CANCIONEIRO E ROMANCEIRO GERAL PORTUGUEZ


FLORESTA

DE VARIOS

ROMANCES

COLLIGIDOS

POR

THEOPHILO BRAGA

Transformações do romance popular do seculo XVI a XVIII—Romances com forma litteraria dos cultistas portuguezes—Romances da Historia de Portugal, tirados das Collecções hespanholas.

PORTO
Typ. da Livraria Nacional
2, Rua do Laranjal, 22

1869

{[I]}


FLORESTA DE ROMANCES


{[II]}
{III}

FLORESTA

DE VARIOS

ROMANCES

POR

THEOPHILO BRAGA

Vimos rir, vimos folgar,
Vimos cousas de prazer,
Vimos zombar e apodar,
Motejar, vimos trovar
Trovas que eram para lêr.

GARCIA DE REZENDE.


PORTO
Typ. da Livraria Nacional
Rua do Laranjal, 2 a 22

1868

{[IV]}
{[v]}

TRANSFORMAÇÕES

DO

ROMANCE POPULAR

SECULO XVI A XVIII

Os romances genuinos da tradição oral do povo foram pela primeira vez recolhidos na Silva de varios, em 1550, tendo sido anteriormente glosados pelos poetas cultos hespanhoes da corte de João II e Henrique IV; no seculo XVI receberam uma fórma litteraria, dada por Lope de Vega, Gongora, Fuentes, Lasso de la Vega, Juan de la Cueva e outros. O mesmo facto se deu em Portugal: Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Jorge Ferreira de Vasconcellos, Francisco Rodrigues Lobo, Dom Francisco Manoel de Mello e Balthazar Dias, glosam e imitam os romances populares, já cantando os feitos da nossa historia, já as façanhas da guerra de Troya e de Roma, da Tavola-Redonda e de Carlos Magno. Convinha colligir estas flores dispersas, por onde se mostra que o movimento litterario operado em Portugal no seculo XVI e XVII era analogo ao de Hespanha; sem ellas o Cancioneiro e Romanceiro geral portuguez seriam uma obra truncada e imperfeita.{[vj]}

Não se póde conhecer a litteratura portugueza ignorando as phases das litteraturas da edade media da Europa. Como a formação das linguas, do direito, da religião e das instituições sociaes, nenhum facto faz sentir mais do que a litteratura a unidade de raça dos povos neo-latinos. Quasi todas as transformações que experimentaram as litteraturas italiana, franceza, hespanhola e provençal,—quer na forma das primeiras poesias, nas novellas cavalheirescas, nas Chronicas ou nos contos decameronicos, no romance popular ou no sentimento da natureza despertado pela Renascença,—tudo, abertamente o sustentamos, se encontra, mais ou menos rudimentarmente, na litteratura portugueza. Foi a poesia dos jograes que soltou os dialectos neo-romanos da sua gaguez pelo canto; em Portugal vemos tambem que os primeiros monumentos linguisticos são em verso, essas canções dos seculos XII e XIII, que os criticos não tem sabido avaliar.

Como conclusão dos estudos sobre a poesia popular portugueza, parecerá que este povo não tem uma poesia privativamente sua, filha espontanea do seu genio. As creações epicas que aí ficam nos romances colhidos da bocca do povo acham-se, é verdade, com alterações accidentaes nos Romanceiros hespanhoes. Devemo-nos desgostar com a falta de originalidade? Deveriamos abandonar a missão de recolher essas venerandas reliquias, por isso que não ha n'ellas uma feição propria? Os romances pertencem ao povo hespanhol pela fatalidade da raça e pelo estado social que os produziu. Não sômos nós do mesmo sangue, do mesmo tronco celtibero? não soffremos nós as mesmas modificações no cadinho da edade media da Europa? O facto de apparecerem os romances cavalheirescos{[vij]} hoje em hespanhol é devido a uma circumstancia material, á curiosidade dos livreiros de Sevilha, Saragoça e Anvers; entre nós não se curou d'isso, mas nem por isso o povo portuguez deixou de cantar e poetisar as suas tradições. A parte mais bella dos romances hespanhoes constará, quando muito, de cem romances anonymos, os quaes se não referem a factos particulares da historia; estes mesmos andaram na tradição portugueza no seculo XVI, em tempo que a mente dos dois povos os elaborava ainda. (Leis de formação poetica, III e XIII). Se em politica Portugal e Hespanha são duas nacionalidades, nas tradições poeticas são mais do que gemeos, são um mesmo povo. O velho Romanceiro hespanhol da ultima ametade do seculo XV, o legitimamente popular, tanto é hespanhol como portuguez; são os cantos d'esta epocha os que se repetem ainda na sua pureza nativa na Beira-Baixa, Traz-os-Montes e Açores. Que importa que não tenhamos os vultos poeticos de um Cid, de um Bernardo del Carpio, se os romances que os celebraram são na maior parte de origem litteraria, compostos por Lorenzo de Sepulveda, Juan de Leyva, Lasso de la Vega, e agrupados por Juan de Escobar? O Romanceiro portuguez é pequeno; mas, ainda ha tão pouco tempo interrogada a tradição, tem dado o que ha de mais bello e mais antigo na poesia peninsular.

No tempo de Dom João I, quando o povo deu pela primeira vez signal da sua existencia politica, foi ao mesmo tempo que revelou a poesia com que se alentava. Os cavalleiros cortezãos, que discreteavam com damas, pertenciam á Ala dos Namorados e da Madre-Silva, e entretinham-se com as novellas de Cavallaria do cyclo da Tavola-Redonda: «Porque nam se nega aos Luzitanos, des ho{[viij]} tempo dos Romanos que fezeram memoria dos feytos heroycos, hum abalisado e raro grao de cavalaria. E em tempo del Rey dom João de boa memoria sabemos que seus vassalos no cerco de Guimarães se nomearam por cavalleyros da tavola redonda; e elle por el rey Arthur. E de sua corte mandou treze cavalleyros Portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo çarrado com outros tantos Ingrezes nobres e esforçados, por respeyto das damas do Duque Dalencastro. E de Santarem sayram tres cavalleyros andantes a buscar aventuras, por toda a Hespanha gaynhando muita honra: e em nossos tempos foram outros a Italia, Inglaterra e França, em que se abalisaram como gentys soldados: vindo dahi a capitães não menos que os antigos.»[1] Porem o unico documento da existencia da poesia popular portugueza mais evidente, são essas canções que os moradores de Restello e Sacavem vinham cantar sobre a sepultura do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira. Que ingenuidade de sentir n'aquella strophe dos pobres á porta do convento do Carmo, aonde estava Nunal'vres! Recolheram-se essas trovas mais para provar a grandeza do Condestavel do que a santidade do povo. No reinado de Dom João II os costumes cortezãos tinham banido a poetica do vulgo; os cavalleiros, quasi todos heroes na conquista do Oriente, entretinham-se nos serões do paço em fazer versos ás damas sobre casos sentimentaes, imitações das coplas de Manrique, de Juan de Mena, de Juan Rodrigues del Padron, do Marquez de Villena e do de Santillana. Garcia de Resende, recolhendo todas essas coplas, seguira o exemplo{[ix]} do Cancioneiro de Baena; a poesia de um é modello da poesia do outro. Lendo a nossa vasta collecção de 1516, encontramos os filhos de Dom João I, como Dom Pedro,[2] adoptando os versos de arte maior e enlevado na admiração de Mena; seu filho, que foi Rei de Chypre, imita o gosto prevençal nas tres canções ali conservadas.[3] Na infinidade das outras composições não se descobre a minima allusão a costumes, nem a tradições populares. Existem lá composições historicas, cuja forma não lembra o romance.

Não é para admirar. Don Agustin Duran affirma que nenhum Codice anterior á primeira metade do seculo XVI conserva vestigios da poesia popular; apenas o Cancionero general de Hernando del Castillo, publicado em Valencia de Aragon em 1511, contêm alguns fragmentos de romances glosados. Taes são os romances sacros: Durmiendo yva el Señor,[4] Terra y cielos se quexavan,[5] e mais trinta romances com glosas, como são o de Conde Claros, com glosa de Francisco de Leon e uma imitação de Lope de Sosa; o romance de Rosa fresca, rosa fresca com a glosa de Pinar; o de Fonte frida, fonte frida com a glosa de Tapia; o de Yo m'era mora morayna, e outros muitos feitos pelos poetas cultos das cortes de Dom João II e Enrique IV, como Don Juan Manoel, o Comendador de Avila, Juan de Leyva, Garci Sanchez de Badajoz, o Bacharel Alonso Poza, Juan de la Ensina.[6] Estes poetas ou se serviam de{[x]} fragmentos de romances populares para as suas glosas, ou os parodiavam. Quando, pela primeira vez, os romances populares foram recolhidos da tradição oral, em 1550, por Estevan de Najera, na colleção de Saragoça intitulada Silva de varios romances, muitos fragmentos do Cancionero de Hernando del Castillo appareceram mais completos. É natural que, antes d'esta primeira collecionação, os cantos do povo andassem em pliegos sueltos ou folha volante, com que mais tarde os livreiros tanto especularam. Pelo menos, os melhores romances da collecção de Najera encontram-se em folha solta de duas columnas, em typo gothico, sem logar de impressão, sem data e frontispicio: taes são os romances de Durandarte, de Grimaltos, do Marquez de Mantua, dos Sete Infantes de Lara, de Gayfeiros, do Conde Claros de Montalvan, do Conde Dirlos, de Calaynos, e outros muitos que se podem vêr no precioso trabalho do infatigavel Don Agustin Duran.[7] Os commentadores de Ticknor são de opinião, que antes das collecções os romances não andaram em pliegos sueltos, e fundam-se no prologo de Najera: «Eu não nego que em muitos dos romances impressos hajam casualmente erros; mas são devidos ás copias d'onde os extraí, copias quasi sempre alteradas, e á fraqueza da memoria das pessoas que nol-os dictavam e que se não podiam recordar perfeitamente.» D'onde concluem que o povo se servia de cadernos manuscriptos.[8] Ao mesmo tempo Martin Nucio imprimiu esta mesma collecção em Anvers, para{[xj]} uso dos soldados e do povo que se achava fóra de Hespanha nos Paizes Baixos. O gosto da época pelas trovas cultas fel-o adoptar o titulo de Cancionero, com que então se nobilitavam todas as collecções. Emquanto o gosto dos romances populares se vulgarisava em Hespanha, em Portugal os poetas da corte de Affonso V e Dom João II não sonham a existencia d'esse riquissimo veio de poesia, continuam nas suas trovas do cuydar e sospirar. Apenas Garcia de Resende, chronista de Dom João II, e collector das canções da sua corte, mostra ter conhecido esse renascimento em uma glosa que fez a um romance velho, e em algumas palavras da dedicatoria do Cancioneiro geral.

No Cancioneiro geral sómente se depáram, com forma de romance, umas trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que principiam:[9]

Eu era moça menina
per nome dona Ines
de Castro, e de tal doutrina
e vertudes, qu'era dina
de meu mal ser ho rreues.
Uivia, sem me lembrar
que paixan podia dar,
nem dal-a ninguem a mim;
foy m'o principe olhar
por seu nojo e mynha fim.

N'este tempo a fórma do romance popular estava despresada completamente; Garcia de Resende, traz mais um romance fragmentado, conservado a a pretexto da glosa:[10]

RYMANÇE

Tyempo bueno, tyempo bueno,
quyen te llevo de my!{[xij]}
Qu'en acordar-me de ti
todo plazer m'es ajeno.
Fue tyempo y oras ufanas,
em que mys dias gozaron.
Mas en elhas se sembrarom
la symyente de mys canas.
Quyen no lhora lo passado,
vyendo qual va lo presente?
Quyen busca mas açydente
de lo qu'el tiempo l'a dado?
Yo me vy ser byen amado,
my deseo em alta çyma.
Contemplar em tal estado
la memorea me lastyma.
Y pues todo m'es ausente,
no ssé qual estremo escoja,
Byen y mal, todo m'anoja:
mesquyno, de quyen lo syente!

Este romance parece uma imitação dos dois celebres romances conservados no Cancionero general de Hernando del Castillo, Fonte frida, Fonte frida, e Rosa fresca, Rosa fresca, muitas e muitas vezes glosados pelos poetas palacianos. O romance de Tyempo bueno é um trecho conservado por causa da glosa. Então o renascimento das canções provençaes distrahia os serões das principaes cortes da Europa.

O romance popular era antigo e invariavel nos seus moldes; muitas das suas strophes tinham-se convertido em proverbio, como se vêem no Don Quijote; não se prestando a perpetuar as anecdotas palacianas, a glosa veiu mobilisal-o. O romance popular, simples de condição, franco, rude, tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não sabia abstraír, dramatisava, accumulava as situações. Era preciso um genio superior para comprehender a sua ingenuidade profunda. Lope de Vega foi um dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar que o metro octasyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos e poz em forma de romance os dolorosissimos passos da Paixão. Rengifo, na Poetica{[xiij]} española, reconhece a superioridade do romance.[11]

Só Gil Vicente foi o unico escriptor portuguez do seculo XVI conhecedor da vida do povo, das suas superstições e dos seus cantos. Na Comedia de Rubena, representada em 1521, cita um grande numero de romances populares, a que allude, como a cousa que por sabida não repete. É certo que o nosso povo, apesar do despreso dos cultistas, continuou a acceitar o romance, e doutra sorte se não explica a reimpressão do Cancionero de Anvers em Portugal por Manoel de Lyra em 1551; a apparição do pequeno in-12, intitulado Ramilhete de flores: cuarta, quinta e sexta partes de romances nuevos hasta agora não impressos, que Pedro de Flores, collector do Romancero generale, imprimiu em Lisboa em casa de Antonio Alvares em 1593; bem como o Romancero del Cid de Juan de Escobar, em Lisboa em 1605, 1613 e em 1615, e a Primavera y Flor de los mejores romances tambem em Lisboa, nos prelos de Matheus Pinheiro, em 1626.

O romance de Dom Duardos, composto por Gil Vicente, foi recolhido no Cancionero de Romances como anonymo, e assim a historia dos amores de Bernardim Ribeiro. Na Menina e Moça encontra-se o solao da Ama e o romance de Avalor, mas com a difficil alliança do artificio provençalesco com a naturalidade da alma popular. Nas novellas cavalheirescas usava-se intercalar varias{[xiv]} composições poeticas; no Memorial dos cavalleiros da Tavola Redonda de Jorge Ferreira, se lêem muitos romances do cyclo troyano, do cyclo de Arthur, da historia de Roma, como então os fazia Gabriel Lasso de la Vega e Juan de la Cueva; mas é para notar que alguns dos romances de Jorge Ferreira se parecem muito com os romances da tradição, conservados no Cancionero de Anvers, taes como os que tratam da morte de Policena. Quando a eschola italiana se introduziu em Portugal procurou tambem banir das composições poeticas o octosyllabo da redondilha.

A eschola italiana não foi introduzida sem lucta na Peninsula; em Hespanha conhece-se bem qual foi a grandeza do combate. Em Portugal quasi nada consta, a não serem umas allusões de Sá de Miranda, de Ferreira e Bernardes. Boscan e Garcilasso davam-se por introductores em Hespanha dos novos metros italianos, fazendo uma revolução na poetica, pela qual o octasyllabo popular era expungido, substituido pelo endecasyllabo heroico. Argote de Molina nega-lhes o invento, e Lope de Vega decide-se abertamente pelo velho e despresado octasyllabo, como o metro espontaneo da lingua hespanhola. Na edição do Conde de Lucanor de 1575, Gonzalo Argote de Molina, publicou um Discurso sobre a poesia antiga castelhana, em que diz: «Bolviendo al proposito, los Castellanos y Catalanes guardaron en esta composicion (redondilla) cierto numero de pies ligados, com cierta ley de consonantes, por la qual ligadura se llamó COPLA, compostura cierto graciosa, dulce, y de agradable facilidad, y capaz de todo el ornato que qualquer verso puede toner, si se les persuadiesse esto a los Poetas deste tiempo, que cada dia la van olvidando, por la gravedad y artificio de las rimas{[xv]} Italianas, à pesar del bueno de Castillejo, que desto graciosamente se quexa en sus coplas, el qual tiene en su favor, y de su parte el exemplo deste Principe Don Juan Manoel, y de otros cavalleros muy principales castellanos, que se pagaram mucho desta composicion, como fueron el Rey Don Alonso el Sabio, el Rey Don Juan el Segundo, el Marquez de Santillana, Don Henrique de Villena, y otros de los quales leemos coplas y canciones de muy gracioso donaire.»[12]

Este documento revela-nos a reação contra a poetica estrangeira. Mas bem vistas as cousas, a questão provinha de se não ter conhecido ainda a unidade das linguas romanas. Argote de Molina, provando que os metros endecasyllabos já existiam na velha poesia castelhana, afirmava insensivelmente a unidade da poetica das linguas neo-latinas. Transcrevemos aqui a sua opinião, para uso dos que ainda attribuem a Boscan e Garcilasso essa reforma ou renascença poetica, que vulgarisou os versos grandes ou endecasyllabos: «Es grave, lleno, capaz de todo ornamento y figura, y finalmente entre todos generos de versos le podemos llamar Heroico, el qual a cabo de algunos siglos que andava desterrado de su naturaleza, ha buelto a España, donde ha sido bien recebido, y tratado como natural, y aun se puede dezir, que en nuestra lengua, por la elegancia e dulçura della, es mas liso y sonoro que en alguna vez paresce en la Italiana.—No fueron los primeros que los restituyeron a España el Boscan e Garcilasso (como algunos creen) porque ya en tiempo del Rey Don Juan el Segundo era usado, como vemos en el libro de los Sonetos y Canciones del{[xvj]} Marquez de Santillana, que yo tengo, aunque fueron los primeros que mejor le trataron, particularmente el Garcilasso, que en la dulçura y lindeza de concetos, y en el arte y elegancia no deve nada al Petrarca, ni à los demas excelentes Poetas de Italia.»[13] A lucta contra a introducção dos versos italianos foi renhida; os buccolistas chamavam ao verso octasyllabo humilde e rasteiro. Lope de Vega, com a auctoridade do seu grande nome, decide-se pelo verso nacional, e escreve o poema de Santo Isidro para o fazer valer em um assumpto religioso: «y de ser en este genero que ya los Españoles llaman humilde, no doy ninguna, porque no pienso que el verso largo Italiano haga ventaja al nuestro: que si en España lo dizen, es porque no sabiendo hazer el suo, se passan al estrangero, como mas largo, y licencioso: y yo sè que algunos Italianos embidian la gracia, difficultad y sonido de nuestras redondillas, y aun han querido imitallas, como lo hizo Seraphino Aquilano... Llamando a nuestras coplas castellanas Barzeletas, ò Fretolas, que mejor las pudiera llamar sentencias, y concetos, desnudos de todo cansado y inutil artificio, que cosa iguala á una redondilla de Garci Sanches, ò Don Diego de Mendoça: perdone el divino Garcilasso, que tanta occasion dio para que se lamentasse Castillejo, festivo e ingenioso poeta castellano, a quien parecia mucho Luis Gualvez Montalvo, con cuya muerte subita se perdieron muchas floridas coplas de este genero, particularmente la traducion de la Jerusalem de Torcato Tasso, que parece que se avia ydo á Italia à escrivirlas para meterles las higas en los ojos. Maravillosas son las estancias del excelente{[xvij]} portugues Camões: pero la mejor no yguala a sus mismas redondilhas, etc.» [14]

O proprio Boscan, no prologo ao livro II das suas poesias, descreve os ataques que soffreu a nova eschola, e nos revela a quem foi devida a idêa para a revolução na poetica nacional. Um cavalleiro italiano, muito conhecido em Hespanha pelo seu gosto e importancia individual, Navajero, estando a conversar em cousas de letras, lembrou-lhe que experimentasse as trovas usadas pelos bons autores de Italia. Boscan cedeu ás instancias e experimentou; a final o verso endecasyllabo moldava-se á nova forma, como se fosse creado com ella. Garcilasso veiu imprimir o cunho da perfeição á nova tentativa. Aqui estão os dois modelos tão imitados em Portugal pelos poetas quinhentistas. O metro octosyllabo ficou desprezado; e as composições do povo que o preferiam, ficaram até ao principio d'este seculo desconhecidas.

O metro espontaneo das linguas hespanhola e portugueza é a redondilha octosyllabica; o verso da redondilha sae falado, natural, sem se pensar. No Discurso sobre la lengua castellana de Argote y de Molina, vem: «Leemos algunas coplillas Italianas antiguas en este verso, pero el es proprio e natural de España, en cuya lengua se halla mas antiguo que en alguna otra de las vulgares, y assi en ella solamente tiene toda la gracia, lindez e agudez que es mas propria del ingenio Español, que de otro alguno.—En el qual genero de verso al principio se celebravan en Castilla las hazañas y proezas antiguas de los Reys, y los trances y successos assi de la paz, como de la guerra, y los hechos notables de los Condes, Cavalleros, y Infançones,{[xviij]} como son testimonio los Romances antiguos castellanos, assi como el del Rey Ramiro cuyo principio es: Ya se assienta el Rey Ramiro.»[15]

Muitas vezes a historia era fundada sobre os romances da tradição oral; Esteban de Garibay y Zamalloa traz na sua Historia varios romances vasconços. D'elles, diz Argote: «en los quales romances hasta oy dia se perpetua la memoria de los passados, y son una buena parte de las antiguas historias castellanas de quien el Rey Don Alonso se aprovechó en su historia, y en ella se conserva la antiguidad, y propriedad de nuestra lengua.»[16] Só a contar do seculo XVI é que os romances populares começaram a tomar uma natureza artificial; até aí as chronicas procuravam o subsidio da tradicção oral; d'aí por diante os poetas iam tirar d'ellas os motivos e factos para os seus romances. Sepulveda poz em verso os principaes factos da Chronica de Affonso o Sabio.

O que se dava em Hespanha acontecia egualmente em Portugal; Gil Vicente cantava em romances a morte de Dom Manoel, a acclamação de João III, o casamento e partida da Infanta Dona Beatriz, o nascimento de Dom Filippe. Era a moda do tempo, como confessa o proprio Sepulveda no prologo da sua collecção: «va puesto en estyllo que vuestra merced lea. Digo en metro Castellano y en tono de Romances viejos, que és lo que agora se usa[17] Por este tempo entraram na tradição do povo muitos romances de formação litteraria. O romance de Don Duardos, de Gil Vicente, foi recolhido{[xix]} nos Romanceiros hespanhoes; o Cavalheiro de Oliveira o colligiu outra vez da versão oral, e ha pouco nos veiu da Ilha de Sam Jorge, da freguezia dos Rosaes, outra variante não menos veneranda, se não mais pura. Estes romances eram intencionalmente compostos para serem cantados, em logar dos velhos e quasi perdidos da Tavola Redonda e do Cyclo carolino. Dil-o Sepulveda no prologo da sua collecção: que a fizera «para aprovechar-se los que cantarlos quisieren, en logar de otros muchos que yo he visto impressos y de muy poco fructo.»[18] Estes romances, a que allude Sepulveda com desprezo, são hoje a parte mais bella e divina dos Romanceiros da Peninsula. Portanto, pode dizer-se, que a transformação erudita do romance popular foi devida á falta de comprehensão dos cultistas litterarios. O mesmo tinha já succedido no seculo XV, quando o Marquez de Santillana, enlevado com os artificios da poetica provençal, considerava como infimos e despresiveis os que cultivavam a forma do romance. No seculo XVI, a imitação do classicismo e dos metros italianos fez novamente desprezar o metro octosyllabo pelo endecasyllabo heroico. Os que sustentam o combate pelo metro popular, como Lope de Vega, Argote y de Molina e Sepulveda, entregam-se ao romance como á forma mais do gosto do publico não accostumado ás canções petrarchistas. Não deixa de ser curiosa a lucta entre a eschola italiana e a nacional, em Hespanha suscitada por Boscan e Garcilasso, e em Portugal pelo Doutor Francisco de Sá de Miranda. Na sua viagem á Italia, Sá de Miranda tomou conhecimento da nova poesia; elle fala dos Provençaes, de Dante,{[xx]} de Petrarcha, de Ariosto, de Bembo, e quiz implantar cá esses modelos. Não foi bem acolhido o pensamento. Egual arruido ao que se fez com Boscan, suscitou a tentativa de Sá de Miranda. Ninguem fala n'essa lucta; mas nos poetas quinhentistas se acham a cada pagina rastos de uma mal ferida pugna.

Sobre a introducção da eschola italiana, diz Sá de Miranda na Ecloga IV, a Dom Manoel de Portugal, lume do Paço, das musas mimoso:

que são dignos
De perdão os começos já que fiz
Aberta aos bons cantares peregrinos,
Fiz o que pude....[19]

Riram-se dos novos metros; e Sá de Miranda quando esperava o bom acolhimento da boa obra,

ouve aos sisos
Medo (que assi o confesso) e a uns pontosos
De rostro carregados, e de uns risos
Sardonios, ou mais claro, maliciosos.

Antonio Pereira de Marramaque, senhor de Basto, da familia dos Forjazes e Pereiras, offereceu a Sá de Miranda um exemplar das obras de Garcilasso, quando elle se retirára para a sua casa de campo. Agradecendo-lhe a offerta que o distrahia na solidão, ainda Sá de Miranda se lembra dos esforços que fez para implantar a nova eschola:

Que el son que me aplazia
Por mi hiziesse a plazer a nuestra gente.[20]

E na morte de Garcilasso canta:

Al tan antiguo aprisco
De Lassos de La Vega
Tuyo, el nuestro de Sá viste augmentado.[21]{[xxj]}

A eschola italiana, fundada por Sá de Miranda, teve por adeptos a Pero de Andrade Caminha, a Ferreira e Bernardes, que se proclamaram discipulos do poeta. Caminha envia-lhe os seus versos, para

que os queiraes vêr
E riscar, e emendar, porque emendados
Por vós, possam andar mais confiados
Do que por meus poderam merecer.[22]

Dom Manoel de Portugal tambem lhe envia poesias suas para serem revistas:

Por isso ante vós vão tão confiadas,
Rarissimo Francisco, e excellente,
A rudeza do estylo differente,
E as incultas estanças desornadas.

Diogo Bernardes como estreia do anno novo envia-lhe uma copia das suas Flores do Lima, como se deprehende do soneto XXIV:

Neste começo do anno, em tão bom dia
Tão claro, porque não faleça nada,
Me foi da vossa parte appresentada
Vossa composição boa á porfia.

N'este mesmo soneto refere-se Sá de Miranda ás difficuldades que teve a eschola italiana ao introduzir-se em Portugal:

De espanto me enche quanto ali via,
E mais em parte cá tão desviada
Sempre até agora da direita estrada
De Clio, de Caliope e Thalia.

Sá de Miranda tambem louva Jorge de Monte-Mayor, introductor da novella pastoril italiana na Peninsula. A lucta entre os poetas velhos, como chamavam aos partidarios da redondilha antiga, e{[xxii]} os da eschola italiana, conhece-se que foi renhida pelas frequentes allusões dos quinhentistas; não ha porém documentos que esclareçam a historia d'essas luctas tão vulgares no dominio da litteratura. A maledicencia não era poupada de parte a parte:

Em tal sasão, tempo tão avaro
De louvores alheios, em tal dano
Dos engenhos, que se acham sem amparo.[23]

Antonio Ferreira dá a entender estas mesmas guerras, em uma Carta a Sá de Miranda:

Já contra «a tyrannia do costume»
Que té qui, como escravos em cadeias
Os tinha, subir tentam ao alto cume
Do teu sagrado monte, d'onde as veias
Desse licor riquissimas assiste
De que já correm mil ribeiras cheias.
...................................
Mas oh tempos crueis! (sôe meu grito
Por todo o mundo) mas, ah tempos duros,
Em que não sôa bem o bom escripto.[24]

N'esta outra Carta de Ferreira a Antonio de Sá de Menezes, descobre a malevolencia que havia contra a eschola italiana:

Já esta nossa terra engenhos tem
Das musas bem criados, «mas mal criados»
Que sempre o mal anda abatendo o bem.[25]

A final triumphou a eschola italiana, e com ella começou a decadencia da poesia nacional dos dois povos da Peninsula. Os romances populares caíram em um immenso desprezo; nos escriptores de quinhentos encontrámos bastantes allusoes a{[xxiij]} romances tradicionaes, mas citam-nos de passagem, como quem se envergonha de uma cousa baixa.

Jorge Ferreira de Vasconcellos, no Memorial dos Cavalleiros da Tavola Redonda, (p. 348) descrevendo umas festas do tempo de Dom João III, diz: «dentro vinha assentada a Deosa Diana em meio de duas ninfas, uma que tangia uma harpa, e outra um arrabilete, e a deosa cantando uma estancia da primeira ecloga de Garcilasso que diz:

Por ti el silencio de la selva umbrosa.»

O gosto da Renascença classica, em quanto entre nós não baniu o romance popular, serviu-se d'essa forma para popularisar as tradições da antiguidade grega e romana. Jorge Ferreira é o unico que nos appresenta alguns romances da historia de Troya; são elles tão parecidos com os do Cancionero de Anvers, que suppômos até serem as suas versões em parte aproveitadas da tradição oral, como foram os colligidos por Esteban de Najera. O romance ao casto Scipião sobre a morte de Sophonisba tambem foi romanceado por Juan de la Cueva no Coro Febeo; porém a lição de Jorge Ferreira é mais resumida, mais filha da tradição; o mesmo se póde dizer do romance da Batalha de Pharsalia do mesmo, comparado com os de Lobo Lasso de la Vega, no seu Romancero y Tragedias.

Como poderia um poeta classico considerar a poesia popular senão com desprezo? Soropita, no seu Prognostico do anno de 1595, descreve as festas das Janeiras e Reis de um modo grotesco: «na noute da vespera de janeiro e dos Reis, andarão cantando e tangendo pelas ruas, sem se temerem{[xxiv]} da justiça, por serem noites privilegiadas em que não correm o sino.»—Segundo elle os cantores nocturnos são «villões ruins que essas noites vos perseguem; porque, quando vos não percataes, achael-os á porta com seu pandeirinho eivado já do serão, e com mais sarro na garganta do que as cubas dos frades loios; e com tudo isso, vos põem em estado que forçosamente lhe haveis de louvar aquella musica de agua pé com chocalhada, que toda a noute vos zune nos ouvidos como bizouro, e sobre tudo isto haveis de lhe offertar os vossos quatro vintens; e quando lh'os entregues, a candeia vos descobre o feitio dos ditos musicos: um mocho com sombreiro, com mais chocas que um corredor de folha, e lança-vos baforada de dentro d'aquellas fornalhas, que parece que toda a vida estiveram de vinho e alhos, como entrecosto de marrã.» (p. 79) Este trecho lança abundante luz sobre essas festas domesticas dos nossos maiores.

A reacção catholica contra o movimento da Reforma atacou barbaramente os cantos populares. Em Portugal não só as Constituições dos Bispados o provam, senão até o popular Gil Vicente, que se queixa da grande tristeza em que caíra a alma do pobre povo:

Em Portugal vi eu já
Em cada casa pandeiro,
E gaita em cada palheiro;
E de vinte annos a cá
Não vi gaita, nem gaiteiro.
A cada porta um terreiro,
Cada aldeia dez folias.
Cada casa atabaqueiro;
E agora Jeremias
He nosso tamborileiro.

Isto descobre Gil Vicente na tragi-comedia do Triumpho do Inverno, representada em Lisboa no{[xxv]} parto da rainha Dona Catherina. Gil Vicente foi o primeiro que sentiu o tremendo cataclysmo que ameaçava este povo; elle não se cansou de clamar em todos os seus Autos, de desmascarar o inimigo. Mas os presentimentos d'aquella grande alma não tiveram mais valor do que as facecias de um jogral.

A influencia jesuitica fez-se notar pela proscripção da poesia popular no Brazil. O padre José Anchieta compoz o Auto da Pregação Universal, para expungir do templo os Autos populares.[26]

Na vida do padre Simão de Vasconcellos, diz o padre Anchieta, falando das crianças selvagens que educavam: «Espalhavam-se á noite pelas casas de seus parentes a cantar as cantigas pias de José (Anchieta) em propria lingua, contrapostas ás que elles costumavam cantar vãs e gentilicas.»[27]

Da poesia popular do Brazil nos seculos XVI e XVII, diz Varnhagem: «Das modinhas poucas conhecemos; e essas insignificantes e de epoca incerta, a não ser a bahiana:

Bangué, que será de ti?

glosada por Gregorio de Matos: essa mesma sabemos ser antiga, mas não nos foi possivel alcançal-a completa. Não deixaremos de commemorar a do Vitú, que crêmos ter o sabor do primeiro seculo da colonisação, o que parece comprovar-se com ser em todas as provincias do Brazil tão conhecida. Diz assim:

«Vem cá, Vitú! Vem cá, Vitú!
—Não vou lá, não vou lá, não vou lá—:{[xxvj]}
«Que é d'elle o teu camarada?
—Agua do monte o levou.
«Não foi agua, não foi nada,
Foi cachaça que o matou.

Igualmente antiga nos parece esta modinha paulista:

Mandei fazer um balaio
Para botar algodão.[28]

Os livros populares da Allemanha foram publicados no bello trabalho de Göerres (Volksbucher.) Entre nós nunca se recolheram as formulas symbolicas das jurandas, mas é certo que existiam, como se descobre pelo regimento dos officios na procissão de Corpus. (Extrahil-o de J. P. Ribeiro.) Os livros populares portuguezes são quasi todos de origem estrangeira; o Bertholdo e Bertholdino, de origem italiana, são para o Meio Dia o mesmo que o Eulenspiegel para os camponios allemães. A Reforma restringiu a litteratura popular da Allemanha; no Meio Dia baniu a poesia, amaldiçoôu a cantiga do pobre. Basta abrirmos as Constituições dos Bispados, o Index do Santo Officio, para vêrmos como o catholicismo se debateu em tudo contra o receio da emancipação canonica. A novella de Roberto do Diabo acha-se condemnada no Index Expurgatorio de 1580, bem como a maior parte das comedias dos auctores mais populares, como Gil Vicente e Balthazar Dias, e assim os romances que andavam na tradição da Peninsula, como o do Mouro Calaynos e todos os tirados da letra da Escriptura. O odio do catholicismo ao movimento espontaneo da Reforma creou a perseguição dos Lollards, e tornou estes povos da Peninsula{[xxvij]} sombrios, melancholicos, desconfiados; matou-lhes a poesia, embruteceu-os. Os cantos populares da Peninsula, que o povo repete hoje fragmentados, são todos dos fins do seculo XV. Que seiva de genio n'esse tempo! que differença de sentimento! Comparem-se os romances de Fonte frida e Rosa fresca, de Mora Moraina com as contrafações do gosto popular das eclogas e mesmo dos romances do seculo XVII!

A arte é como a consciencia pura; uma leve falsidade a perturba, e a obriga a trahir-se. O Concilio de Trento imprimiu unidade á Egreja, mas tirou-lhe a espontaneidade do sentimento, que a tinha tornado universal. Christo ficou desthronado pelo Papa.

Os livros populares portuguezes de folha volante, que se vendiam pelas feiras, na arqueta do belfurinheiro, ou no barbante do cego, foram tambem condemnados pelos meticulosos da censura inquisitorial: «Os vendedores de Autos e Cartilhas, não vendam, nem comprem para vender, outros livros sem primeiro os mostrarem ao Revedor: porque algumas pessoas escondidamente tem alguns livros, que elles compram e vendem, sem saber o que ha nos taes livros, e se seguem d'isso inconvenientes: e ha enformação, que nas taes tendas, se acham livros suspectos e perjudiciaes. E os sollicitadores do Santo Officio visitarão algumas vezes os ditos logares e farão saber ao Revedor, os livros que ali se vendem. O mesmo se fará dos livros que se vendem nas feiras[29]

Quando Garcia de Resende, na Miscellanea, fala das varias dansas que se usaram nas cortes de D.{[xxviij]} Affonso V e D. João II, é já como de uma cousa que passára de moda, como reprovada:

Vimos grandes judarias,
Judeos, guinolas e touras,
tambem mouras, mourarias,
seus bailes, galantarias
de muitas fermozas mouras
sempre nas festas reaes
s'eram os dias principaes
festa de mouros avia;
tambem festa se fazia
que non podia ser mais.

Vimos costume bem cham
nos reys ter esta maneira
corpo de Deos, Sam Joam
aver canas, procissam,
aos domingos carreira,
cavalgar pela cidade
com muyta solennidade,
ver correr, saltar, luctar,
dançar, caçar, montear
em seus tempos e hidade.

Como não seriam engraçadas essas danças judengas e mouriscas, das quaes diz um poeta do Cancioneiro geral de 1516:

Doçe baylo da Mourisca
mil sentidos faz perder,
e la mete huma lal trisca
que é muy má de guarecer.[30]

Esses jogos que se usavam na corte de Affonso V e Dom João II, que o Coudel Mór tanto recommendava a seu sobrinho Garcia de Mello de Serpa para saber tratar no paço, foram banidos mais tarde pela influencia monastica, ficando os serões da corte uma cousa sorumbatica, como d'isso se queixa o bom Sá de Miranda. Eis os jogos e passatempos que Fernão da Silveira ennumera:

Item manha de louvar
he jugar bem o «malham,»{[xxix]}
e o «jogo do piam»
favor se lhe deve dar.
Nem sey porque mays vos gabe
ser gram pescador de «vasa;»
mas «jogar a abadalassa»
em qualquer galante cabe.

Saber bem a «pega-chuna,»
e o «cubre bem jugar,»
sam duas para medrar
galante contra fortuna.
Nem saberia a hum fylho
escolher mylhor conselho,
se nam que jogo-o «fytelho,»
«jaldeta, cunca, sarilho.»[31]

Estes jogos passaram da corte para o povo; o mesmo succedeu com as antigas festas do Espirito-Santo. Costa e Silva diz dos jogos que apontámos: «sam propriedade exclusiva dos garotos, dos rapazes e dos frequentadores das tabernas e das hortas de Chelas e de Arroios.»

Camões na comedia de Philodemo, em uma rubrica, cita varios instrumentos musicos das serenadas: «N'este passo se dá a musica com todos quatro, um tange guitarra, outro pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas...»[32]

Dos instrumentos musicos usados no seculo XVII, fala D. Francisco Manoel de Mello, no Fidalgo Aprendiz:

MESTRE. Ha em casa algum «laúde?»
AFFONSO. Não ha mais que um «birimbao.»
MESTRE. «Violas?»
AFFONSO. Sim, achareis
Na botica.
MESTRE. «Arpa?»
AFFONSO. De couro.
MESTRE. Nem um «sestro?»
AFFONSO. Um sestro agouro.
MESTRE. Nem sequer dois «cascaveis?»{[xxx]}

N'esta comedia allude tambem ás danças então usadas:

GIL. Pois Mestre, que mais sabeis?
MESTRE. Uma «Alta,» um «Pé de xibao,»
«Galharda, Pavana rica,»
E nestas novas mudanças;
GIL. Tende que isso não são dansas
Se não cousas de botica.
Sabeís o «Sapateado?»
O «Terollero?» o «Villão?»
O «Mochachim?»
MESTRE. Senhor, não.
GIL. Pois sois Mestre mui minguado.[33]

Além da eschola italiana e do Santo Officio, as influencias da corte tambem combateram a poesia popular portugueza. No tempo de Dom Manoel os romances hespanhoes eram de preferencia estimados em Portugal; Damião de Goes queixa-se da importancia que os chocarreiros castelhanos gosavam na corte portugueza. El-rei queria aliviar as saudades da filha de Fernando e Isabel com os cantares da sua patria. A letra castelhana era só ouvida, como diz D. Francisco Manoel; os ouvidos portuguezes estavam aforados por essas trovas, como os accusa Jorge Ferreira. Os belfurinheiros portuguezes, que iam ás cidades de Hespanha vender os productos do Oriente, tambem traziam de lá boa copia d'esses romances. Assim, ao cultismo da eschola italiana, á pressão do Santo Officio depois da Reforma, accresceu mais esta causa que não deixou florir o romance popular portuguez, e lhe imprimiu feições que lhe não eram naturaes.

No Romancero Generale, vem um romance cujo heroe é um apaixonado portuguez victima de uma intriga amorosa; por elle se descobrem os nossos{[xxxj]} costumes antigos. No seculo XVI, os feirantes portuguezes iam levar pelas cidades de Hespanha os productos orientaes. Um d'esses, em um logar da Mancha, namorou uma mulher casada:

Alabábale su tiera,
Su nacion, su fidalguia,
Su musica, sus regalos,
Su espada en Africa limpia,
Prometiendole en efecto
Las especies de las Indias,
Los olores de Lisboa,
Y los barros de la China.

De uma vez foi tocar-lhe uma serenada, cantando-lhe em portuguez este romance do Cid:

—Afora, afora Rodrigo,
El soberbo castejano,
Acordar-se-te deveras
D'aquelle tempo já passado.
Quando te armei cavalleiro
No altar de Santiago:
Minha mãe te deu las armas,
Miño pae te deu el cabalo, etc.

Este romance tambem se encontra citado por Camões. Continuando a historia, o vendilhão entrou em casa da dama; dentro estava escondido o marido e alguns amigos que correram a pau o aventureiro galanteador. Esta classe de feirantes desappareceu quando perdemos as nossas conquistas. N'este mesmo romance se encontra um cantarcillo em portuguez, que desappareceu da tradição oral, e que talvez se refira ao tempo de D. João I:

Pois que Madanella
Remediou meu mal,
Viva Portugal
E morra Castella.
Seja amor testigo
De tamanho bem;
Não chegue ninguem
A zombar commigo.
Que a espada é rodela,
A forneira sal:
«Viva Portugal
«E morra Castella.{[xxxij]}

Se o Romanceiro hespanhol é mais extenso e antigo do que o portuguez deve-se isso á curiosidade dos livreiros de Saragoça, de Anvers, e de Sevilha, e não á esterilidade do genio do nosso povo. Se agrupassemos as innumeras allusões aos romances populares que se encontram nos quinhentistas, recomporíamos o Romanceiro portuguez e veriamos que não sômos menos ricos do que os nossos visinhos. Eis algumas citações passageiras, deixando de apontar muitas que ficaram já na Historia da poesia popular portugueza:

Quando o Conde de Marialva se queixou a Dom João III da affronta do Marquez de Torres Novas, que se declarou marido da filha Dona Guiomar, Frei Luiz de Sousa põe-lhe na bocca as seguintes palavras: «Não fizeram verdadeiramente mais affronta que esta os Infantes de Carrion ás filhas do Cid Ruy Dias, com quem eram casados. Porque se as deixaram no campo desamparadas, eram seus maridos; tomavam vingança de sy, e de sua honra propria, da qual podiam usar bem ou mal, como cada um faz do seu.»[34]

O poema de Alexandre, tão popular na Europa da edade media, tem origens orientaes; conheceram-nas em Portugal por influencia das nossas relações maritimas com o Oriente. Em uma carta que Luiz Falcão escreveu de Ormuz a D. João de Castro, em 1546, vem citada uma estorya de Allyxamdre: «Alleyxes de carualho me dixe da parte de vosa s. que lhe mãodase allyxamdre hem persyo: lla lho mãodo, haindaque has escreturas destes mouros, tenho-as por menos autemtes que has nosas. Nese llyvro vam houtras estoryas hafóra{[xxxiij]} has d'allyxamdre, has quays me parese que follguará mays com ellas etc.» A esta mesma historia allude uma carta de Garcia de la Penha: «Aleyxes carvalho pedio qua a el-rey e goazil hemires hum livro da ystoria dalyxamdre. Com muyto trabalho acharão hum, que lhe mandão.» Este livro, por outra allusão d'esta carta, se conhece que era novella ou tradição cavalheiresca: «Peço a vosa s. que ho livro, e a mim com ele, queyra aver por seus com aquela vomtade e desejo, que noso senhor sabe que lho eu ofreço, cujo estado he castidade, acompanhada de tantas virtudes, como dizem que está[35] A virtude da castidade era caracteristica dos heroes cavalheirescos, como se vê no Galaaz; os heroes eram quasi sempre parthenios ou filhos de virgens.

Camões nas suas obras allude a muitos romances cavalheirescos. Na Carta II,[36] vem o verso Afuera, afuera Rodrigo, que é o principio do romance XXVI do Romancero do Cid, da edição de Lisboa de 1605, (p. 42) que se intitula: De como se quexa Doña Urraca al Cid por la embaxada que trae del Rey Don Sancho. O verso:

Afuera, afuera Rodrigo

encontra-se em outros romances, como no XXV; e o verso:

El sobervio castellano,

que forma com o antecedente o estribilho popular, tambem se lê no V romance.{[xxxiv]}

Camões allude a outro romance do Cid na primeira Carta escripta da India, citando os dois versos:

Riberas de Duero arriba
Cavalgaran Çamoranos;[37]

Na Comedia de El rei Seleuco, cita o romance do Mouro Calaynos, prohibido pelo Index Expurgatorio de 1624, nos versos:

Ya cavalga Calaynos
A la sombra de una oliva.[38]

Nos Disparates da india cita os primeiros dois versos do romance do Cativo, tal como principia no Cancionero de Romances, de Anvers:

Mi padre era de Ronda,
Mi madre de l'Antequera, etc.[39]

Na Comedia de Philodemo, allude Camões ao romance de Bernardo del Carpio, nos versos:

Mi cama son duras peñas,
Mi dormir siempre es velar.
...........................
Su comer las carnes crudas,
Su bever la viva sangre.[40]{[xxxv]}

A romances e cantigas desconhecidas allude nos versos da comedia d'El-rei Seleuco:

Ouviste vós cantar já:
Velho malo em minha cama?

e n'esta passagem:

Dizei, porque não dissestes:
La que yo vi por mi mal.

No prologo d'esta mesma comedia Camões lembra uma cantiga desconhecida: «e tras ellas vem logo outo mundanos metidos em um covão, cantando:

Quem os amores tem em Cintra.»[41]

Bem como esta cantiga popular, de que se recorda:

Meu bem e meu mal
Lutaram um dia;
Meu bem era tal
Que o mal o vencia.

Camões glosou uma velha cantiga que começa:

De pequena tomei amor,[42]{[xxxvj]}

talvez a mesma a que allude Gil Vicente na Comedia de Rubena, que principia:

De pequena matais (tomais?) amor.

Todos estes factos revelam o profundo sentimento da alma popular que possuia Camões.

No tempo em que os romances da tradição oral foram glosados pelos poetas cultos, como o declara a Poetica de Rengifo,[43] em Portugal soffreram tambem egual modificação. Bernardim Ribeiro glosou o celebre romance de Durandarte, desde o verso:

Oh Belerma, oh Belerma.[44]

Na Chronica de Dom Sebastião, de Frei Bernardo da Cruz, vem citado o romance de Don Rodrigo:

Ayer fuiste rey de España;
Hoy no tienes um castillo.[45]

Os romances dos Sete Infantes de Lara acham-se citados por Gil Vicente nos versos iniciaes:

Em Paris está Dona Alda, etc.
Los hijos de Dona Sancha, etc,
Mal me quieren en Castilla, etc.{[xxxvij]}

bem como o celebre romance da Bella mal maridada, que no Cancioneiro geral de 1516 vem referido em uma trova de Nuno Pereira contra D. Leonor da Sylva. Assim como os romances hespanhoes eram conhecidos em Portugal, tambem muitos successos da historia portugueza foram romanceados pelos autores hespanhoes; ha porém cantigas populares castelhanas a successos particulares, como aquella canção que se refere aos amores de Dom Fernando I: «el rey Don Fernando de Portugal e la muger de Juan Lorenzo de Acuña, que este rey Don Fernando le tomó por amores que della ovo; é por esta se levantó la cancion que dice:

Ay, donas! porque tristura?

y por esta causa el dicho Juan Lorenzo traia unos cuernos de oro en la cabeça por estes reynos de Castilla; y el rey Don Fernando de Portugal casó con ella, fué llamada la reyna doña Isabel, que la deçian la flor de altura[46]

Dom Francisco Manoel de Mello, além de ter escripto varios romances mouriscos, cita os mais celebres, como o de Dragut:

Se ha dez annos que amarrado
Qual forçado de Dragut.[47]

No romance XXII da Citara de Erato, allude ao romance de Gaifeyros nos versos:

Perguntad allà en la Corte
Por la virtud, y os diran:
«Si is a Francia el cavallero
Por Gayfeiros perguntad.»[48]{[xxxviij]}

e ao romance do Mouro Zaide:

Trago a rojo lá do Minho
Mais prisões que um mouro Zaide.[49]

Mais loução que Don Reynaldos.[50]

Na Avena de Tersicore, traz uma parodia da Bella mal maridada:

Biudilha mal maridada, etc.[51]

Dom Francisco Manoel de Mello cultivou com predilecção a forma do romance tal como se usava no seculo XVII; no primeiro côro das suas Tres Musas de Melodino, imita os romances mourisco, usados pelos cultistas castelhanos. O romance de Aben-Humea começa:

Ya por la puerta de Elvira
Saliendo vá de Granada
Aben-Humea, el quexoso
De su rey, e de su dama.

Canta tambem o romance de Celidaja:

Texiendo está Celidaya,
La hermosa hija del Rey,
Zambras de sus bellas Moras
Una tarde en su vergel.

Traz tambem o romance de Ali-Aben, e de Xacen y Belaja. Não os transcrevemos na Floresta por serem todos em hespanhol. Na segunda jornada do Fidalgo Aprendiz, Dom Francisco Manoel de Mello faz-nos a historia do romance no seculo XVII, nas allusões da seguinte scena:{[xxxix]}

BRITES. Entoay por meu prazer
qualquer cousa.
GIL. Sem guitarra?
BRITES. Eylla tomay. (Dá-lhe uma viola, tange como quem quer cantar.)
GIL. (Pois que não posso al fazer.
BRITES. Ay que canta, e não escarra!)
GIL. Ora eylo vay:
(Canta Dom Gil o melhor que pode o que se segue:)
«Passeava-se Silvana
por um corredor um dia...»
BRITES. Ay Senhor? eu não queria
Senão letra castelhana.
GIL. Cantarey algaravia
se mandais, pois que quereis?
BRITES. Huma letra nova quero.
GIL. (Canta:)
«A cazar vá Cavallero...»
BRITES. Ay mãy! assinte o fazeis?
por isso eu me desespero.
GIL. Ora estay, que já entendo
quereis Romances trovados:
«Mis amorosos cuidados,
Como se estaran durmendo.»
BRITES. Isto foram meus peccados!
Vos cuido que estaes zombando.
Ora dizei.
GIL. Já me estanco:
«Gavião, gavião branco
Vae ferido e vae voando.»
BRITES. Huy pelo passar o manco
Sabeis alguma ao Divino?
GIL. Sey.
BRITES. Dizei.
GIL. Pois é formosa:
«Andorinha gloriosa.»
BRITES. Tendes cousas de menino.
GIL. Sou todo Amor, minha rosa.[52]

Bem se queixava Pedro de Flores, um dos editores do Romancero generale de 1594, e a perros se déra se visse como este malvado de Dom Gil Alcoforado estropiava os romances populares e os deixava incompletos:

«Y hize que de un discurso
Se visse principio y cabo,
Lo que el musico no haze,
Pues medio desbarado{[xl]}
Dexa un romance perdido
Deciendo que le da enfado:
Los quales conforme à la ley
Merecen ser desterrados
A las islas de Corfú
A cantar versos mosaycos
Y de tan alto auditorio
Uvieran de ser echados
Por quebrantadores de honras
De aquellos siglos dorados.»

Na citação de Dom Francisco Manoel de Mello está resumida a historia do romance; confirma-o Pedro de Flores. O Fidalgo Aprendiz é uma formosa comedia de costumes, pelo gosto da velha eschola de Gil Vicente; é uma satyra aos parvenus do seculo XVII. Eis o caso: Dom Gil Cogominho é o nome de

um escudeiro
Enfronhado em Cavalleiro
Morto por ser namorado,
Contrabaxo e trovador
Cavalleiro, dançador:
Emfim Fidalgo acabado,
Valentão e caçador.[53]

Affonso Mendes, seu ayo, vestido á portugueza antiga, tem uma comadre:

Mulher para muita aquella,
Anda armando-lhe esparrella
Com uma filha bonitinha,
Que eu fico que caia nella.

É pois n'uma d'estas situações, quando Dom Gil Cogominho vae conversar de noite com Brites, filha da tal comadre Isabel, que se passa a scena que transcrevêmos. Brites pergunta-lhe se elle é poeta, se canta, que voz tem? Depois pede-lhe que cante qualquer cousa. O Fidalgo escusa-se{[xlj]} por não ter guitarra. N'este tempo os romances, que iam tomando forma culta, eram sempre cantados a instrumento. Muitos dos romances populares do seculo XVI, já então considerados velhos, foram postos em musica e publicados por Milan, Pisador, Valderrabano, Fuenllana, Mudarra e Salinas. A Dom João III, em 1535, offereceu Luiz de Milan um Libro de Musica, em que vinham notados em musica: Mis arreos son las armas etc., Sospiraste etc. e Baldovinos.

Jorge Ferreira, nos romances que traz no Memorial das Proezas dos Cavalleiros da Tavola Redonda, accrescenta sempre a rubrica: «Cantavam a violas de arco e doçayna mui concertadamente o romance, que eram os cantos que então mais se usavam[54] Isto era assim ainda no tempo de Dom Sebastião, porque o Fidalgo dá-se como contemporaneo do monarcha:

Sey o açougue no Rocio,
Os Estaus na Inquisição,
Vi el-Rey Dom Sebastião.

Dom Gil Cogominho a final, a instancias de Brites, venceu a repugnancia e começa a cantar o velho e popularissimo romance da Dona Silvana, que a rapariga já não quer ouvir, talvez para mostrar que não é de baixa extração. Pede-lhe porém que cante letra castelhana. De facto, depois do casamento de el-rei Dom Manoel com a filha de Fernando e Isabel, o romance popular começou a cantar-se em hespanhol. Gil Vicente compoz os seus mais bellos n'essa lingua. Damião de Goes queixa-se da importancia que tinham na corte os{[xlij]} chocarreiros de Castella;[55] e Jorge Ferreira diz que as trovas castelhanas se tem aforado comnosco e tomado posse do nosso ouvido.[56] O gosto dos romances na corte era uma imitação dos usos hespanhoes, do que diz o citado Jorge Ferreira, fallando dos romances: « o que em Hespanha se usou muito, e usar-se agora para estimulo de imitação não fora máo[57] Continuemos na exposição da comedia: Brites era quesilenta e recusa-se a ouvir o romance de Sylvana, a que o Fidalgo chama cantar algaravia. Pede letra castellana, e Cogominho começa-lhe a cantar o vetustissimo romance da Infantina, que começa:

A caçar vá el cavallero.[58]

A travessa rapariga continua a enfrenesiar-se; o Fidalgo procura agradar-lhe, dá-se a tratos para adivinhar-lhe o desejo. Pergunta se ella quer romances trovados? Que seriam estes romances trovados? Rengifo, na Poetica española, diz que não havia muito tempo que os poetas tinham começado a glosar romances velhos, metendo cada dois versos na segunda das redondilhas. Esta transformação foi recebida agradavelmente pela sociedade elegante do seculo XVII.[59]

Nos poetas portuguezes de quinhentos encontramos signaes d'estas transformações. Sá de Miranda allude á Bella mal maridada,[60] em duas voltas ou{[xliij]} glosas; Gil Vicente cita muitas vezes este romance celebre da tradição oral:

Cantarle han por alvorada
«La bella mal maridada
Mal goso viste de ti.[61]

D'este romance centenas de vezes glosado, e parodiado por D. Francisco Manoel de Mello na Avena de Tersicore[62], canta Gregorio Silvestre a sorte desditosa nas mãos dos poetas:

O Bella mal maridada,
A que manos has venido!
Mal casada e mal «glosada»
De los poetas tratada
Peor que de tu marido:
Si ello va por mas errar
Y a vós os agrada assi,
Ventaja hago yo aqui:
Assi que por mal glosar.
Vida no dejeis a mi.[63]

Gregorio Silvestre falava contra os poetas cultos, que procuravam introduzir na Peninsula a eschola italiana. A forma poetica que apontamos era o que Dom Francisco Manoel chamava o romance trovado. Quando Brites pediu um d'este genero a Dom Gil, elle não atinou e deu-lhe umas coplas no gosto poetico da corte de Dom João II; depois canta a seguidilha do Gavião branco; afinal Brites pergunta-lhe se elle sabe alguma trova ao divino. Esta é tambem uma transformação do romance anonymo. Quando Lope de Vega começou a introduzir uma fórma litteraria no romance, poz em verso quasi todos os passos da Paixão. Este genero pertence aos romances sacros. Sepulveda, nos Romances sacados de varias historias, tambem{[xliv]} descreve a Paixão; com esta tendencia se iam romanceando quasi todas as scenas da Escriptura. O grande uso e predilecção do genero sacro se nota pela prohibição expressa que d'elle faz o Index expurgatorio de 1624: prohibe o romance que começa:

Com rabia está el Rey David.

«E todos os mais Romances ou contos tirados do Testamento Velho, ou Novo ao pé da letra.»—Prohibe mais: «Romances sacados da letra del Evangelio. El primeiro La ressurreiçon de Lazaro.—El segundo El juizio de Salomão[64] A celebre xacara de Quevedo, conhecida com o titulo de Escarraman, tambem andava convertida ao divino.{[xlv]}

Eis até aqui os factos que se deduzem da scena extractada do Fidalgo Aprendiz. Dom Francisco Manoel de Mello não allude ao exagerado gosto dos romances mouriscos, que prevaleceu no seculo XVII, se é que não significa isso a phrase—cantar algaravia. Outra transformação do romance popular foi a nova forma poetica, a que se chamou Xacara, antiga composição popular que Don Francisco de Quevedo tanto vulgarisou, e que o nosso Dom Francisco Manoel imitou tambem.

O gosto popular no seculo XVII soffreu uma grande transformação; os romances iam passando de moda. Diz Quevedo:

Ya passó Dona Ximena,
Y fallecio Lain Calvo.[65]

E do velho romance do Conde Claros diz:

El Conde Claros, que fue
Titulo de las guitarras
Se quedó en las barberias
Com chaconas de la galla.[66]

O velho romance do Conde Claros, recolhido da tradição para o Cancionero de Anvers, estava já banido; uma transformação profunda se operava no gosto publico. Os romances mouriscos occupavam a attenção e o enthuziasmo. «O espirito da moda influiu muito na voga que tiveram, e na cansada monotonia que impoz a muitos a necessidade de os repetir para accomodar-se ao gosto publico e fastio da epoca.»[67] Fernando Wolf é de opinião que estes romances não têm o caracter arabe, e o{[xlvj]} proprio assumpto que celebram revela a sua origem moderna. Mas é impossivel desconhecer a existencia de uma poesia da raça mosarabe, producto da fusão do baixo povo godo com os arabes invasores. Assim como hoje se vê que d'esta transformação social saíu um direito novo, os Foraes,[68] longo tempo atribuidos a origem romana, qual seria a poesia d'essas relações intimas, cantada na lingua, que o baixo povo chamava de Aravias? Sobre esta poesia pesou o mesmo desprezo, que o Marquez de Santillana descarregou sobre os velhos romances vulgares; mas no Cancionero generale de Hernando de Castillo se descobre um apagado vestigio do romance mosarabe, em que se vê o retrato da coexistencia dos dois povos: é o romance da Mora Moraina, a cuja porta vêm um christão falar-lhe algaravias, para a enganar. Este romance ainda se encontra na tradição oral dos Açores e Beira, transformado segundo os usos da sociedade moderna.[69] O povo arabe teve uma poesia vulgar, sem o tom lyrico e artificial dos poetas cultos. O Arcipreste de Hita fala dos «instrumentos en que convienen los cantares de arabico, e cita um velho cantar que principia: Caguil hallaco. Diz mais: arabigo no quiere biuela d'arco.[70] Argote y de Molina, o mais atilado critico dos velhos escriptores hespanhoes, como o qualifica Ticknor, fala das zambras arabes, com que se celebravam os feitos publicos.[71] N'este periodo o romance mosarabe é commum a Portugal e Hespanha; a sua vulgarisação, segundo Duran, data do seculo XIV.

Porém quando os arabes começam a abandonar{[xlvij]} o territorio da Peninsula, as saudades d'este paiz encantador e a vergonha da derrota inspira-lhes os cantares da despedida. N'este momento os chamados romances mouriscos, tem um nascimento espontaneo, sem artificio. Em 1575, Argote y de Molina fala d'esses «cantares lastimeros, que oimos cantar a los Moriscos del Reyno de Granada, sobre la perdida de su tierra a manera de endexas...» E cita o cantar:

Alhambra amorosa, lloran tus castillos
o Muley Vuabdeli, que se ven perdidos
dadme mi cavallo, y my blanca adarga
para pelear, y ganar la Alhambra.
Dadme mi cavallo, y mi adarga açul
para pelear, y librar mis hijos:
Guadix tiene mis hijos, Gibraltar mi muger
senora Mafalta, hezisteme perder
en Guadix mis hijos, y yo en Gibraltar
senora Mafalta, hezisteme errar.[72]

Além de muitos outros documentos que provam a existencia de uma poesia popular, entre os arabes da Hespanha, ainda modernamente se ouvem cantares allusivos a Cordova e Granada, repetidos pelo povo em Tanger, Tetuão, Arzilla e em outros pontos do norte da Africa.[73]

É da imitação d'estes cantares, que datam os romances granadinos dos poetas cultos. Depois da conquista de Granada, os arabes que acceitaram o jugo de Fernando e Isabel, continuaram os seus queixumes; aquelles cantos tinham um accento novo, um colorido exagerado, uma paixão de arrebatamento. Assim seduziram a imaginação dos poetas; alguns desses cantos chegaram a entrar na corrente da tradição oral, como este recolhido na Serrania de Ronda:{[xlviij]}

Por las puertas de Celinda
Galan se passea Zaide,
Aguardando que sáliera
Celindo para hablalle.[74]

O fervor dos romances mouriscos cultos data do fim seculo XVI a XVII; são como uma recordação gloriosa dos triumphos dos filhos de Hespanha; já não tem a quem combater, criam phantasmas na imaginação, com que se distraem. É esta a opinião do sabio Duran, quando diz: «Logo que os nossos cavalleiros e poetas viram o paiz livre de seus contrarios para de logo se apoderaram das recordações que tinham deixado, de modo que ao ler os cantos d'aquelle tempo todos creriam que os mouros ainda occupavam a Hespanha.»—«De facto antes da conquista de Granada, e talvez alguns annos depois, se acham poucos romances mouriscos novellescos, que tenham vestigios sensiveis da poesia arabe.»[75] Os romances mouriscos tem poucas referencias a personagens historicos; umas vezes é um mouro, Galvan, que tem uma cativa christan, Mariana, com quem está jogando no seu jardim, e a cada jogo que perde, perde um castello ou cidade; o mouro Bucar resolve questões de amor; as aventuras e odios dos Zegries e Abencerrages, dos Gomeles e dos Aliatares, são o thema constante, bordado pela imaginação hespanhola. Cada personagem ideal forma um cyclo de aventuras, como Zaide, Abenumeya, Tarfe, Abindarraez, Zegri, Zulema, Azargue, Arbolan, e isto milhões de vezes romanceado até ao fastio e em formas já convencionaes, como a do verso:

Mira Zaide que te aviso.{[xlix]}

Por seu turno veiu a reacção contra o gosto dos romances mouriscos; começou-se por parodias burlescas. No Romancero general de Flores, já apparecem algumas amargas censuras contra a mania dos nomes mouriscos:

Tanta Zaida y Adalifa,
Tanta Draguta e Daraja,
Tanto Azarque e tanto Adulce,
Tanto Gazul e Abenámar.
......................
Renegaron de su ley
Los romancistas de España
Y offerecieron a Mahoma
Las primicias de sus gracias.
Dejaron los graves hechos
De su vencedora patria,
Y mendigan de la agena
Invenciones e patrañas.
Los Ordoños, los Bermudos
Las Rasuras y Mudarras,
Los Alfonsos, los Euricos,
Los Sanchos y los de Lara,
Que es de ellos? y que es del Cid?
Tanto olvido á gloria tanta.

Gongora tambem fez romances mouriscos, principalmente do cyclo turquesco, mas de um gosto bello e admiravel; cedo veiu a conhecer o enfado que já causavam os poetas granadinos, e elle proprio os ridicularisou em um romance. Os romances d'este genero, compostos por Dom Francisco Manoel de Mello e por Francisco Rodrigues Lobo, não appresentam o minimo merecimento; são em hespanhol, em um estylo cansado, e sem o esplendor da paixão oriental que os poetas hespanhoes imprimiram ás suas contrafações. Não vale apresentar especimen de composições taes; apenas servem para mostrar que o contagio litterario tambem chegou até Portugal. Do meado do seculo XVII por diante, os romances mouriscos perderam-se em um subjectivismo e requinte que lhes tirou o caracter. Foi então quando os romances{[l]} se tornaram pastorís, sendo os heroes arabes substituidos pelos Belardos, Filis, e pelas aventuras dos rufiões dos beccos, ou xaques. A xacara era o nome dado aos romances que celebravam esses feitos dos meliantes; os nossos Fados populares podem-se considerar como restos das xacarandinas do seculo XVII, a que D. Francisco de Quevedo imprimiu uma forma litteraria.[76]

Do que fosse este genero de poesia, procura o commentador na propria palavra xacara: «Y si bien à la primera noticia, que de si prometen con el nombre, parece peligra la estimacion.» Da linguagem formada pela gentalha, vadios, rufiões, goliardos e maninellos, que se chama giria, e em hespanhol geringonça ou linguagem particular dos Ciganos, e jargon no francez, e tambem germania, se formou esta especie de poesia. Os mesmos vadios se chamam entre si xaques: «Pero como quiera que elo fuese, denominacion dieron infallible à las xacaras ò xacarandinas aquellos xaques mismos? y con legitima razon, pues de sus acontecimientos y penalidades continuas son annales las relaciones que ali se repiten: y nuestro Poeta (Quevedo) historiador suyo, ò verdadero, ò fingido, singularmente de adequado spiritu.»[77] Á vista d'esta simples noticia e da leitura de Quevedo, é facil de ver em que a xacara consistia: eram as aventuras dos goliardos, a forma antiga do Fado, uma historia longa das suas falcatruas. Na xacara de Escarraman, ha cartas entre Escarraman e Mendez, cartas entre Peralta e Lampuga. D'onde veiu D. Francisco Manoel dizer: «Começaram um dialogo{[lj]} á maneira de xacara,» isto é, na linguagem girianta em que os xaques faziam as relações de seus desastres e aventuras divertidas, que era na xacarandina. A xacara, como quasi toda a poesia popular, era acompanhada de musica.

Do meiado do seculo XVI por diante começaram os romances populares a receber uma forma artistica, a tornarem-se descriptivos e lyricos. Fuentes, Timoneda, Sepulveda, Lasso de la Vega os foram tornando subjectivos. As xacaras populares receberam tambem de Quevedo esta mesma influencia artistica, que se resentiu em Portugal, por isso que o Index Expurgatorio de 1624 prohibe a leitura do romance de Escarraman, e de todos os que sobre elle se fizeram. Dom Francisco Manuel de Mello imitou o gosto das xacaras nos seus romances entretenidos. Alguem teve a ridicula lembrança de dar á xacara uma origem mourisca. Em que se fundariam para tal? Talvez no radical xaque, que quer dizer traidor. A xacara á força de exagerar o natural tornava-se grosseira; o metro seguia uma tendencia artificiosa que lhe tirava a vulgarisação popular.

Nos fins do seculo XVII a mania dos romances continuava; os frades escreviam-nos pelos mosteiros sobre assumptos pastorís; outros de longe em longe se lembravam do Cid e de Durandarte. Assim o diz um poeta coevo, Antonio Peixoto de Magalhães:

Algum sem que descanse
Faz ás barbas do «Cid» logo um romance,
Outro grave e queto
Compõe a «Durandate» algum soneto.

Em Hespanha o romance tinha perdido o caracter narrativo, absolutamente popular, tornando-se descriptivo ou litterario, até se fundir em{[lij]} um subjectivismo que o desnaturava. Em Portugal o povo continuou na sua obscuridade, como dantes, mas o romance seguiu exactamente as mesmas transformações que em Hespanha. Por este tempo Francisco Lopes, livreiro de Lisboa, romanceava, á imitação do Santo Isidro de Lope de Vega, a vida do popular Santo Antonio e dos Cinco Martyres de Marrocos; servia a causa da liberdade na revolução de 1640 com as suas folhas volantes em verso, popularisando as victorias contra as armas de Castella. Propriamente a designação de romance servia para qualquer composição fastienta feita a proposito de circumstancias ridiculas, em metro octosyllabo, em assonancias. O uso da lingua hespanhola era immoderado. Como composição d'este genero podem-se vêr os romances de Frei Antonio das Chagas, quando tinha no seculo o nome de Antonio da Fonseca Soares. Na vida ociosa dos claustros, os frades enchiam as suas horas com estas composições, mais insipidas do que as allegorias do paiz de Tendre. O Bispo do Grão Pará, nas suas Memorias verbera este costume. As glosas, que se haviam apoderado dos romances, começaram a applicar-se aos Outeiros freiraticos; nos palratorios se fazia o maior consummo dos romances. Quando Frei Antonio das Chagas entrou para os Bentos, aonde estava o seu amigo e confrade em Apollo Frei Antonio Vahia, foi achar lá dentro numerosas copias dos seus romances de galanterias; quando no enthuziasmo religioso as quiz rasgar, «gracejaram com elle e meteram-no á bulha.» O melhor do tempo passava-se em palestras com freiras, do que diz o severo Bispo do Grão Pará: «Eram moços, e muita a liberdade das grades d'aquelle miseravel tempo.» As subtilesas amorosas descambavam por vezes{[liij]} na obscenidade; o gosto do tempo não sabia discriminar os assumptos, e adequava a mesma linguagem aos usos divinos e humanos. Quando Frei João de Sam José fez a visita ao seu bispado, entrando pelo Aracá, em uma capella ouviu uma missa no fim da qual quatro indios e mamelucos com suas vozes bem ajustadas cantaram «varias cantatas devotas e de edificação, sobre o que lhe fizemos uma pequena pratica em louvor do canto honesto e ao mesmo tempo invectiva contra o lascivo das sarabandas e modas do tempo.» O Bispo do Grão Pará é uma especie de Saint-Simon do nosso seculo XVIII.

A poesia popular á medida que ía caíndo no gosto dos cultistas, emancipava-se de novo, pela falta de espontaneidade dos que a queriam imitar. Podemos dizer que a poesia popular portugueza ficou absolutamente desconhecida até á incompleta, mas brilhante tentativa de Garrett; em Hespanha os vendedores das folhas volantes, romanceando os successos do tempo, continuavam obscuramente o trabalho dos Najeras, dos Nucios, dos Flores, dos Tortejadas; entre nós o povo parecia mudo, sem canto. Que symptoma mais franco de decadencia! Quando os nossos poetas quizeram imitar o que na Allemanha faziam Uhland e Bürger, trovavando os seus poemas sobre as tradições nacionaes, mostraram-se a nú, mediocres e sem alma. É vêr essa infinidade de solaos, xacaras de accalentar netos, balladas, e outros prenuncios do ultra-romantismo em Portugal, que se cansou de andar a tombos com uma edade media de papelão. Para que ennumerar aqui nomes odiosos, de falsos sacerdotes da arte? A poesia do povo precisa de uma extraordinaria boa-fé para ser entendida.{[liv]}

{[1]}

ROMANCES

COM FORMA LITTERARIA

DO

SECULO XVI A XVIII


ALVARO DE BRITO

Trouas á morte do principe D. Affonso filho de D. João 2.º

Morto he o bem d'Espanha,
nosso principe rreal,
chora, chora Portugal,
choremos perda tamanha!
E carpindo lamentemos
dous em huum triste responso,
rrey & prinçepe choremos
dom Affonso, dom Affonso!
Ho que morte tam estranha,
ho que nojo, ho que mal!
chore, chore Portuguall,
choremos perda tamanha!{[2]}
Ho que queeda tam sanhosa
pera chorar & carpir,
ho que queeda tam danosa
que nos fez todos cayr!
Ho quanta nobre companha
Sente tristeza mortall!
chora, chora Portugall
choremos perda tamanha!
Choremos, que tal cayda
por nossos grandes pecados
nos leyxa desemparados,
mata toda nossa vyda.
Que pesar nos acompanha,
que nunca foi visto tall;
he perdido Portugual,
choremos perda tamanha!
Choremos huum jnoçente,
huma santa creatura,
que por nossa desventura
morreo tam supitamente.
Ho que mall, que nojo, sanha,
que desemparo mortall
nota todo Portugual,
choremos perda tamanha!
Morreo nossa defensam,
& morreo nossa liança,
morreo nossa esperança
de nom vyr a ssogeyçam.
Asy nos desacompanha
nosso senhor natural;
o senhor çelestrial
o rreçeba em sa companha!

Cancioneiro Geral de 1516, t. I, p. 221.
Edição de Stuttgart.{[3]}


GARCIA DE RESENDE

Trovas á maneira de romance feitas á morte de Dona Inez de Castro.

Eu era moça menina,
per nome dona Ynes
de Crasto, & de tal doutrina
& vertudes, qu'era dina
de meu mal ser ho rreves.
Uiuia, sem me lembrar
que paixam podia dar,
nem da-la ninguem a mym,
foy m'o prinçepe olhar
por seu nojo & minha fym.
Começou m'a desejar,
trabalhou por me seruir,
fortuna foy ordenar,
dous corações conformar
a huma vontade vyr.
Conheçeo-me, conheçi-o,
quys-me bem & eu a ele,
perdeo-me, tambem perdi-o,
nunca tee morte foy frio
o bem que triste pus nele.
Dey-lhe minha liberdade,
nam senty perda de fama,
pus nele minha verdade,
quys fazer sua vontade
sendo muy fremosa dama.{[4]}
Por m'estas obras paguar
nunca ja mais quys casar,
polo qual aconsselhado
foy el rrey, qu'era forçado
polo seu de me matar.
Estaua muy acatada,
como princesa seruida,
em meus paços muy honrrada,
de tudo muy abastada,
de meu senhor muy querida.
Estando muy de vaguar,
bem fora de tal cuidar,
em Coymbra d'aseseguo,
polos campos de Mondeguo
caualeyros vy somar.
Como as cousas qu'am de ser,
loguo dam no coraçam,
começey entrestiçer
& comiguo soo dizer:
estes omẽes d'onde yram?
E tanto que preguntey,
soube logo que era el rrey,
quando o vy tam apressado,
foy, que nunca mays faley.
E quando vy que deçia,
sahy ha porta da sala,
deuinhando o que queria,
com gram choro & cortesya
lhe fiz huma triste fala.
Meus filhos pus derredor
de mym com gram omildade,
muy cortada de temor,
lhe disse: avey, senhor,
desta triste piadade.
Nam possa mais a paixam
que o que deueys fazer,{[5]}
metey nysso bem a mam:
que'e de fraco coraçam
sem porque matar molher.
Quando mays a mym, que dam
culpa, nam sendo rrezam,
por ser mãy dos ynoçentes
qu'ante vos estam presentes,
os quaes vossos netos sam.
E tem tam pouca ydade
que, se não forem criados
de mym, soo com saudade
& sua gram orfyndade
morreram desemparados.
Olhe bem quanta crueza
faraa nisto voss'alteza,
& tambem, senhor, olhay,
pois do prinçepe sois pay,
nam lhe deis tanta tristeza.
Lembre-uos o grand'amor
que me uosso filho tem,
e que sentiraa gram dor
morrer-lhe tal seruidor,
por lhe querer grande bem.
Que s'algum erro fizera,
fora bem que padeçera,
& qu'estes filhos ficaram
orfaãos tristes, & buscaram
quem d'eles paixam ouuera.
Mas poys eu nunca errey
& sempre mereçy mais,
deueys, poderoso rrey,
nam quebrantar vossa ley,
que, se moyro, quebrantays.
Usay mays de piadade
que de rrigor, nem vontade:
avey doo, senhor, de mym,{[6]}
nam me deys tam triste fim,
pois que nunca fiz maldade.
El rrey, vendo como estaua,
ouue de mym compaixam
& vyo o, que nam oulhaua,
qu'eu a ele nam erraua,
nem fizera traiçam.
E vendo, quam de verdade
tive amor & lealdade
hoo prinçepe, cuja sam,
pode mais a piadade
que a determinaçam,
Que se n'ele defendera,
c'a sseu filho nam amasse
& lh'eu nam obedeçera,
entam com rrezam podera
dar-m'a moorte c'ordenasse.
Mas vendo que nenhum'ora,
desque naçy ategora,
nunca nisso me falou,
quando sse d'isto lembrou,
foy-se pola porta fora.
Com sseu rrosto lagrimoso,
c'o proposito mudado,
muyto triste, muy cuidoso,
como rrey muy piadoso,
muy Cristam & esforçado.
Hum daqueles que trazia
conssiguo na companhya,
caualeyro desalmado,
de tras d'ele, muy yrado,
estas palauras dezia:
Senhor vossa piadade
he dina de rreprender,
pois que sem necessidade
mudaram vossa vontade{[7]}
lagrimas d'uma molher.
E quereys c'abarreguado
com filhos, como casado,
estê senhor vosso filho;
de vos mais me marauilho
que d'ele, que'e namorado.
Se a loguo nam matais,
não sereis nunca temido,
nem faram o que mandays,
poys tam çedo vos mandays
do consselho qu'era avido.
Olhay, quam justa querela
tendes, pois por amor d'ela
vosso filho quer estar
sem casar, & nos quer dar
muyta guerra com Castela.
Com sua morte escusareis
muytas mortes, muytos danos,
vos, senhor, descanssareis,
& a vos & a nos dareis
paz para duzentos anos.
O prinçepe casaraa,
filhos de bençam teraa
seraa fora de pecado;
c'aguora seja anojado,
a menham lh'esqueeçeraa.
E ouuyndo seu dizer,
el rrey ficou muy toruado,
por se em tais estremos ver,
& que avya de fazer
ou hum ou outro, forçado.
Desejaua dar-me vida,
por lhe nam ter mereçida
a morte, nem nenhum mal:
sentya pena mortal
por ter feyto tal partida.{[8]}
E vendo que se lhe daua
a ele tod'esta culpa,
& que tanto o apertaua,
disse a aquele que bradaua:
mynha tençam me desculpa.
Se o vos quereis fazer,
fazey-o sem m'o dizer;
qu'eu nisso nam mando nada,
nem vejo ha essa coytada
porque deva de morrer,
Dous caualeyros yrosos,
que tais palauras lh'ouvyram,
muy crus & nam piadosos,
perverssos, desamorosos,
contra mym rrijo se vyram.
Com as espadas na mam
m'atrauessam o coraçam,
a confissam me tolheram:
este he o gualardam,
que meus amores me deram.

Cancioneiro Geral, t. III, p. 617.


FRANCISCO DE SOUSA

Trovas a este vilancete:

Abayx'este sserra
Verey minha terra.

Oo montes erguidos!
Deyxay-vos cahyr,
deyxay-vos somyr
& ser destroydos.{[9]}
Poys males sentidos
me dam tanta guerra,
por vêr minha terra.
Ribeyras do mar!
que tendes mudanças,
as minhas lembranças
deyxay-as passar.
Deyxay-m'as tornar
dar nouas da terra,
que daa tanta guerra.
O ssol escureçe,
a noyte sse uem,
meus olhos, meu bem
ja nam aparece.
Mays çedo anoyteçe
aaquem d'esta sserra
que na minha terra.

Cancioneiro Geral, t. III, p. 562.


GIL VICENTE

Romance em memoria da partida da Infanta Dona Beatriz para Saboya, cantado no Auto das Cortes de Jupiter, que se representou nos Paços da Ribeira em 1519.

Niña era la Ifanta,
Dona Beatriz se decia,
Nieta del buen Rey Hernando,
El mejor Rey de Castilla,
Hija del Rey Don Manoel{[10]}
Y Reyna Dona Maria,
Reis de tanta bondad
Que tales dos no habia.
Niña la casó su padre,
Muy hermosa á maravilla,
Con el Duque de Saboya,
Que bien le pertenecia.
Señor de muchos señores,
Mas que Rey es su vaalia.
Ya se parte la Ifanta,
La Ifanta se partia
De la muy leal ciudad
Que Lisbona se decia;
La riqueza que llevaba
Vale toda a Alejandria.
Sus naves muy alterosas,
Sin cuento la artilleria;
Va por el mar de Levante,
Tal que temblaba Turquia.
Con ella va el Arzobispo
Señor de la Clerezia:
Van Condes y Caballeros,
De muy notable osadia;
Lleva damas muy hermosas,
Hijas dalgo y de valia.
Dios los lleve á salvamiento
Como su madre querria.

Obras t. II, p. 416.
Edição de Hamburgo.{[11]}


Romance burlesco, glosando o celebre romance de «Yo me estaba alla en Coimbra» cantado na farça dos Almocreves que se representou em Coimbra em 1526.

Yo me estaba en Coimbra,
Cidade bem assentada;
Pelos campos de Mondego
Não vi palha nem cevada.
Quando aquillo vi mesquinho,
Entendi que era cilada
Contra os cavallos da côrte
E minha mula pellada.
Logo tive a mao sinal
Tanta milhan apanhada,
E a peso de dinheiro
O mula desamparada.
Vi vir ao longo do rio
Hua batalha ordenada,
Não de gente, mas de mus,
Com muita raiva pisada.
A carne está em Bretanha,
E as couves em Biscaia.
Sam capellão d'hum fidalgo
Que não tem renda, nem nada;
Quer ter muitos apparatos,
E a casa anda esfaimada;
Toma ratinhos por pagens,
Anda já a cousa damnada.
Quero-lhe pedir licença,
Pague-me minha soldada.

Obras, t. III, p. 202.{[12]}


Cantiga dos Romeiros em folia no Auto do Templo d'Apollo, representado em 1526 na partida da infanta filha de D. Manoel, que casou com Carlos V.

Pardeos, bem andou Castella,
Pois tem Rainha tão bella.
Muito bem andou Castella
E todos os Castelhanos,
Pois tem Rainha tão bella,
Senhora de los Romanos.
Pardeos, bem andou Castella
Com toda sua Hespanha,
Pois tem Rainha tão bella,
Imperatriz d'Allemanha.
Muito bem andou Castella,
Navarra e Aragão,
Pois tem Rainha tão bella,
E Duqueza de Milão,
Pardeos, bem andou Castella
E Sicilia tambem,
Pois tem Rainha tão bella,
Conquista de Jerusalem.
Muito bem andou Castella,
E Navarra não lhe pesa,
Pois tem Rainha tão bella,
E de Frandes he Duqueza.
Pardeos bem anda Castella,
Napoles e sua fronteira,
Pois tem Rainha tão bella,
França sua prisioneira.

Obr. t, II, p. 392.{[13]}


Romance ao nascimento do infante Dom felipe, com que termina a tragi-comedia da Romagem de Aggravados, representada em Evora em 1533.

Por Maio era por Maio
Ocho dias por andar,
El Ifante Don Felipe
Nació en Evora ciudad.
Viva el Ifante, El Rey, y la Reyna,
Como las aguas del mar.
No nació en noche escura,
Ni tampoco por lunar,
Nació quando el sol decrina
Sus rayos sobre la mar.
En un dia de domingo
Domingo para notar,
Cuando las aves cantaban
Cada una su cantar.
Cuando los árboles verdes
Sus fructos quieren pintar,
Alumbró Dios á la Reina
Con su fructo natural.
Viva el Ifante, el Rey y la Reyna
Como las aguas do mar.

Obr. t. II, p. 531.{[14]}


Romance á morte de El Rei Dom Manoel.

Pranto fazem em Lisboa,
Dia de Santa Luzia,
Por El Rei Dom Manuel,
Que se finou n'esse dia.
Choram Duques, Mestres, Condes,
Cada um quem mais podia;
Os fidalgos e donzellas
Muito tristes em porfia;
Os Iffantes davam gritos,
A Iffanta se carpia;
Seus olhos maravilhosos
Fonte d'agua parecia.
Bem merecem ser escriptas
As lastimas que fazia:
«Paço tão desamparado
Derribado merecia,
Pois a sua fortaleza
Se tornou em terra fria.
Oh minha senhora madre
Rainha Dona Maria,
Quem a vós levou primeiro
Mui grande bem vos queria,
Pois que vos livrou da pena
Que passamos n'este dia.»
E outras magoas, que de tristes
Contar não mais ousaria.
O Principe dava suspiros,
Que a alma se lhe sahia;
Suas lagrimas prudentes,
Como a gran senhor cumpria:{[15]}
De dia sempre velava,
De noite nunca dormia.
A Rainha estrangeira
Já chorar o não podia:
Com rouca voz dolorosa
Estas palavras dizia:
«Oh Reina desamparada!
Qué haré sim compañia,
Pues que en esta triste vida
Sola una vida tenia!
Y pues me la llevó la muerte,
Para qué quiero la mia?
Oh sin ventura casada
Tres años no mas habia,
Quien tan presto fue viuda
Triste para que nascia;
Niña sola en tierra agena,
Huérfana sin alegria!»
Se uma vez acordava
Outras sete esmorecia;
Assi pedia a Deos morte
Como quem pede alegria,
Dizendo: «Llevenme luego,
Que esta tierra ya no es mia:
Por la mar por donde fuere
Algun peligro venia,
Que me matasse á mi sola
Salvando la compañia.»
O bom Rei em seu acordo
Deste mundo se partia:
Sua morte conhecendo
Com muita sabedoria,
Per palavras piedosas
Os sacramentos pedia;
Falando sempre com todos,
Deu sua alma a quem devia.{[16]}
Morto levam o gran Rei
Senhores de gran valia,
Dizendo uns aos outros:
Oh que triste romaria!
Que grande amigo perdemos
E que doce companhia!
Já passada a meia noite,
Tres horas antes do dia
Mettido em um ataúde
O qu'inda ha pouco regía,
O gran senhor do Oriente
Dos seus Paços se partia.
Seiscentas tochas accezas,
Escuras a quem as via;
Triste pranto até Belem
Nem passo não se esquecia.
Em terra fica enterrado,
Porque assi mandado havia,
Conhecendo que era terra
A mundanal senhoria.
Disse que os vãos thezouros
Á morta não pertencia.
Desque ficou enterrado
Cada um se despedia,
Dizendo estes versos tristes
Á gloriosa Maria. Etc.

Obr. t. III, p. 348.


Romance á aclamação de D. João 3.º

Desanove de Dezembro,
Perto era do Natal,
Na cidade de Lisboa
Mui nobre e sempre leal,
Foi levantado por Rei{[17]}
Dos reinos de Portugal
O Principe Dom João,
Principe angelical.
Sahiu n'uma faca branca,
Parecia de cristal,
Guarnecida de maneira
Que se não viu sua igual.
Opa leva roçagante,
Tudo fio d'ouro tal,
Forrada de ricas martas,
Bem parecia real;
Pelote de prata fina,
Prata mui oriental,
Barrado de pedraria
Vinha-lhe mui natural.
De perlas não fazem conta
Porque é baixo metal;
Só um collar que levava
Toda Alexandria val;
Na cabeça leva preto
Por seu padre natural;
Sahiu com lagrimas tristes
Como filho mui leal.
O seu rosto tão formoso
Que parece divinal,
Seus olhos resplandeciam
Como estrellas igual;
Os cabellos da cabeça
D'ouro eram que não d'al;
Sua boca graciosa
Com ar mui angelical,
Um semblante soberano,
Um olhar imperial.
Não foi tal contentamento
No povo todo em geral,
Como ver na Rua nova{[18]}
Ir o seu Rei natural
Com tanta graça e lindeza,
Que não parece humanal.
Os forasteiros diziam:
Mui ditoso é Portugal.
O Iffante Dom Luis
Leva o estoque Real;
O Iffante Dom Fernando,
Outro seu irmão carnal,
Ao estribo direito
A pé, não lhe estava mal,
Porque em tal solemnidade
Tudo lhe vem natural:
Todolos Grandes a pé,
Quantos ha em Portugal.
O Conde Priol levava
A bandeira principal.
Chegou assi a San Domingos,
Onde estava o Cardial:
Benzeu o mui alto Rei
De benção pontifical,
E deu logo juramento;
Jurou n'um livro missal
De fazer cumprir as leis
Como lei imperial;
Confirmou os privilegios
D'esta cidade Real.
Os povos muito contentes
De Rei tão especial,
De pequeno sempre grande,
Magnifico e liberal,
Que é virtude julgada
Dos Principes principal.
Isto tudo assi acabado,
Disseram: Arraial! Arraial!
Alli tocam as trombetas,{[19]}
Atabales outro tal:
Todos lhe beijam a mao,
Os senhores em geral.

Obr. t. III, p. 355.


Cantiga da Natal, com que remata o Auto Pastoril, representado em Evora a D. João 3.º em 1523.

Quem he a desposada?
A Virgem sagrada.
Quem é a que paria?
A Virgem Maria.
Em Bethlem, cidade
Muito pequenina,
Vi hua desposada
E Virgem parida.
Em Bethlem, cidade,
Muito pequenina,
Vi hua desposada
E Virgem parida.
Quem he a desposada?
A Virgem sagrada.
Quem he a que paria?
A Virgem Maria.
Hua pobre casa
Toda reluzia,
Os anjos cantavam,
O mundo dizia:
Quem he a desposada?
A Virgem sagrada.
Quem he a que paria?
A Virgem Maria.

Obr. t. I, p. 147.{[20]}


Vilancete de Abel no Auto da Historia de Deos, representado em Almeirim em 1527.

Adorae, montanhas,
O Deos das alturas,
Tambem as verduras;
Adorae, desertos
E serras floridas,
O Deos dos secretos,
O Senhor das vidas:
Ribeiras crescidas,
Louvae nas alturas
Deos das criaturas.
Louvae, arvoredos
De fructo presado,
Digam os penedos
Deos seja louvado,
E louve meu gado
N'estas verduras
O Deos das alturas.

Obr. t. I, p. 317.


A serra é alta, fria e nevosa;
Vi venir serrana gentil, graciosa.

Cheguei-me a ella de gran cortezia,
Disse-lhe:—Senhora, quereis companhia?

Disse-lhe:—Senhora quereis companhia?
Disse-me: «Escudeiro, segui vossa via.

Obr. t. III, p. 214.{[21]}


Fragmento da versão da «Bella mal maridada.»

Le bella mal maruvada
De linde que a mi ve,
Vejo-ta triste nojada,
Dize tu razão puruque.
A mi cuida que doromia
Quando me foram cassá;
Se acordaro a mi jazia
Esse nunca a mi lembrá.
Le bella mal maruvada
Não sei quem cassa a mi,
Mia marido não vale nada,
Mi sabe razão puruque.

Obr. t. II, p. 333.


—D'onde vindes, filha,
Branca e colorida?
«De lá venho, madre
De ribas de um rio;
Achei meus amores
N'um rosal florido.
—Florido, enha filha
Branca e colorida.
«De la venho, madre,
De ribas de um alto,
Achei meus amores
N'um rosal granado.
—Granado, enha filha,
Branca e colorida.

Obr. t, III, p. 270{[22]}


Cantiga cantada em chacota de pastores na tragicomedia pastoril da Serra da Estrella, representanda em Coimbra em 1527.

Não me firaes, madre,
Que eu direi a verdade.
Madre, hum escudeiro
Da nossa Rainha
Falou-me d'amores;
Vereis que dizia,
Eu direi a verdade.
Falou-me d'amores,
Vereis que dizia:
Quem te me tivesse
Desnuda em camisa!
Eu direi a verdade.

Obras. t. II, p. 445.


Cantiga consenvada no Auto da Lusitania, representado em 1532.

Vanse mis amores, madre
Luengas terras van morar,
Yo no los puedo olvidar.
Quien me los hará tornar.
Yo soñara, madre, un sueño,
Que me dió nel corazon,
Que se iban mis amores
Á las islas de la mar,
Yo no los puedo olvidar.{[23]}
Quien me los hará tornar.
Yo soñora, madre, un sueño
Que me dió nel corazon,
Que se iban mis amores
Á las terras de Aragon:
Alla se van á morar.
Yo no los puedo olvidar,
Quien me los hará tornar.

Obr. t. III, p. 299.


Cantiga conservada na comedia de Rubena.

Halcon que se atreve
Con garza guerrera
Peligros espera.
Halcon que se vuela
Con garza á profia,
Cazar la queria,
Y no la receia:
Mas quien no se vela
De garza guerrera
Peligros espera.
La caza de amor
Es de altaneria;
Trabajos de dia,
De noche dolor:
Halcon cazador
Con garza tan fiera
Peligros espera.

Obr. t. II, p 49.{[24]}


BERNARDIM RIBEIRO

Cantar á maneira de Solao, que vem no capitulo XXI da menina e Moça.

Pençando-vos estou filha,
Vossa mãe me está lembrando,
Enchem-se-me os olhos d'agoa
Nella vos estou lavando.
Nascestes filha entre magoa,
Pera bem inda vos seja,
Pois em vosso nascimento
Fortuna vos houve inveja.
Morto era o contentamento,
Nenhuma alegria ouvistes,
Vossa mãe era finada,
Nós outros eramos tristes.
Nada em dôr, em dôr criada,
Não sei onde isto hade ir ter,
Vejo-vos filha fermosa
Com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
Pera nascer em desterro;
Mal haja a desaventura
Que poz mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
Vossa mãi, e magoa a nós;
Não ereis vós filha, não,
Pera morrerem por vós.
Não houve em fados razão,
Nem se consentem rogar;
De vosso pai hei mór dôr,
Que de si se hade queixar.{[25]}
Eu vos ouvi a vós só
Primeiro que outrem ninguem;
Não foreis vós, se eu não fôra,
Não sei se fiz mal, se bem.
Mas não póde ser, senhora,
Pera mal nenhum nascerdes,
Com esse riso gracioso
Que tendes sob olhos verdes.
Conforto mais duvidoso
Me é este que tomo assi,
Deos vos dê melhor ventura
Do que tiveste té aqui.
A dita, e a formosura
Dizem patranhas antigas,
Que pelejaram um dia
Sendo d'antes muito amigas.
Muitos hão que é fantesia;
Eu que vi tempos e annos,
Nenhuma cousa duvido
Como ella é azo de damnos.
Nem nenhum mal não é crido;
O bem só é esperado:
E na crença, e na esperança
Em ambas ha hi cuidado;
Em ambas ha hi mudança.


Romance de Avalor, que vem no capitulo XI da segunda parte das Saudades.

Pola ribeira de um rio,
Que leva as agoas ao mar,
Vai o triste de Avalor,
Não sabe se hade tornar.
As agoas levam seu bem,{[26]}
Elle leva o seu pesar,
E só vai sem companhia,
Que os seus fora elle leixar.
Cá quem não leva descanso,
Descansa em só caminhar:
Descontra donde ia a barca
Se ia o Sol a baxar.
Indo-se abaxando o Sol,
Escurecia-se o ar:
Tudo se fazia triste
Quanto havia de ficar.
Da barca levantam remo,
E ao som do remar
Começaram os remeiros
Do barco este cantar:
Que frias eram as agoas,
Quem as haverá de passar?
Dos outros barcos respondem:
Quem as haverá de passar?
Senão quem a vontade pôz
Onde a não pode tirar,
Trala barca levam olhos,
Quanto o dia dá logar.
Não durou muito; que o bem
Não pode muito durar.
Vendo o Sol posto contr'elle
Soltou redeas ao cavallo
Da beira do rio andar.
A noite era callada
Pera mais o magoar
Que ao compasso dos remos
Era o seu suspirar.
Querer contar suas magoas
Seria arêas contar,
Quanto mais se alongando
Se ia alongando o soar.{[27]}
Dos seus ouvidos aos olhos
A tristeza foi egualar;
Assim como ia a cavallo
Foi pela agua dentro entrar.
E dando um longo suspiro,
Ouvia longe falar:
Onde magoas levam alma
Vão tambem corpo levar.
Mas indo assi, por acerto,
Foi c'um barco n'agua dar,
Que estava amarrado á terra,
E seu dono era a folgar.
Saltou, assim como ia, dentro,
E foi a amarra cortar,
A corrente e a maré
Acertaram-no a ajudar.
Não sabem mais que foi d'elle,
Nem novas se podem achar;
Suspeitou-se que era morto,
Mas não é para affirmar;
Que o embarcou ventura
Para só isso guardar,
Mais são as magoas do mar
Do que se podem curar.


Romance que vem na Ecloga 5.ª ao qual se chamou Cuidado e Desejo.

Ao longo de uma ribeira,
Que vae polo pé da serra,
Onde me a mi fez a guerra
Muito tempo o grande amor,
Me levou a minha dôr;
Já era tarde do dia,{[28]}
E a agua d'ella corria
Por antre um alto arvoredo,
Onde ás vezes ia quedo
O rio, e ás vezes não.

Entrada era do verão,
Quando começam as aves,
Com seus cantares suaves
Fazer tudo gracioso;
Ao rugido saudoso
Das aguas cantavam ellas;
Todalas minhas queréllas
Se me pozeram diante;
Ali morrer quizera ante,
Que ver por onde passei;
Mas eu que digo? passei!
Antes inda heide passar
Em quanto hi houver pezar,
Que sempre o hi hade haver.

As aguas, que do correr
Não cessavam um momento,
Me trouxeram ao pensamento,
Que assim eram minhas magoas,
D'onde sempre correm aguas
Por estes olhos mesquinhos,
Que têm abertos caminhos,
Pelo meio do meu rosto.
E já não tenho outro gosto
Na grande desdita minha.
O que eu cuidava que tinha
Foi-se-me assim não sei como,
D'onde eu certa crença tomo,
Que pera me leixar veiu.{[29]}
Mas tendo-me assim alheio,
De mim o que ali cuidava,
Da banda d'onde a agoa estava,
Vi um homem todo caã
Que lhe dava pelo cham,
A barba e o cabello.
Ficando eu pasmado d'ello,
Olhando elle para mim,
Falou-me, e disse-me assim:
«Tambem vae esta agoa ao Tejo.»

N'isto olhei, vi meu Desejo
Estar detraz triste e só,
Todo cuberto de dó,
Chorando, sem dizer nada,
A cara em sangue lavada,
Na bocca pósta uma mão,
Como que a grande paixão
Sua fala lhe tolhia.
E o velho que tudo via,
Vendo-me tambem chorar,
Começou assi a falar:
«Eu mesmo sou teu Cuidado,
Que n'outra terra criado,
N'esta primeiro nasci.
E ess'outro que está aqui
É o teu Desejo triste,
Que má hora o tu viste,
Pois nunca te esquecerá!
A terra e mar passará
Traspassando a magoa a ti.»

Quando lhe eu aquisto ouvi,
Soltei suspiros ao choro;
Ali claramente o fôro
Meus olhos tristes pagaram{[30]}
De um bem só qu'elles olharam,
Que outro nunca mais tiveram,
Nem o tive; nem m'o deram:
Nem o esperei sómente.
De só ver fui tão contente,
Que pera mais esperar
Nunca me deram lugar.
E n'aquisto, triste estando,
Com os olhos tristes olhando
D'aquellas bandas d'álem,
Olhei, e não vi ninguem.
Dei então a caminhar
Rio abaixo, até chegar
Acerca de Monte-Mór.
Com meus males derredor,
Da banda do meio dia,
Ali minha Phantasia,
D'antre uns medrosos penedos,
Onde aves que fazem medos
De noite os dias vão ter,
Me saíu a receber
Com uma mulher polo braço,
Que, ao parecer, de cansaço
Não podia ter-se em si,
Dizendo:—Vês, triste, aqui
A triste Lembrança tua.—
Minha vista então na sua
Puz; d'ella todo me enchi:
A primeira cousa que vi,
E a derradeira tambem,
Que no mundo vão e vem!
Seus olhos verdes rasgados,
De lagrimas carregados,
Logo em vendo-os, pareciam
Que de lagrimas enchiam
Contino as suas faces,{[31]}
Que eram, gram tempo, paces
Antre mim e meus cuidados.
Louros cabellos ondados
Que um negro manto cobria:
Na tristeza parecia
Que lhe convinha morrer.
Os seus olhos de me ver,
Como furtados, tirou,
Depois em cheio me olhou.
Seus alvos peitos rasgando,
Em voz alta se aqueixando,
Disse assim mui só sentida:
—Pois que mór dôr, ha na vida,
Pera que houve ahi morrer?—
Calou-se sem mais dizer,
E de mi gemidos dando,
Fui-me pera ella chorando
Pera a haver de consolar...

N'isto pôz-se o sol ao mar,
E fez-se noite escura,
E disse mal á ventura,
E á vida, que não morri...
E muito longe d'ali,
Ouvi de um alto outeiro
Chamar: Bernardim Ribeiro
E dizer:—Olha onde estás.—
Olhei de ante, e de trás
E vi tudo escuridão,
Cerrei meus olhos então,
E nunca mais os abri,
Que depois que os perdi
Nunca vi tão grande bem,
Porém inda mal, porém!

Obras. p. 351 ed. de 1852.{[32]}


CHRISTOVAM FALCÃO

Cantiga com suas voltas.

Não posso dormir as noites,
Amor, não as posso dormir.

Desque meus olhos olharam
Em vós seu mal e seu bem,
Se algum tempo repousaram
Já nenhum repouso tem.
Dias vão e dias vem,
Sem vos vêr, nem vos ouvir,
Como as poderei dormir?

Meu pensamento occupado
Na causa do seu pensar,
Acorda sempre o cuidado
Pera nunca descuidar.
As noites de repousar
Dias são ao meu sentir,
Noites do meu não dormir.

Todo o bem que é já passado
E passado em mal presente,
O sentido desvelado,
O coração descontente.
O juizo que isto sente
Como se deve sentir,
Pouco deixará dormir.{[33]}

Como não vi o que vejo
C'os olhos do coração,
Não me deito sem desejo,
Nem me ergo sem paixão;
Os dias sem vos vêr vão,
As noites sem vos ouvir,
Eu não n'as posso dormir.


SÁ DE MIRANDA

Cantiga.

Naquella alta serra
Me quero ir morar,
Quem me quizer bem,
Quem bem me quizer,
Lá me irá buscar.

VOLTAS

N'estes povoados
Tudo sam requestas,
Deixay-me os cuidados
Que em vós deixo as festas.
D'aquellas florestas
Verey longe o mar,
Por-me-hey a cuidar.

Sombras e aguas frias,
Quando o sol mais arde;
Despois sobre a tarde
Por cá bradarias,
Vês, que pressa os dias
Levam sem cansar,
Nunca hamde tornar.{[34]}

Não julgue ninguem
Nunca outrem por si,
Mais de um bem que ouvi
A vida nam tem.
Nam deixa este bem,
Onde se elle achar
Mais que desejar.

Deixa as vaydades
Que da mão á bocca
O prazer se troca,
Trocão-se as vontades.
Essas são saudades,
Armadas no ár,
Que podem durar?

'Naquella espessura
Me hey d'ir esconder,
Venha o que vier,
Achar-me-ha segura,
Se tal bem não dura
Ao seu trespassar
Tudo hade acabar.

Obras, ediç. de 1677, p. 314.


JORGE DE MONTE-MOR

Canção tirada da novella pastoril intitulada «Diana.»