HISTORIAS BRASILEIRAS
OBRAS DE J. DE ALENCAR
| O Ermitão da Gloria.—A Alma do Lazaro, 1 v. enc. 3$, br. | 2$000 |
| O Garatuja, chronicas dos tempos coloniaes, 1 v. in-8º enc. 3$, br. | 2$000 |
| Til, romance brasileiro. 4 v. enc. 6$, br. | 4$000 |
| Iracema, lenda do Ceará, 2ª edição, 2 v. br. 2$, enc. | 3$000 |
| Viuvinha e os Cinco Minutos, 2ª edição, 1 v. br. 2$, enc. | 3$000 |
| O Guarany, 3ª edição, 2 v. in-4º encadernados | 10$000 |
| As Minas de Prata, rom. historico, complemento do precedente, 6 v. in-8º br. 12$, enc. | 16$000 |
| O Demonio Familiar, comedia em 4 actos, 2ª edição, 1 v. | 1$500 |
| A Mãi, drama em 4 actos, 2ª edição, 1 v. | 2$000 |
| Verso e Reverso, comedia em 2 actos, 2ª edição, 1 v. | 1$000 |
| As Azas de um Anjo, comedia em 1 prologo, 4 actos e 1 epilogo, 2ª edição, 1 v. | 2$000 |
| O Gaucho, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000, enc. | 6$000 |
| Pata da Gazella, romance brazileiro, 1 v. in-8º br. 2$000 encadernado. | 3$000 |
| O Tronco do Ipê, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000, encadernado. | 6$000 |
| Sonhos d’oiro, romance brasileiro, 2 v. in-8º enc. 6$, br. | 4$000 |
| Diva, perfil de mulher, 2ª edição, 4 v. enc. | 3$000 |
| Luciola, perfil de mulher, 3ª edição 1 v. enc. | 3$000 |
BERNARDO GUIMARÃES
| O Seminarista, romance brasileiro, 1 v., enc. 3$, br. | 2$000 |
| Lendas e Romances. Uma Historia de Quilombólas, a Garganta do Inferno, a Dansa dos Ossos, 1 v. enc. 3$, br. | 2$000 |
| O Garimpeiro, romance, 1 v. enc. 3$, br. | 2$000 |
| Historias e Tradições da Provincia de Minas-Geraes: A Cabeça do Tira-Dentes: A Filha do Fazendeiro, Jupira, 1 v. enc. 3$, br. | 2$000 |
HISTORIAS BRAZILEIRAS
POR
SYLVIO DINARTE
(Autor da Mocidade de Trajano, Lagrimas do
Coração, Innocencia, etc.)
RIO DE JANEIRO
Editor—B. L. GARNIER—rua do Ouvidor n. 69.
1874
AO CAMARADA E AMIGO
CAPITÃO ANTONIO FLORENCIO PEREIRA DO LAGO.
OFFERECE
O Autor.
IERECÊ A GUANÁ
EPISODIO
Pourquoi quitter notre île? En ton île étrangère,
Les cieux sont-ils plus beaux? A-t’on moins de douleur?
...
Reste, ó jeune étranger! Reste, et je serai belle...
Mais tu n’aimes qu’un temps, comme notre hirondelle.
Moi, je t’aime, comme je vis.
Victor Hugo—A Taitiana (Ballada).
Savais-je s’il était des malheureux au monde?
Ah! Combien je le sens, quand tu ne m’aimes plus!
Chamfort.
IERECÊ A GUANÁ
CAPITULO I
Em meiados do anno de 1861, o vaporsinho Alpha, sahindo da capital da provincia de Matto-Grosso, desceu para Corumbá, e, por ordem do presidente de então, o coronel Antonio Pedro de Alencastro, demandou a fóz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente foi cortando aguas acima para conhecer das condições de sua navegabilidade durante a estação secca até a villa de Miranda, a qual assenta na margem direita e a mais de 40 legoas do ponto em que o volumoso e revolto caudal faz barra no grande Paraguay. Cumprida a commissão sem grande estorvo, poude o fumegante barco atracar junto á barranca da povoação, alvoroçando repentinamente de alegria e perturbando de modo nunca visto o costumado e natural socego d’aquella distante localidade.
Nucleo mais povoado de toda a immensa zona que, sob a denominação de districto de Miranda, se estende ao sul da provincia desde o rio Piquiry até o Apa e o Paraná, n’esse tempo gozava a villa de fóros de importancia que nem as febres endemicas em determinados periodos do anno, nem o desenvolvimento rapido de Nioac, situado a 25 legoas mais ao sul, havião podido lhe tirar.
Tambem os seus habitantes, deixando-se levar por um sentimento de exageração, não vião razões para lhe negar o pomposo titulo de cidade, justificado senão pelo estado de prosperidade que tinha então, ao menos em vista do engrandecimento que lhe podião garantir, em futuro não muito remoto, as suas relações, já de annos iniciadas, com as provincias de S. Paulo e Paraná por meio dos rios Ivinheima, Brilhante e Nioac de um lado, e Miranda do outro.
A villa tinha, além d’isso, tradições historicas que erão repetidas com desvanecimento.
Pelo que dizião, os seus alicerces descansavão sobre os destroços do forte Xeres, levantado em passadas éras pelos hespanhóes como paradeiro á influencia portugueza consolidada, no centro d’aquelles sertões, em Camapuan e que, arrazado em 1580, foi substituido por outro em que fluctuavão as quinas do dominio legal.
Entretanto, apezar d’esse passado tal ou qual illustre e das promessas do futuro, varios e influentes partidarios contava a idéa, aliás justa e sensata, da necessidade de se mudar a séde da cabeça do districto para outro qualquer ponto menos exposto á acção deleteria das febres intermittentes que as enchentes e transbordamentos do rio annualmente trazião e que atacavão não só os recem-chegados e visitantes de passagem, como muitos dos que podião se suppôr acclimados e, ás vezes até, alguns dos mais antigos moradores.
Os lugares indigitados para essa mudança erão Pedra Branca, poucas legoas acima, e a Forquilha, ainda além e na confluencia dos rios Miranda e Nioac.
Com effeito, quanto mais se fugisse da costa do Paraguay, baixa e sujeita ás inundações e, conservando a regalia de desimpedida navegação, se procurassem as terras altas proximas á serra de Maracajú e que se ligão aos ubertosos campos de Vaccaria, cujo progresso era já uma realidade, mais largos horizontes se abririão para a villa, libertando-a dos inconvenientes que lhe davão a reputação de reconhecida insalubridade. N’esse caso, nenhuma indicação reunia com fundado motivo mais adhesões do que a da Forquilha, bella e elevada planicie assente no entroncamento de duas correntes, cujo accesso á canôas grandes e carregadas era facil e já aproveitado.
Como que para difficultar, porém, a realisação de tão conveniente deslocamento e desanimar os mais ardentes propugnadores da medida, não fazia muitos mezes antes da chegada do Alpha, havião sido lançadas no lugar da antiga palissada a que devia a villa o appellido de forte, as bases de um grande quartel, edificação que, concluida, tornou-se sem contestação uma obra notavel n’aquelles afastados termos e foi em 1866 vandalicamente incendiada pelos paraguayos por occasião de se retirarem do districto para operar a sua concentração na fronteira.
Voltando, no entretanto, ao que diziamos em começo, o apparecimento de um vapor causava immenso contentamento no seio da população de Miranda pelas consequencias que necessariamente havia de produzir aquella viagem de ensaio, prova cabal de que o rio, ainda na vazante, prestava-se á franca navegação muito além da bôca do seu confluente o Aquidauana, até onde havião subido os presidentes Delamare e Alencastro, este ultimo em 1860 no Jaurú, que é de calado não pequeno.
Os filhos da provincia de Matto-Grosso têm todos o espirito muito inclinado para as transacções commerciaes e n’ellas desenvolvem o seu genio naturalmente activo, e tão atilado quão desconfiado.
Tambem muitos já fallavão de ir buscar carregamentos de negocio a Cuyabá e na previsão de lucros proveitosos entregavão-se á mais expansiva alegria.
Por toda a parte a agitação era grande.
Nos ares atroavão de continuo innumeros foguetes; o sino da matriz com festivos repiques parecia querer rachar de contente e o povo, depois de se ter agglomerado nas duas ruas convergentes á praça da igreja, havia se encaminhado todo para a margem do rio, tomando a estrada que, com extensão de quasi meia legoa, vai ter ao lugar emphaticamente chamado—o porto—e que não passa de uma rampa mal cavada na barranca.
No tempo das cheias, essa estrada aberta na matta do Miranda desapparece, invadida pelas agoas que vêm então lamber o limiar das primeiras casas da villa, mas n’aquella occasião era uma larga avenida de chão um tanto lodoso e ensombrada por magnifico arvoredo.
Entre os grupos dos que conversavão animadamente a caminharem para o porto, circulava tambem a noticia da vinda de dous officiaes de engenheiros, incumbidos, pelo que se dizia, de ir até Nioac e mesmo ao Apa, afim de verificarem qual o estado da fronteira que já n’esse tempo tinha soffrido senão insultos directos da parte dos nossos vizinhos paraguayos, pelo menos os effeitos de sua cada vez mais decidida altaneria.
Estava ainda recente a desagradavel impressão do modo insolente por que um commandante do forte Bella Vista, no Apa, tratára o piquete brazileiro que fôra, como era de praxe, rondar a região limitrophe, e, na opinião de todos, convinha, para que não se repetissem taes scenas e outras peiores, como em 1850—em que uma força estrangeira, sem respeito á linha divisoria, pisou terras nossas para aprisionar a familia do mineiro Gabriel Lopes—começar tambem a franzir o sobr’olho a vizinhos tão carrancudos e desagradaveis.
N’essa época, já proxima da invasão que o dictador do Paraguay Lopez ideava, raros erão, comtudo, aquelles que, nos mais chegados lugares da fronteira, suppuzessem possivel uma guerra provocada pela republica confinante.
Sabia-se que o regimen d’aquelle paiz singular era despotico e que se achava militarisado com grande rigor de disciplina, mas ignoravão-se os innumeros recursos de que dispunha e os aprestos formidaveis que accumulava com tenções hostis ao Brazil, havendo crença geral de que o seu affastamento systematico da communhão das nações era produzido pela politica tacanha e mal concebida dos directores de um povo, que, por habitos arreigados de obediencia e tranquillidade, era feliz a seu modo, e queria viver em paz.
Ao passo que de nosso lado se tranquillisava o espirito publico com essas supposições quasi erigidas em certeza e com a convicção de que bastarião providencias de ordem secundaria para manter o Paraguay na orbita do respeito que nos era devido, intelligentes emissarios do dictador havião já percorrido de norte a sul toda a provincia de Matto-Grosso e estudado com especialidade o territorio que mais de prompto teria de experimentar os effeitos do humor bellicoso e conquistador de Solano Lopez.
Em todo o caso, apezar do socego de que gozava o districto, é certo que a chegada de dous profissionaes com aquella commissão de caracter militar indicava que o governo central, fiando-se nas boas relações que entre as duas nações parecia não deverem de tão cedo soffrer québra, cuidava comtudo de attender para as suas fronteiras, cuja tranquillidade e segurança influião directamente no desenvolvimento agricola de toda aquella zona.
No Alpha viéra com effeito, não dous, mas um official de engenheiros, esse mesmo com incumbencia puramente civil, visto como só devia ir observar os progressos de Nioac e levantar o traçado do caminho que liga aquella nascente colonia ao porto de Santa Rosalinda, no rio Brilhante, até onde já tinha subido um vapor partido de Itapúra, na provincia de S. Paulo. Quanto ao companheiro com que esse official viéra de Cuyabá, não tinha posição alguma militar, nem trouxera encargo que desempenhar.
Chamava-se este Alberto Monteiro e viajava por méra distracção. Homem no pleno vigor dos annos, e bastante rico para satisfazer os seus caprichos, emprehendera extensas viagens por simples distracção e pelo prazer do movimento, percorrendo paizes uns após outros como turista e á maneira de Victor Jacquemont, que, a pretexto de estudar a flora do Thibet, fez tão curiosas e engraçadas peregrinações pelo interior da Asia.
O modo por que elle viéra ter ao districto de Miranda não era dos mais naturaes.
Achando-se n’um bello dia aborrecido do Rio de Janeiro, comprou passagem para Montevidéo, passou lá um mez, transportou-se para Buenos-Ayres, onde se demorou algumas semanas e, tomado de curiosidade pelo que dizião do Paraguay, subio até Assumpção, que, no fim de poucas horas, ficou peremptoriamente julgada e qualificada sem appellação de acanhada, monotona e estupida.
—Estar em Assumpção, pensou Alberto, obriga-me a ir até Cuyabá.
E, firmando n’este argumento contestavel a necessidade de continuar a viagem fluvial, sulcou rio acima o Paraguay e, n’uma tarde de calor intenso, foi desembarcar na capital de Matto-Grosso.
Arrepender-se logo do que acabava de executar era sempre o primeiro movimento do nosso viajante; por isso a elle mesmo não causou espanto o desgosto que experimentou ao pôr pé em terra.
—Que idéa estrambotica, exclamou elle com despeito, vir ter a uma terra, onde nem sequer ha hoteis!... Não ha remedio senão ir pedir hospedagem ao Sr. capitão de engenheiros Freitas....
E procurando nos bolsos uma carta de recommendação de que se munira em Assumpção, sacou-a para lêr o sobrescripto e poder se orientar.
—Julio Freitas de Miranda, murmurou elle, largo da Mandioca n. 10.
Minutos depois batia á casa indicada, cuja porta foi-lhe aberta por um sympathico moço, a propria pessoa a quem o recommendavão.
—Poucas relações tenho, disse o official correndo os olhos pela carta, com quem me escreve, mas sinceramente acolho quem me traz a apresentação com a maior satisfação e cordialidade.
—E esta sua franqueza, replicou Alberto, lendo no rosto de Freitas a confirmação de suas palavras, me agrada sobremodo.
—Pois então entre, e trate-me desde já senão como amigo, pelo menos como camarada.... Onde estão as suas cargas?
—No porto.... Devo comtudo lhe dizer quem sou....
—Não ha mister. Pelo seu ar vê-se logo que é um cavalheiro....
—Pelo menos o meu nome é indispensavel....
—Ah! respondeu o outro sorrindo-se, tanto mais que a carta de recommendação nem sequer lembrou-se d’isso. É um cheque ao portador.... O senhor chama-se meu hospede, até que eu lhe saiba outro nome.
Com acolhimento tão franco e espontaneo, impossivel era que Alberto não sentisse desvanecerem-se as primeiras impressões de máo humor. Tambem d’ahi a pouco conversavão os dous como se o conhecimento datasse dos dias de infancia.
Para o homem acostumado a viajar nada custa menos do que a immediata familiarisação. Qualquer com quem elle esteja uma hora e que lhe mostre algum agrado no rosto e tratamento, constitue-se logo companheiro muito estimado: outro com quem passe um dia inteiro é quasi um intimo, e se houver então uma semana de convivencia, o recem-conhecido transforma-se em amigo de data mui remota.
Eis por que Alberto Monteiro em pouco tempo tornou-se inseparavel de Julio Freitas, o qual por seu lado fazia todos os esforços para tornar a estada do novo amigo em Cuyabá a mais agradavel possivel.
—Esta cidade, dizia Julio ao terminar umas considerações sobre Matto-Grosso, não é aborrecida, muito pelo contrario; mas é sempre uma cidade de provincia. O seu aspecto vasto e a sua animação sorprendem o espirito de quem chega e não conta deparar com povoação tão importante e, pode-se assim dizer sem exageração, tão civilisada no meio de immensos desertos, mas aqui, como aliás em quasi todo o Brazil, vive-se por demais debaixo da influencia da côrte. Ha bonitas mulheres, bem conversadas; dão-se brilhantes bailes; ha tal ou qual sociabilidade; o commercio tem alguma actividade; não ha falta nem de intelligencia, nem de espirito, mas só se sente verdadeira vida quando chega a mala do Rio de Janeiro. É o sol benefico que mandou um raiosinho de luz e de calor para o seu quasi esquecido planeta. Este sentimento de abandono e de desterro é que me fez sempre desejar ardentemente sahir d’aqui, mas afianço-lhe que o meu contentamento pela volta, que está muito proxima, não é de todo isento de certo aperto de coração.... e entretanto nada me prende particularmente a Cuyabá....
—De modo que se houvesse algum liame, você não deixaria mais esta terra?
—Com toda a certeza! Por isso é que ella passa por ser perigosa, e, como fallo a pessoa novata, recommendo-lhe que fuja das causas que o podem reter para sempre n’este canto do mundo.
—Mas quaes são ellas? perguntou Alberto sorrindo-se.
—Dizem todos que ellas se encerrão principalmente na meiguice das mulheres, nas cabeças de pacús e caudas de pirapitangas. Trate, pois, se não quer encalhar em Cuyabá, de olhar pouco para o sexo fragil e de não provar das extremidades d’aquelles dous peixes senão com muita reserva e cautela.
Se houve e ha com effeito esse risco para quem se demora na capital de Matto-Grosso, Alberto soube tão bem resguardar-se, que quando, mez e meio depois, Julio Freitas annunciou-lhe o seu embarque no vapor Alpha com destino á villa de Miranda e a sua digressão pelo districto, antes de seguir definitivamente para o Rio de Janeiro, achou-se prompto para partir e muito satisfeito com tão breve retirada.
—E sabe que mais? Quero acompanhal-o no seu passeio ás terras de Miranda e Nioac....
—Mas é cousa muito rapida e incommoda....
—Não importa....
—Gastarei pouco mais de mez para ir até Santa Rosalinda no Brilhante e voltar a Corumbá.
—Assim mesmo tenho tempo de sobra para vêr os indios e estar com elles. Vir a Matto-Grosso e não conviver algumas semanas com os seus amaveis aborigenes, é falta imperdoavel em viajante de meu quilate....
—Você não vê todos os dias Cayapós e Guanás?
—Estes não me servem. Estão já modificados pelo nosso modo de viver; demais aportuguezados, já que não posso dizer abrazileirados. Em Miranda encontrarei o que desejo e, mettido em alguma aldêa, pilharei la nature chez elle.
—Você, disse Julio sorrindo-se, vai se dedicar á anthropologia, não é? São estudos que agradão á muita gente, sem que por isso a sciencia adiante um passo....
Eis explicada a razão por que se achava Alberto Monteiro na villa de Miranda e fazia tambem seus preparativos para uma viagem ás terras altas.
Partirão os dous moços por uma fria madrugada, montados em bons animaes e acompanhados de tres soldados do corpo de cavallaria de Matto-Grosso que devião lhes servir de camaradas. Boa porção de mantimentos em bruacas ás costas de um valente burro de carga, redes, uma barraca de campanha, pequenas malas contendo alguma roupa, erão condições para com muita commodidade alcançar o povoado de Nioac, aliás pouco distante aos olhos de quem está acostumado a viajar por terra.
Os arredores da villa de Miranda são baixos e apaulados, cobertos, não raras vezes em vasta extensão, de piripiris, juncos que mergulhão as raizes n’agoa ou no lodo e morrem na época dos grandes calores. Entretanto, logo ás primeiras legoas, verifica o viajante, já pela natureza da vegetação, já pelos córtes e margens elevadas em que correm os regatos, que o sólo vai gradualmente se levantando.
Passado o corrego de Betemigo, a duas legoas da povoação, a estrada alarga e parece um caminho macadamisado, tamanha é a quantidade de seixinhos rolados que lhe salpicão o leito. De uma e outra banda estende-se vistoso o cerrado: ha muito umbú que embalsama os ares com a fragrancia de suas flôres, grande cópia de jatahys, de piquís, cujos fructos amarello-avermelhados são tão bonitos, e de mangabeiras que nos mezes de Dezembro e Janeiro vergão ao peso dos saborosos e rubicundos pomos.
O terreno vai sendo cada vez mais alto e ascende como a lomba de uma serrania, cuja vertente d’esse lado é muito suave e estendida.
Ás vezes repentina quebrada rompe a monotonia do cerrado e deixa que a vista ganhe espaço para a esquerda. Então dilata-se o horizonte, e vêem-se campos ondeados, que sóbem como gradis de um gigantesco amphitheatro até a fita da estrada: em baixo, ao longe, uma linha tortuosa e escura de matta indica um grande rio, e no fundo, emmoldurando aquella bella paisagem, ergue-se altanada serra, corôada de pincaros escalvados e talhados de um modo tão sorprendedor, quão grandioso.
O caudal é o limpido e correntoso Aquidauana que serpêa a procurar o Mondego; a serra, a de Maracajú que em alguns pontos parece lavrada pela mão de caprichoso genio empenhado em imitar com proporções colossaes castellos, baluartes e outras construcções que tambem com pedra levantão os fracos mortaes.
Ha trechos do caminho em que, á direita e á esquerda, abatem-se as terras. Então, de um lado, para o Norte, melhor se accentuão os accidentes que esboçámos, e do outro, ao Sul, abrem-se campinas extensissimas sem outro córte mais na sua uniforme expansão do que um ou outro capão de matto em encontro pronunciado de declives, onde se mantenha com persistencia a humidade precisa para o desenvolvimento de vegetação mais vigorosa.
A estrada é secca, e as patas dos animaes batem de continuo na pedra solta e roliça que forra o chão.
—Devéras, exclamava amiudadamente Alberto colhendo as redeas ao animal para comtemplar com mais demora aquellas lindas perspectivas, vale a pena vir até cá só por ver tudo isto! É soberbo!... admiravel!
Depois do corrego de Eponadigo[1], o cerrado fica mais fechado, de modo que o viajante caminha em aléa encoberta dos raios de sol por grandes arvores, algumas das quaes até são madeiras de lei, como o jatahy e o vinhatico.
O ar alli é puro, e a brisa sopra constante e quente, escandescida que foi pela reverberação dos campos desabrigados de Camapuan.
Em meio do segundo dia de viagem, Alberto sentio-se incommodado e no pouso teve febre bastante violenta.
—Eis uma novidade, disse elle a tiritar com o accesso, para quem, ha muitos annos, não tem tido molestia. O que porém me acontece agora é uma homenagem devida ao malefico clima de Miranda. Resignemo-nos, pois.
Na manhã seguinte, depois de uma noute calma, estava elle bem disposto de espirito, mas com o corpo alquebrado. Tomára uma beberagem de quina do campo que um dos soldados lhe havia preparado e transpirára muito.
Á mesma hora da vespera, a febre reappareceo, com muito mais intensidade d’essa vez.
Estavão então os dous viajantes no Agaxi[2], corrego que atravessa o aldeamento dos kinikináos, a meia legoa para lá da estrada, e procurarão a sombra de um grande grupo de palmeiras buritys para descansarem.
Alberto delirava um pouco e tremia a ponto de balançar a rede que lhe havião promptamente armado. Á tarde, cahio em grande prostração e só se reanimou quando o frescor da noute veio suavisar o calor abrazador que fizera durante todo o dia.
—Você, disse-lhe Julio Freitas, não póde decididamente continuar a viajar sem incorrer na pécha de imprudente, tanto menos justificavel quanto não ha dever que o obrigue a proseguir. Deixe a sua idéa de indios para mais tarde e volte amanhã mesmo para a villa. Com duas dóses de sulfato de quinina desapparecerão com certeza estes accessos, e eu, dentro em poucas semanas, estou de volta a Miranda.
—Mas não ha, a pequena distancia d’aqui, um aldeamento?
—Sim, de kinikináos, gente muito mansa e sympathica. Se você estivesse de saude, eu lhe proporia uma visita ao Agaxi, mas no estado em que se acha, é de prudencia regressar quanto antes.
Com esse alvitre, depois de reluctar um pouco, concordou Alberto, que de manhã acompanhou Julio Freitas por um quarto de legoa na estrada de Nioac, e, lhe dando então apertado abraço, voltou ao pouso onde esperou tranquillo pela hora do accesso que, se foi pontual como um inglez, pelo menos não veio com a costumada violencia.
Ao cessar a febre, experimentou elle um bem estar, uma robustez toda especial que lhe parecerão prenuncio certo de total restabelecimento.
—Não se fie n’isso, lhe disse Florindo, o soldado que Julio deixára ao amigo para camarada, ansim é que são as maleitas. Mas vossuncê não percisa para sarar ir até a cidade; fique uns pares de dias na aldêa e os ares de lá sacodem a maldade do seu corpo.
—Applaudo a idéa, replicou Alberto. Talvez até me entregue aos cuidados de algum velho kinikináo formado em medicina na escola da natureza e da experiencia.
Com essa nova intenção montou o moço a cavallo e, em vez de tomar a estrada de Miranda e dar o rosto ao sol que descambava já, enveredou á direita por uma trilha batida que, segundo dizia Florindo, levava com pouca distancia ao aldeamento dos indios.
O matto foi se tornando mais fechado, depois abrio em clareiras quasi regulares, formando o que se chama potreiros, denominação muito popularisada pela guerra do Paraguay. Uma d’essas abertas, maior em dimensões, era cortada a meio por um corrego encachoeirado, cujas agoas crystallinas acompanhava densa e dupla orla de buritys e taquarussús.
Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação mais aprazivel e socegada.
—Que bello canto do mundo para a gente viver tranquilla e esquecida, exclamou Alberto.
E, voltando-se para o camarada:
—Aquellas casas que vejo ali, perguntou elle, são já da aldêa?
—Nhôr-não, respondeo Florindo: aqui móra o velho Morevi, kinikináo muito meu conhecido e que é mandingueiro.
As tres casinhas, ou melhor choupanas, de que fallava o moço, assentavão n’uma elevação de terreno e dominavão todo aquelle restricto valle. Feitas de pouco e cobertas de palmas de carandá, erão rectangulares, de frente muito baixa e com uma fenda estreita no meio que lhes servia de porta. Diante da mais espaçosa d’ellas, um bambú, ornado de comprido trapo vermelho a ondular no tope, indicava a morada de algum indio de importancia, capitão sem duvida ou então padre, que exerce as funcções de sacerdote cumulativamente com as de medico e de prestigiador.
Os viajantes se adiantarão sem demora e forão recebidos com a maior benevolencia por um idoso kinikináo que sentado á porta levantou-se com a presteza que lhe permittião as cansadas juntas. Nú da cintura para cima, tinha uma especie de saia que lhe descia aos calcanhares, toda ornada de vidrilhos e contas de côr. O rosto, pescoço e tronco estavão sarapintados de desenhos e cortados de linhas vermelhas e pretas feitas com o succo do urucú e do genipapo, mas aquelles signaes, destinados principalmente a incutir terror nos que o fitassem, se conseguião disfarçar a côr de tijolo queimado da pelle, nem de leve modificavão a expressão natural de timidez e bondade que caracterisa em geral a physionomia dos indios guanás e kinikináos.
Nem sequer parecia possuido da importancia que a sua posição de feiticeiro devêra lhe angariar, pois sem a menor hesitação estendeo a mão a Florindo e saudou-o com provas até de respeito.
—Unatiti?[3] perguntou rindo-se e mostrando uns dentes alvissimos e ponteagudos, ao passo que duas linhas de urucú e genipapo, acompanhando o enrugamento da pelle, formavão dous circulos ao redor da boca.
O soldado respondeo tambem em lingua chané[4] e explicou-lhe que aquelle companheiro era capitão[5] e pretendia ir até a aldêa para curar-se de sezões.
—Quixauó! exclamou Morevi, carineti tchikiiti.[6]
Como a tarde vinha já descendo, decidio Alberto pousar ao menos uma noute n’aquelle bello lugar, pelo que encarregou Florindo de obter a posse de uma das choupanas o que se conseguio sem a menor difficuldade, tanto mais quanto na occasião não tinha ella occupante. Na outra morava uma india de meia idade, cujos filhinhos robustos e gentis podião attrahir as vistas de um homem branco e artista de coração.
A installação fez-se com presteza. Depois de bem varrido o chão de barro batido, forão as ligeiras cargas do viajante depositadas a um canto e a sua rede suspensa ás traves mais grossas que servião de mourões á palhoça.
Morevi recebeo logo em paga de sua amabilidade um punhado de sal, que elle embrulhou cautelosamente como preciosidade inestimavel.
Mas quando ao sal já recolhido addiccionou-se um vistoso collar de vidrilho e contas de ouro que devia lhe ornar o encarquilhado pescoço, então a sua gratidão não conheceo limites e despegou-lhe, depois de muito gesto comico, a lingoa n’uma catadupa de palavras quasi sem nexo, umas em seu idioma, outras em portuguez estropeado.
—Este lavrado[7] não é para mim, disse elle afinal mais calmo a Florindo, é para a minha neta. Ella foi á aldêa grande e d’aqui a um nadinha estará batendo de volta.
Pouco depois, com effeito, appareceo alguem á entrada da clareira, para lá do corrego.
—É Ierecê[8], exclamou Morevi apontando para aquelle lado, é a minha neta!
E os seus olhos já apagados pelas sombras da velhice brilharão de orgulho.
Vinha se approximando uma mulher de altura regular e pórte elegante. Ao chegar á corrente abaixou-se e encheo vagarosamente uma vazilha de carregar agoa que trazia á cabeça, assente em volumosa rodilha. Depois adiantou-se sem acanhamento, acostumada como estava a vêr gente de Miranda na aldêa dos indios seus patricios.
Trazia todo o corpo embrulhado n’um panno alvissimo, a que chamão julata e que, preso por volta muito apertada logo abaixo dos seios, desce até os calcanhares, e mostrava ter quando muito quinze annos idade da plenitude de mocidade e belleza n’aquellas localidades em que o desenvolvimento da puberdade, já de per si precoce, é quasi sempre apressado.
Seo rosto de formosura singular houvera em qualquer parte do mundo prendido as vistas. Se a fronte era estreita, os olhos um tanto obliquos e as sobrancelhas pouco arqueadas, em compensação os cilios compridos e bastos fazião realçar o brilho dos negros iris; o nariz tinha uma rectidão caucasica; os labios parecião tintos de carmim e a cabelleira negrejante, bem que aspera, espargia-se por um collo e seios admiraveis de contorno e de pureza. Para completar o typo de uma bella moça nem sequer lhe faltavão pés e mãos de uma pequenez e delicadeza dignas de cuidadosa attenção.
A tez, muito lisa e fina, na côr approximava-se á do chocolate desmaiado em leite, tão desmaiado que quando qualquer impressão mais viva ia entender-lhe com o coração, as suas faces se accendião vivas de rubor.
O que, porém, mais prompto e doce sobresalto causava em que para ella deitasse os olhos, era, em vez da apathia estampada geralmente no rosto das mulheres de sua raça, a expressão de meiguice e tristeza que lhe pairava na physionomia.
A admiração de Alberto, ao vêr tão formosa creatura, não passou despercebida do velho avô que com isso pareceo sentir viva satisfação, partilhada de resto pela neta, quando ella cingio o pescoço com o collar que lhe havião dado. Olhou então curiosa e agradecida para aquelle estrangeiro e sorrio-se para elle, deixando vêr no encrespar dos mimosos labios uns dentesinhos alvos e agudos, como dentes de maracaiá.
—Sua neta é kinikináo? perguntou Alberto.
—Acó, respondeo Morevi, pae tchoronó-unó, filha tambem: mãe só koinukunó.[9]
—É muito bonita! exclamou o moço com sinceridade.
O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle juizo enthusiastico e tomou um ar benevolo e philosophico, de homem já alheio á paixão e que deixou á mocidade o direito de sentir aquellas commoções.
—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou elle com alguma pausa e gravidade. Hade lhe dar comida e roupa.
Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta, pegou-lhe na dextra e, abrindo-a, n’ella collocou a delicada mão da neta, ao passo que murmurava umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados.
Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia perfunctoria que a ligava, segundo os costumes de sua gente, a aquelle homem desconhecido por um laço que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se completamente indifferente.
Uma só cousa a occupava: era o collar de contas de ouro que no seu peito os ultimos raios de sol illuminavão de pontosinhos scintillantes como que a desferirem chispas, que lhe aguilhoavão docemente a feminil vaidade.
CAPITULO II
A primeira semana correo para Alberto alegre e animada. Desapparecêra de todo a febre, e elle se sentia como que retemperado pelo socego do retiro em que vivia.
De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava quando o sol ia alto e que o calor apertava, trazendo sempre pesada enfiada de passaros, uns notaveis pelo tamanho, outros pela plumagem.
A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com uma cestinha de fructas da terra, bananas, mamões e jaracatiás, ou outros mais incultos como o mureci dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou a uvaia, que, apezar do sabor agreste agradão bastante ao paladar.
Apenas chegada a caça, a india a depennava com ésmero antes de entregal-a aos cuidados de Florindo que tomára a si o preparo da comida, no que mostrava algum talento bem que usasse, para os misteres da cozinha, da gordura geralmente empregada em Matto-Grosso: a graxa de boi.
Á tarde, depois de abundante e sã refeição, Alberto ia conversar com Morevi e tomar lições de lingoa chané, com cujas palavras mais notaveis procurava coordenar um ligeiro vocabulario.
Se, entretanto, o principiante mostrava alguns progressos, erão todos elles devidos ás indicações de Ierecê que se admirava muito dos esforços que aquelle branco empregava para vir a fallar como se fôra indio.
Ella parecia um tanto triste, indifferente sobretudo.
Na choupana ao lado, o avô continuava em suas praticas de devoção e vivia completamente estranho ao casal.
No fim da primeira semana de estada no Hetagati[10]—assim se chamava o lugar—foi o soldado Florindo despachado para a villa de Miranda, afim de, com a necessaria discrição, ir buscar alguns meios de conforto, fructos seccos, conservas, diversos córtes de fazendas e tudo quanto podesse ser de mais immediata necessidade para a estada e alguma demora n’aquelle local.
Entre os objectos encommendados, não forão esquecidas duas garrafas de agoardente de canna e varias braças de bom fumo goyano que erão destinadas ao complacente Morevi.
Com a chegada de uma peça de chita franceza, Ierecê deixou o trajo nacional e primitivo e cobrio o esbelto corpo de um vestidinho que Alberto deo-se ao trabalho de cortar e preparar, dirigindo o trabalho da costureira, tão desageitada em seus movimentos, quão impaciente por terminar e poder envergar aquella roupagem nova.
Não perdeo ella, com isso, em graça; pelo contrario, mais alta e vistosa parecia com a saia escorrida e a camisinha alva que lhe cahia dos hombros, repellida pela rebeldia dos seios.
Seo genio era a realisação fiel do que exprimia logo a physionomia: muita brandura, tristeza e alguma curiosidade.
A principio Ierecê considerára Alberto como um ente de natureza superior, a quem devia obediencia céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo; depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento ao vêl-o tão occupado de tudo quanto podesse lhe realçar a natural belleza ou agradar ao seu espirito.
Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho e alegria, quando aquelle portuguez[11], de fronte alva e espaçosa, lhe arranjava com singular paciencia os abundantes cabellos, formando caprichosos e sempre novos penteados?!
Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados e a boquinha entre-aberta de admiração, as narrações, umas reaes, outras phantasticas que elle á tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a relva diante da choupana, vião o sol se esconder por detraz da matta e a noute subir da terra para os céos?!
N’essa hora, tudo é tristeza para a alma que as sombras da natureza parece quererem tambem invadir. Entretanto era quando o coração de Ierecê pulsava com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado da jaó acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra o bacuráo atirasse aos ares as plangentes notas da aspera garganta.
A sua faceirice natural e innocente era ajudada por intelligencia vivida e pela delicadeza de instinctos: assim para logo desterrou do rosto e braços as pinturas que costumava traçar com urucú e genipapo; deixou de cuspinhar, como fazem a cada momento os indios e de comer rapida e vorazmente, empenhando-se emfim por merecer applauso pelo abandono prompto d’este ou d’aquelle habito menos conforme com o modo de viver civilisado.
Além d’isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou com modestia os seios, trazendo sempre diante do peito um lenço preso á cintura por duas pontas e atado pelas outras ao pescoço.
O que era bom e poetico, ella conservava; assim, frequentemente entretecia capellas e collares de flores para os cabellos e braços e todos os dias renovava a elegante palma ou a folha de samambaia mimosa que, segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte como verdejante pennacho.
Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois, observando a bondade com que a tratava Alberto, arriscou algumas palavras em chané, logo após em portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a mais não poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua lingua, ora na outra, que ella entendia perfeitamente, por isso que fôra criada na aldêa do Bom Conselho, perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do missionario frei Marianno de Bagnaia as aguas do baptismo e o nome christão de Sylvana.
Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso capuchinho lhe ensinára na aula de catechismo, só conservára o signal da cruz, symbolo que nunca deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se deitar.
Uma vez quebrada a barreira de constrangimento que a separava de Alberto, nasceo no espirito da india o desejo de tornar-se agradavel e bemquista. Então por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças felizes, ora ornava o interior da choupana de flores e de festões de folhas, ora contava historias de sua tribu, n’um portuguez muito atravessado e custoso, ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com desenhos de variegadas côres para ser atada á cintura de quem a possuia, ora porfim mostrava-se repentinamente amuada para logo voltar ás boas com um excesso nunca visto de momices e caricias.
Não raras vezes, ao esperar o moço que voltava de suas excursões pela matta, occultava-se Ierecê por traz de alguma arvore possante e cahia de chofre sobre elle com o fim de assultal-o.
Erão então gargalhadas francas, sonoras, argentinas, como solta um peito que não sente cuidados.
Em começo, a india mal deixava os arredores da choupana, chegando quando muito até o ribeirão. Depois alongou os passeios, só com o fim de ir apanhar passaros que tivessem pennas mais formosas e brilhantes do que os que trazia o caçador. Com visgo natural que tirava da mangabeira para armar arapucas e com bagas de succo inebriante, conseguia ella agarral-os vivos, e voltava, então, pulando de contente deposital-os nas mãos de Alberto depois de ligar-lhes as azas ao corpo por meio de uma embira larga.
Era de vêr-se o seo ar de importancia e ufania, um arsinho seductor, irresistivel.
Se havia prazer em prender os mimosos volateis, maior, sem comparação possivel, experimentava ella quando Alberto lhe pedia a liberdade para os prisioneiros.
Soltal-os era uma festa que se fazia quasi sempre á tarde, com luz bastante para que os passarinhos podessem ir buscar os seus pousos de querencia. Ierecê os ia beijando com carinho, ao passal-os um por um a Alberto, que era quem desatava o cordel que lhes impedia o vôo.
O animalsinho disparava palpitante de medo com direcção á matta, e Ierecê seguia-o quanto podia com a vista, descansando, ao volver a cabeça, os olhos carregados de amor n’aquelle mancebo tão bondadoso para com todos os filhos da natureza.
Os dias correrão rapidos, e, bem que Alberto começasse a achar a vida que levava um tanto monotona, não podia eximir-se da satisfação suave que em todos produz a extrema quietação. Entretanto, ao observar os progressos da paixão que accendêra no peito da indigena, sem querer entristecia-se e procurava arredar da lembrança a necessidade de em breve dar fim áquella ligação passageira.
O amor de Ierecê era inventivo. Tudo quanto podesse sorrir ao espirito do moço, tratava ella, na medida de suas forças, de conseguir logo: plantas raras e curiosas, ou que lhe parecião tal; mineraes coloridos, conchas do rio e insectos, objectos emfim mais ou menos approximados pela côr e fórma a qualquer outro que Alberto houvesse fitado com mais attenção e que immediatamente a ella servia de typo para as amorosas pesquizas.
Então como se pagava de um olhar de agradecimento, de um sorriso, um gesto?! Seos olhos inquietos estudavão a impressão que a physionomia do mancebo lhe havia de denunciar.
As narrações que Alberto fazia da vida e dos esplendores do Rio de Janeiro excitavão-lhe vivamente a imaginação. A descripção do trajo das mulheres e da mudança continua das modas sobretudo a encantava de um modo singular.
—Ah! se eu tivesse tudo aquillo! disse ella uma vez com fundo suspiro.
—Você quer ir para lá? perguntou-lhe o moço.
—Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das portuguezas tão alvas e bonitas. Eu nasci para o matto. Depois na cidade minha gente morre toda de bexigas.
Florindo dava-se muito bem com a india: ella o ajudava no preparo da comida; ia buscar fogo; corria a encher no ribeirão a bilha d’agua; respigava para a cozinha gravetos bem seccos, tudo com tamanha espontaneidade que o soldado, apezar da fleugma natural, deixava-se levar a lhe querer muito bem, o que manifestava a Alberto, respeitando na mulher a posição do seu camarada.
—Ó vossa senhoria,[12] dizia elle, esta dona parece mesmo, com sua licença, filha de feiticeiro. Nunca vi uma creatura, com perdão da palavra, de melhores modos. Prende deveras o coração da gente.
Alberto Monteiro jamais se sentira, senão tão feliz, pelo menos tão calmo. Nada lhe perturbava a paz do espirito, e como a saúde voltára completa, vivia sem consciencia exacta do tempo que passava.
A paizagem que o cercava era restricta, mas amena. Densa cintura de matta virgem limitava logo o horizonte; em compensação, porém, os olhos erão obrigados a parar demoradamente nos grupos de buritys e taquarussús que acompanhavão o percurso do corrego e que mais se condensavão em torno de uma bacia larga e natural em que as agoas se espraiavão sobre um fundo de areias prateadas.
Ahi era o banho de Ierecê.
Ás vezes, alta noute, o velho Morevi rompia o silencio do valle com um canto lugubre, cortado de notas agúdas e desafinadas. Para essas barulhentas vigilias é que se trajava do modo em que o encontrára Alberto no dia de sua chegada a Hetagati: sáia toda enfeitada de lentejoulas, presa á cintura por um talim bordado a contas de côr e corpo riscado de urucú e genipapo. Os complementos de sua vestimenta sacerdotal erão um espanador grande de pennas de ema, ornado de desenhos caprichosos e um chocalho que sacudia pausadamente, ao passo que percorria, a avançar e recuar, um couro sem pello estendido diante da porta.
Erão as conferencias do feiticeiro com o acauan, especie de gavião pequeno que solta guinchos finos, accentuando as syllabas que lhe derão o nome—a-ca-uán—passaro agoureiro no dizer dos indios e com cujas consultas podem os padres descortinar o futuro.
De madrugada, o canto de Morevi soffria uma parada longa: de repente ouvia-se muito ao longe o grito do milhafre a que o velho respondia com voz de supplica afim de chamal-o para mais perto. Assim parecia acontecer. Os pios vinhão se tornando cada vez mais distinctos e afinal os ares estrugião com um estridente hymno de triumpho em que o rouquejar do velho casava-se com o vozear do passaro adivinho.
Ahi começavão as revelações.
Alberto, a principio, pela singularidade da cousa e pela perfeição com que era imitado o gritar do acauan, foi observar o velho e ouvir-lhe as descompassadas cantigas; entretanto, ao depois, ficava impaciente por ser interrompido no melhor do somno.
Ierecê, então, foi ter com o avô e taes argumentos empregou, apoiados em dadivas e promessas, que nunca mais aquella grita dissonante perturbou a tranquillidade das noutes. Se continuarão as consultas ao acauan, forão sem duvida feitas com toda a modestia em voz muito baixinha, para não incommodar o portuguez.
Em compensação, se, para socego dos ouvidos, calava-se Morevi, a netinha cantava melodias de sua nação, sempre no mesmo tom e com as mesmas notas, mas com voz tão suave e pura, que ouvil-a conciliava um somno doce e enervador. Ella cantava como cantão os passarinhos que para unica musica tem só duas ou tres modulações que Deos lhes poz na garganta para o seu passatempo... mas assim mesmo não agrada tanto ouvil-os?!
Quando Alberto lhe pedia alguma canção, Ierecê cheia de alegria, mas tolhida de vexame, principiava toda a corar e a empallidecer, balbuciando e murmurando: depois, firmava a voz e desprendia do peito notas repassadas de uma ternura indizivel e que vibravão como partidas das cordas do coração.
Era, com effeito, o pobre coração que estremecia e alçava preces de amor a quem o captivára.
Uma noute, o luar era brilhante: tudo resplandecia de luz branda e azulada.
A matta, ao redor, formava uma linha escura, e o ribeirão parecia desdobrar-se em laminas de prata. Pontos scintillantes corôavão a folhagem compacta das palmeiras, por entre cujos troncos a luz, coando vivamente, estendia pelo chão compridas sombras que semelhavão columnas derrubadas por terra.
Ierecê preparára uma sorpresa.
Fôra, de manhã, á aldêa do Agaxi convidar diversas indias kinikináos para virem passar a noute no Hetagati.
Á hora aprazada, chegarão de facto seis bellas raparigas, vestidas com a tradicional julata que lhes deixava descobertos os seios pequenos e empinados. O typo era o mesmo que o de Ierecê; mas esta, no meio das companheiras, parecia uma deusa cercada de nymphas. Tinha pórte mais altivo, physionomia mais expressiva e intelligente.
Alberto, ao vêr chegar o gentil bando, adiantou-se ao seu encontro.
A guaná o mostrou com orgulho, e, tomando pela mão a visitante que lhe pareceo mais bella, caminhou para o mancebo: então, entre risonha e medrosa, disse-lhe que d’ora avante se considerava vencida em formosura e cedia o seu lugar a quem mais o merecia.
A recusa immediata não mostrou offender a kinikináo e mais exaltou a alegria de Ierecê.
Um dos caracteristicos das raças selvaticas é estarem os seus individuos sempre dispostos para comer. Foi por isso que, havendo Florindo sido avisado de antemão e preparado lauta refeição de porco do matto, palmito amargoso e pirão de milho, poderão as recem-chegadas sem demora satisfazer a sofreguidão do appetite.
Acabada a ceia, forão todas ao corrego e banharão-se com grande e festivo ruido.
Já então havia Ierecê espalhado diante da choupana uma ramagem fresca e odorifera, sobre a qual estendeu um panno alvo, afim que Alberto se deitasse, e mais a gosto podesse assistir aos dansados que ella e as companheiras ião executar.
Morevi deo o signal batendo n’um tambor de pelle de anta e entoou uma canção de andamento vivo.
Ao ouvirem as primeiras pancadas, as indias se puzerão em linha e n’essa disposição avançárão e recuárão diversas vezes com passo fingidamente tropego: depois, soltando as mãos, compozerão varias figuras ou em grupos de tres, ou correndo em circulo umas atraz das outras, antes de reformarem a linha primitiva. De vez em quando uma d’ellas parava e unia a sua voz á do rouquenho cantor para animar o dansado que se accelerava e mais calor e vivacidade tomava com os gestos elegantes e posições voluptuosas, quasi lubricas, das bailarinas.
Depois da dansa, cantarão todas juntas um côro, que peccava, não pelo afinado das vozes, mas pela falta absoluta de variedade, razão pela qual Florindo observou com graça que aquella musica havia de agradar muito quando a gente estivesse a dormir.
Á hora em que o cruzeiro vai virando no céo, Ierecê deo por finda a funcção.
Alberto se distrahira mediocremente, mas julgou caso de polidez e justa condescendencia mostrar-se plenamente satisfeito e divertido.
Quem não cabia em si de contente era a guaná. Sem contestação dansára com mais graça do que as outras, provocando sempre os applausos do branco, cujos sentimentos de delicadeza começava a comprehender e a partilhar, tanto assim que não deixou ninguem vir dormir na sua choupana e foi levar as visitantes a fazerem companhia pelo resto da noute ao velho Morevi.
Este não teve remedio senão ceder lugar ás jovens kinikináos e, puxando para fóra o couro que lhe servia de leito, dormio sem mais ceremonia ao relento.
De manhã, antes que o sol rompesse, retirárão-se as indias, levando os presentes que mais podião lhes agradar: sal, chitas, espelhos, contas, agulhas, e os restos do banquete da vespera.
Ierecê foi acompanhal-as até certo ponto do caminho, mas não quiz chegar até a aldêa.
No entretanto os dias e as semanas havião passado, e Alberto não dava mostras de perceber isso.
—Sabe V. S., perguntou-lhe um dia Florindo, quanto tempo faz que estamos aqui?
—Talvez um mez, não é?
—Já lá vão dous, rectificou o soldado.
Foi com verdadeiro espanto que Alberto verificou ser exacta a conta.
—Mas então, disse elle, Julio Freitas ha muito deve estar de volta!... Como é que não appareceo por cá?
—É que o Sr. capitão frechou direitinho de Nioac para Miranda pelo Lalima. Fazia V. S. na cidade e foi para lá em rumo certo.
—Então de Nioac ha outro caminho que não este?
—De Nioac, nhôr-não. Da Forquilha, dez legoas mais arriba. Ahi ha uma estrada que vai de parelha com o rio Miranda.
—O que você diz é certo. Julio Freitas deve estar á minha espera. É preciso que eu chegue até a villa. Amanhã.... talvez....
No dia seguinte o projecto de partida não se realisou.
—Não irei eu mesmo, disse Alberto para o soldado. Você é quem seguirá para Miranda montado no meu animal. Entenda-se com o Sr. capitão, diga-lhe que estou de saúde e peça que, se poder, dê uma chegada até cá. Se não, eu lá estarei n’estes dias proximos.
O camarada, á noutinha, preparou uma passóca para a viagem.
—Quem é que vai embóra? perguntou-lhe Ierecê vendo-o occupado n’aquelle mister.
—Eu, respondeo Florindo, tenho que dar um pulo até a cidade.
A india ficou sobresaltada; muitas vezes fez a mesma pergunta e ouvio a mesma resposta.
Sem saber ainda pelo que, o seu coração se apertava de tristeza e um presentimento doloroso agitava-lhe a alma.
Tambem mal poude dormir e, abrazada de insolita agitação, debalde foi por vezes pedir ás agoas do corrego refrigerio para o calor e o mal estar que não lhe permittião quietação.
Uma cousa impedio a partida de Florindo: foi o apparecimento matutino de Julio Freitas a cavallo, acompanhado de um morador da villa.
Elle deo grandes brados ao avistar Alberto.
—Então, Sr. anachoreta das duzias, escondido n’este lindo retiro e os outros com cuidados de sua pessoinha!
Os dous amigos se abraçárão affectuosamente.
—Quando cheguei a Miranda, disse Julio, ha quasi uma semana, fiquei pasmo de não encontrar a você. Pedi noticias suas, não m’as souberão dar.... Então suspeitei que podesse ter dado fundo na aldêa dos kinikináos e vim em pessoa arrancal-o, morto ou vivo, de seus estudos anthropologicos..... E as febres?
—Ha muito que já se forão....
—Mas tudo aqui é lindo! exclamou o recem-chegado com expansão. Que soberbos boritys! Você é um verdadeiro artista. Emquanto eu corria campos batidos de um sol abrazador e caminhava sem tregoa, sua senhoria, deitado á sombra dos taquarussús, deixava o tempo correr mansamente como as aguas d’aquelle bello corrego! Não ha vida melhor. Que diz, Sr. João Faustino? Ah! deixe lhe dar o conhecimento d’este amigo de Miranda. É um morador da villa, pessoa que estimo muito e que conheço desde Cuyabá.
Alberto apertou a mão do apresentado, homem de meia idade, rosto moreno, physionomia amena e franca.
—O Sr. Faustino, continuou Julio, acompanhou-me até cá, porque vem contractar uns indios para irem trabalhar na sua fazenda do Rodrigo. É um optimo companheiro para a folia e para o perigo, homem com quem se póde contar.
Quando ao almoço Alberto apresentou Ierecê ao seu amigo e a João Faustino, estes não poderão occultar a admiração que lhes causava a venustade da india.
—É uma bella mulher! murmurou Julio a meia voz. Palavra de honra, Alberto teve faro.
—Você é da aldêa? perguntou Faustino a Ierecê em lingua chané que elle fallava com perfeição.
—Não, respondeo ella, sou de Albuquerque: desde que estou aqui, os paratudos[13] já derão flôr cinco vezes.
Se a india produzio aquella impressão de sorpresa, homenagem inequivoca á sua formosura, por seu turno recebeo um choque immenso. De momento percebeo que aquelles homens vinhão lhe roubar o ente a quem ella prezava n’este mundo só, acima de tudo.
Poz-se attenta a ouvir a conversa, e qualquer duvida ainda possivel, qualquer esperança que podesse affagar, fugio-lhe para logo do espirito.
—Então, Alberto, dizia Julio Freitas, a sua vida tem sido um paraiso....
—Passei bem...
—Pois, meu amigo, não ha bem que não se acabe. N’estes dias devemos todos partir de Miranda. Não sei se você quer ficar.... Ah! a proposito, trago-lhe uma carta do Rio de Janeiro.... Quer vêr que a perdi!... Não; está aqui: fui pescal-a na mala que por acaso chegou de Cuyabá, de modo que a data não póde ser muito antiga.
Alberto abrio a carta que lhe passára o amigo, e uma nuvem correo-lhe pelo rosto.
—Tenho más noticias, disse elle, dos meus negocios na Côrte. O banqueiro em que tenho algum dinheiro está, pelo que me escrevem, um tanto abalado...
—Com mil bombas! exclamou Julio, o caso não é de brinquedo! A sua presença é indispensavel e quanto antes...
—Sim, concordou Alberto distrahidamente, preciso partir.
Ierecê ouvira tudo com rosto impassivel, mas dentro d’alma parecia-lhe que a sua hora de morrer vinha chegando.
Durante o dia Alberto, com algum constrangimento, confessou a Julio Freitas e a João Faustino que sentia bastante desgosto, quasi remorsos, em deixar Ierecê. Leval-a, era impossivel, elle bem via, mas tambem abandonal-a de chofre...
—Entretanto, objectou Freitas com algum calor, você não póde ficar aqui anniquilado!... Fôra quasi um crime!...
—De certo, porém...
—São cousas que acontecem todo os dias... Demorar a resolução é que é máo...
—Depois, ponderou João Faustino, convém lembrar-se que os indios esquecem depressa. Ierecê poderá ficar sentida uma semana, duas, se tanto; depois consolar-se-ha... é...
—É a lei universal, concluio philosophicamente Julio Freitas.
Alberto nada replicou.
—Se eu tivesse, disse elle por fim, ao menos alguem que olhasse para esta pobre creatura, lhe désse de vez em quando alguma cousa para a sua subsistencia...
—Pois aqui está o João Faustino, respondeu Freitas. Ninguem melhor do que elle se incumbirá de tudo...
—E com a maior satisfação, confirmou o outro. Estou completamente ao seu dispor para tudo quanto fôr do seu serviço....
—Obrigado... agradeço a sua boa vontade e aceito os seus offerecimentos sinceros... Sobre o mais, conversaremos com vagar em Miranda.
—Em todo o caso, annunciou Julio Freitas, volto amanhã para a villa. No fim de poucos dias parte de lá o vapor, e não podemos perder uma occasião d’essas...
—Pois bem, concordou Alberto, partão vocês, eu ficarei mais uns dias, e no domingo estarei em Miranda.
—Sem falta? perguntou João Faustino sorrindo-se.