celebrar missa.

Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto de Spira estava posto de parte, e a minoria evangelica resolveu protestar contra a decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento de que as questões religiosas só podiam ser decididas pela consciencia, e que não deviam ser submettidas á Dieta para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questões que dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma de cada um de nós, é nosso imperioso dever, segundo o preceito divino, e por causa das nossas proprias consciencias, respeitar, antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.» «Em questões que se relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das nossas almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de nós mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel a liberdade de consciencia, era assignado por João da Saxonia, Jorge de Brandenburgo, Ernesto de Lüneburgo, Filippe de Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos representantes das cidades imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia, Lindau, Memmingen, Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St. Gall, Weissenburgo e Windsheim.

Foi d’este protesto que se originou o termo protestantes.

O imperador pretende subjugar a Reforma.—Este protesto tornou ainda mais saliente, mais definida, a linha de separação entre os principes reformados e os seus visinhos. Ficavam como que marcados por ella aquelles a quem o imperador, para restabelecer o imperio medieval, tinha de subjugar; e parecia agora ter chegado uma occasião propicia para elle o fazer. Na verdade, entre elle e a realização dos seus planos só existia aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo a França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam sido derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento de um imperio medieval. Os principes protestantes reconheceram a gravidade da sua situação. Deveriam resistir ao imperador, e, no caso affirmativo, conservar-se-hiam firmemente unidos? Luthero, que tinha até então dirigido o movimento, servia agora de obstaculo a uma acção collectiva. Elle, ao principio, era contrario a toda e qualquer resistencia. Reprovava, mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald, e, quando esses delegados voltaram e deram noticia de que não se tinha chegado a decidir coisa alguma, mostrou-se excessivamente satisfeito. Se Filippe de Hesse não tivesse trabalhado incessantemente para uma união e para um esforço collectivo, a Reforma teria soffrido muito.

A que se deve attribuir este procedimento de Luthero? Repugnava-lhe a rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e não acreditava que as batalhas do reino dos céus se podessem vencer com as armas carnaes. Depois, tambem, havia n’elle uma grande somma de quietismo, ou, por outra, de fatalismo, em parte hereditario, e em parte devido á sua adhesão ás idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte d’esta obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha sido proposto reunir todos os protestantes n’uma liga offensiva e defensiva, e havia protestantes que não reconheciam em Luthero o seu chefe religioso. Assim como havia uma reforma allemã, havia tambem uma reforma suissa, com o seu particular typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava, e que, com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando pelo sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella decisão que o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela raiz. Propoz uma conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse na presença uns dos outros aquelles cujas idéas divergiam, elles haviam de comprehender-se melhor, e acabariam, por consequencia, todas as differenças. Com esse intuito, pois, promoveu em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os primeiros theologos da Allemanha e da Suissa.

A Conferencia de Marburgo.—Pode-se imaginar o que seria aquella reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante. Zwinglio e Œcolampadius tinham vindo, com risco das suas vidas, da Suissa; Bucer tinha vindo de Strasburgo; e Luthero e Melanchthon tinham vindo de Wittenberg. Consultaram-se sobre os grandes artigos da fé christã, e os allemães ficaram convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se encerravam todos os principaes pontos da verdade evangelica, sem que alguem discordasse d’elles, e em seguida os theologos passaram a tratar do quinquagessimo e ultimo, que se occupava da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo ácerca do qual os que desejavam uma união de todos os protestantes se mostravam mais inquietos.

Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado a evitar mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse qualquer asserção sobre pontos de doutrina que fosse acceite pelos suissos; e muitos teem supposto, com bom fundamento, que, se Calvino estivesse presente, e tivesse fallado antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união. Luthero, porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na conta de irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das anciedades dos principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido a não ceder em coisa alguma.

A controversia entre Luthero e os suissos.—O thema do debate era este. Todos os reformadores, tanto allemães como suissos, haviam rejeitado a doutrina catholica romana do sacramento da Ceia do Senhor.

Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento em duas partes distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é mais um sacrificio do que um sacramento. É a prolongação, atravez do tempo, do sacrificio de Christo na cruz; o pão e o vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e sangue de Christo, e quando estes são saboreados pelo padre, no acto de comer e beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na cruz. D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos vêem Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando os tormentos por sua causa, na sua propria presença. Assim, segundo esta theoria, não ha a distancia de longos seculos entre o crente e os soffrimentos de Christo por sua causa. Christo soffrendo e o crente prestando culto estão em face um do outro durante um momento, mediante a missa.

Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a doutrina da missa por a considerarem idolatra e supersticiosa, e ensinaram os christãos a retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro sacrificio de Christo na cruz do Calvario por sua causa e para resgate dos seus peccados. O debate entre os protestantes é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos romanos chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar.

A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da Eucaristia teem um ponto em commum; ambas affirmam que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo estão presentes no pão e no vinho, de modo que estes elementos já não são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre, e porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração e a ceremonia, operar o milagre de transformar o pão e o vinho no verdadeiro corpo e sangue de Christo, com a Sua alma racional e a Sua natureza divina; e que pode, outrosim, operar o milagre de O trazer do céu e de O mostrar ao povo, a fim de ser adorado e partilhado por todos. Ensinam, ainda, posto que esta parte do seu ensino não seja sempre muito clara, que os beneficios de Christo são communicados ao Seu povo quando este come o pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida a todos aquelles que participam, quer tenham quer não tenham fé.

Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram acceitar pelo menos dois, e os dois principaes, pontos d’esta doutrina catholica romana. Não quizeram crer que um padre podesse operar o milagre que os catholicos romanos asseveram que é operado; e foram tambem todos de opinião de que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão entre o sacramento e o que o administra, negaram que tenha logar a operação de um milagre; e, ao descreverem o effeito nos participantes, asseveraram que a fé era indispensavel.

Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento e do seu effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram. Todos elles sustentaram que, ainda que Christo esteja presente no sacramento, não foi trazido para ali mediante um milagre operado por um padre, e que, ainda que Christo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido espiritual, mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento.

Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas mesmas idéas com respeito a estes dois importantes pontos, e assim podessem escrever a primeira parte do artigo quinze de tal maneira que podessem ambos acceitar cabalmente a asserção, differiam no modo em que descreviam a entrada de Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a Sua presença e tirava o beneficio inherente.

Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento sob uma fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle, eram apenas signaes da Sua presença, quasi da mesma maneira como uma carta é o signal da pessoa ausente que a escreveu, e, quando os christãos participam do sacramento, colhem um beneficio, porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a memoria e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e soffreu sobre a cruz.

Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma coisa. Elle tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho eram promessas, ou sellos, assim como signaes, e essa idéa podia têl-o levado, como mais tarde aconteceu a Calvino, a encarar a questão com maior clareza e simplicidade. No seu modo de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira real, o genuino corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse ácerca do pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu sangue». E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes, fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media.

Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer distincções muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de umas e outras palavras, ensinaram que a palavra presença significava duas coisas differentes; um corpo estava presente n’uma certa porção de espaço quando occupava essa porção de espaço de tal fórma que nenhum outro corpo podesse estar lá ao mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente quando occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer coisa. A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço em que o corpo estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos, como eram chamados, empregava esta segunda especie de presença para descrever a presença do corpo de Christo nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as duas coisas, o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam, ao mesmo tempo no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente, o corpo de Christo estava, na Ceia do Senhor, no pão, com o pão e sob a fórma de pão. Isto, porém, não explicava a presença do corpo de Christo, nem como elle era transportado da dextra de Deus para os elementos.

Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos theologos medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser Deus e homem, duas naturezas n’uma pessoa, todos os attributos da natureza divina de Christo se tornavam tambem propriedades da Sua natureza humana. Um dos attributos de Deus é a omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da natureza divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte. Se o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos, sobre a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre algum. Luthero serviu-se d’esta ubiquidade do corpo de Christo para explicar como, sem a intervenção do milagre, elle podia estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho.

Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude especial n’este caso da presença de Christo—a Sua presença no Sacramento—estando Elle, segundo a sua theoria, presente em toda a parte, replicou que Deus tinha promettido, na Biblia, abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e sangue de Christo nos elementos do sacramento.

E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença de Christo no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente, da transubstanciação e do milagre sacerdotal, mas introduzia, em seu logar, inverosimeis idéas escolasticas. Podia, comtudo, d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo estava realmente presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso dava-lhe grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um pedaço de giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio da sala as palavras Hoc est corpus meum (Isto é o meu corpo).

Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse que o corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam corporalmente presentes nos elementos, e accusava os seus antagonistas de interpretarem mal a Escriptura quando se referiam a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que Zwinglio contestou que a palavra «é» nem sempre significa identidade de substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira verdadeira», «Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma vinha ou uma porta no sentido litteral da palavra. Luthero não se demoveu, e a conferencia terminou sem aquella unidade de coração e de proposito que o pio e affectuoso Landgrave esperava que resultasse d’ella.

A Dieta de Augsburgo.—O imperador tinha sido victorioso em toda a parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar a Reforma, isto emquanto os protestantes, devido á obstinação de Luthero, se encontravam divididos e desalentados. O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao seu alcance para conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa conseguiu n’esse sentido.

O imperador entrou em Augsburgo com grande apparato, e ao principio recebeu muito cordealmente os principes protestantes. Luthero achava-se ausente da cidade. Considerou-se que a sua presença daria logar a uma desnecessaria irritação, e permaneceu, portanto, em Coburgo, onde facilmente poderia ser consultado. Melanchthon ficou a substituil-o como conselheiro theologico.

Os chefes dos protestantes eram—João, eleitor da Saxonia, denominado João o constante, em razão da sua fidelidade aos principios evangelicos; Filippe o magnanimo, Landgrave de Hesse; e o edoso Margrave de Brandenburgo, antepassado do ultimo imperador da Allemanha. Estes principes foram recebidos pelo imperador com muita affabilidade. Deprehender-se-hia de tudo isto que se tinha iniciado na Allemanha uma era de paz e concordia.

Por detraz dos bastidores, porém, estava Fernando da Austria, irmão do imperador, e cabeça do fanatico partido romanista, com os seus conselheiros theologicos, protestando contra o incitamento á herezia. Afim de o socegar, o imperador escreveu-lhe o seguinte: «Entrarei em negocios, sem chegar a qualquer conclusão: mas, ainda que isso aconteça, não ha motivo para receios da tua parte: nunca te faltarão pretextos para castigar os rebeldes, e has de sempre deparar com quem, com muito gosto, se preste a servir de instrumento á tua vingança.» As suas verdadeiras intenções depressa se tornaram manifestas.

Os capellães dos principes protestantes celebravam o culto publico segundo o rito evangelico: e o imperador deu ordem para que tal se não continuasse a fazer. O Eleitor declarou: «Assim que tiver a certeza de que o imperador tenciona suspender a prégação do Evangelho, retiro-me para minha casa.» Quando Carlos, n’uma conferencia particular, pediu aos principes que impozessem silencio aos seus capellães, o velho Margrave de Brandenburgo avançou alguns passos, levou as mãos ao pescoço, e, inclinando-se, disse: «Era mais facil a minha cabeça rolar aos pés de Vossa Magestade do que eu privar-me da Palavra de Deus e negar o meu Senhor». Carlos mostrou-se surprehendido. «Ninguem pensa em cortar cabeças, meu caro Margrave», replicou elle. Comprehendia tão mal os seus subditos protestantes que se encheu de ira quando elles recusaram incorporar-se na procissão que teve logar por occasião da festa de Corpus Christi. Seria condescender com a idolatria, seria prestar adoração a uma particula de massa que a Egreja de Roma dizia ter-se transformado na Divindade mediante um milagre operado por um padre, e isso não podiam elles fazer. «Porque não hão de agradar ao imperador? Porque não hão de mostrar respeito ao cardeal?» exclamou Fernando. «Não podemos nem queremos adorar senão a Deus» declararam elles. E assim foram passando os dias.

Entretanto os prégadores protestantes dirigiam todos os dias a palavra a grandes concursos de gente na egreja dos franciscanos, e expunham eloquentemente as doutrinas do Evangelho. Carlos resolveu pôr um termo a este estado de coisas, e fêl-o por meio de um accordo cujas vantagens ficaram todas do lado dos catholicos romanos. Melanchthon, sempre timido e amigo da paz, insistiu para que se fizessem algumas concessões. Os prégadores protestantes sairam angustiados da cidade, e Luthero, que observava de longe os acontecimentos, convenceu-se de que Melanchthon, apezar das suas boas intenções, estava traindo a causa.

Quando se abriu a Dieta, o imperador quiz que os protestantes expozessem as suas opiniões. Essa exigencia era esperada, e assim Melanchthon tinha, com a collaboração de Luthero, redigido uma Confissão de Fé, em que estavam mencionados, com grande clareza de linguagem, os principaes artigos da sua fé. Era esta a famosa Confissão de Augsburgo (Confessio Augustana), o credo que tem sido acceite por todos os lutheranos, embora entre elles tenha havido divergencias n’outros pontos. Carlos queria que elle fosse lido em latim. «Não», respondeu a isto João o Constante, «nós somos allemães, e estamos em territorio allemão. Espero que vossa magestade nos permittirá que fallemos na nossa lingua». E a Confissão foi lida em allemão, não por um theologo, mas por uma outra pessoa que recebeu dos principes esse encargo.

A Confissão de Augsburgo.—A primeira parte d’esta nobre confissão expõe, um por um, todos os principios evangelicos da Reforma, e em particular os grandes principios da justificação pela fé. Diz-se que, quando o chanceller do Eleitor, Christiano Beyer, leu estas palavras «a fé, que não é o mero conhecimento de um facto historico, mas aquillo que crê, não sómente na historia, mas no effeito que essa historia produz sobre o espirito», toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso: a Palavra de Deus não está presa».

Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava os abusos da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto as egrejas que ha entre nós não discordarem em artigo algum de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja Catholica, e omittirem apenas uns certos abusos, umas certas innovações, que em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido dos canones, rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne prestar ouvidos clementes ás razões que o povo apresenta para que não deva ser forçado, contra as suas consciencias, a observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura como aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que o celibato dos clerigos é uma transgressão do mandamento de Deus: que a missa é «uma profanação do sacramento da Ceia do Senhor»: que a distincção das comidas e as tradições «obscurecem as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas festas, ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos são altamente perniciosos, e servem para desencaminhar homens e mulheres, pois que «se deve servir a Deus segundo os preceitos que Elle promulgou, e não segundo os que os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril, mas ministerial.

A confissão continha tambem um pequeno artigo em que vinha exposta a opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia do Senhor, e isso compelliu os theologos suissos e os do sul da Allemanha a apresentarem confissões separadas: mas a leitura da confissão de Augsburgo, pelos principes, na Dieta produziu um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os protestantes adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos.

O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia destruir a Reforma, e não se achava preparado para esse recurso. Lembrou-se então de promover umas conferencias que fossem criando uma certa confusão entre os protestantes. Era bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon, que n’essas conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo, soube do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth (Coração pequeno): Segundo me parece, estaes fazendo uma obra prodigiosa, qual a de reconciliar Luthero com o papa.... Advirto-vos, porém, de que, se é vossa intenção metter n’um sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho, Luthero, tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas as suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon. «Antes morrer com Jesus Christo», exclamavam, «do que alcançar, sem Elle, as boas graças do mundo inteiro». Os catholicos romanos pediam, por fim, mais do que Melanchthon podia conceder, e, com grande regozijo dos protestantes, as conferencias cessaram.

A liga protestante de Schmalkald.—Os principes sabiam que o imperador queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua resolução, e pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos a coadjuvarem-n’o n’aquella obra. Formou-se uma liga catholica. A resposta dos protestantes foi recusarem todos os subsidios emquanto os negocios da Allemanha permanecessem por liquidar.

Os principes reuniram-se em Schmalkald, e formaram uma liga protestante, de que Filippe de Hesse foi o membro mais activo. Os estados catholicos romanos não desejavam entrar n’uma guerra civil com os seus visinhos protestantes, e o imperador, atacado pelos francezes e pelos turcos, viu-se na impossibilidade de suffocar a revolta.

O ultimo decreto da Dieta havia estabelecido um prazo, que se estendia até á proxima primavera, durante o qual os protestantes podiam fazer a sua submissão voluntaria, e accrescentava que aquelles que não se submetessem durante esse prazo seriam exterminados. Ao chegar, porém, a primavera, reconheceu-se impotente para exterminar os protestantes. A Liga de Schmalkald havia-se tornado a mais poderosa aggremiação da Allemanha. Assim, em 1532, apoz prolongadas negociações, firmou-se um tratado de paz entre Carlos e os principes protestantes. A Paz de Nürnberg, como ficou sendo chamada, permittia aos adherentes á Confissão de Augsburgo o persistirem nas suas doutrinas, e concedia-lhes outros privilegios. Em troca, os principes protestantes, e entre elles Filippe de Hesse, offereceram-se, muito cordialmente, para auxiliar o imperador nas suas campanhas contra os francezes, os turcos e os piratas da Barbaria.

A Liga de Schmalkald continuou de pé, e outros estados, taes como o de Würtemberg, deram-lhe a sua adhesão. O imperador não podia dissolvel-a, e, comtudo, ardia em desejos de restabelecer na Allemanha a uniformidade religiosa. O exame da sua correspondencia particular revelou a perplexidade em que elle se encontrava. Tinha umas vezes a idéa da exterminação, e outras a da conciliação. Um dos seus planos consistia em promover na Allemanha um Concilio Geral da Egreja, sem consultar nem o papa nem o rei de França.

Em 1538, Held, o seu vice-chanceller, formou em Nürnberg uma Liga Catholica, com o expresso designio de acabar com o protestantismo pela força das armas. Em 1540-41, o imperador diligenciou, por meio de conferencias que se realisaram em Hagenau Worms, e Regensburgo, chegar a um certo entendimento com os protestantes em materia de religião, e chegou a ser proposta em Roma a reforma da Egreja. Foi, finalmente, publicado, em 1541, um decreto da Dieta, estabelecendo que não se podia prohibir, a quem quer que fosse, o adoptar a religião protestante.

D’estas victorias da Liga de Schmalkald resultou uma rapida propagação do protestantismo. O Würtemberg, a Pomerania, o Anhalt, o Mecklemburgo, e muitissimas cidades, tornaram-se protestantes; os bispados de Magdeburgo, Halberstadt e Naumberg deixaram de reconhecer a supremacia de Roma; e duas provincias eleitoraes, o Brandenburgo e a Saxonia Albertina, uniram-se á Liga. Os unicos estados que se conservaram na opposição foram a Austria, a Baviera, o Palatinado e as provincias ecclesiasticas do Rheno. Mas mesmo estas regiões começavam a ser influenciadas. Na Austria a religião evangelica ia ganhando terreno entre os proprietarios, os camponezes e os habitantes das cidades. Os bavaros iam-se deixando invadir rapidamente pelas novas idéas. Quanto ao Palatinado, a sua aggregação á Liga de Schmalkald parecia ser apenas uma questão de tempo.

O imperador não podia ver com indifferença este rapido progresso do protestantismo; contrariava-o immenso que os seus dominios nos Paizes Baixos ficassem separados d’elle por uma faixa de paizes protestantes; não queria ouvir fallar na possibilidade de uma maioria protestante no Collegio Eleitoral, e de um sucessor do imperio protestante. O procedimento do arcebispo-eleitor de Colonia mostrou-lhe que não havia tempo a perder. Hermann von Wied estava havia muito convencido da necessidade de reformas na Egreja, e depois da paz de Nürnberg, incitado por um grande numero de clerigos, e correspondendo ao evidente desejo de muitas outras pessoas, animou o ensino protestante na sua vasta diocese, e mostrou-se disposto a converter aquella provincia arqui-episcopal n’um estado secular protestante.

A posição dos arcebispos e bispos da Allemanha era, nos dias da Reforma, um tanto singular. Não eram simplesmente bispos, mas tambem barões, e, como todos os outros grandes barões sujeitos ao imperador na Allemanha, eram principes soberanos. Os arcebispos de Kõln, Trier e Metz tinham sobre alguns territorios um governo egual ao que João, o Constante, tinha sobre a Saxonia eleitoral, e Filippe, o Magnanimo, sobre Hesse. Eram as supremas auctoridades civicas, com os seus tribunaes, os seus exercitos, os seus cobradores de impostos. O decreto de 1526 era-lhes tão applicavel como aos principes seculares. Podiam fazer-se protestantes, dominar nos seus territorios, como principes seculares, e declarar «que tomavam ante Deus e sua magestade imperial a responsabilidade do seu modo de viver, do seu systema de governo e das suas crenças».

Alguns bispos do norte da Allemanha tinham-n’o feito já: a opportunidade era de tentar: podiam, aproveitando-se d’este decreto, libertar-se da obediencia a Roma, casar, e legar a seus filhos o que possuiam. Carlos viu tambem o alcance de aquella opportunidade, mas durante muito tempo foi-lhe impossivel intervir. Todas as vezes que tentou pôr em pratica os seus planos via-se contrariado, ou pelo papa, ou pelo rei de França, ou pelos turcos. Quando lhe constou que parecia estar proxima a conversão de Hermann von Wied, reconheceu-se impotente para luctar com a Liga de Schmalkald. Por fim, em 1544, conseguiu derrotar os francezes, com os quaes tratou, depois, da paz em condições vantajosas para elles, impondo-lhes, porém, a clausula de uma união dos dois exercitos para combater os protestantes. Na Dieta de Spira, que se reuniu no mesmo anno, mostrou-se contemporizador, propondo que se suspendessem hostilidades até á convocação do Concilio Geral; isto ao passo que por outro lado trabalhava para desviar da liga protestante o maior numero de principes que lhe fosse possivel.

A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald.—No entretanto Luthero, que soffria havia bastante tempo de uma doença do coração, morria em Eisleben, em 18 de fevereiro de 1546, perecendo com elle aquella forte reluctancia dos protestantes em tentarem a sorte das armas. Não estavam, porém, tão bem preparados para a guerra como n’outro tempo. O bom exito que a liga tivera ao principio fez com que elles confiassem demasiadamente n’ella; além d’isso, surgiram rivalidades entre os estados e as cidades, e entre os principes. Filippe de Hesse era o unico chefe competente, mas tinha o defeito de ser um principe de pouco elevada estirpe. Tinham ficado tambem muito prejudicados com o facto de Mauricio ter succedido ao duque Jorge da Saxonia, o grande inimigo de Luthero e da Reforma. Mauricio era sobrinho do duque Jorge, havia sido educado no lutheranismo, e desposou a primeira filha de Filippe de Hesse. Por occasião de elle assumir a chefia, a Saxonia Albertina, como era chamada, confirmou o seu lutheranismo, que durante a vida do duque Jorge se havia propagado clandestinamente, e que se havia tornado a religião reconhecida do paiz quando o duque Henrique, pae de Mauricio, succedeu a seu irmão. Todas estas coisas faziam com que os principes protestantes não podessem prescindir do concurso de Mauricio, apezar do joven não lhes inspirar muita confiança. De facto, Mauricio foi o primeiro de aquelles principes allemães protestantes para quem a Reforma era simplesmente uma arma politica de que lançassem mão quando lhes fosse vantajosa. Mais tarde, durante a guerra dos Trinta Annos, o seu numero augmentou consideravelmente, graças ás interminaveis disputas dos theologos, que, interessados apenas em que as suas insignificantes doutrinas ácerca da ubiquidade e da presença real fossem correctamente definidas, se mostravam quasi indifferentes perante a grande quantidade de sangue derramado e o grande numero de lares desgraçados. Nos primeiros tempos da Reforma, porém, os principes protestantes eram homens sinceramente christãos e que não obedeciam a fins interesseiros, não obstante a sua forçada camaradagem com Mauricio.

O imperador quiz aproveitar a opportunidade, e com esse intuito fez algumas propostas a Mauricio. Este começou por abandonar a liga. Era um bom protestante, disse elle, e estava prompto a defender a religião, mas não queria ajuntar-se com aquelles que se oppunham ao seu soberano. O imperador, cobrando animo com esta declaração, deu os ultimos toques aos seus preparativos. Antes, porém, de entrar em acção, proclamou que a sua idéa não era combater a religião, mas, sim, castigar aquelles que conspiravam contra a integridade do imperio.

Não vamos agora narrar pormenorisadamente o que teve logar em seguida. Devido á traição de Mauricio, á hesitação dos outros, e á falta de mutua confiança entre os caudilhos da liga, o imperador alcançou uma facil e, apparentemente, decisiva victoria. A batalha de Mühlberg teve logar a 24 de abril de 1547, e João Frederico, eleitor da Saxonia, ficou ferido e foi feito prisioneiro, não tardando que Filippe de Hesse caisse egualmente em poder dos inimigos.

Toda a Allemanha se prostrou deante do imperador, que declarou logo a sua intenção de restabelecer a unidade religiosa. Ia redigir um documento denominado o Interim de Augsburgo, especie de confissão de fé que os allemães seriam obrigados a acceitar. Eram por meio d’elle reintegrados a hierarquia e o culto catholicos romanos, com todas as suas festividades, jejuns e ceremonias, sendo apenas tolerado o casamento dos clerigos e a faculdade do povo commungar nas duas especies.

O Interim era, por assim dizer, um plano de reformação, e estava n’elle incluido, segundo a opinião de Carlos, tudo quanto se devia conceder aos protestantes. Em parte alguma o acceitaram de boa vontade. O imperador não o remetteu aos districtos catholicos romanos, e em todos os protestantes encontrou uma resistencia passiva. O proprio Mauricio hesitou em o proclamar na Saxonia, publicando, em logar d’elle, o Interim de Leipzig, que tendia a uma conciliação das ceremonias papistas com as doutrinas protestantes.

Em breve se tornou evidente que o codigo religioso do imperador só encontrava submissão da parte do povo nos pontos onde a presença das tropas hespanholas obrigava a essa submissão. O imperador havia triumphado, o seu exercito saira victorioso, parecia ter adquirido um dominio na Allemanha como não succedera a nenhum outro soberano durante muitos seculos, e, comtudo, lá no seu intimo, sentia-se derrotado, pois não conseguira o fim principal que tinha em vista. A invisivel força da consciencia, esse adversario com que elle não contara, estava erguida contra elle, e havia de, por fim, inutilisar todos os seus bem elaborados planos politicos.

O imperador e o Concilio Geral.—Emquanto o imperador estivera formando e pondo em pratica os seus projectos para a conquista da Allemanha protestante, a côrte pontificia vira-se forçada a convocar um Concilio Geral. Este concilio reuniu-se em Trent, no Tyrol, e, emquanto o imperador andou mettido na tarefa de subjugar os protestantes, esteve tomando deliberações relativas á Egreja.

Nos primeiros periodos da controversia a que a Reforma deu origem, os reformadores appellavam constantemente para um concilio livre, e os concilios foram sempre os instrumentos favoritos do imperador para a liquidação das contendas. Os papas, porém, procuravam, antes, evital-os. No seculo quinze, os concilios geraes de Basiléa, Pisa e Constancia foram os meios de que os ecclesiasticos e principes se serviram para investir contra o poder da côrte de Roma. Um concilio geral era um ponto de reunião para todos aquelles que eram adversos ao christianismo papal; e a um politico como Carlos V affigurava-se ser um excellente meio de engrandecer o imperador e humilhar o papa. Anteriormente á Reforma, os concilios geraes eram olhados com muito respeito. Cria-se que o Espirito Santo fallava mediante esses concilios, e muitos theologos medievaes, que negavam a infallibilidade do papa, sustentavam que um concilio não era susceptivel de errar.

Nos primeiros seculos da Egreja christã, um concilio geral, ou ecumenico, significava simplesmente uma assembléa que se podia com justiça dizer que representava a Egreja no seu conjuncto, de modo que as suas decisões podiam ser chamadas as opiniões de todos os christãos. N’esses remotos tempos os bispos eram eleitos pelo clero e pelo povo, e eram, portanto, representantes das regiões de onde tinham vindo, e assim um concilio em que todos os bispos christãos estivessem presentes achava-se realmente no caso de fallar em nome de todo o povo christão. Mesmo nas epocas mais puras da egreja primitiva, concilio algum se realisou a que concorressem todos os bispos, e que fosse, por conseguinte, realmente ecumenico e representativo de todos os christãos. No decurso da Edade Media a Egreja perdeu inteiramente o seu antigo caracter popular, ou democratico, e os bispos não podiam ser chamados, n’um sentido rigoroso, os representantes do povo; eram, muitas vezes, apenas os delegados do papa, e iam aos concilios para votar o que elle houvesse dictado.

Estas e outras considerações tinham feito com que os protestantes respeitassem menos os concilios, e mostraram ao imperador que um concilio, para ser util, devia estar quanto possivel fóra da influencia do papa. Os allemães tinham pedido que se convocasse um concilio livre na Allemanha, e o imperador tinha tambem ultimamente pedido o mesmo; o papa, por outro lado, queria que o concilio se realisasse em Italia, onde elle poderia mais facilmente ter mão nas suas deliberações e decisões. Depois de muitas negociações entre o papa e o imperador, resolveu-se afinal que o concilio se reunisse, não em Italia, onde o papa poderia ter demasiado poder sobre elle, nem na Allemanha, onde o imperador e os principes poderiam impôr a sua auctoridade, mas em Trent, no Tyrol, n’um ponto equidistante da Allemanha e da Italia.

O imperador esperava grandes coisas d’este concilio. Sabia que havia na egreja romana muitos homens competentes que se tinham preparado para grandes reformas, que ao proprio papa, Paulo III, não eram indifferentes; não tinha, porém, contado com a influencia de uma nova e poderosa organisação que estava destinada a alcançar a sua primeira e grande victoria n’esse mesmo concilio para cuja convocação elle havia trabalhado.

Loyola e os jesuitas.—Ignacio Loyola, joven fidalgo hespanhol, educado no meio da cavallaria de Hespanha, onde as prolongadas guerras com os moiros tinham tornado a dedicação ao papado um grande elemento de patriotismo, ficou com uma perna esmigalhada no cerco de Pamplona. Duas dolorosas operações tinham-n’o convencido, por fim, de que a sua carreira militar tinha findado, e os seus pensamentos voltaram-se na direcção de um novo mister. Votou que havia de ser um soldado da Egreja.

Nos accessos da febre produzidos pelo ferimento, tinha phantasticas visões da Virgem; e, ao restabelecer-se, dedicou a sua vida, com todo o ceremonial da cavallaria da Edade Media, a Deus, á Virgem e á Egreja. Elle vivia alheiado da moderna erudição. Não sabia nada de theologia. A sua religião era medieval, e o seu sonho era ser, no seculo dezeseis, um novo Francisco de Assis.

É singular que este enthusiastico fidalgo hespanhol fosse excitado pela mesma idéa que ditou a fria politica de Carlos V. Ambos queriam renovar seculos que tinham desapparecido para sempre; e, emquanto um estava planeando a restauração do Imperio do primeiro periodo da Edade Media, o outro estava regalando a mente com uma nova ordem de frades, cujos feitos missionarios haviam de rivalisar com os dos antigos franciscanos. O imperador foi mal recebido; o solitario fidalgo teve um exito que excedeu quasi os seus sonhos. Apoz alguns annos de estudo, de decepções, de demoras, obteve permissão do papa para fundar a Companhia de Jesus.

A nova ordem tinha apenas cinco annos de existencia quando teve logar, em 1545, o concilio de Trento, mas já se havia tornado famosa. Os seus sucessos como sociedade missionaria, a sua devoção por Francisco Xavier, e o enthusiasmo de seus membros, tudo contribuiu para a tornar formidavel. Lainez, um dos primeiros discipulos de Loyola, e seu successor como cabeça da companhia, cujo criterio deu á ordem o caracter que lhe estava destinado, representou os seus companheiros no concilio de Trento.

A maxima da Sociedade era uma inexoravel suppressão da heresia, e o seu unico principio era a obediencia á Ordem e ao papa; e, n’essa conformidade, Lainez tratou activamente de evitar que o concilio fizesse quaesquer concessões aos protestantes. O seu modo de discursar, a sua subtileza e a sua tenacidade deram-lhe grande influencia. Poude logo ao principio levar de vencida os cardeaes Contarini e Pole, esses grandes catholicos romanos liberaes, e conseguir que o concilio não auctorizasse reformas doutrinaes.

As victorias de Carlos na Allemanha ajudaram os jesuitas. O papa não podia jámais pensar ou obrar simplesmente como chefe da Egreja. Elle era uma potencia politica, e as razões de estado influiram nas suas acções. N’esta conjunctura, os interesses do principe italiano oppunham-se á existencia de uma christandade una. O rei de França, Henrique II, chamou a attenção para o facto de Carlos se tornar poderoso em demasia e de ser provavel que assim continuasse se as concessões religiosas estabelecessem a união na Allemanha. Quando Carlos venceu a Liga protestante, e procurou obter de Roma concessões que satisfizessem os subditos que havia submettido ao seu dominio, o papa recusou auxilial-o, afastou de Trento o concilio, e installou-o em Bolonha, na Italia, de modo que os planos do imperador foram novamente contrariados pelo cabeça da egreja que elle se empenhava por conservar catholica. Na sua ira, virou-se para o papa e compelliu-o a dissolver o concilio. Este dispersou para só se tornar a reunir quando toda e qualquer esperança de reconciliar os protestantes tinha desapparecido, e d’esta vez poude, sem a peia do protestantismo, consolidar a organização externa de um dominio exclusivamente papal.

O imperador não foi mais bem succedido na Allemanha. As crueldades de que os principes que tinha feito prisioneiros foram victimas, a infidelidade de que deu prova na perseguição dos protestantes, a despeito de tudo quanto tinha feito proclamar, e as extorsões commettidas pelas tropas hespanholas—tudo isto contribuiu para tornar a Allemanha hostil, e não faltavam indicios de que o paiz não supportaria por muito tempo a tyrannia de Carlos. E a revolta teria rebentado mais cedo, se Mauricio, o traidor, não fosse tão odiado, ou se tivessem confiança n’elle.

O imperador parecia não ter olhos para ver o que se estava passando. Estava convencido de que Mauricio, a quem havia nomeado eleitor, estava nas suas mãos, e de que sem elle, Mauricio, a Allemanha não podia fazer coisa alguma. Entretanto, os principes procuravam reunir-se de novo. Offereceram á França uma parte do territorio allemão em troca do seu auxilio, e por fim organisou-se uma confederação, em que entrava Mauricio, e os principes trataram de guarnecer as fronteiras do Tyrol, para que estas não fossem transpostas pelas tropas imperiaes. Mauricio avançou impetuosamente e tomou de assalto a fortaleza de Ehrenherg, que era a chave do Tyrol; e o imperador para escapar teve de recorrer a uma fuga subita, e achou-se em Steiermark, sem exercito, e expulso da Allemanha. Foi a um tumulto que se levantou entre as tropas confederadas que elle deveu não ser apanhado, pois que Mauricio fez todo o possivel por agarrar «a velha raposa no covil», segundo a phrase d’elle.

A paz religiosa de Augsburgo.—Carlos V nunca se resarciu d’este desastre. A Reforma tinha-o, por fim, vencido, e elle reconhecia esse facto, sem, comtudo, o comprehender. Elle não quiz entrar directamente em negociações com os principes victoriosos, encarregando d’isso o seu irmão Fernando. Filippe de Hesse e João Frederico da Saxonia foram postos em liberdade. Filippe reentrou na posse dos seus dominios; a João foram tambem restituidas algumas das suas propriedades, mas Mauricio continuou no logar de eleitor. Os preliminares de uma paz permanente foram vasados nos velhos moldes de Nürnberg, pelo tratado de Passau, em 1552.

Por fim, apoz longas negociações, saiu da Dieta de Augsburgo, em 1555, uma paz religiosa, «a qual» dizia o decreto, «tem de ser permanente, absoluta, e incondicional, e tem de durar para sempre». Foi reconhecido aquelle principio que se estabeleceu em 1526, isto é, que a suprema auctoridade civil de cada estado tinha liberdade para escolher o respectivo credo, lutherano ou catholico romano. Esta paz, por conseguinte, reconhecia o direito das egrejas com separadas crenças existirem ao lado umas das outras na Allemanha, tornando assim legal a existencia da Reforma.

O principio a que obedecia este regulamento, cujus regio ejus religio, acarretava difficuldades que não podem ser aqui descriptas, e foi, na verdade, uma das causas da guerra dos Trinta Annos, que tão calamitosa foi para a Allemanha. Não concedia liberdade de consciencia; não fazia provisão para qualquer outra fórma de protestantismo além da lutherana; e todos aquelles que não tinham adherido á confissão de Augsburgo estavam ainda fóra da lei, juridicamente fallando.

Aquelles que fizeram uso d’ella na Dieta tinham de modifical-a de um ou de outro modo. Os protestantes viram que ella auctorizava os principes catholicos romanos a perseguirem os subditos que o não fossem; e os catholicos viram que ella permittia aos principes ecclesiasticos secularizarem os seus estados. Assim os protestantes obtiveram a inserção de uma clausula que declarava que os subditos protestantes de principes ecclesiasticos, que de ha muito tivessem adoptado a confissão de Augsburgo, não seriam obrigados a abandonar as suas idéas religiosas; e os catholicos obtiveram a inserção do que se ficou chamando «a reserva ecclesiastica», que preceituava que, se algum estado catholico romano se separasse de Roma, fosse destituido de todas as prerogativas que as suas dioceses disfructavam.

Com a paz de Augsburgo terminaram as luctas para o reconhecimento da Reforma lutherana. A egreja protestante da Allemanha, que adheriu á confissão de Augsburgo, tinha ainda que sustentar um grande combate para se defender da contrareforma catholica romana, das intrigas jesuiticas, e da força das armas durante a guerra dos Trinta Annos. Conservou a sua integridade, mas foi só o que fez. A paz de Augsburgo foi a maré cheia da egreja lutherana.

Na lucta que teve logar depois, foi a mais moderna e mais perseverante fórma do protestantismo que arrostou com os impetos do ataque, e que se tornou digna de receber os despojos da conquista. O lutheranismo reteve a sua integridade, consolidou as suas organizações ecclesiasticas, e aperfeiçoou a sua theologia; mas, como vigoroso movimento reformador, a sua historia terminou com a paz de Augsburgo.


CAPITULO II
A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA

O lutheranismo fóra da Allemanha, [pag. 49].—Na Dinamarca, [pag. 50].—Na Suecia, [pag. 51].

O lutheranismo fóra da Allemanha.—Durante os primeiros annos da Reforma, a influencia de Luthero transpoz os limites da Allemanha. A Universidade de Wittenberg attrahiu muitos estudantes estrangeiros, os quaes, voltando para as suas terras, propagaram, clandestina ou abertamente, as novas doutrinas.

Aconteceu d’esse modo que os preliminares da Reforma n’esses paizes, que depois se separaram de Roma e formaram egrejas protestantes nacionaes, foram quasi inteiramente lutheranos. Os primeiros reformadores e martyres dos Paizes Baixos eram lutheranos, e os dogmas doutrinaes e ecclesiasticos de Luthero foram durante muito tempo acatados na Hollanda.

Os movimentos reformadores na Hungria, na Polonia, na Bohemia e na Escocia foram iniciados por homens que se apresentavam como discipulos de Luthero, e mesmo na Inglaterra os principios lutheranos progrediram algum tanto. Em todos esses paizes, porém, foi ganhando, por fim, terreno um outro typo de doutrina protestante, o Calvinismo, e a Reforma lutherana eclipsou-se.

Unicamente dois paizes, a Dinamarca e a Suecia, com as suas dependencias, adoptaram de um modo permanente a confissão de Augsburgo e os principios lutheranos do governo da egreja.

A Reforma estava n’estes paizes, mais do que em qualquer outra parte, identificada com a revolução politica, e foi executada por governantes que se haviam compenetrado de que não era possivel melhorar o estado das coisas emquanto não fosse abatido o poder de que o clero romano dispunha. A historia da Reforma n’esses paizes é a historia de uma revolução, e a moderna vida politica da Dinamarca e da Suecia principia com a reforma das suas egrejas.

No principio do seculo dezeseis, a Dinamarca, a Suecia e a Noruega estavam sob a soberania de um rei que tinha a sua residencia no primeiro d’estes paizes, e que tinha sobre os outros dois um poder apenas nominal. Estes paizes estavam quasi n’um estado de anarquia. Duas grandes aristocracias, a da nobreza e a da egreja, dividiam entre si a riqueza e o poderio, sendo cada um dos barões e cada um dos bispos um verdadeiro despota para com aquelles que estavam debaixo da sua auctoridade. A união das tres nações, effectuada no fim do seculo quatorze, era puramente dynastica, e vista com muito maus olhos pelo povo.

Em 1513 subiu ao throno Christiano II, cruel, voluvel e nescio monarca, que grangeara em ambos os paizes a antipathia de todas as classes. Um massacre de fidalgos suecos, que teve logar em Stockolmo, em circumstancias as mais revoltantes, exgotou a paciencia do povo, e a Dinamarca e a Suecia levantaram-se contra o tyranno. A revolução foi bem succedida; Christianno II foi derrubado do throno, e as duas nações ficaram de ahi em deante independentes uma da outra.

Na Dinamarca.—Os dinamarquezes offereceram a corôa a Frederico I, duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente lutherano, e chefe d’um estado que já tinha acceite a Reforma. Acceitou-a, e por occasião da sua coroação o clero obrigou-o a declarar por escripto que não introduziria á força a religião reformada, nem atacaria a egreja de Roma, nos seus novos dominios. Frederico cumpriu essa obrigação segundo a letra, mas não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu prégadores e evangelistas lutheranos, e em particular a João Jansen, frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg; e a nova fé fez taes progressos que dentro em pouco quasi todos os nobres da Jütlandia a tinham abraçado, e nas ilhas o numero de adeptos era consideravel. Em fins de 1527 reuniu-se em Odensee uma Dieta, expressamente para ser tratada a questão religiosa, e ficou assente a tolerancia do lutheranismo. Durante os annos que immediatamente se seguiram, as novas doutrinas espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do fallecimento de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e a auctoridade dos bispos foi desapparecendo a pouco e pouco, até se extinguir de todo. Os nobres haviam cooperado com o rei na sua obra de demolir a aristocracia ecclesiastica, e as terras que eram da egreja ficaram, na sua maioria, pertencendo ao rei.

A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante. O seu credo é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos nunca adoptaram, na Dinamarca, a formula da concordata; o seu catecismo é o de Luthero; e sua fórma de governo de egreja, posto que admitta um episcopado, é consistorial. A constituição vem exposta no Ordinatio ecclesiastica regnorum Danicæ et Norwegeæ, de Bugenhagen. O rei possuia o jus episcopale, e era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os patronos; e a Egreja era governada por sete superintendentes com o titulo de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o catholicismo romano no seculo dezessete, a chamada guerra dos Trinta Annos, a Dinamarca enviou aos protestantes da Allemanha todo o auxilio de que o paiz podia dispôr.

Na Suecia.—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo Vasa, joven fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes n’aquella carnificina, organisou a rebellião contra Christianno II, e trabalhou muito para que ella tivesse bom exito. Em 1521 foi declarado regente do reino, e em 1523 foi, pela voz do povo, chamado ao throno. Achou-se em presença de difficuldades quasi invenciveis. Não tinha havido, praticamente, um governo estabelecido na Suecia durante mais de um seculo, e cada dono de terras era quasi um soberano independente. Dois terços das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia quasi inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda a parte opprimidos; o commercio estava nas mãos da Dinamarca ou da Liga Hanseatica; e não havia classe media. Os nobres e os ecclesiasticos exigiam isenção de contribuições, e os camponezes não podiam supportar novos encargos.

N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para as terras da egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica com o auxilio da Reforma lutherana.

Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um homem religioso, perfeitamente compenetrado da verdade e do poder das doutrinas evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma obedecia tambem a outros motivos. Precisava de dinheiro para as despezas publicas, queria proporcionar aos camponezes uma situação mais desafogada, e ambicionava, acima de tudo, demolir a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se arrogava direitos que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder cautelosamente. A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas, nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que o rei estava atacando os direitos da propriedade, e que lhes chegaria a vez a elles, se consentissem que os bens da egreja fossem arrebatados; e, quanto á aristocracia ecclesiastica, essa dispunha de muita força.

É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz á frente do movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia da Dinamarca, essa tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu o apoio dos bispos suecos. Elle era um homem excommungado, um homem a quem a egreja havia proscripto. Essa circumstancia pôl-o em contacto com os prégadores lutheranos, que já andavam pela Suecia.

Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado em Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado contra um certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado no seu paiz, foram perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck, onde Gustavo travou conhecimento com elles. Elles e um outro lutherano sueco, Lourenço Andersen, arcediago de Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei, e começaram a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações, contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf Petersen, sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando o Evangelho puro, «que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara na Suecia setecentos annos antes.».

Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta o reformador desafiou-os para uma polemica, que elles não acceitaram. O resultado d’isso foi uma rapida propagação das doutrinas evangelicas. Gustavo poz Olaf Petersen como prégador em Stockholmo, Lourenço Petersen foi leccionar para Upsala, e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do reino. Promoveram-se polemicas publicas, segundo o costume allemão, em diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o dr. Galle de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da justificação pela fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio, do celibato e do poder temporal do papa, o que foi assaz vantajoso para a causa da Reforma.

Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento em sueco, e o povo, em cujas mãos o livro foi entregue, poude então comparar o ensino dos prégadores e dos bispos com o da palavra de Deus.

A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se sentir de uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas, por duas Dietas, pesadas contribuições sobre as propriedades da Egreja. O partido ecclesiastico, com os bispos á frente, promoveu uma revolta, que foi suffocada, e Gustavo conheceu que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus planos. Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada ao pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em deante as receitas em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram este alvitre; os clerigos declararam que só á força cederiam. Vendo isto, Gustavo, apoz um eloquente discurso, abdicou. Os diversos estados pozeram-se então em contenda uns com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns dias, assentiu-se na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei e publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio da historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras coisas, que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e cidadellas dos bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos; e ficou egualmente reconhecida a existencia legal da egreja lutherana.

D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu rapidamente, e dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião official do paiz. Os bens da Egreja foram confiscados para o Estado, deixando-se, porém, ficar o sufficiente para a sustentação do culto. Conservou-se a fórma de governo episcopal, mas ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do rei, como na egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das velas, mas tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen foi o primeiro arcebispo protestante de Upsala, cargo que começou a exercer em 1531. Dez annos depois, isto é, em 1541, ficou completa uma nova traducção da Biblia, feita pelos irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz estava inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em 1664, a Formula da Concordata.


II PARTE
A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS

Capitulos:

[I]—A Reforma Suissa sob Zwinglio.
[II]—A Reforma em Genebra, sob Calvino.
[III]—A Reforma em França.
[IV]—A Reforma nos Paizes Baixos.
[V]—A Reforma na Escocia.


CAPITULO I
A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO

As reformas suissa e allemã, [pag. 57].—A situação politica da Suissa, [pag. 58].—Ulrico Zwinglio, [pag. 60].—As theses de Zwinglio, [pag. 62].—A Reforma em Zurich, [pag. 63].—Basiléa, [pag. 64].—Berne, [pag. 64].—Os Cantões Florestaes, [pag. 64].—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, [pag. 65].

As reformas suissa e allemã.—A Reforma na Allemanha tem geralmente chamado mais a attenção do que a revolta contra Roma na Suissa. O conflicto com o imperador, que ella provocou, o seu rapido alastramento, o numero de estados e reinos que adheriram a ella, a parte que as universidades, onde estavam matriculados muitos estudantes estrangeiros, tomaram no movimento, tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa; mas, se devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias do que pelos seus principios, o movimento começado na Suissa foi ainda mais importante do que o que teve Wittenberg por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se reconhecendo que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes dizia respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja, podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de ahi veiu que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e uma grande parte das da Allemanha receberam melhor as tradições de Zwinglio e de Calvino do que as de Luthero e de Melanchthon.

Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos da Reforma no sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se ás tradições, tanto doutrinaes como de qualquer outro genero, da egreja medieval, mesmo em assumptos que para algumas pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob o ponto de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que se referem aos pequenos casos como aos de muita importancia. Nem Zwinglio nem Calvino queriam adoptar a doutrina da presença real pela razão de a egreja medieval a ter adoptado, e não experimentaram aquella dificuldade que Luthero teve sempre em fazer uma coisa de um modo differente de aquella em que os seus antepassados a faziam.

É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que tivesse a mesma força, e que essa razão se deva procurar nas idéas politicas e na educação do povo suisso. Na egreja medieval os direitos dos christãos tinham desaparecido inteiramente. Quando alguem fallava em egreja, referia-se ao papa, aos bispos, aos abbades, aos frades, ás freiras e aos padres; não se referia á grande corporação dos christãos piedosos, que constituiam, realmente, a egreja de Deus.

Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores soubessem perfeitamente que a verdadeira egreja visivel era constituida pelo povo piedoso que professava a fé em Jesus Christo, não tinham podido dar uma expressão pratica a esse sentimento, e o systema consistorial dos lutheranos collocava os principes e as outras auctoridades civis no logar que os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer que o povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar a essa egreja uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por si propria, como os christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos tinham feito. Pode-se quasi dizer que não trataram de incutir na vida da egreja reformada as maximas de auto-governo que inspiraram a communidade christã do Novo Testamento. Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser dirigida de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.

Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente que a egreja e o povo christão eram uma e a mesma coisa, e os projectos de auto-governo, que, se não foram sempre bem succedidos, eram, pelo menos, feitos com boa intenção, faziam parte da Reforma proposta. Isto proveiu, indubitavelmente, de um cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a vida popular dos suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o sentido do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da livre e democratica vida suissa estava mais no caso de comprehender a democracia espiritual do christianismo do Novo Testamento do que aquella que principiou nas universidades e nas côrtes dos principes allemães.

A situação politica da Suissa.—A Suissa era, n’aquelle tempo, um paiz como não havia outro na Europa. Estava tão dividido como a Italia ou a Allemanha, e, comtudo, apresentava uma união que ellas não apresentavam. Era uma confederação de estados, ou cantões, cada um dos quaes era independente de aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles uma perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes, ou, antes, «uma pequena republica de communas e cidades do primitivo typo teutonico, em que o poder civil era exercido pela communidade», cada uma d’ellas com um systema governativo differente.

Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios no principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, onde 1.300 suissos derrotaram 10.000 austriacos, teve logar em 1315. Cerca de dois seculos mais tarde, os cantões florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a que pouco depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca ao centro, e tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos por um.»

Os cantões florestaes eram communas independentes, e os seus habitantes, todos elles proprietarios rusticos, residiam em valles quasi inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que se havia formado em redor de uma colonia ecclesiastica; Berne a um antigo logarejo que se aninhava junto á base de um castello senhorial; e assim por deante. Os cantões florestaes tinham um governo simples, patriarcal; em Zurich os nobres tinham a mesma consideração que os commerciantes e artistas, e a constituição era perfeitamente democratica; Berne era uma republica aristocratica; e assim successivamente; mas em todas ellas o governo estava nas mãos do povo, e todos os homens eram livres.

Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, durante umas poucas de gerações, nada que se parecesse com uma administração episcopal. As suas communicações com o pontificado eram effectuadas por meio de delegados, ou emissarios, e obedeciam apenas a motivos politicos. O territorio estava sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de Besançon; mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões suissos, e d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir reformas na egreja.

No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e a convivencia com os paizes adjacentes foram mudando os velhos e simples costumes do povo suisso. Na Edade Media era crença geral que a força principal de um exercito estava na sua cavallaria; mas as victorias que os suissos alcançaram sobre as tropas austriacas e borgonhezas mostraram a superioridade de uma boa infanteria, convenientemente adestrada. As tropas suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos quando tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se desenvolvido gradualmente o mau habito de alugar os seus soldados a quem maior somma de dinheiro offerecesse. Era costume, quando um regimento suisso partia para a guerra por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo, na qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que este serviço mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam todo o possivel, no seu regresso á patria, para que esta perniciosa pratica fosse abolida.

Ulrico Zwinglio.—Um dos mais famosos d’estes patriotas foi Ulrico Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu a ser o Reformador da Suissa.

Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no Toggenburgo, pequena região montanhosa, cuja altitude era tal que não produzia arvores de fructo, sendo tambem impossivel cortal-a de estradas. O pae d’elle era o chefe, ou magistrado, da communa, e um dos seus tios era o deão de Wesen.

O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, em vista da sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar ao filho uma boa educação, mandou-o estudar em Basiléa e em Berne, de onde passou para a grande universidade de Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os estudos classicos, enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que a Italia estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para Basiléa, e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de aquelles theologos liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, sobre o fundamento de que Christo resgatou, com a Sua morte, os peccados de todos os homens.

Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, muitos annos depois: «Devemos ter consideração por Martinho Luthero; mas o que é certo é que aquillo que temos em commum com elle já o conheciamos muito antes de ouvir fallar no seu nome».

Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em seguida foi nomeado cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu ahi dez annos, lendo e estudando os auctores classicos latinos, e em especial Cicero, Seneca e Horacio; começou tambem a aprender grego com muito afan, e a esse respeito escreveu a um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de Deus é que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas Sagradas.» Os seus livros favoritos do Novo Testamento eram, diz-se, as Epistolas de S. Paulo. Copiou-as com as suas proprias mãos de mais de um manuscripto, e sabia-as, por fim, de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a declarar que o unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar ouvidos á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o seu modo de pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um dedicado filho da egreja medieval, torturando-se com jejuns e flagellações.

Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde havia uma abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre imagem da Virgem, a que se attribuiam muitos milagres. As multidões vinham em peregrinação a esta localidade, e Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante a idolatria e superstição de aquella gente, e perante o embuste e sacrilegio do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura e o peccado de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos seus sermões proferiu o seguinte: «Na hora da vossa morte clamae só por Jesus Christo, que vos comprou com o Seu sangue, e que é o unico Mediador entre Deus e os homens.» Estas suas predicas produziram uma enorme excitação, e, tendo constado em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. Elle recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação que o dito legado lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos de Zurich lhe pediu, em 1519, para ir para lá como pastor, acceitou muito gostosamente, e não tardou em ter uma grande influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.

Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor ambulante de indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer ao povo o artigo do seu commercio. Zwinglio protestou contra o seu procedimento, e conseguiu que as auctoridades o pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de conferencias sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas da graça e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias eram feitas na presença de centenares de pessoas, que ouviam o Evangelho com agrado.

A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de infanteria o papa nas suas guerras com o imperador; a influencia de Zwinglio, porém, era tão grande que em 1521 o cantão de Zurich recusou alugar os seus soldados, como até ali tinha feito. Esta patriotica resistencia a um infame trafico de sangue levantou maior opposição do que todos os sermões prégados por Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os bispos das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias para que a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o legado do papa tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e destruisse todos os livros lutheranos que haviam penetrado no paiz, e a Dieta passou ordens n’esse sentido.

A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, posto que obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos os curas, pastores e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos e as Epistolas em conformidade com o Espirito de Deus e com as Sagradas Escripturas do Antigo e Novo Testamento.» Esta intimação deu um impulso ao movimento evangelico, que já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado sobre o jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo, durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela egreja. Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. O papa, Adriano II, queria a todo o transe evitar uma questão com os suissos, cujas tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir Zwinglio por boas maneiras, nada conseguindo, porém. Emquanto os legados percorriam leguas e leguas para lhe transmittirem os lisongeiros recados de que eram portadores, escrevia Zwinglio o seu Apologeticus, vigoroso ataque ás corrupções da egreja.

O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que impozessem silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles licença para uma discussão publica, e comprometteu-se a provar, na presença de todos, que as suas opiniões se fundamentavam na Biblia. A junta accedeu, e fixou, para essa discussão, o dia 23 de Janeiro de 1523.

As theses de Zwinglio.—A fim de separar convenientemente os assumptos a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta theses, inscrevendo por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação differia da dos seus accusadores, constituindo o conjuncto um bem elaborado resumo de theologia protestante. As theses affirmavam, em poucas palavras, o seguinte:—Jesus Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto, e é só Elle a quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é abraçal-O e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou tirar alguma coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, de meras pretensões, com que insulta a Jesus Christo, nosso unico Summo Sacerdote. Christo morreu na cruz, resgatando, de uma vez para sempre, os peccados do Seu povo, e portanto a missa, que se assevera continuar, ou repetir, esse sacrificio, constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma ceremonia commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre Deus e o homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. A Escriptura Sagrada não contém uma palavra ácerca do purgatorio, e é coisa que não existe. Nada desagrada mais a Deus do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que tudo quanto assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, a confissão auricular, a absolvição, o celibato clerical e todas as ordenanças exclusivamente ecclesiasticas.

Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, e, na opinião dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente os seus antagonistas.

Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma terceira, em 1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich e os seus magistrados se pozeram inteiramente ao lado de Zwinglio.

A Reforma em Zurich.—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma do culto e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se que a missa não era tal um sacrificio; que não se devia venerar as imagens; que a Ceia do Senhor era uma simples commemoração da morte de Christo; que se devia ministrar o calix aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito na lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida, e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. Em 1524, Leão Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir o Velho Testamento, e antes de decorridos dez annos tinha a Suissa cinco versões da Biblia.

Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo todas as suas despezas custeadas com o rendimento de vastas propriedades. Os conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos seus beneficios. Uma parte do dinheiro foi destinada ao sustento dos ministros da cidade, e o resto ficou constituindo um fundo de instrucção. Era com este fundo que a assembléa de Zurich, seguindo o conselho de Zwinglio, pagava ao professorado das escolas. Foi tambem resolvido que se solicitasse em todos os conventos, tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens em beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos assim se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia emquanto vivessem.

A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, do norte da Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. Os discipulos de Thomaz Münzer não tardaram em causar perturbações. Conseguiram, com a sua prégação, agregar a si alguns adherentes de entre a população de Zurich. As suas doutrinas eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes, constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados de Deus e não precisavam de leis que não fossem as que os seus corações e consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem coherentes, queimaram as suas Biblias em publico. Tinham idéas singularissimas. Como Christo tivesse dito que os Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os enthusiastas anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente absurdas. O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie de loucura, de que resultou haver sangue derramado. O conselho tolerou durante bastante tempo as suas manias, mas viu-se por fim obrigado a mandal-os retirar, proseguindo depois a obra da reforma com a mesma tranquillidade como anteriormente.

A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes como Basiléa, Berne, Schaffhausen e Appenzell.

Basiléa era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada pelos sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. Era tambem o centro da industria do papel, e a maquina de impressão de Froben deu-lhe uma grande celebridade. Era muito visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande Holbein durante o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, professor de Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher benevolamente as novas doutrinas. Capito, o futuro reformador de Strasburgo, Polyhistor, o eminente hebraista e celebre physico, Œcolampadius, o sabio de Reuchlin e futuro companheiro de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do Delphinado, que tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não deixasse de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de Basiléa.

A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius e Farel começaram a prégar contra a superstição.

Berne, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, fez-se tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em pouco a Reforma começou a palpitar no meio dos cidadãos que a compunham. O conselho foi instigado a annunciar que na cidade só seria prégado o Evangelho puro, e tres prégadores, Kolb, Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão para fallarem contra a missa e contra as ceremonias papistas.

Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros cantões, durante a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, ganhando sempre terreno, e por fim a Suissa ficou dividida em duas partes pela questão religiosa.

Os cantões florestaes foram os unicos que se conservaram aferrados ás suas antigas tradições, constituindo um centro de opposição a toda e qualquer mudança em materia de religião. Quando a Reforma começou a mostrar um indiscutivel progresso, não só em Zurich como nos outros cantões, e Berne e Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se uma tal exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava, em ambos os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava a esperança de que tudo se liquidasse rapidamente e de uma maneira decisiva. Ao primeiro recontro, porém, não se poude dar o nome de batalha, e os cantões florestaes, sem terem combatido, assignaram o Tratado de Cappel em 1529, cuja clausula principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé não são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser justo, e tanto nas provincias communs como nos territorios independentes as congregações determinarão se a missa e outras usanças devem ser conservadas ou abolidas.»

Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum dos partidos, e deu logar a novas contendas, que terminaram com a vinda subita dos Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo exercito derrotaram, ficando Zwinglio morto. Esta victoria não deu um grande avanço á causa romanista. O segundo Tratado de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o primeiro, e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião.

Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.—Com a morte de Zwinglio termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle morrer, a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de Luthero por uma constituição popular na egreja, mostrou claramente que na Reforma tinha de haver dois movimentos distinctos, que jámais se poderia unificar. Esta falta de união foi causa de um grande prejuizo, e as culpas não devem ser atiradas para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero. Ambos tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos principios evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes, em comparação de tudo aquillo em que concordavam. O feitio caracteristico da Reforma de Zwinglio, porém, torna-se muito mais manifesto na sua ultima fórma sob Calvino, e é referindo-nos a esse periodo que a vamos comparar com o movimento lutherano.

Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma fizeram muito pouco no sentido de resolver uma questão que em breve tomou na egreja reformada uma importancia capital: a maneira como a egreja tinha de ser governada. Para elle era um ponto indiscutivel a necessidade de ter sempre presente no espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma de homens que podessem ser chamados espirituaes, simplesmente pelo facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava era que todos se compenetrassem do sacerdocio espiritual de todos os crentes, ministros ou leigos. Mostrou tambem que era dever de todos os magistrados administrar em nome de Christo e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e verdadeiras idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios civis da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos respectivos ao culto publico, ás doutrinas e á disciplina da egreja foram feitos, no tempo de Zwinglio, pelo Conselho de Zurich, que era, n’aquelle estado, o supremo poder civil. Esta sua idéa, mesmo durante a vida d’elle, apresentou muitos inconvenientes, sendo um dos mais manifestos a ligação que se formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam ter, como o antigo reino de Israel, governos theocraticos. Se as idéas de Zwinglio tivessem continuado a prevalecer, não é provavel que a Reforma suissa tivesse exercido o poder que exerceu para além das fronteiras da republica; posto que, sob a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem facilmente a um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter applicado a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma pequena egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia contra um governo secular que lhe fosse hostil.


CAPITULO II
A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO

Genebra perante a Reforma, [pag. 67].—Farel em Genebra, [pag. 68].—A mocidade de Calvino, [pag. 69].—Institutos da Religião Christã, [pag. 71].—Calvino em Genebra, [pag. 73].—A sua expulsão, [pag. 75].—Genebra não pode passar sem elle, [pag. 76].—As Ordenanças ecclesiasticas, [pag. 77].—Em que differem dos Institutos [pag. 79].—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, [pag. 81].—A morte de Calvino, [pag. 82].—Succede-lhe Beza, [pag. 83].—A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma, [pag. 83].—A Confissão de Zurich, [pag. 84].

Genebra perante a Reforma.—Depois da morte de Zwinglio e da segunda Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis da Reforma suissa localisaram-se n’uma cidade que estava quasi desligada da confederação.

Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e os seus bispos tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, jurisdicção sobre os negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam tambem os seus direitos sobre a cidade, e os dois partidos, o do bispo e o do duque, andavam quasi constantemente em guerra.

Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa Leão X poz á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome de «mamelukos», ao passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen», isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante francez, os huguenotes.

A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida. Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em Genebra.

Farel em Genebra.—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532, veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço; os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu respeito opiniões desencontradas.

Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra; Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador. Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse. Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne, que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o prégar, e a Reforma foi avançando.

O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em 1535 teve logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os reformadores.

O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se, nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas, destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil, não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida, muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse. Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as egrejas reformadas da Europa.

A mocidade de Calvino.—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos, a carreira ecclesiastica.

Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde teve por professor o celebre Mathurino Corderier,[1] e em seguida para o Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente se celebrizou, Ignacio de Loyola.

Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a ordenar-se, nem fez voto de celibato.

Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito, estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira juridica.