TEÓFILO BRAGA


PARNASO PORTUGUÊS MODERNO

GUIMARÃES & C.ª—Editores

R. da Misericórdia (Ex. R. do Mundo), 68—LISBOA

PARNASO PORTUGUEZ
MODERNO

OBRAS COMPLETAS DE THEOPHILO BRAGA

1864—1877

PoesiaVisão dos Tempos, 1 vol.
Tempestades Sonoras, 1 vol.
Ondina do Lago, 1 vol.
Torrentes, 1 vol.
Folhas Verdes, (Versos dos 15 annos) 1 vol.
TradiçõesHistoria da Poesia popular portugueza, 1 vol.
Cancioneiro popular, 1 vol.
Romanceiro geral, 1 vol.
Cantos populares do Archipelago açoriano, 1 vol.
Floresta de Romances com forma litteraria, 1 vol.
Historia da Litteratura portuguezaIntroducção á Historia da Litteratura portugueza, 1 vol.
As Epopêas mosarabes, 1 vol.
Trovadores gallecio-portuguezes, 1 vol.
O Amadis de Gaula, 1 vol.
Os Poetas palacianos, 1 vol.
Bernardim Ribeiro e os Bucolistas, 1 vol.
Vida de Sá de Miranda, 1 vol.
Vida de Camões, 1 vol.
Eschola de Camões==Os Lyricos, 1 vol.
Eschola de Camões==Os Epicos, 1 vol.
Vida de Gil Vicente, 1 vol.
A Tragedia classica e as Tragicomedias, 1 vol.
A Baixa-Comedia e a Opera, 1 vol.
Garrett e os Dramas romanticos, 1 vol.
Bocage, sua Vida e Epoca litteraria, 1 vol.
Historia do Romantismo (no prélo), 1 vol.
PedagogiaGrammatica portugueza fundada sobre o methodo hist. comparativo, 1 vol.
Manual da Historia da Litteratura portugueza, 1 vol.
Antologia portugueza, e Poetica historica, 1 vol.
Parnaso portuguez moderno, 1 vol.
DissertaçõesHistoria do Direito portuguez (Dissertação do doutoramento, em 1868.) 1 vol.
Caracteristicas dos Actos Commerciaes (Dissertação do Concurso na Academia polytechnica do Porto, 1868.) brox.
Espirito do Direito Civil moderno (Dissertação do Concurso na Faculdade de Direito, na Universidade, em 1871) brox.
Theoria da Historia da Litteratura portugueza (Dissertação do Concurso no Curso Superior de Lettras, em 1872) 1 vol.
EnsaiosEstudos da Edade Media, 1 vol.
Poesia do Direito, 1 vol.
Contos phantasticos, 1 vol.
Edições criticasObras de Christovam Falcão, 1 vol.
Obras completas de Camões, 3 vol.
Gaia de João Vaz, 1 fol.
Obras poeticas de Bocage, 7 vol.
Cancioneiro portuguez do Vaticano, (no prélo) 1 vol.
Obras primas de Chateaubriand, 1 vol.
Obras escolhidas de Balzac.

PARNASO PORTUGUEZ
MODERNO


PRECEDIDO DE UM ESTUDO

DA

POESIA MODERNA PORTUGUEZA

POR

THEOPHILO BRAGA

Professor de Litteraturas modernas no Curso Superior de Lettras


LISBOA
FRANCISCO ARTHUR DA SILVA—EDITOR
72, Rua dos Douradores, 72


1877

A propriedade d'esta edição em Portugal pertence a Francisco Arthur da Silva, e no Brazil ao ill.ᵐᵒ sr. Manuel Silvestre da Silva Couto, residente no Maranhão.


Typographia da Bibliotheca Uniuersal, rua dos Calafates, 93.

Na Antologia portugueza, onde reunimos tudo quanto conheciamos de mais bello e caracteristico da nossa poesia desde o seculo XII até ao presente, apenas pudemos esboçar os alvores do romantismo com um pequeno excerpto de Garrett; no Parnaso moderno desenvolvemos este periodo com uma escolha do que tem produzido de melhor a geração de rapazes, que em grande parte constitue hoje a litteratura portugueza contemporanea.

Muitos foram os chamados e poucos os escolhidos; lêmos centenares de livros de versos; e no processo da nossa pequena escolha observámos as correntes de banalidade que atrophiaram um grande numero de poetas. Para garantirmos o nosso criterio contra o enfado de uma leitura esteril ou contra a surpreza de uma fórma desconhecida, copiámos materialmente pela nossa mão todas as composições d'este livro. Em Portugal todos são poetas, uns em segredo, como um vicio occulto; outros não passam dos limites ephemeros do jornalismo; outros alentam o fogo sagrado até aos vinte cinco annos, como o sr. Herculano; outros têm a coragem de produzir volumes, e o que mais assombra, continuam a publicar versos depois de directores de secretaria, depois de serem embaixadores e ministros. D'isto mesmo proveiu a difficuldade da selecção; de alguns poetas distinctos nada apresentamos, ou porque não pudemos obter as suas obras, ou quando as alcançámos, já este livro estava quasi impresso.

Adoptámos a disposição ethnica, subdividindo o Parnaso em lyricos portuguezes, brazileiros e gallegos; na introducção adiante serão explicadas as relações entre estes grupos poeticos, de um modo que nos parece ficar bem patente o espirito por onde se deve renovar o lyrismo moderno. Attendemos sempre á belleza da fórma, aproveitando os typos tradicionaes da estrophe e a estructura mais nova e imprevista; assim nos parece que os futuros cultores da poesia portugueza acharão aqui poderosos estimulos para mais altas concepções.

DA POESIA
MODERNA PORTUGUEZA
SUAS TRANSFORMAÇÕES E DESTINO


I

A par das grandes descobertas scientificas do nosso seculo, que pela via inductiva conduziram á demonstração integral dos phenomenos cosmicos pelo movimento etherodynamico; e bem assim da vasta synthese de todos estes factos verificaveis, que pela via deductiva levaram a estabelecer a Philosophia positiva, a par d'estas profundas transformações da consciencia moderna, a Poesia ainda tem um destino ligado ás necessidades sociaes. Nem todas as sugestões que provocam a aspiração individual podem ser satisfeitas pela demonstração scientifica, nem todos os problemas que emergem da actividade cerebral podem ser resolvidos pela deducção philosophica. E comtudo o espirito humano propõe-se sempre as mesmas questões, mas já hoje se não satisfaz com as soluções theologicas, nem com as hypotheses metaphysicas. Os velhos mythos theologicos são hoje estudados comparativamente, e a sciencia deriva d'elles as vastas concepções poeticas dos cantos hymnicos, da degeneração epica, dos contos populares, e do rito cultural que levou ao drama hierático; por seu lado a Metaphysica ao tornar-se incompativel com o progresso das sciencias, dissolve-se em uma exhuberante poesia, como as concepções de Schelhing, de Hegel ou de Schopenauer, que inconscientemente se encontram em intimas analogias com as phantasmagorias das escholas brahmânicas e buddhicas. Em vez de ter pertenções a systema de synthese deductiva, a aspiração metaphysica só deixará de ser uma manifestação doente tornando-se francamente Poesia. Só assim realisará um grande destino, o servir de expressão ás mil aspirações indefinidas da nossa individualidade social. Algumas composições de M.ᵐᵉ Ackermann abrem esta nova phase da idealisação. Assim como a poesia antiga servia para perpetuar e dar sentido ás vetustas tradições das raças, a poesia moderna sem despresar a tradição, é o orgão mais apto para manifestar as aspirações da consciencia moderna. N'este uso está implicito o seu fim revolucionario.

Na poesia portugueza, como temos largamente provado pelos nossos trabalhos historicos, o escriptor esteve quasi sempre separado do povo; raramente se soube inspirar da sua tradição, e por isso a aspiração e o caracter nacional não foram servidos por uma litteratura bem distincta entre as outras litteraturas romanicas. Em compensação, a nacionalidade portugueza atrophiada pelo cesarismo e pelo catholicismo, e, por esta causa, não tendo no mundo moderno uma existencia accentuada pelos progressos scientificos e industriaes, serviu-se sempre da poesia como um meio de protesto, como o grito da sua aspiração revolucionaria. No seculo XIII achamos a dura sirvente contra os Alcaides que atraiçoaram D. Sancho II, para servirem as pertenções do clero a favor de D. Affonso III[1]. No seculo XV, achamos a satyra vehemente de Luiz de Azevedo contra os traidores que provocaram e consummaram o assassinato do Infante D. Pedro em Alfarrobeira[2]. No seculo XVI o vigor nacional é atrophiado pelo regimen do favoritismo do paço, que corrompe a aristocracia com as capitanias da India e Brazil; a poesia protestou contra os validos devassos, como se vê n'essas quadras ou trovas da Maria Pinheira, attribuidas a Damião de Goes, contra o Conde da Castanheira[3], e Manuel Machado de Azevedo n'outras quadras bem sentenciosas avisa seu cunhado Sá de Miranda contra a prepotencia dos Carneiros e Carvalhos, que dispunham arbitrariamente de todos os poderes. A satyra vehemente, acerba e allusiva inspira as melhores quintilhas e tercetos de Sá de Miranda; e Camões, nos Disparates da India, e sobretudo nos Luziadas, verbera uma aristocracia enfatuada e estupida, e o abuso da auctoridade clerical que invade a esphera civil em o Concilio de Trento, que se apodera da instrucção publica do paiz, que funda os terriveis tribunaes da intolerancia nos Indices Expurgatorios e nas fogueiras dos Autos de Fé, que isola Portugal da communicação scientifica da Europa a pretexto de combater a entrada dos principios da Reforma, e que por ultimo nos entrega aos castelhanos de Philippe II.

Tudo isto teria existido sem protesto, se não fossem os versos de Gil Vicente, nas suas farças; as quadras anonymas conservadas como curiosidade pelos genealogistas; algumas estancias de Camões na grande epopêa, e, o que mais assombra, alguns epigrammas populares, que se transmittiram na tradição[4].

Quando no seculo XVII a lingua portugueza deixava de ser usada nos livros, foi a comedia popular que manteve a sua cultura, e se inspirou das campanhas da restauração nacional, como vemos nas comedias de Pedro Salgado. Diante da mudez imposta pelo Santo Officio, a poesia teve ainda a audacia do protesto no poemeto Os ratos da Inquisição, de António Serrão de Castro[5].

No seculo XVIII, pode-se affirmar com rigor, foi a poesia o orgão de propagação das ideias dos encyclopedistas em Portugal; o proprio Marquez de Pombal protegia tacitamente a dispersão das cópias do Hyssope de Diniz. José Anastacio da Cunha na Oração universal eleva-se ao lyrismo pantheista de Goëthe, sendo preso e sentenciado pelo Santo Officio. Bocage é preso pelo Intendente Manique, e dá-se por base da perseguição a epistola Pavorosa illusão da eternidade, que exerceu uma acção menos profunda do que a Voz da Razão, ainda hoje estimulo secreto que leva a classe burgueza a fazer o processo critico da sua consciencia. Cabe a Bocage a gloria d'este serviço[6].

Nas luctas pela liberdade constitucional, os antigos Outeiros poeticos tornaram-se politicos, como o da Sala dos Capellos em 1820, e nas recitas theatraes era a poesia, ainda bastante arcádica, que agitava com uma linguagem nova a alma moderna. Separada da tradição, pelo esquecimento e obliteração systematica do passado, a poesia portugueza vale muito por estes gritos revolucionarios que a tornam uma verdade na vida nacional. Ainda hoje o lyrismo da mocidade acorda mais o senso commum, produz mais movimento na opinião, do que todos os cursos scientificos com juramento previo da conceição, e da inviolabilidade real.

As duas influencias predominantes do fim do seculo XVIII na poesia portugueza, o filintismo e o elmanismo, prolongaram-se até ao primeiro quartel do seculo XIX; Garrett (Jonio Duriense) admirava Filinto Elysio, e ao estudo da estructura riquissima e sempre nova dos seus versos deveu esse segredo de belleza do verso solto do poema Camões. Castilho admirava Bocage, e elle mesmo árcade romano (Mémnide Egynense) calcava a sua metrificação sobre as tautologias elmanistas. Se não fosse a emigração forçada dos partidarios do regimen constitucional em 1824 e 1829, a litteratura portugueza não saía d'este sulco; Garrett emigrou, e por isso comprehendeu o romantismo, Castilho esteve refugiado na abbadia de S. Mamede da Castanheira do Vouga, e por isso esterelisou-se muitos annos em traducções latinas, que a ninguem aproveitam. Garrett inspirou-se da tradição antiga e da aspiração moderna da nacionalidade, Castilho entrincheirou-se na erudição dos classicos da côrte de Augusto, e quiz submetter a este criterio a mocidade que despontava. D'aqui resulta mais tarde o rompimento individualista e indisciplinado da chamada Eschola de Coimbra (1865.)

Só muito tarde é que Almeida Garrett conseguiu descobrir uma das formas mais eloquentes do lyrismo moderno, nas Folhas cahidas; as composições em grande parte insulsas das Fabulas, do João Minimo, das Flores sem fructo, accusam o grande esforço d'esse genio para quebrar os moldes arcádicos em que sentira desde criança. Bastou para tanto uma simples aproximação da realidade; nos ultimos annos, Garrett achou-se envolvido em uma paixão censuravel, e a expressão de todas as suas emoções, a descripção delicada das situações imprevistas em que se achava, as confidencias, as vacillações da sua passividade, os favores concedidos de surpreza, as recordações e por fim a indifferença da parte da que era tão frivola como as outras da sua recente aristocracia, tal é o quadro deslumbrante e fascinador das Folhas cahidas. Este livro appareceu tarde, e por isso não exerceu uma influencia saudavel; Pato, Gomes de Amorim, E. Vidal e alguns outros bem quizeram pulsar essa corda, mas faltava-lhes, não diremos talento, mas verdade.

Castilho não conseguiu accentuar a sua tendencia lyrica; dominado ainda pela Modinha do seculo XVIII, como na Joven Lilia, incapaz de conhecer a belleza d'esses idylios modernos, como o seu de Pedro gaiteiro, elevando-se á expressão artificiosa do Canto do Jau, lançou-se outra vez no mundo classico e poz-se a traduzir do grego através do francez um supposto Anacreonte. Todos se imaginavam poetas, e n'esta doce illusão só Herculano se salvou com a Harpa do Crente, porque antes dos vinte cinco annos tinha lido alguma cousa de Klopstock e de Schiller. Tudo o mais estava anachronico, como Sarmento, Costa e Silva, Cabral de Mello, Fernandes Leitão e Campello. A poesia lyrica só podia renascer entre uma geração de rapazes; e onde encontral-a compacta, crente, enthusiasta? Em Coimbra o espirito revolucionario precedeu, pela imitação das tragedias philosophicas de Voltaire, o pensamento dos homens de 1820. Coimbra continuou sempre a ser o fóco do espirito novo, e em contradição com a rotina cathedratica, que bajulava o absolutismo e se isolava na sua soberba cardinalesca. Assim como a poesia foi sempre na civilisação portugueza a linguagem de protesto de uma consciencia atrophiada, assim Coimbra nos apparece tambem na historia como a capital do nosso lyrismo; ali cantaram Sá de Miranda, Ferreira, Camões, Jorge de Monte-Mór, Bernardes, Soropita, Francisco Rodrigues Lobo, Garção, em pleiadas que se succederam até ao seculo XIX segundo as correntes litterarias que percorriam a Europa. De Coimbra sáem tambem Garrett e Castilho.

Na renovação do lyrismo moderno é de Coimbra que partem os mais poderosos e decisivos impulsos; a escola do Trovador reune a mocidade academica de 1848, de que o principal vulto foi João de Lemos. Mas essa mocidade vivia no idylio insulso «sobre as azas da saudade», como se vê na festa da Primavera; inspirava-se do christianismo de Chateaubriand, acreditava devotamente na monarchia, contentava-se com tres nomes da historia patria para symbolisar toda a tradição nacional, e na sua ingenuidade não sabia conhecer as banalidades que punha em verso de redondilha, nem sabia os justos limites de uma exhuberancia fastidiosa. Ao entrar nas lides politicas esta camada esterilisou-se, e os poucos que conservaram um debil culto litterario ficaram constituindo a pretendida geração nova. Esta devera ser considerada a primeira phase da Eschola de Coimbra. Passou rapida; quasi que desconheceu o espirito revolucionario, e influiu sobre Portugal inteiro contagiando um falso estylo poetico, causa de todos os máos livros de versos que ainda apparecem de algum incomprehendido de provincia.

A vida academica é excepcional; a mocidade acha-se de repente livre dos vinculos da familia, senhora de si, meia irresponsavel, e em conflicto de costumes, de opiniões, de vaidades, e separada da direcção espiritual dos seus professores. Vive na indisciplina, alimenta-se das phantasmagorias theoricas, dispende um immenso vigor na dialectica, e por ultimo quando entra na realidade da vida em grande parte succumbe. O lente occulta a sua ignorancia e estupidez no isolamento doutoral; despreza o estudante, a quem nunca dirige a palavra, e impõe-se respeito pelo terror da reprovação! A mocidade liga-se contra este pedantismo, alimentando-se com as suas proprias leituras, fortalecendo-se com exercicios de argumentação, e amarrando os seus ogres a epigrammas eternos, como este:

Aquelle homem feio

E de aspecto máo,

É o Pedro Penedo

Da Rocha Calháo!

ou a epithetos pittorescos, como o Cão de quinta, o Doutor Hemoroide, o Marmellada.

Ali a cada geração academica succede-se a influencia de um dado philosopho; já no seculo passado o Intendente Manique accusava nas suas Contas para as Secretarias quaes os livros que andavam nas mãos dos estudantes, taes como as obras de Voltaire, Rousseau, Reynal, Bayle, Hobbes, etc. Na epoca de Garrett lia-se secretamente Dupuis; e ás differentes gerações se foram succedendo Chateaubriand e Aimé Martin, depois Krause, depois Pelletan, Quinet e Michelet, depois Vico, Hegel e Augusto Comte. Foram differentes correntes de ideias que revolucionaram o espirito da mocidade; os seus professores ficaram na ordem mental em uma especie de nirvana buddhico. D'essa mocidade, os que se impulsionaram pelas theorias metaphysicas ao entrarem na vida publica nada deram, e deixaram atrazar as cousas pela sua propria esterilidade. Sob a influencia de Aimé Martin e Krause, succedeu-se na poesia a segunda phase da Eschola de Coimbra, representada pelo Novo Trovador. O seu principal vulto foi Soares de Passos; veiu n'essa epoca em que ao exagero das paixões no theatro correspondia no lyrismo a melancholia tenue representada na Allemanha por Novalis, na Inglaterra pelos Lakistas, em França por Millevoye e Lamartine, e na Italia por Leopardi e Manzoni. Soares de Passos inspirou-se d'este desalento contagioso mas tardio, a que o proprio Garrett, em França, não escapou no poema Camões. Elle é o poeta da tristeza; todos os sentimentos que retrata, a admiração por Camões, a elevação deísta diante do Firmamento, a independencia no canto do Escravo, em tudo o tom natural a que vem sempre ter é a tristeza. Esta caracteristica explica-nos toda a sua acção litteraria. Esse sentimento de pesar e desgosto, em parte motivado pela doença physica de que morreu, tirou-lhe a individualidade, não o deixou ser iniciador; nenhuma das suas bem trabalhadas odes era capaz de suscitar uma eschola de poesia; é geralmente imitador, agrada-lhe o vago e indeterminado, e por isso traduz o primeiro canto de Fingal; ainda com o fervor dos bons tempos de um Werther, imita as balladas phantasticas do norte, conhecidas através das versões de Marmier, como no Noivado do sepulchro; é mystico, seguindo Lamartine na Morte de Socrates e no Firmamento. Esse sentimento de tristeza expresso sem banalidade mas sem individualidade, tornou os versos de Soares de Passos distinctos entre a multidão das collecções metricas, sobretudo quando a morte prematura do poeta veiu dar o perstigio prophetico aos seus presentimentos. Soares de Passos escreveu pouco em metro octosyllabo, o bastante para se conhecer que nos seus primeiros tempos de noviciado poetico de Coimbra soffreu a influencia da eschola do Trovador. A sua perfeição explica-se pelo limitado numero de composições que deixou; emendava sempre, calculadamente e com a pericia de quem tem só um sentimento a exprimir e já muitas vezes retratado[7].

O que fez Soares de Passos para a tristeza, fez João de Deus para o amor; n'elle começa a terceira phase da Eschola de Coimbra. Ninguem sentiu melhor o idealismo camoniano, perdido desde o fim do seculo XVI, ninguem levou a fórma á mais alta perfeição, ninguem como elle exerceu ainda uma acção mais funda e salutar na transformação da poesia portugueza. É o mestre de nós todos. Deixou entre as gerações escholares uma tradição luminosa como de um provençal, e a sua organisação absolutamente artistica prejudica-o no conflicto de uma sociedade burgueza. O que lhe faltava, e que esterilisava as suas faculdades creadoras, suppriram-n'o os poetas do periodo indisciplinado da Eschola de Coimbra, que por seu turno actuaram sobre o genio de João de Deus; suppriram-n'o pelo estudo, primeiro, de Quinet e Michelet, depois de Vico, Hegel e Augusto Comte, d'onde provieram esses dois ramos da poesia revolucionaria, socialista representada pelas Odes modernas, e da concepção philosophica da historia realisada na Visão dos Tempos. N'este caminho a poesia portugueza achou outra vez o seu destino. O que provinha da anarchia metaphysica dispendeu-se em um clarão repentino[8], o que conduziu para a synthese positiva tornou-se fecundo, produzindo a exploração scientifica das tradições da nacionalidade portugueza, a creação da nossa historia litteraria, e a base critica para o estudo da nossa pedagogia, da politica e da previsão do que é preciso que se faça. Á influencia das Odes modernas pertence essa poesia chamada satanica, de um pessimismo á Baudelaire, facil de imitar e mais facil em illudir o gosto dos que aspiram a uma ordem nova. A Visão dos Tempos, pouco imitada no pensamento, exerceu maior influencia pela fórma da versificação e dos poemetos; o pensamento era converter em mythos modernos e conscientes a concepção philosophica das grandes epocas da humanidade, ao contrario dos mythos anonymos e inconscientes das edades primitivas que ainda hoje nos estão atrazando; a fórma procurava alliar a acção de Garrett com a de João de Deus. A apparição d'este espirito novo está ligada a uma grande pugna litteraria, encetada com a carta intitulada Bom senso e bom gosto e Theocracias litterarias[9]. A esse impulso appareceram novos obreiros, que inauguraram a sciencia da Linguistica e da philologia romanica, e a Archeologia artistica; a educação scientifica elevou-se, como se viu na nova questão litteraria do Fausto e na Bibliographia critica de Historia e litteratura; a critica dos costumes achou a sua direcção nas Farpas, e o romance attingiu a sua admiravel perfeição realista no Crime do Padre Amaro. A falta de efficacia de todo este movimento provém da desmembração dos obreiros. Pelo criterio ethnico da historia litteraria e pela philologia, é que a poesia brazileira e gallega foram comprehendidas como fórmas homogeneas do lyrismo portuguez; longo tempo desprezadas, é d'ellas que ha de vir o descobrir-se o verdadeiro espirito d'este lyrismo nosso, que apenas se faz valer não pelo que tenha de nacional, mas sómente pelo modo como serve a ideia revolucionaria.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Vid. Antologia portugueza, n.º 40.

[2] Vid. Antologia portuguesa, n.º 69.

[3] A estas trovas allude o bispo Frei João de Sam José Queiroz, nas Memorias: «O que entendo é que a maior parte das casas de Hespanha, está como as de Portugal, onde entra Maria Pinheira...» (p. 65.) Do principio do seculo XVI é essa quadra popular contra D. José de Mello, esmoler de D. Manuel, confirmado bispo da Guarda em 1517:

O bispo que deixa a Sé

Por se metter na Mesquita

Mouro foi e mouro é,

Pois d'ella se não desquita.

A voz popular apodava-o por nunca ter ido ao seu bispado, vivendo com D. Helena de Mesquita, de quem teve filhos, e a quem fez abbadeça. (Ms. da Academia, G. 5., Est. 8, n.º 50.)

[4] Canc. popular portuguez, p. 40.

[5] Eis um epigramma tradicional ácerca da batalha de Montes-claros:

Passou da marca o Marquez,

No valor e ousadia,

Sam João teve o seu dia

Aos dezesete do mez.

O meu Cezar d'esta vez

Soube vir ver e vencer.

Com Jaquez não ha perder,

Menezes todo he Luiz,

O Diniz fez o que quiz,

Não ha mais Flandres que Schomber.

Fonseca, Evora gl. p. 181.

[6] Até 1839 attribuia-se ao Dr. Jose Anastacio da Cunha a poesia a Voz da Razão; hoje temos a prova de que foi Bocage o seu auctor. Deixemos aqui esse processo critico, já que o não podémos incluir no nosso livro Bocage, sua vida e epocha litteraria. No processo do Santo Officio contra Jose Anastacio da Cunha não se allude nem remotamente á Voz da Razão, e Innocencio (Dicc. bibl., t. IV, p. 225) sustenta como absolutamente infundada a opinião vulgar, não se atrevendo comtudo a poder determinar quem fosse o verdadeiro auctor. A favor de Bocage apresentamos os seguintes factos: 1.º Na edição da Voz da Razão, de 1822, é que se lhe impoz este titulo, porque nos diversos manuscriptos corre quasi sempre com o titulo de Verdades singelas, e se ligava com as Verdades duras, titulo com que o Intendente Manique apprehendeu a Pavorosa de Bocage em 1797. 2.º Na carta 1.ª ao seu amigo Anelio, o auctor da Voz da Razão chama-se a si mesmo Lidio; se nos lembrarmos que só desde 1790 é que Bocage deixou de se assignar L'Hedois de Bocage, está achado o cryptonymo poetico com que se designava n'estas composições. 3.º Excluida a paternidade do Dr. José Anastacio da Cunha, cujo ideal poetico era outro, como se vê pela Oração universal, em quem, se não em Bocage se pode encontrar essa audacia e fórma popular de bom senso? Crêmos que é um problema resolvido.

[7] Uma carta de A. Herculano, dirigida a Soares de Passos em 5 de agosto de 1856, na qual lhe diz «fui poeta até aos vinte cinco annos» termina considerando-o como successor de Garrett. Herculano protestou sempre contra a bajulação insciente que dava a Castilho o primeiro logar entre os lyricos modernos portuguezes. (Vid. prologo das Lendas e Narrativas.)

[8] No vol. XIII do Instituto de Coimbra, p. 239 em um artigo sobre o futuro da Musica, do sr. A. de Quental se lê: «Não creio que o positivismo um tanto estreito de A. Comte, Littré e da ultima eschola franceza, nos dê completa a philosophia do futuro. Mas se o alargarmos, segundo o espirito do hegelianismo, a ponto de caber n'elle a Metaphysica excluida por A. Comte (tendencia que já se nota em Taine, Renan e Vacherot, e no positivismo inglez de que é chefe Stuart Mill) n'esse caso tenho para mim que a Philosophia assentará n'uma base tão solida, que não será muito aventurar dizer que está achada e definitivamente constituida a philosophia do futuro.»

[9] Ha curiosos que a muito custo conseguiram colleccionar os numerosos folhetos, que pollularam como mosquitos do nosso mephitismo litterario, por esta occasião. É o documento mais espontaneo e inconsciente do marasmo intellectual a que se havia descido. Vid. art.º Bom senso e bom gosto, no Supp. ao Dicc. bibl. de Innocencio.

II

A poesia lyrica do Brazil encerra um grande facto ethnologico; d'elle derivaremos a sua comprehensão e o porque da sua originalidade. Esse lyrismo é superior em vehemencia sentimental e em novidade de fórmas ao lyrismo portuguez; e comtudo dá-se n'essas fórmas tão caracteristicas um phenomeno de regressão, pelo qual tomam vigor typos estrophicos conservados pelos antigos colonos portuguezes, mas totalmente esquecidos na mãe patria, que só agora por um processo de erudição se vão encontrar nos seus velhos Cancioneiros palacianos. O ardor, a passividade, a morbidez que toma a linguagem das emoções, o desalento ou a acedia da vida, mesmo a facilidade com que tornam natural a imitação de Byron e de Musset, resultam de um temperamento contrahido pelo cruzamento dos primeiros colonos portuguezes com as raças ante-historicas do Brazil[10]. Quando o Brazil começou a ser povoado, e as suas feitorias se convertiam em cidades, ainda em Portugal apparecia casualmente nos versos de Christovam Falcão, Gil Vicente, Sá de Miranda e Camões algum vago fragmento de Serranilha galleziana, genero lyrico de origem popular, que pela sua belleza chegára a penetrar nos Cancioneiros aristocraticos. Foi este typo lyrico, decahido na metropole pela imitação castelhana do seculo XV, e pela imitação italiana no seculo XVI, que reappareceu nos costumes coloniaes, adquirindo importancia litteraria, a ponto de vir a apoderar-se de novo, sob a fórma brazileira da Modinha, do gosto da côrte e da sociedade portugueza do seculo XVIII. Essas estrophes cadenciadas com retornellos de enlouquecer e com tonadilhas de uma melodia sensual, que hallucinavam o proprio Beckford, eram cantadas essencialmente por mulatos[11]. Aqui está o problema ethnico, cuja importancia não escapa aos modernos antropologistas. Diz Quatrefages: «Posto que os cruzamentos modernos não remontem além de tres seculos, tem já produzido resultados que põem fóra de duvida, que, raças, notaveis sob todos os aspectos, pódem provir da mestiçagem. Os Paulistas do Brasil são um exemplo frisante. A provincia de Sam Paulo foi povoada por portuguezes e açorianos[12] vindos do velho mundo, os quaes se alliaram aos Guayanazes, tribu caçadora e poetica, aos Carijos, raça bellicosa e cultivada. D'estas uniões regularmente contrahidas, resultou uma raça, cujos homens têm-se sempre distinguido pelas suas proporções, força physica, coragem indomavel, resistencia ás mais duras fadigas. Quanto ás mulheres, a sua belleza fez nascer um proverbio brasileiro que attesta a sua superioridade. Se ella se accentuou outr'ora por expedições aventureiras para a exploração do ouro ou da escravatura, foi ella tambem quem primeiro fez a plantação da canna do assucar e a creação de gados.» Apoiando-se sobre as observações de Ferdinand Denis, Quatrefages transcreve estas palavras: «Hoje em dia o mais auspicioso desenvolvimento moral, como o renascimento intellectual notabilissimo, parecem pertencer a Sam Paulo[13].» Na poesia popular brazileira ainda se encontra a coexistencia das duas raças no mixto das canções em lingua portugueza e tupi, tal como na edade media da Europa encontramos a fórma do descort; eis uma amostra da tradição do Pará, e do Amazonas:

Te mandei um passarinho

Patuá mirá pupé,

Pintadinho de amarello

Yporanga ne iavé.

Vamos dar a despedida

Mandú sarará,

Como deu o passarinho,

Mandú sarará;

Bateu aza, foi-se embora

Mandú sarará,

Deixou a penna no ninho

Mandú sarará[14].

A tradição das raças ante-historicas conserva ainda fabulas mythicas, como a da origem da noite, a do Jabuti, e muitas d'ellas entraram como contos populares na vida domestica de Sam Paulo, Goyaz e Matto-Grosso, taes como a historia de Saci Sereré, Boitatá e Curupira. É este elemento tradicional vigoroso que faz despontar na litteratura brazileira essa esplendida efflorescencia das creações epicas no seculo XVIII, como o Uraguay, o Caramurú, e ainda no seculo XIX os Tymbiras, e Confederação dos Tamoyos. Mas deixemos de parte esta ordem de creações que depende do sentimento da nacionalidade nas civilisações modernas. O ardor das paixões do mestiço, a sua dissolução servida por uma voluptuosidade artistica, como a poesia ou a musica, tornam estas duas fórmas aphrodisiacos inebriantes e communicativos, que dão em terra prematuramente com os talentos mais auspiciosos, como Alvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves e Varella. A vida domestica resente-se d'este fervor, e os costumes publicos manifestam por outro lado recorrencias de usos peculiares do tupi (os bagachas). O cruzamento primitivo fez redobrar a intensidade sentimental; quem se lembra da velha phrase de Lopo de Vega: «Eu, senhora, tenho olhos de criança e alma de portuguez» só a póde comprehender agora diante da exaltação do brazileiro. Nós somos hoje menos alguma cousa.

A persistencia do typo tradicional da Serranilha galleziana na colonia do Brazil liga-se e explica-se pela descoberta de um grande facto desconhecido até hoje na historia da humanidade—a civilisação da raça turaniana[15]. O problema desdobra-se em duas questões, que se ligam e se explicam. Nas fórmas lyricas da Europa da edade media, apparecem cantos communs á Italia e Sicilia, á França meridional, Aquitania, Galliza e Portugal. Esta unidade do lyrismo novo-latino levou a suppôr uma origem commum para todas as litteraturas meridionaes. Por outro lado a persistencia d'esse typo lyrico no Brazil, explicar-se-ha não só pelo isolamento e espirito archaico colonial, mas pelas grandes analogias com os cantos lyricos dos tupinambás, e sobretudo pela descoberta da ethnologia moderna da origem turaniana das raças ante-historicas da America. Tratemos separadamente de cada uma d'estas questões de litteratura comparada.

Um problema importante tem sido proposto pelos philologos romanicos sobre as analogias intimas entre as fórmas lyricas da poesia moderna das litteraturas nova-latinas, a começar da Provença. Dando conta na Romania, da publicação dos Canti antichi portoghesi, diz M. Paul Meyer: «Je remarque que plusieurs des piéces editées par M. Monaci (n.ᵒˢ IV, IX) sont fort analogues, pour le fond comme par la forme, à nos anciennes ballettes (voir celles que j'ai publiés dans mes Rapports, fl. 236—9) ou aux baladas provençales. Je n'en conclue pas que les poésies portugaises qui ont cette forme soient imitées du français ou du provençal, mais qu'elles sont conçues d'après un type tradicional qui a du être commun à diverses populations romanes sans qu'on puisse determiner chez la quelle il a été crée[16].» N'estas palavras se indica o problema da unidade do lyrismo moderno: nenhum philologo conseguiu ainda explicar a origem d'esta identidade de fórmas. O meio para o resolver está no criterio ethnico e comparativo; em primeiro logar a zona d'onde irradiou o lyrismo que se propagou para a Provença, Italia, Sicilia, Galliza e Portugal, foi na Aquitania; é tambem pelo criterio ethnico que se conhece que n'esta zona existiu uma raça iberica, absorvida pelos immigrantes indo-europeus, raça cujas tendencias e até fórmas lyricas peculiares se confirmam pelos hymnos acadicos modernamente traduzidos pelos assyriologos. As recentes descobertas da civilisação turaniana, que antecedeu as grandes civilisações historicas, a persistencia das superstições accádicas dos cultos magicos na Europa da edade media, tornam este facto da unidade do lyrismo como uma simples evolução.

O estudo comparativo das litteraturas tem levado a aproximar certas formas tradicionaes muito antes de se conhecer se entre ellas existiria alguma connexão historica; as analogias intimas têm por vezes conduzido a procurar essas relações, que se vão verificando do modo mais surprehendente. No lyrismo popular da Europa, a começar desde a epoca provençal, existem formas espontaneas, taes como as Pastorellas, que se repetem em todos os povos meridionaes, sem que estas differentes nacionalidades, tão separadas pelo regimen monarchico, se imitassem mutuamente; este genero de cantos penetrou na litteratura da egreja da edade media, sob a forma de Prosas, e nos Cancioneiros aristocraticos sob a forma de Serranilhas e Dizeres. A diffusão commum d'este genero de origem popular era attribuida á situação geographica especial da Aquitania, cujas escholas trovadorescas podiam influir simultaneamente em França, na Italia e em Portugal e em Hespanha; o estudo ethnico da Aquitania leva a descobrir que esse territorio foi primitivamente occupado pela raça ainda agora representada pelo Basco actual, isto é, pela raça turaniana. N'este mesmo typo de cantos lyricos entram as pastoraes sicilianas; e a Serranilha portugueza foi encontrar nas colonias do Brazil analogias com os cantos dos tupis, modernamente filiados no mesmo tronco turaniano. Eis determinada uma origem ethnica commum para explicar as analogias de uma vasta tradição lyrica popular. Pelas modernas leituras dos documentos cuneiformes, têm-se conhecido o eminente genio lyrico da raça turaniana conservado na inspiração perpetuada nos hymnos accadicos. Sobre este ponto são de grande auctoridade as palavras de F. Lenormant, explicando alguns d'esses hymnos: «Ao mesmo tempo elles nos revelam no povo de Accad um verdadeiro impulso de inspiração poetica, que exerceu uma acção decisiva sobre os começos da poesia semitica e contribuiu para formar-lhe o seu genio. Ha ali um lyrismo que attinge por vezes uma grande elevação, e que desde já deve revindicar o seu logar na historia litteraria do Oriente antigo. Além d'isso, a critica deve tambem attender aos fragmentos de um lyrismo mais familiar, popular e gnomico, que parece ter tido entre o povo de Accad um grandissimo desenvolvimento, e do qual os hierogrammatas do Assurbanipal formaram collecções. São proverbios rythmados, provenientes de antigas canções. Já se publicou a copia de um tijolo que contém um grande numero d'elles, e M. Oppert já notou a importancia d'esta collecção traduzindo alguns dos seus proverbios... De mais, M. George Smith annunciou ter descoberto nas suas excavações recentes na Assyria uma outra collecção egual, que entregou ao Museu Britannico. Ha d'este lado uma mina a explorar, e que promette ser fecunda.

«Alguns proverbios não consistem em mais do que uma simples phrase, extraída evidentemente de um canto mais desenvolvido, e que a felicidade da expressão tornara sem duvida proverbial, como esta sobre o calcadouro da colheita:

—Diante dos bois, que caminham a passos apressados sobre as espigas, ella calcou vivamente.

«Muitas vezes cada um d'elles forma um todo completo no seu laconismo, uma pequena canção de alguns versos,—se é que se permitte esta expressão quando ainda é desconhecido o rythmo e o metro—que lembra as velhas canções populares chinezas do Chi-King. Em geral o pensamento é de uma lhaneza delicada, ás vezes maliciosa e um pouco melancholica, com uma feição de philosophia pratica. Tal é este pequeno trecho, que exprime a inutilidade dos esforços excessivos:

—Eu fiz ir bem para o alto meus joelhos,

a meus pés não deixando repouso,

e, sem nunca ter descanço,

o meu destino afastou-se sempre...

«Outros, finalmente, entre estes curtos trechos nos conduzem ao meio da vida dos campos e dos seus usos; são numerosos na collecção publicada, e attestam claramente a sua origem popular. Eis aqui por exemplo uma Canção com dois retornellos, que se devia cantar em alguma festa campestre á qual se attribuia uma influencia de bom augurio sobre a safra das messes:

O trigo que se alevanta direito

chegará ao cabo do seu bom tamanho:

o segredo

nós conhecemol-o.

O trigo da abundancia

chegará ao cabo do bom crescimento;

o segredo

nós conhecemol-o[17]

É este rigorosamente o typo das Pastorellas provençaes, italianas, gallezianas, portuguezas e hespanholas, dois versos assonantados com um estribilho sempre repetido. Vejamos um paradigma portuguez:

Vayamos, irmana, vayamos dormir

nas ribas do lago, hu eu andar vi

a las aves meu amigo.

Vayamos, irmana, vayamos folgar

nas ribas do lago, hu eu vi andar

a las aves meu amigo! etc.[18]

O mesmo se repete nos cantos populares liturgicos da edade media, derivados de uma corrente desconhecida da tradição popular. Lenormant achou grandes analogias entre a forma d'essas Pastorellas accadicas e as cantigas chinezas da collecção Chi-King; de facto o turaniano é uma raça mixta da branca e amarella, e a concepção chineza naturalista do Thian é a mesma dos espiritos elementares da Chaldêa, o espirito do céo Zi-Anna, dos turanianos. Por ultimo o typo dos Proverbios de Salomão é tambem fixado por Lenormant nos velhos hymnos accadicos. Todos estes factos estão em harmonia com as recentes descobertas da historia, que tanto as civilisações semiticas como aryanas se fundaram sobre os progressos já realisados pela mais poderosa das raças ante-historicas, a turaniana.

Sob este criterio novo, as raças da America apparecem como um grande ramo turaniano, cujas linguas são agglutinativas, cujas crenças são um fetichismo atrazado: «São mui dados a feitiços, e o feiticeiro que ha em cada aldeia é o seu oraculo[19].» D'Assier recorda um facto importante: «lembram o typo mongolico, a ponto de um d'elles... criado de Augusto Saint Hilaire, vendo um dia uns chinezes n'uma rua do Rio de Janeiro, correu para elles chamando-lhes tios[20].» Em Cuyabá e no Paraguay existem aterros artificiaes em que se levantam edificações, como costumavam fazer os turanianos de Babylonia e da Assyria; a sua chronologia baseava-se sobre o anno lunar[21] como no primitivo systema chronologico dos turanianos do Egypto; e entravam nas batalhas, ululando, tal como descreve Silio Italico, das tribus ibericas[22]. Finalmente, as analogias das linguas americanas com o sansckrito, explicam-se por um grande fundo de vocabulos turanianos das raças vencidas (sudras, kadraveas) sobre que se constituiu a civilisação aryana. Assim os factos são trazidos ás suas causas naturaes.

No livro recente l'Origine turanienne des Américains Tupis-Caribes, já se procura verificar esta grande these ethnographica, que liga as raças das duas Americas á raça mestiça que prestou os primeiros elementos ás civilisações do Egypto e da Chaldêa. Alguns dos caracteres do tupi coincídem com o genio turaniano, como o gosto da poesia e da musica; no manuscripto do Roteiro do Brazil, da Bibliotheca de Paris, o tamoyo é descripto como grande musico e bailador; e os tupinambás eram os rhapsodos, improvisando Areytos segundo esse genio epico que na Chaldêa inventou o poema de Isdubar, no Mexico o Popol-Vuh, e na Finlandia o Kalevala. Os seus cantos lyricos, entoados ao som da maraca e do tamboril constavam de refrens rimando com o ultimo verso da estrophe, e podendo ser considerados como voltas sobre motes improvisados; esta caracteristica, ajudando a facilidade da improvisação, os dialogos ajudando a monotonia da melopêa, tudo leva a presentir em germen o mesmo typo poetico que na Europa deu a Ballada, a Pastorella e a Serranilha; d'aqui a espontaneidade da confusão da poesia dos dois povos, e o motivo da persistencia da Serranilha portugueza na Modinha brazileira e no seu lyrismo moderno.

Os cantos funebres conservam a mesma designação tanto entre os Tupis como no Béarn; lá são os Areytos, e aqui os Aurusta. Os cantos funebres são communs a todos os povos meridionaes em que existe elemento turaniano; taes são os Lamenti ou Triboli em Napoles, os Attitidos na Sardenha, os Voceri, na Corsega, na Bretanha, os Aurost no Béarn, e as Endexas e Clamores em Portugal e Hespanha. Gonzalo Fernandes de Oviedo, na General y Natural Historia de Indias, emprega a designação de Areyto, como o romance narrativo hespanhol:[23] «ni los niños é viejos dejarán de cantar semejantes areytos...»

E o auctor do livro Origine turanienne des Américains, tambem a emprega no sentido epico: «La litterature des Tupis, comme celle des Caribes, ne se trouvait que dans les Areytos, ou traditions des hauts faits de leurs devanciers, qu'ils chantaient en dansant, au son d'instruments.»[24] Na Europa, como vimos, persistiu a designação no Aurust, do Béarn, e, segundo a phrase de Oviedo, parece ter sido empregada em Hespanha, como a Aravia o foi em Portugal[25]. As lamentações dos mortos nas Vascongadas chamam-se Arirrajo, forma proxima do Areyto e do Aurust[26].

Do canto funebre dos bearnezes, os Aurusta, fala o collector das Poésies bearnaises, (p. VII, ed. Pau, 1852): «nos funeraes, quando a familia do defunto, para celebrar sua memoria, não pode senão achar lagrimas, duas mulheres, poetisas de profissão, semelhantes ás Voceratrices da Corsega, improvisam coplas cantadas sobre um tom lamentavel: uma lembra as boas acções do defunto, e a outra as más, imagens d'estes dous genios do bem e do mal que parecem conduzir o homem na vida; este uso que se encontra entre outros povos, mas que em nenhum apresenta um caracter tão eminentemente religioso e moral, tem o nome de Aurusta[27].» Em uma edição anterior d'este livro, com o titulo de Chansons et Airs populaires du Béarn, colligidas por Frederic Rivares, se define precisamente esse genero: «Os funeraes apresentam uma particularidade notavel. Logo que o doente exhala o ultimo suspiro, o seu corpo é estendido no chão, no meio da casa, e rodeado de uma multidão de mulheres que oram e velam lançando a espaços gritos lamentosos e medonhos gemidos. A mulher do defunto e os parentes mais proximos estão á frente das carpideiras e improvisam cantos em que são celebradas as suas virtudes. Este signal de dôr e affeição acompanham o morto até á ultima morada, e a occasíão em que a terra vae cobrir os caros despojos é indicada por uma explosão de gritos e de lamentações.

«Portanto o Aurust (é assim que se chama este canto) contém outras vezes mais do que louvores; é antes um julgamento do que uma oração funebre, e mais do que uma vez os parentes e o clero foram escandalisados por improvisos mais proprios para denegrir o morto e mesmo os vivos do que a excitar as magoas da sua perda[28]

Um canto lyrico do bearnez Navarrot Lous adious de la ballé d'Aspe, refere-se a este costume do seu paiz:

Qué dic, praübeit, l'amne qué s'em desligue

Daüme abadesse a biénét m'aurousta[29]!

Traduzido em portuguez, corresponde litteralmente:

Que digo, pobres, a alma que se me desliga,

Dona abadessa vinde-me aurustar (carpir).

Na epoca de D. João I ainda era costume em Portugal bradar sobre finado, e existia o costume das carpideiras, como entre os turanianos da Caria.

Na moderna nacionalidade brazileira, a lingua tambem se vae alterando, constituindo um verdadeiro dialecto do portuguez; cada um dos elementos da mestiçagem contribue com as suas alterações especiaes[30]. O elemento colonial modifica a accentuação phonetica, de um modo mais exagerado do que nas ilhas dos Açores; o som do s, como o ch gallego, torna-se sibilante e mavioso sobretudo nos pluraes; as construcções grammaticaes distinguem o se condicional do reflexivo si, e os pronomes precedem os verbos, como: Me disse, em vez de disse-me. No vocabulario, o portuguez conserva os seus provincianismos actuaes, e os archaismos do tempo da colonisação. Da parte do elemento ante-historico, uma certa indolencia na pronuncia exerce a grande lei da queda das consoantes mediaes e vogaes mudas; assim senhor é siô; senhora, sinhá; os finaes das palavras vão se contrahindo, perdendo os seus suffixos caracteristicos, como pió em vez de peor, casá, em vez de casar. Na parte do vocabulario é que se nota mais profundamente a acção do elemento ante-historico, pela profusão innumera de palavras de lingua tupi introduzidas na linguagem familiar de todo o imperio[31]. Algumas d'essas palavras já vão penetrando na lingua portugueza continental pelo regresso dos colonos ricos[32], assim como nas guerras de Flandres os soldados portuguezes trouxeram esses vocabulos que se chamaram frandunagem. A lucta instinctiva para manter a pureza da lingua portugueza está ligada ao facto politico da preponderancia do sangue portuguez na constituição da nova nacionalidade; assim na provincia onde o portuguez é mais archaico, em Minas Geraes, o elemento portuguez é puro e continúa a ser catholico como no seculo XVI, e conservador timorato. Nas provincias onde prevalece o cruzamento das raças selvagens, existe o espirito revolucionario, como em Sam Paulo, e o odio ao portuguez puro como em Pernambuco. Aqui estão as condições necessarias para um permanente estimulo contra a acção enervante do meio climatologico, um movel de energia scientifica e industrial; a capital do Rio de Janeiro pelo seu inextricavel cosmopolitismo está destinada a realisar o accordo de todos estes elementos para a obra da autonomia nacional, cujo sentimento, transparecendo já na litteratura, revela que o destino d'ella é identificar todas as divergencias n'este mesmo sentimento.

O moderno lyrismo brazileiro representa nas suas fórmas materiaes ou estrophicas a velha tradição das Serranilhas portuguezas tão bem assimiladas pelo turaniano da America; a ardencia explosiva da paixão amorosa, a lubricidade das imagens, a seducção voluptuosa do pensamento, accusam o sangue do mestiço, devorado pelo seu desejo, como em Alvares de Azevedo ou Casimiro de Abreu. A creação definitiva da litteratura brazileira consiste em tornar estes factos conscientes.

NOTAS DE RODAPÉ:

[10] «Como na America do norte o Anglo-saxonio, fundindo-se com o pelle vermelha, produziu o Yank, representante de uma nova civilisação, assim o latino, fundindo-se com o tupi, produziu essa raça energica que constitue a quasi totalidade da população de S. Paulo e Rio Grande, e a maioria do novo imperio.» Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem, p. XX.

[11] Na visita pastoral de 1761, o bispo do Grão Pará, Frei João de S. José Queiroz allude á paixão das Modinhas, que achou confundidas com os cantos religiosos: «ouvimos missa, a qual foi cantada pelas suas indias e mamelucas a quatro vozes bem ajustadas, e no fim varias cantatas devotas e de edificação sobre o que lhe fizemos uma pequena pratica em louvor do canto honesto e ao mesmo tempo invectiva contra o lascivo das Sarabandas e Modas do tempo.» Mem., p. 210.

No fim do livro dos Lyricos brazilleiros apresentamos uma pequena collecção de cantos populares; os cantos epicos ou romances conservaram o nome de Xácaras, não com sentido de dialogo, como as Xacarandinas hespanholas e portuguezas do seculo XVII, mas por se conservarem nas relações domesticas nas Chacaras ou fazendas do interior.

Os cantos lyricos conservam ainda o nome de Lunduns, designação que se encontra em Sá de Miranda, e em Nicolau Tolentino:

Em bandolim marchetado

Os ligeiros dedos promptos,

Louro peralta adamado

Foi depois tocar por pontos

O doce Lundum chorado. (Obras, p. 250)

O titulo d'este canto lyrico ainda se conserva nas Ilhas dos Açores dado especialmente aos bailhos de terreiro, bem como o Batuque, ainda conservado entre os Cururueiros de Cuyabá. As Sarabandas, estão hoje totalmente esquecidas em Portugal, significando esta palavra toda a admoestação aspera. O estudo dos cantos populares brazileiros não poderá ser bem feito sem o processo comparativo com os cantos do Archipelago açoriano. No estudo de Ferreira da Costa, que procede a edição das Poesias de Natividade Saldanha, allude este escriptor com favor excessivo aos nossos trabalhos sobre a poesia popular portugueza, e remata incitando ao mesmo trabalho os litteratos brazileiros: «Seria muito para desejar, que nas diversas provincias se recolhessem as cantigas populares aliás tão abundantes entre nós, a fim de se não perderem completamente no futuro. E aquelles que se lançarem a este campo com muitas difficuldades terão de luctar, mas prestarão um relevante serviço ao paiz. Muitos julgarão taes estudos uma verdadeira inutilidade, sem o menor valor; entretanto merecem elles todos os cuidados como elementos para a formação da litteratura popular. Praza a Deus, que muitos se lancem n'essa rica ceara, e tragam ao publico as suas colheitas.» (Ap. Poesias de J. da Natividade Saldanha, p. LXV, not. 28.)

[12] Ainda hoje as festas do Espirito Santo são como nas ilhas dos Açores. A lenda do Curupira tem analogias com o Encantado, da ilha de S. Miguel.

[13] Quatrefages, L'Espèce humaine, p. 209-210. Paris, 1877.

[14] Ap. Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem no Brazil, P. I, p. 144-5. Rio de Janeiro, 1876.

[15] Os mais severos philologos rejeitam esta designação quando applicada para exprimir o grupo das linguas ouralo-altaicas; porem como facto ethnico, comprehendendo sob o nome de turanianos os povos de côr amarella e vermelha, com analogias nas mesmas formas de civilisação, é uma descoberta indisputavel, que derrama uma luz immensa sobre a historia do Egypto, da Chaldêa e da Asia pre-vedica, nas suas relações com a America.

[16] Romania, t. VI, p. 265.

[17] Lenormant, Les Prémières Civilisations, II, p. 198-201.

[18] Canc. do Vaticano, p. 902.

[19] Revista trimensal, t. XXXVI, p. 11.

[20] Le Brésil contemporain, p. 71.

[21] Jean de Leri, Historia navigationis in Braziliam, p. 79.

[22] Idem, ib. p. 178.

[23] Op. cit., P. I. liv. 15, cap. I.

[24] L'Origine, p. 22.

[25] A designação peruana de Yaravi é applicada a cantos epicos tradicionaes, e na raça polynesica o cantor dos poemas heroicos das tribus chama-se Arepos. (Quatrefages, L'Espèce humaine, p. 144). No seculo passado tinhamos um canto chamado Arrepia. Tudo nos leva a crêr que a designação popular de Aravia, é um vestigio turaniano nada incompativel com qualquer influencia arabe, por isso que o arabe tambem propagou na Europa as superstições turanianas como prova Lenormant, no livro La Magie, Chez les Chaldéens.

[26] Francisque Michel, Pays Basque, p. 273.

[27] E. Vignancour, Poés. bearn., 2.ª ed.

[28] Op. cit., p. XV.

[29] Poésies bearnaises, p. 214.

[30] «Os sertenejos dizem: Elles estão falla fallando, para indicar que elles estão fallando muito. Numerosas formas da lingua tupi passaram para o portuguez do povo; e como é o povo quem no decurso de seculos elabora as linguas, essa se hade transformar ao influxo principalmente d'essa causa, de modo que dia virá em que a lingua do Brazil será tão diversa do portuguez, quanto este é do latim.» Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem; I. Curso de lingua tupi, p. 79.

[31] «O cruzamento d'estas raças ao passo que misturou os sangues, cruzou tambem (se me é licito servir d'esta expressão) a lingua portugueza, sobretudo a linguagem popular. É assim que, na linguagem do povo das provincias do Pará, Goyaz e especialmente de Matto-Grosso, ha não só quantidade de vocabulos tupis e guaranis accomodados á lingua portugueza, e n'ella transformados, como ha phrases, figuras, idiotismos, e construcções peculiares ao tupi. Este facto mostra que o cruzamento physico de duas raças deixa vestigios moraes, não menos importantes do que os do sangue.» Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem, p. 76.

[32] Temos Caipira, etc.

III

Entre os differentes dialectos romanicos da peninsula nenhum recebeu mais prematuramente a forma escripta do que o gallego, pelo qual se introduziu a poesia provençal nas côrtes de Portugal e de Hespanha[33]; por circumstancias politicas nenhum perdeu tão cedo a vida litteraria, ficando apenas fallado por um povo desde muito tempo annullado pela absorpção castelhana. Ao formarem-se as primeiras litteraturas da peninsula, o gallego foi a linguagem em que se poetava na côrte de Castella, como se vê pelas Cantigas de Affonso o Sabio, e na côrte de Portugal, como está bem patente nas mil duzentas e cinco canções do Cancioneiro da Vaticana, e nos centenares de canções da collecção da Ajuda; por esse dialecto hoje desprezado, admittido apenas para uso das relações intimas das necessidades infantis, é que se podem explicar certas formas litterarias, como as Serranilhas, e certos phenomenos linguisticos do portuguez e castelhano como o che por te e por pl. Effectivamente, a Galliza deve ser considerada como um fragmento de Portugal, que ficou fóra do progresso de nacionalidade. Apesar de todos os esforços da desmembração politica, a Galliza não deixou de influir nas formas da sociedade e da litteratura portugueza: nas luctas de D. Affonso II, refugiaram-se na Galliza bastantes trovadores portuguezes, como João Soares de Paiva, e nas luctas de D. Fernando, refugiaram-se em Portugal um grande numero de familias nobres da Galliza, como os Camões, os Mirandas, os Caminhas, d'onde provieram os grandes e os maiores escriptores da esplendida epoca dos Quinhentistas.

Nas epocas em que a litteratura portugueza fixava as formas da lingua, ainda bastantes vestigios do gallego transparecem inconscientemente na linguagem dos escriptores, quando se aproximam da dicção popular. No Cancioneiro de Resende, em um Vylancete do Conde de Vimioso, se acha o galleguismo:

querend' esquexer-vos (fl. 85, col. 6.)

Nas comedias de Jorge Ferreira, cheias de locuções populares, abundam estes factos: «pagam-se de bem che quero;» (Eufros., 259) «fallou o boi e dixo bee;» (ib. 279) na comedia Aulegraphia: «Sempre fostes d'esses dichos.» (fl. 37 v.) «o som de bem che farei e nunca lhe fazem.» (fl. 20); «minha madrinha é azougue, e joga o dou-che-lo com quantos aqui ancoram.» (fl. 59, v.) «Andaes vós a bons dichos de philosophos.» (fl. 76. v.)

Em Sá de Miranda, nas Eclogas, sobretudo quando imita a linguagem popular, pollulam os galleguismos:

Onde quer que cho demo jaz (Ed. 1804, p. 220.) Não sei quem che por famoso (Id. 291.) Antre nós che era outro tal. (Id. 223.) Disse então. E assi che vae? (Id. 232, passim.)

Dos Autos de Gil Vicente tiraremos os bastantes para se reconhecer este fundo da lingua:

Cha, cha, cha, raivaram ellas (Ob. t. I, p. 131.) Que a ninguem tanto mal quige (Id. p. 135.) Se xe m'eu isso soubera (Ib. p. 136.) Que te dixe, mana emfim? (Ib. p. 142.) Que homem ha hi-de pucha (Ib. p. 172.) Isto hi xiquer irá (Ib. p. 247.) A Deos douche alma dizer. (Ib. p. 261.) Assi xe m'o faço eu. (III, 162.)

Até em Camões ainda persistem as formas gallegas, como na cantiga:

Hei me de embarcar n'um barco;

e nos Lusiadas na expletiva a, tão peculiar do dialecto em que o grande epico chegou a escrever dois sonetos.

Bem cedo as relações ethnicas de Portugal com a Galliza foram desconhecidas, e este facto é uma consequencia do desprezo que os escriptores tiveram pela tradição nacional. O nome de gallego tornou-se desprezivel em Portugal, e os grandes poetas oriundos de familias gallegas usaram-no n'esse sentido. Assim diz Sá de Miranda em uma Serranilha:

Sola me dexaste

En aquel yermo

Villano, malo, gallego. (Ob., 1804, p. 404.)

E o proprio Camões, nos Lusiadas, deixou essa phrase injusta: «Oh sórdido gallego...» ao passo que o povo portuguez derivou da sua indole pacifica o velho amphigurí:

Duzentos gallegos

não fazem um homem...

As povoações do Alemtejo chamam gallegos a todos os moradores do Ribatejo, pela transmissão inconsciente de uma tradição perdida. Isto bastará para explicar o assombro que deve causar aos conterraneos o vêrem a poesia moderna gallega occupando um logar devido ao lado da poesia portugueza, como uma das suas formas archaicas; seguimos o rigoroso criterio scientifico, deixando as preoccupações vulgares.

Pelo estudo da poesia gallega, é que se podem comprehender as formas do lyrismo portuguez; e a desmembração d'esse territorio, que ethnicamente nos pertence e tem permanecido para nós extranho durante tantos seculos, é que prova a falta absoluta de plano na nossa vida politica. A verdadeira origem da tradição lyrica da Galliza está ligada á sua constituição ethnica; esse lyrismo provém da eschola da Aquitania, onde a raça pertencia, segundo Strabão, mais ao typo iberico do que ao gaulez. Segundo as modernas descobertas da Antropologia e da Linguistica sabe-se que o Ibero, ou o basco actual, é de raça turaniana. Quando Silio Italico, escrevendo no seculo I, faz no poema historico da Segunda guerra punica a lista dos diversos povos da Peninsula que acompanharam Anibal na expedição contra a Italia, diz da Galliza:

Fibrarum et pennœ, divinarumque sagacem,

Flammarum, misit dives Gallaecia pubem

Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis,

Nunc pedis alterno percussa verbere terra

Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras,

Haec requies, ludusque viris, ea sacra voluptas.

(Lib. III, V. 345.)

Esta descripção coincíde com muitos caracteristicos da raça turaniana. Acclarando as interpretações de Sarmiento, poremos em relevo este sentido novo. Nas Memorias para la Historia de la poesia y poetas españoles, diz este critico patricio de Feijó: «Primeiramente llama a este pais de Gallicia rico (dives) acaso por los varios y preciosos metales que de alli salian para los romanos, y aun hoy se benefician.» De facto sabe-se hoje que a industria metalurgica é de origem turaniana, e que os vestigios d'esta raça se encontram sempre junto dos grandes jazigos minereos. Diz mais Sarmiento: «supone que tenian idioma proprio y aun idiomas diferentes (propris linguiis). Esto contra los que imaginan un solo idioma nacional en toda España en tiempo de los carthaginezes.» A fusão das tribus turanianas com os celtas lygios (tal como se deu na Irlanda) formando os celtiberos, fazia-se notar aos romanos pelos seus differentes, dialectos. Continúa Sarmiento: «supone los gallegos devotos y religiosos, pues los supone con sacrificios y demas diestros y sagaces en consultar á sus dioses, y al extispicio de sus victimas, ya en el auspicio de las aves, ya finalmente en la observancia, aun que vana, de los movimientos, color, volumen, voracidad y direcion de las llamas de sus holocaustos.» As formas magicas da religião accadica, o culto do fogo, e os nomes de divindades naturalistas que se acham nas Inscripcões colligidas por Hubner, dão a prova demonstrada d'essa raça turaniana, que desceu do norte da Europa. Finalmente Sarmiento: «dice que usaban en sus diversiones, juegos y fiestas sagradas de hymnos, canto, musica y bailes: ulutantem... carmina... alterno verbere pedis... ad numerum resonas cetras[34]

Esta grande abundancia de cantos e hymnos sagrados, tal como se descobriram nos livros accádicos, levam-nos a fixar que sob a forma celtica, acobertada com o nome de Galliza, existe uma camada social turaniana, da antiga diffusão que occupava a Aquitania e a Sicilia. É justamente n'estes pontos que subsistem as fórmas lyricas analogas ás gallegas, e portanto nenhum conhecimento seguro se póde ter do genio d'este povo sem tirar a luz da sua origem turaniana, tão persistente na indole e fórmas da sua civilisação. Os instrumentos musicos a que cantavam eram, como diz Silio Italico, ritu moris Iberi... barbara cetra, o que confirma, que no primeiro seculo christão ainda era sensivel esse caracter turaniano. A acção exercida pelo elemento celtico, romano, e mais tarde suévico sobre a raça turaniana pelo menos até ao Mondego, é complexissima: o celta desenvolveu a tendencia poetica amorosa, fazendo esquecer pelas prescripções druidicas os cantos religiosos; o romano influiu na creação precóce de um dialecto e na industria agricola; a estabilidade do suevo, tornado pacifico pelas suas grandes derrotas, manteve essa passividade que o gallego conserva na constituição das modernas nacionalidades da Peninsula.

De todas estas camadas ethnicas se conservam vestigios poeticos, e com assombro o dizemos, na tradição actual; são de origem turaniana os cantos de Alalála; são celticos os Cantares guayados; são romanos os cantos de Ledino, são suevicas ou germanicas as Chacones. Falaremos d'aquelles cantos tradicionaes que explicam o lyrismo moderno.

O Alalála é a neuma patriotica dos cantos gallegos, que os romanos julgavam ser o ulular; é ella que hallucina o que está ausente da sua patria, e que o cura da saudade nostalgica, chamada em Hespanha morrinha gallega. Um proverbio vasconço diz: Bethico leloa, isto é, «o eterno lelo,» ou—antigo e persistente como este estribilho nacional, que Silio Italico tomou como caracteristico. Na poesia euskariana conserva-se este vestigio cantabrico, que pela sua aproximação dos costumes irlandezes, se vê que é o estribilho de uma canção funebre ou areyto:

Lelo, il lelo

lelo, il lelo

leloa zarac (çaray?)

il leloa.

Outras canções vasconças conservam o mesmo estribilho, tantas vezes considerado como um individuo:

Eta lelori bay lelo...

Etoy lelori bay lelo, leloa çaray leloa[35].

Na poesia popular portugueza ainda se encontra em Coimbra e Açores o estribilho:

Lari lole

Como vae airosa,

Com a mão na transa,

Não lhe caia a rosa[36].

Tudo isto se liga a um veio perdido da poesia primitiva da grande raça turaniana, como se confirma por um canto funebre da Irlanda sempre acompanhado como o estribilho ullaloo[37]. A demonstração torna-se mais rigorosa desde que este mesmo estribilho apparece entre raças isoladas, de origem turanica.

Diz o Abbade Bertrand: «Os Chulalanos nas suas festas cantavam, dansando em volta de Teocalli (casa de Deus) um canto que começava pelas palavras tulanian, hululaez, que não pertence a nenhuma lingua actual do Mexico... O grito de alegria dos Kaulchadales, alkalalai, lembra tambem a mesma fórmula pelas ultimas syllabas...» Os saxões caminhavam para a guerra ao grito de alelá, grito que é ainda o haleli das caçadas. Em uma canção portugueza do Cancioneiro da Vaticana, se repete Edoy (Etoy) lelia, leli, leli. Como se explica a persistencia d'este refrem primitivo, ao passo que se foi perdendo o genero poetico? Sabe-se que o Arabe trouxe para a peninsula um grande numero de superstições turanianas, e assim fez reviver formas quasi extinctas da civilisação que trazia; a Serranilha é de designação arabe, como os Fados, (Huda) e um dos sete atributos que os derviches repetiam frequentes vezes ao dia era: La ilahi ill'Allah (não ha deus senão Allah), que parece quasi o estribilho gallego moderno: Alalála, lála la.

No grande Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, ainda se encontra um vestigio das antigas cantigas de Alalála; pertence essa composição a Pedro Anes Solaz, e é do mais alto valor archeologico:

Eu, velida, dormia,

le-li-a, d'outra!

E meu amigo venia,

edoy le-li-a d'outra.

Nen dormia e cuydava

lelia d'outra!

E meu amigo chegava

edoy lelia d'outra!

O meu amigo venia

lelia d'outra!

E d'amor tambem dizia

edoy lelia d'outra.

O meu amigo chegava

lelia d'outra

E d'amor tambem cantava

edoy lelia d'outra!

Muyto desej'ey, eu amigo,

lelia d'outra,

Que vos tevesse comigo

edoy lelia d'outra!

Leli, leli, por deus lely

lelia d'outra!

Bem sey quem non diz leli

edoy lelia d'outra.

Bem sey eu quem diz lelya

lelia d'outra!

Demo xe quem non diz lelia

edoy lelia d'outra[38].

As varias formas poeticas, que se encontram na Europa, o liedle do dialecto suisso, o lied allemão, o liod irlandez, leod anglo-saxão, o leudus da baixa latinidade, o leoi irlandez, o lai bretão, correspondendo ao genero do lelo basco e Alalála galleziano, e lelia portuguez, accusam uma origem commum, que se pode explicar pela tradição lyrica da raça turaniana na Europa. O sentido da palavra lai, que ficou nas litteraturas como caracteristico de um genero lyrico, é especialmente musical.

Uma outra neuma caracteristica da Peninsula, mas já peculiar da raça celtica é o Guay, que chegou a constituir um genero dos cantares guayados, do que ainda falla Gil Vicente. Os romances peninsulares assim como começavam «Helo, helo, por do viene» tambem tem outro principio, como «Guay Valencia, Guay Valencia.» É aquelle grito celtico Woe! Woe! que ainda hoje se conserva na Escossia como uma vehemente expressão natural. A gaita de folles da Escossia é similhante á gaita gallega, em tempo admtida no exercito hespanhol como meio salutar na nostalgia dos recrutas da Galliza. Como o gaëls das montanhas da Escocia, que, longe da patria, na America do norte ou nas florestas do Canadá, falla o inglez, mas sonha e sente no dialecto gaëlico, é assim o gallego entregue aos trabalhos braçaes longe da sua patria, ou nas guarnições militares; as cantigas do Alalála, a Muiñera trazem-lhe á lembrança o ár das suas montanhas: Ayriños de miña terra, que elles aspiram n'esse hausto de saudade, Guay!

Vejamos como por seu termo a influencia do genio celtico faz prevalecer esse profundo caracter de unidade tradicional do lyrismo moderno. Na civilisação da Peninsula, a Galliza occupa uma posição excepcional como a Provença para com a França; a sua longa tranquilidade fel-a adoptar o gosto lyrico da Eschola da Aquitania; e assim como a poesia provençal foi o desenvolvimento litterario de cantos tradicionaes do meio dia da França (celto-romana) como ainda se descobre por uma rubrica de uma canção do conde Poitiers, na Galliza sugere as formas novas e o estylo lyrico popular aos trovadores portuguezes e castelhanos. Não basta sómente Strabão considerar os Aquitanios mais parecidos com os Iberos (da fusão celtibera) do que com os gaulezes (reconhecidos como raça scythica[39]) ha um fundo commum de poesia lyrica pertencente á Italia, á Provença, á Galliza, e a Portugal, que comprova a existencia de um mesmo elemento ethnico n'estes paizes. Onde povos celticos se cruzaram com iberos, ou tribus turanianas, persistiu a primitiva tradição lyrica. A publicação moderna de algumas Pastorellas provençaes levou a presentir pela comparação essa unidade. Os restos de Dizeres e Serranilhas, que Gil Vicente intercala nos seus autos, são vestigios de canções gallegas do seculo XIV, tal como se lêem no Cancioneiro portuguez da Vaticana[40].

Uma Pastorella de Guido Cavalcanti traz estes versos quasi identicos a uma das serranilhas de Gil Vicente:

E domandai si avesse compagnia?

Ed ella me rispose dolcemente

Che sola, sola per lo bosco gia[41].

E em Gil Vicente:

Cheguei-me per'ella com gram cortezia,

Disse lhe:—Senhora, quereis companhia?

Disse-me: Escudeiro, segui vossa via[42].

Em um poeta do Cancioneiro geral, achamos um vilancente immensamente parecido com uma canção bearneza e com outra do sul da Franca; eis o vilancente de Francisco de Sousa:

Abaix'esta serra

verey minha terra!

Oh montes erguidos,

Deixae-vos caír,

Deixae-vos sumir

E ser destroydos!

Poys males sentidos

Me dam tanta guerra

Por ver minha terra[43].

Na canção bearneza de Gastão Phebus, existem estes mesmos elementos tradicionaes:

Aquères mountines

Qui ta haütes soun,

M'empèchen de béde

Mas amous oun soun.

Si subi las béde

Ou las rancountrá,

Passéri l'ayguete

Chéus poü dem'nega[44].

Em um canto provençal moderno de Jasmim, ao referir-se aos refrens que ressôam pelos áres, intercala este vestigio tradicional das antigas pastorellas:

Aquellos muntaynos

Que tam hautos sun,

M'empachon de beyre

Mas amus un sun;

Baycha-bus, muntaynos,

Planos, hausabús,

Perque posqui beyre

Un sun mas amús[45].

A persistencia da tradição lyrica na Galliza, é que a tornou o centro de irradiação litteraria nas côrtes peninsulares onde o seu dialecto era empregado na linguagem poetica, como o provençal no norte da França. A conquista romana veiu muito cedo influir na constituição do dialecto gallego, sem alterar a tradição poetica; influiu bastante na forma da industria agricola. Diz Sarmiento: «Galicia, mi patria, es la Provincia que mas voces latinas conserva, y en especial en quanto toca á agricultura. Digolo, porque lei por curiosidad de verbo ad verbum, á Caton, Varron, Columella y Palladio[46].» A Galliza foi o primeiro territorio da Peninsula que sofreu e ficou submettido á invasão dos barbaros do norte; os Suevos, que se apoderaram d'ella eram um dos ramos mais civilisados das raças germanicas, e chegaram a estender o seu dominio até ao Tejo. A sua derrota, por Theodorico, na batalha de Urbius, restringiu-os ao territorio gallaico, e a sua adopção do catholicismo, fez com que o Suevo perdesse os seus mythos odinicos, e por tanto não pode elaborar os cantos epicos, que teriam sido um estimulo de resistencia e de cohesão nacional. Por causa do catholicismo entraram em conflicto com os Vandalos, que seguiam as doutrinas de Ario, e pelo catholicismo veiu a prevalecer a erudição morta das escholas latinas, dando ao novo dialecto uma forma bastante artificial. Uma vez privado das antigas ambições de conquista e da actividade das armas, o Suevo ficou sedentario, e pelas condições do territorio em que estava limitado, entregou-se ao trabalho da agricultura; o lyrismo desenvolveu-se sob as emoções da vida rural, mas a emphyteuse romana, e os direitos de mão-morta tornaram a lavoura um trabalho de servos e a Galliza um paiz de desgraçados. A influencia da lingua dos suevos sobre o gallego actual fazendo com que tivesse uma poesia muito mais cedo do que as outras linguas da Peninsula, é assim caracterisada por Helfrich e Declermont: «Comparando a vocalisação do dialecto suabio actual á do portuguez, julga-se ter achado a solução do problema. Foram os Suevos, que, primeiro do que todas as outras tribus germanicas se estabeleceram na Galliza, e admittindo que a lingua allemã recebesse na bocca dos Suevos, desde a sua primeira apparição historica, uma vocalisação distincta da do gothico, não custará a attribuir a intonação nasal, particular ao dialecto suabio, e que se encontra de uma maneira surprehendente no portuguez, á influencia da lingua dos Suevos sobre o novo-latino que acabava de se formar unicamente na Galliza[47].» E Sarmiento, tão investigador das antiguidades da Galiza, affirma: «Quando Portugal estaba em posesion de los Moros, se hablava ya en Galicia el idioma vulgar, aunque dudo que se escribiesse; como ni aun hoy se escribe. Pero esto no impide que se cantasse, e que en el se hiciesen varias coplas, que despues se pasaran al papel...» (op. cit., p. 200). D'estes cantos populares existem preciosos especimens no Cancioneiro da Vaticana, mas sobretudo existe a canção épica com que o genio do Suevo reagiu contra a invasão arabe da peninsula; tal é a tradição de Peito Burdello, gallega na forma, conservada em Portugal:

No figueiral figueiredo

A no figueiral entrei;

Seis nenas encontrara

Seis nenas encontrei...[48]

D'outras formas epicas conserva-se apenas a designação de Chacone, tambem commum a Portugal, Hespanha, França e Italia, como vestigio do elemento germanico (wisigothico, franko e lombardo). O mais antigo romance hespanhol hoje conhecido, tem a fórma gallega, e foi por nós restituido sobre o apographo da Vaticana[49].

Uma das causas porque a lingua gallega se tornou o dialecto particular da poesia lyrica tanto de Portugal como de Castella alem da communicação primeira com os trovadores da Aquitania, está no estado de desenvolvimento politico d'estes dois paizes. Castella, não tinha ainda dominado as differentes provincias de Hespanha, nem garantido contra ellas a sua propria independencia; a unidade soberana das Hespanhas era disputada pelo Aragão e por Leão. Só no meiado do seculo XV, sob Fernando e Izabel é que essa unidade politica se fez; e é a datar d'esse tempo que a lingua castelhana toma desenvolvimento, reduzindo as outras linguas a dialectos restrictos e particulares; era no principio do seculo XV que o marquez de Santillana fallava do uso gallego na poesia castelhana não só referindo-se ás poesias de Affonso o Sabio, educado na Galliza, mas a essa especie de renascença do genio poetico da Galliza em Villasandino, em Macias e Juan Rodrigues del Padron, seus contemporaneos. A influencia da lingua gallega cessa no momento em que o castelhano, por effeito da unidade politica, se constitue em disciplina grammatical e em lingua official. N'este mesmo periodo do seculo XV já a lingua portugueza estava mais contraída do que a castelhana, já distinguia a sua epoca archaica, porque desde a constituição da nacionalidade portugueza ou melhor, desde que recebeu forma escripta, não teve nunca a lutar com as aberrações dialectaes, e por isso o seu desenvolvimento em vez de dispender-se em unificação deu-se no sentido do neologismo e da disciplina.

Mas o uso da lingua gallega em Portugal, sobretudo na poesia, proveiu, em parte, do elemento aristocratico, e em parte pela immobilidade d'esse dialecto, que era uma como especie de apoio no meio das perturbações que as colonias francezas e inglezas, e as povoações mosarabes e mudgares conquistadas podiam produzir na nova sociedade. A separação do portuguez do gallego consistiu na immobilidade do mesmo dialecto em um ponto, e do seu progresso successivo e litterario em outro.

Os limites da Galliza, na epoca da constituição da nacionalidade portugueza, demonstram materialmente a relação em que estavamos para recebermos e imitarmos essa poesia popular e esse novo dialecto. Diz Herculano: «No seculo XI a extrema fronteira da Galliza ao occidente, parece ter-se dilatado ao sul do Douro, nas proximidades da sua foz, pela orla do mar até alem do Vouga; mas seguindo ao nascente o curso d'aquelle rio, os sarracenos estavam de posse dos castellos de Lamego, Tarouca, S. Martinho de Mouros, etc.[50]» No antigo Cancioneiro da Ajuda, encontra-se a cada verso o xe, por te:

Fazer eu quanto x'el quer fazer. (Canc. n.º 55.)

Mais pois vejo que x'el quer assi

Poil-o el faz xe me mal fazer. (N.º 158.)

Estas fórmas explicam-nos a tendencia da lingua portugueza em converter a combinação pl em ch, como em plus, chus, plantar, chantar, planto, chanto, plano, chão, platus, chato, que na corrente erudita se conservam na sua pureza latina, como plantar, pranto, plano, prato. O Cancioneiro da Vaticana conserva entre os trovadores portuguezes muitos poetas gallegos taes como Affonso Gomes, jograr de Sarria, Fernam Gonçalves de Senabria, João Ayras, burquez de Santiago, João Romeu, de Lugo, João Soares de Paiva, que foi morrer á Galliza por amores de uma infanta, João Vasques, de Talavera, Martim de Pedrozelos, João Nunes Camanes, Vasco Fernandes de Praga e outros muitos. A Galliza, nas luctas da côrte portugueza no tempo de D. Affonso II, D. Affonso III e D. Fernando I, foi uma especie de paiz neutro para onde se acolhiam os fidalgos portuguezes; os fidalgos gallegos recebiam em Portugal o melhor acolhimento e não receiaram seguir o partido de D. Fernando, tendo por isso de se refugiarem na sua côrte depois de vencidos. Aquelles poetas quinhentistas portuguezes, Sá de Miranda e Camões, que ligaram ao nome de gallego um sentido de desprezo, eram oriundos d'esta emigração politica do fim do seculo XIV; e foram elles que acharam a feição nacional da nossa poesia e nos libertaram da subserviencia litteraria de Castella, em que estavamos, como se vê pelo Cancioneiro geral, de Resende.

Era preciso que a tradição poetica popular da Galliza fosse profunda para que, ainda depois de Affonso o Sabio, quando já a Galliza não tinha vida politica, produzisse poetas lyricos de tal forma inspirados, como Villassandino, Macias, Juan Rodrigues del Padron, Jerena e Arcediago do Toro, para que no fim do seculo XIV luctassem contra a influencia do novo lyrismo da Italia, que entrava por Sevilha. Nas litteraturas a fecundidade e originalidade individual correspondem sempre á existencia de um vigoroso elemento de tradição popular; esta grande lei da critica moderna verifica-se na Galliza. No meado do seculo XV escrevia o Marquez de Santillana ao Condestavel de Portugal: «E depois acharam esta Arte, que Maior se chama, e Arte Commum, creio, nos reinos de Galliza e Portugal, onde não ha que duvidar, que o exercicio d'estas sciencias mais do que em nenhumas outras regiões e provincias de Hespanha se costuma; em tanto gráo, que não ha muito tempo, quaesquer Dizidores ou Trovadores d'estas partes ou fossem Castelhanos, Andaluzes ou da Extremadura todas as suas obras compunham em lingua gallega ou portugueza. E ainda é certo que recebemos os nomes de arte, como: maestria mayor, e menor, encadenados, lexapren e mansobre[51]

D'este trecho, se infere: 1.º Existencia da Arte commum, usada pelos Dizidores, que compunham em maestria menor essas obras que o Marquez no § XV chama «cantigas, Serranas e Dizeres portuguezes, e gallegos.» 2.º Que a par d'esta fonte popular coexistia a Arte Mayor, usada pelos Trovadores, que escreviam em metro limosino ou endecassyllabo, (eschola da Aquitania) sendo as suas composições mais artificiaes, como os encadenados, lexapren e mansobre. 3.º Que o dialecto gallego era usado na poesia lyrica tanto em Portugal, como em Castella, na Extremadura e Andaluzia. No seculo passado teve o erudito Sarmiento uma polemica com Don Thomaz Sanchez, tomando no sentido mais absoluto as palavras do Marquez de Santillana: «Yo como interessado en esta conclusion, por ser gallego, quisiera tener presentes los fundamentos que tuvo el Marquez de Santillana; pero en ningun Autor de los que he visto, se halla palabra que pueda servir de alguna luz[52].» No tempo de Sarmiento já eram estudadas as poesias de Affonso o Sabio escriptas em dialecto gallego, conforme o reconheciam Diego Ortiz de Zuniga e Papebroquio e hoje todos os philologos. Sarmiento depois de reconhecer tambem a lingua em que escreveram Macias e Padron, conclue: «De este modo se entiende y se confirma lo que escribió el Marquez de Santillana sobre el idioma de los antiguos Trobadores castellanos, andaluces y estremenhos.» (p. 200.) Quando o Marquez de Santillana assignalava esta influencia da Galliza, escrevia «não ha muito tempo»; este limite da influencia gallega assigna-se em Hespanha com a introducção da imitação italiana em Castella por Micer Imperial, e com relação a nós os portuguezes com a imitação de João de Mena começada pelo infante D. Pedro. O ultimo vestigio d'esta unidade poetica da Peninsula foi assignado por Sarmiento na comparação dos Adagios gallegos: «Los Adagios gallegos son los mismos que los de los Portuguezes y Castellanos mas antiguos[53]; y los Catalanes, que son semejantes á los Francezes...» (Ibid., 178.) No seculo XV ainda em Portugal Camões escreveu dois sonetos em lingua gallega, cuja intenção se não pode conhecer; no seculo XVII o Marquez de Montebello caracterisa o gosto das mulheres de Braga pelo canto em córos, tal como no seculo XVIII observa Sarmiento na Galliza; diz o Marquez: «Com grande destreza se exercita a musica, que é tão natural em seus moradores esta arte, que succede muitas vezes aos forasteiros que passam pelas ruas, especialmente nas tardes do verão, parar e suspenderem-se ouvindo as trovas que cantam em córos com fugas e repetições as raparigas, que, para excitar o trabalho de que vivem lhes é permitido...» (Vida de Manoel Machado de Azevedo.) Sarmiento escrevendo em 1741, observa tambem a influencia da mulher na poesia popular da Galliza: «Ademas d'esto he observado que en Galicia las mujeres no solo son poetisas, sino tambien musicas naturales.» (P. 237.) Esta caracteristica explica-se ethnicamente: «los paizes que estan entre los dos rios Duero y Miño, pertenecian á Galicia y no á Lusitania. Ptolomeo expresamente pone dos classes de gallegos: unos Bracharenses cuya capital era Braga; y otros Lucenses, cuya cabeza era Lugo. Pero despues que Portugal se erigió en reyno á parte, agregó muchos paizes de Galicia. De esto ha resultado que muchas cosas, que en realidad son gallegas han passado por portuguezas; etc.» (Ib. p. 201.) Isto se pode applicar á antiga tradição do Peito Burdelo ou do tributo das donzellas, versificada na Galliza, e hoje só conhecida em Portugal[54].

Caracterisando a poesia popular da Galliza, continúa Sarmiento: «Generalmente hablando, assi en Castilla como en Portugal y en otras provincias los hombres son los que componem las coplas e inventam los tonos ó ayres; y ahi se vé que en este genero de coplas populares, hablan los hombres con las mujeres ó para amarlas ó para satyrisarlas. En Galicia es el contrario. En la mayor parte de las coplas gallegas hablan las mujeres con los hombres; y es porque ellas son las que componen las coplas sin artificio alguno; y elas mismas inventan los tonos ó ayres a que las han de cantar, sin tener ideia del arte musico.» (Ib. p. 237.) Este caracteristico é mui bem observado, com a differença porém, no que diz respeito a Portugal, se deve exceptuar o Minho, o qual, não só pelo que vimos do trecho do Marquez de Montebello, como pelo estado actual da tradição alli, são as mulheres que exclusivamente cantam e improvisam, e os homens em geral conservam-se mudos, pelo seu estado de estupidez. Um moderno escriptor que viveu no Minho, dá-nos a seguinte noticia do estado da poesia popular: «Passei á orla das cortinhas onde mourejavam as moças da aldeia, e ouvi-as cantar ladainhas e versos de Sam Gregorio. Quedaram de cantar e romperam n'um murmurio monotono: resavam a corôa.» O phenomeno da Galliza e do Minho em que as mulheres são as que conservam a poesia, é o resultado da sua ultima decadencia; os padres prohibem as cantigas amorosas e impõem a Ladainha ou o Bemdito. As Romarias, são um meio em que o fanatismo das classes populares se concilia com as suas tradições lyricas; a Galliza e o Minho tem as Romarias como as suas festas mais queridas, como o pretexto dos seus cantos e dansas. Muitas das antigas Serranilhas do Cancioneiro da Vaticana alludem aos logares das romarias:

Ir a San Salvador...

A la egreja de Vigo...

Ir a Santa Cecilia...

Ora vou a San Servando...

Ide a San Mamede, ver-me-hedas... etc.

Estes versos formavam um genero ainda conhecido em Portugal no principio do seculo XVI pela designação de Cantos de ledino. A descripção que Sarmiento faz d'este costume da Galliza corresponde tambem ainda hoje ao nosso Minho: «Aun hoy executan lo mismo aquelles nacionales quando van á algun santuario ó Romeria. Siempre van en tropa hombres y mujeres. Estas cantando coplas al asunto y tocando un pandero; uno de los hombres tañendo flauta; y otro ó otros dançando continuamente delante hasta cansarse, y entran otros despues. Es verdad que non lleban armas para batirlas al compas, pelo lleban en su logar un genero de instrumento crustico que en el pais llaman ferreños (em portug. ferrinhos) y en Castella sonajas[55].» Pela poesia popular da Galliza se explicam as formas dos Cantares de Amigo dos nossos Cancioneiros aristocraticos, as Serranilhas, cujos refrens ainda prevalecem hoje no lyrismo brazileiro, os cantos guayados e de ledino, ainda lembrados em Portugal no seculo XVI, os caracteristicos dos cantos do Minho entoados por mulheres e ao mesmo tempo a falta de tradições epicas.