TEÓFILO BRAGA


PARNASO PORTUGUÊS MODERNO

GUIMARÃES & C.ª—Editores

R. da Misericórdia (Ex. R. do Mundo), 68—LISBOA

PARNASO PORTUGUEZ
MODERNO

OBRAS COMPLETAS DE THEOPHILO BRAGA

1864—1877

PoesiaVisão dos Tempos, 1 vol.
Tempestades Sonoras, 1 vol.
Ondina do Lago, 1 vol.
Torrentes, 1 vol.
Folhas Verdes, (Versos dos 15 annos) 1 vol.
TradiçõesHistoria da Poesia popular portugueza, 1 vol.
Cancioneiro popular, 1 vol.
Romanceiro geral, 1 vol.
Cantos populares do Archipelago açoriano, 1 vol.
Floresta de Romances com forma litteraria, 1 vol.
Historia da Litteratura portuguezaIntroducção á Historia da Litteratura portugueza, 1 vol.
As Epopêas mosarabes, 1 vol.
Trovadores gallecio-portuguezes, 1 vol.
O Amadis de Gaula, 1 vol.
Os Poetas palacianos, 1 vol.
Bernardim Ribeiro e os Bucolistas, 1 vol.
Vida de Sá de Miranda, 1 vol.
Vida de Camões, 1 vol.
Eschola de Camões==Os Lyricos, 1 vol.
Eschola de Camões==Os Epicos, 1 vol.
Vida de Gil Vicente, 1 vol.
A Tragedia classica e as Tragicomedias, 1 vol.
A Baixa-Comedia e a Opera, 1 vol.
Garrett e os Dramas romanticos, 1 vol.
Bocage, sua Vida e Epoca litteraria, 1 vol.
Historia do Romantismo (no prélo), 1 vol.
PedagogiaGrammatica portugueza fundada sobre o methodo hist. comparativo, 1 vol.
Manual da Historia da Litteratura portugueza, 1 vol.
Antologia portugueza, e Poetica historica, 1 vol.
Parnaso portuguez moderno, 1 vol.
DissertaçõesHistoria do Direito portuguez (Dissertação do doutoramento, em 1868.) 1 vol.
Caracteristicas dos Actos Commerciaes (Dissertação do Concurso na Academia polytechnica do Porto, 1868.) brox.
Espirito do Direito Civil moderno (Dissertação do Concurso na Faculdade de Direito, na Universidade, em 1871) brox.
Theoria da Historia da Litteratura portugueza (Dissertação do Concurso no Curso Superior de Lettras, em 1872) 1 vol.
EnsaiosEstudos da Edade Media, 1 vol.
Poesia do Direito, 1 vol.
Contos phantasticos, 1 vol.
Edições criticasObras de Christovam Falcão, 1 vol.
Obras completas de Camões, 3 vol.
Gaia de João Vaz, 1 fol.
Obras poeticas de Bocage, 7 vol.
Cancioneiro portuguez do Vaticano, (no prélo) 1 vol.
Obras primas de Chateaubriand, 1 vol.
Obras escolhidas de Balzac.

PARNASO PORTUGUEZ
MODERNO


PRECEDIDO DE UM ESTUDO

DA

POESIA MODERNA PORTUGUEZA

POR

THEOPHILO BRAGA

Professor de Litteraturas modernas no Curso Superior de Lettras


LISBOA
FRANCISCO ARTHUR DA SILVA—EDITOR
72, Rua dos Douradores, 72


1877

A propriedade d'esta edição em Portugal pertence a Francisco Arthur da Silva, e no Brazil ao ill.ᵐᵒ sr. Manuel Silvestre da Silva Couto, residente no Maranhão.


Typographia da Bibliotheca Uniuersal, rua dos Calafates, 93.

Na Antologia portugueza, onde reunimos tudo quanto conheciamos de mais bello e caracteristico da nossa poesia desde o seculo XII até ao presente, apenas pudemos esboçar os alvores do romantismo com um pequeno excerpto de Garrett; no Parnaso moderno desenvolvemos este periodo com uma escolha do que tem produzido de melhor a geração de rapazes, que em grande parte constitue hoje a litteratura portugueza contemporanea.

Muitos foram os chamados e poucos os escolhidos; lêmos centenares de livros de versos; e no processo da nossa pequena escolha observámos as correntes de banalidade que atrophiaram um grande numero de poetas. Para garantirmos o nosso criterio contra o enfado de uma leitura esteril ou contra a surpreza de uma fórma desconhecida, copiámos materialmente pela nossa mão todas as composições d'este livro. Em Portugal todos são poetas, uns em segredo, como um vicio occulto; outros não passam dos limites ephemeros do jornalismo; outros alentam o fogo sagrado até aos vinte cinco annos, como o sr. Herculano; outros têm a coragem de produzir volumes, e o que mais assombra, continuam a publicar versos depois de directores de secretaria, depois de serem embaixadores e ministros. D'isto mesmo proveiu a difficuldade da selecção; de alguns poetas distinctos nada apresentamos, ou porque não pudemos obter as suas obras, ou quando as alcançámos, já este livro estava quasi impresso.

Adoptámos a disposição ethnica, subdividindo o Parnaso em lyricos portuguezes, brazileiros e gallegos; na introducção adiante serão explicadas as relações entre estes grupos poeticos, de um modo que nos parece ficar bem patente o espirito por onde se deve renovar o lyrismo moderno. Attendemos sempre á belleza da fórma, aproveitando os typos tradicionaes da estrophe e a estructura mais nova e imprevista; assim nos parece que os futuros cultores da poesia portugueza acharão aqui poderosos estimulos para mais altas concepções.

DA POESIA
MODERNA PORTUGUEZA
SUAS TRANSFORMAÇÕES E DESTINO


I

A par das grandes descobertas scientificas do nosso seculo, que pela via inductiva conduziram á demonstração integral dos phenomenos cosmicos pelo movimento etherodynamico; e bem assim da vasta synthese de todos estes factos verificaveis, que pela via deductiva levaram a estabelecer a Philosophia positiva, a par d'estas profundas transformações da consciencia moderna, a Poesia ainda tem um destino ligado ás necessidades sociaes. Nem todas as sugestões que provocam a aspiração individual podem ser satisfeitas pela demonstração scientifica, nem todos os problemas que emergem da actividade cerebral podem ser resolvidos pela deducção philosophica. E comtudo o espirito humano propõe-se sempre as mesmas questões, mas já hoje se não satisfaz com as soluções theologicas, nem com as hypotheses metaphysicas. Os velhos mythos theologicos são hoje estudados comparativamente, e a sciencia deriva d'elles as vastas concepções poeticas dos cantos hymnicos, da degeneração epica, dos contos populares, e do rito cultural que levou ao drama hierático; por seu lado a Metaphysica ao tornar-se incompativel com o progresso das sciencias, dissolve-se em uma exhuberante poesia, como as concepções de Schelhing, de Hegel ou de Schopenauer, que inconscientemente se encontram em intimas analogias com as phantasmagorias das escholas brahmânicas e buddhicas. Em vez de ter pertenções a systema de synthese deductiva, a aspiração metaphysica só deixará de ser uma manifestação doente tornando-se francamente Poesia. Só assim realisará um grande destino, o servir de expressão ás mil aspirações indefinidas da nossa individualidade social. Algumas composições de M.ᵐᵉ Ackermann abrem esta nova phase da idealisação. Assim como a poesia antiga servia para perpetuar e dar sentido ás vetustas tradições das raças, a poesia moderna sem despresar a tradição, é o orgão mais apto para manifestar as aspirações da consciencia moderna. N'este uso está implicito o seu fim revolucionario.

Na poesia portugueza, como temos largamente provado pelos nossos trabalhos historicos, o escriptor esteve quasi sempre separado do povo; raramente se soube inspirar da sua tradição, e por isso a aspiração e o caracter nacional não foram servidos por uma litteratura bem distincta entre as outras litteraturas romanicas. Em compensação, a nacionalidade portugueza atrophiada pelo cesarismo e pelo catholicismo, e, por esta causa, não tendo no mundo moderno uma existencia accentuada pelos progressos scientificos e industriaes, serviu-se sempre da poesia como um meio de protesto, como o grito da sua aspiração revolucionaria. No seculo XIII achamos a dura sirvente contra os Alcaides que atraiçoaram D. Sancho II, para servirem as pertenções do clero a favor de D. Affonso III[1]. No seculo XV, achamos a satyra vehemente de Luiz de Azevedo contra os traidores que provocaram e consummaram o assassinato do Infante D. Pedro em Alfarrobeira[2]. No seculo XVI o vigor nacional é atrophiado pelo regimen do favoritismo do paço, que corrompe a aristocracia com as capitanias da India e Brazil; a poesia protestou contra os validos devassos, como se vê n'essas quadras ou trovas da Maria Pinheira, attribuidas a Damião de Goes, contra o Conde da Castanheira[3], e Manuel Machado de Azevedo n'outras quadras bem sentenciosas avisa seu cunhado Sá de Miranda contra a prepotencia dos Carneiros e Carvalhos, que dispunham arbitrariamente de todos os poderes. A satyra vehemente, acerba e allusiva inspira as melhores quintilhas e tercetos de Sá de Miranda; e Camões, nos Disparates da India, e sobretudo nos Luziadas, verbera uma aristocracia enfatuada e estupida, e o abuso da auctoridade clerical que invade a esphera civil em o Concilio de Trento, que se apodera da instrucção publica do paiz, que funda os terriveis tribunaes da intolerancia nos Indices Expurgatorios e nas fogueiras dos Autos de Fé, que isola Portugal da communicação scientifica da Europa a pretexto de combater a entrada dos principios da Reforma, e que por ultimo nos entrega aos castelhanos de Philippe II.

Tudo isto teria existido sem protesto, se não fossem os versos de Gil Vicente, nas suas farças; as quadras anonymas conservadas como curiosidade pelos genealogistas; algumas estancias de Camões na grande epopêa, e, o que mais assombra, alguns epigrammas populares, que se transmittiram na tradição[4].

Quando no seculo XVII a lingua portugueza deixava de ser usada nos livros, foi a comedia popular que manteve a sua cultura, e se inspirou das campanhas da restauração nacional, como vemos nas comedias de Pedro Salgado. Diante da mudez imposta pelo Santo Officio, a poesia teve ainda a audacia do protesto no poemeto Os ratos da Inquisição, de António Serrão de Castro[5].

No seculo XVIII, pode-se affirmar com rigor, foi a poesia o orgão de propagação das ideias dos encyclopedistas em Portugal; o proprio Marquez de Pombal protegia tacitamente a dispersão das cópias do Hyssope de Diniz. José Anastacio da Cunha na Oração universal eleva-se ao lyrismo pantheista de Goëthe, sendo preso e sentenciado pelo Santo Officio. Bocage é preso pelo Intendente Manique, e dá-se por base da perseguição a epistola Pavorosa illusão da eternidade, que exerceu uma acção menos profunda do que a Voz da Razão, ainda hoje estimulo secreto que leva a classe burgueza a fazer o processo critico da sua consciencia. Cabe a Bocage a gloria d'este serviço[6].

Nas luctas pela liberdade constitucional, os antigos Outeiros poeticos tornaram-se politicos, como o da Sala dos Capellos em 1820, e nas recitas theatraes era a poesia, ainda bastante arcádica, que agitava com uma linguagem nova a alma moderna. Separada da tradição, pelo esquecimento e obliteração systematica do passado, a poesia portugueza vale muito por estes gritos revolucionarios que a tornam uma verdade na vida nacional. Ainda hoje o lyrismo da mocidade acorda mais o senso commum, produz mais movimento na opinião, do que todos os cursos scientificos com juramento previo da conceição, e da inviolabilidade real.

As duas influencias predominantes do fim do seculo XVIII na poesia portugueza, o filintismo e o elmanismo, prolongaram-se até ao primeiro quartel do seculo XIX; Garrett (Jonio Duriense) admirava Filinto Elysio, e ao estudo da estructura riquissima e sempre nova dos seus versos deveu esse segredo de belleza do verso solto do poema Camões. Castilho admirava Bocage, e elle mesmo árcade romano (Mémnide Egynense) calcava a sua metrificação sobre as tautologias elmanistas. Se não fosse a emigração forçada dos partidarios do regimen constitucional em 1824 e 1829, a litteratura portugueza não saía d'este sulco; Garrett emigrou, e por isso comprehendeu o romantismo, Castilho esteve refugiado na abbadia de S. Mamede da Castanheira do Vouga, e por isso esterelisou-se muitos annos em traducções latinas, que a ninguem aproveitam. Garrett inspirou-se da tradição antiga e da aspiração moderna da nacionalidade, Castilho entrincheirou-se na erudição dos classicos da côrte de Augusto, e quiz submetter a este criterio a mocidade que despontava. D'aqui resulta mais tarde o rompimento individualista e indisciplinado da chamada Eschola de Coimbra (1865.)

Só muito tarde é que Almeida Garrett conseguiu descobrir uma das formas mais eloquentes do lyrismo moderno, nas Folhas cahidas; as composições em grande parte insulsas das Fabulas, do João Minimo, das Flores sem fructo, accusam o grande esforço d'esse genio para quebrar os moldes arcádicos em que sentira desde criança. Bastou para tanto uma simples aproximação da realidade; nos ultimos annos, Garrett achou-se envolvido em uma paixão censuravel, e a expressão de todas as suas emoções, a descripção delicada das situações imprevistas em que se achava, as confidencias, as vacillações da sua passividade, os favores concedidos de surpreza, as recordações e por fim a indifferença da parte da que era tão frivola como as outras da sua recente aristocracia, tal é o quadro deslumbrante e fascinador das Folhas cahidas. Este livro appareceu tarde, e por isso não exerceu uma influencia saudavel; Pato, Gomes de Amorim, E. Vidal e alguns outros bem quizeram pulsar essa corda, mas faltava-lhes, não diremos talento, mas verdade.

Castilho não conseguiu accentuar a sua tendencia lyrica; dominado ainda pela Modinha do seculo XVIII, como na Joven Lilia, incapaz de conhecer a belleza d'esses idylios modernos, como o seu de Pedro gaiteiro, elevando-se á expressão artificiosa do Canto do Jau, lançou-se outra vez no mundo classico e poz-se a traduzir do grego através do francez um supposto Anacreonte. Todos se imaginavam poetas, e n'esta doce illusão só Herculano se salvou com a Harpa do Crente, porque antes dos vinte cinco annos tinha lido alguma cousa de Klopstock e de Schiller. Tudo o mais estava anachronico, como Sarmento, Costa e Silva, Cabral de Mello, Fernandes Leitão e Campello. A poesia lyrica só podia renascer entre uma geração de rapazes; e onde encontral-a compacta, crente, enthusiasta? Em Coimbra o espirito revolucionario precedeu, pela imitação das tragedias philosophicas de Voltaire, o pensamento dos homens de 1820. Coimbra continuou sempre a ser o fóco do espirito novo, e em contradição com a rotina cathedratica, que bajulava o absolutismo e se isolava na sua soberba cardinalesca. Assim como a poesia foi sempre na civilisação portugueza a linguagem de protesto de uma consciencia atrophiada, assim Coimbra nos apparece tambem na historia como a capital do nosso lyrismo; ali cantaram Sá de Miranda, Ferreira, Camões, Jorge de Monte-Mór, Bernardes, Soropita, Francisco Rodrigues Lobo, Garção, em pleiadas que se succederam até ao seculo XIX segundo as correntes litterarias que percorriam a Europa. De Coimbra sáem tambem Garrett e Castilho.

Na renovação do lyrismo moderno é de Coimbra que partem os mais poderosos e decisivos impulsos; a escola do Trovador reune a mocidade academica de 1848, de que o principal vulto foi João de Lemos. Mas essa mocidade vivia no idylio insulso «sobre as azas da saudade», como se vê na festa da Primavera; inspirava-se do christianismo de Chateaubriand, acreditava devotamente na monarchia, contentava-se com tres nomes da historia patria para symbolisar toda a tradição nacional, e na sua ingenuidade não sabia conhecer as banalidades que punha em verso de redondilha, nem sabia os justos limites de uma exhuberancia fastidiosa. Ao entrar nas lides politicas esta camada esterilisou-se, e os poucos que conservaram um debil culto litterario ficaram constituindo a pretendida geração nova. Esta devera ser considerada a primeira phase da Eschola de Coimbra. Passou rapida; quasi que desconheceu o espirito revolucionario, e influiu sobre Portugal inteiro contagiando um falso estylo poetico, causa de todos os máos livros de versos que ainda apparecem de algum incomprehendido de provincia.

A vida academica é excepcional; a mocidade acha-se de repente livre dos vinculos da familia, senhora de si, meia irresponsavel, e em conflicto de costumes, de opiniões, de vaidades, e separada da direcção espiritual dos seus professores. Vive na indisciplina, alimenta-se das phantasmagorias theoricas, dispende um immenso vigor na dialectica, e por ultimo quando entra na realidade da vida em grande parte succumbe. O lente occulta a sua ignorancia e estupidez no isolamento doutoral; despreza o estudante, a quem nunca dirige a palavra, e impõe-se respeito pelo terror da reprovação! A mocidade liga-se contra este pedantismo, alimentando-se com as suas proprias leituras, fortalecendo-se com exercicios de argumentação, e amarrando os seus ogres a epigrammas eternos, como este:

Aquelle homem feio

E de aspecto máo,

É o Pedro Penedo

Da Rocha Calháo!

ou a epithetos pittorescos, como o Cão de quinta, o Doutor Hemoroide, o Marmellada.

Ali a cada geração academica succede-se a influencia de um dado philosopho; já no seculo passado o Intendente Manique accusava nas suas Contas para as Secretarias quaes os livros que andavam nas mãos dos estudantes, taes como as obras de Voltaire, Rousseau, Reynal, Bayle, Hobbes, etc. Na epoca de Garrett lia-se secretamente Dupuis; e ás differentes gerações se foram succedendo Chateaubriand e Aimé Martin, depois Krause, depois Pelletan, Quinet e Michelet, depois Vico, Hegel e Augusto Comte. Foram differentes correntes de ideias que revolucionaram o espirito da mocidade; os seus professores ficaram na ordem mental em uma especie de nirvana buddhico. D'essa mocidade, os que se impulsionaram pelas theorias metaphysicas ao entrarem na vida publica nada deram, e deixaram atrazar as cousas pela sua propria esterilidade. Sob a influencia de Aimé Martin e Krause, succedeu-se na poesia a segunda phase da Eschola de Coimbra, representada pelo Novo Trovador. O seu principal vulto foi Soares de Passos; veiu n'essa epoca em que ao exagero das paixões no theatro correspondia no lyrismo a melancholia tenue representada na Allemanha por Novalis, na Inglaterra pelos Lakistas, em França por Millevoye e Lamartine, e na Italia por Leopardi e Manzoni. Soares de Passos inspirou-se d'este desalento contagioso mas tardio, a que o proprio Garrett, em França, não escapou no poema Camões. Elle é o poeta da tristeza; todos os sentimentos que retrata, a admiração por Camões, a elevação deísta diante do Firmamento, a independencia no canto do Escravo, em tudo o tom natural a que vem sempre ter é a tristeza. Esta caracteristica explica-nos toda a sua acção litteraria. Esse sentimento de pesar e desgosto, em parte motivado pela doença physica de que morreu, tirou-lhe a individualidade, não o deixou ser iniciador; nenhuma das suas bem trabalhadas odes era capaz de suscitar uma eschola de poesia; é geralmente imitador, agrada-lhe o vago e indeterminado, e por isso traduz o primeiro canto de Fingal; ainda com o fervor dos bons tempos de um Werther, imita as balladas phantasticas do norte, conhecidas através das versões de Marmier, como no Noivado do sepulchro; é mystico, seguindo Lamartine na Morte de Socrates e no Firmamento. Esse sentimento de tristeza expresso sem banalidade mas sem individualidade, tornou os versos de Soares de Passos distinctos entre a multidão das collecções metricas, sobretudo quando a morte prematura do poeta veiu dar o perstigio prophetico aos seus presentimentos. Soares de Passos escreveu pouco em metro octosyllabo, o bastante para se conhecer que nos seus primeiros tempos de noviciado poetico de Coimbra soffreu a influencia da eschola do Trovador. A sua perfeição explica-se pelo limitado numero de composições que deixou; emendava sempre, calculadamente e com a pericia de quem tem só um sentimento a exprimir e já muitas vezes retratado[7].

O que fez Soares de Passos para a tristeza, fez João de Deus para o amor; n'elle começa a terceira phase da Eschola de Coimbra. Ninguem sentiu melhor o idealismo camoniano, perdido desde o fim do seculo XVI, ninguem levou a fórma á mais alta perfeição, ninguem como elle exerceu ainda uma acção mais funda e salutar na transformação da poesia portugueza. É o mestre de nós todos. Deixou entre as gerações escholares uma tradição luminosa como de um provençal, e a sua organisação absolutamente artistica prejudica-o no conflicto de uma sociedade burgueza. O que lhe faltava, e que esterilisava as suas faculdades creadoras, suppriram-n'o os poetas do periodo indisciplinado da Eschola de Coimbra, que por seu turno actuaram sobre o genio de João de Deus; suppriram-n'o pelo estudo, primeiro, de Quinet e Michelet, depois de Vico, Hegel e Augusto Comte, d'onde provieram esses dois ramos da poesia revolucionaria, socialista representada pelas Odes modernas, e da concepção philosophica da historia realisada na Visão dos Tempos. N'este caminho a poesia portugueza achou outra vez o seu destino. O que provinha da anarchia metaphysica dispendeu-se em um clarão repentino[8], o que conduziu para a synthese positiva tornou-se fecundo, produzindo a exploração scientifica das tradições da nacionalidade portugueza, a creação da nossa historia litteraria, e a base critica para o estudo da nossa pedagogia, da politica e da previsão do que é preciso que se faça. Á influencia das Odes modernas pertence essa poesia chamada satanica, de um pessimismo á Baudelaire, facil de imitar e mais facil em illudir o gosto dos que aspiram a uma ordem nova. A Visão dos Tempos, pouco imitada no pensamento, exerceu maior influencia pela fórma da versificação e dos poemetos; o pensamento era converter em mythos modernos e conscientes a concepção philosophica das grandes epocas da humanidade, ao contrario dos mythos anonymos e inconscientes das edades primitivas que ainda hoje nos estão atrazando; a fórma procurava alliar a acção de Garrett com a de João de Deus. A apparição d'este espirito novo está ligada a uma grande pugna litteraria, encetada com a carta intitulada Bom senso e bom gosto e Theocracias litterarias[9]. A esse impulso appareceram novos obreiros, que inauguraram a sciencia da Linguistica e da philologia romanica, e a Archeologia artistica; a educação scientifica elevou-se, como se viu na nova questão litteraria do Fausto e na Bibliographia critica de Historia e litteratura; a critica dos costumes achou a sua direcção nas Farpas, e o romance attingiu a sua admiravel perfeição realista no Crime do Padre Amaro. A falta de efficacia de todo este movimento provém da desmembração dos obreiros. Pelo criterio ethnico da historia litteraria e pela philologia, é que a poesia brazileira e gallega foram comprehendidas como fórmas homogeneas do lyrismo portuguez; longo tempo desprezadas, é d'ellas que ha de vir o descobrir-se o verdadeiro espirito d'este lyrismo nosso, que apenas se faz valer não pelo que tenha de nacional, mas sómente pelo modo como serve a ideia revolucionaria.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Vid. Antologia portugueza, n.º 40.

[2] Vid. Antologia portuguesa, n.º 69.

[3] A estas trovas allude o bispo Frei João de Sam José Queiroz, nas Memorias: «O que entendo é que a maior parte das casas de Hespanha, está como as de Portugal, onde entra Maria Pinheira...» (p. 65.) Do principio do seculo XVI é essa quadra popular contra D. José de Mello, esmoler de D. Manuel, confirmado bispo da Guarda em 1517:

O bispo que deixa a Sé

Por se metter na Mesquita

Mouro foi e mouro é,

Pois d'ella se não desquita.

A voz popular apodava-o por nunca ter ido ao seu bispado, vivendo com D. Helena de Mesquita, de quem teve filhos, e a quem fez abbadeça. (Ms. da Academia, G. 5., Est. 8, n.º 50.)

[4] Canc. popular portuguez, p. 40.

[5] Eis um epigramma tradicional ácerca da batalha de Montes-claros:

Passou da marca o Marquez,

No valor e ousadia,

Sam João teve o seu dia

Aos dezesete do mez.

O meu Cezar d'esta vez

Soube vir ver e vencer.

Com Jaquez não ha perder,

Menezes todo he Luiz,

O Diniz fez o que quiz,

Não ha mais Flandres que Schomber.

Fonseca, Evora gl. p. 181.

[6] Até 1839 attribuia-se ao Dr. Jose Anastacio da Cunha a poesia a Voz da Razão; hoje temos a prova de que foi Bocage o seu auctor. Deixemos aqui esse processo critico, já que o não podémos incluir no nosso livro Bocage, sua vida e epocha litteraria. No processo do Santo Officio contra Jose Anastacio da Cunha não se allude nem remotamente á Voz da Razão, e Innocencio (Dicc. bibl., t. IV, p. 225) sustenta como absolutamente infundada a opinião vulgar, não se atrevendo comtudo a poder determinar quem fosse o verdadeiro auctor. A favor de Bocage apresentamos os seguintes factos: 1.º Na edição da Voz da Razão, de 1822, é que se lhe impoz este titulo, porque nos diversos manuscriptos corre quasi sempre com o titulo de Verdades singelas, e se ligava com as Verdades duras, titulo com que o Intendente Manique apprehendeu a Pavorosa de Bocage em 1797. 2.º Na carta 1.ª ao seu amigo Anelio, o auctor da Voz da Razão chama-se a si mesmo Lidio; se nos lembrarmos que só desde 1790 é que Bocage deixou de se assignar L'Hedois de Bocage, está achado o cryptonymo poetico com que se designava n'estas composições. 3.º Excluida a paternidade do Dr. José Anastacio da Cunha, cujo ideal poetico era outro, como se vê pela Oração universal, em quem, se não em Bocage se pode encontrar essa audacia e fórma popular de bom senso? Crêmos que é um problema resolvido.

[7] Uma carta de A. Herculano, dirigida a Soares de Passos em 5 de agosto de 1856, na qual lhe diz «fui poeta até aos vinte cinco annos» termina considerando-o como successor de Garrett. Herculano protestou sempre contra a bajulação insciente que dava a Castilho o primeiro logar entre os lyricos modernos portuguezes. (Vid. prologo das Lendas e Narrativas.)

[8] No vol. XIII do Instituto de Coimbra, p. 239 em um artigo sobre o futuro da Musica, do sr. A. de Quental se lê: «Não creio que o positivismo um tanto estreito de A. Comte, Littré e da ultima eschola franceza, nos dê completa a philosophia do futuro. Mas se o alargarmos, segundo o espirito do hegelianismo, a ponto de caber n'elle a Metaphysica excluida por A. Comte (tendencia que já se nota em Taine, Renan e Vacherot, e no positivismo inglez de que é chefe Stuart Mill) n'esse caso tenho para mim que a Philosophia assentará n'uma base tão solida, que não será muito aventurar dizer que está achada e definitivamente constituida a philosophia do futuro.»

[9] Ha curiosos que a muito custo conseguiram colleccionar os numerosos folhetos, que pollularam como mosquitos do nosso mephitismo litterario, por esta occasião. É o documento mais espontaneo e inconsciente do marasmo intellectual a que se havia descido. Vid. art.º Bom senso e bom gosto, no Supp. ao Dicc. bibl. de Innocencio.

II

A poesia lyrica do Brazil encerra um grande facto ethnologico; d'elle derivaremos a sua comprehensão e o porque da sua originalidade. Esse lyrismo é superior em vehemencia sentimental e em novidade de fórmas ao lyrismo portuguez; e comtudo dá-se n'essas fórmas tão caracteristicas um phenomeno de regressão, pelo qual tomam vigor typos estrophicos conservados pelos antigos colonos portuguezes, mas totalmente esquecidos na mãe patria, que só agora por um processo de erudição se vão encontrar nos seus velhos Cancioneiros palacianos. O ardor, a passividade, a morbidez que toma a linguagem das emoções, o desalento ou a acedia da vida, mesmo a facilidade com que tornam natural a imitação de Byron e de Musset, resultam de um temperamento contrahido pelo cruzamento dos primeiros colonos portuguezes com as raças ante-historicas do Brazil[10]. Quando o Brazil começou a ser povoado, e as suas feitorias se convertiam em cidades, ainda em Portugal apparecia casualmente nos versos de Christovam Falcão, Gil Vicente, Sá de Miranda e Camões algum vago fragmento de Serranilha galleziana, genero lyrico de origem popular, que pela sua belleza chegára a penetrar nos Cancioneiros aristocraticos. Foi este typo lyrico, decahido na metropole pela imitação castelhana do seculo XV, e pela imitação italiana no seculo XVI, que reappareceu nos costumes coloniaes, adquirindo importancia litteraria, a ponto de vir a apoderar-se de novo, sob a fórma brazileira da Modinha, do gosto da côrte e da sociedade portugueza do seculo XVIII. Essas estrophes cadenciadas com retornellos de enlouquecer e com tonadilhas de uma melodia sensual, que hallucinavam o proprio Beckford, eram cantadas essencialmente por mulatos[11]. Aqui está o problema ethnico, cuja importancia não escapa aos modernos antropologistas. Diz Quatrefages: «Posto que os cruzamentos modernos não remontem além de tres seculos, tem já produzido resultados que põem fóra de duvida, que, raças, notaveis sob todos os aspectos, pódem provir da mestiçagem. Os Paulistas do Brasil são um exemplo frisante. A provincia de Sam Paulo foi povoada por portuguezes e açorianos[12] vindos do velho mundo, os quaes se alliaram aos Guayanazes, tribu caçadora e poetica, aos Carijos, raça bellicosa e cultivada. D'estas uniões regularmente contrahidas, resultou uma raça, cujos homens têm-se sempre distinguido pelas suas proporções, força physica, coragem indomavel, resistencia ás mais duras fadigas. Quanto ás mulheres, a sua belleza fez nascer um proverbio brasileiro que attesta a sua superioridade. Se ella se accentuou outr'ora por expedições aventureiras para a exploração do ouro ou da escravatura, foi ella tambem quem primeiro fez a plantação da canna do assucar e a creação de gados.» Apoiando-se sobre as observações de Ferdinand Denis, Quatrefages transcreve estas palavras: «Hoje em dia o mais auspicioso desenvolvimento moral, como o renascimento intellectual notabilissimo, parecem pertencer a Sam Paulo[13].» Na poesia popular brazileira ainda se encontra a coexistencia das duas raças no mixto das canções em lingua portugueza e tupi, tal como na edade media da Europa encontramos a fórma do descort; eis uma amostra da tradição do Pará, e do Amazonas:

Te mandei um passarinho

Patuá mirá pupé,

Pintadinho de amarello

Yporanga ne iavé.

Vamos dar a despedida

Mandú sarará,

Como deu o passarinho,

Mandú sarará;

Bateu aza, foi-se embora

Mandú sarará,

Deixou a penna no ninho

Mandú sarará[14].

A tradição das raças ante-historicas conserva ainda fabulas mythicas, como a da origem da noite, a do Jabuti, e muitas d'ellas entraram como contos populares na vida domestica de Sam Paulo, Goyaz e Matto-Grosso, taes como a historia de Saci Sereré, Boitatá e Curupira. É este elemento tradicional vigoroso que faz despontar na litteratura brazileira essa esplendida efflorescencia das creações epicas no seculo XVIII, como o Uraguay, o Caramurú, e ainda no seculo XIX os Tymbiras, e Confederação dos Tamoyos. Mas deixemos de parte esta ordem de creações que depende do sentimento da nacionalidade nas civilisações modernas. O ardor das paixões do mestiço, a sua dissolução servida por uma voluptuosidade artistica, como a poesia ou a musica, tornam estas duas fórmas aphrodisiacos inebriantes e communicativos, que dão em terra prematuramente com os talentos mais auspiciosos, como Alvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves e Varella. A vida domestica resente-se d'este fervor, e os costumes publicos manifestam por outro lado recorrencias de usos peculiares do tupi (os bagachas). O cruzamento primitivo fez redobrar a intensidade sentimental; quem se lembra da velha phrase de Lopo de Vega: «Eu, senhora, tenho olhos de criança e alma de portuguez» só a póde comprehender agora diante da exaltação do brazileiro. Nós somos hoje menos alguma cousa.

A persistencia do typo tradicional da Serranilha galleziana na colonia do Brazil liga-se e explica-se pela descoberta de um grande facto desconhecido até hoje na historia da humanidade—a civilisação da raça turaniana[15]. O problema desdobra-se em duas questões, que se ligam e se explicam. Nas fórmas lyricas da Europa da edade media, apparecem cantos communs á Italia e Sicilia, á França meridional, Aquitania, Galliza e Portugal. Esta unidade do lyrismo novo-latino levou a suppôr uma origem commum para todas as litteraturas meridionaes. Por outro lado a persistencia d'esse typo lyrico no Brazil, explicar-se-ha não só pelo isolamento e espirito archaico colonial, mas pelas grandes analogias com os cantos lyricos dos tupinambás, e sobretudo pela descoberta da ethnologia moderna da origem turaniana das raças ante-historicas da America. Tratemos separadamente de cada uma d'estas questões de litteratura comparada.

Um problema importante tem sido proposto pelos philologos romanicos sobre as analogias intimas entre as fórmas lyricas da poesia moderna das litteraturas nova-latinas, a começar da Provença. Dando conta na Romania, da publicação dos Canti antichi portoghesi, diz M. Paul Meyer: «Je remarque que plusieurs des piéces editées par M. Monaci (n.ᵒˢ IV, IX) sont fort analogues, pour le fond comme par la forme, à nos anciennes ballettes (voir celles que j'ai publiés dans mes Rapports, fl. 236—9) ou aux baladas provençales. Je n'en conclue pas que les poésies portugaises qui ont cette forme soient imitées du français ou du provençal, mais qu'elles sont conçues d'après un type tradicional qui a du être commun à diverses populations romanes sans qu'on puisse determiner chez la quelle il a été crée[16].» N'estas palavras se indica o problema da unidade do lyrismo moderno: nenhum philologo conseguiu ainda explicar a origem d'esta identidade de fórmas. O meio para o resolver está no criterio ethnico e comparativo; em primeiro logar a zona d'onde irradiou o lyrismo que se propagou para a Provença, Italia, Sicilia, Galliza e Portugal, foi na Aquitania; é tambem pelo criterio ethnico que se conhece que n'esta zona existiu uma raça iberica, absorvida pelos immigrantes indo-europeus, raça cujas tendencias e até fórmas lyricas peculiares se confirmam pelos hymnos acadicos modernamente traduzidos pelos assyriologos. As recentes descobertas da civilisação turaniana, que antecedeu as grandes civilisações historicas, a persistencia das superstições accádicas dos cultos magicos na Europa da edade media, tornam este facto da unidade do lyrismo como uma simples evolução.

O estudo comparativo das litteraturas tem levado a aproximar certas formas tradicionaes muito antes de se conhecer se entre ellas existiria alguma connexão historica; as analogias intimas têm por vezes conduzido a procurar essas relações, que se vão verificando do modo mais surprehendente. No lyrismo popular da Europa, a começar desde a epoca provençal, existem formas espontaneas, taes como as Pastorellas, que se repetem em todos os povos meridionaes, sem que estas differentes nacionalidades, tão separadas pelo regimen monarchico, se imitassem mutuamente; este genero de cantos penetrou na litteratura da egreja da edade media, sob a forma de Prosas, e nos Cancioneiros aristocraticos sob a forma de Serranilhas e Dizeres. A diffusão commum d'este genero de origem popular era attribuida á situação geographica especial da Aquitania, cujas escholas trovadorescas podiam influir simultaneamente em França, na Italia e em Portugal e em Hespanha; o estudo ethnico da Aquitania leva a descobrir que esse territorio foi primitivamente occupado pela raça ainda agora representada pelo Basco actual, isto é, pela raça turaniana. N'este mesmo typo de cantos lyricos entram as pastoraes sicilianas; e a Serranilha portugueza foi encontrar nas colonias do Brazil analogias com os cantos dos tupis, modernamente filiados no mesmo tronco turaniano. Eis determinada uma origem ethnica commum para explicar as analogias de uma vasta tradição lyrica popular. Pelas modernas leituras dos documentos cuneiformes, têm-se conhecido o eminente genio lyrico da raça turaniana conservado na inspiração perpetuada nos hymnos accadicos. Sobre este ponto são de grande auctoridade as palavras de F. Lenormant, explicando alguns d'esses hymnos: «Ao mesmo tempo elles nos revelam no povo de Accad um verdadeiro impulso de inspiração poetica, que exerceu uma acção decisiva sobre os começos da poesia semitica e contribuiu para formar-lhe o seu genio. Ha ali um lyrismo que attinge por vezes uma grande elevação, e que desde já deve revindicar o seu logar na historia litteraria do Oriente antigo. Além d'isso, a critica deve tambem attender aos fragmentos de um lyrismo mais familiar, popular e gnomico, que parece ter tido entre o povo de Accad um grandissimo desenvolvimento, e do qual os hierogrammatas do Assurbanipal formaram collecções. São proverbios rythmados, provenientes de antigas canções. Já se publicou a copia de um tijolo que contém um grande numero d'elles, e M. Oppert já notou a importancia d'esta collecção traduzindo alguns dos seus proverbios... De mais, M. George Smith annunciou ter descoberto nas suas excavações recentes na Assyria uma outra collecção egual, que entregou ao Museu Britannico. Ha d'este lado uma mina a explorar, e que promette ser fecunda.

«Alguns proverbios não consistem em mais do que uma simples phrase, extraída evidentemente de um canto mais desenvolvido, e que a felicidade da expressão tornara sem duvida proverbial, como esta sobre o calcadouro da colheita:

—Diante dos bois, que caminham a passos apressados sobre as espigas, ella calcou vivamente.

«Muitas vezes cada um d'elles forma um todo completo no seu laconismo, uma pequena canção de alguns versos,—se é que se permitte esta expressão quando ainda é desconhecido o rythmo e o metro—que lembra as velhas canções populares chinezas do Chi-King. Em geral o pensamento é de uma lhaneza delicada, ás vezes maliciosa e um pouco melancholica, com uma feição de philosophia pratica. Tal é este pequeno trecho, que exprime a inutilidade dos esforços excessivos:

—Eu fiz ir bem para o alto meus joelhos,

a meus pés não deixando repouso,

e, sem nunca ter descanço,

o meu destino afastou-se sempre...

«Outros, finalmente, entre estes curtos trechos nos conduzem ao meio da vida dos campos e dos seus usos; são numerosos na collecção publicada, e attestam claramente a sua origem popular. Eis aqui por exemplo uma Canção com dois retornellos, que se devia cantar em alguma festa campestre á qual se attribuia uma influencia de bom augurio sobre a safra das messes:

O trigo que se alevanta direito

chegará ao cabo do seu bom tamanho:

o segredo

nós conhecemol-o.

O trigo da abundancia

chegará ao cabo do bom crescimento;

o segredo

nós conhecemol-o[17]

É este rigorosamente o typo das Pastorellas provençaes, italianas, gallezianas, portuguezas e hespanholas, dois versos assonantados com um estribilho sempre repetido. Vejamos um paradigma portuguez:

Vayamos, irmana, vayamos dormir

nas ribas do lago, hu eu andar vi

a las aves meu amigo.

Vayamos, irmana, vayamos folgar

nas ribas do lago, hu eu vi andar

a las aves meu amigo! etc.[18]

O mesmo se repete nos cantos populares liturgicos da edade media, derivados de uma corrente desconhecida da tradição popular. Lenormant achou grandes analogias entre a forma d'essas Pastorellas accadicas e as cantigas chinezas da collecção Chi-King; de facto o turaniano é uma raça mixta da branca e amarella, e a concepção chineza naturalista do Thian é a mesma dos espiritos elementares da Chaldêa, o espirito do céo Zi-Anna, dos turanianos. Por ultimo o typo dos Proverbios de Salomão é tambem fixado por Lenormant nos velhos hymnos accadicos. Todos estes factos estão em harmonia com as recentes descobertas da historia, que tanto as civilisações semiticas como aryanas se fundaram sobre os progressos já realisados pela mais poderosa das raças ante-historicas, a turaniana.

Sob este criterio novo, as raças da America apparecem como um grande ramo turaniano, cujas linguas são agglutinativas, cujas crenças são um fetichismo atrazado: «São mui dados a feitiços, e o feiticeiro que ha em cada aldeia é o seu oraculo[19].» D'Assier recorda um facto importante: «lembram o typo mongolico, a ponto de um d'elles... criado de Augusto Saint Hilaire, vendo um dia uns chinezes n'uma rua do Rio de Janeiro, correu para elles chamando-lhes tios[20].» Em Cuyabá e no Paraguay existem aterros artificiaes em que se levantam edificações, como costumavam fazer os turanianos de Babylonia e da Assyria; a sua chronologia baseava-se sobre o anno lunar[21] como no primitivo systema chronologico dos turanianos do Egypto; e entravam nas batalhas, ululando, tal como descreve Silio Italico, das tribus ibericas[22]. Finalmente, as analogias das linguas americanas com o sansckrito, explicam-se por um grande fundo de vocabulos turanianos das raças vencidas (sudras, kadraveas) sobre que se constituiu a civilisação aryana. Assim os factos são trazidos ás suas causas naturaes.

No livro recente l'Origine turanienne des Américains Tupis-Caribes, já se procura verificar esta grande these ethnographica, que liga as raças das duas Americas á raça mestiça que prestou os primeiros elementos ás civilisações do Egypto e da Chaldêa. Alguns dos caracteres do tupi coincídem com o genio turaniano, como o gosto da poesia e da musica; no manuscripto do Roteiro do Brazil, da Bibliotheca de Paris, o tamoyo é descripto como grande musico e bailador; e os tupinambás eram os rhapsodos, improvisando Areytos segundo esse genio epico que na Chaldêa inventou o poema de Isdubar, no Mexico o Popol-Vuh, e na Finlandia o Kalevala. Os seus cantos lyricos, entoados ao som da maraca e do tamboril constavam de refrens rimando com o ultimo verso da estrophe, e podendo ser considerados como voltas sobre motes improvisados; esta caracteristica, ajudando a facilidade da improvisação, os dialogos ajudando a monotonia da melopêa, tudo leva a presentir em germen o mesmo typo poetico que na Europa deu a Ballada, a Pastorella e a Serranilha; d'aqui a espontaneidade da confusão da poesia dos dois povos, e o motivo da persistencia da Serranilha portugueza na Modinha brazileira e no seu lyrismo moderno.

Os cantos funebres conservam a mesma designação tanto entre os Tupis como no Béarn; lá são os Areytos, e aqui os Aurusta. Os cantos funebres são communs a todos os povos meridionaes em que existe elemento turaniano; taes são os Lamenti ou Triboli em Napoles, os Attitidos na Sardenha, os Voceri, na Corsega, na Bretanha, os Aurost no Béarn, e as Endexas e Clamores em Portugal e Hespanha. Gonzalo Fernandes de Oviedo, na General y Natural Historia de Indias, emprega a designação de Areyto, como o romance narrativo hespanhol:[23] «ni los niños é viejos dejarán de cantar semejantes areytos...»

E o auctor do livro Origine turanienne des Américains, tambem a emprega no sentido epico: «La litterature des Tupis, comme celle des Caribes, ne se trouvait que dans les Areytos, ou traditions des hauts faits de leurs devanciers, qu'ils chantaient en dansant, au son d'instruments.»[24] Na Europa, como vimos, persistiu a designação no Aurust, do Béarn, e, segundo a phrase de Oviedo, parece ter sido empregada em Hespanha, como a Aravia o foi em Portugal[25]. As lamentações dos mortos nas Vascongadas chamam-se Arirrajo, forma proxima do Areyto e do Aurust[26].

Do canto funebre dos bearnezes, os Aurusta, fala o collector das Poésies bearnaises, (p. VII, ed. Pau, 1852): «nos funeraes, quando a familia do defunto, para celebrar sua memoria, não pode senão achar lagrimas, duas mulheres, poetisas de profissão, semelhantes ás Voceratrices da Corsega, improvisam coplas cantadas sobre um tom lamentavel: uma lembra as boas acções do defunto, e a outra as más, imagens d'estes dous genios do bem e do mal que parecem conduzir o homem na vida; este uso que se encontra entre outros povos, mas que em nenhum apresenta um caracter tão eminentemente religioso e moral, tem o nome de Aurusta[27].» Em uma edição anterior d'este livro, com o titulo de Chansons et Airs populaires du Béarn, colligidas por Frederic Rivares, se define precisamente esse genero: «Os funeraes apresentam uma particularidade notavel. Logo que o doente exhala o ultimo suspiro, o seu corpo é estendido no chão, no meio da casa, e rodeado de uma multidão de mulheres que oram e velam lançando a espaços gritos lamentosos e medonhos gemidos. A mulher do defunto e os parentes mais proximos estão á frente das carpideiras e improvisam cantos em que são celebradas as suas virtudes. Este signal de dôr e affeição acompanham o morto até á ultima morada, e a occasíão em que a terra vae cobrir os caros despojos é indicada por uma explosão de gritos e de lamentações.

«Portanto o Aurust (é assim que se chama este canto) contém outras vezes mais do que louvores; é antes um julgamento do que uma oração funebre, e mais do que uma vez os parentes e o clero foram escandalisados por improvisos mais proprios para denegrir o morto e mesmo os vivos do que a excitar as magoas da sua perda[28]

Um canto lyrico do bearnez Navarrot Lous adious de la ballé d'Aspe, refere-se a este costume do seu paiz:

Qué dic, praübeit, l'amne qué s'em desligue

Daüme abadesse a biénét m'aurousta[29]!

Traduzido em portuguez, corresponde litteralmente:

Que digo, pobres, a alma que se me desliga,

Dona abadessa vinde-me aurustar (carpir).

Na epoca de D. João I ainda era costume em Portugal bradar sobre finado, e existia o costume das carpideiras, como entre os turanianos da Caria.

Na moderna nacionalidade brazileira, a lingua tambem se vae alterando, constituindo um verdadeiro dialecto do portuguez; cada um dos elementos da mestiçagem contribue com as suas alterações especiaes[30]. O elemento colonial modifica a accentuação phonetica, de um modo mais exagerado do que nas ilhas dos Açores; o som do s, como o ch gallego, torna-se sibilante e mavioso sobretudo nos pluraes; as construcções grammaticaes distinguem o se condicional do reflexivo si, e os pronomes precedem os verbos, como: Me disse, em vez de disse-me. No vocabulario, o portuguez conserva os seus provincianismos actuaes, e os archaismos do tempo da colonisação. Da parte do elemento ante-historico, uma certa indolencia na pronuncia exerce a grande lei da queda das consoantes mediaes e vogaes mudas; assim senhor é siô; senhora, sinhá; os finaes das palavras vão se contrahindo, perdendo os seus suffixos caracteristicos, como pió em vez de peor, casá, em vez de casar. Na parte do vocabulario é que se nota mais profundamente a acção do elemento ante-historico, pela profusão innumera de palavras de lingua tupi introduzidas na linguagem familiar de todo o imperio[31]. Algumas d'essas palavras já vão penetrando na lingua portugueza continental pelo regresso dos colonos ricos[32], assim como nas guerras de Flandres os soldados portuguezes trouxeram esses vocabulos que se chamaram frandunagem. A lucta instinctiva para manter a pureza da lingua portugueza está ligada ao facto politico da preponderancia do sangue portuguez na constituição da nova nacionalidade; assim na provincia onde o portuguez é mais archaico, em Minas Geraes, o elemento portuguez é puro e continúa a ser catholico como no seculo XVI, e conservador timorato. Nas provincias onde prevalece o cruzamento das raças selvagens, existe o espirito revolucionario, como em Sam Paulo, e o odio ao portuguez puro como em Pernambuco. Aqui estão as condições necessarias para um permanente estimulo contra a acção enervante do meio climatologico, um movel de energia scientifica e industrial; a capital do Rio de Janeiro pelo seu inextricavel cosmopolitismo está destinada a realisar o accordo de todos estes elementos para a obra da autonomia nacional, cujo sentimento, transparecendo já na litteratura, revela que o destino d'ella é identificar todas as divergencias n'este mesmo sentimento.

O moderno lyrismo brazileiro representa nas suas fórmas materiaes ou estrophicas a velha tradição das Serranilhas portuguezas tão bem assimiladas pelo turaniano da America; a ardencia explosiva da paixão amorosa, a lubricidade das imagens, a seducção voluptuosa do pensamento, accusam o sangue do mestiço, devorado pelo seu desejo, como em Alvares de Azevedo ou Casimiro de Abreu. A creação definitiva da litteratura brazileira consiste em tornar estes factos conscientes.

NOTAS DE RODAPÉ:

[10] «Como na America do norte o Anglo-saxonio, fundindo-se com o pelle vermelha, produziu o Yank, representante de uma nova civilisação, assim o latino, fundindo-se com o tupi, produziu essa raça energica que constitue a quasi totalidade da população de S. Paulo e Rio Grande, e a maioria do novo imperio.» Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem, p. XX.

[11] Na visita pastoral de 1761, o bispo do Grão Pará, Frei João de S. José Queiroz allude á paixão das Modinhas, que achou confundidas com os cantos religiosos: «ouvimos missa, a qual foi cantada pelas suas indias e mamelucas a quatro vozes bem ajustadas, e no fim varias cantatas devotas e de edificação sobre o que lhe fizemos uma pequena pratica em louvor do canto honesto e ao mesmo tempo invectiva contra o lascivo das Sarabandas e Modas do tempo.» Mem., p. 210.

No fim do livro dos Lyricos brazilleiros apresentamos uma pequena collecção de cantos populares; os cantos epicos ou romances conservaram o nome de Xácaras, não com sentido de dialogo, como as Xacarandinas hespanholas e portuguezas do seculo XVII, mas por se conservarem nas relações domesticas nas Chacaras ou fazendas do interior.

Os cantos lyricos conservam ainda o nome de Lunduns, designação que se encontra em Sá de Miranda, e em Nicolau Tolentino:

Em bandolim marchetado

Os ligeiros dedos promptos,

Louro peralta adamado

Foi depois tocar por pontos

O doce Lundum chorado. (Obras, p. 250)

O titulo d'este canto lyrico ainda se conserva nas Ilhas dos Açores dado especialmente aos bailhos de terreiro, bem como o Batuque, ainda conservado entre os Cururueiros de Cuyabá. As Sarabandas, estão hoje totalmente esquecidas em Portugal, significando esta palavra toda a admoestação aspera. O estudo dos cantos populares brazileiros não poderá ser bem feito sem o processo comparativo com os cantos do Archipelago açoriano. No estudo de Ferreira da Costa, que procede a edição das Poesias de Natividade Saldanha, allude este escriptor com favor excessivo aos nossos trabalhos sobre a poesia popular portugueza, e remata incitando ao mesmo trabalho os litteratos brazileiros: «Seria muito para desejar, que nas diversas provincias se recolhessem as cantigas populares aliás tão abundantes entre nós, a fim de se não perderem completamente no futuro. E aquelles que se lançarem a este campo com muitas difficuldades terão de luctar, mas prestarão um relevante serviço ao paiz. Muitos julgarão taes estudos uma verdadeira inutilidade, sem o menor valor; entretanto merecem elles todos os cuidados como elementos para a formação da litteratura popular. Praza a Deus, que muitos se lancem n'essa rica ceara, e tragam ao publico as suas colheitas.» (Ap. Poesias de J. da Natividade Saldanha, p. LXV, not. 28.)

[12] Ainda hoje as festas do Espirito Santo são como nas ilhas dos Açores. A lenda do Curupira tem analogias com o Encantado, da ilha de S. Miguel.

[13] Quatrefages, L'Espèce humaine, p. 209-210. Paris, 1877.

[14] Ap. Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem no Brazil, P. I, p. 144-5. Rio de Janeiro, 1876.

[15] Os mais severos philologos rejeitam esta designação quando applicada para exprimir o grupo das linguas ouralo-altaicas; porem como facto ethnico, comprehendendo sob o nome de turanianos os povos de côr amarella e vermelha, com analogias nas mesmas formas de civilisação, é uma descoberta indisputavel, que derrama uma luz immensa sobre a historia do Egypto, da Chaldêa e da Asia pre-vedica, nas suas relações com a America.

[16] Romania, t. VI, p. 265.

[17] Lenormant, Les Prémières Civilisations, II, p. 198-201.

[18] Canc. do Vaticano, p. 902.

[19] Revista trimensal, t. XXXVI, p. 11.

[20] Le Brésil contemporain, p. 71.

[21] Jean de Leri, Historia navigationis in Braziliam, p. 79.

[22] Idem, ib. p. 178.

[23] Op. cit., P. I. liv. 15, cap. I.

[24] L'Origine, p. 22.

[25] A designação peruana de Yaravi é applicada a cantos epicos tradicionaes, e na raça polynesica o cantor dos poemas heroicos das tribus chama-se Arepos. (Quatrefages, L'Espèce humaine, p. 144). No seculo passado tinhamos um canto chamado Arrepia. Tudo nos leva a crêr que a designação popular de Aravia, é um vestigio turaniano nada incompativel com qualquer influencia arabe, por isso que o arabe tambem propagou na Europa as superstições turanianas como prova Lenormant, no livro La Magie, Chez les Chaldéens.

[26] Francisque Michel, Pays Basque, p. 273.

[27] E. Vignancour, Poés. bearn., 2.ª ed.

[28] Op. cit., p. XV.

[29] Poésies bearnaises, p. 214.

[30] «Os sertenejos dizem: Elles estão falla fallando, para indicar que elles estão fallando muito. Numerosas formas da lingua tupi passaram para o portuguez do povo; e como é o povo quem no decurso de seculos elabora as linguas, essa se hade transformar ao influxo principalmente d'essa causa, de modo que dia virá em que a lingua do Brazil será tão diversa do portuguez, quanto este é do latim.» Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem; I. Curso de lingua tupi, p. 79.

[31] «O cruzamento d'estas raças ao passo que misturou os sangues, cruzou tambem (se me é licito servir d'esta expressão) a lingua portugueza, sobretudo a linguagem popular. É assim que, na linguagem do povo das provincias do Pará, Goyaz e especialmente de Matto-Grosso, ha não só quantidade de vocabulos tupis e guaranis accomodados á lingua portugueza, e n'ella transformados, como ha phrases, figuras, idiotismos, e construcções peculiares ao tupi. Este facto mostra que o cruzamento physico de duas raças deixa vestigios moraes, não menos importantes do que os do sangue.» Dr. Couto de Magalhães, O Selvagem, p. 76.

[32] Temos Caipira, etc.

III

Entre os differentes dialectos romanicos da peninsula nenhum recebeu mais prematuramente a forma escripta do que o gallego, pelo qual se introduziu a poesia provençal nas côrtes de Portugal e de Hespanha[33]; por circumstancias politicas nenhum perdeu tão cedo a vida litteraria, ficando apenas fallado por um povo desde muito tempo annullado pela absorpção castelhana. Ao formarem-se as primeiras litteraturas da peninsula, o gallego foi a linguagem em que se poetava na côrte de Castella, como se vê pelas Cantigas de Affonso o Sabio, e na côrte de Portugal, como está bem patente nas mil duzentas e cinco canções do Cancioneiro da Vaticana, e nos centenares de canções da collecção da Ajuda; por esse dialecto hoje desprezado, admittido apenas para uso das relações intimas das necessidades infantis, é que se podem explicar certas formas litterarias, como as Serranilhas, e certos phenomenos linguisticos do portuguez e castelhano como o che por te e por pl. Effectivamente, a Galliza deve ser considerada como um fragmento de Portugal, que ficou fóra do progresso de nacionalidade. Apesar de todos os esforços da desmembração politica, a Galliza não deixou de influir nas formas da sociedade e da litteratura portugueza: nas luctas de D. Affonso II, refugiaram-se na Galliza bastantes trovadores portuguezes, como João Soares de Paiva, e nas luctas de D. Fernando, refugiaram-se em Portugal um grande numero de familias nobres da Galliza, como os Camões, os Mirandas, os Caminhas, d'onde provieram os grandes e os maiores escriptores da esplendida epoca dos Quinhentistas.

Nas epocas em que a litteratura portugueza fixava as formas da lingua, ainda bastantes vestigios do gallego transparecem inconscientemente na linguagem dos escriptores, quando se aproximam da dicção popular. No Cancioneiro de Resende, em um Vylancete do Conde de Vimioso, se acha o galleguismo:

querend' esquexer-vos (fl. 85, col. 6.)

Nas comedias de Jorge Ferreira, cheias de locuções populares, abundam estes factos: «pagam-se de bem che quero;» (Eufros., 259) «fallou o boi e dixo bee;» (ib. 279) na comedia Aulegraphia: «Sempre fostes d'esses dichos.» (fl. 37 v.) «o som de bem che farei e nunca lhe fazem.» (fl. 20); «minha madrinha é azougue, e joga o dou-che-lo com quantos aqui ancoram.» (fl. 59, v.) «Andaes vós a bons dichos de philosophos.» (fl. 76. v.)

Em Sá de Miranda, nas Eclogas, sobretudo quando imita a linguagem popular, pollulam os galleguismos:

Onde quer que cho demo jaz (Ed. 1804, p. 220.) Não sei quem che por famoso (Id. 291.) Antre nós che era outro tal. (Id. 223.) Disse então. E assi che vae? (Id. 232, passim.)

Dos Autos de Gil Vicente tiraremos os bastantes para se reconhecer este fundo da lingua:

Cha, cha, cha, raivaram ellas (Ob. t. I, p. 131.) Que a ninguem tanto mal quige (Id. p. 135.) Se xe m'eu isso soubera (Ib. p. 136.) Que te dixe, mana emfim? (Ib. p. 142.) Que homem ha hi-de pucha (Ib. p. 172.) Isto hi xiquer irá (Ib. p. 247.) A Deos douche alma dizer. (Ib. p. 261.) Assi xe m'o faço eu. (III, 162.)

Até em Camões ainda persistem as formas gallegas, como na cantiga:

Hei me de embarcar n'um barco;

e nos Lusiadas na expletiva a, tão peculiar do dialecto em que o grande epico chegou a escrever dois sonetos.

Bem cedo as relações ethnicas de Portugal com a Galliza foram desconhecidas, e este facto é uma consequencia do desprezo que os escriptores tiveram pela tradição nacional. O nome de gallego tornou-se desprezivel em Portugal, e os grandes poetas oriundos de familias gallegas usaram-no n'esse sentido. Assim diz Sá de Miranda em uma Serranilha:

Sola me dexaste

En aquel yermo

Villano, malo, gallego. (Ob., 1804, p. 404.)

E o proprio Camões, nos Lusiadas, deixou essa phrase injusta: «Oh sórdido gallego...» ao passo que o povo portuguez derivou da sua indole pacifica o velho amphigurí:

Duzentos gallegos

não fazem um homem...

As povoações do Alemtejo chamam gallegos a todos os moradores do Ribatejo, pela transmissão inconsciente de uma tradição perdida. Isto bastará para explicar o assombro que deve causar aos conterraneos o vêrem a poesia moderna gallega occupando um logar devido ao lado da poesia portugueza, como uma das suas formas archaicas; seguimos o rigoroso criterio scientifico, deixando as preoccupações vulgares.

Pelo estudo da poesia gallega, é que se podem comprehender as formas do lyrismo portuguez; e a desmembração d'esse territorio, que ethnicamente nos pertence e tem permanecido para nós extranho durante tantos seculos, é que prova a falta absoluta de plano na nossa vida politica. A verdadeira origem da tradição lyrica da Galliza está ligada á sua constituição ethnica; esse lyrismo provém da eschola da Aquitania, onde a raça pertencia, segundo Strabão, mais ao typo iberico do que ao gaulez. Segundo as modernas descobertas da Antropologia e da Linguistica sabe-se que o Ibero, ou o basco actual, é de raça turaniana. Quando Silio Italico, escrevendo no seculo I, faz no poema historico da Segunda guerra punica a lista dos diversos povos da Peninsula que acompanharam Anibal na expedição contra a Italia, diz da Galliza:

Fibrarum et pennœ, divinarumque sagacem,

Flammarum, misit dives Gallaecia pubem

Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis,

Nunc pedis alterno percussa verbere terra

Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras,

Haec requies, ludusque viris, ea sacra voluptas.

(Lib. III, V. 345.)

Esta descripção coincíde com muitos caracteristicos da raça turaniana. Acclarando as interpretações de Sarmiento, poremos em relevo este sentido novo. Nas Memorias para la Historia de la poesia y poetas españoles, diz este critico patricio de Feijó: «Primeiramente llama a este pais de Gallicia rico (dives) acaso por los varios y preciosos metales que de alli salian para los romanos, y aun hoy se benefician.» De facto sabe-se hoje que a industria metalurgica é de origem turaniana, e que os vestigios d'esta raça se encontram sempre junto dos grandes jazigos minereos. Diz mais Sarmiento: «supone que tenian idioma proprio y aun idiomas diferentes (propris linguiis). Esto contra los que imaginan un solo idioma nacional en toda España en tiempo de los carthaginezes.» A fusão das tribus turanianas com os celtas lygios (tal como se deu na Irlanda) formando os celtiberos, fazia-se notar aos romanos pelos seus differentes, dialectos. Continúa Sarmiento: «supone los gallegos devotos y religiosos, pues los supone con sacrificios y demas diestros y sagaces en consultar á sus dioses, y al extispicio de sus victimas, ya en el auspicio de las aves, ya finalmente en la observancia, aun que vana, de los movimientos, color, volumen, voracidad y direcion de las llamas de sus holocaustos.» As formas magicas da religião accadica, o culto do fogo, e os nomes de divindades naturalistas que se acham nas Inscripcões colligidas por Hubner, dão a prova demonstrada d'essa raça turaniana, que desceu do norte da Europa. Finalmente Sarmiento: «dice que usaban en sus diversiones, juegos y fiestas sagradas de hymnos, canto, musica y bailes: ulutantem... carmina... alterno verbere pedis... ad numerum resonas cetras[34]

Esta grande abundancia de cantos e hymnos sagrados, tal como se descobriram nos livros accádicos, levam-nos a fixar que sob a forma celtica, acobertada com o nome de Galliza, existe uma camada social turaniana, da antiga diffusão que occupava a Aquitania e a Sicilia. É justamente n'estes pontos que subsistem as fórmas lyricas analogas ás gallegas, e portanto nenhum conhecimento seguro se póde ter do genio d'este povo sem tirar a luz da sua origem turaniana, tão persistente na indole e fórmas da sua civilisação. Os instrumentos musicos a que cantavam eram, como diz Silio Italico, ritu moris Iberi... barbara cetra, o que confirma, que no primeiro seculo christão ainda era sensivel esse caracter turaniano. A acção exercida pelo elemento celtico, romano, e mais tarde suévico sobre a raça turaniana pelo menos até ao Mondego, é complexissima: o celta desenvolveu a tendencia poetica amorosa, fazendo esquecer pelas prescripções druidicas os cantos religiosos; o romano influiu na creação precóce de um dialecto e na industria agricola; a estabilidade do suevo, tornado pacifico pelas suas grandes derrotas, manteve essa passividade que o gallego conserva na constituição das modernas nacionalidades da Peninsula.

De todas estas camadas ethnicas se conservam vestigios poeticos, e com assombro o dizemos, na tradição actual; são de origem turaniana os cantos de Alalála; são celticos os Cantares guayados; são romanos os cantos de Ledino, são suevicas ou germanicas as Chacones. Falaremos d'aquelles cantos tradicionaes que explicam o lyrismo moderno.

O Alalála é a neuma patriotica dos cantos gallegos, que os romanos julgavam ser o ulular; é ella que hallucina o que está ausente da sua patria, e que o cura da saudade nostalgica, chamada em Hespanha morrinha gallega. Um proverbio vasconço diz: Bethico leloa, isto é, «o eterno lelo,» ou—antigo e persistente como este estribilho nacional, que Silio Italico tomou como caracteristico. Na poesia euskariana conserva-se este vestigio cantabrico, que pela sua aproximação dos costumes irlandezes, se vê que é o estribilho de uma canção funebre ou areyto:

Lelo, il lelo

lelo, il lelo

leloa zarac (çaray?)

il leloa.

Outras canções vasconças conservam o mesmo estribilho, tantas vezes considerado como um individuo:

Eta lelori bay lelo...

Etoy lelori bay lelo, leloa çaray leloa[35].

Na poesia popular portugueza ainda se encontra em Coimbra e Açores o estribilho:

Lari lole

Como vae airosa,

Com a mão na transa,

Não lhe caia a rosa[36].

Tudo isto se liga a um veio perdido da poesia primitiva da grande raça turaniana, como se confirma por um canto funebre da Irlanda sempre acompanhado como o estribilho ullaloo[37]. A demonstração torna-se mais rigorosa desde que este mesmo estribilho apparece entre raças isoladas, de origem turanica.

Diz o Abbade Bertrand: «Os Chulalanos nas suas festas cantavam, dansando em volta de Teocalli (casa de Deus) um canto que começava pelas palavras tulanian, hululaez, que não pertence a nenhuma lingua actual do Mexico... O grito de alegria dos Kaulchadales, alkalalai, lembra tambem a mesma fórmula pelas ultimas syllabas...» Os saxões caminhavam para a guerra ao grito de alelá, grito que é ainda o haleli das caçadas. Em uma canção portugueza do Cancioneiro da Vaticana, se repete Edoy (Etoy) lelia, leli, leli. Como se explica a persistencia d'este refrem primitivo, ao passo que se foi perdendo o genero poetico? Sabe-se que o Arabe trouxe para a peninsula um grande numero de superstições turanianas, e assim fez reviver formas quasi extinctas da civilisação que trazia; a Serranilha é de designação arabe, como os Fados, (Huda) e um dos sete atributos que os derviches repetiam frequentes vezes ao dia era: La ilahi ill'Allah (não ha deus senão Allah), que parece quasi o estribilho gallego moderno: Alalála, lála la.

No grande Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, ainda se encontra um vestigio das antigas cantigas de Alalála; pertence essa composição a Pedro Anes Solaz, e é do mais alto valor archeologico:

Eu, velida, dormia,

le-li-a, d'outra!

E meu amigo venia,

edoy le-li-a d'outra.

Nen dormia e cuydava

lelia d'outra!

E meu amigo chegava

edoy lelia d'outra!

O meu amigo venia

lelia d'outra!

E d'amor tambem dizia

edoy lelia d'outra.

O meu amigo chegava

lelia d'outra

E d'amor tambem cantava

edoy lelia d'outra!

Muyto desej'ey, eu amigo,

lelia d'outra,

Que vos tevesse comigo

edoy lelia d'outra!

Leli, leli, por deus lely

lelia d'outra!

Bem sey quem non diz leli

edoy lelia d'outra.

Bem sey eu quem diz lelya

lelia d'outra!

Demo xe quem non diz lelia

edoy lelia d'outra[38].

As varias formas poeticas, que se encontram na Europa, o liedle do dialecto suisso, o lied allemão, o liod irlandez, leod anglo-saxão, o leudus da baixa latinidade, o leoi irlandez, o lai bretão, correspondendo ao genero do lelo basco e Alalála galleziano, e lelia portuguez, accusam uma origem commum, que se pode explicar pela tradição lyrica da raça turaniana na Europa. O sentido da palavra lai, que ficou nas litteraturas como caracteristico de um genero lyrico, é especialmente musical.

Uma outra neuma caracteristica da Peninsula, mas já peculiar da raça celtica é o Guay, que chegou a constituir um genero dos cantares guayados, do que ainda falla Gil Vicente. Os romances peninsulares assim como começavam «Helo, helo, por do viene» tambem tem outro principio, como «Guay Valencia, Guay Valencia.» É aquelle grito celtico Woe! Woe! que ainda hoje se conserva na Escossia como uma vehemente expressão natural. A gaita de folles da Escossia é similhante á gaita gallega, em tempo admtida no exercito hespanhol como meio salutar na nostalgia dos recrutas da Galliza. Como o gaëls das montanhas da Escocia, que, longe da patria, na America do norte ou nas florestas do Canadá, falla o inglez, mas sonha e sente no dialecto gaëlico, é assim o gallego entregue aos trabalhos braçaes longe da sua patria, ou nas guarnições militares; as cantigas do Alalála, a Muiñera trazem-lhe á lembrança o ár das suas montanhas: Ayriños de miña terra, que elles aspiram n'esse hausto de saudade, Guay!

Vejamos como por seu termo a influencia do genio celtico faz prevalecer esse profundo caracter de unidade tradicional do lyrismo moderno. Na civilisação da Peninsula, a Galliza occupa uma posição excepcional como a Provença para com a França; a sua longa tranquilidade fel-a adoptar o gosto lyrico da Eschola da Aquitania; e assim como a poesia provençal foi o desenvolvimento litterario de cantos tradicionaes do meio dia da França (celto-romana) como ainda se descobre por uma rubrica de uma canção do conde Poitiers, na Galliza sugere as formas novas e o estylo lyrico popular aos trovadores portuguezes e castelhanos. Não basta sómente Strabão considerar os Aquitanios mais parecidos com os Iberos (da fusão celtibera) do que com os gaulezes (reconhecidos como raça scythica[39]) ha um fundo commum de poesia lyrica pertencente á Italia, á Provença, á Galliza, e a Portugal, que comprova a existencia de um mesmo elemento ethnico n'estes paizes. Onde povos celticos se cruzaram com iberos, ou tribus turanianas, persistiu a primitiva tradição lyrica. A publicação moderna de algumas Pastorellas provençaes levou a presentir pela comparação essa unidade. Os restos de Dizeres e Serranilhas, que Gil Vicente intercala nos seus autos, são vestigios de canções gallegas do seculo XIV, tal como se lêem no Cancioneiro portuguez da Vaticana[40].

Uma Pastorella de Guido Cavalcanti traz estes versos quasi identicos a uma das serranilhas de Gil Vicente:

E domandai si avesse compagnia?

Ed ella me rispose dolcemente

Che sola, sola per lo bosco gia[41].

E em Gil Vicente:

Cheguei-me per'ella com gram cortezia,

Disse lhe:—Senhora, quereis companhia?

Disse-me: Escudeiro, segui vossa via[42].

Em um poeta do Cancioneiro geral, achamos um vilancente immensamente parecido com uma canção bearneza e com outra do sul da Franca; eis o vilancente de Francisco de Sousa:

Abaix'esta serra

verey minha terra!

Oh montes erguidos,

Deixae-vos caír,

Deixae-vos sumir

E ser destroydos!

Poys males sentidos

Me dam tanta guerra

Por ver minha terra[43].

Na canção bearneza de Gastão Phebus, existem estes mesmos elementos tradicionaes:

Aquères mountines

Qui ta haütes soun,

M'empèchen de béde

Mas amous oun soun.

Si subi las béde

Ou las rancountrá,

Passéri l'ayguete

Chéus poü dem'nega[44].

Em um canto provençal moderno de Jasmim, ao referir-se aos refrens que ressôam pelos áres, intercala este vestigio tradicional das antigas pastorellas:

Aquellos muntaynos

Que tam hautos sun,

M'empachon de beyre

Mas amus un sun;

Baycha-bus, muntaynos,

Planos, hausabús,

Perque posqui beyre

Un sun mas amús[45].

A persistencia da tradição lyrica na Galliza, é que a tornou o centro de irradiação litteraria nas côrtes peninsulares onde o seu dialecto era empregado na linguagem poetica, como o provençal no norte da França. A conquista romana veiu muito cedo influir na constituição do dialecto gallego, sem alterar a tradição poetica; influiu bastante na forma da industria agricola. Diz Sarmiento: «Galicia, mi patria, es la Provincia que mas voces latinas conserva, y en especial en quanto toca á agricultura. Digolo, porque lei por curiosidad de verbo ad verbum, á Caton, Varron, Columella y Palladio[46].» A Galliza foi o primeiro territorio da Peninsula que sofreu e ficou submettido á invasão dos barbaros do norte; os Suevos, que se apoderaram d'ella eram um dos ramos mais civilisados das raças germanicas, e chegaram a estender o seu dominio até ao Tejo. A sua derrota, por Theodorico, na batalha de Urbius, restringiu-os ao territorio gallaico, e a sua adopção do catholicismo, fez com que o Suevo perdesse os seus mythos odinicos, e por tanto não pode elaborar os cantos epicos, que teriam sido um estimulo de resistencia e de cohesão nacional. Por causa do catholicismo entraram em conflicto com os Vandalos, que seguiam as doutrinas de Ario, e pelo catholicismo veiu a prevalecer a erudição morta das escholas latinas, dando ao novo dialecto uma forma bastante artificial. Uma vez privado das antigas ambições de conquista e da actividade das armas, o Suevo ficou sedentario, e pelas condições do territorio em que estava limitado, entregou-se ao trabalho da agricultura; o lyrismo desenvolveu-se sob as emoções da vida rural, mas a emphyteuse romana, e os direitos de mão-morta tornaram a lavoura um trabalho de servos e a Galliza um paiz de desgraçados. A influencia da lingua dos suevos sobre o gallego actual fazendo com que tivesse uma poesia muito mais cedo do que as outras linguas da Peninsula, é assim caracterisada por Helfrich e Declermont: «Comparando a vocalisação do dialecto suabio actual á do portuguez, julga-se ter achado a solução do problema. Foram os Suevos, que, primeiro do que todas as outras tribus germanicas se estabeleceram na Galliza, e admittindo que a lingua allemã recebesse na bocca dos Suevos, desde a sua primeira apparição historica, uma vocalisação distincta da do gothico, não custará a attribuir a intonação nasal, particular ao dialecto suabio, e que se encontra de uma maneira surprehendente no portuguez, á influencia da lingua dos Suevos sobre o novo-latino que acabava de se formar unicamente na Galliza[47].» E Sarmiento, tão investigador das antiguidades da Galiza, affirma: «Quando Portugal estaba em posesion de los Moros, se hablava ya en Galicia el idioma vulgar, aunque dudo que se escribiesse; como ni aun hoy se escribe. Pero esto no impide que se cantasse, e que en el se hiciesen varias coplas, que despues se pasaran al papel...» (op. cit., p. 200). D'estes cantos populares existem preciosos especimens no Cancioneiro da Vaticana, mas sobretudo existe a canção épica com que o genio do Suevo reagiu contra a invasão arabe da peninsula; tal é a tradição de Peito Burdello, gallega na forma, conservada em Portugal:

No figueiral figueiredo

A no figueiral entrei;

Seis nenas encontrara

Seis nenas encontrei...[48]

D'outras formas epicas conserva-se apenas a designação de Chacone, tambem commum a Portugal, Hespanha, França e Italia, como vestigio do elemento germanico (wisigothico, franko e lombardo). O mais antigo romance hespanhol hoje conhecido, tem a fórma gallega, e foi por nós restituido sobre o apographo da Vaticana[49].

Uma das causas porque a lingua gallega se tornou o dialecto particular da poesia lyrica tanto de Portugal como de Castella alem da communicação primeira com os trovadores da Aquitania, está no estado de desenvolvimento politico d'estes dois paizes. Castella, não tinha ainda dominado as differentes provincias de Hespanha, nem garantido contra ellas a sua propria independencia; a unidade soberana das Hespanhas era disputada pelo Aragão e por Leão. Só no meiado do seculo XV, sob Fernando e Izabel é que essa unidade politica se fez; e é a datar d'esse tempo que a lingua castelhana toma desenvolvimento, reduzindo as outras linguas a dialectos restrictos e particulares; era no principio do seculo XV que o marquez de Santillana fallava do uso gallego na poesia castelhana não só referindo-se ás poesias de Affonso o Sabio, educado na Galliza, mas a essa especie de renascença do genio poetico da Galliza em Villasandino, em Macias e Juan Rodrigues del Padron, seus contemporaneos. A influencia da lingua gallega cessa no momento em que o castelhano, por effeito da unidade politica, se constitue em disciplina grammatical e em lingua official. N'este mesmo periodo do seculo XV já a lingua portugueza estava mais contraída do que a castelhana, já distinguia a sua epoca archaica, porque desde a constituição da nacionalidade portugueza ou melhor, desde que recebeu forma escripta, não teve nunca a lutar com as aberrações dialectaes, e por isso o seu desenvolvimento em vez de dispender-se em unificação deu-se no sentido do neologismo e da disciplina.

Mas o uso da lingua gallega em Portugal, sobretudo na poesia, proveiu, em parte, do elemento aristocratico, e em parte pela immobilidade d'esse dialecto, que era uma como especie de apoio no meio das perturbações que as colonias francezas e inglezas, e as povoações mosarabes e mudgares conquistadas podiam produzir na nova sociedade. A separação do portuguez do gallego consistiu na immobilidade do mesmo dialecto em um ponto, e do seu progresso successivo e litterario em outro.

Os limites da Galliza, na epoca da constituição da nacionalidade portugueza, demonstram materialmente a relação em que estavamos para recebermos e imitarmos essa poesia popular e esse novo dialecto. Diz Herculano: «No seculo XI a extrema fronteira da Galliza ao occidente, parece ter-se dilatado ao sul do Douro, nas proximidades da sua foz, pela orla do mar até alem do Vouga; mas seguindo ao nascente o curso d'aquelle rio, os sarracenos estavam de posse dos castellos de Lamego, Tarouca, S. Martinho de Mouros, etc.[50]» No antigo Cancioneiro da Ajuda, encontra-se a cada verso o xe, por te:

Fazer eu quanto x'el quer fazer. (Canc. n.º 55.)

Mais pois vejo que x'el quer assi

Poil-o el faz xe me mal fazer. (N.º 158.)

Estas fórmas explicam-nos a tendencia da lingua portugueza em converter a combinação pl em ch, como em plus, chus, plantar, chantar, planto, chanto, plano, chão, platus, chato, que na corrente erudita se conservam na sua pureza latina, como plantar, pranto, plano, prato. O Cancioneiro da Vaticana conserva entre os trovadores portuguezes muitos poetas gallegos taes como Affonso Gomes, jograr de Sarria, Fernam Gonçalves de Senabria, João Ayras, burquez de Santiago, João Romeu, de Lugo, João Soares de Paiva, que foi morrer á Galliza por amores de uma infanta, João Vasques, de Talavera, Martim de Pedrozelos, João Nunes Camanes, Vasco Fernandes de Praga e outros muitos. A Galliza, nas luctas da côrte portugueza no tempo de D. Affonso II, D. Affonso III e D. Fernando I, foi uma especie de paiz neutro para onde se acolhiam os fidalgos portuguezes; os fidalgos gallegos recebiam em Portugal o melhor acolhimento e não receiaram seguir o partido de D. Fernando, tendo por isso de se refugiarem na sua côrte depois de vencidos. Aquelles poetas quinhentistas portuguezes, Sá de Miranda e Camões, que ligaram ao nome de gallego um sentido de desprezo, eram oriundos d'esta emigração politica do fim do seculo XIV; e foram elles que acharam a feição nacional da nossa poesia e nos libertaram da subserviencia litteraria de Castella, em que estavamos, como se vê pelo Cancioneiro geral, de Resende.

Era preciso que a tradição poetica popular da Galliza fosse profunda para que, ainda depois de Affonso o Sabio, quando já a Galliza não tinha vida politica, produzisse poetas lyricos de tal forma inspirados, como Villassandino, Macias, Juan Rodrigues del Padron, Jerena e Arcediago do Toro, para que no fim do seculo XIV luctassem contra a influencia do novo lyrismo da Italia, que entrava por Sevilha. Nas litteraturas a fecundidade e originalidade individual correspondem sempre á existencia de um vigoroso elemento de tradição popular; esta grande lei da critica moderna verifica-se na Galliza. No meado do seculo XV escrevia o Marquez de Santillana ao Condestavel de Portugal: «E depois acharam esta Arte, que Maior se chama, e Arte Commum, creio, nos reinos de Galliza e Portugal, onde não ha que duvidar, que o exercicio d'estas sciencias mais do que em nenhumas outras regiões e provincias de Hespanha se costuma; em tanto gráo, que não ha muito tempo, quaesquer Dizidores ou Trovadores d'estas partes ou fossem Castelhanos, Andaluzes ou da Extremadura todas as suas obras compunham em lingua gallega ou portugueza. E ainda é certo que recebemos os nomes de arte, como: maestria mayor, e menor, encadenados, lexapren e mansobre[51]

D'este trecho, se infere: 1.º Existencia da Arte commum, usada pelos Dizidores, que compunham em maestria menor essas obras que o Marquez no § XV chama «cantigas, Serranas e Dizeres portuguezes, e gallegos.» 2.º Que a par d'esta fonte popular coexistia a Arte Mayor, usada pelos Trovadores, que escreviam em metro limosino ou endecassyllabo, (eschola da Aquitania) sendo as suas composições mais artificiaes, como os encadenados, lexapren e mansobre. 3.º Que o dialecto gallego era usado na poesia lyrica tanto em Portugal, como em Castella, na Extremadura e Andaluzia. No seculo passado teve o erudito Sarmiento uma polemica com Don Thomaz Sanchez, tomando no sentido mais absoluto as palavras do Marquez de Santillana: «Yo como interessado en esta conclusion, por ser gallego, quisiera tener presentes los fundamentos que tuvo el Marquez de Santillana; pero en ningun Autor de los que he visto, se halla palabra que pueda servir de alguna luz[52].» No tempo de Sarmiento já eram estudadas as poesias de Affonso o Sabio escriptas em dialecto gallego, conforme o reconheciam Diego Ortiz de Zuniga e Papebroquio e hoje todos os philologos. Sarmiento depois de reconhecer tambem a lingua em que escreveram Macias e Padron, conclue: «De este modo se entiende y se confirma lo que escribió el Marquez de Santillana sobre el idioma de los antiguos Trobadores castellanos, andaluces y estremenhos.» (p. 200.) Quando o Marquez de Santillana assignalava esta influencia da Galliza, escrevia «não ha muito tempo»; este limite da influencia gallega assigna-se em Hespanha com a introducção da imitação italiana em Castella por Micer Imperial, e com relação a nós os portuguezes com a imitação de João de Mena começada pelo infante D. Pedro. O ultimo vestigio d'esta unidade poetica da Peninsula foi assignado por Sarmiento na comparação dos Adagios gallegos: «Los Adagios gallegos son los mismos que los de los Portuguezes y Castellanos mas antiguos[53]; y los Catalanes, que son semejantes á los Francezes...» (Ibid., 178.) No seculo XV ainda em Portugal Camões escreveu dois sonetos em lingua gallega, cuja intenção se não pode conhecer; no seculo XVII o Marquez de Montebello caracterisa o gosto das mulheres de Braga pelo canto em córos, tal como no seculo XVIII observa Sarmiento na Galliza; diz o Marquez: «Com grande destreza se exercita a musica, que é tão natural em seus moradores esta arte, que succede muitas vezes aos forasteiros que passam pelas ruas, especialmente nas tardes do verão, parar e suspenderem-se ouvindo as trovas que cantam em córos com fugas e repetições as raparigas, que, para excitar o trabalho de que vivem lhes é permitido...» (Vida de Manoel Machado de Azevedo.) Sarmiento escrevendo em 1741, observa tambem a influencia da mulher na poesia popular da Galliza: «Ademas d'esto he observado que en Galicia las mujeres no solo son poetisas, sino tambien musicas naturales.» (P. 237.) Esta caracteristica explica-se ethnicamente: «los paizes que estan entre los dos rios Duero y Miño, pertenecian á Galicia y no á Lusitania. Ptolomeo expresamente pone dos classes de gallegos: unos Bracharenses cuya capital era Braga; y otros Lucenses, cuya cabeza era Lugo. Pero despues que Portugal se erigió en reyno á parte, agregó muchos paizes de Galicia. De esto ha resultado que muchas cosas, que en realidad son gallegas han passado por portuguezas; etc.» (Ib. p. 201.) Isto se pode applicar á antiga tradição do Peito Burdelo ou do tributo das donzellas, versificada na Galliza, e hoje só conhecida em Portugal[54].

Caracterisando a poesia popular da Galliza, continúa Sarmiento: «Generalmente hablando, assi en Castilla como en Portugal y en otras provincias los hombres son los que componem las coplas e inventam los tonos ó ayres; y ahi se vé que en este genero de coplas populares, hablan los hombres con las mujeres ó para amarlas ó para satyrisarlas. En Galicia es el contrario. En la mayor parte de las coplas gallegas hablan las mujeres con los hombres; y es porque ellas son las que componen las coplas sin artificio alguno; y elas mismas inventan los tonos ó ayres a que las han de cantar, sin tener ideia del arte musico.» (Ib. p. 237.) Este caracteristico é mui bem observado, com a differença porém, no que diz respeito a Portugal, se deve exceptuar o Minho, o qual, não só pelo que vimos do trecho do Marquez de Montebello, como pelo estado actual da tradição alli, são as mulheres que exclusivamente cantam e improvisam, e os homens em geral conservam-se mudos, pelo seu estado de estupidez. Um moderno escriptor que viveu no Minho, dá-nos a seguinte noticia do estado da poesia popular: «Passei á orla das cortinhas onde mourejavam as moças da aldeia, e ouvi-as cantar ladainhas e versos de Sam Gregorio. Quedaram de cantar e romperam n'um murmurio monotono: resavam a corôa.» O phenomeno da Galliza e do Minho em que as mulheres são as que conservam a poesia, é o resultado da sua ultima decadencia; os padres prohibem as cantigas amorosas e impõem a Ladainha ou o Bemdito. As Romarias, são um meio em que o fanatismo das classes populares se concilia com as suas tradições lyricas; a Galliza e o Minho tem as Romarias como as suas festas mais queridas, como o pretexto dos seus cantos e dansas. Muitas das antigas Serranilhas do Cancioneiro da Vaticana alludem aos logares das romarias:

Ir a San Salvador...

A la egreja de Vigo...

Ir a Santa Cecilia...

Ora vou a San Servando...

Ide a San Mamede, ver-me-hedas... etc.

Estes versos formavam um genero ainda conhecido em Portugal no principio do seculo XVI pela designação de Cantos de ledino. A descripção que Sarmiento faz d'este costume da Galliza corresponde tambem ainda hoje ao nosso Minho: «Aun hoy executan lo mismo aquelles nacionales quando van á algun santuario ó Romeria. Siempre van en tropa hombres y mujeres. Estas cantando coplas al asunto y tocando un pandero; uno de los hombres tañendo flauta; y otro ó otros dançando continuamente delante hasta cansarse, y entran otros despues. Es verdad que non lleban armas para batirlas al compas, pelo lleban en su logar un genero de instrumento crustico que en el pais llaman ferreños (em portug. ferrinhos) y en Castella sonajas[55].» Pela poesia popular da Galliza se explicam as formas dos Cantares de Amigo dos nossos Cancioneiros aristocraticos, as Serranilhas, cujos refrens ainda prevalecem hoje no lyrismo brazileiro, os cantos guayados e de ledino, ainda lembrados em Portugal no seculo XVI, os caracteristicos dos cantos do Minho entoados por mulheres e ao mesmo tempo a falta de tradições epicas.

Os trovadores e jograes que figuram no Cancioneiro da Vaticana, constituiram um genero poetico d'esta caracteristica tão especial dos cantos populares gallegos; a par de muitas canções de uma metrificação artificial e de um sentimento requintado, apparecem os mais suaves idylios em um parallelismo quasi biblico, com retornellos repetidos, em que são as mulheres que fallam dos seus namorados, despedindo-se, esperando-os, arrufando-se com elles, pondo prazo para romarias. Chamou-se a este genero Cantares de Amigo, e o que assombra é a persistencia d'esta fórma, que se elevou do povo até á imitação aristocratica, obtendo a predilecção de el-rei Dom Diniz, e como tornou a desapparecer dos Cancioneiros ficando até hoje nos costumes populares. Algumas d'essas cantigas de amigo eram tão proverbiaes que os segreis as intercallavam no meio das suas composições, como fazia Ayres Nunes, repetindo:

Sol-o ramo verde, frolido

Vodas fazem ao meu amigo;

e choram olhos de amor.

(Canc. da Vat., n.º 454.)

Uma canção de João de Gaya, termina com esta rubrica preciosa: «Esta cantiga foy seguida de uma baylada que diz:

Vós avedes los olhos verdes

e matar-me-hedes com elles.»

(Canc. da Vat., n.º 1062.)

Em outro logar o mesmo jogral satyrisando o alfaiate do bispo Dom Domingos Jardo, apresenta a rubrica: «Diz uma cantiga de vilaño:

Ó pee d'huna torre

bayla corpo e giolo,

vedel o cós, ay cavalleiro.»

(Canc., n.º 1043.)

Estes vestigios accentuam a corrente popular que entrou nos Cancioneiros, e nos dão a origem das mais bellas composições ou fórmas tradicionaes que ahi se conservam.

Portugal, Galliza e Brazil tão separados pelas vicissitudes politicas, conservam ainda inteira a sua unidade ethnica na tradição litteraria. É o que pretendemos fazer sentir n'este livro.

Pelo estudo da sua tradição é que as nacionalidades revivem; é pelo conhecimento do seu desgraçado passado que Portugal saberá traçar o seu novo destino. Na moderna nacionalidade brazileira o elemento portuguez da provincia de Minas, está destinado a manter a integridade de um povo facil a ser desnaturado por um excessivo cosmopolitismo. No seculo passado começou na Galliza um movimento nacional da tradição, pelos eruditos Feijó, auctor do Theatro critico, Sarmiento, o que até então melhor estudou as origens litterarias de Hespanha, e Sobreyra, que deixou os manuscriptos Ideia de un Diccionario de la lengua gallega. No emtanto as agitações napoleonicas embaraçaram esse progresso local, e a Galliza annullada pela centralisação castelhana, perdeu a sua lingua. Esta queda reflecte-se no annexim popular:

Sei que porque estás na Coruña

Xa non queres falar en galego[56].

O afastamento da Galliza de Portugal provém do esquecimento da tradição nacional e da falta de plano politico em todos os que nos tem governado. Em Portugal o espirito moderno penetra, mas ainda, é considerado como revolucionario. Na Galliza o estudo da tradição recomeçou já; a lingua tem já uma grammatica composta por D. Xam Anton Saco Arce[57], e um diccionario por D. Juan Cuveiro Pinhol; tem já uma historia, por D. Manoel Murguia, e a poesia é cultivada por vultos sympathicos como Elvira Luna d'o Castillo, D. Rosalia Castro de Murguia, D. Ramon Rua Figuénsa, Valentin L. Carvajal, Alberto Camiño, D. José Benito Amado, e Turnes, que fazem reviver esse dialecto outr'ora peculiar das côrtes peninsulares. E por isso que cada paiz tem o seu lyrismo bem caracterisado, em Portugal a poesia é o unico agente da ideia avançada que trabalha para a transformação futura; no Brasil predomina ainda a feição colonial, conservando as fórmas perdidas desde o seculo XVI na poesia portugueza; na Galliza, a poesia tem a ingenuidade e o fervor de uma renascença.

Theophilo Braga.

NOTAS DE RODAPÉ:

[33] Marquez de Santillana, Carta ao Condestavel de Portugal.

[34] Op. cit. p. 31, n.º 76.

[35] Apud Pays basque, por Fr. Michel, p. 230, 281, 283.

[36] Cancioneiro popular, p. 60. Coimbra, 1867.

[37] «Os irlandezes, cuja musica é naturalmente mais triste, eram mais dispostos a adoptar a expressão da dôr; assim o coronach ou ulalaith, a lamentação era o mais commum dos seus cantos funebres.» Histoire des Druides d'aprés M. Smith, p. 78.

[38] Canc. da Vaticana, n.º 415.—A influencia basca na poesia tradicional e palaciana, parece determinar-se por uma acção mais moderna, como se vê por esta canção de Ruy Paes de Ribela: (Antologia portugueza, n.º 23.)

A donzella de Biscaya

ainda a má preito saia

de noite ao luar? etc.

São biscainhas as tradições heraldicas colligidas pelo Conde D. Pedro no Nobiliario ácerca da Dama pé de cabra.

[39] Lemière, 2.ᵉ Étude sur les Celtes et les Gaulois, 1.º fasc.

[40] Vid. essa comparação no Manual de Historia da Litteratura portugueza, p. 47.

[41] Apud Nanuci, Manual della Letteratura italiana, I, p. 273.

[42] Obras, t. III, 218.

[43] Canc. geral, t. III, 562.

[44] Poésies béarnaises, canson XXXIX p. 152. Ed: Pau, 1852.

[45] Ap. Rev. des Deux Mondes, 1846, t. IV, p. 402.

[46] Memorias para la Historia de la Poesia, etc. p. 144.

[47] Aperçu de l'Histoire des Langues neo-latines en Espagne, p. 36.

[48] Vid. Antologia portugueza, n.º 1.

[49] La Academia, n.º 17, p. 262. Madrid, 1877.

[50] Herculano, Hist. de Port., III, p. 189. (1849).

[51] Carta ao Condestavel, § XIV.

[52] Mem, p. 196.

[53] Eis aqui alguns rifões gallegos communs á tradição portugueza:

Tempos van e tempos ven,

Sufranse os que penas ten.

O vino

Fai o vello mocino.


No hai lua como a do Janeiro,

Nin amor como o promeiro.


Digocho sogra,

E entendemo nora.


O probe é sempre mal home;

O rico sempre é un bendito.


Pascuas molladas,

Moitas obratas;

Pascuas enxoitas

Nin poucas nin moitas.


Quen manda e fai

Ten dous traballos.


O home por la palabra

E o boi pola corda.


Á conta dos meus compadres

Rebandas ós meus afillados.


Canto mais lle dan ó tolo

Mailo tolo quer.


Dixolle o pote ó caldero

Tirat' alá no me luxes.


No mes de Janeiro

Vaite ó outeiro,

Se ves verdejar

Pónte a chorar;

Se ves negrejar

Ponte a bailar.


No mes de Janeiro

Saben as berzas

Coma o carneiro.


A muller e a ovella

Cedo pra cortella.


O que escoita

Mal de si oye.

[54] Epopêas mosarabes, p. 173 a 207.

[55] Mem. cit. p. 35.

[56] Periodico—La Galicia, vol. IV, p. 107.

[57] Esta grammatica ressente-se da grave opinião do seu auctor, que desconhece que o gallego é um dialecto do portuguez, e por isso o seu estudo comparativo ficou em grande parte improficuo. Vid. Romania, n.º 3; e Bibliographia critica de historia e litteratura, p. 55.

OBRAS POETICAS CITADAS N'ESTE LIVRO

Folhas cahidas, por Alexandre Garrett, 1869.

Excavações poeticas, por A. Feliciano de Castilho, 1844.

Harpa do Crente, por Alexandre Herculano, 1860.

O Trovador, Coimbra, 1848.

Poesias, de Luiz A. Palmeirim.

Murmurios, por Augusto Lima, 1851.

Poesias, por A. A. Soares de Passos, Porto, 1858.

A Grinalda, vol. I-VI. Porto.

O Novo Trovador, Coimbra, 1856.

Canticos, de J. S. Mendes Leal, Lisboa, 1858.

Versos, de R. de Bulhão Pato.

Primeiras Inspirações, por E. Marecos, Lisboa, 1858.

Flores do Campo, por João de Deus, Porto, 1876.

Folhas soltas, por João de Deus, Porto, 1876.

Odes modernas, por Anthero do Quental, Porto, 1875.

Visão dos tempos, por Theophilo Braga, Porto, 1870.

Heras e Violetas, por Guilherme Braga, Porto, 1869.

Rimas, de Alberto Telles, Coimbra.

A Alma nova, por Guilherme de Azevedo, Lisboa, 1874.

Harmonias phantasticas, por Sousa Viterbo, Porto, 1875.

Poema da Miseria, por Candido de Figueiredo, Coimbra, 1874.

Claridades do Sul, por Gomes Leal, Lisboa, 1875.

Scenas contemporaneas, por Claudio José Nunes, Lisboa, 1873.


Obras, de Àlvares de Azevedo, Rio de Janeiro, 1862.

Cantos, por Gonçalves Dias, Leipzic, 1860.

Novos Cantos, pelo mesmo.

Ultimos Cantos, pelo mesmo.

Primaveras, por Casimiro de Abreu, Lisboa.

Contradicções poeticas, por Junqueira Freire.

Suspiros, por Gonçalves de Magalhães, Paris, 1859.

Cantos do Ermo e da Cidade, por Fagundes Varella.

Poesias, por Castro Alves, Bahia, 1870.

Quadros, por Joaquim Serra, Rio de Janeiro, 1873.

Ideias e Sonhos, por Sousa Pinto, Lisboa, 1872.

Novas Poesias, por Bernardo Guimarães, Rio de Janeiro, 1876.

Phalenas, por Machado Assis.

Flores e Fructos, por Bruno de Seabra, Rio de Janeiro, 1872.

Alvoradas, por Lucio de Mendonça, Rio de Janeiro, 1875.

Nebulosas, por Narcisa Amalia, Rio de Janeiro, 1872.

Flores sylvestres, por Bettencourt Sampaio, Rio de Janeiro, 1860.

Parnaso Maranhense, Maranhão, 1861.

Poesias, de Franco de Sá, S. Luiz do Maranhão, 1869.

Consoladoras, por Filgueiras Sobrinho, Paris, 1876.

Miniaturas, por Gonçalves Crespo, Coimbra, 1871.

Estrellas errantes, por Quirino dos Santos, Campinas, 1876.

Peregrinas, por Octaviano Hudson, Rio de Janeiro, 1874.


Cantares gallegos, de D. Rosalia Castro de Murguia, Madrid, 1870.

Trovas e Cantares, Madrid, 1859.

Espinas, frores e follas, por Valentin T. Carvajal.

La Galicia, periodico.

PARTE I
OS LYRICOS PORTUGUEZES

OS CINCO SENTIDOS

São bellas, bem o sei, essas estrellas,

Mil côres divinaes tem essas flôres;

Mas eu não tenho, amor, olhos para ellas;

Em toda a natureza

Não vejo outra belleza

Se não a ti, a ti!

Divina, ai! sim, será a voz que afina

Saudosa, na ramagem densa, umbrosa,

Será; mas eu do rouxinol que trina

Não oiço a melodia,

Nem sinto outra harmonia

Se não a ti, a ti.

Respira, n'aura que entre as flôres gira,

Celeste incenso de perfume agreste.

Sei... não sinto: minha alma não aspira

Não percebe, não toma

Se não o doce aroma

Que vem de ti, de ti.

Formosos são os pômos saborosos,

É um mimo de nectar o racimo;

E eu tenho fome e sêde... sequiosos,

Famintos meus desejos

Estão... mas é de beijos,

É só de ti, de ti.

Macia, deve a relva luzidia

Do leito ser, por certo, em que me deito;

Mas quem, ao pé de ti, quem poderia

Sentir outras caricias,

Tocar n'outras delicias

Se não em ti, em ti!

A ti! ai, a ti n'os meus sentidos

Todos n'um confundidos,

Sentem, ouvem, respiram;

Em ti, por ti deliram.

Em ti, a minha sorte,

A minha vida em ti;

E quando venha a morte,

Será morrer por ti.

Almeida Garrett, Folhas Cahidas, p. 169. Lisboa, 1869.


RETRATO

(N'um album)

Ah! despreza o meu retrato

Que eu lhe queria aqui pôr!

Tem medo que lhe desfeie

O seu livro de primor?

Pois saiba que por despique

Eu sei tambem ser pintor:

Co' esta penna por pincel,

E a tinta do meu tinteiro,

Vou fazer o seu retrato

Aqui já de corpo inteiro.

Vamos a isto. Sentada

Na cadeira moyen-âge,

O cabello en chaitellaines,

As mangas soltas. É o traje.

Em longas prégas negras

Caía o velludo e arraste,

De si com desdem regio

Com o pésinho o affaste...

N'essa attitude! Está bem:

Agora mais um geitinho;

A airosa cabeça a um lado

E o lindo pé no banquinho.

Aqui estão os contornos, são estes,

Nem Daguerre lh'os tira melhor;

Este é o ar, esta a pose, eu lh'o juro

E o trajar que lhe fica melhor.

Vamos agora ao difficil:

Tirar feição por feição;

Entendel-as, que é o ponto,

E dar-lhe a justa expressão.

Os olhos são côr da noite,

Da noite em seu começar,

Quando inda é joven, incerta

E o dia vem de acabar.

Tem uma luz que vae longe,

Que faz gosto de queimar:

É uma especie de lume

Que serve só de abrazar.

Na bocca ha um sorriso amavel,

Amavel é... mas queria

Saber se é todo bondade

Ou se meio é zombaria.

Ninguem m'o diz? O retrato

Incompleto ficará,

Que n'estas duas feições

Todo o sêr, toda a alma está.

Pois fiel como um espelho

É tudo o que n'elle fiz;

E o que lhe falta, que é muito,

Tambem o espelho o não diz.

Almeida Garrett, Folhas Cahidas, p. 208.


VIBORA

Como a vibora gerado,

No coração se formou

Este amor amaldiçoado

Que á nascença o espedaçou.

Para elle nascer morri;

E em meu cadaver nutrido,

Foi a vida que eu perdi

A vida que tem vivido.

Almeida Garrett, Folhas Cahidas, p. 196.


ESTE INFERNO DE AMAR

Este inferno de amar como eu amo!

Quem m'o poz aqui n'alma... quem foi?

Esta chamma que alenta e consomme,

Que é a vida, e que a vida destroe,

Como é que se veiu a atear,

Quando, ai quando se hade ella apagar?

Eu não sei, nem me lembra, o passado,

A outra vida que d'antes viví

Era um sonho talvez... foi um sonho,

Em que paz tão serena a dormí!

Oh que doce era aquelle sonhar...

Quem me veiu, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso

Eu passei... dava o sol tanta luz!

E os meus olhos, que vagos giravam,

Em seus olhos ardentes os puz.

Que fez ella? eu que fiz? Não n'o sei;

Mas n'essa hora a viver comecei...

Almeida Garrett, Folhas Cahidas, p. 149.


QUANDO EU SONHAVA

Quando eu sonhava, era assim

Que nos meus sonhos a via;

E era assim que me fugia,

Apenas eu despertava,

Essa imagem fugidia

Que nunca pude alcançar.

Agora que estou desperto

Agora a vejo fixar...

Para quê?—Quando era vaga,

Uma ideia, um pensamento,

Um raio de estrella incerto

No immenso firmamento,

Uma chimera, um vão sonho,

Eu sonhava—mas vivia:

Prazer não sabia o que era,

Mas dôr, não n'a conhecia...

............................

Almeida Garrett, Folhas Cahidas, p. 190.


CASCAES

Acabava alli a terra

Nos derradeiros rochedos,

A deserta árida serra

Por entre os negros penedos

Só deixa viver mesquinho

Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados

Sopravam rijos na rama,

E os céos turvos, annuviados,

O mar que incessante brama...

Tudo alli era braveza

De selvagem natureza.

Ahi, na quebra do monte,

Entre uns juncos mal-medrados,

Sêcco o rio, sêcca a fonte,

Hervas e matos queimados,

Ahi n'essa bruta serra,

Ahi foi um céo na terra.

Alli sós no mundo, sós,

Sancto Deus! como vivemos!

Como eramos tudo nós

E de nada mais soubemos!

Como nos folgava a vida

De tudo o mais esquecida!

Que longos beijos sem fim,

Que fallar dos olhos mudo!

Como ella vivia em mim,

Como eu tinha n'ella tudo,

Minh'alma em sua razão,

Meu sangue em seu coração!

Os anjos aquelles dias

Contaram na eternidade:

Que essas horas fugidias,

Seculos na intensidade,

Por millennios marca Deus

Quando as dá aos que são seus.

Ai! sim, foi a tragos largos,

Longos, fundos que a bebí

Do prazer a taça:—amargos

Depois... depois os senti

Os travos que ella deixou...

Mas como eu ninguem gosou.

Ninguem: que é preciso amar

Como eu amei—ser amado

Como eu fui; dar e tomar

Do outro sêr a quem se ha dado,

Toda a razão, toda a vida

Que em nós se annulla perdida.

Ai, ai! que pesados annos

Tardios depois vieram!

Oh! que fataes desenganos,

Ramo a ramo, a desfizeram

A minha choça na serra,

Lá onde se acaba a terra!

Se o visse... não quero vel-o

Aquelle sitio encantado;

Certo estou não conhecel-o,

Tão outro estará mudado,

Mudado como eu, como ella,

Que a vejo sem conhecel-a!

Inda alli acaba a terra,

Mas já o céo não começa;

Que aquella visão da serra

Sumiu-se na treva espessa,

E deixou núa a bruteza

D'essa agreste natureza.

Almeida Garrett, Folhas Cahidas, p. 177.


DESTINO

Quem disse á estrella o caminho

Que ella hade seguir no céo?

A fabricar o seu ninho

Como é que a ave aprendeu?

Quem diz á planta: florece!

E ao mudo verme que tece

Sua mortalha de seda

Os fios quem lh'os enreda?

Ensinou alguem á abelha

Que no prado anda a zumbir

Se á flôr branca ou á vermelha

O seu mel hade ir pedir?

Que eras tu meu sêr, querida,

Teus olhos a minha vida,

Teu amor todo o meu bem...

Ai! não m'o disse ninguem.

Como a abelha corre ao prado,

Como no céo gira a estrella,

Como a todo o ente o seu fado

Por instincto se revela,

Eu no teu seio divino

Vim cumprir o meu destino...

Vim, que em ti só sei viver,

Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett, Folhas

Cahidas, p. 151.


NÃO ÉS TU

Era assim, tinha esse olhar,

A mesma graça, o mesmo ár,

Córava da mesma côr,

Aquella visão que eu vi

Quando eu sonhava de amor,

Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o pórte altivo,

O semblante pensativo,

E uma suave tristeza

Que por toda ella descia,

Como um véo que lhe envolvia,

Que lhe adoçava a belleza.

Era assim; o seu fallar,

Ingenuo e quasi vulgar,

Tinha o poder da rasão

Que penetra, não seduz;

Não era fogo, era luz

Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,

No seio o mesmo perfume,

Um cheiro a rosas celestes,

Rosas brancas, puras, finas,

Viçosas como boninas,

Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu... ai! não és:

Toda a illusão se desfez.

Não és aquella que eu vi,

Não és a mesma visão,

Que essa tinha coração,

Tinha, que eu bem lh'o senti.

Almeida Garrett. Folhas Cahidas, p. 188.


GOSO E DOR

Se estou contente, querida,

Com esta immensa ternura

De que me enche o teu amor?

—Não. Ai, não! falta-me a vida,

Succumbe-me a alma á ventura:

O excesso do goso é dor.

Doe-me alma, sim; e a tristeza

Vaga, inerte e sem motivo

No coração me poisou.

Absorto em tua belleza,

Não sei se morro ou se vivo,

Porque a vida me parou.

É que não ha sêr bastante

Para este gosar sem fim

Que me inunda o coração,

Tremo d'elle, e delirante

Sinto que se exhaure em mim

Ou a vida—ou a rasão.

Almeida Garrett, Folhas Cahidas, pag. 153.


EU, ANTÃO VERISSIMO E A MOSCA

(Parabola)

Eu tive um condiscipulo amantissimo

Que era um santo rapaz, e nada cábula,

Trasmontâno: por nome Antão Verissimo,

E, como eu, estudava para rábula.

Tinha por vil a herdada vida agricola,

E rindo-se, assignava na matricula.

Sapato engraixadinho, e meia fina

Substituiu á tamanca costumada;

Á véstea de burel—capa e batina,

Gôrro ao grosso chapéo, Paschoaes á enxada;

A senhoria ao tu, á brôa o trigo...

E um viver novo ao seu viver antigo.

Se o habito por si fizesse o monge,

Sem precisar disposições internas,

Se para um côxo em pouco tempo ir longe

Lhe bastasse o cuidar que tinha pernas;

Sem duvida seria Antão Verissimo

Estudante, e estudante chapadissimo.

Como lavrando desbancava a mil,

Suppoz, que estudar leis e segar erva

Seria o mesmo, não sabendo o: nil

Invita dices, faciesve Minerva;

E um Canon de Genuense (que diz muito!):

Não tentes o que excede o teu bestunto.

Os termos de Paschoal e Cavallario

Gastava a procurar o dia inteiro

No martyr, descosido diccionario;

E á noite decorava ao candieiro.

Ir á aula, almoçar, jantar, cear,

Só tinha vago; o mais era estudar.

Dizem, que—quem porfia mata caça;

Julgo proverbio de cabeça tôsca.

Vamos á historia: Um dia na vidraça

Viu o nosso doctor azoada môsca

Esvoaçar, zunir, andar marrando,

Passagem pelo vidro procurando.

Pôz de parte um momento a Lei Mental,

E co'os olhos no insecto, exclama assim:

«Oh! que teimoso e estupido animal!

Embora teimes, teimarás sem fim:

Por entre ti e o sol não vês que está

Um vidro, que passagem te não dá?

«Segue o exemplo das mais, que andam com gosto

A dançar sobre aquelle assucareiro;

Do amigo que ali dorme chucha o rosto,

Depois esmóe a andar no travesseiro.»

Eu, que dormir fingia, e não dormia,

Da tal offerta em troco assim dizia:

—Déste á môsca um conselho prudentissimo;

Tão bons os dês tu sempre em sendo rábula!

Mas és qual Frei Thomaz, Antão Verissimo,

Ou como o homem da tranca, na parabola,

Dez vidros furaria esse animal

Antes que entendas uma Lei Mental.

Entre ti e a sciencia ha vidros baços;

Nem tu, nem cem de ti os romperiam;

Vende o candieiro, a lôba, os calhamaços,

Torna-te ás terras que batatas criam.

É melhor ser um farto lavrador,

Do que um mirrado e estupido doctor.

Manda ao inferno os livros sybillinos,

Vem para a cama conversar commigo;

De Horacio eu fallarei, tu de pepinos,

Depois eu de Virgilio e tu de trigo.

Tire das leis com que dar uso aos queixos

Quem póde; e cada qual gire em seus eixos.—


N'esta fabula historica se intíma

O que ninguem ignora e não se observa:

A tal sentença velha, obra mui prima

Do: Nada faças, se o não quer Minerva.

Isto é, que um genio, que nasceu de encôlhas

Não vá metter-se a redactor de folhas:

Que um mestre sapateiro afreguezado,

Não vá ser na tragedia actor primeiro,

Que em transportes de principe ultrajado

Ralhará como mestre sapateiro;

Quem nasceu para chufas e chalaça

Nem epopêas, nem tragedias faça;

Que aquelle que nasceu para ladrão,

Seja ladrão de estrada e não juiz;

Procurador, letrado ou escrivão;

Que um bóde se não metta a ser derviz,

Nem um burro a academico; nem... nem...

Exemplos d'isto numero não têm.

A. F. de Castilho, Excavações Poeticas, p. 138. Lisboa, 1844.


MOCIDADE E MORTE

Solevantando o corpo, os olhos fitos,

As magras mãos cruzadas sobre o peito,

Vêde-o, tão moço, velador de angustias,

Pela alta noite em solitario leito.

Por essas faces pallidas, cavadas,

Olhae, em fio as lagrimas deslizam;

E como o pulso, que apressado bate,

Do coração os éstos harmonisam!

É que nas veias lhe circula a febre,

É que a fronte lhe alaga o suór frio;

É que lá dentro á dôr que o vae roendo,

Responde horrivel intimo cicío.

Encostado na mão o rosto acceso,

Fitou os olhos humidos de pranto

Na alampada mortal ali pendente,

E lá comsigo modulou um canto.

É um hymno de amor e de esperança?

É oração de angustia e de saudade?

Resignado na dôr saúda a morte,

Ou vibra aos céos blasphemia d'impiedade?

É isso tudo tumultuando incerto

No delirio febril d'aquella mente,

Que, baloiçada á borda do sepulchro,

Volve apóz si a vista longamente.

É a poesia a murmurar-lhe n'alma,

Ultima nota de quebrada lyra;

É o gemido do tombar do cedro;

É triste adeus do trovador que expira:

DESESPERANÇA

«Meia-noite bateu, volvendo ao nada

Um dia mais, e caminhando eu sigo!

Vejo-te bem, oh campa mysteriosa...

Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!

Qual tufão que ao passar agita o pégo,

Meu placido existir turvou a sorte.

Halito impuro de pulmões ralados

Me diz que n'elles se assentou a morte.

Em quanto mil e mil no largo mundo

Dormem em paz no mundo, eu velo e penso,

E julgo ouvir as preces por finados,

E ver a tumba e o fumegar do incenso.

Se dormito um momento, acordo em sustos;

Pulos me dá o coração no peito,

E abraço e beijo de uma vida extincta

O ultimo socio, o doloroso leito.

De um abysmo insondado ás agras bordas

Insanavel doença me ha guiado,

E disse-me:—No fundo, o esquecimento:

Désce; mas desce com andar pausado.—

E eu lento vou descendo, e sondo as trevas:

Busco parar; parar um só instante!

Mas a cruel, travando-me da dextra,

Me faz cair no fundo, e grita—Avante!—

Por que escutar o transito das horas?

Algumas d'ellas trar-me ha conforto?

Não! Esses golpes que no bronze ferem,

São para mim como dobrar por morto.

Morto! morto!—me clama a consciencia;

Diz-m'o este respirar rouco e profundo;

Ai! porque frémes coração de fogo,

Dentro de um peito corrompido e immundo!

Beber um ár diáphano e suave,

Que renovou da tarde o brando vento,

E convertel-o, no aspirar continuo,

Em bafo apodrecido e peçonhento!

Estender para o amigo a mão mirrada,

E elle negar a mão ao pobre amigo;

Querer unil-o ao seio descarnado,

E elle fugir, temendo o seu perigo!

E vêr após um dia inda cem dias,

Nús de esperança, ferteis de amargura,

Soccorrer-me ao provir, e achal-o um ermo,

E só, bem lá no extremo, a sepultura!

Agora!... quando a vida me sorria,

Agora... que meu éstro se accendêra,

Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças,

Como se enlaça pelo campo a hera,

Deixar tudo e partir, sósinho e mudo;

Varrer-me o nome escuro esquecimento,

Não ter um ecco de louvor, que afague

Do desgraçado o humilde monumento!

Oh tu, sêde de um nome glorioso,

Que tão fagueiros sonhos me tecias,

Fugiste, e só me resta a pobre herança

De vêr a luz do sol mais alguns dias.

Vestem-se os campos de verdor primeiro:

Já das aves canções no bosque eccôam;

Não para mim, que só escuto attento

Funéreos dobres que no templo sôam.

E eu que existo, e que penso, e falo e vivo,

Irei tão cedo repousar na terra?!

Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos;

Um louro só... e meu sepulchro cerra;

É tão bom respirar, e a luz brilhante

Do sol oriental saudar no outeiro!

Ai, na manhã saudal-a posso ainda;

Mas será este o inverno derradeiro!

Quando de pômos o vergel fôr cheio;

Quando ondear o trigo na planura,

Quando pender com aureo fructo a vide,

Eu tambem penderei na sepultura.

Dos que me cercam no turbado aspecto,

Na voz que prende desusado enleio,

No pranto a furto, no fingido riso,

Fatal sentença de morrer eu leio.

Vistes vós criminoso que hão lançado

Seus juizes nos trances da agonia,

Em oratorio estreito, onde não entra

Suavissima luz do claro dia;

Diante a cruz, ao lado o sacerdote,

O cadafalso, o crime, o algoz na mente,

O povo tumultuoso, o extremo arranco,

O céo e inferno, e as maldições da gente:

Se adormece, lá surge um pesadello,

Com os martyrios da sua alma accorde:

Desperto logo, e á terra se arremessa,

E os punhos cerra, e delirante os morde.

Sobre as lageas do duro pavimento

De vergões e de sangue o rosto cobre;

Ergue-se e escuta com cabellos hirtos

Do sino ao longe o compassado dobre.

Sem esperança!...

Não! Do cadafalso

Sóbe as escadas o perdão ás vezes;

Porém, a mim... não me dirão: És salvo!

E o meu supplicio durará por mezes.

Dizer posso:—Existi! que a dor conheço!

Do goso a taça só provei por horas;

E serei teu, calado cemiterio,

Que, engenho, gloria, amor, tudo devoras.

Se o furacão rugiu, e o debil tronco

De arvore tenra espedaçou passando,

Quem se doeu de a ver jazendo em terra?

Tal é o meu destino miserando!

Numem do santo amor, mulher querida,

Anjo do céo, encanto da existencia,

Ora por mim a Deus, que hade escutar-te,

Por ti me salve a mão da provídencia.

Vem; aperta-me a dextra... Oh foge, foge!

Um beijo ardente aos labios te voára;

E n'este beijo venenoso a morte

Talvez este infeliz só te entregára!

Se eu podesse viver... como teus dias

Cercaria de amor suave e puro!

Como te fôra placido o presente;

Quanto risonho o aspecto do futuro!

Porém, medonho espectro ante meus olhos

Como sombra infernal perpetuo ondeia,

Bradando-me, que vae partir-se o fio

Com que da minha vida se urde a teia.

Entregue á seducção emquanto eu durmo,

No turbilhão do mundo heide deixar-te!

Quem velará por ti, pomba innocente?

Quem do prejurio poderá salvar-te?

Quando eu cerrar os olhos moribundos

Tu verterás por mim pranto saudoso;

Mas quem me diz que não virá o riso

Banhar teu rosto triste e lacrimoso?

Ai, o extincto só herda o esquecimento!

Um novo amor te agitará o peito:

E a dura lagea cubrirá meus ossos

Frios, despidos sobre terreo leito!

Oh Deus, por que este calix de agonia

Até ás bordas de amargor me encheste?

Se eu devia acabar na juventude,

Por que ao mundo e aos seus sonhos me prendeste.

Virgem do meu amor, porque perdel-a?

Porque entre nós a campa hade assentar-se!

Tua suprema paz em goso ou dores

Do mortal que em ti crê, póde turbar-se?

Não haver quem me salve! e vir um dia

Em que de minha o nome inda lhe désse!

Então, senhor, o umbral da eternidade,

Talvez sem um queixume transpozesse.

Mas, qual flôr em botão pendida e murcha

Sem de fragancias perfumar a brisa,

Eu poeta, eu amante, ir esconder-me

Sob uma lousa desprezada e lisa!

Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel?

Em te adorar que fui, senão insano?...

O teu fatal poder hoje maldigo!

O que te chama pae, mente: és tyranno.

E se aos pés de teu throno os ais não chegam;

Se os gemidos da terra os áres sómem;

Se a providencia é crença van, mentida,

Porque geraste a intelligencia do homem?

Porque da virgem no sorrir poseste

Santo presagio de suprema dita,

E apontaste ao poeta a immensidade

Na ancia da gloria, que em sua alma habita!

A immensidade!... E que me importa herdal-a,

Se na terra passei sem ser sentido?

Que val eterno vaguear no espaço,

Se nosso nome se afundou no olvido?

..........................................

Alexandre Herculano, Harpa do Crente, p. 63. 2.ª edição. Lisboa, 1860.


A LUA DE LONDRES

É noite; o astro saudoso

Rompe a custo o plumbeo céo;

Tolda-lhe o rosto formoso

Alvacento, humido véo.

Traz perdida a côr de prata,

Nas aguas não se retrata,

Não beija no campo a flor;

Não traz cortejo de estrellas,

Não falla de amor ás bellas,

Não falla aos homens de amor.

Meiga lua, os teus segredos

Onde os deixaste ficar?

Deixaste-os nos arvoredos

Das praias d'alem do mar?

Foi na terra tua amada.

N'essa terra tão banhada

Por teu limpido clarão?

Foi na terra dos verdores,

Na patria dos meus amores

Patria de meu coração?

Oh que foi! deixaste o brilho

Nos montes de Portugal,

Lá onde nasce o tomilho,

Onde ha fontes de cristal;

Lá onde veceja a rosa,

Onde a leve mariposa

Se espaneja á luz do sol;

Lá onde Deus concedera

Que em noites de primavera

Se escutasse o rouxinol.

Tu vens ó lua, tu deixas

Talvez ha pouco o paiz

Onde do bosque as madeixas

Já têm um floreo matiz;

Amaste do ár a doçura,

Do azul céo a formosura,

Das aguas o suspirar!

Como hasde agora entre gelos

Dardejar teus raios bellos,

Fumo e nevoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,

Do Mondego os salgueiraes,

Quem andou por Tejo acima,

Por cima dos seus cristaes;

Quem foi ao meu patrio Douro,

Sobre fina areia de ouro,

Raios de prata espargir,

Não pode amar outra terra,

Nem sob o céo de Inglaterra

Doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princeza

Tens aqui; mas Deus, egual

Não quiz dar-lhe essa lindeza

Do teu e meu Portugal;

Aqui a industria e as artes,

Alem de todas as partes

A natureza sem véo;

Aqui ouro e pedrarias,

Ruas mil, mil arcarias,

Além... a terra e o céo.

Vastas serras de tijolo,

Estatuas, praças sem fim

Retalham, cobrem o sólo

Mas não me encantam a mim;

Na minha patria uma aldêa,

Por noites de lua cheia

É tão bella, e tão feliz!

Amo as casinhas da serra,

C'o a lua da minha terra,

Nas terras do meu paiz.

Eu e tu, casta deidade,

Padecemos egual dôr,

Temes a mesma saudade,

Sentimos o mesmo amor;

Em Portugal o teu rosto

De riso e luz é composto;

Aqui triste e sem clarão;

Eu lá sinto-me contente,

E aqui lembrança pungente

Faz-me negro o coração.

Eia, pois, oh astro amigo,

Voltemos aos puros céos,

Leva-me, oh lua, comtigo,

Preso n'um raio dos teus;

Voltemos ambos, voltemos

Que nem eu nem tu podemos

Aqui ser quaes Deus nos fez;

Terás brilho, eu terei vida,

Eu já livre, e tu despida

Das nuvens do céo inglez.

Londres 30 de março

de 1847

João de Lemos, O Trovador, p. 362. Coimbra, 1848.


A VIDA

O homem chora mal nasce,

Adulto chora tambem;

Curvado já sobre a campa,

Mais dor no peito inda tem.

Aos vinte chora, porque ama,

Aos trinta vêr-se illudido;

E quando desce ao sepulchro,

Até por ter existido.

D. João de Azevedo, Ibid. p. 303.


TASSO NO HOSPITAL DOS DOIDOS

São negras estas arcadas,

Sepulchral este lagedo,

Lugubres estas escadas,

Estas paredes põem medo;

Estas prisões são soturnas,

São medonhas como as furnas,

Escondidas sob o chão;

Nenhum bem aqui me afaga,

Tudo aqui a mente esmaga,

Tudo opprime o coração!

Nem do norte a meiga brisa,

Nem um lampejo da lua,

Nem raio do sol deslisa

N'esta caverna tão núa:

Lá d'essas grades do fundo

Vem-me, n'um côro profundo

Gargalhadas infernaes;

Surgem lá rostos desfeitos,

Que em visagens, em tregeitos

De loucura dão signaes.

Santo Deus, que sina a minha!

Onde estou ninguem m'o disse,

Mas um poeta adivinha;

É nas covas da doudice:

Vivo n'esta horrivel casa,

Onde a mente se me abrasa

Té o martyrio tocar;

Onde a rasão se entibia,

Onde triste, dia a dia,

Vejo as forças acabar:

Onde a mudez mais pungente

Me torna vil a pobreza,

Onde ninguem se consente

Que me afague na tristeza;

Onde a sêde me devora,

Onde debalde se implora

Uma palavra d'amor;

Onde o frio me consomme,

Onde, longe em longe, a fome

Vem augmentar este horror.

Eu, doudo! Dizei-o, montes

De Solima encantadora!

Fallae, vastos horisontes,

D'essa Asia abrasadora!

Dize-o tu, oh Godofredo,

Ou tu, valente Tancredo,

Que em meus versos exaltei!

Dizei, Armida formosa!

Dizei, Clorinda famosa!

Dizei todos que eu cantei!

Eu doudo! Erguei-vos juntos,

Defendei vosso cantor!

Fallae, oh santos assumptos

Que eu cantei com tanto amor!

Falla tambem Aguia d'Éste,

Que por mim teu vôo ergueste

Inda dos mundos alem!

Fallae, sepulchro de Christo,

Falle o canto nunca visto,

Falla tu, Jerusalem!

Tasso, Tasso que fizeste

Para tal condemnação?

Á corôa os olhos ergueste

Sem te importar o brazão!

Foste amar uma princeza,

Não tendo tanta riqueza,

Não tendo nobreza egual;

Teu amor é o teu crime,

É o grilhão que te opprime

N'esta masmorra fatal!

Sou doudo por ter amado

A bella irmã de um reinante!

Sou doudo por ter logrado

Da princeza amor constante!

Doudo, sim, doudo por ella,

Por ella que é minha estrella,

Por ella, por mais ninguem;

Por ella, que é minha vida,

Sim por ella, a mais querida

Das damas que o mundo tem.

Por ella, que o viu pobre

Só das musas bemfadado,

E desceu do solio nobre,

Deu amor ao desgraçado;

Por ella, tão extremosa,

Que rejeita desdenhosa

D'altos principes a mão,

Para não ir n'outros braços

Partir nossos doces laços,

Dar a outro o coração.

Eis o crime, o crime horrendo,

Que me deu prisão tão dura,

Onde entre doudos gemendo

Vou correndo á sepultura!

Eu amei e fui amado,

Era assás. Sou desgraçado,

Não nasci para o prazer;

No livro do sello eterno

Estava escripto este inferno,

Na desgraça heide morrer.

Não importa! é minha herança

Soffrer sempre e não gosar;

Se a Affonso cabe a vingança,

Ao Tasso cabe o chorar:

Se a elle um peito de féra,

Onde só vingança impera,

Se a elle a corôa ducal,

Ao Tasso cabe a poesia,

Cabe a fonte da harmonia,

Cabe a corôa que mais val.

Eu não troco a sorte avara,

Que é meu mesquinho condão,

Por teu sceptro de Ferrara

Manchado de ingratidão.

Se não morres, é que eu pobre

Dei a penna á casa nobre,

Em cantos a celebrei;

Eu não morro, porque o céo

Eternos versos me deu

Com que as Cruzadas cantei.

A. Xavier Rodrigues Cordeiro.


LUIZ DE CAMÕES

Que poeta que não era

Da linda Ignez o cantor!

Quem mais de que elle dissera

D'esse fero Adamastor!

Era um astro fulgurante,

Era um poeta gigante,

Tinha mais alma que o Dante,

Cantava com mais amor!

No peito coberto de aço

Lhe batia um coração,

Que nem os cantos do Tasso

Sonharam maior paixão!

Era um cantor e soldado,

Era um vate enamorado,

Foi um poeta inspirado,

Como os de hoje já não são.

Bem nos cantos se lhe marca

O signal do seu pensar;

Nascera, como Petrarcha,

Já fadado para amar!

Vêde bem o sentimento

Com que dá, sôltas ao vento,

Queixas mil do seu tormento,

Tristezas do seu trovar!

A sorte fel o poeta,

Das cinzas da pobre Ignez;

O mundo fel-o propheta

Do destino portuguez!

Poeta da desventura,

Previu a sorte futura,

Escreveu com mão segura

A prophecia que fez!

Deus, que deu aos portuguezes

D'alem mar as regiões,

Que nos livrou dos revézes,

Deu-nos o rei das canções,

Fômos o povo escolhido;

O nosso nome temido

Hoje só é conhecido

Pelos cantos de Camões.

Foi-se-lhes a vida em desgosto,

Ao que a patria assim cantou;

Mais poeta que Ariosto,

Que belleza nos legou!

Pungido de acerbas dores,

Pelo Tejo, seus amores,

Foi o rei dos trovadores,

Foi o cysne que expirou.

Como Ovidio, desterrado

Lá na gruta de Macáo,

Só tem o pranto enxugado

Pela mão do pobre Jau;

De escravo tornou-se amigo,

E no peito, só comsigo,

Supportou cruel castigo,

Mas nunca se tornou máo.

Debruçados sobre os Cantos,

Da nossa fama padrão,

Bem juntos verteram prantos

Sobre a nossa escravidão!

Mas Camões... a vil tutella

D'essas hostes de Castella...

Não pôde chorar sobre ella,

Morrera-lhe o coração.

Que poeta! e que soldado!

Que trovador tão leal!

De todos abandonado

Só achou um hospital!

Mas a fama portugueza,

N'este sec'lo de torpeza,

Só tem por toda a grandeza

A Camões por pedestal.

Alli vivem as victorias

Já do povo, já do rei;

Alli vivem as memorias

Alcançadas pela lei;

É pharol de nossa fama,

Alli vive o Castro e o Gama,

Em versos alli proclama

Triumphos da nossa grey.

A Camões por monumento

Só resta um livro, não mais;

D'aquelle genio portento

Não temos outros signaes;

Mas que importa, se a memoria

Do cantor da nossa gloria

Alcançou maior victoria

Nos seus cantos colossaes!

L. A. Palmeirim, O Trovador, p. 323.—Poesias, p. 112.


INFANCIA E MISERIA

Se eu tivera o pincel omnipotente

De Raphael, de Rubens ou d'Apelles;

Se o milagroso escôpro de Canova

A minha dextra ousada manejasse;

Se na pedra ou na téla a vida eterna

Eu podésse infundir c'um leve sôpro,

Que magestoso, que eloquente grupo

Ou na téla ou na pedra hoje criára!

Era um grupo formoso, um quadro augusto,

Qual antes nunca vi, qual vejo ainda

No fulgor da verdade ante meus olhos,

Que de vêl-o e descrel-o se não cançam;

Não, não era, não foi visão nem sonho,

Mas verdade sómente... a existencia

N'uma phase commum... a humanidade

No relêvo dos factos cinzelada!

Era um grupo formoso, um quadro augusto,

Não de amor, de ventura ou de alegria,

Mas de infortunio e dôr, e de miseria,

Casados por ludibrio á innocencia!

Era a infancia dormindo na desgraça,

Esquecendo risonha a voz da fome,

Era a vida a raiar entre os andrajos,

A indigencia assentada ao pé do berço!

Quasi ás portas de um templo consagrado

Ás artes, ao prazer, ao luxo, aos ricos,

Quando a turba pejava as aureas portas

Do marmoreo edificio... ao pé, bem perto

Sobre as humidas pedras do lagedo,

Jaziam abraçadas tres crianças

Cujo anjo tutellar, e cujo amparo

Era apenas o somno da innocencia!

Dormiam todas tres; quanto era bello

Vel-as unidas, enfeixadas n'uma,

Repartindo o calor dos tenros corpos,

Como o pão que despertas mendigavam!

Quanto era bello o vel-as—como a ave

Que em presença da morte esconde n'aza

A plumosa cabeça—reclinadas

No regaço da fome e da miseria!

Dormiam todas tres; talvez bem doce

Roçando levemente aquellas almas

Um breve, meigo sonho de alegria

Fizesse palpitar-lh'os debeis peitos!

Mas não, não pode ser... não pode o Eterno

Deslumbrar-nos em sonhos co' a ventura

Quando se hade acordar á voz da fome

Estendendo a quem passa a magra dextra!

Como eram já sombrios, macilentos,

Aquelles infantis, serenos rostos

Onde a vida em botão abria a custo,

Como a flôr que desponta em plaga extranha!

Nas pallidas feições como se liam

De um precoz soffrimento os negros traços?

Como a livida fome lhes roubava

O placido sorriso da innocencia!

Que triste sorte e amargurada vida

Arrastavam sem queixa aquelles anjos!

Em logar dos brinquedos innocentes

E dos gosos sem par da curta infancia,

Mendigavam, coitadas, no abandono

O pão negro e acerbo da indegencia,

Sem um tecto a não ser o céo da patria,

E sem mãe... se não tu, oh caridade!...

Até quando, oh meu Deus, até que dia

Se hade ver no banquete da existencia

Um manjar que não seja para todos,

Um logar de que alguem possa expulsar-se?

Até quando será o mundo inteiro

Patrimonio d'alguns, e para os outros

A penuria, a nudez, o desamparo,

E por só privilegio a fome e o carcere?

Dormiam todas trez; que meigo somno

O veneno da vida lh'adoçava!

Como em cada feição se via impresso

O benefico olvido da existencia!

Irmãs no sangue, e na desgraça gémeas,

Embaladas talvez no mesmo berço,

Dormiam todas tres na mesma pedra

Igual somno da infancia e desconforto!

Eu vi aquelle grupo! era formoso

De soffrimento e graça; illuminava-o

De um extranho fulgor a magestade

Sinistra, mas augusta, da miseria!

Eu vi aquelle grupo! assim não visse

N'aquelle estreito quadro a negra historia

De muitas gerações... assim não lesse

Teu pungente epigramma, oh sociedade!

Augusto Lima, Murmurios, p. 91. Lisboa, 1851.


ÁS ESTRELLAS

Lindas, mimosas saphiras

Que o véo da noite bordaes,

Dizei-me, estrellas, dizei-me,

Se é de amor que palpitaes?

Vós... que sempre bemfazejas,

A luz tão pura nos daes,

Não tereis lá nas alturas

Quem escute vossos ais?

Haveis de ter só por fado

Luzir, luzir, e não mais?

Não creio, estrellas, não creio.

Sois tão formosas!... amaes.

Augusto Lima, O Trovador, p. 196.


O FIRMAMENTO

Gloria a Deus! eis aberto o livro immenso,

O livro do infinito,

Onde em mil letras de fulgor intenso

Seu nome adoro escripto!

Eis de seu tabernáculo corrida

Uma ponta do véo mysterioso:

Desprende as azas, remontando á vida,

Alma que anceias pelo eterno goso!

Estrellas que brilhaes n'essas moradas,

Quaes são vossos destinos?

Vós sois, vós sois as lampadas sagradas

De seus umbraes divinos.

Pullulando do seio omnipotente,

E sumidas por fim na eternidade,

Sois as faíscas de seu carro ardente

Ao rolar através da immensidade.

E cada qual de vós um astro encerra,

Um sol que apenas vejo,

Monarcha d'outros mundos como a terra

Que formam seu cortejo.

Ninguem pode contar-vos: quem pudera

Esses mundos contar a que daes vida,

Escuros para nós qual nossa esphera

Vos é nas trevas da amplidão sumida?

Mas vós perto brilhaes, no fundo accêsas

Do throno soberano;

Quem vos hade seguir nas profundezas

D'esse infinito oceano?

E quem hade contar-vos n'essas plagas

Que os céos ostentam de brilhante alvura,

Lá onde sua mão sustem as vagas

Dos sóes que um dia romperão na altura?

E tudo outr'ora na mudez jazia

Nos véos do frio nada;

Reinava a noite escura; a luz do dia

Era em Deus concentrada.

Elle fallou! e as sombras n'um momento

Se dissiparam na amplidão distante!

Elle fallou! e o vasto firmamento

Seu véo de mundos desfraldou ovante!

E tudo despertou, e tudo gira

Immerso em seus fulgores;

E cada mundo é sonorosa lyra

Cantando os seus louvores.

Cantae, oh mundos que seu braço impelle,

Harpas da creação, fachos do dia,

Cantae louvor universal áquelle

Que vos sustenta e nos espaços guia!

Terra, globo que geras nas entranhas

Meu sêr, o sêr humano,

Que és tu com teus vulcões, tuas montanhas,

E com teu vasto oceano?

Tu és um grão d'areia arrebatado

Por esse immenso turbilhão dos mundos,

Em volta de seu throno levantado

Do universo aos seios mais profundos.

E tu, homem, que és tu, ente mesquinho

Que soberbo te elevas,

Buscando sem cessar abrir caminho

Por tuas densas trevas?

Que és tu com teus imperios e colossos?

Um átomo subtil, um frouxo alento;

Tu vives um instante, e de teus ossos

Só restam cinzas que sacode o vento.

Mas ah! tu pensas, e o girar dos orbes

Á razão encadeias;

Tu pensas, e inspirado em Deus te absorves

Na chamma das ideias:

Alegra-te, immortal, que esse alto lume

Não morre em trevas de um jazigo escasso!

Gloria a Deus, que n'um atomo resume

O pensamento que transcende o espaço!

Caminha, oh rei da terra! se inda és pobre,

Conquista aureo destino,

E de seculo em seculo mais nobre

Eleva a Deus teu hymno!

E tu, oh terra, nos florídos mantos

Abriga os filhos que em teu seio geras,

E teu canto de amor reune aos cantos

Que a Deus se elevam de milhões de espheras!

Dizem que já sem forças, moribunda,

Tu vergas decadente:

Oh! não, de tanto sol que te circumda,

Teu sol inda é fulgente!

Tu és joven ainda: a cada passo

Tu assistes d'um mundo ás agonias,

E rolas entretanto n'esse espaço

Coberta de perfumes e harmonias.

Mas ai! tu findarás! além scintilla

Hoje um astro brilhante;

Ámanhã, eil-o treme, eil-o vacilla,

E fenece arquejante:

Que foi? quem o apagou? foi seu alento

Que extinguiu essa luz já fatigada;

Foram seculos mil, foi um momento

Que a eternidade fez volver ao nada.

Um dia, quem o sabe? um dia, ao pêso

Dos annos e ruinas,

Tu cahirás n'esse vulcão accêso

Que teu sol denominas.

E teus irmãos tambem, esses planetas

Que a mesma vida, a mesma luz inflamma,

Attrahidos emfim, quaes borboletas,

Cahirão como tu na mesma chamma.

Então, oh sol, então n'esse aureo throno

Que farás tu ainda,

Monarcha solitario, e em abandono,

Com tua gloria finda?

Tu findarás tambem, a fria morte

Alcançará teu carro chammejante:

Ella te segue, e prophetisa a sorte

N'essas manchas que toldam teu semblante.

Que são ellas? talvez os restos frios

D'algum antigo mundo,

Que inda referve em borbotões sombrios

No teu seio profundo.

Talvez, envolta pouco a pouco a frente

Nas cinzas sepulchraes de cada filho,

Debaixo d'elles todos de repente

Apagarás teu vacillante brilho.

E as sombras poisarão no vasto imperio

Que teu facho allumia;

Mas que vale de menos um psalterio

Dos orbes na harmonia?

Outro sol como tu, outras espheras

Virão no espaço descantar seu hymno,

Renovando nos sitios onde imperas

Do sol dos sóes o resplendor divino.

Gloria a seu nome! um dia meditando

Outro céo mais perfeito,

O céo d'agora a seu altivo mando

Talvez caia desfeito.

Então, mundos, estrellas, sóes brilhantes,

Qual bando d'aguias na amplidão disperso,

Chocando-se em destroços fumegantes,

Desabarão no fundo do universo.

Então a vida, refluindo ao seio

Do fóco soberano,

Parará concentrando-se no meio

D'esse infinito oceano;

E acabado por fim quanto fulgura,

Apenas restarão na immensidade—

O silencio, aguardando a voz futura,

O throno de Jehovah, e a eternidade!

A. A. Soares de Passos, Poesias, 145. 2.ª ed. Porto, 1858.


ANHELOS

Que immenso vacuo n'este peito sinto!

Que arfar eterno de revolto mar!

Que fogo ardente, que já mais extincto

Sómente afrouxa para mais queimar?

Ai! esta sêde que meu peito rala,

Talvez a apague mundanal prazer:

Ali ao menos poderei fartal-a,

Ou n'um lethargo sem paixões viver.

Mas d'essa taça já pensei... não quero!

Quero deleites que inda não sentí...

A lucta, os riscos d'um combate féro!

Talvez encantos acharei alli.

A lucta, os riscos, em acção travadas

Guerreiras hostes disputando o chão;

O sangue em jorros, o tinir d'espadas,

O fumo e o fogo de voraz canhão!

Ali os gosos de um feroz delirio

Á luz das armas sentirei em mim,

Ou n'uma d'ellas o funéreo cirio

Que á paz dos mortos me conduza emfim.

Mas não, não quero sobre a terra escrava

A vós tyrannos immolar o irmão...

O mar, o mar, que em sua furia brava

Ninguem domina com servil grilhão!

O mar, o mar! sobre escarcéus revoltos

Em fragil lenho fluctuar me apraz

Ao som das vagas e dos ventos soltos,

E das centelhas ao clarão fugaz.

Alli sorrindo da feroz tormenta,

E dos abysmos que me abrir aos pés,

Dentro d'esta alma de prazer sedenta

Sublime goso sentirei talvez.

Mas o mar livre tem um leito ainda

Que os meus anélos poderá suster...

O espaço! o espaço! na amplidão infinda

Talvez que possa o coração encher.

O espaço, o espaço! qual ligeiro vento

Irei lançar-me n'esse mar sem fim,

E a longos tragos aspirar o alento,

Sentir a vida que desejo em mim...

Ora aguia altiva, desprezando o sólo,

O rei dos astros buscarei então,

Ora entre as neves do gelado pólo

Voarei nas azas do veloz tufão.

Mas solitario, sem cessar errante,

De que valêra na amplidão correr?...

A gloria, a gloria, que em painel brilhante

Me offerece a imagem d'um maior prazer!

A gloria, a gloria, mil trophéus ganhados,

Mil verdes palmas e laureis tambem;

Triumphos, c'rôas e sonoros brados

Da turba: É elle!—repetindo alem...

Então em sonhos d'uma vida infinda

Verei a chamma d'immortal pharol,

Que em meu sepulchro resplandeça ainda,

Bem como a lua quando é morto o sol.

Mas não, que a inveja com a voz mentida,

A luz em sombras poderá tornar...

O amor, o amor, que redobrando a vida,

A vida n'outrem me fará gosar!

O amor, o amor, celestial perfume

Que a mão dos anjos sobre nós verteu,

Doce mysterio que n'um só resume

Dous pensamentos aspirando ao céo!

O amor, o amor, não mentiroso incenso

Que em frios labios só no mundo achei,

Mas immutavel, mas sublime e immenso

Qual em meus sonhos juvenís sonhei...

O amor! só elle poderá n'esta alma

Risonhas crenças outra vez gerar,

De minha sêde mitigar a calma,

E inda fazer-me reviver e amar.

A. A. Soares de Passos, Poesias, pag. 43.


UMA PHANTASIA DE THALBERG

Foi n'uma negra noite...

Sósinho, á beira mar...

Ai, toca-me esses cantos

Que m'a fazem lembrar!

E o vento era tão frio!

Chamei então por Deus...

E Deus foi mudo, e mudos

A terra, o mar e os céus.

Sorri-me!... Era uma vaga

Que alem vinha a bramir...

Ai, toca-me esses cantos,

Que gosto de os ouvir!

Um véo de negras nuvens

Não vem o céo turbar?

Ás vezes ha prazeres

N'um triste recordar.

E que saudade eu sinto

Lembrando-me d'então!

Ai, toca-me esses cantos,

Que tão saudosos são.

Oh, longe, longe! E ouvi-te...

Não penses que eu menti...

Que diga o vento e as rochas

O que eu chamei por ti.

E não me ouviste. O oceano

Gemendo ouviu meus ais!...

É tam triste esta musica!...

Ai não m'a toques mais.

S.—A Grinalda, vol. I, pag. 28.


AO SOL

Que te importam a ti, astro fecundo,

Essas mil gerações de fragil barro,

Que vês, qual denso pó, brotar no mundo

Sob as ardentes rodas do teu carro?

Quando, nuncio da vida, a mão do eterno

Te fez brilhar no espaço a vez primeira,

Medonhas sombras, e continuo inverno

Cobriam a teus pés a terra inteira.

Mas apenas a luz doirando os ares,

Veiu annunciar-lhe, oh sol, o teu destino,

O gelo róla convertido em mares,

E a terra sólta da existencia o hymno,

Que mais querias tu? No immenso grito

Que exhalava, acordando, a natureza,

Nas ondas, nas florestas, no infinito

Vias gravado, oh sol, tua grandeza.

E disseste comtigo:—A vida e as flores

São o rastro que deixo em meu caminho,

Quando, cingido d'immortaes fulgores,

Em mortas solidões rólo sósinho.

Disseste; e proseguindo o immenso trilho,

N'outras regiões entraste socegado,

E em cada globo a que chegou teu brilho,

D'um novo genesís ouviste o brado.

Que te importava o mundo? Á luz immensa

De teus lucidos mantos desprendida,

Já o verme infeliz que vive e pensa

Para te festejar saudára a vida;

E se acaso de novo, oh sol fecundo,

Encontrasses a terra erma e gelada,

D'entre as ruinas fataes do antigo mundo

Fizeras mil nações surgir do nada.

Que tinha, pois, comtigo a obscura raça

Que só diz grande, e bella e omnipotente,

Mas que, envolta no pó, sussurra e passa,

Sem jámais encarar teu brilho ardente?

Deus o mandou, oh sol. Ás tuas plantas

Nunca da terra o passageiro grito

Irá turbar as harmonias sanctas

Das espheras que vagam no infinito.

Não! Embora as nações caiam por terra

Com seus templos, suas leis, seus monumentos;

Tu passarás tranquillo, á luz da guerra,

Por cima dos cadaveres sangrentos.

Rica de magestade, á flôr dos mares,

Bella n'outr'ora a Atlantida reinava,

Casando o torvo som d'impios folgares

Do rude oceano á voz ruidosa e cava.

Debalde em torno d'ella a tempestade

Soltava, ás noites, infernal lamento...

Deus mandava-lhe ignota mocidade

No rugir dos trovões, na voz do vento,

E ella rindo vaidosa, á luz errante

Que o céo, a terra, e as ondas accendia,

Clamava ao mar revolto:—«Eia, oh gigante,

Repete a voz de Deus, responde á orgia.

Que tens? Porque deitado ao pé das fragas,

Gemes a custo em vil torpor submerso?

Brinca tambem, oh mar, enrola as vagas,

E vem se pódes embalar meu berço.»

Mas um dia fatal, em torno d'ella,

A sombra d'Elohim pairou nos ares,

E ao som ruidoso de infernal procella,

Passou rente c'o a terra erguendo os mares.

E ella, qual flôr secca e mirrada,

Que a lava arroja em turbilhões de fumo,

Sentiu metter-lhe os hombros a rajada,

E arrastal-a no chão sem lei, sem rumo.

E hoje, que é d'ella, oh Sol? N'essas paragens

Ainda em pé, na gavêa, o marinheiro

Ergue altivo seus canticos selvagens

Procurando um albergue hospitaleiro:

Mas em torno de si, no mar deserto,

Só vê mil rolos de fervente espuma,

E a gaivota que fende em giro incerto

Do horisonte longinquo a densa bruma.

E tu, oh sol, tu passas como d'antes,

Sereno, magestoso e solitario,

Doirando as vastas solidões fluctuantes,

Que são da pobre Atlantida o sudario.

Deus creou-te immortal. Seu braço immenso

Gravou no teu clarão: Gloria e mysterio.

E entre nuvens de canticos e incenso

Deu-te de ignotas solidões o imperio.

Eia, caminha pois—esparge ufano

N'esses ermos sem fim teus mil fulgores,

E deixa o homem levantar insano

D'um orgulho infundado os vãos clamores.

Eu já li nas canções de antiga raça

Que um dia cahirás do excelso throno,

Como as penhas, que o raio despedaça,

Ou como as folhas que desprende o outono.

E ri-me. O vérme insano, o rei obscuro

Por suas mãos em farça vil coroado,

Imaginar-se um deus, lêr no futuro,

E erguer aos astros pavoroso brado!

Elle, que ao teu clarão surgindo ufano

Do seio inerte da brutal materia

Nem vê nos céos, nos montes, no oceano

De seu fadario horrivel a miseria!

Elle julgar-se um deus!... Mas n'outra edade

Também eu te bradei louco d'amores:

—A ti, a ti, oh sol, a immensidade,

Mas a nós... as paixões, a crença e as flores.—

Doido! Que importa caminhar na terra

Ebrio de amor, d'aspiração e gloria,

Se tudo, tudo que este mundo encerra

Tem de esquecer por fim nossa memoria?

Que vale, oh sol, n'um extasis profundo

Crear mil sonhos de immortal belleza,

Se nem um élo, um só, nos prende ao mundo?

Se nada tem comnosco a natureza?

Segue, segue o teu curso, astro bemdito,

Que entre milhões de sóes vaidoso passas

Derramando nos seios do infinito

O ardente germen de futuras raças.

Tu, sim, és immortal.—Na tua frente

Reluz etherea, inextinguivel chamma,

Que sempre, sempre, á voz do omnipotente,

De novas éras o raiar proclama.

Tu sim, és immortal. Embora o dia

Perdido, ao longe, na veloz carreira

Deixes de novo a terra arida e fria

Buscando n'outros céos a errada esteira;

Embora; ao teu clarão todo o universo

Clamará ao Senhor: «Senhor, piedade!»

E elle fendendo os céos em luz submerso,

Te mostrará de novo a immensidade.

1854

Alexandre Braga, Grinalda, t. II, p. 134.


HYMNO Á LUA

Levanta-te! surge, rainha modesta,

Que vens pudibunda da noite na festa

Teu sceptro tomar;

De traz das montanhas, o que é que tu sondas?

O sol? não o temas, que ha muito nas ondas

Se foi occultar.

E a noite é tão triste sem ti, meiga lua!...

Sem ti o regato perdido fluctúa,

Não sabe onde vae;

Pratêa-lhe as aguas co'a luz argentina,

E as margens lhe alegra, que a densa neblina

Ao ver-te, se esvae.

A noite é bem triste sem ti, astro lindo;

Mas quando apparecer, das nuvens abrindo

Os pallidos véos,

Tão linda e tão seria, teu gesto profundo

Parece o de virgem que vaga no mundo,

Mas scisma nos céos.

Sem ti as montanhas que ondeam distantes

No pardo horisonte, não tem habitantes,

Ninguem móra lá;

Mas quando as envolve de candidos mantos,

Visões namoradas de aérios encantos

Teu brilho lhes dá.

Eu amo-te sempre! quer brilhes entre ondas,

De nuvens gigantes, que timida escondas

O casto fulgor;

Bem como o futuro que sonha o poeta,

Nos sonhos incertos, de mente inquieta

Já gôso, já dor.

Ás vezes amiga das velhas ruinas,

O antigo mosteiro calada illuminas

Beijando-lhe a cruz;

E a cruz mutilada, já meio pendida,

Ao ver-te, remoça; que tu lhe dás vida

Co'a magica luz.

Ás vezes espreita por entre cyprestes

A estancia dos mortos, e os tumulos véstes

Com mantos de dó;

Alli surprehendes a virgem que, leda

Se crê isolada... e um nome segreda,

Que tu ouves só.

E o homem não ama teus palidos mantos;

Á vida aspirando, dedica seus cantos

Do sol ao fulgor;

Mas quando são findos os sonhos da vida,

Quem vem afagal-o na extrema guarida?

Teu mystico amor.

Eu não, eu não gosto da luz orgulhosa

D'esse astro que alegra co'a chamma pomposa

Da vida o festim...

O sol! não é elle que pinta os martyrios,

Nem roxos amores, nem candidos lyrios;

Mas tu, lua, sim.

Que digam os sabios, que o sol sempre ardente,

Se para nós surge n'um outro occidente

Sumir-se lá vae...

Mas eu, n'este mundo tambem passageiro,

Quero antes a lua modesto lazeiro,

Que vive e se esvae.

J. S. da Silva Ferraz, O Novo Trovador, p. 163. Coimbra, 1856.


A VIDA

A CRIANÇA:

Ao longe! ao longe! quem ir lá me déra

Colher virente louro, ou linda flor,

N'esse jardim d'eterna primavera,

Todo cheio de luz e esplendor.

O HOMEM:

Tem o louro, veneno em suas bagas...

Tem espinhos as rosas mais gentis...

Avante! talvez possa minhas chagas

Curar na solidão, viver feliz.

O VELHO:

Quem é d'esses jardins que vi formosos,

Cobertos de perfume e de verdor?...

Nos espinhos até sentia gozos,

Agora de não vel-os sinto a dor.

A ESPERANÇA:

Caminha, louca, alem; caminha ávante!

O que julgas o nada é tenue véo:

Depois d'elle corrido, tens adiante

Bem mais lindo jardim, bem mais, o céo.

1853

A. C. Louzada, Grinalda, t. VI, p. 43.


A FILHA DA MOLEIRA

Oh senhora mãe,

Deixe-me ir á festa,

Que não ha nenhuma

Mais linda do que esta.

Arcos, fogo e musica,

Arraial tão lindo!...

E moços e moças

Conversando e rindo.

Ir lá tambem posso;

Já não sou pequena,

Sou da mesma edade

Da Rita Morena.

Estou já crescida,

Sou quasi da altura

Da Rosa, que em breve

Casa o senhor Cura.

Já sei molinhar

Como um bom moleiro,

No moinho do milho,

E mais no alveiro.

Já posso co' trigo;

Já chego á moéga,

Vou mesmo ao travouco,

Se ás vezes adrega.

Se no tremonado

A farinha é grada,

Sei dar na estadêa

Geitosa pancada.

E se o grão cae pouco

Sobre a segurelha,

Desando o torno,

Desço mais a quelha.

Quem faz d'estas cousas

Já não é criança:

Já póde ir ás festas,

Já canta e já dança.

Dê-me o chapéu fino,

E a roupa asseada,

Que eu ir lá não devo

Toda enfarinhada.

Heide ir de chinellas,

De meias de linho,

Camisa mui branca...

Mas não de farinha.

Não quero se ria

De mim todo o povo;

Dê-me a saia verde,

Quero o gibão novo.

Que se eu levo o outro

Tão coçado e antigo,

Não virão os moços

Conversar commigo.

Eu quero mostrar-me

No largo da egreja,

E mordam-se as outras

Embora de inveja.

E se perguntarem

Quem é a gaiteira,

Saibam pois que é filha

Da Thereza moleira.

Henrique Augusto, A Grinalda, t. III, p. 7. Porto, 1860.


A TROCA DA MINHA LYRA

Uma vez que eu recolhia,

Para dar aos meus amores,

No jardim da poesia

Um ramo de varias flores,

Trouxe, pousada na rosa,

Leve e gentil mariposa.

Olhando-a então mais de perto,

Reconheci que a belleza

Excede muito, de certo,

Nos reinos da natureza

Aquella que um vate gera,

E á qual eu já culto déra!

Vi as escamas subtis

Em forma de bellas pennas,

Que dão ás azas matiz,

E as delicadas antennas:

E comecei a ver mais,

Estudando os animaes.

Vi a próvida formiga,

Vi a aranha tecedeira,

Vi a abelha nossa amiga,

Vi a vêspa carniceira:

E o sirgho, que a sêda tece,

Com que os homens enriquece.

Vi as conchas variadas

Na fórma, grandeza e côres,

Umas nas aguas salgadas,

Lá vivem com seus amores;

Outras nos rios e fontes;

E outras nos valles e montes.

Que bizarra a creação!

Que o cantinho mais escuro

Não deixara na exempção

D'um habitante seguro!

Que as entranhas d'outros têm

Entes com vida tambem.

Se á lyra desafinada

Já cantei a noite e o sol,

Hoje, sem lyra, sem nada,

Serei tambem rouxinol:

Cantarei da natureza

Solida graça e belleza;

E porque amor não me inspira,

Já troquei a minha lyra

Pela casca d'um caracol.

1862

Augusto Luso, Grinalda, t. VI, p. 103.


A ESMOLA DO POBRE

Nos toscos degráos da porta

De egreja rustica e antiga,

Velha trémula mendiga

Implorava compaixão.

Quasi um seculo contado

De atribulada existencia,

Eil-a, enferma e na indigencia,

Que á piedade estende a mão.

Duas crianças brincavam

A distancia, na alameda;

Uma trajava de sêda,

Da outra humilde era o trajar!

Uma era rica, outra pobre,

Ambas loiras e formosas,

Nas faces a côr das rosas,

Nos olhos o azul do ár.

A rica, ao deixar os jogos,

Vencida pelo cançasso

Viu a mendiga,—e ao regaço

Uma esmola lhe lançou.

Ella recebe-a; e a criança,

Que a soccorre compassiva,

Em préce fervente e viva,

Aos anjos encommendou.

De um ligeiro sentimento

De vaidade possuida,

Á criança mal vestida

Disse a do rico trajar:

«O prazer de dar esmolas

A ti e aos teus não é dado;

Pobre como és, coitado,

Aos pobres o que has de dar?»

Então a criança pobre,

Sem más sombras de desgosto,

Tendo o sorriso no rosto

Da egreja se aproximou,

E após, serena, em silencio,

Ao chegar junto da velha,

Descobrindo-se, ajoelha,

E a magra mão lhe beijou.

E a mendiga, alvoroçada,

Ao collo os braços lhe lança,

E beija a pobre criança,

Chorando de commoção!

É assim que a caridade

Do pobre ao pobre consola;

Nem só da mão sae a esmola,

Sae tambem do coração.

Julio Diniz, (Gomes Coelho) Grinalda, t. VI, p. 115.


PORTUGAL VELHO NO SECULO XIX

Os nossos avós jarretas,

Lá nos tempos carunchosos,

Ao lume, contando pêtas,

Entre creados idosos,

Passavam noutes seletas.

Polkas, chás e contradanças

São cousas que nunca viram!

Todas as suas mestranças

D'Africa os mouros sentiram

Na ponta das fortes lanças.

Tinham barbas não pequenas,

Bigode em fórma avultada;

Cabelleiras nazarenas,

Nunca usaram nem pomada

Que lhes ungisse as melenas.

Vinha o padre capellão

As vidas dos santos lêr,

E muitas vezes então,

Quem a Asia fez tremer

Chorava de compunção!

Crença tão sincera e pia

Creou quasi homens divinos!

Da descrença hoje a mania

Cria apenas figurinos

Com fórmas varias de enguia!

Môsca subtil hoje pende

Sob mesquinho bigode...

Quem a tal miséria attende

Com razão duvidar póde

D'onde esta barba descende!

Palavra de um portuguez

Valia como escriptura:

Da barba cabellos trez

Hypotheca eram segura

Quando o grande Castro a fez!

Palavras hoje, aos milhões,

Não faltam,... isso é verdade;

Mas vê-se tremer sezões,

Quem teve tanta bondade

Que emprestou os seus tostões!

No castello de Faria

Sustentou leal soldado

Essa herdada valentia,

Com que um cidadão honrado

A vida á patria offer'cia!

Soube n'Africa o Menezes,

Soube n'India o Mascarenhas,

Mostrar ao mundo, mil vezes,

Que eram mais firmes que penhas

Os peitos dos portuguezes.

Hoje a walsa e a contradansa ...

Suprem bem Tanger e Diu;

Foi outr'ora o Gama um pança,

E o Albuquerque um sandio

Que nem merecem lembrança!

Do bom Faria a firmeza

Faz hoje morrer de riso!

Imbecil por natureza

Cuidava, o pobre sem siso,

Achar na morte a nobreza!

Que parvo! Se se entregára

Com geitinho aos castelhanos,

Talvez dinheiro alcançára

Com que rico aos lusitanos

Para outra vez se passára!

Com estes passos e trespasses

Descobriu-se um grande int'resse!

Os heroes são os cachaços,

Que onde dinheiro apparece

A honra lhes cae nos braços!

Sópre o norte com excesso,

Sópre o sul, leste ou poente,

É bom vento, e bom succeso!

Quem crava melhor o dente

Toca a méta do progresso!

Ao antigo Portugal

Parece estar bem provado

Quanto o louvor caiba mal...

Que é tontura ser honrado

Sem n'isso ganhar real.

1867 Visconde de Azevedo, A Grinalda, t. VI, p. 20.


AVE CAESAR

(Á morte de Carlos Alberto, rei do Piemonte)

I

Eil-o, o teu defensor, oh liberdade;

Eil-o, no extremo leito! Á humanidade

O tributo pagou!

Da nobre espada á lamina abraçado,

Viveu soldado-rei, e, rei-soldado

Sobre a espada expirou.

Rasgou-lhe ovante as margens do destino;

Foi-lhe rôta bordão de peregrino

Essa espada leal!

Hoje é cruz. Do aço puro a cruz só resta,

Sentinella da campa ao mundo attesta

Que o heroe era mortal.

Os Œdipos de um drama incerto e vario

Talharam-te na purpura o sudario;

Deixaram-te ermo e só!

Salve, oh rei! Rei no solio e no abandono;

Mais rei no exilio do que os reis no throno,

Rei até sobre o pó.

II

Salve, oh martyr, coroado

Dos espinhos da paixão;

N'uma nova cruz pregado

D'uma nova redempção!

O teu Golgotha foi este.

Aqui te cobre um cypreste

Muita gloria e muita dôr;

Aqui teus mares plantaste;

Vencido, aqui triumphaste

De ti mesmo vencedor!

O calix já trasbordava:

Bebeste-o. Foi Deus que o quiz!...

Deu a vida á Italia escrava,

E a sua alma ao seu paiz.

Não dobra a fronte suprema:

Impondo o pó no diadema

Dos extranhos foge á lei,

E, holocausto derradeiro,

Expia a dor do guerreiro

Na sepultura do rei!

Foi longa aquella agonia!

Foi curta aquella afflicção!

Desceu rapida n'um dia

Da cabeça ao coração.

Entre as balas despedidas,

Entre as phalanges caídas,

Ficou tranquillo e de pé,

Como o cedro da montanha,

Que, da tormenta na sanha,

As selvas prostradas vé!

Pela Italia, Hespanha e França

Depois, calado, galgou;

E por momentos descança

Onde o somno lhe faltou!

Chega, observa, scisma e pára.

O soldado de Navára

Quer ter por leito final,

Quer por leito das batalhas

Este berço de muralhas

Que fez livre Portugal;

Onde a nossa liberdade

Martyr, heroica nasceu,

Pela sua magestade

Heroica e martyr morreu.

Das glorias tuas, oh Douro,

Accrescentaste o thesouro

O que é ligando ao que foi,

Cingiu teu braço robusto

D'um heroe ao resto augusto

A memoria d'outro heroe!

Ambos firmes combateram

Para a patria libertar;

Ambos do throno desceram,

Para a vida á patria dar;

Ambos reis, ambos soldados,

Ambos fieis a seus fados,

Mostraram que no provir

Podem ambos muitas vezes,

No triumpho ou nos revezes

Eguaes da historia surgir.

III

Ferve o sangue, troveja a batalha!

Tine o ferro, rebomba o canhão!

Pavorosa sibila a metralha,

Varre as filas, dispersa-as no chão.

Lá galopam, se imbebem, se enlaçam

Uns aos outros, rivaes esquadrões;

Corpo a corpo ferventes se abraçam

Em sangrentos, crueis turbilhões.

No lampejo do gladio vermelho

Fulge o raio que a morte vibrou!...

Sem seu filho a gemer deixa um velho,

Seu esposo uma esposa deixou.

D'essa immensa procella da guerra,

D'esse ardente, confuso stridor,

Que ficou? Uma corôa por terra,

Uma bella cativa, um senhor!

Pobre Italia, tão bella e tão triste

No teu vasto, florído jardim!

Foi-te ingrata a fortuna, cahiste;

Mas a quéda de um povo tem fim.

Infelizes! Da turba guerreira

Fica um resto, que, prompto a morrer,

Cobre a face co' a rôta bandeira,

Para ao menos a affronta não vêr.

Mudos prantos os rostos consommem,

Dos valentes de Goito... Que adeus!

Era a sombra de um rei e de um homem,

Que passava em silencio entre os seus.

E passava. Expirar não lograra

Sob o golpe que em vão procurou;

Mas a vida que o céo lhe deixára

Entre os braços da patria a deixou.

IV

Salve, salve, oh magestade

Moribunda a succumbir!

Como o espinho da saudade

Te havia fundo pungir!

Como o homem soffreria

Do monarcha na agonia!

Longe do que era tão seu,

Da esposa e filhos briosos,

E dos campos seus formosos,

E do seu formoso céo!

—Patria, adeus! Italia minha,

Oh terra que tanto amei!

Se te não fiz ser rainha,

Não quiz mais tambem ser rei!

Adeus, margens do Tessino,

Sentença do meu destino!

Adeus, povo que escolhi;

Sê tu justo e livre e forte,

Possa dar-te a minha morte

O que em vida não vencí.—

Assim dizia; e lançando

Os olhos em derredor,

E vendo afflicto chorando

Outro povo aquella dor,

Resoluto accrescentara:

—O soldado de Navára

Morre contente afinal,

Morre ao ecco das batalhas,

N'este berço de muralhas,

Que fez livre Portugal.—

J. S. Mendes Leal, Canticos, p. 227. Lisboa, 1858.


SE CÓRAS NÃO CONTO

Tu queres que eu conte um sonho que tive,

Não sei se acordado, não sei se a dormir:

Foi todo singelo, foi todo innocente,

Tu córas—sorris-te; tens medo de ouvir?

Não córes, escuta; não fujas de mim,

Que o sonho foi sonho de casta invenção;

Já crês—não duvidas—verás como é lindo

O sonho innocente do meu coração.

Eu via em teus labios um meigo sorriso,

Em teus olhos negros um terno mirar,

Teu seio de neve a arfar docemente.

Sentia nas faces o teu respirar.

E tu não fallavas, mas eu entendia,

E tu não fallavas,—mas eu bem ouví

Amor!—na minh'alma a voz me dizia,

E um beijo na fronte não sei se o sentí.

Já vês, o meu sonho é sonho innocente,

O resto eu te conto; como hades gostar!

É todo singelo—de amores sómente,

Verás que ao ouvil-o não hasde córar.

Depois apertando teu corpo ligeiro,

Cingindo teu collo no braço a tremer,

Ouvi uma falla—e o que ella dizia

Agora acordado não posso dizer.

Não posso contar-t'a, só pude sentil-a,

Não posso contar-t'a senão a sonhar

No sonho innocente—no sonho de amores

Que tu, duvidosa, julgavas córar:

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado

O que ella dizia se póde entender;

Eu sei que sonhando pensei que era sonho,

E agora acordado a não posso esquecer.

Mas tu porque escondes a face córada?

Não tem nada o sonho que faça córar?

É todo singello—é todo innocente,

Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Mas tu não te escondas, que eu fico calado,

Não quero offender-te a casta isempção,

Não torno a contar-te depois de acordado

O sonho innocente do meu coração.

R. de Bulhão Pato.


O DOIDO

Passei!—O povo na praça

Se apinhava todo alli;

Olha-me a turba devassa,

E chama-me doido, e rí.

Retiniu a gargalhada,

Soturna, fria, pausada,

Perdeu-se ao longe,—pensei

Um momento em mim;—vaidade!

Á turba dei, por piedade,

O meu desprezo, e passei!

Porque luctas, sociedade,

Contra o genio?—Não venceu

Teus sophismas a verdade

Nos labios de Galileu?

E era um doido! De demencia

Alcunhaste a intelligencia

Cujo peso te esmagou;

Não chamaste louco ao Tasso

Por fender n'um vôo o espaço

Que o talento lhe apontou?

E eu, doido; porque sósinho

Não imploro amor, nem dó!

Firme trilho o meu caminho,

Mas quero trilhal-o só.

Ver-me só n'este degredo,

Não profanar um segredo,

Nem ir, mendigo servil,

Pedir gloria; não careço

De vender-me pelo preço

De um sorriso estulto e vil.

Se soffrí muito... calei-me,

Repreza ficou a voz;

No inferno d'alma abrazei-me...

Mas eu era e a dor a sós.

A ninguem pedi esmola

De uma lagrima que rola

Nas faces por compaixão;

Foram só meus gemidos,

Não quiz vêr prostituidos

Mysterios do coração.

Tantas fui n'esta alma ardente

Visões lindas conceber!...

Que desengano pungente!

Encontrei uma mulher

Em vez das visões divinas,

Colloquei-me entre as ruinas

Do meu passado e porvir;

Olhei a vida de perto,

Tinha um horisonte incerto,

Quiz força para reagir;

E tive-a. Da dependencia

As algemas quebrei eu;

Nem sequer a esta existencia

Pedí o influxo do céo;

Porque uma vez, não me esquece,

Balbuciei uma prece,

D'angustia soltei um ai,

Da magoa o brado no anceio

Que não teve ecco no seio

De um senhor, que é Deus... que é pae!

Ao soffrimento puz termo,

Suffoquei n'alma as paixões,

E no peito achei um ermo

De affectos, de sensações;

Parto de um golpe as cadeias

Que me anciavam: e nas veias

Livre o sangue tem calor;

Encontro-me só, mas forte,

Salvo o espirito da morte,

De um marasmo assustador.

D'estes hombros, n'um momento,

Arrojei ao longe a cruz;

E pedí ao pensamento

Em vez das trevas a luz.

Quiz ver e vi: que não sente

Ninguem, que a palavra mente

Que quer dizer—coração;

É o homem meu inimigo,

E ao que me bradou—amigo,—

Recusei volver lhe a mão.

Da mulher á face impura

Que me fallou em amor

Com hypocrita candura,

Com calculado fervor,

Com mentido enthusiasmo,

Cuspi acerbo sarcasmo;

Forcei-a aos olhos baixar;

E a mulher e o homem vingáram

Tamanha affronta e bradaram:

Deixem o doido passar!

O doido passa; não venha

Ser-lhe de estorvo ninguem,

N'um abysmo se despenha

Rindo ao mal e rindo ao bem!

Que vos importa se espande

Sua alma assim?—se elle é grande

Porque em si é grande a fé;

Se vós tremeis por bem pouco...

Porém vêdes sempre o louco

Firme, impassivel, de pé.

Ernesto Marecos, Primeiras Inspirações, p. 119. Lisboa, 1865.

MORTA!

Ella morreu?... Pois d'ella nada existe?...

Triste do sêr que só na vida colha

Os resquicios da flor que se desfolha,

E o riso que desmaia!... Ai, triste, triste!...

Que tudo o que eu amar logo se extingue!

No cuidado jardim dos meus amores,

Que nem uma só flor, de tantas flores,

Heide vêr e querer que vice e vingue!

Que sina é pois, meu Deus, a minha sina?

Parece que ando sempre adstricto á morte;

Fujo do que é vivaz e alegre e forte,

Busco tudo o que chora e a fronte inclina.

Mais quero ao pôr do sol que á rósea aurora;

Mais que ao botão acceso, á flor que pende;

Mais que ao peito que lucta, ao que se rende;

Mais que ao riso feliz, á voz que implora.

Não sei que tem a pallidez do outono,

E o frémito das folhas desbotadas;

Lembra-me em noites no prazer passadas

Um sonho de ternura antes do somno.

Alguma cousa vaga e transparente

Que enlaça co'a visão a realidade,

Que affaga e que sorrí, mas faz saudade

Por que enche d'agua os olhos do vidente.

Eu vi-a e senti n'alma que a adorava,

Que fragancia! que flor! que novidade!

É que a mystica luz da eternidade

Já da entre-aberta campa a illuminava.

E eu louco ante visão tão pura e bella,

Nem via em tanta luz sombra da morte,

Nem me lembrei da minha ingrata sorte,

E eu sabia que amal-a era perdel-a!

Adeus!... Se existe o céo... a eternidade?...

Se nos veremos no paiz risonho?...

A vida transitoria e a morte... é sonho?...

Meu Deus! porque nos dás esta saudade?

1869 Thomaz Ribeiro, Grinalda, t. VI, p. 7.


A VIDA

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo

A luz que n'esta vida me guiava,

Olhos fitos na qual até contava

Ir os degraus do tumulo descendo.

Em se ella annuveando, em a não vendo,

Já se me a luz de tudo annuveava;

Despontava ella apenas, despontava

Logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gémea da minha, ingenua e pura

Como os anjos do céo (se o não sonharam...)

Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.

Não sei se me voou, se m'a levaram,

Nem saiba eu nunca a minha desventura

Contar aos que inda em vida não choraram.

Ah! quando no seu collo reclinado

—Collo mais puro e candido que arminho,

Como abelha na flor do rosmaninho

Osculava seu labio perfumado;

Quando á luz dos seus olhos... (que era vel-os,

E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)

Lia na sua bocca a Biblia santa

Escripta em letra côr dos seus cabellos;

Quando a sua mãosinha pondo um dedo

Em seus labios de rosa pouco aberta,

Como tímida pomba sempre álerta,

Me impunha ora silencio, ora segredo;

Quando, como a alvéola, delicada

E linda como a flor que haja mais linda

Passava como o cysne, ou como, ainda

Antes do sol raiar, nuvem doirada;

Quando em balsamo d'alma piedosa

Ungia as mãos da supplice indigencia,

Como a nuvem nas mãos da providencia

Uma lagrima estilla em flor sequiosa;

Quando a cruz do collar do seu pescoço

Estendendo-me os braços, como estende

O symbolo d'amor que as almas prende,

Me dizia... o que ás mais dizer não oiço;

Quando, se negra nuvem me espalhava

Por sobre o coração algum desgosto.

Conchegando-me ao seu candido rosto,

No perfume d'um riso a dissipava;

Quando o oiro da trança aos ventos dando

E a neve de seu collo e seu vestido

—Pomba que do seu par se ia perdido,

Já de longe lhe ouvia o peito arfando;

Tinha o céo da minha alma as sete côres,

Valia-me este mundo um paraiso,

Distillava-me a alma um doce riso,

Debaixo de meus pés nasciam flores.

Deus era inda meu pae. E emquanto pude

Li o seu nome em tudo quanto existe

—No campo em flor, na praia árida e triste,

No céo, no mar, na terra e... na virtude!

Virtude! Que é mais que um nome

Essa voz que no ár se esvái,

Se um riso que ao labio assome

N'uma lagrima nos cae!

Que és, virtude, se de luto

Nos vestes o coração!

És a blasphemia de Bruto

—Não és mais que um nome vão.

Abre a flor á luz, que a enleva,

Seu calix cheio d'amor,

E o sol nasce, passa e leva

Comsigo perfume e flor!

Que é d'esses cabellos d'oiro

Do mais subido quilate,

D'esses labios escarlate,

Meu thezoiro!

Que é d'esse halito, que ainda

O coração me perfuma!

Que é do teu collo de espuma,

Pomba linda!

Que é d'uma flor da grinalda

Dos teus doirados cabellos;

D'esses olhos, quero vel-os,

Esmeralda!

Que é d'essa alma que me déste!

D'um sorriso, um só que fosse,

Da tua bocca tão doce,

Flor celeste!

Tua cabeça, que é d'ella,

A tua cabeça d'oiro,

Minha pomba! meu thesouro!

Minha estrella.

De dia a estrella d'alva empallidece;

E a luz do dia eterno te ha ferido.

Em teu languido olhar adormecido

Nunca me um dia em vida amanhecesse.

Foste a concha da praia. A flor parece

Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,

Meu calix de crystal, onde hei bebido

Os nectares do céo... se um céo houvesse!

Fonte pura das lagrimas que chóro!

Quem tão menina e moça desmanchado

Te ha pelas nuvens os cabellos d'oiro!

Sóme-te, vela do baixel quebrado!

Sóme-te, vôa, apaga-te, meteoro!

É n'este mundo mais um desgraçado.

E as desgraças, podia prevel-as

Quem a terra sustenta no ár,

Quem sustenta no ár as estrellas,

Quem levanta ás areias o mar.

Deus podia prevêr a desgraça,

Deus podia prevêr e não quiz;

E não quiz, não... se a nuvem que passa

Também póde chamar-se infeliz!

A vida é o dia d'hoje,

A vida é ai que mal sôa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que vôa;

A vida é sonho tão leve

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvae;

A vida dura um momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento,

A vida é folha que cae!

A vida é flor na corrente,

A vida é sôpro suave,

A vida é estrella cadente

Vôa mais leve que a ave;

Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares,

Uma apoz outra lançou,

A vida—penna cahida

Da aza d'ave ferida—

De valle em valle impellida,

A vida o vento a levou!

Como em sonhos o anjo que me afaga

Leva na trança os lyrios que lhe puz,

E a luz quando se apaga

Leva aos olhos a luz;

Como os ávidos olhos d'um amante

Levam comsigo a luz d'um doce olhar,

E o vento do levante

Leva a onda do mar;

Como o tenro filhinho quando expira

Leva o beijo dos labios maternaes,

E á alma que suspira

O vento leva os ais;

Ou como leva ao collo a mãe seu filho,

E as azas leva a pomba que voou,

E o sol leva o seu brilho,

O vento m'a levou.

E tu és piedoso,

Senhor! és Deus e pae!

E ao filho desditoso

Não ouves um só ai!

Estrellas déste aos áres,

Dás perolas aos mares,

Ao campo dás a flor,

Frescura dás ás fontes,

O lirio dás aos montes,

E tiras-m'a, Senhor!

Ah! quando n'uma vista o mundo abranjo,

Estendo os braços, e, palpando o mundo,

O céo, a terra e o mar vejo a meus pés;

Buscando em vão a imagem do meu anjo,

Soletro á froixa luz d'um moribundo

Em tudo só—talvez...

Talvez é hoje a Biblia, o livro aberto

Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando

Vou polo mundo vêr se a posso vêr;

E onde, como a palmeira do deserto,

Apenas vejo aos pés, inquieta, ondeando

A sombra do meu sêr.

Meu sêr voou na aza da aguia negra

Que levando-a, só não levou comsigo

D'esta alma aquelle amor!

E quando a luz do sol o mundo alegra,

Chrysalida nocturna, a sós commigo,

Abraço a minha dôr!

Dôr inutil! Se a flôr, que ao céo envia

Seus balsamos, se esfolha, e tu no espaço

Achas depois seus atomos subtis;

Inda has de ouvir a voz que ouviste um dia,

Como a sua Leonor inda ouve o Tasso...

Dante... a sua Beatriz!

—Nunca; responde a folha que o outono,

Da haste que a sustinha a mão abrindo,

Ao vento confiou;

—Nunca; responde a campa, onde, do somno,

E quem talvez sonhava um sonho lindo,

Um dia despertou.

—Nunca; responde o ai que o labio vibra;

—Nunca; responde a rosa que na face

Um dia emmurcheceu:

E a onda, que um momento se equilibra

Em quanto diz ás mais: deixae que eu passe!

E passou e... morreu!

João de Deus, Flores do Campo, p. 160. 2.ª ed. Porto, 1876.


ADORAÇÃO

Vi o teu rosto lindo,

Esse rosto sem par!

Contemplei-o de longe, mudo e quedo,

Como quem volta d'aspero degredo

E vê, ao ár subindo,

O fumo do seu lar!

Vi esse olhar tocante,

D'um fluido sem igual!

Suave, como lampada sagrada,

Bemvindo, como a luz da madrugada,

Que rompe ao navegante

Depois do temporal.

Vi esse corpo d'ave

Que parece que vae

Levado, como o sol ou como a lua,

Sem encontrar belleza egual á sua,

Magestoso e suave,

Que surprehende e attrae!

Attrae, e não me atrevo

A contemplal-o bem;

Porque espalha o teu rosto uma luz santa,

Uma luz que me prende e que me encanta,

N'aquelle santo enlevo

D'um filho em sua mãe!

Temo, apenas presinto

A tua apparição!

E se me aproximasse mais, bastava

Pôr os olhos nos teus, ajoelhava!

Não é amor, que eu sinto,

É uma adoração!

Que azas previdentes

Do anjo tutelar

Te abriguem sempre á sua sombra pura!

A mim basta-me só esta ventura

De ver que me consentes

Olhar de longe... olhar!

João de Deus, Folhas soltas, p. 31. Porto, 1876.


SYMPATHIA

Olhas-me tu

Constantemente:

D'aí concluo

Que essa alma sente!...

Que ama, não zomba,

Como é vulgar;

Que é uma pomba

Que busca o par!...

Pois ouve; eu gemo

De te não ver!

E, em vendo, tremo

Mas de prazer!...

Foge-me a vista...

Falta-me o ár...

Vê quanto dista

D'aqui a amar!

João de Deus, Folhas soltas, p. 131.


A CIGARRA E A FORMIGA

Como a cigarra o seu gosto

É levar a temporada

De junho, julho e agosto

N'uma cantiga pegada,

De inverno tambem se cóme,

E então rapa frio e fome...

Um inverno a infeliz

Chega-se á formiga, e diz:

—Venho pedir-lhe o favor

De me emprestar mantimento,

Matar-me a necessidade!

E, em chegando a novidade,

Faço até um juramento,

Pago-lhe, seja o que fôr!

«Mas, (pergunta-lhe a formiga,)

O que fez durante o estio?

—Eu, cantar ao desafio.

«Ah! cantar? Pois minha amiga,

Quem leva o estio a cantar

Leva o inverno a dançar.

João de Deus, Folhas soltas p. 66.


O DINHEIRO

O dinheiro é tão bonito,

Tão bonito, o maganão!

Tem tanta graça o maldito,

Tem tanto chiste o ladrão!

O fallar? falla de um modo...

Todo elle, aquelle todo...

E ellas acham-n'o tão guapo ...

Velhinha ou moça que veja,

Por mais esquiva que seja,

Tlim!

Pápo.

E a cegueira da justiça

Como elle a tira n'um ai!

E sem pegar n'uma pinça,

E só dizer-lhe: Ahi vae...

Operação melindrosa

Que não é lá qualquer cousa;

Catarata! tome conta;

Pois não faz mais do que isto,

Diz um juiz que o tem visto:

Tlim!

Prompta.

N'essas especies de exames

Que a gente faz em rapaz,

São milagres aos enxames

O que aquelle diabo faz.

Sem saber nem patavina

De grammatica latina,

Quer-se a gente d'ali fóra?

Vae elle com taes fallinhas,

Taes gaifonas, taes coisinhas...

Tlim!

Ora...

Aquella physionomia

E lábia que o diabo tem!

Mas n'uma secretaria

Ahi é que é vel-o bem!

Quando elle, de grande gala,

Entra o ministro na sala

Aproveita a occasião:

Conhece este amigo antigo?

—Oh meu tão antigo amigo!

(Tlim!)

Pois não!

João de Deus, Flores do Campo, pag. 147.


AMORES... AMORES...

Não sou eu tão tola

Que caia em casar;

Mulher não é rola,

Que tenha um só par.

Eu tenho um moreno,

Tenho outro de cór,

Tenho um mais pequeno,

Tenho outro maior.

Que mal faz um beijo,

Se apenas o dou,

Desfez-se-me o pejo

E o gosto ficou?

Um d'elles por graça

Deu-me um, e depois,

Gostei da chalaça,

Paguei-lhe com dois.

Abraços, abraços

Que mal nos farão?

Se Deus me deu braços,

Foi essa a rasão.

Um dia que o alto

Me vinha abraçar,

Fiquei-lhe de um salto

Suspensa no ár.

Amores, amores,

Deixal os dizer;

Se Deus me deu flores,

Foi para as colhêr.

Eu tenho um moreno,

Tenho um de outra côr,

Tenho um mais pequeno,

Tenho outro maior.

João de Deus, Flores do Campo, p. 71. 2.ª ed.


A SOMBRA

Quando Christo sentiu que a sua hora

Em fim era chegada, grave e calmo,

Sereno se acercou dos que o buscavam.

A turba vinha em armas! Mas, de tantos,

Nem um só se atreveu a dar um passo,

A pôr a mão no Filho do Homem.—Todos

De olhos no chão, as armas encobriam

Ante Jesus inerme.

Então aquelle

Que o tinha de entregar, aproximando-se,

O tomou nos seus braços, murmurando:

«Que Deus te salve, Mestre!» E, sobre a face

O beijou, como fôra contractado.

Então os mais, chegando-se, o prenderam.

Mas Jesus, sem os vêr, lhes perdoava;

De olhos no céo, seguía-os sereno.

Era duro o caminho. Sobre um monte

Iam, e dos dois lados, lá em baixo,

Cobria a treva a terra toda.

Quando,

Porém, sobre o mais alto d'esse monte

Foram emfim chegados, de repente

Viu-se-lhe uma das faces alumiar-se

De uma luz doce e branda, mas immensa!

E quanta terra, desde o monte ao oceano,

Lhe ficava do lado aonde virada

Lhe estava aquella face, reflectindo-a,

Tudo se esclarecia—valle e serra

E a metade do céo—apparecendo

Como em puro luar, ou qual se fosse

Vir nascendo uma aurora d'esse lado.

E essa face radiante era a que Judas

Não chegára a tocar.

Porém a outra,

Que elle beijara, conservou-se escura,

Como se o crime d'elle ali guardasse...

Onde a virava, era uma noite immensa,

Coberto o horisonte de nevoeiro...

Partido o mundo em dois, essa metade

Era a que se ficara envolta em sombras.

........................................

Foi d'essas sombras que se fez a Egreja!

1865
Anthero de Quental, Odes modernas, p. 129. 2.ª ed. Porto, 1875.


Como o vento ás sementes do pinheiro

Pelos campos atira e vae levando...

E, a um e um, até ao derradeiro,

Vae na costa do monte semeando;

Tal o vento dos tempos leva á Idéa,

A pouco e pouco, sem se vêr fugir...

E nos campos da vida assim semêa

As immensas florestas do porvir!

Anthero do Quental, Odes modernas, p. 135


Ha dous templos no espaço—um d'elles mais pequeno;

O outro, que é maior, está por cima d'este;

Tem por cúpula o céo, e tem por candelabros

A lua ao occidente, e o sol suspenso ao éste.

De sorte que quem stá no templo mais exiguo

Não póde vêr nascer o sol, nem póde vêr

As estrellas no céo,—que os tectos e as columnas

Não o deixam olhar, nem a cabeça erguer.

É preciso abalar-lhe os tectos e as columnas,

Porque se possa erguer a fronte até aos céos...

É preciso partir a Egreja em mil pedaços

Porque se possa vêr em cheio a luz de Deus.

1864
Anthero do Quental, Odes modernas, p. 155.


VERSOS ESCRIPTOS NA MARGEM D'UM MISSAL

Bem póde ser que nossos pés dorídos

Vão errados na senda tortuosa,

Que o pensamento segue nos desertos,

Na viagem da Idéa trabalhosa...

Que a arvore da sciencia, sacudida

Com força, jámais deite sobre o chão,

Aos pés dos tristes que ali 'stão anciosos,

Mais do que o fructo negro da illusão...

Que o livro do Destino esteja escripto

Sobre folhas de lava, em letra ardente,

E não chegue a fital-o o olho humano

Sem que se offusque e cegue de repente...

Póde ser, que na lucta tenebrosa

Que este seculo move sob o céo,

venha a faltar-lhe o ár, por fim, faltando-lhe

A terra sob os pés, bem como Anteo...

Que do sangue espalhado nos combates,

E do pranto que cae da triste lyra,

No árido chão da esperança humano

Mais não nasça que a urze da mentira...

Que o mysterio da vida a nossos olhos

Se torne dia a dia mais escuro,

E no muro de bronze do Destino

Se quebre a fronte—sem que ceda o muro...

E que o pensamento seja só orgulho,

E a sciencia um sarcasmo da verdade,

E nosso coração, louco vidente,

E nossas esperanças só vaidade.

E nossa lucta, vã! talvez que o seja!

Cego andará o homem cada vez

Que vê no céo um astro! e os passos d'elle

Errados pelo mundo irão, talvez!

Mas, oh vós que prégaes descanço inerte,

No seio maternal da ignorancia,

E condemnaes a lucta, e daes ao homem

Por seu consolo o dormitar da infancia;

Apostolos da crença,... na inercia...

Vós que tendes da Fé o ministerio

E sois reveladores, dando ao mundo

Em logar de um mysterio... outro mysterio;

Se quanto o Universo tem no seio,

E quanto o homem tem no coração,

O olhar que vê, e a alma que adivinha,

O pensar grave e a ardente intuição,

Se nada—em terra e céo—pôde ensinar-nos,

Do fado humano o immortal segredo,

Nem os livros profundos da sciencia,

Nem as profundas sombras do arvoredo,

Se não ha mão audaz que possa erguel-o

O tenebroso véo do Bem e Mal...

Se ninguem nos explica este mysterio...

Tambem o não dirá nenhum Missal.

1865 Anthero do Quental, Odes modernas, p. 143.


ONDA VIVA

—Chame-te Sudra quem servil te nota,

Deixem-te as castas com horror sagrado,

Calquem-te, Pária, Fellah, bronco Ilóta,

Façam-te Escravo em Roma, ai, é baldado;

És sempre o mesmo homem ultrajado!

A natureza deu-te a força, e vida

Que não succumbe á violação proterva!

Como a prancha que arrasta onda batida,

Como revive a amaldiçoada erva,

Assim poder extranho te conserva.

Erva, cujas raizes derrocaram

De ergástulos e templos velhos muros,

Que nas ruinas seu vigor mostraram,

Cobrindo de verdura os seixos duros,

Só com ter de ár e luz uns haustos puros.

Os que te viram sob o aspecto novo,

A ti, o ignobil da vetusta edade,

Como lisonja te chamaram Povo;

E envolvidos na pávida anciedade

Deixaram-te provar da egualdade.

Como foi que subiste a tanta altura?

Não és aquelle mesmo intonso e hirsuto,

Sem vontade ou direito; por ventura

Bebendo o choro mudo, nunca enxuto?

Vivendo equiparado sempre ao bruto?

Não és aquelle a quem o sol aquenta

Pela graça dos reis, pois que um relance

Das Bastilhas te arroja á morte lenta?

Da crassa escravidão deixaste o alcance?

Da gleba adscripta sacudiste o transe?

Como ousaste pensar por ti um dia,

Rodeado de bonzos como andáras?

Chamaste a Providencia; a Theologia,

A escarnecer-te com devotas caras,

Respondia queimando-te nas áras.

E foi possivel germinar a ideia,

Sob esse craneo duro, tantas vezes

Decepado nas praças, porque cheia

Um dia trasbordára a taça as fézes,

E ousaste resistir a mil revézes?

Explorado do berço á sepultura,

Tu, conservado estupido por plano,

Como foi que subiste a tanta altura?

Lançando da cerviz o jugo insano,

Reclamando isso que é do sêr humano?


«Perguntas bem! Direi toda a verdade:

De luz, terra e trabalho, de ár e ideia,

Da santa aspiração da liberdade,

De tudo quanto o peito vivo anceia,

Um dogma nos privou por culpa alheia.

O velho egoismo nos privou de tudo!

Fomos baixando até cahir exangue;

Rasgava-nos o peito o ferro agudo,

E quando estava já para a dor mudo

Só não poderam esgotar-lhe o sangue.

E o sangue correu sempre,—e quente arrasta

Provocando a embriaguez da liberdade,

Lavando o stigma que separa a casta,

Minando a secular fatalidade

Que fez do atroz arbitrio Auctoridade!

Quando o rei paternal, d'entre o arminho

Triumphante exclamava:—Quero e posso!

Lançava ao ár o cópo cheio de vinho;

Tambem ao derrubar o alto colosso,

Nos derramámos sempre o sangue nosso.

O sangue, o sangue nosso! o vinho forte

Da garantia cívica romana!

Na sua enchente rompe o dique á sorte.

Como Christo augmentou o vinho em Cana,

O sangue fez a egualdade humana.

Theophilo Braga.

O SEPULCHRO DE VIRGILIO

I

Era chegado o Apostolo eloquente

Cansado, e firme n'uma fé robusta,

Da romagem longinqua do Oriente,

Por hordas sevas da região adusta:

Vinha trazer á Capital da Gente

Que impera no orbe e com poder assusta

De armas e leis, poder egual não visto,

O Verbo novo que dissera Christo.

Vira o Apostolo uma fresca gruta,

Entrou, sentou-se em vago esquecimento.

Queria forças para entrar na lucta,

E repouso de quem recobra alento;

Santos carmes do velho Lacio escuta

Agitando-lhe o incerto pensamento.

É bem que te extasies e arrebates

Co'a a lingua dos Juristas e dos Vates!

Sentou-se extenuado sobre as bordas

Do tumulo sagrado de Virgilio!

Transpondo os mares, e sedentas hordas,

Mal comprehende o Apostolo esse idylio

Que resôa das invisiveis cordas

Da alma grega no etrusco domicilio.

Elle quer possuir essa magia

Para espalhar a fé viva que o guia.

Virgilio! A natureza era serena!

Com mansidão o mar longe estuava

Na forte placidez de quem sem pena

Do promontorio os vinculos quebrava.

Atito pesaroso de uma avena

Graça de infancia á paisagem dava;

Era limpido o ár! Cariz de Italia...

Quem tiver mais poesia n'alma exhale-a.

Havia o quer que é, de mysterioso

Que perturbava o Apostolo fervente,

A revelar-lhe com tristeza e goso,

Que vinha tarde ás bandas do Occidente,

Fallar do Verbo novo e doloroso

Da liberdade humana florescente!

Sobre o tumulo d'esse augusto Vate

Medita nas palavras do resgate.

Repousou a cabeça somnolenta

Da campa de Virgilio sobre a lagem;

A mente em sonho vago representa

Que chegou tarde tarde da romagem.

E chorou como aquelle que se ausenta

Do seu amigo, para a eterna viagem,

E chorou! Concentrou-se a natureza

Para ouvil-o em sua intima tristeza:

II

«Oh alma bem fadada, só nascida

Para sentir o bello e a verdade!

Para ti minha vinda foi perdida.

«Ao conhecer-te, quem chorar não hade

Vendo morrer no erro e culpa d'Eva

O melhor coração da antiguidade?

Tu foste como o guia, quando leva

A luz adiante, e a todos alumia;

Só para si não vae rompendo a treva!

Ah, presentiu a ideal melancholia

Que faz do novo dogma a essencia, quando

Sunt lacrymae rerum! proferia.

Virgilio! Ah, como apostolo seria

O que dava á verdade essa linguagem

Profunda, humana e viva da poesia!

Se Paulo, ai, tarde! da longiqua viagem

Pudesse vir a tempo, em tua procura,

Do Verbo novo dando-te a mensagem!

Ter eu vindo tão tarde! desventura.

E ser já tarde! que lethal tristeza,

Para salvar esta alma ingenua, pura!»

E chorou! concentrou-se a natureza.

III

Longo foi o silencio, como aquelle

Que procede o ruir da tempestade,

Antes que o vendaval rijo atropelle

As ondas, contra as quaes urrando brade!

Paulo chorava por essa alma imbelle,

Com magua e suavissima saudade

Ás lagrimas, da compunção alarde,

Respondeu-lhe uma voz:

—Não vieste tarde.

Não vieste tarde! E vê se poderias

Ao maximo pontifice do Justo

Leval-o a crêr na Graça que annuncias?

Não podera esquecer a todo o custo

O nexo da harmonia das vontades,

Por um dogma de privilegio augusto.

Cuspido ás praias pelas tempestades

Vieste Paulo, a tempo a dar a nova

D'esse mysterio ás immoraes cidades.

Em quanto da Justiça déra prova

Roma! foi grande, soberana e forte.

Quem haverá que a outra ideia a mova?

Mas essa luz que sempre foi seu norte,

Um dia a apaga a purpura devassa:

Do carcomido imperio segue a sorte.

Antepondo á Justiça, arbitrio ou Graça,

Vae, Paulo! agora é tempo, e entra em Roma,

Se fallas em Justiça, a plebe passa...

Ella não te percebe! Ah Paulo, dóma

A plebe ignava com o doce engano

De cousa que se palpe e que se coma...

Da bem aventurança pinta o arcâno;

Mas a doutrina só será fecunda

Quando o teu Christo se tornar romano.

.......................................

Theophilo Braga


PHRASE DE MIGUEL ANGELO

I

Oh Dante! oh nova aurora da Poesia,

Duro juiz da inulta liberdade!

Quando entraste dos prantos na Cidade,

Perguntaste a Virgilio, ao doce guia:

—D'onde vem tal fragrancia e harmonia?

Vozes de amor de tanta suavidade?

Que se aclara a amplidão da escuridade

Sobre o estertor da hórrida agonia?—

Viste pairando em nuvem diamantina

Voar Paulo e Francesca, triste e amante;

Quizeste ouvir que dôr é que os fulmina.

Interrogaste o mestre n'esse instante;

Mas respondeu a bella florentina:

La bocca me bacció tutto tremante.

II

Fria, dentro de um féretro estendida,

Eu vi passar tambem, d'esta janella,

Ai! para sempre e nunca mais, aquella

Que fôra para mim ideal e vida.

Ah Vittoria Colonna, não vencida;

Vae-se-me da esperança a luz com ella;

Sem rumo e sem phanal, d'entre a procella

Que eu fique como a nave já perdida.

O espirito se abysma em vacuo immenso,

A solidão é vasta mas suffoca;

Da dor irremediavel me convenço:

Eu pergunto—que mão lethal me toca?

Vel-a morta levada... ah scismo e penso:

Sem nunca ter beijado aquella bocca!

Theophilo Braga.


O PRISIONEIRO

(Diante de uma cabeça de Miguel Angelo)

Uma palavra diz toda a desgraça:

—Ter por si a rasão, eis o seu crime!—

O despota o conhece; busca traça

Para esconder a victima que opprime.

Ferros! vossos anneis encadeados

Venham soldal-o para sempre ao muro;

Abobadas! calae-lhe ardentes brados,

Trevas! summi-o no estertor do escuro.

Mas tudo é pouco. O prisioneiro pensa

No rancor do tyranno e adormece;

A natureza é mãe: na dor immensa

Accolhe o que nas ancias desfallece.

Então, em somno longo e descuidoso

Aos sitios mais queridos d'outras éras,

A mente vôa e aviva com repouso

Passadas illusões, doces chimeras.

Quem cuidará que o inerme prisioneiro

Esquecido do peso das algemas

Ouve os colloquios do amor primeiro?

Do adeus final as expressões extremas?

Ali lhe transparece sobre os labios

O arpejo ignoto de suave riso,

Sereno como a profundez dos sabios,

Triste como o luar quando indeciso.

Pensa que é livre! o somno é liberdade

Para esse a quem nenhum consolo reste;

Qual será mais feliz? a auctoridade

Nunca logrou um instante como este.

Vela o tyranno, tendo álerta os guardas,

Entre canhões, muralhas, torres, fossos;

Lá quando o somno chega em horas tardas,

Ouve ais, vê sangue, estrepitos, destroços:

Escuta os gritos surdos da revolta

Do povo que a si mesmo faz justiça;

É negro o pezadello, o horror o escolta,

Quer despertar, remorso o infeitiça.

Este, dormindo, já se sente escravo,

Arrastado por praças, com vergonha;

Mas quem jaz mudo sob o iniquo aggravo

Que é livre, livre, ai prisioneiro, sonha.

Qual será mais feliz? um quando dorme,

É só para sentir terror, fraqueza;

E áquelle que succumbe ao peso enorme

Diz-lhe ser livre, a santa natureza.

Bem haja a eterna força que lhe inspiras

Que não conhece algemas—a vontade!

Prepotentes! quebrae ante ella as iras,

Embalem-nos os sonhos da verdade.

(Junho, 25—1872.) Theophilo Braga.


NAPOLEÃO MORIBUNDO

Como o grande astro, pallido e já frio

Vae a afundar-se lento no horisonte!

Olhos vagos, de extremo desvario

Dão um sinistro aspecto áquella fronte!

A fronte sombra gélida a cobriu

Como os nimbos no vertice do monte;

Aguia, que vae morrer sacode as azas,

Tal se agitou, e disse então:

—Las-Casas!

Estás ahi? És sempre o egual amigo,

Mais vinculado a mim pela desgraça!

Attenta nas palavras que te digo...

A custo sae a voz já surda e baça!

Um pezo enorme aqui, duro castigo,

Me opprime o peito, augmenta e ameaça.

Repara, arquejo de agonia e medo,

Tira de sobre o peito este penedo!

Sim, um penedo! alguem o detem sobre

O peito exhausto para meu desdouro;

Serei eu como o sapo que se encobre

Sob a pedra? ou recondito thezouro?

Mais opprime! sem ár e luz que sóbre

Acovarda-me o pezo d'esse agouro...

A pedra o gello seu me communica,

E como a pedra o corpo inerte fica!

Ouve. Acordei de um sonho longo e aziago

Na vertigem da febre que devora;

Prostra-me o pezadello máo, persago,

Que me levou alem dos mundos fóra.

Por onde eu ia me seguia o estrago,

Pude então meu destino ler; e agora

A mim voltei; ah, sobre mim o bloco

Assim encontro... E como o palpo e toco!

Fatalidade immensa; fim medonho!

Menos que Prometheu, do mundo antigo!

Como Sysipho á fraga não me opponho,

Nem faço como Ajax da rocha abrigo.

Sucumbo! escuta o tenebroso sonho,

Attenta na visão que aqui te digo,

Verás d'onde caíu este penedo

De que fiz pedestal... guarda segredo:


VISÃO DO PAROXISMO

Vi-me perdido, como outr'ora Dante,

Não na floresta escura, mas bem perto

D'uma montanha que encontrei diante

Do passo temerario, vão, incerto;

No flanco da montanha, a mais gigante,

Deparei antro lóbrego e aberto,

Quiz conhecer o goso de ir perdido,

E entrei, com esperança, destemido.

Era um algar profundo, escuro, mudo,

Gotejando a humidade e a doença;

Frio, como o terror! e mais que tudo

Ermo, como o que nunca teve crença!

Com a audacia da edade o passo ajudo,

Através da visagem feia e densa;

Quero ir lá dentro ouvir a Pythonissa

Na solidão dos que só tem justiça.

Era a via subterrea, má, sem tento,

Debaixo da Montanha aos céos erguida,

Interminavel como o soffrimento,

Desconhecida como o entrar da vida.

Foi impavido adiante o pensamento,

Quem romperia a tétrica avenida?

Oh, não foram por certo as alimarias

Sim, bem o sei, foi geração de Párias.

Parecia que o pezo da montanha

Já o sentia no offegar cansado;

A crassa escuridão era tamanha

Que ultrapassava os dogmas do peccado.

A tristeza que o peito ali me banha

Similhava a do homem ultrajado;

Silencio, egual ao seculo confuso,

Que não deixou protesto contra o abuso.

E tacteando trépido prosigo

Como o que deu por falta, e em vão procura;

Mas como a tradição de um tempo antigo

Paralisou-me uma humidade escura!

Senti-me vérme dentro de um jazigo,

E vi que a vida quer a luz só pura;

E dentro, lá nos infimos cancéllos

Ouvi ruido como de martellos;

Pancadas longas, de quem rompe e escava

Na compacta pedreira e a derruba,

O som pela caverna retumbava;

Fui avançando! quer eu desça ou suba

Mais se distingue a varia faina brava,

Como o leão, quando sacode a juba!

Ais e vivas, lamentos e cantigas

Soam como animando nas fadigas.

Cheguei mais perto. Vi-os! eram tantos...

Cataduras de Cyclopes, de athletas!

Rostos sulcados por calados prantos,

Peitos transidos por ignotas setas;

Na expressão moral, brutos e santos;

Tão ingenuos como almas de poetas;

Rudes, leaes, e rotos mas contentes;

Chamam isto—trabalho—aquellas gentes:

Levantavam os malhos contra a rocha,

Responde ella com afiadas lascas;

E quando no trabalho a força afrouxa,

Um canto anima as vacillantes vascas!

O canto ou grito da agonia roxa,

Çà ira! voz das intimas borrascas,

Vinha ao bater dos malhos dar compasso,

Trazer alento no mortal cansasso.

Muitos caíam já sem força, em terra,

Mudos, outros ficavam sepultados

Nas barreiras por culpa d'este que erra

Indo minar em perigosos lados.

Mas que poder sublime o canto encerra!

Çà ira! levam eccos prolongados;

E ao trabalho de novo metem hombros,

Na dor e na coragem sempre assombros.

Cheguei mais perto, ao perto dos mineiros:

—Oh raças condemnadas ao trabalho,

Criadas na fadiga, e os primeiros

Que procuraes romper tão duro atalho!

E para quem do Golgotha o madeiro

Só produziu o secco e esteril galho,

Que sentença condemna a essa luta

De vencerdes a natureza bruta?

«Vamos minando o alteroso Monte.

Temol-o atravessado pela base!

Procuramos a luz d'outro horisonte,

Nós sentimol-a! é esta a nossa phrase.

Sem um astro que a via nos aponte,

Vamos errantes, acertando quasi,

Mergulhados no frio e escuridade,

Dá-nos calor o ideal da liberdade.

«Ha gerações que aqui nasceram méstas;

E que se nasce livre aquella ignora!

Outra trabalha equiparada ás bestas,

E pensa que só vive quando chora.

Umas cáem na vala, restam estas

Na esperança de achar a nova aurora!

Sobre nós a montanha peza horrenda

Na tradição de seculos tremenda.

«Çà ira! Pois Encélado palpita,

Sacudindo a montanha sobre o dorso;

A montanha é a tradição maldita,

Immovel como os dogmas do remorso,

Impassivel como uma lei escripta...

Nós proseguimos no baldado esforço

Porque os filhos de nossos filhos vejam

A luz que os nossos olhos tanto almejam.

«Nós transmittimos o fatal legado

Que herdámos sem saber como nem quando...»

E quando olhava para aquelle lado

Lá onde o Çà ira! ia levando,

De repente ficou tudo calado!

Vi transluzir clarão suave e brando...

Jôrros de luz, que as trevas longe sómem,

Eu conhecí, era—Os Direitos do Homem!

Por ti, que gerações foram á vala

Afirmando o que a tradição mais nega!

E emquanto o pranto em cada rosto falla,

E a vêr a claridade cada um chega;

Lembrou-me a mim dever eu gradual-a,

A diáphana luz que a olhos céga;

—Oh, parae um instante! sabei que essa

Luz repentina é como a treva espessa.

Confiae hoje em mim; que eu vá adiante

A vêr se algum abysmo aí está aberto;

Quem sae da escuridão não vê distante,

Sustae o passo trépido e incerto!—

Como entra o mensageiro alegre, ovante

Na Promissão, saindo do dezerto,

E emquanto choram n'uma effusão terna,

Cheguei então á bocca da caverna.

Que mundo extranho, que planicie infinda,

Que ár saudável, tépido e fagueiro!

Que céo azul, que paizagem linda,

A harmonia embalava o mundo inteiro.

Bloco enorme de pedra estava ainda

Na bocca da caverna sobranceiro,

Cresceu-me esta ambição danada minha,

E vi a fragil lasca que o sustinha.

Á posse d'esse mundo a mente eu alço;

Sentí o egoismo de querer tal mundo

Só para mim; e eu, misero e falso,

Inda escutava o cantico jocundo,

De prompto o bloco intrepido descalço!

Rolou o pedra da caverna ao fundo;

Como se entaipa n'uma furna o urso,

Pensei interromper do tempo o curso.

Sepultos outra vez deixei em trevas

Miseraveis que seculos luctaram;

Abafei-te, hymno ardente, que sublevas,

Puz um dique aos golphões que extravasaram;

Cobri o quadro das angustias sévas

Que a tradição e a ordem ameaçaram;

Sobre essa pedra eu presenti a gloria

Fiz o meu pedestal perante a Historia.

Ouves, Las-Casas? choras, fiel amigo?

A custo sae-me a voz já surda e baça...

O meu destino foi, á força o digo,

Missão de um blóco em sua inerte massa.

Eu o sinto opprimir-me por castigo

O peito, e com seu pezo me ameaça;

No estertor de Job, ai se me ouvissem!

Melius erat si natus non fuissem.


Como se afunda do alto no oceano

A mó do Apocalypse amaldiçoada,

Tal para sempre no desprezo humano

Se imerge essa existencia egoista, errada.

Vomitou destruição o ignobil cano,

Da morte e do que é morto fez parada!

E se a dor sente alivio no improperio,

Sirva-lhe de alvo sua vida e imperio!

1874 Theophilo Braga


ÁS MÃES

Oh santas, que embalaes os berços das crianças,

E assim lh'o revestis de floreas esperanças;

Que andaes sempre a cuidar das almas por abrir,

E a verter-lhes no seio o germen do porvir!

Sois vós que, pela mão, da gloria á vida inquieta

Levaes um vosso filho, um pallido propheta,

Que é Newton ou Petrarcha, Angelo ou Raphael,

Com o pincel e a pena, o compasso e o cinzel,

Fazendo enobrecer quem lhes seguir o exemplo!

Sois vós que o conduzis ao portico do templo

Onde o porvir corôa os genios immortaes,

E mal chegadas lá de todo o abandonaes

Sem aguardar sequer, nas sombras d'uma arcada,

A grande acclamação que festeja a entrada!

E modestas que sois! tornaes a vosso lar

E só vos contentaes em vel-o atravessar

Coroada de laureis a frente scismadora,

Um arco triumphal, que o cérca d'uma aurora.

Mas nós, cabeças vans, escravos pelo amor,

Andamos a dizer; «Beatriz! Leonor!»

E o nome vosso, oh mães, não lembra um só instante.

Quem sabe o nome vosso, oh mães de Tasso e Dante?

Oh santas! perdoae; lá tendes o Senhor

Que vos cobre de luz, de bençãos e de amor,

Fazendo abrir ao sol as vossas esperanças!

Oh santas, emballae o berço das crianças!

1864
Guilherme Braga, Grinalda t. V, p. 25.


AMIGOS...

Era da Terra-Nova: um formidavel cão.

O homem que m'o vendeu, chamava-lhe—Sultão,

E creio que o trazia ha dois annos comsigo;

Eu só lh'o quiz comprar para ter um amigo ...

Depois que lh'o paguei, o soberbo animal

Lançou-lhe um triste olhar d'estes que fazem mal,

Que envolvem um adeus, talvez o derradeiro!

O dono, distrahido a contar o dinheiro,

Nem mesmo reparou n'essa muda afflícção,

E disse-me a sorrir; «É um bravo, este Sultão!

Bem nutrido e leal: dedicado e robusto!

Mas... pode acreditar que lh'o dou pelo custo...

Já me salvou a vida uma vez no alto mar.»

Disse isto, e cortejou-me e partiu...

A scismar

N'aquella ingratidão, que tantas me recorda,

Do pescoço do cão desamarrando a corda,

Em voz alta eu bradei: Bem o dizias tu,

Oh poeta immortal: Le chien c'est la vertu

Qui ne pouvant se faire homme, s'est faite bête.

E como em todo o olhar uma alma se reflecte,

A alma d'aquelle sêr que vinha atraz de mim...

Curvo, humilde, ou talvez resignado por fim,

No olhar que então lhe vi, das sombras do seu nada

Parecia dízer-me:—Obrigada, obrigada!

1866
Guilherme Braga, Heras e Violetas, p. 239. Porto, 1869.


PLATÃO

Quando ao cair das sombras, o sol já semi-morto

Tornava côr das rosas o anil do mar Egeo

Onde veleiras cymbas singravam para o porto

Abrindo as azas brancas, como as aves do céo;

Do promontorio Sunium ao viso magestoso,

Que banha o pé nas aguas, ascendia Platão;

E, como lendo as folhas de um livro mysterioso

Derramava seus olhos na infinita amplidão...

O sol desce! o sol desce! seu derradeiro lume

Diz aos montes e ás vagas melancolico adeus,

E o sabio sempre immovel no purpurado cume,

Com a vista no espaço finge a estatua de um deus.

Sobre a roca de Egina, vem surgindo a seu turno

Vésper, tingindo as aguas de azulado fulgor;

As estrelas despontam, e o sabio taciturno

Com o dedo nos labios pensa no infindo Amor.

Mas, eil-o que estremece! n'um transporte impetuoso

Do seu negro, amplo manto se desembuça então,

Depois estende os braços ao plaino rumoroso,

E brada, erguendo os olhos á etherea solidão:

«D'este grande poema, portentos, harmonias,

D'esta hora, só d'esta hora, mysteriosa assim,

Só d'esta hora de doces e santas alegrias,

Eu aprendo o que podes, oh Potencia sem fim!

És tu, oh Natureza que a rigidez me ensinas,

Que os sophistas da Eschola, na Eschola assombrará,

Em ti bebo a Sciencia, que das coisas divinas

Tenho, que o mundo busca, mas no mundo não ha!

Que logar fica á duvida em corações, que o effeito

Mago d'estes momentos faz d'amor palpitar?

Oh virações do empyreo, purificae-me o peito,

Para que os meus bons Genios o possam habitar.

Descei, oh meus patronos! descei do excelso empyreo!

Já minha alma está pura! homem novo já sou!

Não pezam em mim sombras e duvida e delirio!

A luz da eterna aurora para mim já raiou.

Chamma d'amor celeste me aquece a intelligencia,

Minha rasão, qual aguia, paira no extremo céo,

E, á luz mysteriosa da minha consciencia,

Vejo através da tumba, da morte rasgo o véo!

Immortal! que presagios. Immortal! que delirio,

Immortal! que alegrias. Que crêr e que esperar!

Purificae-me o peito, vós, virações do empyreo,

Para que os meus bons Genios lá possam habitar!»

Diz—e do Promontorio deixa o cume elevado,

Que dos Genios da Noite já cercam turbilhões,

E, ao rir da nova aurora, com a voz de inspirado,

Descreve á turba absorta suas grandes visões!

1871

Leonel de Sampaio (Vicente de Faria) Grinalda, vol. III, p. 88.


N'UM TUMULO

Envolve-se a existencia em dois mysterios:

Berço e campa—dois óvulos diversos;

Dos berços faz-se o pó dos cemiterios,

Das campas sae o pollén dos berços.

Mysterioso circulo da vida

Que esmaga em cada giro uma alma, um ente,

Que rasga em cada volta uma ferida,

Que deixa em cada sulco uma semente.

Alexandre da Conceição.


DILEMMA

Eu, quando aos labios teus o pejo assoma

Como no céo a nuvem matutina,

Ou, quando esse rubor que te illumina

Occultas entre as ondas da aurea cóma,

Parece que estou vendo, n'esse pejo,

A timidez da pomba que tem medo

Do mais leve sussufro do arvoredo,

Cuidando que o rumor lhe pede um beijo

A ti também, meu Deus! tudo te assusta!

Que medo podes ter quando eu te fallo?

Porque córas assim quando me calo?...

Parece que até mesmo a olhar te custa!

Se te fallo de amor não me respondes,

Se te tento beijar, sorris córando;

E concedes o beijo, mas, curvando

A fronte ao seio aonde tu a escondes.

Esconde; olha, eu por mim não me arrenego;

O que te digo é que esse teu receio

Faz ás vezes com que eu te beije o seio

Como errando o caminho... se estou cego!...

Desterra para longe esse embaraço!

Vamos, olha para mim, mas sem tal pejo!...

Vamos, se não córares dou-te um beijo,

Se córares... então dou-te um abraço.

Alexandre da Conceição, Grinalda, vol. V, p. 29.


SIC TRANSIT...

Um dia frei Manuel das Bentas Chagas

Limpava ás sujas mangas da batina

Do seu teimoso pranto as grossas bagas,

Sentado á sombra de uma velha ruina.

Ruíra, ha muitos annos o convento,

Onde lédo passara a mocidade,

E vinha agora alí, por seu tormento

Curtir as agras dores da saudade.

«Frei Manuel, (lhe pergunto) que pezares

Turvam teu rosto que em tal pranto lavas?

Tens culpa que ruissem os altares

Do templo, onde ao Deus vivo celebravas?

Não tens culpa, bem sei, choras os damnos

Da santa religião, pois viste um dia

O que fôra trabalho de mil annos

Cair ás mãos da ignara hypocrisia?»

Frei Manuel me responde:—Esse tão bello

Tempo da vida asceta não lamento;

Choro, sim, mas por vêr o carmatello

Não respeitar a adega do convento.

J. Simões Dias.


A BENÇÃO DA LOCOMOTIVA

A obra está completa. A machina flammeja,

Desenrolando o fumo em ondas pelo ár;

Mas antes de partir, mandem chamar a Igreja,

Que é preciso que um bispo a venha baptizar.

Como ella é com certeza o fructo de Caim,

A filha da Rasão, da independencia humana,

Botem-lhe na fornalha uns trechos em latim,

E convertam-n'a á fé catholica-romana.

Devem n'ella existir diabolicos peccados,

Porque é feita de cobre e ferro; e estes metaes

Saem da natureza, impios, excommungados,

Como saímos nós dos ventres maternaes.

Vamos, esconjurae-lhe o demo que ella encerra,

Extrahi a heresia ao aço lampejante!

Ella acaba de vir das forjas de Inglaterra,

Ha de ser com certeza um pouco protestante.

Para que o monstro côrra em férvido galope,

Como um sonho febril, n'um doido turbilhão,

Além do machinista é necessario o hyssope,

E muita theologia... além de algum carvão.

Atirem-lhe uma hostia á bocca famulenta,

Preguem-lhe alguns sermões, obriguem-n'a a resar,

E lancem na caldeira um jorro d'agua benta,

Que com agua do céo talvez não possa andar.

Guerra Junqueiro.


O URSO BRANCO

Elle é descommunal, titânico, felpudo;

Anda sinistramente a farejar na treva,

E causa-nos horror, como um gigante mudo.

Vive na escuridão phantastica do Neva,

E já ouvi dizer que essa alimaria informe

É também como nós filho de Adão e Eva.

Rasteja pela sombra; e mesmo quando dorme

Conserva sempre aberto um olho coruscante

Como um cacto real ensanguentado, enorme.

É o despota feroz o Cesar triumphante

D'uma crepuscular, longinqua Babylonia,

Que é como um pezadelo, uma visão do Dante.

Nas convulsões febris da bestial insomnia

Estorce-se a lamber as garras sensuaes,

Ruminando lá dentro o craneo da Polonia.

Anda espreitando ao longe as torres orientaes,

As flexas de Stambul, as morbidas almêas

Com o riso cruel dos lobos imperiaes.

Tira o sangue do povo e manda abrir-lhe as veias,

E os duques-generaes e os bispos-cortezãos,

Misturam-no com vinho e bebem-no nas ceias.

Satanaz é seu pae, e os tigres seus irmãos,

Depois de realisar doidas carnificinas,

Lava com agua benta as sanguinarias mãos.

Sobre os campos do mal semeia as guilhotinas,

Mergulha brutalmente a plebe esfarrapada

Na bronzea escuridão de tenebrosas minas:

Por isso quando vae de fronte levantada,

Entre o clamor febril da guarda pretoriana,

Erguendo para a luz a flammejante espada,

Debaixo de seus pés, em confusão insana,

Sente-se revolver um mar de imprecações,

Que abala o fundamento á consciencia humana.

Justiça! vae abrir as furnas dos leões!

Desce d'aquelle inferno ás gélidas entranhas,

E arranca-me de lá os tristes corações,

Que sentem sobre si o peso das montanhas.

Transforma n'uma lança os ferros das algemas!

Vae aos gelos do norte, as solidões estranhas...

Procura a fera brava; eia, mulher, não tremas!

Embebe-lhe sem dó no musculoso flanco

A lança virginal das coleras supremas.

Monta no teu corcel! Agarra o urso branco:

Ensina-lhe a dansar umas grutescas dansas,

E dá-o de presente a um magro saltimbanco

Que o mostre n'uma feira aos risos de crianças.

Guerra Junqueiro


NOVO PETRARCHA

Ia o sol desmaiando no occidente,

E disseste-me então: «Ah! doce amante,

Ditosa eu fôra se inspirasse um Dante:

Em seus cantos vivera eternamente!»

Fez-se em minh'alma a luz. Um poema ingente

Inspirado encetei desde esse instante.

Aqui o tens, oh musa; em tom vibrante

N'elle celebro o nosso amor ardente.—

E mais lhe disse o trovador:—No Pindo,

E na fronte ao deus loiro consagrada,

Estes versos compuz de amor infindo.—

E ella com voz doce e namorada:

«Oh! como és bom, e que poema lindo:

Excede a Joven Lilia abandonada

João Penha.


TO BE, OR NOT TO BE

Não te parece esta existencia clara,

E deploras em o vate da tristeza

Abandone com tanta ligeireza

Quanta mulher gentil ancioso amára.

Mais frio em Blondin sobre o Niagára,

Julgas minh'alma em vis paixões accesa;

E comtudo, nas ostras da belleza

Eu só procuro o amor, pérola rara.

Seja a mulher como um reptil hedionda,

O typo ideal da estupidez suprema,

Um monstro informe que da luz se esconda;

Ou seja a Venus do marmoreo poema,

Um modelo de artistas, a Gioconda;

Ser ou não ser amado, eis o problema.

João Penha.


STELLA-MARIS

Soltava a barca da pesca

As azas brancas de neve

Aos mansos ventos do sul!

Estava a tarde tão fresca;

Estava o céo tão azul.

Ella corria assim leve

Como a espuma que fazia

Na carreira que levava!

Se a vela toda se enchia

A borda toda virava;

Se a vela cheia tombava

A barca toda se erguia!

Era assim que a mariposa

D'aquelle vasto oceano

Volitava em manso abril,

Sobre a onda buliçosa

Que ia e vinha, em giro eterno,

Beijar as fragas, sutil.


Eu na rocha mudo e quedo

Seguia a vela co'a vista

De quem vê a que é só vista

Com suave e doce medo!


E n'aquelle engano d'alma

Que arrobada trazia,

Sem saber que confundia

A que o fogo, branda, accalma,

A que o éstro accende em mim,

Com a barca fugidia

Que corre, e corre, perdido

O rumo e norte sem fim...

Até d'ella me esquecia!

Que pois me era esquecido

D'este mundo em que vivia.

Foi então, Deus meu, que assombro!

Que um não sei que de tão leve

Sentí poisar no meu hombro...

—Mão de neve,

D'onde vens?

Quem te deu, gentil mãosinha,

Esse aroma, essa magia,

Que tu tens?

Esse encanto d'onde vinha?

D'onde vens?

Louco de mim, que não via

Luz que doiras o meu dia,

Que eras tu...

Perdido n'aquelle enlevo...

Eu, que a ventura te devo

Que possúo.


Depois, inclinada a face

Como o céo que lá se arquêa,

Apontaste ao longe a aldêa

Que sobre o monte renace

Á luz de cada manhã,

Como rosa, que sobre haste

Abre as pétalas mimosa,

E a barquinha me apontaste

Que se ía librando airosa

Tão louçã!

Uniste as mãos; e olhando,

Co'esse olhar que amor te dá,

O céo, que a tarde incendeia,

Murmuraste suspirando,

E com voz de magoa cheia

—A vida... lá!

Alberto Telles.

Através da transparencia

Do teu bello rosto oval,

Ve-se-te a alma—como chamma

N'uma urna de crystal.

Alberto Telles.


Quando te vejo, é como se no mundo

Ninguem mais existisse alem de nós.

Não vejo mais ninguem: reinas a sós,

E em ti com tudo o mais eu me confundo.

A terra, o vasto mar, o céo profundo

São accessorio teu; e na tua voz

Ouço a toada harmonica e veloz

De quanto ha n'este espaço em que me inundo.

Nas dobras d'este manto universal,

Em que tudo o que é, se involve e alista,

Creio que só de ti vem bem e mal;

Tudo se move, e move-o a tua vista,

E, se a verdade queres que te fale,

Não sei se Deus és tu, se um Deus exista...

Santos Valente.


FALA A ORDEM

Pequeno, d'onde vens cantando A Marselheza?

Da barricada infame? ou d'outra vil torpeza?

Que esplendido porvir! Do nada apenas saes,

Começas a morder as purpuras reaes,

Oh filho trivial da livida canalha!

E, vamos! deixa ver... guardaste uma navalha?

Não tremas, que eu bem vi! que trazes tu na mão?

Intentas já limar as grades da prisão,

Fazendo scintillar um ferro contra o solio,

Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?...

Mas, vamos! abre a mão; não queiras que eu te dê.

Bandido, eu bem dizia!—A carta do A B C...

Guilherme de Azevedo, A Alma nova, p. 37. Lisboa, 1874.


Ó machinas febrís eu sinto a cada passo,

Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,

Que a nova geração nos labios traz suspenso

Como a estancia viril d'uma epopêa d'aço!

Emquanto o velho mundo arfando de cansaço

Prostrado cae na lucta; em fumo negro e denso

Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso

Que offusca os deuses vãos, annuviando o espaço!

Vós sois as creações fulgentes, fabulosas

Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,

Mordeis o pedestal da velha Magestade!

E as grandes combustões que sempre vos consommem

Começam, n'um cadinho, a refundir o homem,

Fazendo resurgir mais larga a humanidade.

Guilherme de Azevedo, Ib. p. 69.


A REPUBLICA

Tremeis? Vêde-a dormindo socegada,

A deusa dos combates sempiternos:

Rugem-lhe em torno os horridos invernos,

E tudo é para ella uma alvorada.

Não penseis que ella durma, embriagada

No somno grato dos reaes phalernos;

Como Dante, desceu aos vís infernos,

E repousa momentos da jornada.

Filhos do negro val, filhos da serra,

Erguei os vossos gladios coruscantes,

Á luz d'aquelle olhar que se descerra.

Ide, apertae-lhe os seios uberantes!...

De cada gota que cahir na terra

Hão de surgir impavidos gigantes.

Sousa Viterbo, Harmonias phantasticas, p. 97. Porto, 1875.


HETAIRAS

Vós envolveis o corpo nas roupagens

Mais finas, elegantes, caprichosas;

Vêdes passar, alegres, voluptuosas,

Do amor fidalgo as lubricas imagens.

Adormeceis nas plácidas carruagens,

Murchaes no seio as pudibundas rosas,

E queimaes essas boccas sequiosas

Nas boccas feminis dos louros pagens.

Tendes tudo; os theatros, a riqueza,

As noites de delirio e morbideza,

Todas as tentações, todos os brilhos!

E só não tendes nas estereis pomas,

Oh Venus das esplendidas Sodomas,

Uma gota de leite para os filhos!

Sousa Viterbo, Harmonias phantasticas, p. 145.


AO SOL

Tu sim, tu é que tens d'um deus a essencia!

Reconhece-se a tua divindade

Na branca luz formada de bondade,

Mais bella de que o peito da innocencia.

Teus raios são os raios da existencia,

Espadas da justiça e da verdade,

E, n'esse livro azul da immensidade

És em letras de fogo a Providencia.

Ah! se um dia a materia desvairada,

Perdendo-se em seu proprio cataclismo,

Te congelar a esphera abrazeada.

Hade a terra chorar no teu abysmo,

E quando apalpe a immensidão do nada,

Ha de soltar rugidos d'atheismo.

Sousa Viterbo, Harmonias phantasticas, p. 151.


TREVAS

Quiz vêr o carcere. Só n'elle havia

Uns vultos pálidos de torvo aspecto,

Respirava-se a custo, e parecia

Que me esmagava o ennegrecido tecto.

Era um mar de paixões, em calmaria;

Mar outr'ora revôlto e irrequieto;

Apenas pela abobada sombria

Revoava, a zumbir, nocturno insecto.

Cheguei-me á turba vil, encarcerada,

Em cuja face se cravára o stigma

Do crime, que nos faz estremecer.

E perguntei:—Que dolorosa estrada

Vos trouxe aqui?—E a turba, a esphinge, o enigma

Rugir na sombra:—«Não sabemos lêr...»

Candido de Figueiredo, Poema da Miseria,

p. 153. Coimbra, 1874.


OURO

Dizia o ouro á pedra: «Ente mesquinho,

Que profundo scismar sempre te prega

Á beira d'uma estrada, ou d'um caminho,

Pasmada, mas sem vêr, eterna cega?

Em vão o orvalho a ti te lava e rega!

Em ti não cresce nunca pão nem vinho,

Dura e inutil—o lodo é teu visinho,

E o homem só, por te pisar, te emprega.

Em ti só medra e cresce o cardo, os lixos,

Tu serves só d'abrigo ao lodo e aos bichos,

E ensanguentas os pés descalços, nús.

Oh pedra! quanto a mim sou a riqueza!»

A cega disse então, com singeleza:

—Eu tambem guardo no meu seio a luz!

Gomes Leal, Claridades do Sul, p. 33. Lisboa, 1875.


A CANALHA

Eu vejo-a vir ao longe perseguida,

Como d'um vento livido varrida,

Cheia de febre, rota... muito além...

—Pelos caminhos asperos da Historia—

Emquanto os Reis e os Deuses na gloria

Não ouvem a ninguem!

Ella vem tríste, só, silenciosa,

Tinta de sangue... pallida, orgulhosa,

Em farrapos, na fria escuridão...

Buscando o grande dia da batalha,

—É ella! É ella! A livida Canalha!

—Caín, é vosso irmão!

Elles lá vêm famintos e sombrios,

Rotos, selvagens, abanando aos frios,

Sem leito e pão, descalços, semi-nús...

—Nada, jámais, sua carreira abranda!

Fizeram Roma, a Inglaterra e a Holanda,

E andaram com Jesus!

São os tristes, os vis, os opprimidos,

—Em Roma são marcados e batidos,

Passam cheios de vastas afflicções!...

Nem das mezas lhe atiram as migalhas!

Morrem sem nome, ás vezes, nas batalhas,

E andam nas sedições.

Vêm varridos do aspero destino!

Em Roma e velha Grecia erram, sem tino,

Nos tumultos, enterros, bacchanaes...

Nas praças e nos porticos profundos...

E disputam, famintos e immundos,

O lixo aos animaes!

São os párias, os servos, os illotas,

Vivem nas covas humidas, ignotas,

Sem luz e ár; arrancam-lhes as mães...

—Passam, curvados, nas manhãs geladas!

E, depois de já mortos, nas calçadas,

Devoram-os os cães.

Elles vêm de mui longe... vêm da Historia,

Frios, sinistros, maus como... a memoria

Dos pesadellos tragicos e maus...

—Eu oiço os reis cantando em suas festas!

E elles, elles—maiores do que as florestas—

Chorarem nos degraus!

É uma antiga e lugubre legenda!

—Vão, sempre, sempre, sós na sua senda,

Sublimes, heroicos, rotos, vis...

Cheios de fome, ás luzes das lanternas,

Cantando sujas farças, nas tabernas,

Chorando nos covís.

—Alguns dormem em covas quaes serpentes!

Viveram, entre os povos, e entre as gentes,

Vergados d'um remorso solitario...

—Sabem, de cór, os reinos devastados!

E vieram, talvez, ensanguentados

Da noite do Calvario!

Têm trabalhado, occultos, noite e dia,

Ó réis! ó réis! as luzes da orgia

De subito, que vento apagará!

—Corre no ár um ecco subitaneo,

E escuta-se, no seu subterraneo,

O riso de Marat!

Chega, talvez, a hora das contendas!

Ó legionarios! desertae as tendas,

Já demolem os porticos reaes...

Os que tem esgotado a negra taça,

—Cantam, ao vento, os psalmos da Desgraça,

E a historia dos punhaes!

Vão, ha muito, na sombra, foragidos,

Pelas neves, curvados e transidos,

Emquanto Deus se aquece nos seus Céos!

—Vem do Sul uma lugubre toada,

E escuta-se Rousseau, na agua furtada,

Gritar—Que me quer Deus!?

Erguem-se ebrios de mortes, de vinganças,

Assoma lá ao longe um mar de lanças,

Resôam sobre os thronos os machados...

E a Europa vê passar, cheia de assombros,

Ferozes, em triumphos, aos seus hombros,

—Seus reis esguedelhados.

Á voz das legiões rotas, sombrias,

Desabam pelo mundo as monarchias...

Tremem os graves bispos... e depois...

Que mais farão? perguntam, desolados,

—Vão ser, inda depois, crucificados

Os deuses e os heroes!

........................................

........................................

Vae prolongada a barbara orgia!

No silencio da noite intensa e fria,

Vem uns echos perdidos de batalha...

Como uns ventos do norte impetuosos,

São uns passos, nas trevas, vagarosos,

Os passos da Canalha!

Elles vêm de mui longe... mui distantes

Como sonoros batalhões gigantes,

Como ondas negras de afflicto mar...

N'uma viagem tragica e ingloria,

—Ha muito, pela noite da Historia,

Que os oiço caminhar!

Quem sabe quando vêm... é longa a estrada,

D'esta comprida e aspera jornada

Quem sabe quando, emfim, descançarão?

Atapetem as pedras de flores,

Lá vêm queimados, rotos, vencedores,

Altivos e sem pão.

Não raiou inda o dia da Justiça!...

Mas, breve, talvez, se oiça a nova missa,

E dispersem-se tetricos caudilhos...

Vão talvez, vir os tempos desejados!

—E, então, por vossa vez, ó reis sagrados,

Saude aos maltrapilhos!

Gomes Leal


AO COMBATE!...

Retumba pelo espaço desolado

Como que um brado immenso, prolongado,

Como os eccos sinistros de batalha;

Anda no ár um fluido mysterioso,

E ouve-se, ao longe, o passo vagaroso

Da «livida canalha».

É ella, é ella, a triste, a desherdada,

Cheia de lodo vil, esfarrapada,

Arrastando, nas trevas, as algemas:

Caminha em busca de um ideal mais puro,

E vae fundir, nas chammas do futuro,

Os sceptros e os diademas.

.................................

E eil-a que assoma, no horisonte escuro,

Essa phalange heroica do futuro,

Como as vagas do mar phosphorecente:

Vem perseguir as sanguinosas féras,

Os monarchas e as lúbricas pantheras,

A prostituta gente.

Vêm caminhando sempre; nada impede

A carreira ao colosso que nem cede

Ás legiões dos cezares sombrios.

Trazem nas mãos as paginas da Historia,

E a Justiça e o Direito e, na memoria,

A fome, a sêde e os frios.

São elles os escravos e opprimidos,

Esses que dormem tristes, escondidos,

Nas ruinas das velhas cathedraes:

Andam minando a antiga sociedade

E hão de, em breve, sentar a Liberdade

Nos thronos imperiaes,

Andam cavando a sepultura immensa

Que ha de involver, na escuridão intensa,

As venenosas viboras reaes;

Revigora-os a força do heroismo,

E hão de calcar, aos pés, o despotismo

E os tigres e os chacaes.

Hão de esmagar-vos, sim! ó reis sagrados,

Vós, os deuses dos seculos passados,

Tereis mais de um Calvario, em breve... agora;

Mas não vereis um pranto piedoso,

Heis de morrer, ao grito tumultuoso,

Dos miseros d'outr'ora;

Miseros que hão de ser mais que gigantes,

Que hão de arrancar, com suas mãos possantes,

O fundamento ás velhas monarchias;

Que hão de lançar ás trevas do passado

O velho despotismo, ensanguentado,

E gasto nas orgias;

Miseros, sim! mas d'esses cuja gloria

Se ha de inscrever nas paginas da Historia

Dos sublimes combates da Justiça;

Miseros!... e vós, ó reis repletos,

Sereis como que uns symbolos completos

D'uma feroz cubiça:

Tendes nas mãos o ferro dos destroços,

E levantaes os thronos sobre os ossos

De milhares de povos immolados;

Bebeis com sangue o vinho, em aurea taça,

E adormeceis, ao grito da desgraça,

Sinistros e embriagados.

...........................................

...........................................

...........................................

...........................................

...........................................

Lançaes, por toda a parte, o luto e a morte...

Mas vae haver uma vingança forte...

Tremei agora, ó grandes criminosos;

—Approxima-se a hora da batalha...

Eil-a, já perto, a livida canalha,

Os vís, os asquerosos.

São elles os plebeus, os desgraçados,

Cheios de fome, tristes, descarnados,

Como espectros das lendas tenebrosas;

Deixam as trevas de um passado escuro,

E vão depôr nas aras do futuro

As—palmas victoriosas.

Vêm terminar a noute dos horrores,

E hão de sair altivos, vencedores,

Da luta contra a velha realeza;

Ha de unil-os o braço da Egualdade,

E inundal-os a luz da Liberdade,

Ao som da Marselheza.

.....................................

Mas percorra-se, breve, a longa senda,

Conquistemos os louros da contenda,

Abram-se agora as jaulas imperiaes;

Á luta! irmãos! á luta!... «Democratas,

Poisae o pé sobre as cabeças chatas

Das viboras reaes!...»

A. Bettencourt Rodrigues.


UM HEROE

É dia de batalha! Em fumo suffocados

Desde o romper do sol, duzentos mil soldados

Luctam a ferro e fogo.

Um d'elles,—um dragão

Curvado no selim, e em frente do esquadrão,

Como racha uma cunha os tóros de um pinheiro,

Embebe-se feroz n'outro esquadrão fronteiro,

Fazendo-o rebentar em rotos vagalhões.

Qual se na mão vibrára um raio, as multidões

Vergam, fundem-se á luz do aço de sua espada.

Apoz o lampejar de cada cutilada

Chovem jorros de sangue em meio d'essa mó

Que aos pés do seu cavallo, e em turbilhões de pó,

Desenlaça os cordões do seu dobar confuso.

Incendeia-lhe a raiva o torvo olhar diffuso

Por tudo o que inda vive! e do seu labio á flor

Fuzila a imprecação, se o fatigado açor

Da morte, um só momento, encolhe a garra curva.

Depois a noite desce, enregelada e turva,

Co'as brumas d'esse mar de sangue. Desde então

Findára a lucta horrenda; e o esplendido dragão,

O grande heroe do dia, após tão bom regalo,

Limpa tranquillo a espada ás clinas do cavallo.

De repente uma voz interrogal-o vem,

Qual se de dentro d'elle a voz partira:

«Quem

Venceu n'esta batalha em que mataste tanto?

Que salvadora ideia, ou que principio santo

No sangue baptisaste? e, cego de furor,

Porque te foi prazer a ancia da alhêa dôr?

Das lascas do metal dos elmos, que partiste,

O que forja a victoria? aguda lança em riste

De encontro aos peitos nús de alguns de teus irmãos?

Ou martello que parta os ferros em que as mãos

Lhes roxeiam no cêpo, ambas acorrentadas?

Que lumes surgirão do choque das espadas,

Em que se aqueça mais a cinza do teu lar,

Quando—volvido á choça onde te foi buscar

A guerra—em torno a ti pedirem as crianças

Calor, abrigo, e pão? Que férvidas vinganças

Reclamarás de quem, pela primeira vez,

Tu viste hoje e que ainda, ha bem pouco, talvez

A mil leguas de ti, em vez de humanas vidas

Ceifava, como tu, as messes resequidas

Á luz do sol do céo e do outro sol da paz?

De que lado partiu o desafio audaz?

Da força do direito, ou do empuxão da força?

O que faz com que o ferro esmague, quebre e torça

Armas e corações em funebre tropel?

Que sabes tu, que sabe o teu feroz corcel

De mappas ou de leis, de imperios ou de raças,

Para que, contemplando os rombos das couraças

D'onde sae pingo a pingo a vida a gottejar,

Tranquillo o coração e indifferente o olhar,

Escutes o estertor e as ancias da agonia

De uns pobres como tu?»

O grande heroe do dia

Os hombros encolheu em frente á mortal grei,

Sorriu bestialmente, e respondeu:

«Não sei!»

Claudio José Nunes. Scenas contemporaneas, p. 73. Lisboa, 1873.


ESPOSA, FILHA E MÃE

Passou por mim n'um dia venerando

Um grupo que em minh'alma ainda hoje brilha:

Uma linda creança hia guiando

Um velho cego e triste.

Ao vêr como o guiava, eu disse: «Existe

O santo amor de filha.»

Annos depois—não sei como, nem quando—

Encontrei o botão já feito rosa...

Fitava o meigo olhar que mal esconde

Thesouros de meiguice,

N'um homem, por tal fórma que quem visse

Diria: «Amor de esposa.»

Encontro-te hoje a mesma, apenas vejo

Novos cuidados que ao teu rosto vêm,

E ao vêr com quanto amor tu dás um beijo

N'um sêr que tens ao peito,

Digo: «Bemdito Deus, que assim te ha feito

Esposa, filha e mãe.»

Luiz de Campos.

PARTE II
OS LYRICOS BRAZILEIROS

SONHANDO

Na praia dezerta que a lua branqueia,

Que mimo! que rosa, que filha de Deus!

Tão pallida—ao vel-a meu sêr devaneia,

Suffoco nos labios os halitos meus.

Não corras na areia,

Não corras assim!

Donzella, onde vaes?

Tem pena de mim.

A praia é tão longa! e a onda bravia

As roupas de gaza te molha de escuma;

De noite aos serenos—a areia é tão fria,

Tão humido o vento que os áres perfuma!

És tão doentia!

Não corras assim!

Donzella, onde vaes?

Tem pena de mim.

A brisa teus negros cabellos soltou,

O orvalho da face te esfria o suor;

Teus seios palpitam—a brisa os roçou,

Beijou-os, suspira, desmaia de amor.

Teu pé tropeçou...

Não corras assim!

Donzella, onde vaes?

Tem pena de mim:

E o pallido mimo da minha paixão

N'um longo soluço tremeu e parou;

Sentou-se na praia; sósinha no chão

A mão regelada no collo pousou!

Que tens, coração,

Que tremes assim?

Cansaste, donzella?

Tem pena de mim.

Deitou-se na areia que a vaga molhou,

Immovel e branca na praia dormia;

Mas nem os seus olhos o somno fechou,

E nem o seu collo de neve tremia.

O seio gelou?...

Não durmas assim!

Oh pallida fria,

Tem pena de mim.

Dormia—na fronte que niveo suár!

Que mão regelada no languido peito!

Não era mais alvo seu leito do mar,

Não era mais frio seu gélido leito!

Nem um resonar!...

Não durmas assim!

Oh pallida fria

Tem pena de mim.

Aqui no meu peito vem antes sonhar,

Nos longos suspiros do meu coração,

Eu quero em meus labios teu seio aquentar,

Teu collo, essas faces e a gélida mão!

Não durmas no mar!

Não durmas assim

Estatua sem vida,

Tem pena de mim!

E a vaga crescia seu corpo banhando,

As candidas formas movendo de leve!

E eu via-a suave nas aguas boiando,

Com soltos cabellos nas roupas de neve!

Nas vagas sonhando

Não durmas assim;

Donzella, onde vaes?

Tem pena de mim!

E a imagem da virgem nas aguas do mar

Brilhava tão branca no limpido véo!

Nem mais transparente luzia o luar

No ambiente sem nuvens da noite do céo!

Nas aguas do mar

Não durmas assim!

Não morras, donzella,

Espera por mim!

M. A. Alvares de Azevedo, Obras, t. I, p. 67. Rio de Janeiro, 1862.


SONETO

Pallida, á luz da lampada sombria,

Sobre o leito de flores reclinada,

Como a lua por noite embalsamada,

Entre as nuvens do mar ella dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria

Pela maré das aguas embalada!

Era um anjo entre nuvens d'alvorada

Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bella! o seio palpitando...

Negros olhos as palpebras abrindo...

Fórmas núas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!

Por ti—as noites eu velei chorando,

Por ti—nos sonhos morrerei sorrindo!

Alvares de Azevedo, Ibid. t. I, p. 131.


LEMBRANÇA DE MORRER

Quando em meu peito rebentar-se a fibra

Que o espirito enlaça á dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lagrima,

Em palpebra demente.

E nem desfolhem na materia impura

A flor do valle que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tedio

Do deserto, o poente caminheiro,

—Como as horas do meu longo pesadello

Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como um desterro da minh'alma errante,

Onde fogo insensato a consummia;

Só levo uma saudade—é d'esses tempos

Que amorosa illusão embellecia.

Só levo uma saudade—é d'essas sombras

Que eu sentia velar nas noites minhas...

De ti, oh minha mãe, pobre coitada,

Que por minha tristeza te definhas!

De meu pae... de meus unicos amigos,

Poucos—bem poucos—e que não zombavam

Quanto, em noites de febre endoidecido.

Minhas pallidas crenças duvidavam.

Se uma lagrima as palpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda

É pela virgem que sonhei... que nunca

Aos labios me encostou a face linda!

Só tu á mocidade sonhadora

Do pallido poeta déste flores...

Se viveu, foi por ti! e de esperança

De na vida gosar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e núa,

Verei cristallisar-se o sonho amigo...

Oh minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céo, eu vou viver comtigo.

Descancem o meu leito solitario

Na floresta dos homens esquecida,

Á sombra de uma cruz, e escrevam n'ella:

—Foi poeta—sonhou—e amou na vida.

Sombras do valle, noites da montanha,

Que minha alma cantou e amava tanto,

Protegei o meu corpo abandonado,

E no silencio derramae-lhe canto!

Mas quando preludia ave d'aurora

E quando á meia noite o céo repousa,

Arvoredos do bosque, abri os ramos...

Deixae a lua pratear-me a lousa.

Alvares de Azevedo, Ibid. t. I. pag. 198.


NO DIA DO ENTERRO DE...

A vida é uma comedia sem sentido,

Uma historia de sangue e de poeira,

Um deserto sem luz...

A escara de uma lava em craneo ardido...

E depois sobre o lodo... uma caveira,

Uns ossos e uma cruz!

Parece que uma atroz fatalidade

A mente insana no provir alenta

E zomba da illudida!

O frio vendaval da eternidade

Apaga sobre a fronte macilenta

A lampada da vida.

Não digas, coração, que alma descança

Quando as ideias no prazer enfurda

O escarneo zombeteiro...

Que loucura!... a manhã o peito cansa,

Resta um enterro... e uma resa surda...

E depois... o coveiro!

Fermente a seiba juvenil do peito,

Vele o talento n'uma fronte santa

Que o genio empallidece...

Embalde! á noite, ao pé de cada leito

O phantasma terrivel se levanta...

E seu bafo entorpece!

E comtudo essa morte é um segredo

Que gela as mãos do trovador na lyra

E escarnece da crença;

Um pesadêllo—uma visão de medo...

Verdade que parece uma mentira

E inocula a descrença!

E quem sabe? é a duvida medonha!

Quem os véos arregaça do infinito

E os tumulos destampa?

Quem, quando dorme, ou vela, ou quando sonha

Ouviu revelações no horrendo grito

A rebentar da campa?

E quem sabe? é a duvida terrivel:

É a larva que aos labios nos aperta

Entreabrindo o sudario!

A realidade é um pesadêllo incrivel!

Semelha um sonho a lápida deserta

E o leito mortuario!

E quando acordarão os que dormitam?

Quando estas cinzas se erguerão tremendo

Em nuvens se expandindo?

Perguntae-o aos cyprestes que se agitam,

Ao vento pela treva se escondendo,

Nas ruinas bramindo!

E comtudo parece um desvario,

Blasphemia atroz o cantico atrevido

Que rugem os atheus;

Sem a sombra de Deus é tão vasio

O mundo—cemiterio envilecido!...

Oh! creiamos em Deus!

Creiamos, sim; ao menos para a vida

Não mergulhar-se n'uma noite escura...

E não enlouquecer...

Utopia ou verdade, a alma perdida

Precisa de uma ideia eterna e pura

—Deus e céo... para crêr.

Consola-te! nós somos condemnados

Á noite de amargura: o vento norte

Nossos pharoes apaga...

Iremos todos, pobres naufragados,

Frios rolar no littoral da morte

Repellidos da vaga!

Alvares de Azevedo, Ibid., t. I, p. 335.


TRINDADE

A vida é uma planta mysteriosa

Cheia de espinhos, negra de amarguras,

Onde só abrem duas flôres puras

Poesia e Amor...

E a mulher... é a nota suspirosa

Que treme d'alma a corda estremecida,

—É fada que nos leva alem da vida

Pallidos de languor!

A poesia é a luz da mocidade,

O amor é o poema dos sentidos;

A febre dos momentos não dormidos

E o sonhar da ventura...

Voltae, sonhos de amor e de saudade!

Quero ainda sentir arder-me o sangue,

Os olhos turvos, o meu peito langue,

E morrer de ternura.

Alvares de Azevedo, Ibid., t. III, p. 47.


SE EU MORRESSE ÁMANHÃ!

Se eu morresse ámanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria,

Se eu morresse amanhã!

Quanta gloria presinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas corôas

Se eu morresse ámanhã!

Que sol! que céo azul! que doce n'alva

Acorda a natureza mais louçã!

Não me batera tanto amor no peito,

Se eu morresse ámanhã!

Mas essa dôr da vida que devora

A ancia de gloria, o dolorido afan...

A dor no peito emudecera ao menos,

Se eu morresse ámanhã!

Alvares de Azevedo, Ibid., t. I, p. 343.


PEDIDO

Hontem no baile

Não me attendias!

Não me attendias

Quando eu fallava.

De mim bem longe

Teu pensamento!

Teu pensamento

Bem longe errava.

Eu vi teus olhos

Sobre outros olhos,

Sobre outros olhos

Que eu odiava.

Tu lhe sorriste

Com tal sorriso!

Com tal sorriso

Que apunhalava.

Tu lhe fallaste

Com voz tão doce!

Com voz tão doce

Que me matava.

Oh não lhe falles

Não lhe sorrias,

Se então querias

Experimentar-me.

Oh não lhe falles

Não lhe sorrias,

Não lhe sorrias

Que era matar-me.

A. Gonçalves Dias, Cantos, p. 22. Leipzic, 1860.


LYRA

Se me queres a teus pés ajoelhado,

Ufano de me vêr por ti rendido,

Ou já em mudas lagrimas banhado;

Volve, impiedosa,

Volve-me os olhos,

Basta uma vez!

Se me queres de rojo sobre a terra,,

Beijando a fimbria dos vestidos teus,

Calando as queixas que meu peito encerra,

Dize-me, ingrata,

Dize-me: Eu quero!

Basta uma vez.

Mas se antes folgas de me ouvir na lyra

Louvor singelo dos amores meus,

Porque minha alma ha tanto em vão suspira;

Dize-me, oh bella,

Dize-me: Eu te amo!

Basta uma vez.

Gonçalves Dias, Ib., p. 117.


O SOMNO

Nas horas da noite, se junto ao meu leito

Houveres acaso, meu bem, de chegar,

Verás de repente que aspecto risonho

Que toma o meu sonho,

Se o vens bafejar!

O anjo, que ao somno preside tranquillo,

Ao anjo da terra não cêda o logar;

Mas deixe-o amoroso chegar-se ao meu leito,

Unir-se ao meu peito,

D'amor offegar.

As notas que exhalam as harpas celestes,

Os gosos que os anjos só podem gosar,

Talvez tambem frúa, se ao meu peito unida

Te encontro, oh querida,

No meu acordar!

Gonçalves Dias, Novos Cantos, p. 186.


MEU ANJO, ESCUTA...

Meu anjo, escuta: quando junto á noite

Perpassa a brisa pelo rosto teu,

Como suspiro que um menino exhala;

Na voz da brisa que murmura e falla

Brando queixume, que tão triste cala

No peito teu?

Sou eu; sou eu; sou eu!

Quando tu sentes luctuosa imagem

D'afflicto pranto com sombrio véo,

Rasgando o peito por acerbas dôres;

Quem murcha as flores

Do brando sonho?—Quem te pinta amores

De um puro céo?

Sou eu; sou eu; sou eu!

Se alguem te accorda do celeste arroubo,

Na amenidade do silencio teu,

Quando tua alma n'outros mundos erra,

Se alguem descerra

Ao lado teu

Fraco suspiro, que no peito encerra;

Sou eu; sou eu; sou eu!

Se alguem se afflige de te vêr chorosa,

Se alguem se alegra co'um sorriso teu,

Se alguem suspira de te vêr formosa

O mar e a terra a enamorar o céo;

Se alguem definha

Por amor teu,

Sou eu; sou eu; sou eu!

Gonçalves Dias, Ultimos Cantos, p. 378.


AMOR E MEDO

I

Quando eu te fujo e me desvio cauto

Da luz de fogo que te cerca, oh bella,

Comtigo dizes, suspirando amores:

«Meu Deus! que gelo, que frieza aquella!»

Como te enganas! meu amor é chamma

Que se alimenta no voraz segredo,

E se te fujo, é que te adoro louco...

És bella,—eu moço; tens amor,—eu medo!...

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,

Da luz, da sombra, do silencio ou vozes,

Das folhas seccas, do chorar das fontes,

Das horas longas a correr velozes.

O véo da noite me atormenta em dores,

A luz da aurora me entumece os seios,

E ao vento fresco do caír das tardes

Eu me estremeço de crueis receios.

É que esse vento, que na varzea—ao longe,

Do côlmo o fumo caprixoso ondeia,

Soprando um dia, tornaria incendio

A chamma viva que teu riso atêa.

Ai! se abrazado crepitasse o cedro,

Cedendo ao raio que a tormenta envia,

Diz:—que seria da plantinha humilde

Que á sombra d'elle tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco

Torrára a planta qual queimára o galho,

E a pobre nunca reviver podera

Chovesse embora paternal orvalho!

II

Ai! se eu te visse no calor da sesta,

A mão tremente no calor das tuas,

Amarrotado o teu vestido branco,

Sôltos cabellos nas espaduas núas!...

Ai! se eu te visse, Magdalena pura,

Sobre o velludo reclinada a meio,

Olhos cerrados na volupia doce,

Os braços frouxos—palpitante o seio.

Ai! se eu te visse em languidez sublime,

Na face as rosas virginaes do pejo,

Trémula a falla a protestar baixinho...

Vermelha a bocca, soluçando um beijo!...

Diz:—que seria da pureza d'anjo,

Das vestes alvas, do candor das azas!...

—Tu te queimáras, a pizar descalça,

Criança louca, sobre um chão de brazas!

No fogo vivo eu me abrazára inteiro!

Ebrio e sedento na fugaz vertigem;

Vil, machucára com meu dedo impuro

As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos

Toda a innocencia que teu labio encerra,

E tu serias no lascivo abraço,

Anjo enlodado nos paúes da terra.

Depois... desperta no febril delirio,

Olhos pisados, como um vão lamento,

Tu perguntáras: que é da minha corôa?...

Eu te diria: desfolhou-a o vento!...

Oh! não me chames coração de gelo!

Bem vês; trahi-me no fatal segredo.

Se de ti fujo, é que te adoro e muito,

És bella,—eu moço; tens amor, eu—medo.

Casemiro de Abreu, Primaveras, p. 131. Lisboa.


NA RÊDE

Nas horas ardentes do pino do dia

Ao bosque corri;

E qual linda imagem dos castos amores,

Dormindo e sonhando cercada de flores

Nos bosques a vi!

Dormia deitada na rêde de pennas,

O céo por docel,

De leve embalada no quieto balanço,

Qual nauta scismando n'um lago bem manso,

N'um leve batel.

Dormia e sonhava;—no rosto, serena,

Qual um seraphim;

Os cilios pendidos nos olhos tão bellos,

E a brisa brincando nos sôltos cabellos,

De fino setim!

Dormia e sonhava—formosa, embebida

No doce sonhar,

E doce e sereno, n'um magico anceio

Debaixo das roupas batia-lhe o seio

No seu palpitar.

Dormia e sonhava,—a bocca entre-aberta,

O labio a sorrir;

No peito cruzados os braços dormentes,

Compridos e lisos quaes brancas serpentes,

No collo a dormir!

Dormia e sonhava—no sonho d'amores

Chamava por mim;

E a voz suspirosa nos labios morria

Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia

De algum bandolim!

Dormia e sonhava—de manso cheguei-me

Sem leve rumor,

Pendi-me tremendo e, qual fraco vagido,

Qual sopro da briza, baixinho ao ouvido

Fallei-lhe de amor!

Ao halito ardente o peito palpita...

Mas sem despertar;

E como nas ancias de um sonho que é lindo,

A virgem na rêde córando e sorrindo...

Beijou-me a sonhar!...

Casimiro de Abreu, Ibid., p. 95.


MARTYRIO

Beijar-te a fronte linda:

Beijar-te o aspecto altivo,

Beijar-te a tez morena;

Beijar-te o rir lascivo.

Beijar o ár que aspiras,

Beijar o pó que pisas,

Beijar a voz que soltas.

Beijar a luz, que visas.

Sentir teus modos frios,

Sentir tua apathia,

Sentir até repudio,

Sentir essa ironia;

Sentir que me resguardas,

Sentir que me arreceias,

Sentir que me repugnas,

Sentir que até me odeias;

Eis a descrença e a crença,

Eis o absyntho e a flor,

Eis o amor e o odio,

Eis o prazer e a dor!

Eis o estertor da morte,

Eis o martyrio eterno,

Eis o ranger dos dentes

Eis o penar do inferno.

Junqueira Freire, Contradicções poeticas, p. 79.


TAMBEM ELLA

Ella tambem ouviu o som das vagas

Sobre os rochedos—e talvez dissesse:

—O som das aguas que embellece os outros,

Não me embellece.

Ella tambem sentiu a fresca aragem

Sobre os cabellos—e talvez dissesse:

—A fresca aragem que adormece os outros

Não me adormece.

Ella tambem deitou-se no sereno

Sobre estas relvas—e talvez dissesse:

—Este sereno que empallece os outros

Não me empallece.

Ella tambem olhou estas montanhas

Sobre as campinas—e talvez dissesse:

—A vista d'ella, que embevece os outros

Não me embevece.

Ella tambem andou ao sol ardente

Sobre as planicies—e talvez dissesse:

—O sol ardente que enrubece os outros

Não me enrubece.

Ella tambem provou dos cardos frescos

Sobre as areias—e talvez dissesse:

—O gosto d'elles, que arrefece os outros,

Não me arrefece.

Elle tambem sentou-se n'este muro,

Sobre estas pedras—e talvez dissesse:

—Esta quadra gentil que encanta os outros

Já me aborrece.

Este quadro gentil agrada aos outros,

É bello todo—ella talvez dissesse!

—Porém tão longe o meu amor! oh, tudo

Tudo fallece!

Sim, ella o disse merencoria e amante,

Impios não duvideis que ella o dissesse:

—Tão longe d'elle assim! sem vida tudo,

Tudo parece!

Junqueira Freire, Ibidem, p. 117.


A FLOR SUSPIRO

Eu amo as flores

Que mudamente

Paixões explicam

Que o peito sente,

Amo a saudade,

O amor perfeito,

Mas o suspiro

Trago no peito.

A forma esbelta

Termina em ponta,

Como uma lança

Que ao céo remonta.

Assim, minha alma,

Suspiros geras

Que ferir podem

As mesmas féras.

É sempre triste,

Ensanguentado,

Quer secco morra,

Quer brilhe em prado.

Taes meus suspiros...

Mas não prosigas,

Ninguem se move

Por mais digas.

D. J. Gonçalves Magalhães, Suspiros poeticos, p. 239. Pariz 1859.


LYRA

Quando me volves teus formosos olhos,

Meigos, banhados de celeste encanto,

Rasgo uma folha da carteira, e a lapis

Escrevo um canto,

Quando nos labios do rubim mais puro

Mostras-me um riso seductor, faceto,

Encommendo minh'alma ás nove muzas,

Faço um soneto.

Quando ao passeio, no mover das roupas,

Deixas de leve vêr teu pé divino,

Sinto as arterias palpitarem tumidas,

Componho um hymno.

Quando no marmor das espaduas bellas,

As negras tranças a tremer sacodes,

Ebrio de amor, sorvendo seus perfumes,

Rimo dez odes.

Quando á noitinha, me fallando a medo

Elevas-me do céo á luz suprema,

Esqueçoi-me do mundo e de mim mesmo,

Gero um poema.

L. N. Fagundes Varella, Cantos do ermo e da cidade, p. 149.


O MESMO

Desde a quadra a mais antiga

De que rezam pergaminhos,

Cantam a mesma cantiga

Na floresta os passarinhos;

Tem o mesmo aroma as flores,

Mesma verdura as campinas,

A briza os mesmos rumores,

Mesma leveza as neblinas;

Tem o sol as mesmas luzes,

Tem o mar as mesmas vagas,

O dezerto as mesmas urzes,

A mesma dureza as fragas;

Os mesmos tolos o mundo,

A mulher o mesmo riso,

O sepulchro o mesmo fundo,

Os homens o mesmo siso;

E n'este insipido giro,

N'este vôo sempre a esmo,

Vale a pena, em seu retiro,

Cantar o poeta, mesmo?

Fagundes Varella, Ibid., p. 151.


SERENATA

Em teus travessos olhos,

Mais lindos que as estrellas

Do espaço, ás furtadelas

Mirando o escuro mar;

Em teu olhar tyrannico,

Cheio de vivo fogo,

Meu sêr, minh'alma afógo

De amor a suspírar.

Se teus encantos todos

Eu fosse a enumerar!...

D'esses mimosos labios

Que ao beija-flor enganam,

D'onde perpetuos manam

Perfumes de encantar;

D'esses lascivos labios,

Macios, purpurinos,

Ouvindo os sons divinos

Me sinto desmaiar.

Se teus encantos todos

Eu fosse a enumerar!...

Tuas madeixas virgens,

Cheirosas, fluctuantes,

Teus seios palpitantes

Da sêde do gozar;

Tua cintura estreita,

Teu pé subtil, conciso,

Obumbram-me o juízo,

Apagam-me o pensar.

Se teus encantos todos

Eu fosse a enumerar!...

Ai quebra-me estes ferros

Fataes que nos separam,

Os doudos que os forjaram

Não sabem, não, amar.

Da-me o teu corpo e alma,

E á luz da liberdade,

Oh minha divindade

Corramos a folgar.

Se teus encantos todos

Eu fosse enumerar!...

Fagundes Varela, Ibid., p. 43.


ESTANCIAS

O que eu adoro em ti não são teus olhos,

Teus lindos olhos cheios de mysterio,

Por cujo brilho os homens deixariam

Da terra inteira o mais soberbo imperio.

O que eu adoro em ti não são teus lábios,

Onde perpetua juventude móra,

E encerram mais perfumes do que os valles,

Por entre as pompas festivaes da aurora.

O que eu adoro em ti não é teu rosto

Perante o qual o mármor descorára,

E ao contemplar a esplendida harmonia

Phidias, o mestre, seu cinzel quebrára.

O que eu adoro em ti não é teu collo

Mais bello que o da esposa israelita,

Torre de graças, encantado asylo

Aonde o genio das paixões habita.

O que eu adoro em ti não são teus seios,

Alvas pombinhas que dormindo gemem,

E do indiscreto vôo de uma abelha

Cheias de medo em seu abrigo temem.

O que eu adoro em ti, ouve, é tu'alma

Pura como o sorrir de uma criança,

Alheia ao mundo, alheia aos preconceitos,

Rica de crenças, rica de esperança.

São as palavras de bondade infinda

Que sabes murmurar aos que padecem,

Os carinhos ingenuos de teus olhos,

Onde celestes gozos transparecem!...

Um não sei que, de grande, immaculado,

Que faz estremecer quando tu fallas,

E eleva-me o pensar além dos mundos,

Quando abaixando as palpebras te callas.

E por isso em meus sonhos sempre vi-te

Entre nuvens de incenso em aras santas,

E das turbas solicitas no meio

Tambem contricto hei te beijado as plantas.

E como és linda assim! Chammas divinas

Cercam-te as faces placidas e bellas,

Um longo manto pende-te dos hombros,

Salpicado de nitidas estrellas!

Na douda pyra de um amor terrestre

Pensei sagrar-te o coração demente...

Mas ao mirar-te deslumbrou-me o raio...

Tinhas nos olhos o perdão sómente!

Fagundes Varella, Ibid., p. 68.


O CANTO DOS SABIÁS

Serão de mortos anjinhos

O cantar de errantes almas?

Dos coqueiros florescentes

A brincar nas verdes palmas,

Estas notas maviosas

Que me fazem suspirar?

São os sabiás que cantam

Nas mangueiras do pomar.

Serão os genios da tarde

Que passam sobre as campinas,

Cingindo o collo de opalas,

E a cabeça de neblinas,

E fogem, nas harpas de ouro

Mansamente a dedilhar?

São os sabiás que cantam,

Não vês o sol declinar.

Ou serão talvez as preces

De algum sonhador proscripto,

Que vagueia nos desertos,

Alma cheia do infinito,

Pedindo a Deus um consolo

Que o mundo não póde dar?

São os sabiás que cantam.

Como está sereno o mar!

Ou quem sabe as tristes sombras

De quanto amei n'este mundo,

Que se elevam lacrimosas

De seu tumulo profundo,

E vêm os psalmos da morte

No meu desterro entoar?

São os sabiás que cantam.

Não gostas de os escutar?

Serás tu, minha saudade?

Tu meu thezouro de amor?

Tu que ás tormentas murchaste

Da mocidade na flor?

Serás tu? Vem, sê bem vinda,

Quero-te ainda escutar!

São os sabiás que cantam

Antes da noite baixar.

Mas ah! delirio insensato!

Não és tu sombra adorada!

Não ha canticos de anjinhos,

Nem de phalange encantada

Passando sobre as campinas

Nas harpas a dedilhar!

São os sabiás que cantam

Nas mangueiras do pomar!

Fagundes Varella, Ibidem, p. 34.


O ADEUS DE THEREZA

A vez primeira que eu fitei Thereza,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A walsa nos levou nos giros seus...

E amámos juntos... E depois na sala

Adeus!—eu disse-lhe, a tremer co'a falla...

Ella, córando, murmurou-me:—Adeus!

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...

E da alcôva sahia um cavalleiro

Inda beijando uma mulher sem véos...

Era eu... Era a pallida Thereza!

Adeus!—lhe disse, conservando-a preza...

E ella entre beijos murmurou-me:—Adeus!

Passaram tempos... sec'los de delirio,

Prazeres divinaes... gozos do empyreo...

Mas, um dia volvi aos lares meus,

Partindo eu disse: Voltarei, descança!...

Ella chorando mais que uma criança,

Ella em soluços murmurou-me:—Adeus!

Quando voltei, era o palacio em festa!...

E a voz d'ella e de um homem lá na orchestra

Preenchiam de amor o azul dos céos.

Entrei... Ella me olhou branca, surpreza!

Foi a ultima vez que eu vi Thereza!...

E ella arquejando murmurou-me:—Adeus!

Castro Alves, Poesias, p. 47. Bahia, 1870.


IMMENSIS ORBIBUS ANGUIS

I

Resvala em fogo o sol dos montes sobre a espalda

E lustra o dorso nú da india americana...

Na selva zumbe emtanto o insecto de esmeralda,

E pousa o colibri nas flores da liana.

Ali, a luz cruel, a calmaria intensa!

Aqui, a sombra, a paz, os ventos, a cascata...

E a pluma dos bambús a tremular immensa...

E o canto de aves mil, e a solidão, e a mata...

É a hora em que, fugindo aos raios da esplanada,

A Indigena, a gentil matrona do deserto,

Amarra aos palmeiraes a rêde mosqueada,

Que, leve como um berço, embala o vento incerto...

Então ella abandona-lhe ao beijo apaixonado

A perna a mais formosa, o corpo o mais macio,

E, as palpebras cerrando, ao filho bronzeado

Entrega um seio nú, moreno, luzidio.

Porém d'entre os espatos esguios do coqueiro

Do verde gravatá nos caxos reluzentes,

Enrosca-se e desliza um corpo sorrateiro

E desce devagar pelos cipós pendentes.

E desce... e desce mais... á rêde já se chega...

Da india nos cabellos a longa cauda sóme...

Horror!... aquelle horror ao peito eis que se apega!

A baba quer o leite! A chaga, sente fóme!

O veneno quer mel! A escama quer a pelle!

Quer o almiscar perfume! O immundo quer o bello!

A lingua do reptil—lambendo o seio imbelle!...

Uma cobra por filho... Horrivel pesadello!...

II

Assim, minh'alma, assim um dia adormeceste

Na floresta ideial da ardente mocidade...

Abria a phantasia a pétala celeste...

Zumbia o sonho d'ouro em doce obscuridade...

Assim, minh'alma, déste o seio (oh dor immensa!)

Onde a paixão corria indómita, fremente!

Assim bebeu-te a vida, a mocidade e a crença

Não bocca de mulher... mas de fatal serpente...

Castro Alves, Ibid., p. 170.


QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer... não lancem meu cadaver

No fosso de um sombrio cemiterio...

Odeio o mausoléu que espera o morto

Como o viajante d'esse hotel funéreo.

Corre nas veias negras d'esse marmore

Não sei que sangue vil de messalina;

A cova, n'um bocejo indifferente

Abre ao primeiro a bocca libertina.

Eil-a, a náo do sepulchro—o cemiterio...

Que povo extranho no porão profundo!

Emigrantes sombrios que se embarcam

Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos-errantes por santelmo,

Tem por velâme os pannos do sudario...

Por mastro o vulto esguio do cipreste,

Por gaivotas—o mocho funerario...

Ali ninguem se firma a um braço amígo,

Do inverno pelas lugubres noitadas...

No tombadilho indifferente chocam-se,

E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto

Vêr as plagas da vida além perdidas,

Sem vêr o branco fumo de seus lares

Levantar-se por entre as avenidas!

Oh! perguntae aos frios esqueletos

Porque não tem o coração no peito...

E um d'elles vos dirá: Deixei-o á pouco

De minha amante no lascivo leito.

Outro: Dei-o a meu pae. Outro: Esqueci-o

Nas innocentes mãos de meu filhinho...

Meus amigos! Notae: bem como um passaro

O coração do morto volta ao ninho.

Castro Alves, Ibid., p. 187.


OS PERFUMES

O perfume é o invólucro invisivel

Que encerra as fórmas da mulher bonita,

Bem como a salamandra em chammas vive,

Entre perfumes a sultana habita.

Escrinio avelludado onde se guarda

Collar de pedras—a belleza esquiva,

Especie de crysálida, onde móra

A borboleta dos salões, a diva.

Alma das flores—quando as flores morrem,

Os perfumes emigram para as bellas,

Trocam labios de virgens por boninas,

Trocam lirios por seios de donzellas.

Ali—sylphos travessos, traiçoeiros

Vôam cantando em languido compasso,

Occultos n'esses cálices macios

Das covinhas de um rosto ou d'um regaço.

Vós, que não entendeis a lenda occulta,

A linguagem mimosa dos aromas,

De Magdalena a urna olhaes apenas

Como um primor de orientaes redomas.

E não vêdes, que ali na myrra e nardo

Vae toda a crença da judia loura...

E que o oleo que lava os pés de Christo

É uma resa tambem da peccadora.

Por mim eu sei que ha confidencias ternas,

Um poema saudoso, angustiado,

Se uma rosa de ha muito emmurchecida

Róla acaso de um livro abandonado.

O espirito talvez dos tempos idos

Desperta ali como invisivel nume...

E o poeta murmura suspirando:

Bem me lembro... era este o seu perfume!

E que segredo não revela acaso

De uma mulher a predilecta essencia?

Ora o cheiro é lascivo e provocante!

Ora casto, infantil, como a innocencia!

Ora propala os sensuaes anceios

D'alcôva de Ninon ou Margarida,

Ora o mysterio divinal do leito

Onde sonha Cecilia adormecida.

Aqui, na magnólia de Celuta

Lambe a solta madeixa que se estira;

Unge o bronze do dorso da cabôcla,

E o marmore do corpo da Hetaíra.

É que o perfume denuncia o espirito

Que sob as fórmas feminis palpita...

Pois como a salamandra em chammas vive,

Entre perfumes a mulher habita.

Castro Alves, Ibid., p. 167.


RASTO DE SANGUE

É a hora do crepusculo,

Que viração tão grata!

Geme o riacho quérulo,

Nem um cantor na mata.

Desce a ladeira ingreme

Um touro de repente,

E vae nas frescas aguas

Fartar a sêde ardente.

Os juncos tremem, subito

Sôa, medonho ronco,

E o jaguar precípite

Pula de traz de um tronco.

Debalde o touro curva-se,

Recúa, dá um salto,

E o jaguar mais flacido

Sabe pular mais alto.

O touro parte célere

Soltando um grito horrendo!

Sobre elle a féra escancha-se,

Tambem lá vae correndo.

Vôam por esses páramos,

O touro em grandes brados;

Soltar querem das órbitas

Os olhos inflammados.

Espuma, arqueja! a lingua

Da bocca vae pendente!

Garras e dentes crava-lhe

A fera impaciente.

Largo rastilho rubido

Embebe-se na areia,

O sangue jorra calido

Da lacerada veia.

Contrae-se a forte victima

Luctando com braveza!

Porém o algoz impavido

Lá vae... não deixa a prêza!

Correram mais! que insania!

Que scena pavorosa,

Passada no silencio

Da selva escura, umbrosa.

Emfim n'um precipicio

Os dois vão baquear...

Cahiram lá exânimes

O touro e o jaguar.

Joaquim Serra, Quadros, pag. 45. Rio de Janeiro, 1873.


A MINHA MADONA

Alva, mais alva do que o branco cysne,

Que alem mergulha e a pennugem lava;

Alva como um vestido de noivado,

Mais alva, inda mais alva!

Loura, mais loura do que a nuvem linda

Que o sol á tarde no poente doura:

Loura como a virgem ossianesca,

Mais loura, inda mais loura!

Bella, mais bella que o raiar da aurora

Apoz noite hybernal, negra procella;

Bella como a açucena rociada,

Mais bella, inda mais bella!

Doce, mais doce, que o gemer da brisa;

Como se d'este mundo ella não fosse...

Doce como os cantares dos archanjos,

Mais doce, inda mais doce!

Casta, mais casta, que a mimosa folha

Que se constringe, que da mão se afasta,

Assim como a Madona immaculada

Ella era assim tão casta!...

Joaquim Serra, Ib., p. 121.


AS DUAS ESCRAVAS

Eu vejo-as abraçadas,

Ambas em luto envoltas,

Co' as loiras tranças soltas,

Cobrindo os hombros nús;

A desprender gemidos

Dos seios palpitantes,

E os olhos supplicantes

Fitos na mesma cruz.

E pende-lhes dos pulsos

A mesma atroz cadeia,

Seus labios incendeia

A mesma imprecação:

«Infamia eterna! (exclamam)

Aos nossos oppressores!

Senhor! vêde os horrores

Da nossa escravidão!»

—Mas quem sois vós, augustas

Imagens do martyrio?

Que assustador delirio

Vos tem curvado assim?

Em vossos rostos leio

A dor, a magoa, a insonia:

«Eu chamo-me—Polonia.

—E eu sou a pobre Erin...»

A. de Sousa Pinto, Ideias e Sonhos, p. 11. Lisboa, 1872.


CANTIGA

Aqui n'este arvoredo,

Das sombras no segredo,

Oh, vem!

Por estes arredores

O bosque outros melhores

Não tem.

O ruivo sol da tarde

Já nas montanhas arde,

D'além!

A lua alvinitente,

Nas portas do oriente

Lá vem.

A viração fagueira

A rapida carreira

Detem,

E dorme preguiçosa

No calix da mimosa

Cecem.

Ninguem na sombra escura

Verá nossa ventura,

Ninguem!

Sómente os passarinhos

Occultos nos seus ninhos

Nos vêm.

Do bosque entre os verdores

Se occupam só de amores,

Tambem!

E a lua, que desponta,

Jámais segredos conta

De alguem.

Debaixo do arvoredo,

Na gramma do vargedo

Oh, vem,

Á sombra d'este abrigo

Fallar a sós commigo,

Meu bem.

Bernardo Guimarães, Novas Poesias p. 143. Rio de Janeiro, 1876.


QUANDO ELLA FALLA

Quando ella falla, parece

Que a voz da brisa se cala;

Talvez um anjo emudece

Quando ella falla!

Meu coração dolorido

As suas maguas exhala,

E volta ao gozo perdido

Quando ella falla.

Pudesse eu eternamente

Ao lado d'ella escutal-a,

Ouvir sua alma innocente

Quando ella falla.

Minha alma já semi-morta,

Conseguira ao céo alçal-a,

Porque o céo abre uma porta

Quando ella falla.

Machado Assis, Phalenas p. 29.


O LEQUE

(De Tan-Jo-Lu)

Na perfumada alcova a esposa estava,

Noiva ainda na vespera. Fazia

Calor intenso; a pobre moça ardia,

Com fino leque as faces refrescava.

Ora, no leque em boa lettra feito

Havia este conceito:

«Quando, immovel o vento e o ár pesado,

Arder o intenso estio,

Serei por mão amiga ambicionado;

Mas volte o tempo frio,

Ver-me-heis a um canto logo abandonado.»

Lê a esposa este aviso, e o pensamento

Volve ao joven marido:

«Arde-lhe o coração n'este momento

(Diz ella) e vem buscar enternecido

Brandas auras de amor. Quando mais tarde

Tornar-se em cinza fria

O fogo que hoje lhe arde,

Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.»

Machado Assis, Phalenas, p. 121.


LAURA

—D'onde vens, Laura? «De casa.»

—Vaes á festa? «Já se vê.»

—Tão sósinha? «O que tem isso?»

—Vou comtigo... «Para o que?»

—Para ensinar-te o caminho...

«Agradeço-lhe o favor;

Eu sei de cór estas bandas,

Obrigada, meu senhor.»

—Olha o demo se te encontra...

«Pergunto ao demo o que quer.»

—E se elle quizer um beijo?

«Dou-lhe até mais, se quizer.»

—Ora, anda cá; dá-me o beijo,

Porque o demonio em mim vês...

«Já me estava parecendo...»

Ficará para outra vez.

—Vá d'esta vez um abraço...

«Abraço?»—Sim; o que tem?

«Mamãe me disse outro dia...»

—O que te disse a mamãe?

«Que a rapariga solteira

Em abraçando um rapaz...

Ferve-lhe o sangue nas veias,

E depois...» —E depois? «Zás!»


Arregaçando o vestido

Deitou-se Laura a correr;

Deixando-me boquiaberto,

Co'o sangue todo a ferver.

Bruno de Seabra, Flores e Fructos, p. 115. Rio de Janeiro, 1862.


A PROTECÇÃO DOS REIS

Ai do poeta que se accolhe a um throno,

E que implora de um rei mão protectora!

Ai d'elle! n'esse putrido ambiente

Pende-lhe morta a fronte sonhadora.

Assim ao viajor da Africa adusta

Hospitaleiro abrigo lhe similha

Uma arvore gigante; e elle adormece

Morto á sombra lethal da mancenilha!

Lucio de Mendonça, Alvoradas, p. 149. Rio de Janeiro, 1875.


FRAGMENTOS

Minh'alma é como a rôla gemedora

Que delira, palpita, arqueja e chora,

Na folhagem sombria da mangueira;

Como um cysne gentil de argenteas plumas,

Que fallece de amor sobre as espumas

A soluçar a queixa derradeira.

Meu coração é o lothus do Oriente,

Que desmaia aos languores do occidente,

Implorando do orvalho as lácteas pérolas;

E na penumbra pallida se inclina,

E murmura rolando na campina:

—Oh brisa, me transporta ás plagas cérulas.

Ai, quero nos jardins da adolescencia

Esquecer-me das urzes da existencia,

Nectarisar o fel de acerbas dôres!

Depois... remontarei ao paraiso,

Nos labios tendo os lirios do sorriso,

Sobre as azas dos mysticos amores.

Narcisa Amalia, Nebulosas, p. 59. Rio de Janeiro, 1872.


AI DE MIM!

Ai! dizes que não me queixe?

Que de vogar eu me deixe

N'um mar de scismas sem fim?

Que não lamente meu fado,

Desprezado,

Desprezado sempre assim!

Ai de mim!

Que distante dos teus olhos,

Nas trevas por entre abrolhos,

Vagando ás tontas sem fim,

Não maldiga a triste vida

Dolorida,

Dolorida sempre assim?

Ai de mim.

Ai, se tu és minha estrella,

Que luz, que brilha tão bella

N'esse horisonte sem fim,

Porque te occultas? Sem norte...

Cruel morte,

Cruel morte eu soffro assim!

Ai de mim.

Bettencourt Sampaio, Flores sylvestres, p. 26 Rio de Janeiro, 1860.


A —

Teus olhos brilhantes

Me cegam de luz;

São vivos diamantes

De raios cingidos

Da noite embutidos

Em dois cilios nús.

Teus olhos que agitam,

Que queimam, que fitam,

Teus olhos brilhantes

Me cegam de luz.

Mas ai! não pudessem

Teus olhos ser taes!

Que morte elles dessem,

Não fogo e martyrio

Da mente ao delirio,

Do peito a meus ais!

Se nunca elles matam,

Mas se alma arrebatam,

Ai! nunca pudessem

Teus olhos ser taes!

Teu corpo fluctúa

Qual concha no mar,

Mais doce que a lua,

Mais frouxo que a espuma,

Mais tenue que a pluma

Nos braços do ár;

Se a dansa os vestidos

Te agita—aos sentidos

Teu corpo fluctúa

Qual concha no mar.

Mas ai! nunca eu visse

Como és tão gentil!

Que nunca sentisse

Teu corpo engraçado

Voar balançando

Na dansa subtil!

Se roe-me o desejo,

De ver-te e não vejo,

Ah! nunca te visse

Como és tão gentil.

Teus seios me turvam

A vista e a rasão:

Nas roupas se curvam

Tão presos, tão vivos...

Oh! doces cativos,

Quebrae tal prisão,

E inquietos, travessos

Do collo nos gêssos

Teus seios me turvam

A vista e a rasão.

E Deus faz na terra

Mulheres assim!

E quando o homem erra,

Perdido de amores,

Será, meus senhores,

Um doudo por fim?

Se o peito suspira,

Se a mente delira,

Se Deus faz na terra

Mulheres assim?

F. Dias Carneiro, Parnaso maranhense, p. 115. Maranhão, 1861.


O PASSEIO

Não foi nos campos, onde a vida corre

Placida, longe do rumor do mundo,

Onde um suspiro, que nos labios morre,

Traz o segredo de um amor profundo;

Onde o arroio de cristal deslisa

Por entre o aroma de mimosas flores;

Onde parece que a formosa lua

Respira e sente, como nós, amores!

Não foi nas praias onde as brandas vagas

Vem á tardinha soluçar, gemer;

Onde os amantes com o sorrir nos labios

Sonham venturas de um feliz viver;

Onde a donzella que só pensa e scisma

Em aureos sonhos, que os amores tem,

Meiga suspira e arroubada escuta

Canções do nauta, que do mar lhe vem.

Não; essa noute em que eu feliz sentia

Sobre o meu braço tua mão pender,

Entre os ruidos d'esse mundo louco

Serena vimol-a perpassar, correr!

E no bulicio d'este mundo frivolo

Entre essa turba sempre louca e van,

Eu recolhia tuas phrases soltas

No imo peito com fervor e afan!

Que de venturas em aspirar teu halito;

Fixar teus olhos que o pudor baixava!

Manso, bem manso te batia o seio,

Que eu em delirio contra o meu chegava.

E a voz tão fresca e argentina e pura,

Que me parece estar ouvindo ainda!

Se n'este mundo já gozei ventura,

Foi n'essa noute, n'essa noute linda.

Em puro extasis minha voz tremia,

Talvez te lembres, descórado estava!

Tudo o que eu vi era só pompa e risos,

Tudo de amores e prazer fallava.

Que noite linda, que luar formoso!

Meu peito ardente de prazer tremia!

De tuas tranças aspirava o aroma,

Sobre o meu braço tua mão pendia.

E no bulicio d'este mundo frivolo

Serena vimol-a perpassar, correr

A noite linda que me deu prazeres,

Sonhos, venturas de um feliz viver!

F. Vieira de Sousa. Parnaso maranhense, p. 119.


MEUS ANHELOS

Se bem o digo, mulher, a hora infausta.

Em que da vida a luz primeira eu vi,

Se ao duro embate de uma cruel sorte

Até hoje, mulher, não succumbí,

O devo a ti!

Se presinto glorias n'um provir remoto,

E vejo estrada nova que não vi,

Se eu aspiro, mulher, do louro as palmas,

E ás duras provações, não esmoreci,

O devo a ti!

Se morte ingloria receioso temo,

Se a vãos perigos sempre me sorri,

É p'ra dizer-te no momento extremo:

Vivi! em vão luctei, morro por ti!

F. G. F. de Mattos, Parnaso maranhense, p. 125.


UM AMOR

Eu sinto a fronte palpitar de idéas,

Eu sinto o peito palpitar de ardor!

O que me falta pois? o que preciso?

Um amor!

Um amor, um amor de virgem bella,

Cheia de mocidade e de pudor!

Eu só procuro, só desejo e quero

Um amor!

Não permittas, meu Deus, que triste passe

De minha juventude toda a flor,

Sem que ao menos inspire, e sinta e gose

Um amor!

A. J. Franco de Sá, Poesias, p. 55. S. Luiz do Maranhão, 1869.


QUEM SABE? TALVEZ!

Existe uma virgem que o céo me destina,

Com quem delirante meu peito já sonha;

Eu vejo-a na fórma da virgem risonha,

Do céo nas estrellas, na flôr da campina,

Á noite, do bosque por entre a mudez;

Na brisa que passa por entre os palmares,

A voz bem lhe escuto que falla inda a medo...

Eu sinto na fronte seus meigos olhares!...

Quem dera-me ao peito cingil a bem cedo...

Quem sabe? talvez!

E tu nada sentes? tu nada procuras?

Nos quadros tão lindos que tu phantasias

Um dia brilhante de occultas magias,

De amores ardentes, de infindas venturas,

Ó virgem! não viste siquer uma vez?

Nos breves delirios, nos teus devaneios,

Nos vagos desejos da mente inquieta,

Que o peito te abalam, arfando-te os seios,

Não sonhas ás vezes o amor de um poeta?

Quem sabe? talvez!

Tu sonhas; que virgem não sonha de amores?

Tu sonhas um doce viver duplicado,

Viver como os anjos de amor exaltado,

Viver de perfumes, de luz, como as flores,

Que Deus como as flores e os anjos te fez;

E uma alma formada de amor como a tua

No mundo que habitas procuras de certo...

Debalde... tua vista vacilla, fluctua...

E esse ente, quem sabe si existe bem perto?

Quem sabe? talvez!

Quem sabe si a virgem que o céo me reserva,

Que pura e formosa diviso na mente,

Que o peito me pede, que o peito presente,

P'ra quem puro, isento, fiel se conserva,

Quem sabe si és tu? no riso, na tez,

Nos olhos... na face tão pallida e bella...

Uns áres, uns visos comtigo lhe noto...

Nos longos cabellos... Quem sabe si és ella?

Aquella a que em sonhos minha alma já voto?

Quem sabe? talvez!

Quem sabe? de tarde seguindo teus passos

O anjo dos sonhos parece que vejo,

Meu peito palpita, e vem-me o desejo,

De, louco de amores, voar a teus braços,

Beijar-te os cabellos, morrer a teus pés!...

E tu não presentes, oh virgem! que eu ardo

E quando teus olhos de encanto celeste

Os olhos ardentes encontram do bardo,

No peito de virgem tu nunca disseste:

Quem sabe? talvez!

Ah! dize... si és tu, fugir-me não tentes,

És tu que procuro? ah! dize, que eu creio...

Tu flores bem frescas abrigas no seio?

Bastantes perfumes no peito tu sentes?

Um céo de ternura tu tens que me dês?

Ah! falla, responde, teu dito me traga

Um mar de delicias, de amor, de ventura;

Ah! dize-me—-sim,—do peito me apaga

A phrase terrivel, que a mente murmura:

Quem sabe? talvez!

A. J. Franco de Sá, Poesias, p. 63. S. Luiz do Maranhão.


O AMOR UM DIA NOS PRENDEU, QUERIDA

O amor um dia nos prendeu, querida,

Como dous élos de uma só cadêa;

Sômos dous sôpros de uma mesma vida,

As duas azas de uma mesma idéa:

Dous pensamentos n'uma mesma alma,

Nascendo juntos e sorrindo apoz;

Somos dous ramos de uma mesma palma,

Somos dous eccos de uma mesma voz.

As duas aves que em jardim volteiam,

Buscando flores para o ninho olente,

Ou duas nuvens que nos céos vaguêam

Illuminadas pelo sol nascente.

Se cantas, gemo, e no scismar suspira

Minha alma em sonhos ideaes, azues;

Somos dous cantos de uma mesma lyra,

Somos dous raios de uma mesma luz.

Se ris, me rio, e no prazer unidos,

O mundo diz-nos: «São felizes, sabios...»

Se soffres, chóro; somos dous gemidos

De um mesmo peito a nos morrer nos labios.

Quaes duas vagas que tu vês, rolando,

N'uma se unir, no mesmo mar correr,

Os nossos peitos foram-se abraçando

No mesmo affecto que nos faz viver.

Deos nos fizera de uma egual natura,

Nós nos sentimos como irmãos no amor;

Somos dous risos de uma só ventura,

Somos dous prantos de uma mesma dôr:

As duas folhas, de pureza francas,

Do livro santo onde tu lês—amar!

Que somos nós? as duas velas brancas

Ardendo vivas, sobre um mesmo altar.

Que as nossas almas, uma á outra unida

Vôem no sonho de um eterno afago,

Bem como vogam na indolente vida

Dous brancos cysnes sobre um mesmo lago.

No mesmo fogo o nosso olhar queimemos:

Na mesma fé as nossas almas crentes;

No mesmo aperto as nossas mãos liguemos,

No mesmo beijo os nossos labios quentes.

Filgueiras Sobrinho, Consoladoras, p. 52. Paris, 1876.


A SÉSTA

Na rêde, que um negro moroso balança,

Qual berço de espumas,

Formosa creoula repousa e dormita,

Emquanto a mucamba nos áres agita

Um leque de plumas.

Na rêde perpassam as trémulas sombras

Dos altos bambús;

E dorme a creoula de manso embalada,

Pendidos os braços da rêde nevada

Mimosos e nús.

A rêde, que os áres em torno perfuma

De vivos aromas,

De subito pára, que o negro indolente

Espreita lascivo da bella dormente

As tumidas pômas.

Na rêde suspensa dos ramos erguidos

Suspira e sorri

A languida moça cercada de flores;

Aos guinchos dá saltos na esteira de côres

Felpudo saguí.

Na rêde, por vezes, agita-se a bella

Talvez murmurando

Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,

Que triste colono por noites formosas

Descanta chorando.

A rêde nos áres de novo fluctua,

E a bella a sonhar!

Ao longe nos bosques escuros, cerrados,

De negros captivos os cantos magoados

Soluçam no ár.

Na rêde olorosa, silencio! deixae-a

Dormir em descanço!...

Escravo, balança-lhe a rêde serena;

Mestiço, teu leque de plumas acena

De manso, de manso.

O vento que passa tranquillo, de leve,

Nas folhas do engá,

As aves que abafem seu canto sentido;

As rodas do Engenho não façam ruido,

Que dorme sinhá.

A. C. Gonçalves Crespo, Miniaturas, p. 14. Coimbra, 1871.


O FILHO DA LAVANDEIRA

Um dia, nas margens do claro Atibáia,

Estava a cativa sósinha a lavar;

E um triste filhinho do rio na praia,

Jazia estendido no chão a rolar.

A pobre criança que o vento açoitava,

De frio e de fome chorava e chorava.

A misera negra, co'o rosto banhado,

No pranto que d'alma trazia-lhe a dor,

Prendeu-a com força no seio abrazado

De magoas, de angustia, de susto e de amor.

Pendendo a cabeça no collo da escrava

A pobre criança chorava e chorava.

«Meu filho querido, no meio dos mares,

Lá onde governa sómente o meu deus,

Lá onde se estendem mais lindos palmares,

Porque não nasceste cercado dos meus?»

E a pobre criança no seio da escrava,

Fitando-a tristinha, chorava e chorava.

«Meus paes lá ficaram; são livres, cantando

Que vida contente que passam por lá!

E tu, meu filhinho, commigo penando,

Esperas a morte nas terras de cá.»

Os ventos cresciam: o sol declinava,

E a pobre criança chorava e chorava.

«Ai, não! que dos pretos as almas não morrem!

Havemos ainda p'ra os nossos voltar:

As aguas tão mansas dos rios que correm

Nos levam bem vivos ao largo do mar.»

Nas aguas já meio seu corpo nadava,

E a pobre criança chorava e chorava.

«As aves, os bosques, as serras que vemos,

Não são como aquellas de onde eu nasci!

Tão doces folgares risonhos quaes temos,

Tão bellos, tão puros não ha por aqui.»

E os fundos gemidos o ecco levava,

E a pobre criança chorava e chorava.

«Oh vamos, meu filho, ao sólo jocundo

Aonde a existencia nos corre gentil;

Emquanto cativos houver n'este mundo

Os negros não devem viver no Brazil.»

A casa era perto; chamavam a escrava,

E a pobre criança chorava e chorava.

Assim soluçou! e no seio estreitando

O caro filhinho, nas aguas caiu;

Depois, muito tempo de leve boiando,

Sumiram-se os corpos nas voltas do rio.

Debalde procuram, procuram a escrava,

Se a pobre criança nem mais lá chorava!

F. Quirino dos Santos, Estrellas errantes, p. 75, 2.ª ed. Campina, 1876.


AS CRIANÇAS

Deixae-as vir a mim!—o Christo assim dizia,

Das crianças beijando as frontes radiosas.—

Pertence á candidez dos lirios e das rosas

O reino de meu pae, eterno de alegria!

Deixae-as vir a mim!—o Christo assim dizia.

Deixae-as vir a mim com toda a liberdade,

As crianças adoro humildes ou zangadas;

As innoxias, tambem, estridulas risadas,

Não ha n'essa expansão os sulcos da maldade:

Deixae-as vir a mim com toda a liberdade.

Deixae-as vir a mim; eu amo as criancinhas,

Nos folguedos gazís, no lar silenciosas;

E quando eu as contemplo insontes, descuidosas,

Estudo-lhe da face as curvas e covinhas.

Deixae-as vir a mim; eu amo as criancinhas.

Deixae-as vir a mim; são luzes do porvir,

Almas cheias de amor e aureas esperanças;

Nos olhos divinaes de todas as crianças

Ha mundos de candura e crenças a florir.

Deixae-as vir a mim são luzes do provir.

Octaviano Hudson, Peregrinas, p. 7. Rio de Janeiro, 1874.

CANTOS POPULARES BRAZILEIROS

I
CHACARA DO CEGO

(Da provincia do Ceará)

—Sinhá da casa

Venha vêr seu pobre;

Nem por vir pedir

Deixo de ser nobre.

«Não póde ser nobre

Quem vem cá pedir;

Não ha que lhe dar,

Já póde seguir.»

—Não usais commigo

Tanta ingratidão:

D'este pobre cego

Tende compaixão:

«Eu não sou dona,

Nem governo nada;

A dona da casa

Ainda está deitada.»

—Si está deitada

Ide-a chamar,

Que o pobre do cego

Lhe quer fallar.

«Acordai, senhora

Do doce dormir,

Vinde ver o cego

Cantar e pedir.»

—«Si elle canta e pede

Dae-lhe pão e vinho,

Para o pobre do cego

Seguir seu caminho.

Larga, Anninha, a róca,

E tambem o linho,

Vae ensinar o cego

Seguir seu caminho.»

«Aqui fica a róca

Acabou o linho;

Marchae, adiante, cego,

Lá vae o caminho.»

—Anda, anda, Anninha,

Mais um boccadinho,

Sou curto da vista,

Não enchergo o caminho.

«De conde e fidalgo

Me vi perseguida;

Hoje de um cego

Me vejo rendida.»

—Cala-te, condessa,

Prenda tão querida,

Eu sou este conde

Que te pretendia.

«Cala-te, conde,

Não digas mais nada,

Só quero saiâmos

D'aqui d'esta estrada.»

Infinitas graças

Vos dou, meu senhor,

Já ter vencido

Um cruel amor.


II
CHACARA DE D. JORGE

(Do Ceará)

Dom Jorge se namorava

D'uma mocinha mui bella,

Pois que apanhando servido

Ousou logo de ausentar-se,

Em procura d'outra moça

Para com ella casar.

Juliana que d'isso soube

Pegou logo a chorar,

A mãe lhe perguntou:

—De que choras minha filha?

«É Dom Jorge, minha mãe,

Que com outra vae casar.»

—Bem te disse, Juliana,

Que em homens não te fiasses;

Não era dos primeiros

Que as mulheres enganasse.

—«Deus te salve, Juliana,

No teu sobrado assentada!»

«Deus te salve, rei Dom Jorge,

No teu cavallo montado.

Ouvi dizer, rei Dom Jorge

Que estavas para casar?»

—«É verdade, Juliana,

Já te vinha desenganar.»

«Esperae, rei Dom Jorge,

Deixa eu subir a sobrado,

Deixa buscar um copinho

Que tenho para ti guardado.»

—«Eu lhe peço, Juliana,

Que não haja falsidade;

Olhe que sômos parentes,

Prima minha, da minh'alma.»

«Eu lhe juro por minha mãe,

Pelo Deus que nos criou,

Que rei Dom Jorge não logra

Esse seu novo amor.»

—«Que me deitas, Juliana,

N'este seu copo de vinho,

Estou com as redeas nas mãos,

Não enchergo meu russinho.

Ai qu'é do meu paisinho,

Por elle pergunto eu?

Eu morro, é de veneno

Que Juliana me deu.

—Morra, morra o meu filhinho,

Morra contricto com Deus,

Que a morte que te fizeram

Ella quem vinga sou eu.

—«Valha-me Deus do céo,

Que 'stou com uma grande dor;

A maior pena que levo

É não vêr meu novo amor.»


III
CHACARA DE FLORES-BELLA

(Do Ceará)

—Mouro, se fôres ás guerras,

Trazei-me uma cativa!

Que não seja das mais nobres,

Nem tambem de villa minha;

Seja das escolhidas

Que em Castelhana havia.

Saiu o Conde Flores

Fazer essa romaria:

A Condessa como nobre

Foi em sua companhia.

Mataram o Conde Flores,

Cativaram Lixandria,

E trouxeram de presente

Á rainha de Turquia.

—«Vem cá, vem cá minha moura,

Aqui está vossa cativa;»

—Já vou entregar as chaves

As chaves da minha cozinha.

«Entregae, entregae, senhora,

Que a desgraça foi minha;

Ainda hontem ser senhora,

Hoje escrava da cosinha.

Ao cabo de cinco mezes

Tiveram os filhos n'um dia;

A moura teve um filho,

A cativa uma filha.

Levantou-se a moura

Com tres dias de parida,

Foi á cama da escrava:

—Como estaes, escrava minha?

«Como hei de estar, senhora,

Sempre na vossa cosinha.»

Foi olhando para a criança,

Foi achando muito linda:

—Se estivesses em tua terra

Que nome tu botarias?

«Botaria Flores-Bella,

Como uma mana que tinha,

Que os mouros carregaram

Sendo ella pequenina.

—Si tu a visses hoje

Tu a conhecerias?

«Pelo signal que tinha

Só assim a conhecia!»

—Que tinha um lirio roxo

Que todo peito cobria!

«Pelo signal que me dais,

Bem parece mana minha.»

—Vem cá, vem cá minha moura

Que te dizes tua cativa.

«Eu já estou bem agastada,

E já me vou anojar

Tu mandaste lá buscar,

O teu cunhado matar.»

—Si eu matei meu cunhado

Outro melhor te hei de dar.

Farei tua irmã senhora

Da minha monarchia!

«Eu não quero ser senhora

Da tua monarchia

Quero ir para a minha terra

Onde eu assistia.»

—Aprontae, aprontae a náo,

Mais depressa em demasia.

Para levar Lixandria,

Ella e sua filhinha.

«Adeus, adeus Flores-Bella!

—Vae-te embora Lixandria.

E dae lá muitas lembranças

Á nossa parentaria.

Que eu fico como moura

Entre tanta mouraria.»


LUNDUNS E MODINHAS

(Pará)

Quanta laranja miuda,

Quanta florinha no chão;

Quanto sangue derramado

Por causa d'essa paixão.[58]

Quem vae a Pará, parou;

Quem bebe açahy ficou.

(S. Paulo)

Pinheiro, dá-mi uma pinha,

Roseira dá-mi um botão,

Morena, dá-mi um abraço,

Que eu te dou meu coração.[59]

(Cuyabá)

O bicho pediu sertão,

O peixe pediu fundura,

O homem pediu riqueza,

A mulher a formosura[60].

(Pará)

Te mandei um passarinho,

Patuá mira pupé; (Dentro de uma caixa pequena)

Pintadinho de amarello

Iporãnga ne iavé. (E tão formoso como você.)

(Amazonas)

Vamos dar a despedida

Mandu sarará,

Como deu o passarinho

Mandu sarará;

Bateu aza, foi-se embora,

Mandu sarará,

Deixou a pena no ninho

Mandu sarará[61].

(De Ouro preto)

Vamos dar a despedida,

Como deu a pintasilva;

Adeus, coração de prata,

Perdição da minha vida.

Vamos dar a despedida,

Como deu a saracura;

Foi andando, foi dizendo

Mal de amores não tem cura.[62]

(Maranhão)

Quem quizer comer mangabas

Vá no pé da mangubeira,

Vá comendo, vá gostando,

Vá mettendo na algibeira.

Cajueiro pequeno,

Carregado de flores,

Eu tambem sou pequeno,

Carregado de amores.

Quando eu era pequenino,

Que aprendia o b-a, ,

Minha mestra me ensinava

O Lundum do Mon-Roy.

BATUQUE DOS CURURUEIROS

(De Cuyabá)

Em cima d'aquelle morro

Siá dona!

Tem um pé de jatobá;

Não ha nada mais pió

Ai, siá dona!

Do que um home se casá.


DESAFIO DOS CURURUEIROS

(De Cuyabá)

—Eu passei o Parnahyba

Navegando n'uma barça;

Os peccados vem da saia,

Mas não pode vir da carça.

«Dizem que a muié é farça,

Tão farça como papé,

Mas quem vendeu Jesus Christo

Foi home, não foi muié[63].

(De Rio de Janeiro)

Sinhasinha, vá-se embora

Vá p'ra casa direitinha,

Não me faça como honte

Que se me ficou no caminho.

Não me encorrilhe meus babados,

Não me suje meu collarinho.

Cupidinho das quedas,

Cae aqui cae acolá;

Não venha cahir nos braços

Da minha amante Iá, Iá.

Ora que gostos

Você mi dá!

Gosto de ti,

Ladrão, vem cá.

Mandei fazer um anel

Na ilha do Paquetá

Para metter no dedinho

Da minha amante Iá Iá.


A CHULA (a tres vozes)

(Ceará)

Lá nos campos de Cendrêa

Meu corpo vi maltratado!

Tudo isto experimentei

Só por ser seu bem amado.

Vem aos meus braços,

Meu bem amado,

Vem consolar

Um desgraçado.

Si eu não te quero bem

Deus do céo me não escute;

As estrellas me não vejam,

A terra me não sepulte.

Vem aos meus braços,

Meu bem amado,

Vem consolar

Um desgraçado.

N'aquelle primeiro amor

Que no mundo teve a gente,

O amor cravado n'alma

É lembrado eternamente.

Vem aos meus braços,

Meu bem amado,

Vem consolar

Um desgraçado.


SARABANDA

(Ceará)

—Aqui estou, minha senhora,

Com dôr no meu coração,

Bem contra minha vontade

Fazer-lhe esta citação.

«Tambem tenho minha casa

Mui da minha estimação;

Tudo darei á penhora,

Porem as cadeiras não.

Tambem tenho minha cama

Coberta de camellão,

A barra de setim nobre,

O forro de camellão;

Tudo darei á penhora,

Porem as cadeiras não.

Tambem tenho cinco escravos,

Tres negros e dois mulatos

Mui da minha estimação,

Tudo darei á penhora

Porém as cadeiras não.

—Venha cá, minha senhora,

Deixe-se de tantas besteiras,

Que no mundo não falta ourives

Que lhe faça outras cadeiras.

NOTAS DE RODAPÉ:

[58] Ap. Couto de Magalhães, O Selvagem, P. II, p. 79.

[59] Ibidem, p. 80.

[60] Ibidem, p. 81.

[61] Ibidem, 144—5.

[62] Ibid. p. 146.

[63] Ap. Noticia sobre a provincia de Matto-Grosso, por Ferreira Moutinho, p. 19.

PARTE III
OS LYRICOS GALLEGOS

Airiños, airiños, aires,

Airiños da miña terra;

Airiños, airiños, aires,

Airiños, leváime a ella.

Cant. pop.

Sin ela vivir non podo,

Non podo vivir contenta,

Qu'á donde queira que vaya,

Cróbeme unha sombra espesa.

Cróbeme unha espesa nube

Tal preñada de tormentas,

Tal de soidás preñada,

Qu'á minha vida envenena.

Leváime, leváime airiños,

Com'unha folliña seca,

Que seca tamen me puxo

A callentura que queima.

Ay! si non me levás pronto,

Airiños da miña terra;

Si non me levás, airiños,

Quiçaes xa non me conesan

Qu'a frebe que de min come,

Vaime consumindo lenta,

E no meu corazonsiño

Tamen traidora se ceiba.

Fun n'outro tempo encarnada

Com'á color de sireixa,

Son oxe descolorida

Com'os cirios das igrexas,

Cal si unha meiga chuchona

A miña sangre bebera:

Vou-me quedando muchiña,

Com'unha rosa qu'inverna,

Vóume sin forzas quedando,

Vóume quedando morena,

Cal unha mouriña moura

Filla de moura ralea

Leváime, leváime, airiños,

Leváime á donde m'esperan

Unha nay que por min chora

Un pay que sin min n'alenta,

Un hirman por quen daria

A sangre das miñas venas,

E un amoriño á quen alma

E vida lle promettera.

Si pronto non me levades,

Ay morrerei de tristeza,

Soya n'unha terra extraña,

Dond'extraña m'alumean,

Donde todo canto miro

Todo me dic'; extranxeira!

Ay, miña pobre casiña!

Ay, miña vaca bermella!

Años, que valás nos montes,

Pombas, qu'arrulás nas eiras,

Mozos, qu'atruxás bailando,

Redobre d'as castañetas,

Xás-co-rras-chás das cunchiñas,

Xurre-xurre d'as pandeiras,

Tambor do tamborileiro,

Gaitiña, gaita gallega,

Xa non m'alegras dicindo:

Muiñera! muiñera!

Ay quen fora paxariño

De leves alas ligeiras!

Ay con que prisa voara

Toliña de tan contenta,

Para cantar á alborada

Nos campos da miña terra!

Agora mesmo partira,

Partira com'unha frecha,

Sin medo as sombras da noite,

Sin medo da noite negra.

E que chovera ou ventara,

E que ventara ou chovera,

Voaria, e voaria

Hastra qu'alcanse á vela.

Pero non son passariño

E irey morrendo de pena,

Xa en lagrimas convertida,

Xa en suspiriños desfeita.

Doces galleguiños aires,

Quitadoiriños de penas.

Encantadores d'as auguas,

Amantes d'as arboredas,

Musica dás verdes canas

Do millo d'as nossas veigas,

Alegres compañeirinos,

Run-run de tódalas festas,

Leváime nas vosas alas,

Com'unha folliña seca,

Non permittás qu'aqui morra,

Airiños da miña terra,

Qu'ainda penso, que de morta,

Eide sospirar por ela.

Ainda penso, airiños, aires,

Que dimpois que morta sea,

E aló pólo composanto,

Dond'enterrada me teñam,

Pasés na calada noite

Runxindo antr'á folla seca,

Ou murmuxando medrosos

Antr'as broncas calaveras,

Inda dimpois de mortiña

Airiños da miña terra,

Éivos de berrar: ¡Airiños,

Airiños, leváime á ela!

D. Rosalia Castro de Murguia, Cantares

gallegos, p. 87. Madrid, 1872.


CANTAR GALLEGO

Acolá enriba

Na fresca montaña,

Qu'alegre se crobe,

De verde retama,

Meniña morena

De branco vestida,

Nubiña parece

No monte perdida.

Que xira, que corre,

Que torna, que passa,

Que rola, e mainiña

Serena se para.

Xa embolta se mira

N'espuma que salta,

Do chorro que ferve

Na rouca cascada.

Xa erguida na punta

De pena sombrisa

Immoble cál virxe

De pedra se mira.

A cofia de liño

A os ventos voltada

As trenzas descoida

Qu'os aires espalhan;

Tendídal-as puntas

Do pano de seda,

As alas d'un anxel

De lonxe semellan.

Si as brisas da tarde

Xogando con elas

As moven ca gracia

Qu'un angel tivera.

Eu penso ¡coitado

De min! que me chaman,

Si as vexo bulindo

Na verde enramada;

Mas ay, qu'os meus ollos

M'engañam traidores,

Pois von, e lixeira

Na niebra s'esconde;

S'esconde outras veces

Na sombra dos pinos

E cant'escondida

Cantares dulciños,

Qu'abrasan, que firen,

Ferida d'amor

Que teño feitinha

No meu corazon.

Que feita, que linda,

Que fresca, que branca.

Deu Dios á meniña

Da verde montaña!

Qu'hermosa parece,

Que chore, que xima!

Cantando, sorrindo,

Disperta, dormida!

Ay, si seu pay

Por regalo ma dera,

Ay, non sentira

No mundo mais penas!

Ay, que por tela,

Commigo por dama

Eu llá vestira,

Eu llá calzara.

D. Rosalia Castro de Murguia, Cantares gallegos, p. 75.


Cantan os galos pr'ó dia,

Érguete, meu ben, e vaite,

—Como m'ei d'ir, queridiña,

Como m'ei d'ir e deixarte.

—D'eses teus olliños negros

Como doas relumbrantes,

Hastr'as nosas maus unidas

As vagoas ardentes caen.

¿Como m'ei d'ir si te quero?

Como m'ei d'ir e deixarte,

Si cá lengua me desvotas,

E có coraçon me atraes?

N'un corruncho do teu leito

Carinhosa m' abrigaches;

Có teu manso caloriño

Os frios pés me quentastes;

E d'aqui xuntos miramos

Por antr' ó verde ramaxe,

Cal iba correndo á lua

Por enriba dos pinares.

¿Como queres que te deixe,

Como que de ti m' aparte,

Si mais qu' á mel eres dulce,

E mais qu'as froles soave?

«Meiguiño, meiguiño meigo,

Meigo que me namoraste,

Baite d' onda min meiguinho

Antes qu'ó sol se levante.

—Ainda dorme, queridiña,

Antr' as ondiñas do mare,

Dorme por que m' acariñes

E por qu' amante me chames,

Que sol' onda tí, meniña,

Pódo contento folgare.

«Xa cantam os paxariños,

Érguete, meu ben, qu' é tarde.

—Deixa que canten, Marica,

Marica, deixa que canten...

Si tí sintes que me vaya,

Eu relouco por quedarme.

«Conmigo, meu queridiño

Mitá dá noite pasaches.

—Mais en tanto ti dormias

Contenteime con mirarte,

Qu' asi sorind' entre soños

Coidaba qu' eras un anxel,

E non con tanta pureza

O pé d' un anxel velase.

«Asi te quero, meu ben,

Com' un santo dos altares,

Mais fuxe... qu' ó sol dourado

Por riba dos montes saye.»

—Irey, mais dame un biquiño

Antes que de ti m' aparte;

Qu' eses labiños de rosa

Inda non sei como saben.

«Con mil amores chó dera,

Mais teño que confesarme,

E moita vergonza fora

Ter un pecado tan grande.»

—Pois confesate, Marica,

Que cando casar nos casen,

Non ch' han de valer, meniña,

Nin confesores, nin frades.

Adios, cariña de rosa!

«Raparigo, Dios te garde,»

D. Rosalia Castro de Murguia, Cantares gallegos, pag. 21.


Un repoludo gaitero

De pano sédan vestido,

Com' un principe cumprido,

Cariñoso e falangueiro,

Antr' os mozos o pirmeiro

E nas siudades sin par,

Tiña costum' en cantar

Aló po la mañanciña:

Con esta miña gaitiña

As nenas ei d' enganar.

Sempre pó la vila entraba

Con aquel de señorio,

Sempre con poxante brío

Co tambor s' acompasaba:

E si na gaita sopraba,

Era tan doçe soprar,

Que ven fixera en cantar

Aló po la mañanciña:

Con esta miña gaitiña

As nenas ei d'enganar.

Todas por él reloucaban,

Todas por él se morrian,

S' o tiñam cerca, sorrian,

S' ó tiñam lonxe, choraban:

Mal pecado! non coidaban,

Que c' aquel seu frolear

Tiña costum' encantar

Aló pó-la mañanciña:

Con esta miña gaitiña

As nenas ei d' enganar.

Camiño da romeria,

Debaixo d'unha figueira,

Canta menina solteira

¡Querote! lle repetia...

Y él c' á gaita respondia

Por á todas envoucar,

Pois ven fixeira en cantar

Aló pó-la mañanciña:

Con esta miña gaitiña

As nenas ei d' enganar.

Elas louquiñas bailaban

E por xunta d' el corrian,

Cegas... cegas que non vian

As espiñas qu' as cercaban;

Probes palomas buscaban

A luz qu' as iba queimar,

Pois qu' el soupera cantar

Aló pó-la mañanciña,

Ó son da miña gaitiña

As nenas ei d' enganar.

¡Nás festas, canto contento!

¡Canta risa nas fiadas!

Todas, todas namoradas

Deranll' ó seu pensamento;

Y él que d'amores sedento

Quixo á todas enganar,

Cand'as veu dimpois chorar

Cantaba nas mañanciñas,

Non sean elas toliñas

Non veñan ô meu tocar.

D. Rosalia Castro de Murguia, Cantares gallegos, p. 47.


O DESCONSOLO

D'esta fontiña á beira froleada

Sentado á sombra d'un choron estou

Doido o peito, a alma esconsolada,

Triste morrendo pouco á pouco vou.

Desde qu'a negra morte aquella prenda

Que tanto quixen me arrancou sin dor,

Solás non acho en nada, e solta renda,

A pena, choro o meu perdido amor.

Quen o diria! tão garrida e nova,

Doce cal rula, e branca cal xasmin,

Tan cedo habias de baixar á cova,

Piedade, céos, ay, piedá de min.

Solo quedei no mundo, solo, solo,

Qu'ei de facer?... chorar e mais chorar!

E qu'ainda te vexo no meu colo,

Sabeliña, querida, maxinar.

Xa non iremos mais polas roleiras

En compaña amorosa ás moras, non;

Nin baixo das follosas ameneiras

As coitas che direi do corazon.

Cantas veces da auga d'esta fonte

Che dice, mina vidiña, pola mao!

Cantas os dous deixabamos o monte,

Por tomar aqui o fresco, aló no brau.

E nas tardes de outono... ¡non te acordas...

Mais ¿que digo acordar? si te perdin?

Partenseme, ay do corazon as cordas

Penso qu'ainda aqui estás... louco de min!

N'outono... pois con alegria moita

Nos ibamos ó longo castañal,

E a rebaladas eu guindabava froita

Mentras ti regalabas meu cantar

E tamen cando... ¿pero á que memoria

Fago de tempo aquel? ay! calarei!

Mirame, Sabeliña, desde a groria;

Por ti de cote triste chorarei.

Alberto Camino, ap. Trovas e Cantares, p. 329.


O ALALALAA

Si é que escoitades cando ó sol morre,

Cando á ovelliña no monte bala,

Un canto tenro, vago e subrime

Que commovida vos deixa a yalma;

Un canto brando pero queixoso

Que de pasados recordos fala,

E o mellor canto da nossa terra,

E o alalalaa.

Cántan-o as mozas que o gando coidan,

Cántan-o os homes que os eidos labran,

Cantando os nenos que san da escola

Van isa cántiga...

¡Ay que feitizos eiqui en Galicia

Ten ó alalalaa...!

Cand'os gallegos morren de coitas

Entr'os misteiros d' as suas montanas,

Entoan ó canto con moita forza,

Y-enton semellan, nas enramadas,

Ises gorxeos dos roulsinores

Cando saudan á lus da yalba,

Ises murmuxos que ten-o rio,

Ises concertos que fan as auras...

Dempois qu' o entoan con moita forza

Con toda a forza da sua yalma,

Van-o baixando pouquiño a pouco

Hastra que logo na gorxa esmaya,

Como unha queixa que leva o vento,

Cal un sospiro qu'o peito garda.

¡Ay! non m' esquenzen d' aquella tarde

As oxe mortas legrias santas,

Cando eu ouvia por ves primeira,

Aló no monte, lonxe, o alalalaa!...

¿Qué canto e ise?—eu perguntéille

A unha garrida xóven aldeana

Qu' un feixe d' erba, na sua cabeza

Chea de negros rizos, levaba,—

Y ela miróume co aquilos ollos

Qu' a duas estrellas s' assemellaban,

E co-a sonrisa nos roxos lábios,

Asina dixo con moita gracia:

«A cantiguiña qu' astra nos chega

Conmovedora, doida, branda,

E o feitizo d'istas ribeiras,

A compañeira da nossa yalma,

E o consolo das penas fondas,

O pano limpo que enxuga as vágoas,

O millor canto da nossa terra,

E o alalalaa!...

O meu cortexo veira da fonte,

E n' unha noite de lua crara,

Vendo que estaba cantando, estraida,

Sonando amores, un alalalaa...

Díxome logo qu' enchin á ola

E cando ó pobo m' encamiñaba:

—«Por Dios che rogo que cando estemos

Os dous soliños, miña Mariana,

Si é que non queres me volva tolo,

Non mais entoes ise alalalaa...;

Seica che deron iman as meigas,

Seica che deron sua voz as fadas;

Tí fasme dano, si é que me queres

Miña xoiña, non cantes, cala.—»

¡Meu Dios! ¿qu' estrano é que se volvan

Loucas d'amores as aldeanas,

Si ti puxeches no chao gallego

As melodias d' un alalalaa?...

Ise lenguaxe do sentimento,

Isa amorosa doida cántiga,

Forte ó comenzo, tenra no tono,

E lastimeira, cando s' apaga:

E necesairo non ter no peito

Un sentimento nobre, nin alma

Pra que indifrente pódea escoitar-se

Aló nas noites de lua crara

Nista adourada bendita terra,

Un alalalaa...

Cando se queixan os paxariños,

Cando murmuxan as frescas augas,

Cando os prefumes do val s' esparxen,

Cando sospiran as ledas auras,

E cando as tristes campás d'a irexia

Dobran ás animas,

¡Ay! que feitizos eiqui en Galicia

Ten o alalalaa...

Valentin L. Carvajal, Espiñas, follas e frores, p. 5. Ourense, 1876.


DOORA

Unha nena abouraba ó seu cortexo,

C'o ardente anhelo d'o primeiro amor:

Na ansiedá d'os seus prácidos ensonos

Falando á solas, con amante voz

Decía: «¡Quen me dera pr'adouralo,

Ter moitos..., pêro moitos curazós!»

Amou constante e foi correspondida;

Ela siguiu amando, il, olvidou:

Cando sola se viu, cando perdera

A fé sagrada d'o primeiro amor,

Escramaba entre vágoas e sospiros;

«¡Quen poidera vivir sem curazon!»

Valentin L. Carvajal, Espiñas, follas e frores, p. 14.


Á CARTA D' A GUERRA

Unha probiña xente d'unha aldea,

Sempre agardando carta d'un rapaz

Que camiñou para a guerra, vindo as noites,

Xa non fay outra cousa que chorar.

Os coitadiños pensan que chorando

Danll'a xoya que garda ó seu amor

Ises consolos tenros que non teñem

Os que levan ferido o curazon.

Chega por fin ó cobizado dia,

Ven o carteiro, dálles o papel,

E sin perda de tempo, todos xuntos

As sospiradas letras van leer:

«Meus quiridiños pais: fólgome moito

Si vostedes s'atopan oxe bos

Cal desexo para min, (comenza asina,

Di asina ó primeiro ringuilon.)

Saberán que n'a guerra d'as Provincias

Non hay mais que roinas e door

E mortos, xa se ve unhos e outros.

Vão sementando a morte c'os cañós.

(Chegando eiquí, á nai toda afrixida

A leutura d'a carta fay parar;

Dinlle que cale..., ¡Pero quen afoga

Os tristes sentimentos d'unha nay!)

Siguen leendo: «Cando camiñamos

Xa de dia ou de noute, sempre vou

C'o pensamento n'isa pobre aldea

Ond'a miña frorida edá pasou;

Os soutos que no vrao lle prestan sombra,

Seus regatos e montes vexo eiquí,

Os ecos d'as campás d'aquela Igresia,

Tránm'os ventos da terra onde nacin.

Meus queridiños pais... ¡con que lenguaxe

Os recordos me veñen á falar

D'unhas cousas que falan d'outras cousas

Que non podo nin sei adiviñar!

.......................................

Meus quiridiños pais, si é que m'esquece

D'escribirlle á Sabela de Pitin,

Díganlle que me queira é non me deixe,

Díganlle que me queira é non me deixe,

Que viva e teña amor soilo pra min.

¡Ay! aldeiña... ¡Cantas veces poño

En ti o pensamento e curazon...,

Eydos, montes e soutos de Caldelas,

Lonxe de vos, eu morro de door!

Adios, quiridos pais, que teño presa;

Si poidera subir á xeneral,

Cantas cousas lies dera o seu filliño

C'oxe, coitado d'il, non pode dar.

Adios, quiridos páis, hast'outro dia,

A cantos lle pergunten que é de min,

Diganlle qu'estou bó, denlle recordos,

Canto queiran vostés ¡Adios!—Xoaquin

(Unha carta d'a guerra, ó un tesouro

Pr'a coitada xentiña d'o rapaz,

Carta que dempois leen os veciños,

O maestro y-o crego d'o lugar.)

Valentin L. Carvajal, Espinas, follas e frores, p. 30.


¡QUEN POIDERA CHORAR!

Eu, chorei sendo neno, moitas veces;

Pranto de pelras aquil pranto foi:

Tiña forza n'os ollos, mais non tiña

forza n'o curazon.

Chorei dempois cando xa feito home

Loitaba c'os delirios d'a pasion,

Y-os meus ollos souperon o que eran

As vágoas de door.

Logo mais tarde, cando as penas fondas

Deixáronme sin grorias nin pracer,

Eu cobizei chorar, pero non tiven

Mais que vágoas de fél.

As mortas illusiós, os desenganos

Consumiron a yalma c'o pesar;

Pidínll'os ollos vágoas ¡ay coitado,

Xa non puden chorar!

Pranto dichoso, fonte de consolo,

Xa pr'a min as tuas augas non virán:

Cando c'os anos pérdense as legrias,

¡Quén poidera chorar!

Valentin L. Carvajal, Espinas, follas e frores, p. 37.


DOORA

Dis que queres vivir pra gozar moito;

¡Ay probe nena! xuzgas que o pracer

D'os teus primeiros xuveniles anos,

Eterno pode ser;

Hoxe vives no ceo, eres un ánxel,

Sobre frores camiñam os teus pés;

Mañan..., cando non vexas mais qu'espiñas,

Cobizarás morrer.

Valentin L. Carvajal, Espinas, follas e frores, p. 60.


PRELUDIO

(Trad. do Castelhano)

O meu corazon soíño

ê morada de cantares;

nel agarimados viven

coma no seu niño as aves;

É cando a dôr os desperte,

ou cando pracer os chame,

encherán de sons alegres

ou do tristesiña os aires.

A guitarriña qu'eu toco

sente como unha persona;

unhas veces canta é rïe,

outras veces xime e chora.

A côr d'o teu rosto, nena,

ê coma noite de lua,

é a mata d'os teus cabelos

o mesmo que noite escura.

Cando á veiriña d'o rio

lavas os teus pes de rosa,

tembran d'amor as auguiñas,

sospira o vento antr'as follas.

Os cravos qu'en pes é mans

lle puxeron al Señor,

lévaos a nay afrixida

cravados no corason.

O mundo doum'un libro;

é eu sou tan lerdo,

que canto mái-lo estudio

méno-lo entendo.

Vay logo, é a tua nay dille

si me despresa por probe,

quro mundo da moitas voltas,

que tamen se cân as torres.

Quítate d'esa ventana

é oye un consello, meniña:

rosa que está ben gardada

os paxáros non-a pican.

Medin c'os ollos o ceo,

sondey o fondo d'o mar;

mais no corason d'os homes

fondo non puden topar.

A Dios un abogado

lle imita n'esto;

Dios fay todo de nada...

é el fay un preito.

Chistosa, churrusqueiriña,

que sal espallando vas;

¿dí cómo espallando tanta

non che s'acabou o sal?

Queixéchesme cando tiben,

xa non teño é das a volta;

a campana t'asomellas

que, si non lle dan, non toca.

Nas ventanas d'esta casa

un faro deben poñer,

para que naide se estrelle

na falsedá de vosté.

Despois de feita, Dios quixo

poñerch' un lunar por firma;

c'o sello d'as gracias suas

síñaloute esa cariña.

O dia en que ti naceches

cayeu do ceo um anaco;

cando morras é aló subas,

taparáse aquel burato.

Un home cantaba un dia,

dicind'o seu triste mal,

qu'auga no mar non topara

si por auga fosse ó mar.

O verde dos teus olliños

recordan o verde mar:

¡coitado d'aquel qu'os mire

si non axeit'a á nadar!

Cando d'auguiña saes,

cara de estrela,

O teu cabelo escuro

longo te vela;

tal coma un manto,

qu'o teu seyo de rosas

da dobre encanto.

Neste ramo de froles

que che presento,

verás, lus dos meus ollos,

un pensamento.

E é, ¡miña xoya!

qu'an que tí olvidar sabes

de ti s'acordan.

No rosal da miña vida

loucas illusiós cantaron;

o dôr tiroulle unha pedra...

¡ay de min! todas voaron.

En este longo deserto

moitiños de sede morren;

eu triste unha fonte busco...

¡quén sabe donde s'esconde!

No-mais q'unha foñte vin,

e está sequiña, está soya;

nin paxariños lle cantan,

nin árbores lle dan sombra.

D. Ventura Ruiz Aguilera, Armonias y Cantares, p. 145. Madrid, 1865.

CANTOS POPULARES GALLEGOS

I
NADAL

(Tuy)

Esta noite de Nadal

Per ser noite d'alegria,

Camiñando vay Xosé

A mais a virxen Maria.

Camiñan para Belen

Para xegaren de dia.

Quando a Belen xegaron

Toda a xente dormia;

Arrimaron-se a unha peña

Ó pé d'unha fonte fria.

San Xosé foi buscar lumbre,

Até lumbre non tragia:

—Abre las portas, portero,

A Xosé e a Maria.

«Estas portas son de ferro,

Non s'abren até el dia.»

Bajaron anxos del cielo

Que rico lumbre tragian.

Ap. Romania, t. VI, p. 260—1873.


II
A MORTE DE XESUS

(Tuy)

Juebes santo, juebes santo,

Tres dias antes de Pascoa,

Quando o Redemptor do mundo

Por seus disciplos xamaba;

Xamaba por un e un,

Dous e dous se lle xuntaba.

Despois que os tiña xuntos,

D'esta maneira fallaba:

«Qual de vós, disciplos mios,

Quer morir por mi mañana?»

Miran uños para otros,

Niun lle voltou palabra,

Senon San Xuan Bautista,

Padricador da montaña.

A roda da meia noite

Xesus Christo camiñaba;

Levaba unha cruz a cuestas

De madeira mui pesada;

C'unha corda á garganta

D'onde os xudeus puxaban:

Cada puxon que lle daban

Xesus Christo arrodillaba.

Xegou ao Monte Calvario,

Tres Marias a xorar:

Unha era Madalena,

Otra era sua irmana,

Otra era virxen pura,

Que mais passion lle daba;

Unha limpaball'os pés,

Otra limpaball'a cara,

Otra recogia o sangre

Que Xesus Christo derrama.

O sangre que lle caía

Caía en cal sagrado;

O home que o bebese

Será ben aventurado:

N'este mundo será rei

No otro santo coronado.

Quen esta oracion disera

Todos os vernes do anno,

Gañaba un canto no cielo.

Quen a sabe non a di,

Quen a oye no a deprende,

Dia do noso xuizo

Berás que conto nos ten.

Ap. Romania, t. VI, p. 260.


III
ROMANCE DE UN MAUREGATO

(Puente de Domingo Florez)

Eu jungin os meus boisiños

E leveinos á arada,

E no medio do carniño,

Acordóuseme a aguillada.

Tornei e volvin por ela

Topei a porta fechada.

—Abreme a porta, muller,

Ábreme a porta, malvada.

«Eu a porta non cha abro

Que estou facendo a colada.

Rompin a porta pra dentro

Fun por donde acostumaba,

Subin pol-a escaleira

Para coller a aguillada,

Vin estar un gato roxo

Debaixo da miña cama.

—Que é aquelo, muller,

¿Que é aquelo, malvada?

«É o gato do convento

Que anda tras da nossa gata.

Unha machado collin,

Fun a ver se o mataba.

«Qué fas, meu home, qué fas?

Que a min me bates a cara?»

La Galicia, t. IV, 126.


IV
ROMANCE PICARESCO

Vou a dar unha voltiña

Da sala para a cociña,

Que me pareu a muller,

Voulle asar unha sardinha.

Miña nai aqui ll'estou

Desde o dia en que chegamos,

Que sin non me lle esquenceu,

Non lle estou atribucado,

Foille un dia da semana,

Do mes do presente ano.

Ja lle dixen que no mar

Déronnos queijo por rancho,

Agua moura por almorzo

Cando vimolos gabachos.

Eu gomitei como un cocho,

Non atravesei bocado,

Inda que estribaba os pés

Não estaba quedo o barco.

Chegamos a Santander,

E de cote nos cebaron

Con arroz e pan desfeito

Por que estabamos muy flacos.

Cando gordos estivemos

De Santander nos botaron

Nun barco que era mui mouro,

Era mui mouro aquel barco;

Eralle un barco sin velas,

E de cote fumegando;

Tiña un forno con caldeiras

Mais grandes que sete armarios,

E unhos ferros daban volta

Que iban zumbaleando,

E por arte de virloque

Ibamos todos andando.

Diz que con agua fervendo

Amáñan-se estes milagros:

Miña nai, faga a esperencia

Do que seria este barco

Que eu por min teño dementres

Que hade ser cousa d'encanto,

Que seriam navoyeiros

Aqueles homes tiznados.

Déalle moitas memorias

A Mingucho de Carballo,

Á miña prima Marica

Que me coide aquel boi branco,

E que me garde tamen

Por Dios e todolos santos

Unha sardiñina femia,

Porque acá todos son machos.

La Galicia, 89.


A SERRA DO RAÑO

(Cantiga das montañas)

Alta serriña do Raño

Ten moitas zarzas e penas,

Donde o lobo fai o cocho,

E os boutres berran nelas.

Esta serra ten seus bosques

Onde o lobo fai o cocho,

E o corzo e o porco bravo

A mais tamen o raposo.

Se por ela pasa alguen

Pode que se estemoreza,

E pode que teña medo

Que o lobo se lle apareza.

Se certa a ser de noite

Aló no mes de janeiro,

Cando berra moito a loba

Que anda ó casticeiro.

Hai que ter un gran coedado

Despois que ós corzos lles tiren

Que hay ó Ponente un regato

Pode ser que pra el biren.

Está chea de carballos

De uzes e de acibros,

Por ali é donde están

Os animais escondidos.

Ten un calejo pequeño

Aló na parte de riba

Ali se arman as córdas

Cando hai a montaria.

Esta serra é moi fria

Aló no tempo do inverno,

Estan os boutres silvando

Co o frio e con o helo.

Aló pra beas do Norte

Chamanll'o Pico de Vales.

É o punto mais bonito

Pra tirar ós animales.

Pra se o Pico de Vales

Máis pra fonte Jandaviña

É pra donde o corzo e o porco

Polo regular camiña.

O calejo que já dixen

Donde se arma a montaria

Chamanlle Louseira Vélla

Donde o lobo mais arrima.

Desengaño ós cazadores

Se algun hai que ó Raño veña,

Que vaya ganar as costas

E que se aparte da leña.

Pol o Sur de esta serra,

Pasa o camiño real:

Mirar cando o ladronciño

De dentro das uzes sal.

Desengaño ó pasageiro

Pase por el con coedado,

Que nunca tuvo bon nome

Esa gran costa do Raño.

Porque já non é o primeiro

Que d'entre das uzes sal,

Por eso algun ladron

Sofreo pena corporal.

Estamos hoje no siglo

Cando houbo un suceson,

Que o verdugo puxo ali

A cabeça de un ladron.

Por estes feitos e crimes

Que socederon no Raño,

Polo amor que teño á gente

Por eso a desengaño.

Na cabeceira hai un marco

Feito de unha pedra longa,

Tres Auntamentos devide

Monfero, Arauga, Irijoa.

A sua gran fertuniña

Devide gran estension,

Se algun non o conoce

É o marco de Pion.

La Galicia, t. IV, 276.


AS TRES COMADRES

Elas eran tres comadres,

E dun barrio todas tres;

Juntaron unha merenda.

Para ir ó Santo Andrés.

Con seconequé,

Con el peregil,

Con domine és,

Con trispilistas,

Con domine olé, olé

Pola tua fé

No souto d'Alberto

De Jan Pirulé.

Unha puxo trinta óvos,

Para cada unha dez;

Outra puxo unha empanada,

De tres codos a otravés.

Con seconequé, etc.

Unha dixo: Vou por viño,

Comadre, cánto traerei?

Trai no máis canado e medio,

Para volver outra vez.

Con seconequé, etc.

Unha dixo pola luna:

Mira qué paniño ingrés;

Outra dixo polo odre:

Mira qué neno sin pés.

Con seconequé, etc.

Alá pola media noite

Ven o marido de Inés,

Pau a unha, pau a outra,

Pau doulles, a todas tres.

Gallicia, III, 240. Colligidos da tradição popular por José Lopez de la Vega.


SERRANILLA

«Donde le dexas al tu buen amigo?

Donde le dexas al tu buen amado?

Ay, Juana, cuerpo garrido!

Ay, Juana, cuerpo galano!

—Muerto le dexo á la orilla del rio,

Dexole muerto á la orilla del vaio.

Ay, Juana, cuerpo garrido!

Ay, Juana, cuerpo galano!

«Canto me dás, volver he che le vivo?

Canto me dás, volver he che le sano?

Ay, Juana, cuerpo garrido!

Ay, Juana, cuerpo galano!

—Doyche las armas, y doyche el rocino

Doyche las armas, y doyche el caballo[64].

Ay, Juana, cuerpo garrido!

Ay, Juana, cuerpo galano!

NOTAS DE RODAPÉ:

[64] Ap. Baret, Les Troubadours, p. 208; compara este canto moderno com uma serranilha de el-rei D. Diniz.


VILANCENTE DO NADAL

1.º Pastor:—Toquen us gallegos,

E canten os cregus;

Toca galleguiño,

Que nace o deusiño,

2.º Pastor:—Eia, pues, tocae.

3.º Pastor:—Nun queru.

2.º Pastor:— Queru eu,

Que Deus pode bir

Por bispo de Tuy.

1.º Pastor:—Toquen as gaitas

Godois e Xan Ruy.

2.º Pastor:—Ao neno cantáe

A Deus festexae,

Folgae e folgae!

3.º Pastor:—Nun queru.

2.º Pastor:— Queru eu

Que Deus é gallego

Que nace entre bois.

1.º Pastor:—Toquen as gaitas

Xan Ruy e Godois.

Festexae en pas

U rei garridiño

Que viste d'armiño

2.º Pastor:—Nun cayas a dar

Voltas galleguiño,

Que chora o deusiño.

Todos:—Toquemos, bailemos

Xunto adoremos

O neno que vemos.

App.º 5 das Trovas e Cantares.


PLEGARIA A SAN ANTONIO

(Provincia de Lugo)

Ana, pariu á Santa Ana,

Santa Ana pariu á Virgen,

Señora Santa Isabel

Pariu á San Juan Bautista:

Asin como estas cousiñas son certas,

Meu señor San Antoniño de Padua,

Eu lle pido é lle suplico

Pol o libro en que leeu,

Pol o cordon que cingeu,

Pol a vision beatifica,

Eu lle pido e suplico

Que me libre á facendiña

De raposo é de raposa,

E de can é de cadela,

E de lobo é de lobella,

Con sete brazas darredor,

Meu señor San Antoniño de Padua.

Cun padre nuestro é unha ave-maria

A miña facendiña

Me gobernaria.

Gallicia, IV, 105.


San Antonio bendito,

Dádeme un home,

Anque me mate

Anque m'esfole.

Ap. Cantares gallegos, p. 71.


(De Lugo)

Arre cabaliño,

Vamos a Belen,

Que mañan é festa.

Pasado tamen.

Hoje é domingo

Mañan dia santo,

Y hoje me deito

Mañan me levanto.

Sale para fóra

Cara de macaco,

Tiroc'unha pedra,

Fagoch'un buraco.

Crou, crou,

Chocos meus ovos,

E logo vou

Crou, crou.

Galicia, IV, 107.


—Miñato miñato,

«Que levas no plato?

«Leite callado.

—Quen cho callou?

«Marica do rei.

—Cala, cala,

Que eu llo direi:


PARA AYUNTAR LA CHUVIA

Vaite chuvia,

Vente sol,

Pol os campos

D'arrebol.

Que te chama

Teu padriño,

Para arrolal o miniño,

Que che ha de dar,

Pan e viño.


Cando chove e fai sol

Anda o demo por Ferrol,

Con un saco dalfileres

Para pical as mulleres.


DICHOS COMMUNES

(Paroquia de Sola)

Amiguiñas de Miguel

Todas cargadas de mel,

E de mel e de maduro,

Ribirese don Gregorio del Mulo.

—¿Que hai n'aquel tellado?

«Un gato desfolado.

—¿Qué hai n'aquella artesa?

«Unha vella tesa.

—¿Qué hai n'aquela horta?

«Unha vella morta.

—¿Qué hai n'aquel buratiño?

«Unha campanilla.

—¿E como fai?

Tilin, tilin, tilin, tilin[65].


—Meu compadre veu?

«Veu.

—E que me trouxo?

«Un cordonsiño

—De que color?

«De verde limon.

Sopitaipon, de verde limon,

Sopitaipon.


Miña Santiña,

Miña Santasa,

Miña cariña

De calabasa.

—Que está na rua?

«Uma espada nua.

—Que está detraz da porta?

«Uma velha morta,

—Que está n'aquelle ninho?

«Um passarinho.

—Que está n'aquelle telhado?

«Um gato pingado.

—Vamos inchotal-o?

Sápe! sápe, sápe, sápe!

Ei de emprestarbos

Os meus pendentes,

Ei d'emprestarbos

O meu collar:

Ei d'emprestarcho

Cara bonita

Si me deprendes

A pentear.

Ap. Cantares Gallegos.

Fun ó muhiño,

D'o meu compadre,

Fun po-lo vento,

Vin pó-lo aire.

Isca d'ahi,

Galiña maldita,

Isca d'ahi

Nô me mate-la pinta.

Isca d'ahi

Galiña ladrona,

Isca d'ahi

Pra câs de tua dona.

Ibid.

NOTAS DE RODAPÉ:

[65] Variante portugueza: (Minho).


ADVINACIONES

(Poenteareas)

Chorin, chorin

Trás torre andaba,

Se a torre caia

Chorin se alegraba.


Fun ó monte

Prantei unha estaca,

E o tiroliro

Volven para a casa.


Vai para o monte

Mira pra casa,

Ven para casa

Mira pro monte.


No monte nace,

No monte se cria,

Chegando á casa

Nunca hai alegria.

Terra branca,

Semente negra,

Cinco aradores

E unha chabella.


Non está nado,

Nin por nacer,

Non é Dios,

E pode ser.


Alto pepino

Redondo molete,

Que chova, que neve,

Jamais se derrete.


Tacon sobre tacon,

E tacon do mismo pano,

Si no cho digo chora,

Non acertas en un ano.


Estudiante lareiro

Que estudias tras do lar,

¿Cando t'hei de ver lareiro

Dal a volta no altar?

Estudiante que estudias

No arte da theologia,

Dime, ¿que ave é aquella.

Que ten peitos e cria?


Que cousa é cousa

Que ten un dente,

E chama por toda a gente?


Calza de ferro,

Viste de liño,

E tirase cun garabulliño?


¿Qué cousa e que sempre anda;

E nunca chega á casa de seu dono?


Tres pés con croa,

Trepia son, tontona?


Qué cousa é cousa.

Que pon o cu na lousa?

La Gallicia, t. IV, 127.

Mingo, Mingacho

Cara de cacho,

Bico de ovella

¿Quén che mandou

Trebellar co a nena?

Agora a nena

Está barriguda;

Juntall'os ovos

Para a paridura.


(Tradição do Valle de Valeije)

Raposo, raposo

Do cu piolloso,

Non comal'o año

De Pedro Castaño,

Que vai na riveira

Buscal'a manteiga

Para a muller

Que esta parideira,

Na porta da eira

Cun fillo varon,

Chamado Anton,

E entre tamaño

Como un perillon.

Galicia, t. IV, p. 6.


(Pueblo de Orense)

Padre nuestro pequeniño

Lévame por bo camiño,

Aló fun, aló cheguei,

Tres Marias encontrei

Preguntando por Jesus,

E Jesu'staba na cruz,

E na cruz e no altar

Cos peiños a sangrar;

—Ténte, tente Madanela,

Non vos veñas lastimar;

Que estes son os traballiños

Que por vos ei de passar.

Ibid.


Santo que estás no canizo

Tira castañas abaixo;

Tira das mais graudiñas,

Que ás pequenas non me baixo.


San Amaro era xastre

Pero despois foi ladron,

Non houve xastre no mundo.

Que non roubase un calzon.


Unha vella fixo papas,

E o pote botonllas fóra,

Hay un ano que foi esto,

E ainda hoxe a vella chora.


Señor San Juan de ortorio,

Feito de pau d'ameneiro,

Primo carnal dos meus zocos,

Hirman do meu tabaqueiro.


A dar fé á un que morrera

Foy un escribano torto,

Mais él á poder de cruces

Fixo parolar ó morto.


As costureiras d'ahora,

Foron feitas ó sisel;

Son amiguiñas dos homes,

Como as avellas do mel.


O crego foi a o moiño,

Meteu a cabeza dentro,

Trouxo a fariña na croa,

Para facer o formento.

O crego foi ó moiño,

E caeu da ponte en baixo,

Acudi ó crego, nenas,

Que vai pol o rio abaixo.

Fun esta noite ó moiño,

C'un fato de nenas novas,

Elas todas en camisa,

Eu no medio con cirolas.


MÁRGENES DEL MIÑO

(Salvatierra e Albeos)

Meniña, ti el-o démo,

Que me andas atentando;

Que no rio, que na fonte,

Sempre te encontro lavando.

Eu ben cho dixeu, meniña,

Eu ben te desengañei,

Dixeuche que era casado,

¿Agora qué che farei?


Miña nai ten tres ovellas

Todas tres mas ha de dar.

Unha cega y outra coxa,

Y outra que non pode andar.

O casado casa quer,

O solteyro no lla dan,

O que hade ser casado

Ha de saber ganar pan.


Por amor de vosso galo

Treydora, mala viciña,

Por amor de vosso galo

Perdin a miña galiña.


Pol amor da vosa lengoa,

(Malo rayo ne la fenda)

Pol amor de vosa lengoa

Perdin a miña facenda[66].


Moreniño, moreniño,

Moreno como unha mora,

Non sei que tén o moreno

Que a todo o mundo namora.

O cura chamoume rosa,

Eu tamen lle respondin;

Desas rosas, señor cura,

Non as ten no seu jardin.

A Castilla van os homes,

A Castilla por ganar;

Castilla queda na terra

Para quen quer traballar.

Meniña, ponte direita,

Que teu pae te quer casar;

Ben direitiña me poño,

Que me non podo baixar.

Sardiñas frescas do mar,

Quén che me déra un milleiro,

Pantrigo de Rivadavia,

Nenas do chan d'Amoeiro.

Adios, casa de meu pai,

Con tódalas catro esquinas,

Que pra min já se acabaron

As entradas e salidas.


Teño unha nena no Porto,

Outra no Riveiro d'Avia;

Se a do Porto é bonita

A do Riveiro lle gana.

O Riveiro é alegre,

Polo tempo da vendima,

Que a vén faguer alegre

As nenas daló d'arriba.

Anque son daló d'arriba

Anque son da Carrasqueira,

Tamen sei bebei o viño

Como os guapos da Ribeira.

Cuidache porque era probe

Que já me tiñas na man;

Moitas cerdas ten un cocho

E non sai de marran.

A lua vae encuberta,

Con panos de tafetan;

Os ollos que me ben queren,

Nesta terra non están.

Casaivos, mozos, casaivos,

Que as nenas baratas van;

Vint'e cinco por un carto,

Fiadas hastra o San Juan.

NOTAS DE RODAPÉ:

[66] Colligidas de Elfrich, Aperçu des langues romaines, p. 38-39.


MÁRGENES DEL SAR

Tócan o tambor na guerra

Tócan o moi avivado;

¡Coitadiña da miniña

Que ten o amor soldado!

¡Canta rula, canta rula,

Canta rula naquelle souto!

Coitadiña da que espera

Polo que está na man d'outro!

Non me mate a pombiña

Que está no arró da eira,

Non me mates a pombiña,

Que foi miña compañeira.

Estrelíña do luceiro

Dame a tua craridade,

Quérolle seguir os pasos,

Ó meu galan que se vaye.

Heime de embarcar num barco

Nun barquiño de papel;

Andareime toda a vida,

Para ver ó meu Manuel.

SATIRICAS

Miña nai foi-me casar

Prometeume bois e vacas,

Cando me foi dal-o dote

Deume unha cunca de papas,

Sale para fóra

Cara de macaco,

Tiroch' unha pedra,

Fagoch' um buraco.

Sale para fóra,

Deixame pasar,

Tua nai é probre

Non ten que me dar.

A muller de Roquetroque,

Non ten faldra na camisa,

Si llo sabe Roquetroque,

Non se hade ter co a risa.

As señoras son bonitas,

Porque teñen almidon:

¡Quén mas dera ver na eira

Tirando polo ligon!

Se ti viras o que eu vin,

Indo pol-a carballeira,

Vinte e cinco xastres juntos

Cosendo n'unha monteira.

Se ti viras o que eu vin

O gato n'unha ventana

Tocando n'um violin.

Se ti viras o que eu vin,

Na feira de Monterroso,

Vinte e cinco estudiantes,

A cabalo d'un raposo.

Miña nai por me casar

Prometeume canto tiña,

Cando me foi dal o dote

Pagoume c'unha galiña.

A cama do crego é boa,

Mais no médio tén un ai!

A nena que n'ela dorme

Ó reino de Dios non vai.

Galicia, III, 242, 43.


Yo traijo tantos dobrones

Como en la mano de dedos,

Y la brona d'esta tierra

No la comerán los perros.

Teño tres cartos e medio

Mettidos nunh agulleiro,

Casa comigo rapaza

Que teño moito dinheiro.

Tráelo sombreiro torto

Bén-o podes pôr direito,

Que anque che son moreniña

Eu a ti non me sujeito.

Se fores a San Amaro

San Amaro de Barouta,

Se fores a San Amaro

Bailarás con pouca-roupa.

Bonitiña non cha sou,

De fea non teño nada,

Non me criou miña nai

Para ti, cara lavada.

Meu siñor San Adrian

É un santo miragroso

Pedinll'o un mozo bonito

Doum'un barbas de raposo.

Eu casar ben me casaba

Recear ben o receo,

Sinto d'andar preguntando

A como val'o centeo.

Caseime no mes d'Agosto

Porque habia muito pan,

O forno de miña sogra

Cria o fieito no vran.

Ainda che ei de botar unha

Inda che ei de botar outra,

Inda che ei de botar unha

Que che ha de queimal a roupa.

Por moiro que te presumas

Verbum caro factum és,

Non eres branco de cara

E eres trenco dos pés.

Adios ti, Pontenafonso,

Non sei quen te acabará...

Trinta anos me levache

Flor da miña mocedá!

Alalala, lala, lala

Alalala, lala, lá.....

Galicia, III, 218.


REDEDOR DE SAN ORENTE

O cantar bergantiñan,

O cantar de Bergantiños

En Iallas é malhian.

Manoeliño do vento,

Quen me dera a min saber

Donde tel-o pensamento!

Tamen o gardar é bo!

Sombreiro que o navio leva

Era do pai do abó.

Jacobiño de Fontan

Quen che cobízal a morte

Veñall' a sua, mañán.

Tomasiña do Gamallo,

Se non me caso contigo

Nunca me verás casado.

Adios meu diamante,

Joguei contigo e perdin.


O galo canta co o dia

Erguete meu ben e vaite;

¿Como me hei d'ir miña vida,

Como me hei d'ir e deixarte?

Galicia, III, 98.


Nós d'acá, e vós d'alá

Somos tantos como vos;

Nos comemos ó carneiro,

Os cornos son para vós.


Señora Santa Lucia

A do rio do Piñeiro,

Tende conta co'a ermita

Que non a leve o regueiro.

Miña nai doume unha tunda

Co aro d'unha peneira,

Miña nai tende vergonza

Da gente que ven da feira.


En ben vin estar ó crego

Tendendo nos cuiriños;

Dixeu entre Dios e min:

Este crego ten miniños.


Se queres que vaya é veña,

De noite pol o lugar,

Manda cerrar a cadela

Que non fai sinon ladrar.


O crego cando namora

Logo promete almendriñas;

Namorai, namorai cregos,

Que vos nasan as nacidas.


Hei de vír e hei de ir

Fala no cha hei de dar;

Heite de facer moer,

Como os barqueiros no mar.

Eu arrolei a miniña

Eu arrolei o amor,

Eu arrolei a rapoza

Outro levoulle o mellor.


Antoniño, Antoniño,

Antoniño, meu amor,

Antoniño queridiño,

¿Quén che levou o color?


Antoniño, gaxo de uvas,

Vámoste depenicar,

Eres amigo das mozas

Tua nai vaite matar.


A miña muller é bella

De bella non hade andar;

Heina de por de cancela

No portelo do lugar.


O zapato quel a media,

A media quel o zapato,

Tamen á guapa meniña

Quer un rapaciño guapo.

Asnos de vir á ver,

Asnos de vir á buscar,

Cantararnos, tocararnos

Sacararnos á bailar.


Manuel, Manueliño,

Manuel feito de cera,

¿Quen me dera ser o lume

Que á Manuel derretera.


As mulleres que son boas

Dios lle dé boa fortuna;

Sarna con dolor de moas,

Ortigas pol a cintura.


Heicho de dar quiridiña

Heicho de dar que o teño,

Heicho de dar queridiña,

O anillo do meu dedo.


Mariquiña da forneira

Onte tua nai coceu,

Dame un bocado de bola

Pol a nai que te pareu.

Mariquiña da forneira

Se coceres faíme un bolo,

Se mo fai, faimo de trigo,

Que centeo non cho como.


Arriba pandero roto,

Arriba manta mollada,

Que donde estámol os homes

As nenas non valen nada.


Meniña, dille á teu pai

Que se veña ver conmigo,

Tanto é o que me debe,

Que non me paga contigo.


Aloméame, aloméa

Estrelliña, da fertura,

Aloméame, aloméa

Mentras que non ven a lua.


Non chas quero, non chas quero

Navizas do teu naval;

Non chas quero, non chas quero,

Que me poden facer mal.

Catro aves escollidas

Son as que pasan o mar,

O cuco e a golondrina,

A rula e o paspallás.


A muller que ha de ser miña

Ha de ter o cu de pau,

A barriga de cortizo

E o nariz de bacaláo.


A miña muller é bella,

Heille de sacar o coiro,

Para facer un pandeiro

Para correr o antroido.


Amoriño non desprecies

O probe pol o non ter,

Que o rico pode faltar,

E o probe non te querer.


Teño unha vaca á ganancia

Que me deu o vinculeiro,

Mais sobre todo, rapaza,

Teñoche moito diñeiro.

Achegate, dalle un bico

En señal de casamento;

Achegate que é ben rico

Non no deixes descontento.


Baila quedo, baila quedo,

Non me raches o mantelo,

Coidaches que era de pana

E echo de terciopelo.


Mellor quero ser pereira

E dar peras e reperas,

Do que ser a dama d'un xastre

Que non ten sinon gadellas.


Catro cartos para pan,

Tres e medio para viño,

Un carto para tabaco

Alá bai un realiño.


O primeiro amor que eu teña

Hade ser d'un militar;

Que anque non teña diñeiro

Ten un polidiño andar.

Alá arriba non sei donde

Dicen hay non sei que santo, etc.


Indo eu non sei por donde

Encontrei non sei con quen,

Na porta do xame esquence,

Non llo digas á nínguen.


Vinde ver o dote

Que me dou meu sogro,

Unha cabra cega

E un carnero tolo.


Rapaciños de Castilla

Tratade ben os gallegos;

Cando van, van como rosas,

Cando ven, ven como negros.

Galicia, IV, 109.


Tocan o tambor na guerra,

Tócano mui avivado;

¡Ai probiña da miniña

Que ten o amor soldado.

Vexo Vigo, vexo Cangas,

Tamen vexo a Redondela;

Vexo a ponte de San Payo,

Camiño da miña terra.


Non hay cantiga no mundo,

Que non teña seu refran,

Nunca ningueu faga conta

Senon do que ten na man[67].


As de cantar

Que ch'ei de dar zonchos;

As de cantar

Que ch'ei de dar moitos.

O meu corazon che mando,

C'unha chave par'o abrir,

Nin eu teño mais que darche,

Nin ti mais que me pedir.

Cantan os galos pr'o dia,

Érgue-te, meu ben, e vaite.

—Como m'ei d'ir, queridiña,

Como m'ei d'ir e deixarte?

Nosa Señora da Barca

Ten o tellado de pedra;

Ben o pudera ter d'ouro,

Miña Virxe, si quixera.

Con esta miña gaitiña

As nenas ei d'enganar,

Non sean elas toliñas,

Non veñan ô meu tocar.

Adios rios, adios fontes,

Adios regatos pequenos,

Adios vista dos meus ollos,

Non sei cando nos veremos.

Eu ben vin estar o moucho

Enriba d'aquel penedo:

Non che teño medo, moucho,

Moucho, non che teño medo!

Anque ché son da montaña,

Anque ché son montañesa,

Anque ché son, non me pesa.

Si ó mar tibera barandas

Forate ver á o Brasil;

Mais ó mar ten barandas,

Amor meu, por dond'ei d'ir?

Hora, meu meniño, hora,

Quen vos ha de dar á teta?

Si tua nay vay no muhiño,

E teu pai na leña seca?

Mais ó que ben quixo un dia,

Si a querer ten aficion,

Sempre lle queda unha magoa

Dentro do seu coraçon.

Á rula que viudou

Xurou de non ser casada,

Nin pousar en ramo verde,

Nin beber d'augua crara.

Ahi tés ó meu coraçon

Si ó queres matar ben podes,

Pero como estás ti dentro,

Tamen sí ti ó matas, mórres.

Como chove mihudiño

Como mihudiño chove;

Póla banda de Laiño,

Póla banda de Lestrobe.

Miña santa Margarida,

Miña Margarida santa,

Tendes a casa no monte,

Donde ó paxariño canta.

Ap. Cantares gallegos.


Non quero zapatos curtos

Porque s'enterran n'aréa,

Non quero amores d'afóra

Porque xa os teño na aldeã.

NOTAS DE RODAPÉ:

[67] Ap. Elfrich, op. cit. 38.

FIM.

INDICE
PARNASO PORTUGUEZ MODERNO

Da Poesia portugueza moderna—suas transformaçõese destinos [I-LXIV]
PARTE I
OS LYRICOS PORTUGUEZES
Almeida Garrett:
Os cinco sentidos [3]
Retrato [4]
Vibora [6]
Este inferno de amar [7]
Quando eu sonhava [7]
Cascaes [8]
Destino [11]
Não és tu [12]
Goso e dôr [13]
A. F. de Castilho:
Eu, Antão Verissimo e a Môsca [14]
Alexandre Herculano:
Mocidade e morte [18]
João de Lemos:
A Lua de Londres [26]
D. João de Azevedo:
A vida [29]
A. X. Rodrigues Cordeiro:
Tasso no Hospital dos doidos [30]
Luiz Augusto Palmeirim:
Luiz de Camões [34]
Augusto Lima:
Infancia e miseria [38]
Ás estrellas [41]
A. A. Soares de Passos:
O Firmamento [42]
Anhelos [47]
S.:
Uma Phantasia de Thalberg [50]
Alexandre Braga:
Ao Sol [51]
I. S. da Silva Ferraz:
Hymno á Lua [56]
A. C. Louzada:
A vida [59]
Henrique Augusto:
A filha da moleira [60]
Augusto Luso:
A troca da minha lyra [63]
Julio Diniz (Gomes Coelho):
A esmola do pobre [65]
Visconde de Azevedo:
Portugal velho no seculo xix [67]
J. S. Mendes Leal:
Ave! Cæsar [70]
R. de Bulhão Pato:
Se córas não conto [76]
Ernesto Marecos:
O doido [78]
Thomaz Ribeiro:
Morta [82]
João de Deus:
A vida [84]
Adoração [91]
Sympathia [92]
A cigarra e a formiga [93]
O dinheiro [94]
Amores... amores [96]
Anthero de Quental:
A sombra [98]
Distico [99]
Outro [100]
Versos escriptos na margem d'um Missal [100]
Theophilo Braga:
Onda viva [103]
O sepulchro de Virgilio [106]
Phrase de Miguel Angelo [110]
O Prisioneiro [111]
Napoleão moribundo [113]
Guilherme Braga:
As Mães [121]
Amigos [122]
Legnel de Sampaio:
Platão [123]
Alexandre da Conceição:
N'um tumulo [125]
Dilemma [126]
J. Simões Dias:
Sic transit [127]
Guerra Junqueiro:
A benção da Locomotiva [128]
O Urso branco [129]
João Penha:
Novo Petrarcha [131]
To be, or not to be [132]
Alberto Telles:
Stella Maria [133]
Distico [136]
Santos Valente:
Soneto [136]
Guilherme de Azevedo:
Falla a Ordem [137]
Soneto [137]
Sousa Viterbo:
A Republica [138]
Hetairas [139]
Ao Sol [140]
Candido de Figueiredo:
Trévas [141]
Gomes Leal:
Ouro [142]
A Canalha [143]
Bettencourt Rodrigues:
Ao combate [147]
Claudio José Nunes:
Um Heroe [150]
Luiz de Campos:
Esposa, filha e mãe [152]
PARTE II
OS LYRICOS BRAZILEIROS
Alvares de Azevedo:
Sonhando [157]
Soneto [160]
Lembrança de morrer [»]
No dia do enterro de *** [162]
Trindade [165]
Se eu moresse ámanhã [166]
Gonçalves Dias:
Pedido [167]
Lyra [168]
O Somno [169]
Meu anjo escuta [170]
Casimiro de Abreu:
Amor e medo [172]
Na rêde [174]
Junqueira Freire:
Martyrio [176]
Tambem ella [177]
Gonçalves Magalhães:
A flor Suspiro [179]
Fagundes Varella:
Lyra [180]
O mesmo [181]
Serenata [182]
Estancias [184]
O canto dos Sabiás [186]
Castro Alves:
O adeus de Thereza [188]
Immensis orbibus anguis [190]
Quando eu morrer [192]
Os perfumes [193]
Joaquim Serra:
Rasto de sangue [195]
A minha Madona [197]
Sousa Pinto:
As duas Escravas [198]
Bernardo Guimarães:
Cantiga [200]
Machado Assis:
Quando ella falla [202]
O leque [203]
Bruno de Seabra:
Laura [204]
Lucio de Mendonça:
A protecção dos reis [206]
Narcisa Amalia:
Fragmentos [207]
Bettencourt Sampaio:
Ai de mim [208]
Dias Carneiro:
A — [209]
Vieira de Sousa:
O passeio [211]
F. de Mattos:Meus anhelos [213]
Franco de Sá:
Um amor [214]
Quem sabe? talvel? [215]
Filgueiras Sobrinho:
O amor um dia nos prendeu, querida [217]
Gonçalves Crespo:
A sésta [219]
Quirino dos Santos:
O filho da lavandeira [221]
Octaviano Hudson:
As crianças [223]
Cantos populares brazileiros:
I Chacara do Cego (Ceará) [225]
II Chacara de D. Jorge (Ceará) [227]
III Chacara de Flores-Bella (Ceará) [229]
Lunduns e Modinhas (Pará, etc.) [232]
Batuque dos Cururueiros (Cuyabá) [235]
Desafio dos Cururueiros (Cuyabá) [»]
Chula (Ceará) [237]
Sarabanda (Ceará) [238]
PARTE III
OS LYRICOS GALLEGOS
D. Rosalia Castro de Murguía:
Airiños, airiños, aires [243]
Cantar gallego [247]
Cantan os gallos pr'ó dia [249]
Un repoludo gaitero [252]
Alberto Camino:
O desconsolo [254]
Valentin Carvajal:
O Alalalaa [256]
Doora [259]
A carta d'á guerra [260]
Quen poidera chorar [262]
Doora [263]
Ruiz Aguilera:
Preludio [264]
Cantos populares gallegos:
I Nadal (Tuy) [268]
II A morte de Xesus (Tuy) [269]
III Romance de un Mauregato (Puente de Domingo-Flores) [271]
VI Picaresco [272]
A serra do Raño [274]
As tres Comadres [277]
Serranilla [279]
Vilancete do Nadai [280]
Plegaria a S. Antonio [281]
Perlengas [283]
Dichos communes [284]
Adiviñaciones [287]
Jogos e Plegarias [290]
Márgenes del Miño [293]
Márgenes del Sar [296]
Satiricas [297]
Rededor de San Orente [301]
Serenatas con alalalaa [302]

ERRATAS

PAG.VERSOERROEMENDA
[20] 16 apodrerido apodrecido
[108] 20 Longe Longo
[110] 1 Da tua Da
[118] 13 Impossivel Impassivel
[119] 24 jocundot jocundo,
[127] 13 perguntou pergunto
[130] 16 trigues tigres
[132] 15 em que
[181] 3 na no
[190]4 calibri colibri

Algumas edições da Livraria Editora GUIMARÃES & C.ª

ANDRÉ MAUROIS

Duas Almas 6$00

ALFREDO MACHARD

A Mulher de uma Noite 6$00
Pimpim e Ninette 8$00
O Idolo das Mulheres 8$00

HENRY GREVILLE

Romance de uma Rapariga Russa 6$00

BERNARDIM RIBEIRO

Saüdades (Menina e Moça) 6$00

IRENE NÉMIROWSKY

O Dinheiro 6$00

FRANÇOIS MAURIAC

O Deserto do Amor 6$00

JERÔME e JEAN TAHRAUD

O Oásis 6$00

ALEXANDRE DUMAS (Filho)

A Dama das Camélias 6$00
A vida aos 20 anos 5$00

H. GARNIER

Mãe Antiga, Filha Moderna 6$00

DAUDET

Sapho 6$00
Fromont Junior 5$00

GOETHE

Werther 5$00

TERRAIL

O Capitão C 5$00
O Cavaleiro Negro 5$00
O Pagem de Luiz XIV 5$00
Memórias dum gendarme 8$00

TOLSTOI

O Canto do Cisne 6$00
A Sonata de Kreutzer 6$00

ALEXANDRE DUMAS

Napoleão 6$00
Os Três Mosqueteiros 20$00
Vinte anos depois 20$00
O Conde de Monte Cristo 20$00
A Mão do Finado 10$00
A Túlipa Negra 5$00
Uma Aventura de Amor 5$00

MEMÓRIAS DUM MÉDICO

1.ª parte: José Bálsamo, 8 vols. 40$00
2.ª parte: O Colar da Rainha, 4 vols. 20$00
3.ª parte: Angelo Pitou, 4 vols. 20$00
4.ª parte: A Condessa de Charny, 8 vols. 40$00
5.ª parte: O Cavaleiro Casa Vermelha, 2 vols. 10$00

ESCRICH

O Milionário 5$00
História dum Beijo 5$00
Sacrifício de Amor 5$00
O Cura de Aldeia 15$00
O Anjo da Guarda 15$00
O Casaca Azul 10$00
A Mulher Adúltera 10$00
Sandoval, o Maritimo 10$00

JORGE OHNET

O Dr. Rameau 6$00
Sérgio Panine 6$00
Corações Doloridos 6$00

HALEVY

O Abade Constantino 5$00

CONSCIENCE

A Sepultura de Ferro 5$00

ROSNY

O Testamento Roubado 5$00

PIERRE LOTTI

Pescador da Islândia 6$00
As Desencantadas 8$00

SILVA GAIO

Mário 12$00

CORTAMBERT

Um Drama no Fundo do Mar 5$00

HENRIOT

O Anjo do Lar 6$00

LAMARTINE

Graziela 5$00