TRABALHADORES DO MAR
POR
VICTOR HUGO
traduzido por Machado de Assis
RIO DE JANEIRO
TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.
[Indice]
[PRIMEIRA PARTE]
O Sr. Clubin.
Dedico este livro ao rochedo de hospitalidade e de liberdade, a este canto da velha terra normanda onde vive o nobre e pequeno povo do mar, á ilha de Guernesey, severa e branda, meu actual asylo, meu provavel tumulo.
V. H.
A religião, a sociedade, a natureza: taes são as tres lutas do homem. Estas tres lutas são ao mesmo tempo as suas tres necessidades; precisa crer, dahi o templo; precisa crear, dahi a cidade; precisa viver, dahi a charrua e o navio. Mas ha tres guerras nestas tres soluções. Sahe de todas a mysteriosa difficuldade da vida. O homem tem de lutar com o obstaculo sob a forma superstição, sob a fórma preconceito e sob a fórma elemento. Triplice ananke pesa sobre nós, o ananke dos dogmas, o ananke das leis, o ananke das cousas. Na Notre Dame de Paris, o autor denunciou o primeiro; nos Miseraveis, mostrou o segundo; neste livro indica o terceiro.
A estas tres fatalidades que envolvem o homem junta-se a fatalidade interior, o ananke supremo, o coração humano.
Hauteville-House, março de 1866.
[LIVRO PRIMEIRO]
Elementos de uma má reputação
[I]
PALAVRA ESCRIPTA EM UMA PAGINA BRANCA
O christmas (Natal) de 182* foi notavel em Guernesey. Cahio neve naquelle dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que ha neve, é memoravel: a neve é um acontecimento.
Naquella manhã de christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre Port au Valle assemelhava-se a um lençol branco: nevára desde a meia noite até o romper do dia.
Pelas nove horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda occasião dos anglicanos irem á igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos á capella Eldad, o caminho estava quasi deserto. Na parte da estrada comprehendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas tres viandantes, um menino, um homem e uma mulher.
Estes tres viandantes, caminhando separados, uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito annos parára e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atras da mulher, uns cem passos, dirigia-se como ella, para o lado de Saint-Sampson.
Era elle moço ainda e parecia ser operario ou marinheiro. Vestia as roupas ordinarias, isto é, uma grossa camisa de panno escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apezar da festa, não iria á igreja. Os grossos sapatos de couro crú e solas taixadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.
A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir á igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listas brancas e côr de rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomal-a-hiam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquella graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescencia, a mistura dos dous crepusculos, o principio de uma mulher e o fim de uma menina.
O homem não reparava nella.
De subito, perto de uma mouta de azinheiras, que fórma o angulo de uma horta rustica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a attenção do homem.
Parou, pareceu reparar nelle um instante, abaixou-se, e o homem julgou vêl-a escrever com o dedo alguma cousa na neve. Levantou-se e poz-se de novo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desappareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao castello de Lierre. O homem, quando ella se voltou pela segunda vez, reconheceu Deruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentio necessidade alguma de appressar o passo.
Alguns instantes depois estava junto á mouta de azinheiras no angulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provavel que se nessa occasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente tinha os olhos baixos, e assim os levou machinalmente ao lugar em que parára a menina. Dous pésinhos ahi estavam impressos e ao lado delles a palavra escripta por ella: Gilliatt.
Era este o nome delle.
Chamava-se Gilliatt.
Ficou por muito tempo immovel, contemplando o nome, os pésinhos, a neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.
[II]
O TUTÚ DA RUA
Gilliatt residia na parochia de Saint-Sampson, onde não era estimado e havia razões para isso.
Em primeiro lugar, morava em uma casa mal assombrada.
Acontece algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e até na cidade, que, ao passar por um lugar deserto ou por uma rua muito habitada, vê-se uma casa, cuja entrada está obstruida. O azevinho cresce á porta, as janellas do rez do chão estão fechadas por feios emplastros de taboas pregadas; as dos andares superiores estão fechadas e abertas ao mesmo tempo: ha ferrôlhos, mas não ha vidros. No pateo, se o ha, alastra-se a herva e cahem os muros; se ha jardim, nascem a ortiga, o espinheiro, a cicuta; raros insectos esvoaçam. Racham-se as chaminés, o tecto se abate; o que se vê dos quartos está arruinado, a madeira podre, a pedra carcomida; cahe o papel das paredes. Pode-se estudar ahi os antigos gostos do papel pintado, os gryphos do imperio, as sanefas em fórma de crescente do Directorio, os balaustres e cippos de Luiz XVI. A espessura das téas de aranha, cheias de moscas, indicam a profunda tranquillidade em que vivem aquelles insectos. Algumas vezes vê-se um pucaro quebrado sobre uma taboa.
É uma casa mal assombrada. O diabo apparece lá durante a noite.
A casa, como o homem, pode tornar-se cadaver; basta que uma superstição a mate. Então é terrivel.
Essas casas mortas não são raras nas ilhas da Mancha.
As populações campesinas e maritimas não vivem tranquillas a respeito do diabo. As da Mancha, archipelago inglez e littoral francez, tem a respeito delle noções muito precisas. O diabo possue delegados por todo mundo. É certo que Belphegor é embaixador do inferno em França, Hutgin na Italia, Belial na Turquia, Thamuz na Hespanha, Martinet na Suissa e Mammon na Inglaterra. Satanaz é um imperador, como outro qualquer. Satanaz Cesar. A casa delle é muito bem servida: Dagon é o saquetario; Succor Benoth, chefe dos eunuchos; Asmodeu, banqueiro dos jogos; Kobal, director do theatro; Verdelet, grão-mestre de ceremonias e Nybbas bobo. Wiérus, homem de sciencia, bom estrygologo e demonographo distincto, chama Nybbas—o grande parodista.
Os pescadores normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando andam no mar, por causa das artes do diabo. Por muito tempo acreditou-se que S. Maclou habitava o grande rochedo quadrado Ortach, situado ao largo entre Aurigny e Casquets, e muitos velhos marinheiros de outros tempos affirmavam tel-o visto não poucas vezes sentado e lendo um livro. Por isso os maritimos, quando passavam, ajoelhavam-se muitas vezes diante do rochedo Ortach, até que um dia dissipou-se a fabula e esclareceu-se a verdade. Descobrio-se e sabe-se hoje que quem habita aquelle rochedo não é um santo, mas sim um diabo, chamado Jochmus, que por muitos seculos teve a malicia de fazer-se passar por S. Maclou. Demais, a propria igreja cahe em taes enganos. Os diabos Raguhel, Oribel e Tobiel foram santos, até que em 745 o papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro, deitou-os fóra. Para fazer taes expulsões, que são muito uteis, é necessario ser muito conhecedor de diabos.
Conta a gente velha da terra, mas estes casos pertencem ao seculo passado, que a população catholica do archipelago normando estivera outr'ora, bem a seu pezar, mais em communicação com o diabo do que a população huguenote. Ignoramos a razão, mas a verdade é que a minoria catholica andou outr'ora muito incommodada por elle.
Affeiçoára-se aos catholicos e procurava frequental-os, o que leva a crer que o diabo é antes catholico que protestante.
Uma de suas mais insupportaveis liberdades era visitar á noite os leitos conjugaes catholicos, quando os maridos dormiam de todo, e as mulheres, a meio. Disto resultavam equivocos. Patouillet pensava que Voltaire nascera assim. Não é inverosimil. É caso perfeitamente conhecido e descripto nos formularios de exorcismo sob o titulo de erroribus nocturnis et de semine diabolorum.
O diabo fez violencias destas especialmente em Saint-Hélier, em fins do seculo passado: é provavel que para punição dos crimes da revolução. As consequencias dos excessos revolucionarios são incalculaveis. Fosse como fosse, essa apparição possivel do demonio durante a noite, quando reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheres orthodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é cousa agradavel. Uma dellas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de desfazer-se em tempo o quiproquo. O confessor respondeu: para saber se está com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a cabeça e se encontrar pontas, pode estar certa....—de que? perguntou a mulher.
A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal assombrada e já não era; portanto, tornava-se mais suspeita; é sabido que, quando um feiticeiro vem habitar uma casa visitada pelo diabo, este, julgando-a bem guardada, tem a delicadeza de não voltar, salvo o caso de ser chamado, como medico.
Chamava-se a casa 0 tutú da rua. Era situada na ponta de uma lingua de terra ou antes de rochedo, que formava uma pequena angra de bastante profundidade na enseada de Houmet Paradis. A casa estava sósinha nessa ponta, quasi fora da ilha, tendo apenas a terra sufficiente para um pequeno jardim ás vezes inundado por occasião das aguas vivas.
Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis ha uma grande coluna, sobre a qual levanta-se um amontoado de torres e de hera chamado o castello do Valle ou do Archanjo, de sorte que de Saint-Sampson não se via o tutú da rua.
Não são raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a profissão em certas parochias, apezar de vivermos no seculo dezenove. Praticam acções verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro. Colhem hervas á meia noite. Olham de travez para o gado. Consultam-n'os; elles mandam buscar em garrafas a agua dos doentes, e dizem em voz baixa: a agua parece bem triste. Affirmou um feiticeiro em Março de 1857, que na agua de um doente havia sete diabos. São temidos e temiveis. Ha pouco tempo um delles enfeitiçou um padeiro e mais o forno. Outro tem a perversidade de fechar e lacrar uma porção de sobrecartas, sem haver nada dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de uma taboa, tres garrafas com um B em cada uma. Estes factos monstruosos são conhecidos. Alguns feiticeiros são complacentes, e por dous ou tres guinéos incumbem-se de soffrer as nossas molestias. Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto elles se estorcem diz o doente: «E esta! já estou bom!» Outros curam todas as molestias amarrando um lenço ao redor do corpo do doente. É um remedio tão simples que admira não se ter ainda ninguem lembrado delle.
No seculo passado o tribunal real de Guernesey collocava-os sobre uma porção de achas de lenha e queimava-os vivos. Presentemente condemna-os a oito semanas de prisão, quatro a pão e agua e quatro no segredo, alternando. Amant alterna catenœ.
A ultima queima de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo theatro do espectaculo a praça de Bordage, que de 1565 a 1700 vio queimarem-se onze feiticeiros. Em geral esses culpados confessavam seus crimes: eram para isso ajudados pela tortura.
A praça de Bordage prestou serviços á sociedade e á religião. Queimaram-se ahi os hereticos. No tempo de Maria Tudor, entre outros huguenotes, queimou-se uma mãe e duas filhas: a mãe chamava-se Perrotine Massy. Uma das filhas estava gravida e teve o successo sobre o brazeiro.
A chronica diz: Arrebentou-lhe o ventre. Sahio desse ventre um menino vivo; o recem-nascido rolou na fogueira, um tal House apanhou-o. O bailio, Helier Grosselin, bom catholico, mandou atirar a criança ao fogo.
[III]
PARA TUA MULHER, QUANDO TE CASARES
Voltemos a Gilliatt.
Contava-se na terra que uma mulher, tendo comsigo um menino, viera em fins da revolução habitar Guernesey. Era ingleza, ou talvez franceza. O nome della, qualquer que fosse, a pronuncia guernesiana e a orthographia dos camponezes transformaram em Gilliatt. Vivia sosinha com o menino, que, diziam uns, era seu sobrinho, outros, filho, outros neto e, outros, cousa nenhuma. Possuia um dinheirinho, de que vivia pobremente. Comprara um pedaço de terra na Sergentée e outro em Roque-Crespel, perto de Rocquaine. A casa tutú da rua, estava nesse tempo mal assombrada. Havia mais de trinta annos que ninguem morava nella. Cahia aos pedaços. O jardim sempre innundado pelo mar, já nada produzia.
Além dos ruidos nocturnos e das luzes, a casa era particularmente atterradora por isto: se á noite se deixava sobre a lareira um novello de lã, agulhas e um prato cheio de sopa, no dia seguinte de manhã encontrava-se a sopa comida, o prato vasio e um par de luvas feito. Poz-se á venda aquelle pardieiro com o diabo, que estava dentro, por algumas libras esterlinas. Aquella mulher comprou-o, evidentemente tentada pelo diabo. Ou pela barateza.
Fez mais do que compra-lo, foi morar lá com o filho, e desde então a casa socegou. Esta casa achou o que queria, dizia a gente da terra. Cessaram as apparições. Já se não ouvia gritos ao romper do dia. Já não havia outra luz além do sebo acendido á noite pela boa mulher. Vela de feiticeira vale a tocha do diabo.
Esta explicação satisfez o publico.
A mulher utilisava o quarto de geira de terra que possuia. Tinha uma boa vacca de cujo leite fazia manteiga. Colhia frutas e batatas Golden Drops. Vendia como qualquer outra pessoa, hervas, cebolas e favas. Não costumava ir ao mercado vender a sua colheita, mandava-a por Guilbert Falliot. O registro de Falliot mostra que elle vendeu para ella uma vez doze alqueires de batatas chamadas de tres mezes, das mais temporãs.
Fizeram-se na casa apenas os reparos necessarios para se poder habitar nella. Só chovia nos quartos quando fazia muito máo tempo. Compunha-se de dous pavimentos, um rez do chão, e um celleiro. No terreo havia tres salas; dormia-se em duas, comia-se na terceira. Subia-se ao celleiro por uma escada. A mulher cozinhava e ensinava a lêr ao filho. Nunca ia á igreja, e isto, depois de muito considerado, sendo para que a declarassem franceza. Não ir a parte alguma, é cousa grave.
Em summa, era gente que nada inculcáva.
É provavel que fosse franceza. Os vulcões arrojam pedras, as revoluções homens. Espalham-se familias a grandes distancias, deslocam-se os destinos, separam-se os grupos disperos ás migalhas; cahe gente das nuvens, uns na Allemanha, outros na Inglaterra, outros na America. Pasmam os naturaes dos paizes. Donde vem estes desconhecidos? Foi aquelle vesuvio, que fumega além, que os expellio de si. Dam-se nomes a esses aerolithos, a esses individuos expulsos e perdidos, a esses eliminados da sorte; chamam-nos emigrados, refugiados, aventureiros. Se ficam, toleram-nos: alegram-se quando elles vão embora. Algumas vezes são entes absolutamente inoffensivos, estranhos, as mulheres ao menos, aos acontecimentos, que os proscreveram, não tendo rancores nem colera, projectis contra a vontade, espantadissimos de o serem. Enraizam-se como podem. Não faziam mal a ninguem e não comprehendem o que lhes acontece. Vi um dia uma pobre mouta de hervas atirada aos ares pela explosão de uma mina. A revolução franceza, mais do que nenhuma explosão, fez desses jactos longinquos.
A mulher, que em Guernesey era conhecida pela Gilliatt, foi talvez aquella mouta de herva.
Envelheceu a mulher. Cresceu o menino. Viviam ambos sós; todos fugiam delles mas elles bastavam-se a si proprios. Loba e filhote lambem-se mutuamente. Foi esta uma das formulas que lhes applicou a benevolencia da visinhança.
O menino tornou-se adolescente, o adolescente homem, e então, devendo cahirem sempre as velhas crostas da vida, a mãe veio a fallecer. Constava a herança das terras da Sergentée e da Roque-Crespel, da casa mal assombrada, e mais, diz o inventario official, de cem guinéos de ouro, dentro de um pé de meia. A casa estava mobiliada com duas arcas de carvalho, duas camas, seis cadeiras, uma mesa e os utensilios necessarios. Havia em cima de uma taboa uns poucos de livros, e a um canto uma canastra, que nada tinha de mysteriosa, e que devia ser aberta na occasião do inventario. A canastra era de couro ruivo, cheio de arabescos de pregos de cobre e estrellas de estanho, e continha um enxoval de mulher, novo e completo, de excellente linho de Dunkerque, camisa e saia, cortes de vestidos de seda e em cima de tudo um papel escripto pela finada:—Para tua mulher quando te casares.
A morte da mãe acabrunhou o filho. Era rustico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vacuo. Quando ha duas creaturas, a vida é possivel. Havendo uma só, parece que nem se póde arrasta-la. Renuncia-se a ella. É a primeira fórma do desespero. Mais tarde comprehende-se que o dever é uma serie de acceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na ultima. Mas é um consentimento que sangra.
Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturou-se á natureza em redor delle, tornou-se uma especie de encanto, attrahio-o para perto das cousas e longe dos homens, e amalgamou cada vez mais aquella alma e a solidão.
[IV]
IMPOPULARIDADE
Já o dissemos. Gilliatt não era estimado na parochia. Antipathia natural. Sobravam motivos. O primeiro acabamos de explica-lo, era a casa em que morava. Depois, a origem delle. Quem era aquella mulher? E este menino? A gente não gosta de enigmas a respeito de estrangeiros. Depois, trajava uma roupa de operario, tendo aliás com que viver, embora não fosse rico. Depois, o jardim, que elle conseguia cultivar e donde colhia batatas apezar dos ventos do equinoxio. Depois, os alfarrabios que elle lia.
Outras razões ainda.
Porque motivo vivia solitario? A casa mal assombrada era uma especie de lazareto; conservavam Gilliatt em quarentena; deste modo era muito simples que o seu isolamento causasse espanto, e o responsabilisassem pela solidão, em que o deixavam.
Nunca ia á igreja. Sahia muitas vezes á noite. Fallava aos feiticeiros. Uma vez viram-n'o sentado sobre a relva com ar espantado. Frequentava o dolmen do Ancresse e as pedras fatidicas que existem espalhadas pelo campo. Havia quasi certeza de terem-n'o visto comprimentar polidamente a Rocha que canta. Comprava todos os passaros, que lhe levavam, e soltava-os. Era civil para com as pessoas das ruas de Saint-Sampson, mas preferia dar uma volta para não passar por lá. Pescava muitas vezes e sempre: apanhava peixe. Trabalhava no jardim aos domingos. Tinha um bug-pipe (especie de samphona) que comprara a uns soldados escossezes, ao passarem por Guernesey, e tocava nella sobre os rochedos, á beira do mar, ao cahir da noite. Gesticulava como um semeador. Que virá a ser uma terra com um homem destes?
Quanto aos livros, que haviam pertencido á mulher finada, esses eram assustadores. Quando o reverendo Jaquemin Herodes, cura de Saint-Sampson, entrou na casa para encommendar a mulher, leu no lombo desses livros os titulos seguintes: Diccionario de Rosier, Candido, por Voltaire; Aviso ao povo acerca da sua saude, por Tissot. Dissera um fidalgo francez, emigrado, retirado em Saint-Sampson que aquelle Tissot devia ser o que carregou a cabeça da princeza à Lamballe.
O reverendo notou n'um dos livros este titulo verdadeiramente extravagante e ameaçador: De Ruibarbaro.
Cumpre observar que, sendo a obra escripta em latim, como indica o titulo, era duvidoso que Gilliatt, que não sabia latim, lesse aquella obra.
Mas são exactamente os livros que a gente não lê, os que mais condemnam. A inquisição de Hespanha julgou esse caso, e pô-lo fora de duvida.
Demais, o livro era o tratado do doutor Tilingius sobre o ruibarbo, publicado na Allemanha em 1679.
Não havia certeza de que Gilliatt não fizesse bruxarias, philtros e sortilegios. Tinha frascos em casa.
Porque motivo ia elle passear, e ás vezes até á meia-noite, nos penhacos da costa? era evidentemente para conversar com a gente maligna que anda á noite nas praias, no meio das exhalações.
Ajudou elle uma vez a feiticeira de Torteval a desatolar a carroça. Era uma velha, por nome Moutonne Gahy.
Tendo-se feito um recenceamento na ilha, perguntou-se-lhe a profissão, e elle respondeu: pescador quando ha peixe. Vejam lá se a gente da ilha podia gostar de taes respostas.
Pobreza e riqueza são relativas. Gilliatt tinha terras e uma casa, e comparado aos que não possuem cousa nenhuma, não era pobre. Um dia, para experimenta-lo, e talvez para inculcar-se, por que ha mulheres que estariam promptas a desposar o diabo rico, disse uma rapariga a Gilliatt: Quando se casa? A resposta delle foi: Casar-me-hei quando se casar a Rocha que canta.
A Rocha que canta era uma grande pedra collocada a pique n'uma horta rustica perto do Senhor Lemezurier de Fry. Esta pedra inspira desconfiança. Não se sabe o que ella faz ali. Ouve-se cantar um gallo invisivel, cousa extremamente desagradavel. Verificou-se que a pedra foi posta ali por uns fantasmas.
De noite, quando troveja, se apparecem homens a voar entre as nuvens avermelhadas, são os taes fantasmas. Ha uma mulher que mora no Grande Mielles e que os conhece. Uma noite, em que havia fantasmas n'uma encruzilhada, essa mulher vendo um carroceiro que não sabia por onde seguir, gritou-lhe: Pergunte-lhes o caminho; é gente benefica, e bem educada, com quem se póde conversar. Aquella mulher é com certeza feiticeira.
O judicioso e sabio rei Jaques I mandava ferver ainda vivas as mulheres dessa especie, provava o caldo, e pelo gosto, dizia: É feiticeira; ou: não é feiticeira.
É para lamentar que os reis hoje não tenham daquelles talentos, que faziam comprehender a utilidade da instituição.
Gilliatt, não sem motivos serios, tinha fama de feiticeiro. Num temporal, á meia-noite, estando Gilliatt sozinho no mar, dentro de uma lancha do lado da Soumeilleuse, ouviram-n'o perguntar:
—Ha lugar para passar?
Respondeu-lhe uma voz de cima dos penhascos:
—Pois não! animo!
A quem fallaria elle senão a alguem que lhe respondia? Parece-nos que isto é uma prova.
Outra noite de temporal, tão negro que nada se via, pertinho da Catiau-Roque, que é uma dupla fileira de rochedos onde os feiticeiros e as cabras vão dansar á sexta-feira, houve quem reconhecesse a voz de Gilliatt no meio deste terrivel dialogo:
—Como está Vésin Brovard? (Era um pedreiro que tinha cahido de um telhado).
—Vai sarando.
—Devéras! pois cahio de um lugar tão alto como aquelle estaca. Admira não ficar despedaçado.
—Bom tempo foi a semana passada para a colheita das praias.
—Melhor do que hoje.
—De certo! não haverá muito peixe no mercado.
—O vento é rijo.
—Não se podem deitar as redes.
—Como vai a Catharina?
—Está embruxada.
A Catharina era evidentemente alguma feiticeira.
Gilliatt, ao que parecia, trabalhava de noite. Ao menos, ninguem duvidava disso.
Viam-n'o algumas vezes, espalhar pelo chão a agua de um pucaro. Ora a agua espalhada pelo chão traça a forma dos diabos.
Existem na estrada de Saint-Sampson, tres pedras dispostas em forma de escada. Na plataforma houve em outro tempo uma cruz, e se não foi cruz, era forca. Aquellas pedras são malignas.
Muita gente experta, e digna de credito, affirmava ter visto, perto dessas pedras, Gilliatt conversando com um sapo. Ora, não ha sapos em Guernesey; Guernesey tem todas as cobras, e Jersey todos os sapos. Aquelle sapo veio naturalmente de Jersey, a nado, para fallar a Gilliatt. A conversa era amigavel.
Todos estes factos estavam averiguados; e a prova disso é que as tres pedras lá estão. Quem duvidar póde ir vel-as, e mesmo á alguma distancia, ha uma casa em cuja esquina lê-se isto: mercador de gado morto e vivo, cordas velhas, ferros, ossos e fumo de mascar; é prompto na paga e na attenção.
Só de má fé se póde contestar a existencia daquellas pedras e daquella casa. Tudo isso fazia mal a Gilliatt.
Só os ignorantes não sabem que o maior perigo dos mares da Mancha é o que se chama rei dos Auxcriniers. Não ha personagem maritimo mais temivel. Quem o vê naufraga logo entre uma e outra Saint Michel. É pequeno e surdo, por ser anão e rei. Sabe o nome de quantos morreram no mar, e em que lugar estão. Conhece a fundo o cemiterio Oceano. Cabeça larga em baixo, e estreita em cima, corpo cheio, barriga viscosa e disforme, nodosidades no craneo, pernas curtas, braços compridos, barbatanas em vez de pés, garras em vez de mãos, cara larga e verde, tal é aquelle rei. As garras são achatadas, as barbatanas tem unhas. Imaginem um peixe, com cara de homem, e fórma de espectro. Para vencel-o, é preciso exorcismal-o ou pescal-o. Fóra disso, é sinistro. Vel-o é perigoso. Descobre-se acima das ondas e do marulho, atravez da espessura do nevoeiro, umas feições de gente; testa curta, nariz esborrachado, orelhas chatas, boca immensa e sem dentes, beiços esverdeados, sobrancelhas angulosas, olhos vivos e grandes. O rei torna-se vermelho quando o relampago é livido, descorado quando o relampago é vermelho. Tem barba gotejante e rigida, cortada em quadro, que lhe cahe sobre uma membrana em fórma de mantéo de peregrino; o mantéo é adornado de quatorze conchas, sete na frente, sete nas costas. As conchas são extraordinarias para os que conhecem conchas. O rei só é visivel no mar violento. É o dansarino lugubre da tempestade. Vê-se a fórma delle esboçada no nevoeiro e na chuva. O umbigo é hediondo. Uma casca de escamas guarda-lhe os quadris á semelhança de collete. O rei levanta-se de pé, sobre as vagas que irrompem á pressão dos ventos e vão rolar-se como os cavacos que sahem do rabote do marcineiro. Conserva-se todo fora da espuma, e quando avista ao longe navios em perigo, entra a bailar, descorado na sombra, com a face illuminada por um vago sorriso, feio e demente no aspecto. Máo encontro esse.
Na epocha em que Gilliatt era uma das preoccupações de Saint-Sampson, as ultimas pessoas que tinham visto o rei da Mancha, declaravam que já não havia no mantéo mais de treze conchas. Treze; era mais perigoso ainda. Mas onde foi parar a outra concha? Deu-a a alguem? A quem seria? Ninguem podia dizel-o, todos se limitavam ás conjecturas. O que é certo é que o Sr. Lupin Matier, do lugar de Godaines, homem de posição, proprietario taxado em quatorze bairros, estava prompto a jurar que vira uma vez, nas mãos de Gilliatt, uma concha muito exquisita.
Não raras vezes se ouviam os camponios conversarem entre si:
—Visinho, não é verdade que este boi é magnifico?
—Inchado, visinho.
—Homem, é verdade.
—Tem mais sebo do que carne.
—Devéras!
—Estaes certo de que Gilliatt não lhe pôz os olhos em cima?
Gilliatt parava nos campos, ao pé dos lavradores, e nos jardins ao pé dos jardineiros, e dizia-lhes palavras mysteriosas:
—Quando florecer a scabiosa, semea o centeio.
—O freixo enfolha, acaba-se a neve.
—Solsticio de verão, cardo em flôr.
—Se não chover em Junho, o trigo ha de espigar. Tomem cuidado com as plantas nocivas.
—A cerejeira está dando fructos, desconfia da lua cheia.
—Se o tempo, no sexto dia da lua, conservar-se como no quarto dia ou como no quinto, ha de ser o mesmo em toda a lua, nove vezes em doze no primeiro caso, e onze vezes em doze no segundo.
—Vigia o teu visinho com quem andas em processo. Cautella com as espertezas. Porco que bebe leite quente, estoira. Vacca que leva alho nos dentes, não come.
—O peixe está gerando, guarda-te das febres.
—As rãs apparecem, semea os melões.
—A anemona enflora, semea a cevada.
—A tilia enflora, ceifa os campos.
—O choupo enflora, fecha as estufas.
E, cousa terrivel, quem seguisse os seus conselhos acha-los-hia muito bons.
Uma noite de Junho, em que elle tocava o bug pipe, sobre os cabedellos da praia, do lado da Damie de Fontenelle, não se pode pescar uma só cavalla.
Outra noite, vasando a maré, aconteceu tombar na praia, em frente da casa mal assombrada, uma carreta cheia de sargaço. Gilliatt receiou naturalmente ser chamado á justiça, pois atirou-se a levantar a carreta, pondo-lhe outra vez toda a carga que se espalhara no chão.
Uma menina da visinhança tinha muitos piolhos; Gilliatt foi a Saint-Pierre Port, trouxe de lá um unguento e esfregou a cabeça da pequena; tirou-lhe os piolhos, o que prova que foi elle quem lh'os deitou.
Sabe toda a gente que ha feitiço para fazer criar piolhos na cabeça dos outros.
Dizia-se que Gilliatt olhava para os poços, o que é perigoso quando é máo olhado; e o caso é que um dia, nos Arculons, a agua de um poço tornou-se doentia. A dona do poço disse a Gilliatt: veja esta agua. E apresentou-lhe um copo cheio. Gilliatt confessou. A agua está grossa, disse elle; é exacto. A boa mulher que desconfiava disse-lhe. Pois cure-a. Gilliatt perguntou-lhe se ella tinha algum curral, se o curral tinha esgoto, e se o rego do esgoto passava perto do poço. A boa mulher disse que sim. Gilliatt entrou no curral, desviou o rego do esgoto, e a agua do poço ficou boa. Ora, pensava a gente da terra, nenhum poço fica insalubre, nem é curado depois, sem motivo; a doença do poço não é natural; é difficil não acreditar que Gilliatt tenha enguiçado a agua.
De uma vez, tendo ido a Jersey, foi alojar-se em S. Clemente, em uma rua cujo nome quer dizer almas do outro mundo.
Nas aldeâs, colhem-se os indicios, comparam-se: o total faz a reputação de um homem.
Aconteceu um dia que Gilliatt foi sorprehendido a deitar sangue pelo nariz. Cousa grave. Um patrão de lancha, grande viajante, que fez quasi a volta do mundo, afirmou que havia uma terra, onde todos os feiticeiros deitam sangue pelo nariz. Quando um homem deita sangue pelo nariz, já toda a gente sabe como se haver com elle. Todavia algumas pessoas de juizo observaram que aquillo que caracterisa os feiticeiros em uma terra, pode não caracterisa-los em outra.
Nos arredores de Saint-Michel, vio-se Gilliatt parado em uma horta dos Huriaux, ao pé da estrada real de Videclins. Gilliatt assobiou, e pouco depois veio um corvo, e depois uma pega. O facto foi attestado por um homem notavel que pertenceu depois a uma commissão encarregada de fazer um novo livro de medidas.
No Hamel, ha mulheres velhas que diziam estar certas de ter ouvido, ao romper da manhã, umas andorinhas chamando por Gilliatt.
A isto deve accrescentar-se que Gilliatt não era bom.
Um dia um pobre homem battia um asno, que tinha empacado. Deu-lhe algumas tamancadas na barriga, o animal cahio. Gilliatt correu para levanta-lo; estava morto. Gilliatt esbofeteou o pobre homem.
N'outra occasião, vendo um rapaz descer de uma arvore com um ninho de passarinhos ainda implumes, Gilliatt tirou o ninho ao rapaz, e levou a crueldade ao ponto de restitui-lo ao seu lugar na arvore.
Uns viandantes censuraram-no por isso; Gilliatt não fez mais do que apontar para o pai e a mãe dos passarinhos que guinchavam por cima da arvore e voltavam para o ninho. Tinha queda pelos passaros. É um signal este que faz conhecer geralmente os bruxos.
Os rapazes gostam de tirar os ninhos de cotovias e goelandos no penedio das costas. Trazem comsigo grande porção de ovos azues, amarellos, e verdes, para armar com elles a frente das lareiras. Como os penedos estão a pique, acontece-lhes ás vezes escorregarem, cahirem e morrerem. Nada mais lindo que uma varanda adornada com ovos de passaros do mar. Gilliatt já não sabia que inventar para fazer mal aos rapazes. Trepava, com risco de vida, ao cimo das rochas marinhas, e pendurava ahi molhos de feno, com chapéos velhos em cima, e tudo quanto pudesse servir de espantalho, para arredar os passaros, e por consequencia as crianças.
Por tudo isto Gilliatt ia sendo a pouco e pouco odiado por todos. Não precisava tanto para se-lo.
[V]
OUTROS PONTOS AMBIGUOS DE GILLIATT
Não estava fixa a opinião acerca de Gilliatt.
Geralmente era tido por marcou. Outros acreditavam mesmo que fosse filho do diabo.
Quando uma mulher, tem do mesmo homem, sete filhos machos consecutivos, o setimo é marcou. Mas para isso, é necessario, que nenhuma filha venha interromper a serie dos rapazes.
O marcou,—tem uma flôr de liz impressa em uma parte do corpo, donde resulta que aproveita tanto aos escrophulosos como aos reis de França. Em França ha marcous em toda a parte, especialmente na provincia de Orleans. Cada aldêa do Gatinais tem o seu marcou. Para curar os doentes basta que o marcou sopre nas chagas ou lhes faça tocar a flôr de liz. O remedio é efficaz, principalmente quando applicado na noite de sexta-feira maior. Ha uma dezena de annos, o marcou d'Ormes, no Gatinais, appellidado o Formoso Marcou, e consultado por toda a Beauce, era um tanoeiro, chamado Foulon, que tinha cavallo e carruagem. Para pôr cobro aos seus milagres foi preciso intervir a policia. Tinha elle a flôr de liz embaixo do peito esquerdo. Outros marcous têm-n'a em lugar diverso.
Ha marcous em Jersey, em Aurigny, e em Guernesey. Parece que isto procede dos direitos que tem a França sobre o ducado da Normandia. A não ser assim, porque haveria ali a flôr de liz?
Como ha tambem nas ilhas da Mancha muitos escrophulosos, os marcous são necessarios.
Em um dia estando Gilliatt a banhar-se no mar, diante de algumas pessoas, julgaram estas ter-lhe visto no corpo a flôr de liz. Interrogado a esse respeito, por unica resposta pôz-se a rir. Gilliatt ria ás vezes como os outros homens. Mas desde esse dia nunca mais o viram tomar banho. Começou então a banhar-se em lugares solitarios e perigosos. Provavelmente á noite, e em noites de luar; o que, hão de convir, é cousa um tanto suspeita.
Os que se obstinavam em crê-lo filho do diabo (cambiou), enganavam-se evidentemente. Deviam saber que só os ha na Allemanha. Mas o Valle e Saint-Sampson eram ha cincoenta annos paizes ignorantes.
Acreditar em Guernesey que alguem é filho do diabo, por força que ha nisso exageração.
Por isso mesmo que Gilliatt inquietava o populacho era muito consultado. Os camponios aterrorisados iam conversar com elle acerca dos seus achaques. Aquelle terror equivalia a meia confiança, e no campo, quanto mais suspeito é o medico mais efficaz é o remedio que elle dá. Gilliatt tinha medicamentos propriamente seus, herdados da finada velha. Dava-os a quem lh'os pedia, e não recebia dinheiro. Curava os panaricios com applicações de hervas; o liquido de um dos seus frascos cortava a febre; o chimico de Saint-Sampson, que chamariamos pharmaceutico em França, pensava que era uma decocção de quina. Os menos benevolos convinham em que Gilliatt era excellente diabo para os doentes, quando se tratava de seus remedios ordinarios; mas, como marcou não queriam ouvir nada; se algum escrophuloso pedia-lhe para tocar a flôr de liz, a resposta de Gilliatt era fechar-lhe a porta na cara; recusava fazer milagres, cousa ridicula em um feiticeiro. Não sejas feiticeiro, mas se o és, faze o teu officio.
Havia uma ou duas excepções nesta antipathia universal. O Sr. Landoys, do Clos-Landés, era escrivão da parochia de Sain-Pierre Port, encarregado das escripturas, e guarda dos registros dos nascimentos, casamentos e obitos. Jactava-se o escrivão de descender do thesoureiro da Bretanha, Pedro Landoys, enforcado em 1485.
Estando uma vez a banhar-se, o Sr. Landoys affastou-se da praia, e quasi se affogou; Gilliatt atirou-se á agua, affogou-se quasi, mas salvou Landoys. Desde esse dia Landoys não fallou mal de Gilliatt. Aos que se admiravam disso, respondia elle: Como hei de aborrecer um homem que não me fez mal, e até me prestou um serviço? O escrivão chegou mesmo a ser amigo de Gilliatt. Não era homem de preconceitos. Não acreditava em feiticeiros. Mofava dos que acreditavam em almas do outro mundo.
Tinha uma canôa, pescava nas horas de descanço para divertir-se, e nunca vio cousa alguma extraordinaria, a não ser, em certa noite de luar, um vulto branco de mulher, que pulava na agua, e ainda assim não estava muito certo. Moutonne Gahy, feiticeira de Torteval, dera-lhe um saquinho para atar debaixo da gravata, afim de afugentar os espiritos; Landoys zombava do sacco, e não sabia o que havia dentro; mas sempre andava com elle, e sentia-se assim mais seguro.
Algumas pessoas audazes, acompanhando o Sr. Landoys, arriscaram-se a reconhecer em Gilliatt certas circumstancias attenuantes, algumas apparencias de qualidades, a sobriedade, a abstinencia do gin e do tabaco, e chegavam ás vezes a fazer delle este bello elogio. Não bebe, não fuma, nem masca.
Mas a sobriedade é uma qualidade, quando o individuo possue outras.
Gilliatt inspirava a aversão publica.
Fosse o que fosse, como marcou, Gilliatt podia prestar serviços. Em uma sexta-feira maior, á meia noite, dia e hora usados para esses curativos, todos os escrophulosos da ilha, por inspiração, ou combinação, foram em massa á casa mal assombrada, e com as mãos postas, pediram a Gilliatt que os curasse. Gilliatt recusou. Reconheceu-se nisto a sua perversidade.
[VI]
A PANÇA
Tal era Gilliatt.
As raparigas achavam-n'o feio.
Gilliatt não era feio. Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do barbaro antigo. Quieto, parecia um Dacio da columna trajana. As orelhas eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admiravel forma acustica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do homem audacioso e perseverante. Cahiam-lhe os dous cantos da boca; a testa era de uma curva nobre e serena; o olhar sahia-lhe firme de dentro da palpebra franca, posto que elle tivesse aquelle piscar d'olhos que os pescadores adquirem com a reverberação das vagas. O riso era pueril e delicioso. Não havia marfim mais alvo que os seus dentes. Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era quasi negro. Não se affronta impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos trinta annos, mostrava quarenta e cinco. Tinha a sombria mascara do vento e do mar.
Puzeram-lhe a alcunha de Finorio.
Diz uma fabula da India: Um dia Brahma perguntou á Força: quem é mais forte que tu? A Força respondeu: É a Astucia. Diz um proverbio chinez: Quanto não poderia o leão, se fosse macaco?
Gilliatt não era nem leão nem macaco; mas as cousas que elle fazia apoiavam o proverbio chinez e a fabula indiana. De estatura commum e força ordinaria, Gilliatt, tão inventiva e poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de gigante e realizar prodigios de athleta.
Era um pouco gymnasta; servia-se tanto da mão direita como da esquerda.
Não caçava, pescava. Poupava os passaros, não os peixes. Ai dos que são mudos!
Era nadador excellente.
A solidão faz homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os dous aspectos. Ás vezes mostrava o ar espantado, de que fallámos, e dissera-se um bruto. Outras vezes mostrava uma certa profundidade no olhar. A antiga Chaldea teve homens assim: a certas horas, a opacidade do pastor tornava-se transparente e deixava vêr o mago.
Em summa, era apenas um pobre homem sabendo ler e escrever. É provavel que estivesse no limite que separa o sonhador do pensador. O pensador impõe, o sonhador obedece. A solidão domina os animos simplices, complica-os, enche-os de horror sagrado. A sombra em que entrava o espirito de Gilliatt compunha-se, em partes quasi iguaes, de dous elementos, obscuros ambos, mas differentes; dentro delle, a ignorancia,—enfermidade; fóra delle, o mysterio,—immensidade.
Á força de trepar aos rochedos, de escalar os declives, de navegar no archipelago, qualquer que fosse o tempo, de manobrar a primeira embarcação que apparecesse, de arriscar-se dia e noite nos canaes mais difficeis, tornou-se, sem tirar lucro disso, e só por fantasia e satisfação, um admiravel homem do mar.
Nasceu piloto. O verdadeiro piloto é o marinheiro que navega mais no fundo que na superficie. A vaga é um problema exterior, continuamente complicado pela configuração sub-marina dos lugares em que sulca o navio. Parecia, ao ver Gilliatt vogar nos baixios e atravez dos arrecifes do archipelago normando, que elle tinha debaixo da aboboda do craneo um mappa do fundo do mar. Sabia tudo e affrontava tudo.
Conhecia as balisas melhor do que os corvos marinhos que lá se vão empoleirar. As differenças imperceptiveis que distinguem as quatro balisas do Creux, do Alligande, de Tremies e da Sardrette eram perfeitamente claras para elle, ainda no meio do nevoeiro. Não hesitava sobre a estaca de cabeça oval, de Anfré, nem o chuço tridente, de Rousse, nem a bola branca, de Corbette, nem a bola preta, de Longue-Pierre, e não havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com a espada fincada no chão, de Platte, nem a balisa-martello, de Barbées com a balisa cauda de andorinha, de Moulinet.
Mostrou singularmente a sua rara sciencia de maritimo num dia em que houve em Guernesey uma dessas justas que se chamam regatas.
A questão era esta: ir só em uma embarcação de quatro velas; leval-a de Saint-Sampson á ilha de Herm, distante uma legua, e trazel-a de novo de Herm a Saint-Sampson. Manobrar sosinho um barco de quatro velas, não ha pescador que o não faça, e a differença não é grande; mas eis o que aggravava o caso; primeiramente, a embarcação era uma dessas chalupas de outro tempo, com grande bojo, á moda de Rotterdam, que os marinheiros do seculo passado appellidavam panças hollandezas. Acha-se ainda algumas vezes no mar essa velha construcção da Hollanda, bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas azas que se vão abatendo alternadamente, conforme o vento, e suprem a quilha. A segunda difficuldade, era a volta de Herm, volta complicada por um pesado lastro de pedras.
O premio da justa era a chalupa. De antemão estava dada ao vencedor. A pança servira de barco-piloto; o piloto que navegara nella durante vinte annos era o mais robusto marinheiro da Mancha; quando morreu não houve ninguem que quizesse governar o barco e decidiram fazer delle um premio de regata. A pança, embora não tivesse coberta, tinha qualidades boas e podia tentar um manobrista. Era mastreada na frente, o que augmentava a força de tracção do velame. Outra vantagem, o mastro não impedia a carga. Era uma concha solida; pesada, mas vasta, e supportando bem o mar. Houve empenho em disputal-a; a luta era rude, mas o premio era magnifico. Apresentaram-se sete ou oito pescadores, os mais vigorosos da ilha. Tentaram um por um; nenhum delles pôde ir a Herm. O ultimo que luctou era conhecido por ter passado a remos, com tempo máo, o terrivel redomoinho, que ha entre Serk e Brecq-Hou. Escorrendo em suor, trouxe elle a pança e disse: É impossivel. Foi então que Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e depois a grande escota, e fez-se ao largo. Depois, sem atar a escota, o que seria imprudencia, e sem largal-a, o que lhe dava o dominio da vela grande, deixando a escota rolar á feição do vento sem descahir, segurou com a mão esquerda a cana do leme. Dentro de tres quartos de hora estava em Herm. Tres horas depois, posto que soprasse então um forte vento do sul, atravessando a barra, a pança, governada por Gilliatt, entrava em Saint-Sampson, com o carregamento de pedras. Gilliatt trouxe, por luxo e bravata, além do carregamento, um pequeno canhão de bronze de Herm, com que a gente da ilha salvava todos os annos, a 5 de Novembro, em regosijo pela morte de Guy Fawkes.
Guy Fawkes, digamo-lo de passagem, morreu ha duzentos e sessenta annos; foi uma grande satisfação.
Gilliatt, assim carregado e estafado, embora trouxesse o canhão na barca, e o vento sul na vela, voltou a Saint-Sampson.
Vendo isto, mess Lethierry exclamou: ora aqui está um marinheiro atrevido!
E estendeu a mão a Gilliatt.
Tornaremos a fallar de mess Lethierry.
A pança foi entregue a Gilliatt.
Esta aventura não lhe destruio a alcunha de Finorio.
Algumas pessoas declararam que a cousa não era para admirar, visto que Gilliatt escondera no barco um galho de nespereira sylvestre. Mas ninguem pôde provar isso.
Desde esse dia, Gilliatt não teve outra embarcação. Naquella pesada chalupa é que elle ia á pesca. Amarrava-a no excellente ancoradourosinho que tinha só para seu uso, debaixo do muro da casa mal assombrada. Ao cahir da noite, atirava a rede ás costas, atravessava o jardim, galgava o parapeito de pedras seccas, rolava de rochedo em rochedo, e saltava na barca. Dahi fazia-se ao mar.
Pescava muito peixe, mas affirmava-se que o galho de nespereira estava sempre atado á chalupa. Ninguem o vio nunca, mas toda a gente acreditava.
Não vendia, dava o peixe que lhe sobrava.
Os pobres acceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal por causa do ramo embruchado. Não se deve trapacear com o mar.
Era pescador, mas não era só isso. Tinha aprendido por instincto ou por distrahir-se, tres ou quatro officios. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros, calafate e até um pouco mecanico. Ninguem concertava uma roda como elle. Fabricava de um modo especial, todos os seus instrumentos de pesca. Tinha em um canto da casa uma pequena forja e uma bigorna, e, não tendo a chalupa mais que uma ancora, fez-lhe outra, elle só. Excellente ancora era essa; a argola tinha a força requerida, e Gilliatt, sem que ninguem lh'o ensinasse, achou a dimensão exacta que devia ter o cepo da ancora para que ella não voltasse.
Substituio com toda a paciencia, os pregos das bordas por cavilhas, tornando assim impossivel a ferrugem.
Deste modo augmentou muito as boas qualidades da pança. Aproveitava-se della para ir de quando em quando passar um ou dous mezes em alguma ilhota solitaria como Chousey ou Casquets. Dizia-se então: Olhem, Gilliatt está fóra. Ninguem se incommodava por isso.
[VII]
CASA EMBRUXADA, MORADOR VISIONARIO
Gilliatt era o homem do sonho. Vinham dahi as suas audacias e as suas hesitações. Tinha idéas propriamente suas.
Havia talvez nelle a ligação do allucinado e do illuminado. A allucinação entra na cabeça de um camponio como Martin, do mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz sorprezas ao espirito do homem. Rasga-se bruscamente a sombra, deixa ver o invisivel; depois fecha-se. Taes visões são ás vezes transfiguradoras; de um conductor de camellos faz Mahomet, de uma cabreira faz Joanna d'Arc. A solidão desprende uma certa quantidade de desvario sublime. É o fumo da sarça ardente. Resulta dahi um mysterioso extremecer de idéas: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o propheta; resulta Horeb, Cédron, Ombos, a embriaguez do louro mastigado da Castalia, as revelações do mez Busion; resulta Peleia em Dodona, Phemonoë em Delphos, Trophonius em Lebadéa, Ezequid no Kebar, Jeronymo na Thebaida. Na maior parte dos casos o estado visionario abate o homem, e o embrutece. O embrutecimento sagrado existe. O fakir carrega a sua visão, como o habitante alpino a sua papeira. Luthero fallando aos diabos no celeiro de Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com o biombo do seu gabinete, o abi negro dialogando com o deos branco, chamado Bossum, é o mesmo phenomeno, diversamente produzido, segundo a força e a dimensão de cada cérebro. Luthero o Pascal são e ficam sendo grandes; o abi negro é imbecil.
Gilliatt não era tanto, nem tão pouco. Era um pensativo. Nada mais.
Contemplava a natureza de um modo singular.
Tinha visto algumas vezes na agua do mar, completamente limpida, animaes inexperados, de grandes dimensões, de formas diversas, os quaes fóra d'agua assemelhavam-se a crystal molle, e tornados á agua, confundiam-se com ella, pela identidade de transparencia e de côr; disto concluia elle que, se a agua era habitada por transparencias vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transparencias igualmente vivas. Os passaros não são os habitantes, são os amphibios do ar. Gilliatt não acreditava no ar deserto. Dizia elle: se o mar está cheio de creaturas, porque motivo a atmosphera será vasia creaturas côr do ar podem escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova que essas creaturas não existem? A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o mar; os peixes do ar serão talvez diáphanos, beneficio da providencia creadora, tanto a nosso favor, como a favor delles; deixando passar a luz atravez da sua forma, e não fazendo sombra, ficam ignorados de nós, e nada poderemos saber. Gilliatt imaginava, que, se se podesse esvaziar a atmosphera, pescando-se no ar como num tanque, achar-se-hia uma porção de creaturas sorprehendentes. E, accrescentava elle, na sua scisma, muitas cousas se explicariam.
A scisma, que é o pensamento no estado nebuloso, confina com o somno, e preoccupa-se a respeito delle, como de sua propria fronteira. O ar habitado por transparencias vivas, seria o começo do Desconhecido; além, abre-se a vasta porta do possivel. Outros seres e outros factos. Nada sobrenatural; mas a continuação occulta da natureza infinita. Gilliatt, no ocio laborioso que compunha a sua existencia, era um observador extranho e phantastico. Chegava a observar o somno. O somno está em contacto com o possivel, que tambem chamamos o inverosimil. O mundo nocturno é um mundo. A noite é um universo. O organismo material humano, sobre o qual pesa uma columna atmospherica de quinze leguas de altura, chega á noite fatigado, cahe de fraqueza, deita-se, repousa; fecham-se os olhos da carne; então, naquella cabeça adormecida, menos inerte do que se crê, abrem-se outros olhos, apparece o Desconhecido. As cousas sombrias do mundo ignorado tornam-se vizinhas do homem, ou porque haja verdadeira communicação, ou porque as distancias do abysmo tenham crescimento visionario; parece que as creaturas invisiveis do espaço vem contemplar-nos curiosas a respeito da creatura da terra; uma creação fantasma sobe ou desce para nós, no meio de um crepusculo; ante a nossa contemplação spectral, uma vida que não é a nossa, aggrega-se e dissolve-se, composta de nós mesmos e de um elemento estranho; e aquelle que dorme, nem completo vidente, nem completo inconsciente, entrevê as animalidades extranhas, as vegetações extraordinarias, as cores lividas, terriveis ou risonhas, as larvas, as mascaras, os rostos, as hydras, as confusões, os luares sem lua, as obscuras decomposições do prodigio, o crescer e o decrescer no meio da espessura turvada, a fluctuação de fórmas nas trevas, todo esse mysterio que chamamos sonho, e que não é mais do que a approximação de uma realidade invisivel. O sonho é o aquarium da noite.
Assim sonhava Gilliatt.
[VIII]
A CADEIRA GILD-HOLM-'UR
Quem procurasse hoje a casa de Gilliatt, não a encontraria, nem o jardim, nem a enseada onde elle guardava a chalupa. A casa mal assombrada já não existe. A peninsula onde essa casa estava edificada cahio ao picarete dos demolidores, e foi conduzida, ás carradas, para os navios dos alborcadores de rochedos e commerciantes de granito. A peninsula fez-se caes, igreja e palacios na capital. Toda aquella crista de rochedos partio ha muito para Londres.
Aquelles prolongamentos de rochas no mar, com aberturas e recortes, são verdadeiras cadêas de pequenas montanhas; vendo-as, recebe-se a mesma impressão que teria um gigante contemplando as cordilheiras. O idioma local chama-os bancos. Ha-os de diversas figuras. Uns assemelham-se a uma espinha dorsal; cada rochedo é uma vertebra; outros a uma espinha de peixe; outros a um crocodillo bebendo agua.
Na extremidade da peninsula da casa mal assombrada havia uma grande rocha, que os pescadores do Hommet chamavam Corne de la Bête. Essa rocha, especie de pyramide, assemelhava-se, posto que menos elevada, ao Pinaculo de Jersey. Nas marés cheias, o mar separava-a da peninsula, e a Corne de la Bête ficava isolada. Nas vazantes ia-se até lá por um isthmo de rochas praticaveis. A curiosidade do rochedo era, do lado do mar, uma especie de cadeira natural cavada pelas aguas e polida pela chuva. Era perfida a tal cadeira. A gente ia insensivelmente arrastada até ali pela belleza da vista; parava por amor da perspectiva, como se diz em Guernesey; o encanto dos grandes horisontes retinha, lá o observador curioso.
A cadeira offerecia-se logo aos olhos delle; era uma especie de nicho na fachada a pique do rochedo; trepar áquelle nicho era cousa facil; o mar que o talhara tinha feito em baixo uma especie de escada de pedras chatas, commodamente disposta; o abysmo tem destas attenções, desconfia sempre da sua cortezia; a cadeira tentava, a gente subia e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito gasto e arredondado pela escuma, e por braços duas anfractuosidades que pareciam feitas de proposito; por encosto toda a alta muralha vertical do rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade de escalal-a; era simples esquecer-se sentado naquella poltrona; descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e sahir, podia-se acompanhar com os olhos uma vela até mergulhar-se além dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se, gosava-se; sentia-se o afago da briza e do mar; ha em Cayenna um vespertilio, que adormece a gente na sombra com um suave e tenebroso agitar de azas; o vento é esse morcego invisivel; quando não devasta, faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, até que vinha o letargo do extase. Quando os olhos se enchem de um excesso de belleza e de luz, fechal-os é voluptuosidade. Acordava-se de subito. Era tarde. A maré crescera a pouco e pouco. A agua cingia o rochedo.
Estava-se perdido.
Tremendo bloqueio é o mar que sobe!
A maré cresce insensivelmente ao principio, depois com violencia. Chegando ás rochas, encolerisa-se, escuma. Nem sempre se póde nadar junto aos cachopos. Excellentes nadadores morreram affogados naquelle lugar.
Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, ás vezes, olhando para uma mulher.
Os antiquissimos habitantes de Guernesey chamavam outr'ora aquelle nicho talhado na rocha pela vaga a cadeira Gild-Holm-'Ur, ou Kidormur. Palavra celtica, dizem, não entendida pelos que sabem celtico, e entendida pelos que sabem francez Quem-dorme-morre. (Qui dort-meurt.) Tal é a traducção rustica.
Póde-se escolher entre esta traducção, Quem-dorme-morre, e a traducção dada em 1819, creio eu, no Armoricano, por Mr. Athenas. Segundo este conhecedor da lingua celtica, Gild-Holm-'Ur quer dizer-Alta-dos-bandos-de-passaros.
Ha em Aurigny outra cadeira deste genero que se chama Cadeira do Frade, tambem aranjada pelo mar, e com uma saliensia de pedra ajustada tão a proposito que se póde dizer que o mar teve a complacencia de pôr um tamborete debaixo dos nossos pés.
Nas marés cheias, não se podia ver a cadeira Gild-Holm-'Ur. A agua cobria-a inteiramente.
A cadeira-Gild-Holm-'Ur era visinha da casa mal assombrada. Gilliatt ia lá sentar-se muitas vezes, Meditava? Não. Já o dissemos, Gilliatt sonhava. Não se deixava sorprehender pela maré.
[LIVRO SEGUNDO]
Mess Lethierry
[I]
VIDA AGITADA E CONSCIENCIA TRANQUILLA
Mess Lethierry, o homem notavel de Saint-Sampson, era um marinheiro terrivel. Tinha navegado muito. Foi grumete, gageiro, timoneiro, contra-mestre, mestre de equipagem, piloto, arraes. Agora era armador. Ninguem conhecia o mar como elle. Era intrepido para salvar gente. Quando havia temporal mess Lethierry ia passear á praia, com os olhos no horisonte. Que é aquillo lá ao longe? é alguem que está em perigo. É um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, é o hiate de um lord, é um inglez, um francez, um pobre, um rico, é o diabo, fosse quem fosse, elle saltava dentro da lancha, chamava dous ou tres homens valentes, dispensava-os quando não tinha, equipava elle só, desatava a amarra, travava do remo, fazia-se ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no furacão, ia ao perigo. Viam-n'o assim de longe, no meio das lufadas do vento, de pé sobre a embarcação, gotejante de chuva, confundido com os relampagos, face de leão e juba de espuma. Passava assim ás vezes um dia inteiro no perigo, e nas vagas, á saraiva e ao vento, costeando os navios que sossobravam, salvando homens, salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava á noite para casa, e tecia um par de meias.
Passou esta vida cincoenta annos, desde os dez até os sessenta, emquanto foi moço. Aos sessenta annos, vio que já não podia levantar com um braço a bigorna da forja de Varclin; pesava aquella bigorna trezentas libras; foi atacado repentinamente, do rheumatismo. Teve de deixar o mar. Passou da idade heroica á idade patriarchal. Já não era mais que um bonachão.
Mess Lethierry alcançou a um tempo o rheumatismo e a abastança. Estes dous productos do trabalho acompanham-se voluntariamente. Quem chega a ser rico, fica inutilisado. É a corôa da vida.
Diz-se então: vamos gozar agora.
Nas ilhas como Guernesey, a população é composta de homens que passaram a vida a andar á roda do campo, e de homens que passaram a vida a viajar á roda do mundo. São duas especies de lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era dos ultimos. Conhecia, porém, a terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no continente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em Rochefort, depois em Cette.
Fallámos nas viagens á roda do mundo; Mess Lethierry viajou a França toda como carpinteiro. Trabalhou nos apparelhos para esgoto das salinas de Franche-Comté. Aquelle honrado homem teve uma vida de aventureiro. Em França aprendeu a ler, a pensar, a querer. Fez tudo, e de quanto fez extrahio a probidade. O fundo da sua natureza era o marinheiro. A agua lhe pertencia. Os peixes estão em minha casa, dizia elle. Em summa toda a sua existencia, com excepção de dous ou tres annos, foi consagrada ao oceano; atirada á agua, dizia elle. Navegara nos grandes mares, no Atlantico e no Pacifico; mas preferia a Mancha. Aquelle é que é rude, exclamava elle com amor. Nasceu alli, alli queria morrer. Depois de ter feito duas ou tres vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a Guernesey, e não se mecheu dalli. As suas viagens, então, eram Granville e Saint-Malo.
Mess Lethierry era guernesiano, isto é, normando, inglez, francez. Tinha essa patria quadrupla, immersa e como que afogada na sua grande patria, o oceano. Durante a sua vida, e em toda a parte, conservou os costumes de pescador normando.
Isso, porém, não tolhia que elle abrisse de quando em quando um alfarrabio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos philosophos e poetas, e taramellar em vasconço um poucochinho de cada lingua.
[II]
UMA PREFERENCIA DE MESS LETHIERRY
Gilliatt era um selvagem. Mess Lethierry era outro.
Este, porém, era um selvagem elegante.
Era exigente a respeito de mãos de mulheres.
Ainda moço, quasi menino, estando entre marinheiro e grumete, ouvio dizer ao bailio de Suffren: Bonita rapariga, mas que grandes mãos vermelhas que ella tem! Um dito de almirante impõe, em qualquer assumpto que seja. Acima de um oraculo está uma senha. A exclamação do bailio de Suffren fez com que Mess Lethierry se tornasse delicado e exigente acerca de mãos alvas. A delle era uma larga spatula, escura na côr; na agilidade era uma clava, nas caricias uma torquez; quebrava um seixo com um socco.
Não era casado. Não quiz ou não encontrou mulher. Naturalmente o marinheiro queria mãos de duqueza. Não se encontram mãos dessas nas pescadoras de Port-Bail.
Conta-se entretanto que, em Rochefort (Charente) achou elle um dia uma grisette que realisava o seu ideal. Linda moça e lindas mãos. Detrahia e arranhava. Affrontal-a era perigoso. As suas unhas, extremamente asseiadas, tornavam-se garras destemidas, quando era necessario. Tão bellas unhas encantaram Mess Lethierry; mas depois, receando que viesse a perder a autoridade sobre a amante, resolveu não levar aquelle namorico á presença do senhor maire.
De outra feita, em Aurigny, gostou de uma rapariga. Já cuidava dos esponsaes, quando um residente do lugar lhe disse: Dou-lhe os meus parabens. Leva uma boa esterqueira. Lethierry pedio explicações deste elogio. Em Aurigny ha uma moda. Apanha-se esterco de vacca e deita-se ás paredes. Depois de secco, cahe o esterco e serve para aquecer a gente. Ninguem casa com uma rapariga, senão quando é boa esterqueira. Esta habilidade afugentou Mess Lethierry.
De mais, em assumpto de amor ou de namoro, tinha elle uma boa philosophia rustica, uma sciencia de marinheiro apanhado sempre, encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se deixado vencer sempre pela vasquinha, no tempo da sua mocidade. O que hoje se chama crinolina, chamava-se então vasquinha. Significa mais e menos que uma mulher.
Os rudes marinheiros do archipelago normando são intelligentes. Quasi todos sabem ler. Vê-se ao domingo rapazitos de oito annos, assentados em um grande rolo de cabos, com um livro na mão. Os marinheiros normandos foram sempre sardonicos, e sabem dizer cousas chistosas. Foi um delles, o atrevido piloto Queripel quem atirou a Montgomery refugiado em Jersey depois da funesta lançada contra Henrique II, esta apostrophe: cabeça douda ferio a cabeça vasia. Outro marinheiro, por nome Touzeau, arraes em Saint-Brelade, fez o trocadilho philosophico attribuido ao bispo Camus: Après la mort les papes deviennent papillons et les sires deviennent cirons. (Depois da morte tornam-se os papas borboletas, e os reis ouçãos).
[III]
A VELHA LINGUA DO MAR
Os marinheiros das Channel-Islands são puros gaulezes. Estas ilhas que se vão fazendo inglezas, conservaram-se muito tempo autocthones. O camponez de Serk falla a lingua de Luiz XIV.
Ha quarenta annos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de Jersey e de Aurigny o idioma maritimo classico. Fazia crer que estavamos em plena marinha do seculo XVII. Um archeologo especialista poderia ir estudar alli a antiga linguagem de manobra e de batalha esbravejada por Jean Bart naquelle porta-voz que aterrava o almirante Hidde.
O vocabulario maritimo dos nossos paes, quasi inteiramente renovado hoje, era ainda usado em Guernesey, em 1820. O navio que supporta o vento era bon boulinier (bom de bolina); dizia-se do navio que se affeiçoa ao vento, por si mesmo, apezar das velas de prôa e do leme, vaisseau ardent (navio que se aguça): entrar em movimento era prendre aire (tomar o vento); pôr-se á capa era capeyer (capear); apanhar o vento por cima, era faire chapelle (tocar em vento); aguentar bem sobre a amarra, era faire teste; estar em confusão a bordo, era être en pantenne; ter o vento nas vellas era porter-plain, (levar em cheio).
Hoje nada disto se diz. Diz-se hoje: louvoyer (bolinar), dizia-se: leauvoyer, diz-se: naviger (navegar), dizia-se nager, diz-se: virer vent devant (virar por d'avante), dizia-se: vidonner vent devant, diz-se: aller de l'avant (seguir avante), dizia-se: tailler de l'avant, diz-se: tirer d'accord (allar á uma), dizia-se: haller d'accord, diz-se: déraper, (arrancar o ferro), dizia-se: déplanter, diz-se: embraquer (tezar), dizia-se: abraquer, diz-se: taquets (cunhos), dizia-se: billons, diz-se: burins (passadores), dizia-se; tappes, diz-se: balancines (amantilhos), dizia-se: valancines, diz-se: tribord (estibordo), dizia-se: stribordo, diz-se: les hommes de quart à bâbord (homens de quarto a bombordo), dizia-se: les basbourdis.
Tourville escrevia a Hoequincourt: Nous avons singlé (singrámos). Em vez de la rafale (a lufada), le raffal; em vez de bossoir (tureos), boussoir: em vez de drosse (bossa) drousse; em vez de loffer (arribar), faire une olofée; em vez de elonger (alongar) alonger; em vez de forte brise (vento fresco), survent; em vez de sout (paiol) fosse; em vez de jouail (cepo d'ancora) jas; tal era, no começo deste seculo, a lingua de bordo nas ilhas da Mancha. Ouvindo fallar um marinheiro de Jersey, Ango ficaria abalado. Emquanto no resto do mundo as velas faseyaient (pannejavam), barbeyaient nas ilhas de Mancha. Saute-de-vent (cambar o vento) era folle-vente. Só alli se empregavam os dous modos gothicos de amarração, a valturre e a portugueza. Só alli se davam ordens destas: Tour-et-choque!—Bosse et Bitte!—Já um marinheiro de Granville dizia le clan (o gorne), e ainda o marinheiro de Saint-Aubin ou de Saint-Sampson dizia le canal de pouliot. O que era bout-d'alonge (postura) em Saint-Malo, era em Saint-Hélier oreille d'âne. Mess Lethierry, como o duque de Vivonne, chamava o tozado do convez la tonture.
Foi com este idioma estravagante que Duquesne bateu Ruyter, que Duguay Trouin bateu Wasnaer, e Tourville em 1681 atravessou em pleno dia a primeira galera que bombardeou Argel. Hoje é lingua morta. A giria do mar é outra. Duperré não poderia entender Suffren.
Não menos se transformou a lingua dos signaes; e ha grande distancia entre as flamulas encarnada, branca, azul e amarella de Labourdonnaye e os dezoito pavilhões de hoje, que, arvorados dous a dous, tres a tres, e quatro a quatro, dão para as necessidades da combinação distante, setenta mil combinações, suprem tudo, e por assim dizer, preveem o imprevisto.
[IV]
VULNERABILIDADE POR AMOR
Mess Lethierry tinha o coração nas mãos; mãos largas e coração grande. O defeito delle era a admiravel qualidade da confiança. Tinha uma maneira especial de contrahir uma obrigação; era solemne: Dou a minha palavra de honra a Deos. Dito isto, cumpria a promessa. Acreditava em Deos, e nada mais. Ia poucas vezes á igreja, e isso mesmo por cortezia. No mar, era supersticioso.
Nunca houve, porém, tempestade que o fizesse recuar; é que elle era pouco accessivel á contradicção. Não a tolerava, nem num homem, nem no occeano. Queria ser obedecido; tanto peor para o mar se resistia; tinha de luctar com elle. Mess Lethierry não cedia nunca. Vaga que se impinasse, visinho que contendesse, nada lhe detinha a mão. O que dizia estava dito, o que planeava estava feito. Não se curvava, nem diante de uma objecção, nem diante de uma tempestade. Não, para elle, era palavra que não existia, nem na bocca de um homem, nem no ribombo de uma nuvem. Passava adiante. Não consentia que se lhe recusasse nada. Dahi vinha a sua pertinacia na vida e a sua intrepidez no occeano.
Era elle proprio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que porção de sal, pimenta e hervas era preciso, e gostava tanto de fazel-a como de comel-a.
Creatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece, assemelhando-se, com os cabellos soltos, a Jean Bart, e, com chapéo redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e temivel no mar, espadua de carregador, sem imprecações, quasi sem colera, voz doce e meiga que o porta-voz transforma em trovão, camponio que lêo a Encyclopedia, guernesiano que vio a revolução, ignorante, instruido, ermo de carolice, dado ás visões, mais fé na Dama Branca que na Santa Virgem, logica de ventoinha, vontade de Christovão Colombo, um tanto de touro e um tanto de criança, nariz quasi rombo, faces grossas, boca com todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido feita pelo mar, beijada pelos ventos durante quarenta annos, ar de tempestade na fronte, carnação de rocha em pleno mar; põe agora um olhar bom neste rosto agreste, e terás mess Lethierry.
Mess Lethierry tinha dous amores: Durande e Deruchette.
[LIVRO TERCEIRO]
Durande e Deruchette.
[I]
GARRULICE E EFFLUVIOS
O corpo humano é talvez uma simples apparencia, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma mascara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma sorpreza haveria se se podesse vel-o agachado e escondido debaixo da illusão que se chama carne. O erro commum é ver no ente exterior um ente real. Tal creaturinha, por exemplo, se podessemos vel-a como realmente é, em vez de moça, mostrar-se-hia passaro.
Passaro com fórma de moça, que ha ahi de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Suppõe que é Deruchette. Deliciosa creatura! Dá vontade de dizer: Bom dia, mademoiselle arveloa. Não se lhe veem as azas, mas ouve-se-lhe o gorgeio. Canta ás vezes. Na tagarellice, está abaixo do homem; no canto, está acima delle. Tem mysterios aquelle canto; uma virgem é o involucro de um anjo. Feita a mulher, desapparece o anjo; volta, porém, depois, trazendo uma alma de criança á mãe. Esperando a vida, aquella que hade ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se ao vel-a: que boa que ella é em não bater as azes para ir-se embora!
A meiga e familiar creatura acommoda-se em casa, de ramo em ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sahe, acerca-se, afasta-se, alisa as pennas ou pentea os cabellos, faz toda a especie de rumores delicados, murmura um não sei que de inneffavel aos teus ouvidos. Quando ella interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorgeia. Tagarella-se com ella. A tagarellice serve para descançar de fallar. Ha uma porção celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro. Alegras-te por vel-a tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisivel, ella, que poderia, creio eu, ser impalpavel. Neste mundo o lindo, é o necessario. Ha mui poucas funcções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exhalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das cousas sombrias unia transudação de luz, ser o doirado do destino, a harmonia, a gentilesa, a graça, é favorecer-te. A belleza basta ser bella para fazer bem. Ha creatura que tem comsigo a magia de fascinar tudo quanto a rodea; ás vezes nem ella mesma o sabe, e é quando o prestigio é mais poderoso; a sua presença illumina, o seu contacto aquece; se ella passa, ficas contente; se pára, és feliz; contemplal-a é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenisar o lar domestico; de todos os poros sahe-lhe um paraiso; é um extase que ella distribue aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé delles. Ter um sorriso que,—ninguem sabe a razão,—diminue o peso da cadêa enorme arrastada em commum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. Deruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o proprio sorriso. Ha alguma cousa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa physionomia; e outra mais parecida que a nossa physionomia, é o nosso sorriso. Deruchette risonha, era Deruchette.
É particularmente seductor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as raparigas sobretudo, teem uma belleza florida e candida. É a combinação da alvura saxonia com a frescura normanda. Faces rosadas e olhos azues. Falta-lhes brilho nos olhos. A educação ingleza amortece-os. Serão irresistiveis aquelles olhos limpidos no dia em que tiverem a profundesa do olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez ingleza, felizmente. Deruchette não era parisiense, mas tambem não era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre Port, mas mess Lethierry foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.
Deruchette tinha o olhar indolente, e aggressivo sem que o soubesse. Não conhecia talvez o sentido da palavra amor, e fazia com que a gente se apaixonasse por ella. Mas era sem má intenção. Deruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fôra residir em Saint-Sampson, dizia: Esta rapariga seduz a matar.
Deruchette tinha as mais lindas mãosinhas deste mundo, e pés iguaes ás mãos, quatro pésinhos de mosca, dizia mess Lethierry. Tinha em si a bondade e a doçura: o tio Lethierry era toda a sua familia e riqueza: o trabalho della, era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por sciencia a belleza, por espirito a innocencia, por coração a ignorancia; tinha a graciosa indolencia creoula, mesclada de travessura e de vivesa, a jovialidade traquinas da infancia com um pendor á melancolia, vestuarios um pouco insulares, elegantes, mas incorrectos, chapéos de flôres todo o anno, fronte ingenua, pescoço flexivel e tentador, cabellos castanhos, pelle branca com alguns toques arruivados no verão, bocca grande e sã, e nessa bocca o adoravel e perigoso explendor do sorriso. Eis o que era Deruchette.
Algumas vezes, á noite, após o pôr o sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, á hora em que o crepusculo dá uma especie de terror as vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas uma certa massa informe, uma cousa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um volcão, uma especie de hydra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atirando-se sobre a cidade com um horrivel movimento de barbatanas e uma goela donde as chammas irrompiam. Era Durande.