OBRAS
DO
V. DE A. GARRETT.

XVII.

(SEGUNDO DOS VERSOS.)

VERSOS
DO
V. DE ALMEIDA-GARRETT.


II.

FÁBULAS—FOLHAS CAHIDAS, SEGUNDA EDIÇÃO.

LISBOA
NA IMPRENSA NACIONAL


1853.

A QUEM LER

No anno de 1828, em Londres, se publicou o primeiro volume dos versos ou ‘poesias fugitivas’ do Sr. Garrett. Extinguiu-se em pouco tempo a edição; mas o auctor, occupado de outros trabalhos e preoccupado de mais serios cuidados, não tractou nunca de preparar a reimpressão que, entre nacionaes e extrangeiros, pediam todos os collectores de suas obras.

Até ao anno de 1841, não lhe foi possivel nem lançar os olhos áquelle modesto volume que, sob o nome de LYRICA DE JOÃO MINIMO, tam popular o tinha feito, e algumas de cujas peças ja tinham merecido ser trasladadas nas linguas mais cultas da Europa.

N’esse anno, retirado a descançar no campo de grandes fadigas de corpo e de espirito, deu emfim algumas horas de mais lazer a repassar as composições de sua infancia litteraria, e a escolher as principaes das que, em mais feita edade, lhe tinha arrancado a condescendencia com amigos, ou a irresistivel inspiração de algum objecto ou circumstância da vida que mais o impressionára.

Resmas e resmas de papel lhe vimos destruir e queimar ao fazer d’esta escolha. E apezar do desapiedado apuramento, ainda ficou uma collecção copiosa que, entre o ja impresso e o ainda manuscripto, dava materia para bons quatro volumes.

Infileirou tudo por generos e datas,—algumas das quaes só estavam na pouco exacta reminiscencia do auctor. Mas depois de tentados e desprezados varios methodos, assentou porfim—que dos quatro volumes, ficaria sendo o primeiro essa mesma LYRICA DE JOÃO MINIMO, apenas alterada da primitiva edição de Londres em leves differenças de collocação, e acaso additada com alguma composição juvenil que o auctor desprezára, mas que reclamavam os seus apaixonados;—que o segundo, sob o titulo de FLORES SEM FRUCTO, conteria o resto das composições lyricas da sua primeira e segunda epocha;—que o terceiro sería destinado ás FÁBULAS E CONTOS, e por appendice aos poucos sonetos que não intregára ás chammas;—o quarto volume finalmente, com o titulo de FOLHAS CAHIDAS, foi dedicado ás producções de edade mais madura e que elle considerava como os seus ultimos versos.

D’estes quatro volumes assim detalhados, não se tractou todavia por emquanto de dar ao prelo senão o segundo, as FLORES SEM FRUCTO, que ainda assim só vieram a imprimir-se em 1845.

E nem a popularidade que obteve o livro, nem o remanso de maiores lidas, que por então gosou o auctor, o poderam mover a pôr a última mão a nenhum dos outros.

Sómente em principios de 1851 entrou na imprensa o primeiro volume, isto é, a segunda edição da LYRICA DE JOÃO MINIMO, e o quarto, isto é, as FOLHAS CAHIDAS.

Motivos bem notorios de serviço público vieram reclamar toda a efficacia e attenção do nosso auctor; e os dois volumes lá ficaram abandonados na imprensa, meio compostas e meio revistas as folhas. Assim estiveram dois annos até principios do actual, 1853, em que felizmente desimbaraçado e liberto, pôde outravez dar-se aos seus queridos cuidados litterarios.

Publicou-se então a LYRICA e as FOLHAS CAHIDAS; aquella muito correcta e avantajada á primeira edição; éstas cerceadas e mondadas pelo auctor, que apenas ficou uma pequena brochura do que tinha sido um volume regular.

Em poucos dias porêm desappareceram as FOLHAS;—levadas de bons e de maus ventos... voaram.

E sendo reclamada pela opinião e pelas necessidades do commercio uma segunda edição, resolveu-se o auctor a fazer da reimpressão d’esse voluminho, e do inedito que era destinado ás Fábulas, sonetos, etc., um só tomo, com o título de SEGUNDO VOLUME DOS PRIMEIROS E ULTIMOS VERSOS.

Para resummir d’este modo, era necessario porèm queimar ainda mais sonetos e mais apologos. Assim se fez, sendo genero de occupação em que muito parece comprazer-se o auctor.

Mas por tal modo, com estes dois volumes e com o das FLORES SEM FRUCTO, está completa, em tres tomos regulares, a collecção das poesias menores do Sr. Garrett: nome pelo qual sempre será mais conhecido o Visconde de Almeida Garrett, a quem as dignidades politicas não elevam nunca acima do que a si proprio se eleva por seu ingenho e estudo.

Detractores e inimigos gratuitos—porque não invejosos tambem?—podem clamar que essas dignidades rebaixam o nome que não podem exaltar.

É um sophisma de calumnia, porventura admissivel como epigramma se, republicano e demagogo, o auctor de Camões, de Gil-Vicente e de Fr. Luiz de Sousa, houvesse alguma hora professado as hypocritas doutrinas do nivelamento social, que tam poucos acclamam com sinceridade, e menos ainda com perseverança. Mas a tribuna, a imprensa e o Conselho o viram sustentar sempre com denodo e dedicação a causa da monarchia, sustentá-la como inseparavel da causa da liberdade do povo, da qual é não menos zeloso e strenuo defensor.

A verdade é que as distincções monarchicas tanto dão lustre ao merito e o recebem d’elle, quanto se invilecem e prostituem lançadas á ignavia ou ao demerito que não conseguem innobrecer.

O dia em que os reis comprehenderem bem este axioma, será o último das aspirações demagogicas.

Voltemos porêm á historia da nossa collecção. Não ficou ella nem rigorosamente chronologica nem perfeitamente systematica. Participa de uma e de outra coisa, innevoada de um certo mysterio que muito por acaso a involve, sem nenhuma prevenção ou pretenção da parte do auctor.

Na Lyrica de João Minimo, tal como no princípio d’este anno se publicou, está a infancia poetica, toda a vida juvenil do homem de lettras, do artista, do patriota sincero e innocente, do enthusiasta da Liberdade que ainda não conhece, que ama com exaltação, que serve com fervor, e pela qual sacrifica de bom grado a patria, o socêgo doméstico, a fortuna, a saude e quanto os homens mais prezam. Ha n’essa lyra uma corda que ja soa de amor, do amor apaixonado, ardente, cioso que um dia abafará talvez as outras todas. Mas os gemidos soltos que por agora lança, os vagos suspiros que balbucia mostram bem claro que no coração do poeta dormem ainda as tempestades que porventura lhe hãode agitar depois a vida. Para tudo o que não é a Patria e a Liberdade, é tibio e froixo o seu canto, desgarrado e mal sentido. Hade entrar muito fundo n’esse coração a pena ou o prazer, antes que chegue a fazer vibrar a corda íntima que está silenciosa, distendida—e apenas geme a espaços como harpa eolia pendente do ramo, que, agitada por incerta brisa, suspira vaga e saudosa, sem a percutir ninguem, por ninguem, por coisa nenhuma, e só movida de um indeterminado presentimento do que hade ser, do que póde ser, do que talvez não seja nunca.

Falla de amor o poeta... Sim, falla; e ha Délias e ha Lilias, e ha flores e ha estrêllas, e ha bejos e ha suspiros, e ha todo esse estado maior e menor de um exército de paixões que sai a conquistar o mundo no princípio da vida de um rapaz cheio de alma, de fogo, de exuberante energia e vehemencia de sangue. Mas esse exército é todo de parada, fórma bem na revista—em travando peleja séria, hade fugir, porque é boçal e não o anima nenhum sentimento verdadeiro e tenaz. Ve-se o poeta atravez do amante: falso amor e falsa poesia! Quando um e outro são verdade, não apparece senão o amante, não se ve senão a paixão, a arte some-se, annulla-se deante d’ella: então vem a poesia do coração.

Não ha ainda d’essa poesia na LYRICA DE JOÃO MINIMO. A da alma sim. Nos tres livros em que se divide a LYRICA estão as tres primeiras epochas da existencia do mancebo. As impressões e aspirações da infancia que desponta á puberdade, os instinctos da glória, do amor e do patriotismo suspiram no primeiro livro, que se sente escripto no socêgo da casa paterna á repousada sombra das faias e das larangeiras da sua ilha no meio do Athlantico,[1] e logo depois ás margens classicas do Mondego, nas horas vagas dos estudos superiores. O segundo livro é nova era para o poeta e para o patriota. Alceu imberbe, tribuno de dezeseis annos, levanta-se com a revolução, destitue todos os idolos velhos, e não canta senão hymnos á liberdade. O profundo sentimento monarchico lá resumbra todavia sempre dos mais exaltados cantos com que se insurge a sua musa revolucionaria. Ve-se que, apezar de todo o impeto que leva essa carreira, jamais hade precipitá-lo na anarchia. O irreconciliavel inimigo dos despotas e dos hypocritas não hade ser nunca o amigo dos demagogos, nem blasphemará jamais contra Deus e contra a religião em nome da liberdade que adora como emanação do seio divino.

No terceiro livro ahi está elle repousando no lar paterno das primeiras lidas públicas; ahi canta em suaves endeixas os mais puros affectos da familia, a saudade dos que ja não vivem, o carinho dos que ainda o abraçam. Mas a patria, essa patria que hade renegá-lo e proscrevê-lo d’ahi a pouco, a liberdade que hade fugir bem depressa, vem tirá-lo do seu momentaneo descanso. Os cinco annos da vida de Coimbra passaram, o socêgo da casa materna a que regressou cança-o. Elle que sai outra vez da sua ilha tranquilla para as tempestades da capital. A causa do povo é trahida, abandonada... elle não a abandona; prefere o exilio, e em terra extrangeira o ouvimos cantar as suas imprecações, as suas saudades e a constancia indomita do auctor do CATÃO.

Tal é a historia da LYRICA DE JOÃO MINIMO, que termina em 1824.

Começa no anno seguinte a das FLORES SEM FRUCTO, collecção ja muito menos volumosa, porque a superabundancia de seus espiritos poeticos tem ja outras derivações. O CAMÕES, a DONA BRANCA, a ADOZINDA, absorvem muito d’elle. Fórma-se com a experiencia e a observação na terra extrangeira o talento do publicista, aperfeiçoa-se na patria com a práctica; começam as luctas politicas de 1826, em que o redactor do PORTUGUEZ e do CHRONISTA mostra que, se a natureza o fez poeta, o estudo e o amor do seu paiz o fizeram orador eloquente e escriptor politico abalisado.

Nova emigração, novos trabalhos litterarios e politicos, e novos cantos lyricos tambem, em que ora geme, ora triumpha a liberdade.—Mas no segundo dos dois livros das FLORES começam as paixões do coração a tomar posse mais ampla e mais tenaz do poeta. Sería que as desillusões da politica, os desappontamentos da vida pública, as deffecções da amizade o levassem a refugiar-se nas chymeras d’esse outro paiz de sonhos, em que o despertar não é todavia nem menos desanimado nem menos triste?

Não sei: a vida de um poeta hade sempre ter capítulos mysteriosos, transições inexplicaveis e inesperadas; a filiação de suas ideas e de seus sentimentos é quasi sempre cryptogamica. O certo é que, nas primeiras composições dramaticas do restaurador do nosso theatro, o amor não existe. No CATÃO e na MEROPE só ha as paixões d’alma, o amor da patria ou da familia; no GIL-VICENTE porêm ja o coração toma o primeiro logar,—disputado ainda pela glória, pela paixão das lettras, da arte—mas o primeiro.

N’esta segunda collecção lyrica do nosso auctor, basta a peça que tem por titulo As minhas asas para se ver que o homem público, o philosopho, o poeta da glória e da liberdade pagou emfim o tardio e pesado feudo de sua independencia vencida e subjugada. Até então as homenagens ao suzerano eram meias de escarneo, eram um tributo de condescendencia—de uma como elegante ironia! O estado de coisas é outro agora.

As FOLHAS CAHIDAS continuam esse estado. Os seus dois livros (que na primeira edição foram um só) visivelmente o mostram.

As FOLHAS CAHIDAS são o principal n’este segundo volume dos VERSOS, que vem a ser o terceiro, porque entre elle e o primeiro estão as FLORES SEM FRUCTO. As FÁBULAS e os SONETOS não são senão appendices ou accessorios; e por suas datas e por seu genero pertencem mais á primeira collecção de que acima fallámos, do que a ésta terceira de que vamos occupar-nos.

Aqui os sentimentos patrioticos, o amor da glória, o enthusiasmo da liberdade teem ainda saudosos ecchos na lyra do poeta. Mas a energia, a vehemencia de suas cordas não vibra ja senão com outra paixão mais ciosa e mais exclusiva. As Julias, as Délias, não se contentam ja de inspirar, dominam absolutamente o coração do poeta, os hymnos, as canções, as imprecações mesmas da sua lyra.

Que é de o Alceu que bramia liberdade, o Anacreonte que zombava com o prazer, o Tyrteu que precedia as phalanges da Terceira aopé do pendão azul e branco da joven Rainha dos exilados? Que é das elegias suaves e melancholicas do auctor do Camões? Que é feito dos desgarres semi-rabelaicos do poeta de Dona Branca, dos sarcasmos byronicos e incredulos, dos surrisos mephistophelicos espalhados por essas VIAGENS NA MINHA TERRA, pelo ARCO DE SANCT’ANNA, por tanto volume de prosas e de versos?

Tudo isso acabou, porque acabaram provavelmente todas as decepções do seu ânimo, e não ficou, em logar d’ellas, senão outra decepção maior que ingana mais cega, e venda mais apertada.

Taes são as FOLHAS CAHIDAS, última palavra até agora, mas que não será a derradeira do nosso poeta: affoitamente o confiâmos. Confiâmo-lo de seu ingenho grande, de sua alma elevada e nobre, traduzimo-lo da sua admiravel introducção ao pequeno volume que hoje reproduzimos.

As FOLHAS CAHIDAS não são o fim, são a transição.

O que virá depois sabe-o Deus, sabe-o o destino mysterioso de uma existencia á parte, que não tem lei nas regras, mas nas excepções da humanidade.

O tempo o mostrará, porque uma vida, que tam longa parece por tam cheia que tem sido, é ainda curta e môça bastante para nos deixar aguardar socegadamente pelo futuro que esperâmos d’ella... e muito!

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Em Angra, na ilha Terceira, capital dos Açores.

PRIMEIROS VERSOS.
FÁBULAS E CONTOS.—SONETOS.

Senti sempre que a lingua portugueza era para todo o genero de composições. E o rebellar-se ella em algumas pareceu-me que era mais inhabilidade de quem a conduzia do que defeito proprio seu. Por honra d’ella, mais que por vaidade minha, tentei compor em tam desvairados assumptos e generos como tenho feito. Hoje estou crente e firme convencido de que a tudo serve, a todo stylo se presta. Nem me persuadi mais d’isso por alguma coisa em que sahi bem de meus insaios, do que pelas muitas em que falhei.

A singeleza de seu dizer, uma certa malicia popular e mordente de sua innocencia saloia faz o dialecto portuguez eminentemente proprio para o apologo e para o conto.

Está pouco trabalhado o genero entre nós em verso. Mas as fábulas dos animaes, contadas em prosa pelas gentes do campo, teem tanta graça de stylo como as de Esopo e de Pilpay; e as narrativas do Decameron popular em que sempre figura o frade, a mulher do çapateiro, o marido logrado, o amante umas vezes bem succedido em seus artificios, outras colhido n’elles proprios e punido de sua audacia, não teem que invejar a Lafontaine ou ao licencioso italiano que fez as delicias de nossos gaiatos avós da renascença.

Quando, em bem criança, quiz tambem insaiar a minha penna n’este genero, não adverti tanto no que agora escrevo e penso.

Fique pois o meu mau exemplo, fique a minha quéda por farol de aviso aos que navegarem n’este rumo, paraque saibam que as imitações dos extrangeiros são perigosas sempre, e quasi sempre infelizes quando se não poem bem deante dos olhos os unicos typos verdadeiros, que são a natureza, a indole da lingua, e os modos de dizer do povo em cujo idioma se escreve.

Tambem comprehende a segunda parte destes meus ‘primeiros versos’ alguns sonetos, poucos. De centos que fiz, e que me fizeram fazer, apenas deixei estes. Não são bons, e eu não gósto do genero, que por indole propria é pretencioso e facticio. Mas confesso que hoje tenho remorso da reacção que promovi contra o soneto. Tinha aomenos restricções e difficuldades que não tem a sôlta liberdade das canções descabelladas e plusquam romanticas, pelas quaes foi substituido; na qual soltura cresceu descompassadamente a turma dos janisaros do Parnaso, que levaram a anarchia poetica alêm de todas as raias do senso commum.

Se nós invocaremos ainda o soneto e a Arcadia e a Academia, como os povos, cançados e infastiados das orgias da liberdade desinfreada, invocam a tyrannia, último e fatal remedio dos males presentes, que lhes fazem esquecer os passados? Ochalá que não, porque a coisa era muito semsabor e muito pedante. Mas ésta é tam piegas!

Da litteratura piegas nos livre Deus, sôbre todas as coisas.

Emfim, a historia do mundo não é senão uma serie de reacções e contra-reacções. A da litteratura é o mesmo. O que unicamente fica immutavel são os eternos principios da verdade, do gôsto, e da razão em tudo.

Lisboa, Janeiro 1853.

FÁBULAS E CONTOS.
LIVRO UNICO


I.
INTRODUCÇÃO.

Cahiram com a folha os meus prazeres;

E as musas, caro Gomes,[2] que, outro tempo,

Torrentes d’estro me esparziam n’alma,

Até as mesmas musas

Sem dó, sem compaixão desampararam

O froixo amante inválido.

Embalde as chamo, e as desmontadas cordas

Da saudosa lyra

Lhes peço aomenos que siquer me affinem.

São bellas, como bellas, caprichosas:

Não me admirou que fujam.

Porêm, amigo, no celeste côro,

Como por ca na terra,

De milagre inda ás vezes se depara

Com alma bemfazeja.

Das nove irmans gentis a mais gaiata,

Garrida e brincalhona,

A galhofeira, magica Thalia,

Rindo-se ás gargalhadas

Da lamuria que fiz por ver fugi-las:

—‘Deixa,’ me disse ‘és louco;

Deixa, que ellas virão sem que as tu chames:

É costume do sexo,

Assim fazemos todas.

E que lhes queres tu? que incantos achas

Na macillenta, pallida Melpomene,

Que, desde que houve em Grecia um tal Eschylo

Até o dia d’hoje,

Sempre lagrymijando

Nos sécca, nos injoa

E nos quebra os ouvidos com gemidos?...

Sempre se anda a mattar e nunca morre!

As outras—na verdade,

Aqui muito em segredo,

Éstas minhas irmans... Não é má lingua,

Não é geito da saia... mas decerto

Não sei esses poetas

Porque tanto as incensam, tanto as buscam.

Olha: o velho Philinto,

Que tu, e os teus patricios—boa gente!—

Tanto gabaram, applaudiram tanto,

Sem lhe mattar a fome,

Postoque a todas nós galanteava,

Comtudo a do seu peito

Foi a mana Polymnia.

Nunca vi um namôro mais rançoso;

Fizeram duzias de odes... duzias!—centos.

Tantas e tantas foram,

Que emfim o mano Apollo

Ja de odes infastiado,

Assim que o pobre velho deu á casca,

Protestou, e protesta

Não dar a mais ninguem o officio vago

De Lyrico da casa.

‘Caliope, essa tolla impavezada,

Que Homero, e o teu Camões, Virgilio e Tasso

Tam mal acostumaram,

Sempre de bico doce,

Torce o nariz a tudo

E diz que a ninguem mais quer dar cavaco;

E até, se não soubesse

Que um tal poeta lá da tua terra

Que faz Orientes e baptiza Gamas,

E a quem nós todas temos mortal osga,

Fôra frade tambem... que ia ser freira.

As mais é tudo o mesmo,

São todas desdenhosas:

Além d’isso têem lá os seus namoros,

E não querem largá-los.

‘Eu ca não sou assim ... Porêm não penses,

Por me ver rir com todos,

Que a todos quero, que namóro a todos.

Ingana-se commigo muita gente,

Tenho inganado a muitos

Que julgam conseguir os meus favores:

Cahem como uns patinhos

Nas peças que lhes armo.

Cuidou que me pilhava aqui ha tempos

Um tal cantor de burros,

Macaco encyclopedico

Que em tudo quer metter-se.

Preguei-lhe um lôgro... oh este foi machucho:

Vesti a minha môça da cozinha

Que vocês lá no mundo

Appellidam Chalaça,

Que sempre anda mettida entre estudantes,

Marujos e arreeiros,

Vesti-a c’uma roupa do meu uso

Ja rota e desbotada,

E mandei-lh’a em meu nome ao tal poeta,

Que a pillula ingoliu,

E muito satisfeito da conquista,

Por tal a deu aos parvos

Que as sujas trovas, que os immundos versos

Extasiados applaudem.

‘Quando eu tinha os meus dôze, e era donzella...

—Que hoje, cre-me a verdade,

Vai ca no Olympo o que lá vai na terra!

Namorei-me de um Grego: oh! bello amante!

Chamava-se Aristophanes:

Dei-lhe, intreguei-lhe tudo

—Como o teu Camões disse—

O que deu para dar-se á natureza.

Um Phrygio corcovado,

Mas que tinha mil graças

Que a corcova das costas lhe incubriam,

Soube tambem vencer-me.

Com estes dois gosei prazer tam doce,

Tam deleitosas horas,

Que os monumentos d’ellas

Inda lá pela terra os mimos fazem

De quantos sentem de meus dons o preço.

‘Quando no Sena ovante,

Quando no Tejo e Tybre

Se ergueram nossos templos

Que a barbara ignorancia derrubára,

Ao cantor do Lutrin, ao da Pucelle,

Ao mago auctor do santarrão Tartufo,

Ao teu do bento Hyssope,

E a esse galhofeiro Italiano

Que aos animaes deu falla,

Dei-lhe os favores, franqueei-lhe os mimos

Que a Ariosto, a Gil-Vicente,

Que aos outros todos concedêra outrora.

Se o que elles foram sabes,

Quanto eu valho apprecia.

Eu não sou como as manas,

Rio de tudo, tudo rindo insino;

E nas coisas mais sérias

Acho, descubro o lado

Em que o sal do epigramma incaixa a geito.

Por mim da atroz affronta,

Por mim da escravidão, por mim da inveja

O ingenho se despica,

E n’um só trait d’esprit, de eterno opprobrio,

C’o sêllo do ridiculo,

Marca indelevel na ignorancia imprime,

Na presumpção, no orgulho,

Toma’ e, dizendo, me intregou a lyra,

‘Toma, e conhece quanto podem risos

Da magica Thalia.

Fere-a, e, se os sons mal destros,

Desafinados, rudes te sahirem,

Começa n’isso mesmo

A gosar minhas dadivas;

Ri-te d’elles, de ti, ri-te da lyra,

E de mim se quizeres.’

Tal me fallou a minha bella deusa

Que tantas gargalhadas,

Nos dias folgasões de nosso tempo,

Nos fez dar tantas vezes

Quando na voz roufenha

Do nosso mathematico Alvarenga.[3]

Ás mãos cheias vertia

Pilherias do Kai-Pira e Sganarello,[4]

Do impulhado Avarento.

Satisfeito da offerta, e mais que d’ella,

Do longo e bom cavaco,

—Cavaco que jejuo ha tanto tempo!

Cavaco suspirado

Com que me acenam ja vesperas sanctas

Do tardio feriado!—

Toquei, ou antes arranhei á toa

Os versos que te mando.

Ri-te se forem bons e se gostares,

Ri-te se forem maus e te injoarem,

Ri-te, ri-te, que o mundo

Não se póde levar de outra maneira:

Assim o insina a deusa.

Coimbra—1820.

NOTAS DE RODAPÉ:

[2] O Dr. Francisco Gomes da Silva, meu companheiro e amigo da Universidade.

[3] Outro amigo da Universidade.

[4] Farças que representavamos no nosso theatro.

II.
PELO ZURRO O BURRO.
CONTO ACADEMICO.

Naturam expellas

Furca, tamen usque recurral.

MORAT.

Era uma vez: diz mestre Lafontaine,

Que lh’o dissera Phedro seu amigo,

Que lh’o dissera um grego corcovado...

Pois tudo n’este mundo vai por dittos,

Tudo se diz porque outros o disseram...

E talvez que não fôsse Lafontaine,

Mas foi outro que tal, que vale o mesmo:

Um dia... mas o fio á minha historia

Não o tórno a quebrar por coisa alguma;

Poema que tem muitos episodios

Nunca póde ser bom, nem bons ser elles:

Diz padre Horacio ou outro tal como elle

D’estes que intentam accanhar o genio

Com leis servis por elles arranjadas

Que, segundo a moderna guapa eschola,

As não póde soffrer de taes birbantes.

Um dia pois o pae d’homens e numes,

Como eu ia contando aos meus leitores...

—Se é que a sorte, que os nega a bons poetas,

M’os deparar a mim, chulo trovista—

A rogos, mas de quem ja me não lembra,

Asno felpudo de orelhões cahidos

Quiz transformar em fervido ginete;

E ao bom Mercurio, seu fiel ministro,

Manda que o longo pêllo lhe tosquie

E um bom naco cerceie das orelhas.

Era grande o burrico, nedeo e gordo,

E por milagre do supremo Jove,

Que sempre faz como este bons milagres,

Ei-lo desimpennado e mui lampeiro,

Qual andaluz corcel ou egua arabia,

A par d’outros corceis se vai trotando.

O povo cavallar na fórma nova

Não reconhece a burrical maranha.

Como elles folgazão retouça e pulla,

Ladeia, faz corcovos, trava o passo,

Emfim parece—Tanto podem numes

E tal é o podêr de um bom milagre!—

Cavallo mestre e feito em picaria.

—Qual rustico peão de bronca aldea

De tamancos nos pés, no sacco a broa,

Que vem para imbarcar lá da provincia,

E para um tio, que é senhor d’ingenho,

Ricasso em pretos, em arroz, mellaço,

Ingoiado apprendiz vai ser caixeiro:

Morre-lhe o tio, eis o rapaz n’um sino,

Vende pretos e pretas e mellaço,

E vem, Cresso de cocos e patacas,

Metter toda Lisboa n’um chinello;

Ja por boas, luzentes amarellas

Serodeo compra fidalguesco fôro...

D’antes—que hoje a visita da saude,

Em cheirando a caturra, a bordo o prende,

E é ja barão quando põe pé em terra.

Ei-lo que alteia os hombros incolhidos,

Intufa em vento as bochechudas belfas,

Impina a pansa, ingrossa a voz pausada,

E no tropel dos nobres involvido,

Se o não conheces, crêra-lo provindo

Dos que nos velhos pergaminhos vivem.

Tal ja desorelhado e uffano o burro

Entre altivos ginetes campeava.

Mas, oh fado infeliz, mesquinha sorte!

Quando entre os novos ledos companheiros

Se vai trotando com pimpão meneio,

Ei-lo depara com villan jumenta

De hirsuta felpa e de costado esguio,

Que os fios corta d’alma a quem a via,

Como bem diz Latino-luso vate

De mui gaiata e festival memória.

Subito esquece o recem-nobre estado,

Lembram-lhe antigos, burricaes requebros

E o tom gallanteador de asnal namôro:

Estira amante o beijador focinho,

E em notas de invejar por um Lablache,

Psalmeia airoso, compassado orneio,

Deixa os amigos e a azzurrar se fica!

Ora pois, como fez o senhor Jove,

Fez certo gran’senhor de lettras gordas

E protector das magras.—Foi milagre

Que pela intercessão foi operado

De uma a que chamam deusa da Sandice,

De outra Impostura e de outra Pedantice.

Começa o caso c’o outro parecido.

Havia em certa terra muito longe,

Lá nas pontas dos pés d’este hemispherio,

Que dizem fôra outr’ora povoada

Por certo beberrão feitor de Baccho,

Havia uma familia de animalculos,

Zoophytos, e quasi mycroscopicos,

Aos quaes Lineu, que achou nomes a tudo,

Nunca deu nome, nem especie ou genero,

Nem eu lh’o sei tambem, só sei que arrotam

Textos, medalhas, chymicas rançosas,

Que trazem n’algibeira um compassinho,

Muito accanhado, curto e pequenino,

Talhado ao molde dos miollos d’elles,

Com que querem medir todo este mundo.

D’estes pois—e aqui vai o gran’milagre—

Burros na fórma, na sciencia burros,

Mas burros mais que tudo na cacholla,

Quiz o tal gran’senhor citado acima

Fazer—ó musa o quê?—Dize, não temas,

Não fujas, dize e vai-te.—‘Uma académia’

Disse a musa e safou-se ás gargalhadas.

Mas que académia!—Oh! venham as brilhantes

De Londres, de Paris, de Petersburgo

Beber aqui sciencia não sabida

De assopradas, pomposas ninharias.

Que producções, que producções! Oh quanto

Quanto seria mais se um deus maligno,

Inimigo dos guapos academicos,

Das tres que Deus nos deu potencias d’alma

Lhes não saccasse duas á surrelfa,

Deixando só memorias e memorias...

Quanto sería mais, quanto fulgira

Em gordos, grossos, grandes calhamaços

A portugueza, majestosa lingua,

Se os novos sabios, no comêço á emprêsa,

A antigas manhas não perdendo o affinco,

Não incontrassem por desgraça nossa

C’um perfido azzurrar—zurrar malditto!...

Ficaram no azzurrar sempre zurrando.

Coimbra—1818.

III.
AMOR E VAIDADE.
FÁBULA.

Ja mais veloz corria o espaço usado

Que as horas marca ao dia

O deus que atrás de Daphne

—Infructuoso trabalho!—dera ás gambias;

E aos braços d’Amphitrite ia mais cedo

Dos trabalhos da luz gosar nas trevas

Desejado descanço.

Iam seccando pelo prado as hervas,

E o verde-escuro dos frondosos montes

Amarello cahia;

Sentado aopé da magustal[5] fogueira,

Vermelho e rubicundo

O bemdito e louvado San’ Martinho,

—Que a cega antiguidade,

Por não tomar a bulla da cruzada,

Nem jejuar aos dias de jejum,

Baccho chamava em sua escandalosa

E misera ignorancia—

Bastas fazia navegar, nos máres

Da barriga sanctissima,

As puchantes castanhas;

Banhos e quintas ao socêgo antigo

Despovoados tornavam;

Voava a folha, sibilava o vento,

E em fim, sem metaphoricas periphrases,

Era ja meio outomno.

Amor, Cupido, ou Ero, ou qual mais gostem

Dar-lhe baptismo ou chrisma,

Comtanto que não chegue

A tanto o desafôro

Que ousem—como eu ouvi, por meus peccados,

Co’estes que a terra um dia

Ou mar tem de comer—

Por louca affectação de Anglo-mania,

(O que não farão modas!)

Chamar-lhe em Portuguez... chamar-lhe Love!

Amor pois ou Cupido,

—Que assim nossos avos sempre disseram

Em tempos venturosos

Que tudo se chamava por seu nome,

Que ás bellas se dizia

Em Portuguez sincero e sem malicia

O que hoje é fôrça rebuçar no manto

De alegoria equivoca—

Amor, do rebulicio da cidade,

Do barulho infastiado,

Farto ja de frexar c’os aureos tiros

Os corações tam gastos,

Usados, velhos, estropiados, frouxos

Da gente que a povoa,

Para o campo fugiu d’onde ella foge.

Lá nos singelos bosques,

Nas simplices cabanas

Singelos corações, simplices almas

Espera achar ainda

Em Daphnis e Amaryllis.

Por um ameno solitario valle,

Em seus projectos imbebido o numen,

Caminhava... eis da incosta d’um outeiro

Ve descendo gentil, esbelta dama

Que bem, no airoso infeite,

No perluxo das modas,

Conheceu que não era habitadora

Da rustica espessura.

Fugi-la quer; mas sentimento occulto,

Que entre nós ca na terra

Se diz curiosidade,

—Não sei como no ceo lhe chamam numes!—

Sentimento imperioso

No sexo lindo que nos doira a vida...

—Que a doira se gosar sabemos d’elle,

Que aos parvos a invenena—

Este o reteve, suspendeu-lhe os passos.

Quem será? Quer sabê-lo.

Ei-los junctos; e Amor que á bella dama

Cortezmente sauda:

—‘No campo ainda e só, quando á cidade

Apressurada corre toda a gente!

Tam delicada, tam formosa dama

Da quadra desabrida

Os insultos não teme?

Foge acaso o prazer da sociedade,

E n’estas mudas selvas

Vem porventura, desgraçada amante,

Chorar na soledade?’

Não gostou do cortejo e cumprimento

A nympha bella, desdenhosa e dengue;

Offendida que o nome lhe ignorassem,

Orgulhosa responde:

—‘Conhece-me o universo; em toda a parte

Templos, altares tenho;

Domino os corações, govérno as almas,

Sou uma deusa, e chamo-me Vaidade.

Por mim co’a morte, c’os revezes lucta

O guerreiro no campo;

E ante o espelho traidor consomme a vida

A belleza que aos annos se não rende:

Por mim o litterato sôbre os livros

Curva a frente abrazeada;

Por mim nos gestos, no fallar se estuda

O adamado peralta;

Por mim vivem contentes satisfeitos

Os que menos razão têem de viverem;

E o mago meu podêr se estende a tanto,

Que entro no seio mesmo aos que me offendem,

Desprezam e injuriam.

Por meu influxo, n’esse proprio escripto

Em que me insulta o sabio,

Corrige e apura o sabio o stylo, a penna,

Aos louvores armando.

Eu as suberbas, elevadas cupulas

Ergo de vãos palacios;

E até na estancia gellida da morte,

Nas mentirosas lapidas

Lavro pomposas lettras

Que a inganado porvir levam memorias

De parvos, de maus reis, sanctões Tartufos,

De tonsuradas bêstas.

Eu em certa famosa academia

As charamellas tanjo,

As conclusões defendo,

Em vandalo Latim peroro ás turbas,

Tufo a brilhante borla

Com que as caveiras jumentaes adórno.

Emfim até d’amor perturbo o imperio:

Por mim, por meus auspicios,

A parvoa chusma dos galans mais parvos,

Dos fofos petimestres

Ja do sexo gentil não quer favores:

Indiff’rentes ao gôso e á ventura,

Basta que o mundo os tenha por felizes...

Por mim a dama desdenhosa e bella

Ja não procura amores,

Nem de Venus suavissimos deleites,

Mas o gaudio maior, mais lisongeiro

De que os outros a creiam

Cercada de servis adoradores,

De humildosos escravos’...

Ia por diante; mas o deus zangado,

Furioso a interrompe:

—‘Basta; o numen d’amor sou eu: não entra

Tam facil em meu reino

Teu sacrilego pé: sobejas vezes

De muitos corações tenho extirpado

Teu petulante vício.

Em vão esse Hymeneo, que deus se chama

E egual amim se inculca.

Ousa pleitear commigo:

Os nós lhe quebro que appellida sanctos,

E em seu templo introduzo

—Embora a testa doia

Aos miseros maridos—

Quem me apraz, quem me segue, e a quem eu quero.

Por mim se eguallam desvairadas sortes,

Que as baixas condições uno ás mais altas.

Lidia, a orgulhosa Lidia

Que a ladaínha dos avós impurra

A todo o instante e a todos,

Lidia que nunca ri... c’um tiro as pompas

E as sombras dos avós lhe desfiz n’alma:

Puni-a, fi-la escrava,

Fi-la escrava... e de quem!... do seu lacaio.

Togas, aureos bastões, borlas, espadas,

Mittras, coroas, toucas e capuzes

Ao meu imperio tudo está sujeito.’

Desdenhosa e surrindo ouviu a deusa,

E em submissa ironia lhe responde:

—‘Pois bem: assim será; não valho nada

No coração das bellas.

Mas expliquem sem mim seu vário peito;

Isso que o mundo appellidou capricho,

Que em sua alma domina,

Dize-me o que é? será sem causa o effeito?

Suas obras tam variaveis, tam confusas,

Com que os amantes pasmam,

Não as deciphro eu só, de mim não partem?’

Esquentou-se a questão: denovo os deuses

Pro e contra razões allegam, mostram.

É cabeçudo Amor, ella teimosa...

Não acabavam nunca.

Ficariam na mesma,

Se o meio de findar contendas tantas

Não acordasse á deusa:

—‘Prescindamos’ clamou ‘de vans palavras,

Argumentos deixemos;

Vamos a factos, e de nossas armas

Façamos experiencia.’

Sahia a ponto do vizinho bosque

Pastorella innocente:

Alma inda nova, coração ingenuo,

No simples do vestido,

No mal composto dos cabellos louros,

De sobejo mostrava:

Era toda ao pintar para a exp’riencia.

Consentem ambos em provar, na bella

E timida pastora,

O podêr de suas armas.

Jurou Amor de dar-se por vencido

Se de seus magos tiros

Podésse defendê-la a Vaidade.

Com lisonjeiro, placido semblante

E com doces palavras,

Tomando-a pela mão, a affaga a deusa;

Pungente frexa Amor no arco imbebe,

E mostrando-lhe a um tempo

Joven pastor que dera inveja a Páris,

O tiro lhe dispara.

Voa a setta fatal... mas no momento

Em que lhe toca o peito,

Subito a deusa aos olhos lhe apresenta

No mesmo instante crystallino espelho...

Pasma extasiada e fixa

A simplice donzella,

O semblante gentil contempla immovel;

Nem um só volver d’olhos para o bello

Mancebo lhe escapou.

Sorriu-se a deusa; Amor de invergonhado,

De corrido fugiu.

Coimbra—1818.

NOTAS DE RODAPÉ:

[5] Magusto, no dialecto da minha provincia, é a fogueira em que se assam as castanhas nos dias marcados pelo ritual minhoto.

IV.
ESOPO E O BURRO.
FÁBULA.

A. TH. DA SILVA QUINTANILHA.

Foi grande tempo, amigo,

Aquelle tempo antigo:

Eram maiores peras e mellões...

Pois uma melancia?

Por essa casa dentro não cabia.

Bem o mostram as sábias conclusões

Do famoso Gil-Braz de Santilhana:

Guardadas proporções,

Se a conta não ingana,

Certamente sería

A maçan com que a Adão Eva inganou,

Maior do que uma abobora-menina:

E então ja bem se atina

Como ella lhe incalhou

No gargallo do pae da humanidade;

Cuja enorme hombridade,

Segundo o mesmo cálculo constante,

Devia ser maior que a d’um gigante.

N’esse tempo feliz da carochinha,

Em que pato e peru, porco e gallinha,

Burros e burras—e o rhynoceronte—

Cabreavam, ahi por esse monte,

Com toda a mais canalha

Que era da sua egualha,

Toda essa corja dizem que fallava,

Como nós, na sua lingua-mistiforio.

Não sei se Deus fez bem no seu decreto

Que a mercê lhe tirou do fallatorio;

Pois, segundo mui douto me insinava

Meu mestre José-Vaz, homem discreto

E de saber profundo,

Em toda a sociedade d’este mundo

Por fôrça hade reger

O famoso direito de accrescer.

Accresceu para nós, tristes humanos,

Toda a loquacidade

De quantos bicharrões, bichos, bichanos

D’este universo á grande sociedade

Veio a perdas e damnos:

E assim vemos fallar moços e môças,

Velhos e velhas, sabios e tarellos,

Com vozes finas e com vozes grossas,

O gentio, o christão, moiro e judeu,

Por quantos cotovellos

Deus e o direito de accrescer lhes deu.

N’esse tempo feliz então havia

Em Grecia um corcovado

Que de todo o animal, ave ou pescado

Intendia e fallava a algaravia.

Muitas ja tinha em Grego traduzido

Das famosas comedias,

Altisonas tragedias,

Entremezes chistosos e ingraçados,

A que tinha assistido,

Dos bichassos auctores mais fallados.

Um dia passeando

Por juncto de um ribeiro,

—Talvez algum dialogo pilhando

De bichitos de couve ou formigueiro—

Eis-ahi senão quando

Direito a elle em frente

Orelhudo jumento vem trotando;

E depois de o saudar mui cortezmente

Com uma cavatina

Em notas que nem ja Lablache affina,

Findado o ritornello,

Assim o nosso burro,

Em sua lingua asinina

De mui pullido zurro,

Ao corcunda fallou,

Quero dizer—orneou:

—‘Tenho um favor que te pedir, Esopo:

No apologo primeiro

Que em lingua traduzires da tua gente,

Não me faças tam zôpo

Como, useiro e veseiro,

Fazes constantemente.

Em meus discursos mette alguma graça

E pilherias com sal e com finura,

Que eu, a zurrar, sou forte na chalaça.’

O bom do Esopo olhou para a figura

Do elegante orelhudo,

E com tam destampada,

Tremenda gargalhada

Lhe respondeu ao animal felpudo,

Que elle, de orelha murcha e mui trombudo,

Se foi sem dizer nada.

Do sincero de Esopo quam diff’rentes

Andam certos auctores

Que altisonantes fallas farfalhudas

Imprestam a patetas gran’senhores,

Excelsos presidentes

De pedantes reaes academias,

Illustres senadores

Que as cachollas vazias

Inchados ornam de compradas flores!

Quantos ha ahi garraios descarados

Que vão pimpar, sem pejo, pelos pulpitos

Com os sermões espurios

Que aos padres mestres da ordem são furtados!

Quantos vates servís, lamosos gansos

Que, em vis dedicatorias campanudas,

De podres versos ranços,

Na linguagem da Phenix-renascida,

Vão dar ethica vida

A Zenobias barbudas;

E a Mecenas palhaças

De sabichões da Grecia dão fumaças!

Mas Esopo ficou qual d’antes era,

E o burro, burro estreme;

Mas aos nossos Mecenas sécca e treme

Na frente o loiro, a hera

Com que venaes poetas

Lhes coroaram as testas de patetas,

Em trovas semsabôres;

Mas os nossos modernos escriptores

Ficam asnos sem sizo

Para os homens de bem e de juizo.

Coimbra—1820.

V.
O MENINO E A COBRA.

C’uma cobra doméstica folgava

Criança innocentinha,

E—‘Meu bicho’ dizia a criancinha

‘Comtigo tam seguro eu não brincava

Se primeiro, o veneno refalsado

Não te houvessem tirado.

Que vós sois muito más, muito ingratonas,

Minhas serpentezonas.

Oh! nunca a tal historia me esqueceu

D’aquelle homem que a cobra achou na rua

—Talvez fôsse avó tua—

E tanto se doeu

De a ver toda de frio retransida.

Que no seio a metteu

E comsigo a aqueceu.

Que fez a bicha mal-agradecida?

Apenas se recobra

A traidora da cobra

Vai, e zaz!—e mordeu

O pobre homem, que logo da ferida

Venenosa morreu.’

—‘Bem parciaes’ responde-lhe a serpente

‘São as vossas historias;

Recontam-nos o caso mui diff’rente

Lá as nossas memorias.

O teu homem, que tens por charidoso,

Creu realmente a cobra ja finada,

E foi, por cubiçoso

Da pelle, que era linda e mosqueada.

Que o teu santinho d’home’ a quiz salvar:

Era para a esfollar.’

—‘Vai-te’ responde em cholera o menino

‘Vai-te, bicho mofino:

Todo o ingrato é ladino

Para se desculpar,

E ao seu bemfeitor calumniar.’

O pae da criancinha, mui contente.

Toda ésta conversa ouvindo esteve;

E—‘Pois, meu filho’ disse ‘honradamente

Julgaste como deve

Todo homem de bem:

Mas é preciso em tudo ser prudente,

E injusto com ninguem.

Ha casos de tam feia ingratidão.

Que a razão

Não se atreve

A crê-los, sem exame, assim de leve.

Raras vezes a ingratos obrigaram

Os que são verdadeiros bemfeitores;

Mas o mundo, meu filho, por desgraça,

Harto está cheio de ruins Mecenas,

De falsos protectores,

Que a detestavel raça

Dos ingratos no mundo propagaram.

Arrastados favores,

Inda menos baratos

Que interesseiras sordidas onzenas,

O que hãode produzir, senão ingratos?’

Coimbra—1821.

VI.
A SAUDE E A MEDICINA.

Ja tenho, meu Eloy,[6] tudo inmallado;

Fica até no bahu o estro fechado.

Mas antes de partir,

Quero contar-te um conto, que hasde rir.

Hontem o incontrei

N’aquelle teu Pignotti tam magano;

E, se em meu Portuguez não desbotei

As côres do Italiano,

Hasde-lhe achar a graça que eu lhe achei.

Vou abrir o bahu, e venha o estro!

Sôbre o canhão da bota.

Como dizer se usa,

Farei regrinhas curtas e compridas.

Botas... e esporas tenho ja cingidas,

Montarei o Pégaso, que nem trota

Commigo, de esfalfado.

Eu muito descançado

Ahi me vou choitando,

O meu conto contando.

O conto é da Saude e Medicina...

E tracta de te rir,

Que, se não ris, serviu-te a carapuça,

É um reles doutor de mula ruça

Doutor que se amoffina

E não quer consentir

Que a pobre, atormentada humanidade

Se desforre uma vez co’a faculdade.

Jove, esse Jove em Grecia tam temido,

Que imperava nos ceos, nos elementos,

Nos raios e nos ventos,

De moda emfim cahido,

O credito perdeu e está fallido.

Mas quando elle reinava

Viam-se casos n’este baixo mundo

Que o vulgo parvo assegurar ousava

Desdizerem de seu saber profundo:

E n’este ponto a grega theologia

Por desculpa dizia

Que, ao dar ordem a coisa tam soez

Como é d’esta vida o entremez,

Lhe cahem muita vez

Os oc’los do nariz;

E que n’estes momentos

Tudo o que faz e diz

É asneira—sandice por um triz.

Em um d’estes accessos mazelentos,

Em que de facto, do nariz divino,

E sem elle dar tino,

Tinham cahido os seus oculos bentos,

Á terra nos mandou,

Só para nosso bem, como julgou,

Duas boas divindades companheiras,

Ambas riccas herdeiras

De sua graça divina:

A saber, a Saude e a Medicina.

Na fôrça juvenil tinha uma d’ellas

Ageis e vigorosos

Fortes os membros, cheios, musculosos,

Tintas de côr rosada,

Florida e ingraçada

As frescas faces bellas;

E nos olhos tranquillos e gozosos

Tinha a indolência com a paz pintada.

A outra, de gesto magro e macilento,

Cabello pouco, e o pouco de alvo argento,

Com as faces rugosas descahidas,

As carnes resequidas,

E em círculos de chumbo incaixilhados

Os olhos incovados

Remelosos, vidrados.

Intrançada de malva e de chicoria

Ampla coroa a frente lhe cingia,

Como um splendor de glória;

E a negra sotana que vestia

Rota, e cossado o pêllo, lhe luzia

Com erudita e sábia porcaria.

Aos hombros alquebrados,

Que a muita edade impêna,

Em fórma de capuz, juncto ao toitiço

Assim como uns calções esfarrapados

De antigo, velho riço,

E da côr de bandeira em quarentena.

N’um frangalho da tal coisa amarella

Lhe pendia, á feição de bambinella,

Não Tusão de Oiro ou a Pollar estrêlla,

Vermelho Christo ou roxo San’ Thiago,

Mas o instrumento aziago...

Certo tubo que todos conhecemos,

Que no lúbrico pau escorregando,

Emquanto vai e vem assim brincando,

Ao nobre officio serve que sabemos...

Cingida era de emtòrno

A venera pendente

De um magnífico adôrno

De pilulas, lancetas em pingente,

Sinapismos, ventosas,

Com que, a modo de pedras preciosas,

A nova ordem militar fulgia,

De Esculapio em memoria e honraria.

A este sabio Mentor, Jove intregára

Em guarda a bella deusa das rotundas

Bochechas rubicundas,

E mui severamente

Que em tudo a governasse, lhe mandára.

Ei-las, breve, a caminho:

E a deusa obediente

Submissa e reverente,

A sua mestra seguia

Como ao guardião faria

Um timido noviço capuchinho.

Mas, alguns passos dados,

A magra Medicina

Prega na outra os olhos incovados,

De admiração malina

Franze o sobrôlho esguio,

E tomando-lhe o pulso, em ar sombrio,

Com palavras que ignoras,

Profano vulgo, graves e sonoras,

Disse—‘que a robustez ja muito athletica

Que lhe achava, a fazia mui plethorica,

E daria em pleuritica ou phrenetica.

Provou-lhe mais com medica rhetorica

Que um excesso mui rude

Soffria de saude;

E para que o morboso estado mude,

E ella possa viver seguramente,

De todo era forçoso

Que tivesse o seu tanto de doente.’

Disse, impunha a lanceta,

Fere um vaso venenoso,

E á pobre da pateta

Tres libras de sadio e generoso,

Vermelho sangue puro lhe sacou:

Muito menos a muitos ja mattou!

Mas era a paciente

Tam pouco natural a estar doente,

Que á sua directora vigilante

De melhorar não deu signal bastante:

Pelo que foi gramando, ás ordens d’ella,

Nogenta beberagem amarella,

Fedorenta, asquerosa

Em dóze prodigiosa!..

Tanto, tanto bebeu,

Que a rebelde natura emfim cedeu.

O appetite, o vigor

Iam diminuindo;

E a brilhante côr,

A frescura das faces vai fugindo.

—‘Bravo,’ gritava a outra em ledo aspeito

‘Bravo, que a arte vai fazendo effeito!’

E temendo funesta recahida

Em quanto de uma vez

Não tinha debellada e bem vencida

Do morbo a robustez,

Manda avançar as horridas catervas

Dos xaropes, conservas,

Seguros laxativos,

Fortes aperitivos...

Com tal fôrça e podêr, que a desgraçada

Em sua consciencia

De todo em todo se sentiu curada.

Mas com tanta sciencia

Tam eruditamente era trattada,

Por via de tam graves aphorismos

E agudos sylogismos,

Lardeados de Grego e de Latim,

Que até, morrer assim,

Morrer n’esta doçura,

Morrer tam sabiamente era ventura.

Da nossa boa alumna, por má sorte.

Era estupida um tanto a natureza,

E romba de agudeza:

Graça a mais superfina

Que nos póde fazer a mão divina!

De tam ditosa morte

Não pôde comprehender toda a belleza.

Cobrou medo a mofina

Da sciencia divina,

E, sem mais Deus-te-salve ou mais embora,

Desanda-me a fugir, dando á canella

Por esse mundo fóra.

Larga a outra atrás d’ella

A correr... e correu, e correrá...

Mas nunca a apanhará.

E d’então para ca

Ninguem mais se gabou

De que junctas ou perto as incontrou.

Tal medo uma da outra concebeu,

Que aonde a Medicina appareceu,

É logo—n’um momento

Foge a Saude mais veloz que o vento.

Coimbra—1821.

NOTAS DE RODAPÉ:

[6] O Dr. João Eloy Nunes Cardoso, de Monte-mór-o-Novo, outro amigo velho e verdadeiro, da Universidade.

VII.
O GALLEGO E O DIABO.

Eu por mim gósto de contos,

Diga o mundo o que quizer;

E para mattar o tempo

Um conto quero escrever.

Mattar o tempo é preciso

Aos ignorantes—dirão;

Ao sabio sempre elle corre

Voando, que lento não.

Porêm, amigo censor,

E quem me fez sabio a mim?

Sou eu lente ou academico,

Prégador ou coisa assim?

Verdade é, no Quebra-costas

Minha vez escorreguei,

Fui prêso por Verdeaes,

E á porta Ferrea m...ei.

Mas que doutor fiquei eu,

Se nunca o Martini li,

Se, o que sube da instituta

E do digesto, esqueci?

Sabenças para que servem?

Brucharia, eu t’arrenego!

Vou-me contar o meu conto;

E o meu conto é de um Gallego.

Era uma vez um Gallego

Boçal, felpudo e lanzudo,

Um Gallego em corpo e alma.

Em chancas, juizo e tudo.

Nunca lá das Gallileas[7]

Sahiu cabeça tam romba

A alistar-se nas companhas

Dos bravos heroes da bomba.

Melena loira e comprida,

Azeitada e corredia,

Ôlho azul, pasmado e parvo,

Bôcca aberta, a barba esguia;

Calção de abanante orelha,

Por onde fura o quadril,

Nos pés a fragante chanca,

Ás costas sacco e barril;

Eis-aqui a vera effigie

De Thiago Manuel Juan,

O mais fiel dos Gallegos

Que jamais comieron pan.

Em devoção não fallemos,

Que nisso era exemplar;

Deixára um prato de tripas

Para á missa não faltar.

A miudo ia a confêsso;

E nunca o somno o pilhou

Senão a rezar o terço,

Que—nunca mais acabou.

Em duas ou tres egrejas

Era freguez de basar;

O seu barril tinha a honra

De agua benta ás pias dar.

Tam devoto, tam modesto

Nunca houve outro Thiago;

Não ha memorias de ouvir-lhe

Nem uma só vez um ajo.

Um dia, á volta das onze,

Cançado de apregoar,

—Era em Julho, que escaldava,

Um calor mesmo de assar!—

N’uma egreja de capuchos

O bom de Thiago entrava;

E a egreja tam fresquinha,

Que á oração convidava.

Por tendencia natural,

Instincto de chafariz,

Ajoelhou aopé da pia,

Herdeira de seus barris.

Mal se tinha santiguado,[8]

Isto é, se persignou,

Um berreiro destampado

Detrás de si escutou:

Era um membrudo capucho,

Destemido Ferrabraz

Que, a duros botes d’estolla,

Brigava com Satanaz.

Tinha-se o demo incaixado

No bôjo de uma beata,

E d’alli se defendia

Como de uma casa-matta.

Arripiaram-se as melenas

A Thiago no toitiço,

Pôz-se-lhe em pé no cachaço

Até o próprio choiriço.[9]

Mas o ôlho arregallado

Em ponto de admiração,

Não se attrevia a tirá-lo

D’aquella horrivel visão.

Travava a descompostura

Do dize-tu, direi-eu...

Fallava o frade latim

Que nem o demo intendeu.

Satanaz é bom latino;

Ninguem lh’o póde negar:

As syllabadas do frade

Faziam-n’o blasphemar.

Grita o frade:—‘Abrenuncí-ò!

E o cachorro do Asmodeu:

—‘Assim não me deitas fóra;

Dize abrenún-cio, sandeu.’

—‘Latim sabe elle, o malditto...’

Disse o frade aos seus cordões;

Que os frades, como os não usam,

Não fallam c’os seus botões:

‘No Latim me venceu elle,

E não fez grande façanha;

Elle é o diabo, e eu sou capucho!

Veremos se o faz na manha.’

Ria o demo ás gargalhadas

Por ter o frade incovado;

E o capucho, de velhaco,

Dava-se ja por cangado,

Mas co’a mão á caldeirinha,

Sem que o pesque Satanaz,

Vai mansinho... e de repente

Prega-lhe a hyssopada—zaz!

Deu tal estoiro a beata,

Que parecia uma bomba ...

Não era ella, era o demo:

Cheira a enxophre que tomba.

—‘Eu te esconjuro, malditto!’

Brada o frade em Portuguez

(Que não quiz comprometter

O seu Latim d’esta vez)

‘Eu te esconjuro, malditto,

Que d’este corpo te vas,

E não tornes a entrar nelle,

Negregado Satanaz.’

—‘Vou-me’ disse o porco-sujo

‘Vou-me embora, Fr. Sandeu,

Que me escalda essa agua benta.

Mas para onde heide ir eu?’

—‘Para onde?...’ E deitando os olhos

A um lado d’improviso,

Deu o frade com Thiago

Que rebentava de riso.

Thiago, de um grande medo

Passára a grande alegria;

E, esfregando as mãos no sacco,

Como um perdido se ria.

Leitor não te escandalizes;

Que o ver logrado o demonio

Até fez perder de riso,

N’um sermão, a Sancto Antonio.

—‘Para onde?...’ repete o frade

‘Que me importa a mim, pespêgo?

Vai-te metter, se quizeres,

No c... d’aquelle Gallego.’

Conhecem-se os grandes homens

Nas grandes occasiões:

Thiago, sem mais demora,

Deitou abaixo os calções;

E, em menos tempo ainda

Do que o demo esfrega um ôlho,

Ja na pia da agua benta

Tinha elle o seu de môlho.

Batte-me quatro palmadas

No rechonchudo do traz,

E diz-lhe:—‘Agora, só diabo,

Venha p’ra ca, se é capaz.’

Havre de Graça—1824.

NOTAS DE RODAPÉ:

[7] Terra de Gallegos, em dialecto scholastico.

[8] Feito o signal da cruz.

[9] O non-descriptum de trapo e cordagens que o gallego põe no cachaço quando carrega o pau e corda.

VIII.
O Casquilho.
(JANOTA)
FÁBULA.

Quem de Ovidio os contos leu

Certo inda tem na memoria

A mais curiosa historia

Que elle em seus contos metteu:

—De como Jove indignado

C’uma nação de velhacos,

Para os não fazer em cacos

Os converteu em macacos.

Vendo-se assim humilhado,

Veio o povo castigado,

De contricto coração

A pedir perdão

Ao deus que fulmina o raio e o trovão.

Fazendo caretas, ganindo e guinchando

Lhe vinham bradando

Em mona e bugia:

—‘Restaura-nos, ó padre soberano,

O antigo vulto humano

Co’a perdida razão.’

O Tonnante, a quem passado

Era o primeiro furor,

Dos bugios ao clamor

Prestou ouvido apiedado;

Mas do macaco requerimento

Não despachou senão ametade,

E o resto a deidade

Mandou dispersar nas azas do vento.

Mal o acceno omnipotente

Troou na celeste abobeda,

A monaria contente

Se ergueu altiva, impavida;

Toda se impavesou

E repimpou;

E como gente

A andar por esse mundo se deitou.

O pêllo esfarripado.

Que as cabeças télli lhes ouriçava,

Em lindos caracoes se debruçava

Agora pelo rosto transmudado.

Não mudou por dentro o caco,

Que ficou sempre macaco;

E a cara por fóra

Tambem não mudou muito do que fôra.

Os mesmos focinhos,

As mesmas caretas,

E os parvos risinhos

E as fofas e as tretas.

Assim meio mudados, meio não,

Lhes fez o padre Jove um bom sermão,

E lhes mandou tomar

Aopé da raça humana o seu logar.

O homem com desprêzo o bicho olhou,

Nem siquer nome para dar-lhe achou;

Mas a mulher gostou

Da tal farofia de apparente brilho,

E á coisa pôz o nome de—CASQUILHO.

Londres—1829.

IX.
OS AMANTES GENEROSOS.
CONTO.

A. J. LARCHER.

Pois os mimosos sons da branda musa

Do tam gentil Bernard, na patria lyra

Queres ouvir suave modulados,

E em luso trajo disputar-se um beijo

De Tempe os generosos amadores,

As cordas ferirei por comprazer-te,

Cortar-lhe-hei galas dos pastores nossos:

Na lingua de Camões, se posso tanto,

Virão aqui a suspirar d’amores;

E os echos d’estes valles mais sinceros

Te dirão suas fallas namoradas.

Tu, que es meio francez, meio germano,

Que á meiga Deshouliers canções tam finas,

Que a Gesner mais singelo ouviste o canto

Na propria avena de seus tons cantado,

Se os teus pastores nas ribeiras nossas,

N’estas suaves margens do Mondego

Vires diff’rentes, demudada a graça,

E alternando sem arte a cantilena

Que em seu patrio idioma foi tam bella,

A ti só, que o quizeste, imputa o êrro,

Nem acoimes á lingua tam formosa

O desprimor e as faltas do poeta.

Juncto aos valles de Tempe, amena estancia,

Mansão querida de Pomona e Flora,

O joven Hylas, Égle inda mais joven,

Ambos loucos d’amor, o amor se occultam.

A um terno olhar suas fallas se limitam,

Sua chamma constrangida não se exhala:

O innocente pastor fallar não ousa,

Nem, que fallasse, a simples o intendêra.

Mas tarde ou cedo, se o desejo a inflamma,

Amestram a innocencia amor e a edade.

Tirou-os d’este nada em que jaziam

O acaso um dia. Á sombra da espessura,

Tam bella, ou mais que amor, Égle dormia,

Hylas a incontra, e os olhos namorados

Para admirá-la não lhe bastam ambos.

—‘Vénus’ exclama ‘eu tibio em teu serviço

Ouso implorar-te: dá-me que estes labios,

Em quanto aqui na relva Égle descança,

Possam nos seus colhêr suave beijo.

E eu te juro, ó divina Cytherea,

Que em trôco lhe darei dois mansos pombos

Muito mais lindos que os que tens em Chypre.’

O voto fez-se; o beijo foi colhido:

Fingido somno approveitou á bella,

E, á noite o preço recebeu do voto.

Veio outro dia, e Égle a dormir sempre...

Mas não dorme o pastor:—‘Deus dos amores,

Ves alli quanto adoro n’este mundo.

Ah, de tanta belleza, tantas graças

Consente que uma só eu gose ao menos.

Se eu podesse—sem que Égle o presentisse,

Sob o lenço invejoso ir co’a mão trémula

Tocar n’aquelles candidos thesoiros,

Dar-lhe-hia pelo roubo—tam secreto!

O cordeirinho que entre os meus mais quero.

Oh! adormece, amor, Égle formosa!’

O mais profundo somno Hylas incontra.

Viu, tocou, apalpou, beijou cem vezes

O seio d’Égle, que retem manhosa

Até o respirar, e a somno sôlto

Mais dormia... quanto elle mais velava.

Custou-lhe no outro dia a vir ao bosque,

Timida ainda e vergonhosa a bella;

Mas veio emfim... Foi só curiosidade,

Tinha curiosidade—era o que tinha—

De saber que presente aquelle dia

Lhe faria o pastor; veio. Após ella

Hylas veio também:—‘Eternos deuses,

Aqui a incontro! Oh concedei-me agora

Um último favor, que nos seus braços

Eu gose emfim dos seus incantos todos.

Ah! vós bem o sabeis: eu nada tenho,

Mais nada ja do que o meu cão—e dou-lh’o.’

Oh que pesado somno Égle dormia!

E é bem de crer que o instante em que o mancebo

No extasi do prazer fechára os olhos,

Os lindos olhos d’Égle não se abriram.

Mas o sonho acabou... e despertaram.

O pastor imbrenhou-se na espessura

E o cãosinho fiel ficou co’a bella.

Incontraram-se á tarde, invergonhados...

A pastora corou, elle suspira...

Sós se achavam, sem medo, sem receios...

Ao amante acordada Égle se intrega,

Acha mais doce não dormir agora,

E toda a imbriaguez do amor conhece:

Quantos dons do pastor Égle recebe,

Com dulcissima usura os restitue.

Mas as antigas dadivas pesavam

Á pastora gentil:—‘Sei que te devo

Duas pombinhas que uma vez me déste.

E se me ellas fugirem! vivo sempre

N’este receio! Toma-as lá, e o preço

Que por ellas te dei também m’o torna.’

Surriu-se o joven, e pagou-as... ambas.

Um momento depois o cordeirinho

Á pastora lembrou:—‘Tanto te quero,

E heide-te privar do que mais amas?

Tam bonito! era a tua companhia,

Comia-te nas mãos! Nada, não quero:

Recebe-o, que t’o dou.’ E o cordeirinho

Foi restituido.—O cão só lhe restava:

Novas razões, e emfim ordem por fôrça

De acceitar outra vez o seu rafeiro:

—‘Não tens mais que um, é o guarda do rebanho,

Recebe-o, doce amante, e ainda emcima,

De fóraparte te heide dar um beijo.

Eu não quero mais dadivas, querido;

Com o teu coração estou contente.’

Oh! taes dons para dar custaram pouco.

Mas o preço da intrega era dobrado ...

O pastor affroixou, negocio serio

Veio porfim a ser o tal brinquedo.

Aopé de Égle acordada Hylas dormia...

E ella, que mais pretextos ja não tinha,

A suspirar dizia tristemente:

—‘Não me dar elle todo o seu rebanho!’

Coimbra—1821.

SONETOS.

I.
PORFIA D’AMOR.

D’emtorno á arvorezinha que murchára

Se affadiga o cultor esperançoso;

Invisca as varas caçador teimoso

Armando ao passarinho que escapára;

Porfiado rompe com a dextra avara

As intranhas da terra o cubiçoso;

Sua co’a bomba o nauta pressuroso

Por estancar a nau que lhe arrombára.

Mas larga cadaqual desesperado,

Quebra furioso o inutil instrumento

Se o continuo trabalho ve baldado.

Só eu, com desinganos cento e cento,

Só eu, por Délia sempre desprezado,

Teimo cadavez mais no meu tormento.

Angra—1814.

II.
CAMÕES NÁUFRAGO.

Cedendo á furia de Neptuno irado

Sossobra a nau que o gran’thesoiro incerra;

Lucta co’a morte na espumosa serra

O divino cantor do Gama ousado.

Ai do canto mimoso a Lysia dado!...

Camões, grande Camões, embalde a terra

Teu braço forte, nadador afferra

Se o canto lá ficou no mar salgado.

Chorae, Lusos, chorae! Tu morre, ó Gama,

Foi-se a tua glória... Não; lá vai rompendo

Co’a dextra o mar, na sestra a lusa fama.

Eterno, eterno ficará vivendo:

E a torpe inveja, que inda agora brama,

No abysmo cahirá do Averno horrendo.

Angra—1815.

III.
A UMA FEIA COM LINDA VOZ.

Quando Orpheu pela espôsa suspirada

Desceu co’a maga lyra ao reino escuro,

Incantado Plutão ferrenho e duro

De júbilo exultou na atroz morada.

—‘Furias,’ clamou ‘e turba condemnada,

Quero tudo a cantar; do mais não curo.

Ralhe Jove ou não ralhe, eu voto e juro

Que não heide ouvir mais ésta assoada.’

Eis impunhando o açoite crepitante

Rege Megera o condemnado côro,

Cantando em doce voz pura e tocante.

Ah! quando te oiço, ó N—y, o som canoro,

E arrebatado attento em teu semblante,

Um milagre d’Orpheu no Averno adoro.

Lisboa—1816.

IV.
‘SUFFOQUE AS ÍRAS, CALLE E SINTA E GEMA’

Se d’uns olhos gentis, d’um gesto brando,

D’um surrir desdenhoso innamorado,

Imprega o triste amante o seu cuidado

Em quem das leis d’amor se vai zombando;

De tormento em tormento variando,

Té o proprio queixume lhe é vedado:

Ri-se a bella do mal que lhe ha causado,

Dos ferros mofa que lhe vai forjando.

Pene emtanto o infeliz, suspire ao vento,

Té de que o saiba a perfida se tema,

Não lhe assome no labio um só lamento;

E ao som da ferrea, da cruel algema,

Martyr de seu inutil soffrimento

‘Suffoque as íras, calle e sinta e gema.’

Porto—1817.

V.
‘É DOS OLHOS GENTIS DA MINHA AMADA.’

Um prodigio d’incantos, de belleza

Es, ó mãe dos ternissimos amores,

Que, em teus labios, seus aureos passadores

Hervam, seguros de acertar a prêza.

Fulge em teus olhos divinaes accesa

A tocha dos desejos seductores;

Em ti de seus esmeros, seus primores,

O thesoiro esgotou a natureza.

Mas oh, por mais que arte divina estude,

Não te dá da innocencia a flor nevada

Que se não finge, nem fingida illude!

Esse dom virginal que tanto agrada

É só mimo da candida virtude,

‘É dos olhos gentis da minha amada.’

Porto—1817.

VI.
‘NAS FROIXAS, DEBEIS AZAS DA SAUDADE.’

Esses muros que amor, razão despreza,

Que ergueu do fanatismo a voz trovosa,

Deixa, ó Nise gentil, deixa-os, vaidosa

De escutares a voz da natureza.

Crê no teu coração; não é fraqueza

Fugir aos males para ser ditosa:

Ja nos meus braços a ventura anciosa

Espera, com amor, tua belleza.

Vem, não oiças conselhos fementidos,

Ouve amor, a razão, a liberdade,

E a virtude e o prazer verás unidos.

Farás minha cabal felicidade,

Nem teus votos verás sempre perdidos

‘Nas froixas, debeis azas da saudade.’

Porto—1817.

VII.
O CAMPO DE SANCT’ANNA.

Longe, hypocritas vis, longe, impostores,

O mentido apparato religioso!

Que um deus d’amor, o nosso Deus piedoso

Abomina, detesta esses horrores.

De atrozes leis cruentos guardadores,

Vós curvais ante o despota orgulhoso,

E o sangue da patria precioso

Torpemente vendeis por seus favores.

Geme sem proctetor a humanidade:

E vós, juizes, vós, tigres humanos,

A immolais sem remorso e sem piedade.

Ah! tremei, sanguinarios deshumanos;

Que ella hade vir, tremei, a Liberdade

Punir despotas, bonzos e tyrannos.

Coimbra—1817.

VIII.
‘VIRTUDE SEM PRAZER NÃO É VIRTUDE’

Deixa, eu t’o rogo, deixa, Annalia minha,

Duros preceitos de moral sombria;

Fingiu-os a traidora hypocrisia

Que detrás d’elles, a zombar, se aninha.

Leis de tartufos, invenção danninha

Que protege a impostura e o vício cria,

O egoismo as dictou, funesta harpia

Que as horas do gosar nos amesquinha.

A mão da natureza, a mão sublime

O gran’sêllo forjou na eterna incude

Com que o signal de falsas lhes imprime.

O coração m’o diz, que não illude:

Crime sem dor, Annalia, não é crime,

‘Virtude sem prazer não é virtude.’

Coimbra—1818.

IX.
A FLOR SÊCCA.

Vai, flor gentil, vai prenda suspirada,

Doce mimo d’amor terno e fagueiro,

Vai, que elle mesmo grato e prazenteiro

Elle te hade levar á minha amada.

Cumpre a que ella te impoz, que é lei sagrada:

Se mudada te achar, sem côr, sem cheiro,

Se o viço, a gala do verdor primeiro

Em tuas pallidas folhas vir crestada,

Diz-lhe que mais que a ti, mais me queimára

O intenso ardor d’aquella saudade

Que a ambos n’este estado nos deixára.

Oh! se um benigno influxo de piedade

De seus formosos olhos te orvalhára...

Qual de nós ambos reviver não hade?

Porto—1819.

X.
A CERTA TRAGEDIA.

Mil parabens á musa portugueza

Que do padre José fulgiu na penna!

Cai a velha Melpomene da scena,

Foi-se a tragedia grega e a franceza.

Sóphocles pôz-se a dar voltas d’Andreza,

Euripedes está de quarentena,

Corneille indoudeceu de inveja e pena,

Crebillon foi queimar o Atreu e a mesa;

Racine professou nos Mariannos,

Voltaire está a leites de jumenta,

Alfieri vai fazer sonetos de annos.

Victorioso o padre a Branca ostenta:

Só por vencer lhe restam dois maganos...

Mas temiveis rivaes—Paiva e Pimenta.

Coimbra—1819.

XI.
MARIA E CAROLINA.

Que hade brindar á amavel Carolina

Pelos seus annos a gentil Maria?

Tam franca de seus dons, ao dar-lhe o dia,

Não deixou que outorgar-lhe a mão divina.

Qual de ambas póde haver offerta dina

De quantas liberal natura cria?

Que gera o loiro sol ou que allumia

Que encha os desejos d’alma peregrina?

A amigas taes, ao par que me innamora

Ja não tem que lhes dar a humanidade,

Por mais que seus thesoiros aprimora.

Amor, divino amor, doce amizade,

Numes do coração, valei-me agora:

Dae-lhes, pois deuses sois, a eternidade.

Porto—1819.

XII.
SAUDADE.

Seculos são, na vida que infastia,

Estes dias de exilio amargurados;

Um por um, mágoa a mágoa, vão contados

Em lenta e cruellissima agonia.

Oh! roubemos-lhe aomenos este dia,

Ao padecer que todos trás roubados;

Sejam pela amizade consagrados

Ao casto amor instantes de alegria.

Tem prazeres tambem a desventura:

A propria carrancuda adversidade

Surri co’a esp’rança que lhe luz futura.

Vem, amigo, no seio da amizade

Festeja a espôsa, sonha co’a ventura

Que um dia hade mattar tanta saudade.

Londres—1828.

ULTIMOS VERSOS.
FOLHAS CAHIDAS.

DOS EDITORES.

Cumpre-se a promessa feita no primeiro volume d’esta collecção reunindo aqui, em segunda edição muito augmentada e correcta, as FOLHAS CAHIDAS.

Apezar de estarem no prelo desde 1851, o auctor tinha descuidado na primeira edição o seu habitual escrupulo de rever e corrigir; e não teve paciencia para as augmentar com muitas peças que agora vão, e que então não estavam postas a limpo. Trabalhos mais serios o distrahiram durante os dois annos que levaram a imprimir tam poucas paginas.

Julgou-se agora melhor dividir em dois livros o que, assim augmentado, ficaria demaziado para um só.

Maio—1853.

ADVERTENCIA.[10]

Antes que venha o hynverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por ahi cahiram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memoria.

A outros versos chamei eu ja as últimas recordações de minha vida poetica. Inganei o público, mas de boa fe, porque me inganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro—ás vezes imaginario, porque ninguem os coroa.

Eu pouco mais tinha de vinte annos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os ultimos versos que fazia. Que juramentos!

Se dos meus se rirem, teem razão; mas saibam que eu tambem primeiro me ri d’elles. Poeta na primavera, no estio e no outomno da vida, heide sê-lo no hynverno se lá chegar, e heide sê-lo em tudo. Mas d’antes cuidava que não, e n’isso ia o êrro.

Os cantos que formam ésta pequena collecção pertencem todos a uma epocha de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras collecções.

Essas mais ou menos mostram o poeta que canta deante do público. Das FOLHAS CAHIDAS ninguem tal dirá, ou bem pouco intende de stylos e modos de cantar.

Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gósto mais d’elles do que de nenhuns outros que fizesse. Porque? É impossivel dizê-lo, mas é verdade. E como nada são por elle nem para elle, é provavel que o público sinta bem diversamente do auctor. Que importa?

Apezar de sempre se dizer e escrever ha cem mil annos o contrário, parece-me que o melhor e mais recto juiz que póde ter um escriptor, é elle proprio, quando o não cega o amor proprio. E eu sei que tenho os olhos abertos, aomenos agora.

Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças.

Emfim, eu não queimo estes. Consagrei-os ignoto deo. E o deus que os inspirou que os anniquille se quizer: não me julgo com direito de o fazer eu.

Ainda assim, no ignoto deo não imaginem alguma divindade meia-velada com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia paraque todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquelle mysterioso, occulto e não-definido sentimento d’alma que a leva ás aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.

Imaginação que porventura se não realisa nunca. E d’ahi quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta demais. Saude, riqueza, miseria, pobreza, e ainda coisas mais materiaes, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, approximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a elle.

Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossivel. Não sei. Essa é uma disputação mais longa.

Mas sei que as presentes FOLHAS CAHIDAS representam o estado d’alma do poeta nas variadas, incertas e vacillantes oscillações do espirito que, tendendo ao seu fim unico, a posse do IDEAL, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a elle—ora ri amargamente porque reconhece o seu ingano—ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade van.

Deixae-o passar, gente do mundo, devotos do podêr, da riqueza, do mando, ou da glória. Elle não intende bem d’isso, e vós não intendeis nada d’elle.

Deixae-o passar, porque elle vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis d’elle, que o callunieis, que o assacineis. Vai, porque é espirito, e vós sois materia.

E vós morrereis, elle não. Ou só morrerá d’elle aquillo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta que é a mesma de Adam, tambem será punida com a morte.

Mas não triumpheis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quasi nada no poeta.

Janeiro—1853.

NOTAS DE RODAPÉ:

[10] Do auctor na primeira edição.

FOLHAS CAHIDAS.
LIVRO PRIMEIRO.


I.
IGNOTO DEO

D. D. D.

Creio em ti, Deus: a fe viva

De minha alma a ti se eleva.

Es:—o que es não sei. Deriva

Meu ser do teu: luz... e treva,

Em que—indistinctas!—se involve

Este espirito agitado,

De ti vem, a ti devolve.

O Nada, a que foi roubado

Pelo sôpro creador

Tudo o mais, o hade tragar.

Só vive de eterno ardor

O que está sempre a aspirar

Ao infinito d’onde veio.

Belleza es tu, luz es tu,

Verdade es tu só. Não creio

Senão em ti; o ôlho nu

Do homem não ve na terra

Mais que a dúvida a incerteza,

A fórma que ingana e erra.

Essencia! a real belleza,

O puro amor—o prazer

Que não fatiga e não gasta...

Só por ti os póde ver

O que inspirado se affasta,

Ignoto Deus, das ronceiras,

Vulgares turbas: despidos

Das coisas vans e grosseiras

Sua alma, razão, sentidos,

A ti se dão, em ti vida,

E por ti vida teem. Eu, consagrado

A teu altar, me prostro e a combatida

Existencia aqui ponho, aqui votado

Fica este livro—confissão sincera

Da alma que a ti voou e em ti só spera.

II.
ADEUS!

Adeus! para sempre adeus!

Vai-te, oh! vai-te, que n’esta hora

Sinto a justiça dos ceus

Esmagar-me a alma que chora.

Chóro porque não te amei,

Chóro o amor que me tiveste;

O que eu perco, bem n’o sei,

Mas tu... tu nada perdeste:

Que este mau coração meu

Nos secretos escaninhos

Tem venenos tam damninhos

Que o seu podêr só sei eu.

Oh! vai... para sempre adeus!

Vai, que ha justiça nos ceus.

Sinto gerar na peçonha

Do ulcerado coração

Essa vibora medonha

Que por seu fatal condão

Hade rasgá-lo ao nascer:

Hade sim, serás vingada,

E o meu castigo hade ser

Ciume de ver-te amada,

Remorso de te perder.

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,

Que sou eu capaz agora

De te amar.—Ai! se eu te amasse!

Vê se no arido pragal

D’este peito se ateasse

De amor o incendio fatal!

Mais negro e feio no inferno

Não chammeja o fogo eterno.

Que sim? Que antes isso?—Ai, triste!

Não sabes o que pediste.

Não te bastou supportar

O cepo-rei; impaciente

Tu ousas a deus tentar

Pedindo-lhe o rei-serpente!

E cuidas amar-me ainda?

Inganas-te: é morta, é finda,

Dissipada é a illusão.

Do meigo azul de teus olhos

Tanta lagryma verteste,

Tanto esse orvalho celeste

Derramado o viste em vão

N’esta seara de abrolhos,

Que a fonte seccou. Agora

Amarás... sim hasde amar,

Amar deves... Muito embora...

Oh! mas n’outro hasde sonhar

Os sonhos de oiro incantados

Que o mundo chamou amores.

E eu réprobo... eu se o verei?

Se em meus olhos incovados

Der a luz de teus ardores...

Se com ella cegarei?

Se o nada d’essas mentiras

Me entrar pelo vão da vida...

Se, ao ver que feliz deliras,

Tambem eu sonhar... Perdida,

Perdida serás—perdida.

Oh! vai-te, vai, longe, embora!

Que te lembre sempre e agora

Que não te amei nunca... ai! não;

E que pude a sangue frio,

Covarde, infame, villão,

Gosar-te—mentir sem brio,

Sem alma, sem dó, sem pejo,

Commettendo em cada bejo

Um crime... Ai! triste, não chores,

Não chores, anjo do ceu,

Que o deshonrado sou eu.

Perdoar-me tu?... Não mereço.

A immundo cerdo voraz

Essas perolas de preço

Não as deites: é capaz

De as desprezar na torpeza

De sua bruta natureza.

Irada, te hade admirar,

Despeitosa, respeitar,

Mas indulgente... Oh! o perdão

É perdido no villão,

Que de ti hade zombar.

Vai, vai... para sempre adeus!

Para sempre aos olhos meus

Sumido seja o clarão

De tua divina estrêlla.

Faltam-me olhos e razão

Para a ver, para intendê-la:

Alta está no firmamento

Demais, e demais é bella

Para o baixo pensamento

Com que em má hora a fitei;

Falso e vil o incantamento

Com que a luz lhe fascinei.

Que volte a sua belleza

Do azul do ceu á pureza,

E que a mim me deixe aqui

Nas trevas em que nasci,

Trevas negras, densas, feias,

Como é negro este aleijão

D’onde me vem sangue ás veias,

Este que foi coração,

Este que amar-te não sabe

Porque é só terra—e não cabe

N’elle uma idea dos ceus...

Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!

III.
QUANDO EU SONHAVA.

Quando eu sonhava, era assim

Que nos meus sonhos a via;

E era assim que me fugia,

Apenas eu despertava,

Essa imagem fugidia

Que nunca pude alcançar.

Agora que estou desperto,

Agora a vejo fixar...

Paraquê?—Quando era vaga,

Uma idea, um pensamento,

Um raio de estrêlla incerto

No immenso firmamento,

Uma chymera, um vão sonho,

Eu sonhava—mas vivia:

Prazer não sabia o que era,

Mas dor, não n’a conhecia...

.............................

IV.
AQUELLA NOITE!

Era a noite da loucura,

Da seducção, do prazer,

Que em sua mantilha escura

Costuma tanta ventura,

Tantas glórias esconder.

Os felizes... e ai! são tantos!...

—Eu por tantos os contava!

Eu que o signal de meus prantos

Do afflicto rosto lavava—

Os felizes presumpçosos

Iam nos coches ruidosos

Correndo aos salões doirados

De mil fogos alumiados,

D’onde em torrentes sahia

A clamorosa harmonia

Que á festa, ao prazer tangia.

Eu sentia esse ruido

Como o confuso bramar

De um mar ao longe movido

Que á praia vem rebentar:

E disse commigo:—‘Vamos,

Os luctos d’alma dispamos,

Á festa heide ir tambem eu!’

E fui: e a noite era bella.

Mas não vi a minha estrêlla

Que eu sempre via no ceu:

Cubriu-a de espesso véo

Alguma nuvem a ella,

Ou era que ja vendado

Me levava o negro fado

Onde a vida me perdeu?

Fui; meu rosto macerado,

A funda melancholia

Que todo o meu ser revia,

Qual o atahude levado

A egypcio festim, dizia:

—‘Como vós fui eu tambem;

Folgae, que a morte ahi vem!’

Dizia-o, sim, meu semblante,

Que, onde eu chegava, o prazer

Cessava no mesmo instante;

E o labio, que ia a dizer

Doçuras de amor, gelava;

E o riso, que ia a nascer

Na face linda, expirava.

Era eu—e a morte em mim,

Que só ella espanta assim!

Quantas mulheres tam bellas

Ebrias de amor e desejos,

Quantas vi saltar-lhe os bejos

Da bôcca ardente e lasciva!

E eu, que ia chegar-me a ellas...

Para logo a fronte esquiva

De recatos se involvia

E, toda pudor, tremia.

Quantas o seio anhelante,

Nu, ardente e palpitante

Andavam como intregando

Á cubiça mal-desperta,

Gasta ja e desdenhosa,

Dos que as estavam mirando

Com vaga luneta incerta

Que diz:—‘Aquella é formosa,

Não se me dava de a ter.

E esta? É só baroneza,

Vale menos que a duqueza:

Não sei a qual attender.’

E a isto chamam prazer!

A grande ventura é ésta?

Vale a pena vir á festa

E vale a pena viver.

Como então quiz á tristura

Do meu viver isolado!

Fique-se embora a ventura,

Que eu quero ser desgraçado.

Levantei alto a cabeça.

Senti-me crescer—e a frente

Desanuviar-se contente

Do feio negrume espesso

Que assustava aquella gente.

Logo os surrisos cabiam

Para o meu lado tambem:

Ja como um dos seus me viam,

Que em mim não viam ninguem.

Eu, de olhos desincantados,

A ellas, como as eu via!

Meus enthusiasmos passados.

Oh! como eu d’elles me ria!

Frio o sarcasmo sahia

De meus labios descorados,

E sem dó e sem pudor

A todas fallei de amor...

Do amor bruto, degradante

Que no seio palpitante,

Na espadua nua se accende...

Amor lascivo que offende,

Que faz corar... Ellas riam

E oh que não, não se offendiam!

Mas a orchestra bradou alta:

—‘Festa, festa! e salta, salta!’

Os seus guizos delirantes

Sacode louca a Folia...

Adeus, requebros de amantes!

Suspiros, quem n’os ouvia?

As palavras meias dittas,

Meias nos olhos escrittas,

Voavam todas perdidas

Dispersas, rotas no ar;

Que se foram almas, vidas,

Tudo se foi a walsar.

Quem é ésta que mais voltas

Gyra, gyra sem cessar?

Como as roupas leves, sôltas,

Aerias leva a ondular

Emtôrno á fórma graciosa,

Tam flexivel, tam airosa,

Tam fina!—Agora parou,

E tranquilla se assentou.

Que rosto! Em linhas severas

Se lhe desenha o profil;

E a cabeça, tam gentil,

Como se fôra devéras

A rainha d’essa gente,

Como a levanta insolente!

Vive Deus! que é ella... aquella,

A que eu vi na tal janella,

E que triste me surria

Quando passando me via

Tam pasmado a olhar para ella.

A mesma melancholia

Nos olhos tristes—de luz

Oblíqua, viva mas fria;

A mesma alta intelligencia

Que da face lhe transluz;

E a mesma altiva impaciencia

Que de tudo, tudo cança,

De tudo o que foi, que é,

E na erma vida só vê

O raio da vaga espr’ança.

—‘Pois isto sim que é mulher’

Disse eu—‘e aqui ha que ver.’

Ja vinha a pallida aurora

Annunciando a manhan fria,

E eu fallava e eu ouvia

O que até áquella hora

Nunca disse, nunca ouvi...

Toda a memoria perdi

Das palavras proferidas...

Não eram d’estas sabidas,

Nem quaes eram não n’o sei...

Sei que a vida era outra em mim,

Que era outro ser o meu ser,

Que uma alma nova me achei

Que eu bem sabia não ter.

E d’ahi?—D’ahi, a historia

Não deixou outra memoria

D’essa noite de loucura,

De seducção, de prazer...

Que os segredos da ventura

Não são para se dizer.

V.
O ANJO CAHIDO.

Era um anjo de Deus

Que se perdêra dos ceus

E terra a terra voava.

A setta que lhe acertava

Partira de arco traidor,

Porque as pennas que levava

Não eram pennas de amor.

O anjo cahiu ferido,

E se viu aos pés rendido

Do tyranno caçador.

De aza morta e sem splendor

O triste, peregrinando

Por estes valles de dor,

Andou gemendo e chorando.

Vi-o eu, o anjo dos ceus,

O abandonado de Deus.

Vi-o, n’essa tropelia

Que o mundo chama alegria.

Vi-o a taça do prazer

Pôr ao labio que tremia...

E só lagrymas beber.

Ninguem mais na terra o via,

Era eu só que o conhecia...

Eu que ja não posso amar!

Quem n’o havia de salvar?

Eu, que n’uma sepultura

Me fôra vivo interrar?

Loucura! ai, cega loucura!

Mas entre os anjos dos ceus

Faltava um anjo ao seu Deus;

E remi-lo e resgatá-lo,

D’aquella infamia salvá-lo

Só fôrça de amor podia.

Quem d’esse amor hade amá-lo,

Se ninguem o conhecia?

Eu só.—E eu morto, eu descrido,

Eu tive o arrôjo atrevido

De amar um anjo sem luz.

Cravei-a eu n’essa cruz

Minha alma que renascia,

Que toda em sua alma puz.

E o meu ser se dividia,

Porque elle outra alma não tinha,

Outra alma senão a minha...

Tarde, ai! tarde o conheci,

Porque eu o meu ser perdi,

E elle á vida não volveu...

Mas da morte que eu morri

Tambem o infeliz morreu.

VI.
O ALBUM.

Minha Julia, um conselho de amigo;

Deixa em branco este livro gentil:

Uma só das memorias da vida

Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silencio gravada

Pelas mãos do mysterio hade ser;

Que não tem lingua humana palavras,

Não tem lettra que a possa escrever.

Por mais bello e variado que seja

De uma vida o tecido matiz,

Um só fio da tella bordada,

Um só fio hade ser o feliz.

Tudo o mais é illusão, é mentira,

Brilho falso que um tempo seduz,

Que se apaga, que morre, que é nada

Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos

Dos inganos que a espr’ança forjou?

Vãos reflexos de um sol que tardava

Ou vans sombras de um sol que passou!

Crê-me, Julia: mil vezes na vida

Eu co’a minha ventura sonhei;

E uma só, d’entre tantas, o juro,

Uma só com verdade a incontrei.

Essa entrou-me pela alma tam firme,

Tam segura por dentro a fechou,

Que o passado fugiu da memoria,

Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Julia bella, o conselho;

Deixa em branco este livro gentil,

Que as memorias da vida são nada,

E uma só se conserva entre mil.

VII.
SAUDADES

Leva este ramo, Pepita,

De saudades portuguezas;

É flor nossa, e tam bonita

Não n’a ha n’outras devezas.

Seu perfume não seduz,

Não tem variado matiz,

Vive á sombra, foge á luz,

As glórias d’amor não diz;

Mas na modesta belleza

De sua melancholia

É tam suave a tristeza,

Inspira tal sympathia!..

E tem um dote ésta flor

Que de outra egual se não diz:

Não perde viço ou frescor

Quando a tiram da raiz.

Antes mais e mais floresce

Com tudo o que as outras matta;

Até ás vezes mais cresce

Na terra que é mais ingrata.

Só tem um cruel senão,

Que te não devo esconder:

Plantada no coração,

Toda outra flor faz morrer.

E, se o quebra e despedaça

Com as raizes mofinas,

Mais ella tem brilho e graça,

É como a flor das ruinas.

Não, Pepita, não t’a dou...

Fiz mal em dar-te essa flor,

Que eu sei o que me custou

Trattá-la com tanto amor.

VIII.
ESTE INFERNO DE AMAR.

Este inferno de amar—como eu amo!

Quem m’o pôs aqui n’alma... quem foi?

Ésta chamma que alenta e consome,

Que é a vida—e que a vida destroi—

Como é que se veio a atear,

Quando—ai quando se hade ella apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,

A outra vida que d’antes vivi

Era um sonho talvez...—foi um sonho—

Em que paz tam serena a dormi!

Oh! que doce era aquelle sonhar...

Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso

Eu passei... dava o sol tanta luz!

E os meus olhos, que vagos gyravam,

Em seus olhos ardentes os puz.

Que fez ella? eu que fiz?—Não n’o sei;

Mas n’essa hora a viver comecei...

IX.
DESTINO.

Quem disse á estrêlla o caminho

Que ella hade seguir no ceu?

A fabricar o seu ninho

Como é que a ave apprendeu?

Quem diz á planta:—‘Florece!’

E ao mudo verme que tece

Sua mortalha de seda

Os fios quem lh’os inreda?

Insinou alguem á abelha

Que no prado anda a zumbir

Se á flor branca ou se á vermelha

O seu mel hade ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,

Teus olhos a minha vida,

Teu amor todo o meu bem...

Ai! não m’o disse ninguem.

Como a abelha corre ao prado,

Como no ceo gyra a estrêlla,

Como a todo o ente o seu fado

Por instincto se revella,

Eu no teu seio divino

Vim cumprir o meu destino...

Vim, que em ti só sei viver,

Só por ti posso morrer.

X.
GÔSO E DOR.

Se estou contente, querida,

Com ésta immensa ternura

De que me enche o teu amor?

—Não. Ai! não; falta-me a vida,

Succumbe-me a alma á ventura:

O excesso do gôso é dor.

Doe-me alma, sim; e a tristeza

Vaga, inerte e sem motivo,

No coração me poisou.

Absorto em tua belleza,

Não sei se morro ou se vivo,

Porque a vida me parou.

É que não ha ser bastante

Para este gosar sem fim

Que me inunda o coração.

Tremo d’elle, e delirante

Sinto que se exhaure em mim

Ou a vida—ou a razão.

XI.
PERFUME DA ROSA.

Quem bebe, rosa, o perfume

Que de teu seio respira?

Um anjo, um sylpho? Ou que nume

Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,

De seu throno te ajoelha,

E esse nectar incantado

Bebe occulto, humilde abelha?

—Ninguem?—Mentiste: essa frente

Em languidez inclinada,

Quem t’a pôs assim pendente?

Dize, rosa namorada.

E a côr de purpura viva

Como assim te desmaiou?

E essa pallidez lasciva

Nas folhas quem t’a pintou?

Os espinhos que tam duros

Tinhas na rama lustrosa,

Com que magos esconjuros

T’os desarmaram, ó rosa?

E porquê, na hástea sentida

Tremes tanto ao pôr do sol?

Porque escutas tam rendida

O canto do rouxinol?

Que eu não ouvi um suspiro

Sussurrar-te na folhagem?

Nas aguas d’esse retiro

Não espreitei a tua imagem?

Não a vi afflicta, anciada...

—Era de prazer ou dor?—

Mentiste, rosa, es amada.

E também tu amas, flor.

Mas ai! se não for um nume

O que em teu seio delira,

Hade mattá-lo o perfume

Que n’esse aroma respira.

XII.
ROSA SEM ESPINHOS.

Para todos tens carinhos,

A ninguem mostras rigor!

Que rosa es tu sem espinhos?

Ai, que não te intendo, flor!

Se a borbuleta vaidosa

A desdem te vai beijar,

O mais que lhe fazes, rosa,

É surrir e é corar.

E quando a sonsa da abelha,

Tam modesta em seu zumbir,

Te diz:—‘Ó rosa vermelha,

Bem me pódes acudir:

Deixa do caliz divino

Uma gotta só libar...

Deixa, é nectar peregrino,

Mel que eu não sei fabricar...’

Tu de lástima rendida,

De malditta compaixão,

Tu á súpplica atrevida

Sabes tu dizer que não?

Tanta lástima e carinhos,

Tanto dó, nenhum rigor!

Es rosa e não tens espinhos!

Ai! que não te intendo, flor.

XIII.
ROSA PALLIDA.

Rosa pallida, em meu seio

Vem, querida, sem receio

Esconder a afflicta côr.

Ai! a minha pobre rosa!

Cuida que é menos formosa

Porque desbotou de amor.

Pois sim... quando livre, ao vento,

Sôlta de alma e pensamento,

Forte de tua isempção,

Tinhas na folha incendida

O sangue, o calor e a vida

Que ora tens no coração.

Mas não eras, não, mais bella.

Coitada, coitada d’ella,

A minha rosa gentil!

Coravam-n’a então desejos,

Desmaiam-n’a agora os bejos...

Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!

Inveja de quê, amores?

Tu, que vieste dos ceus,

Comparar tua belleza

Ás filhas da natureza!

Rosa, não tentes a Deus.

E vergonha!... de quê, vida?

Vergonha de ser querida,

Vergonha de ser feliz!

Porquê?... porquê em teu semblante

A pallida côr da amante

A minha ventura diz?

Pois quando eras tam vermelha

Não vinha zangão e abelha

Emtôrno de ti zumbir?

Não ouvias entre as flores

Historias dos mil amores

Que não tinhas, repetir?

Que hãode elles dizer agora?

Que pendente e de quem chora

É o teu languido olhar?

Que a tez fina e delicada

Foi, de ser muito bejada,

Que te veio a desbotar?

Deixa-os: pallida ou corada,

Ou isempta ou namorada,

Que brilhe no prado flor.

Que fulja no ceo estrêlla,

Ainda é ditosa e bella

Se lhe dão só um amor.

Ai! deixa-os, e no meu seio

Vem, querida, sem receio

Vem a frente reclinar.

Que pallida estás, que linda!

Oh! quanto mais te amo ainda

Des que te fiz desbotar.

XIV.
FLOR DE VENTURA.

A flor de ventura

Que amor me intregou,

Tam bella e tam pura

Jamais a creou:

Não brota na selva

De inculto vigor,

Não cresce entre a relva

De virgem frescor;

Jardins de cultura

Não póde habitar

A flor de ventura

Que amor me quiz dar.

Semente é divina

Que veio dos ceus;

Só n’alma germina

Ao sôpro de Deus.

Tam alva e mimosa

Não ha outra flor;

Uns longes de rosa

Lhe avivam a côr;

E o aroma... Ai! delirio

Suave e sem fim!

É a rosa, é o lirio.

É o nardo, o jasmim;

É um philtro que apura,

Que exalta o viver,

E em doce tortura

Faz de âncias morrer.

Ai! morrer... que sorte

Bemditta de amor!

Que me leve a morte

Bejando-te, flor.

XV.
BELLA D’AMOR.

Pois essa luz scintillante

Que brilha no teu semblante

D’onde lhe vem o splendor?

Não sentes no peito a chamma

Que aos meus suspiros se inflamma

E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragancia

Que te sentes exhalar,

Pois, dize, a ingenua elegancia

Com que te ves ondular,

Como se baloiça a flor

Na primavera em verdor.

Dize, dize: a natureza

Póde dar tal gentileza?

Quem t’a deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,

Ai! vê-te por tua vida,

E diz se ha no ceo estrêlla,

Diz-me se ha no prado flor

Que Deus fizesse tam bella

Como te faz meu amor.

XVI.
OS CINCO SENTIDOS.

São bellas—bem o sei, essas estrêllas,

Mil côres—divinaes têem essas flores;

Mas eu não tenho, amor, olhos para ellas:

Em toda a natureza

Não vejo outra belleza

Senão a ti—a ti!

Divina—ai! sim, será a voz que affina

Saudosa—na ramagem densa, umbrosa.

Será; mas eu do rouxinol que trina

Não oiço a mellodia,

Nem sinto outra harmonia

Senão a ti—a ti!

Respira—n’aura que entre as flores gyra,

Celeste—incenso de perfume agreste.

Sei... não sinto: minha alma não aspira,

Não percebe, não toma

Senão o doce aroma

Que vem de ti—de ti!

Formosos—são os pomos saborosos,

É um mimo—de nectar o racimo:

E eu tenho fome e sêde... sequiosos,

Famintos meus desejos

Estão... mas é de bejos,

E so de ti—de ti!

Macia—deve a relva luzidia

Do leito—ser porcerto em que me deito.

Mas quem, ao pé de ti, quem poderia

Sentir outras carícias,

Tocar n’outras delicias

Senão em ti—em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos

Todos n’um confundidos,

Sentem, ouvem, respiram;

Em ti, por ti deliram.

Em ti a minha sorte,

A minha vida em ti;

E quando venha a morte,

Será morrer por ti.

XVII.
ROSA E LIRIO.

A rosa

É formosa;

Bem sei.

Porque lhe chamam—flor

D’amor,

Não sei.

A flor,

Bem de amor

É o lirio;

Tem mel no aroma,—dor

Na côr

O lirio.

Se o cheiro

É fagueiro

Na rosa,

Se é de belleza... mor

Primor

A rosa,

No lirio

O martyrio

Que é meu

Pintado vejo:—côr

E ardor

É o meu.

A rosa

É formosa,

Bem sei...

E será de outros flor

D’amor...

Não sei.

XVIII.
COQUETTE DOS PRADOS.

Coquette dos prados,

A rosa é uma flor

Que inspira e não sente

O incanto d’amor.

De purpura a vestem

Os raios do sol;

Suspiram por ella

Ais do rouxinol:

E as galas que traja

Não as agradece,

E o amor que accende

Não o reconhece.

Coquette dos prados

Rosa, linda flor,

Porquê, se o não sentes,

Inspiras amor?

XIX.
CASCAES

Acabava alli a terra

Nos derradeiros rochedos,

A deserta arida serra

Por entre os negros penedos

Só deixa viver mesquinho

Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados

Sopravam rijos na rama,

E os ceos turvos, annuviados,

O mar que incessante brama...

Tudo alli era braveza

De selvagem natureza.

Ahi, na quebra do monte,

Entre uns juncos mal-medrados,

Sêcco o rio, sêcca a fonte,

Hervas e matos queimados,

Ahi n’essa bruta serra,

Ahi foi um ceo na terra.

Alli sós no mundo, sós,

Sancto Deus! como vivemos!

Como eramos tudo nós

E de nada mais soubemos!

Como nos folgava a vida

De tudo o mais esquecida!

Que longos bejos sem fim,

Que fallar dos olhos mudo!

Como ella vivia em mim,

Como eu tinha n’ella tudo,

Minha alma em sua razão

Meu sangue em seu coração!

Os anjos aquelles dias

Contaram na eternidade:

Que essas horas fugidias,

Seculos na intensidade,

Por millenios marca Deus

Quando as dá aos que são seus.

Ai! sim foi a tragos largos,

Longos, fundos que a bebi

Do prazer a taça:—amargos

Depois... depois os senti

Os travos que ella deixou...

Mas como eu ninguem gosou.

Ninguem: que é preciso amar

Como eu amei—ser amado

Como eu fui; dar, e tomar

Do outro ser a quem se ha dado,

Toda a razão, toda a vida

Que em nós se annulla perdida.

Ai, ai! que pesados annos

Tardios depois vieram!

Oh, que fataes desinganos,

Ramo a ramo, a desfizeram

A minha choça na serra,

Lá onde se acaba a terra!

Se o visse... não quero vê-lo

Aquelle sítio incantado;

Certo estou não conhecê-lo,

Tam outro estará mudado,

Mudado como eu, como ella,

Que a vejo sem conhecê-la!

Inda alli acaba a terra,

Mas ja o ceo não começa:

Que aquella visão da serra

Sumiu-se na treva espessa,

E deixou nua a bruteza

D’essa agreste natureza.

XX.
ESTES SITIOS!

Olha bem estes sitios queridos,

Vê-os bem n’este olhar derradeiro...

Ai! o negro dos montes erguidos,

Ai! o verde do triste pinheiro!

Que saudades que d’elles teremos...

Que saudade! ai, amor, que saudade!

Pois não sentes, n’este ar que bebêmos,

No acre cheiro da agreste ramagem,

Estar-se alma a tragar liberdade

E a crescer de innocencia e vigor!

Oh! aqui, aqui só se ingrinalda

Da pureza da rosa selvagem,

E contente aqui só vive Amor.

O ar queimado das salas lhe escalda

De suas azas o niveo candor,

E na frente arrugada lhe cresta

A innocencia infantil do pudor.

E oh! deixar taes delicias como ésta!

E trocar este ceo de ventura

Pelo inferno da escrava cidade!

Vender alma e razão á impostura,

Ir saudar a mentira em sua côrte,

Ajoelhar em seu throno á vaidade,

Ter de rir nas angústias da morte,

Chamar vida ao terror da verdade...

Ai! não, não... nossa vida acabou,

Nossa vida aqui toda ficou.

Diz-lhe a adeus n’este olhar derradeiro,

Dize á sombra dos montes erguidos,

Dize-o ao verde do triste pinheiro,

Dize-o a todos os sitios queridos

D’esta ruda, feroz soledade,

Paraizo onde livres vivemos...

Oh! saudades que d’elle teremos,

Que saudade! ai, amor, que saudade!

XXI.
NÃO TE AMO.

Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.

E eu n’alma—tenho a calma,

A calma—do jazigo.

Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.

E a vida—nem sentida

A trago eu ja commigo.

Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero

De um querer bruto e fero

Que o sangue me devora,

Não chega ao coração.

Não te amo. Es bella; e eu não te amo, ó bella.

Quem ama a aziaga estrêlla

Que lhe luz na má hora

Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,

De mau feitiço azado

Este indigno furor.

Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto

Que de mim tenho espanto,

De ti medo e terror...

Mas amar!... não te amo, não.

XXII.
NÃO ES TU.

Era assim, tinha esse olhar,

A mesma graça, o mesmo ar,

Corava da mesma côr,

Aquella visão que eu vi

Quando eu sonhava de amor,

Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,

O semblante pensativo,

E uma suave tristeza

Que por toda ella descia

Como um veo que lhe involvia,

Que lhe adoçava a belleza.

Era assim; o seu fallar,

Ingenuo e quasi vulgar,

Tinha o podêr da razão

Que penetra, não seduz:

Não era fogo, era luz

Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,

No seio o mesmo perfume,

Um cheiro a rosas celestes,

Rosas brancas, puras, finas,

Viçosas como boninas,

Singelas sem ser agrestes.

Mas não es tu... ai! não es:

Toda a illusão se desfez.

Não es aquella que eu vi,

Não es a mesma visão,

Que essa tinha coração,

Tinha, que eu bem lh’o senti.

XXIII
BELLEZA.

Vem do amor a Belleza,

Como a luz vem da chamma.

É lei da natureza:

Queres ser bella?—ama.

Fórmas de incantar,

Na tella o pincel

As póde pintar;

No bronze o buril

As sabe gravar;

E estátua gentil

Fazer o cinzel

Da pedra mais dura...

Mas Belleza é isso?—Não; só formosura.

Surrindo entre dores

Ao filho que adora

Inda antes de o ver,

—Qual surri a aurora

Chorando nas flores

Que estão por nascer—

A mãe é a mais bella das obras de Deus,

Se ella ama!—O mais puro do fogo dos ceus

Lhe ateia essa chamma de luz crystallina:

É a luz divina

Que nunca mudou,

É luz... é a Belleza

Em toda a pureza

Que Deus a creou.

XXIV.
ANJO ES.

Anjo es tu, que esse podêr

Jamais o teve mulher,

Jamais o hade ter em mim.

Anjo es, que me domina

Teu ser o meu ser sem fim;

Minha razão insolente

Ao teu capricho se inclina,

E minha alma forte, ardente,

Que nenhum jugo respeita,

Covardemente sujeita

Anda humilde a teu podêr.

Anjo es tu, não es mulher.

Anjo es. Mas que anjo es tu?

Em tua frente annuviada

Não vejo a c’roa nevada

Das alvas rosas do ceo.

Em teu seio ardente e nu

Não vejo ondear o veo

Com que o soffrego pudor

Vela os mysterios d’amor.

Teus olhos têem negra a côr,

Côr de noite sem estrêlla;

A chamma é vivaz e é bella,

Mas luz não tem.—Que anjo es tu?

Em nome de quem vieste?

Paz ou guerra me trouxeste

De Jehovah ou Belsebú?

Não respondes—e em teus braços

Com phreneticos abraços

Me tens apertado, estreito!...

Isto que me cai no peito

Que foi?... Lagryma?—Escaldou-me...

Queima, abraza, ulcéra... Dou-me,

Dou-me a ti, anjo malditto,

Que este ardor que me devora

É ja fogo de precito,

Fogo eterno, que em má hora

Trouxeste de lá... De donde?

Em que mysterios se esconde

Teu fatal, estranho ser!

Anjo es tu ou es mulher?

XXV.
VIBORA.

Como a vibora gerado,

No coração se formou

Este amor amaldiçoado

Que á nascença o espedaçou.

Para elle nascer morri;

E em meu cadaver nutrido,

Foi a vida que eu perdi

A vida que tem vivido.

FOLHAS CAHIDAS.
LIVRO SEGUNDO.

I.
BARCA BELLA.

Pescador da barca bella,

Onde vas pescar com ella,

Que é tam bella,

Oh pescador?

Não ves que a última estrêlla

No ceo nublado se vela?

Colhe a vela,

Oh pescador!

Deita o lanço com cautella,

Que a sereia canta bella...

Mas cautella,

Oh pescador!

Não se inrede a rede n’ella,

Que perdido é remo e vela

Só de vê-la,

Oh pescador.

Pescador da barca bella,

Inda é tempo, foge d’ella,

Foge d’ella

Oh pescador!

II.
A COROA.

Bem sei que é toda de flores

Essa coroa d’amores

Que na frente vais cingir.

Mas é coroa—é reinado;

E a pôsto mais arriscado

Não se póde hoje subir.

N’esses reinos populosos

Os vassallos revoltosos

Tarde ou cedo dão a lei.

Quem hade conter, domá-los,

Se são tantos os vassallos

E um só o pobre do rei?

Não vejo, rainha bella,

Para fugir essa estrella

Que os reis persegue sem dó,

Mais que um meio—fallo serio:

É pôr limites ao imperio

E ter um vassallo só.

III.
SINA.

Por todas quantas estrêllas

Tem o ceo que possam mais,

Pelas flores virginaes

De que se c’roam donzellas,

Pelas lagrymas singellas

Que o primeiro amor derrama,

Por aquella etherea chamma

Que a mão de Deus accendeu

E que na terra allumia

Quanto ha na terra do ceu!

Por tudo quanto eu queria

Quando eu sabia querer,

E por tudo quanto eu cria

Quando me era dado crer!

Bem fadada seja a vida

Que por éstas folhas brancas[11]

Sua historia hade escrever!

Que as dores lhe venham mancas

E com azas o prazer!

Ésta sina que lhe dou,

Bruxa não n’a adivinhou,

Nem duende m’a insinou:

Li-a eu por meu condão

Em seus olhos innocentes,

Transparentes—transparentes

Até dentro ao coração.

NOTAS DE RODAPÉ:

[11] As folhas do album em que se escreveram estes versos.

IV.
AI HELENA!

Ai Helena! de amante e de espôso

Ja o nome te faz suspirar,

Ja tua alma singela presente

Esse fogo de amor delicioso

Que primeiro nos faz palpitar!...

Oh! não vas, donzellinha innocente,

Não te vas a esse ingano intregar:

É amor que te illude e te mente,

É amor que te hade mattar!

Quando o sol n’estes montes desertos

Deixa a luz derradeira apagar,

Com as trevas da noite que espanta

Véem os anjos do inferno incubertos

A sua victima incauta affagar.

Doce é a voz que adormece e quebranta,

Mas a mão do traidor... faz gelar.

Treme, foge do amor que te incanta,

É amor que te hade mattar.

V.
THE ROSE—A SIGH.[12]

If this delicious, grateful flower,

Which blows but for a little hour,

Should to the sight so lovely be,

As from it’s fragrance seems to me,

A sigh must then it’s colour show,

For that is the softest joy I know.

And sure the rose is like a sigh,

Borne just to soothe and then—to die.

NOTAS DE RODAPÉ:

[12] By a young lady born blind.

V.
A ROSA—UM SUSPIRO[13]

Se ésta flor tam bella e pura,

Que apenas uma hora dura,

Tem pintado no matiz

O que o seu perfume diz,

Porcerto na linda côr

Mostra um suspiro d’amor:

Dos que eu chego a conhecer

É este o maior prazer.

E a rosa como um suspiro

Hade ser; bem se discorre:

Tem na vida o mesmo gyro,

É um gôsto que nasce e—morre.

NOTAS DE RODAPÉ:

[13] Por uma menina cega de nascença.

VI.
RETRATTO.
(N’UM ALBUM)

Ah! despreza o meu retratto

Que lhe eu queria aqui pôr!

Tem medo que lhe desfeie

O seu livro de primor?

Pois saiba que por despique

Eu sei tambem ser pintor:

Co’esta penna por pincel,

E a tinta do meu tinteiro,

Vou fazer o seu retratto

Aqui ja de corpo inteiro.

Vamos a isto.—Sentada

Na cadeira ‘moyen-âge,’

O cabello en ‘chatellaines,’

As mangas sôltas.—É o traje.

Em longas pregas negras

Caia o velludo e arraste;

De si com desdem regio

Com o pésinho o affaste...

N’essa attitude! Está bem:

Agora mais um geitinho;

A airosa cabeça a um lado

E o lindo pé no banquinho.

Aqui estão os contornos, são estes,

Nem Daguerre lh’os tira melhor.

Este é o ar, ésta a ‘pose,’ eu lh’o juro,

E o trajar que lhe fica melhor.

Vamos agora ao difficil:

Tirar feição por feição;

Intendê-las, que é o ponto,

E dar-lhe a justa expressão.

Os olhos são côr da noite,

Da noite em seu começar,

Quando inda é joven, incerta,

E o dia vem de acabar;

Têem uma luz que vai longe,

Que faz gôsto de queimar:

É uma especie de lume

Que serve só de abrazar.

Na bôcca há um surriso amavel.

Amavel é... mas queria

Saber se é todo bondade

Ou se meio é zombaria.

Ninguem m’o diz? O retratto

Incompleto ficará,

Que n’estas duas feições

Todo o ser, toda a alma está.

Pois fiel como um espelho

É tudo o que n’elle fiz;

E o que lhe falta—que é muito,

Tambem o espelho o não diz.

VII.
LUCINDA.

Ergue a frente, lirio,

Ergue a branca frente!

O astro do delirio

Ja surgiu no oriente.

Ves, o sol ardente

Lá cahiu no mar;

A frente pendente

Ergue a respirar!

Alvo é o luar,

Teu alvor não cresta;

A hora de gosar,

De viver é ésta.

Longa foi a sésta

Longo o teu dormir;

Ergue a branca testa,

Tempo é de surgir!

Ja se abre a surrir

Tua bôcca linda...

Despertar, sentir

Ou sonhar é ainda?

Sonho que não finda

Será o teu sonhar,

Se a dormir, Lucinda,

Te sentes amar.

VIII.
AS DUAS ROSAS.

Sôbre se era mais formosa

A vermelha ou branca rosa,

Ardeu seculos a guerra

Em Inglaterra.

Paz entre as duas, jamais!

Reinar ambas as rivais,

Tambem não; e uma ceder

Como hade ser?

Faltei eu lá na Inglaterra

Para acabar com a guerra.

Ei-las aqui bem eguaes,

Mas não rivaes.

Atei-as em laço estreito:

Que artista fui, com que geito!

E oh! que lindas são, que amores

As minhas flores!

Dirão que é cópia;—bem sei:

Que todo inteiro o roubei

Meu pensamento brilhante

Do teu semblante...

Será. Mas se é tam bello

Que lhe deem esse modello,

Do meu quadro, na verdade,

Tenho vaidade.

IX.
VOZ E AROMA.

A brisa vaga no prado,

Perfume nem voz não tem;

Quem canta é o ramo agitado,

O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores

Que uma a uma eu vi murchar,

Restituam-me os verdores

Aos ramos que eu vi seccar...

E em torrentes de harmonia

Minha alma se exhalará,

Ésta alma que muda e fria

Nem sabe se existe ja.

X.
SEUS OLHOS.

Seus olhos—se eu sei pintar

O que os meus olhos cegou—

Não tinham luz de brilhar,

Era chamma de queimar;

E o fogo que a ateou

Vivaz, eterno, divino,

Como o facho do Destino.

Divino, eterno!—e suave

Ao mesmo tempo: mas grave

E de tam fatal podêr,

Que, um só momento que a vi,

Queimar toda alma senti...

Nem ficou mais de meu ser,

Senão a cinza em que ardi.

XI.
A DÉLIA.

Cuidas tu que a rosa chora,

Que é tammanha a sua dor,

Quando, ja passada a aurora,

O sol, ardente de amor,

Com seus bejos a devora?

—Feche virgineo pudor

O que inda é botão agora

E ámanhan hade ser flor;

Mas ella é rosa n’esta hora.

Rosa no aroma e na côr.

—Para ámanhan o prazer

Deixe o que ámanhan viver.

Hoje, Délia, é nossa a vida;

Ámanhan... o que hade ser?

A hora de amor perdida

Quem sabe se hade volver?

Não desperdices, querida,

A duvidar e a soffrer

O que é mal gasto da vida

Quando o não gasta o prazer.

XII.
A JOVEN AMERICANA.

Donde é que te eu vi, donzella,

E o que eras tu n’esta vida

Quando não tinhas vestida

A fórma de virgem bella

Que ora te vejo trajar?

Estrêlla foste no ceo,

Serias no prado flor?

Ou, no diaphano splendor

De que Iris faz o seu veo,

Estavas, Silpha, a bordar?

Não houve poeta ainda

Que te não visse e cantasse,

Mulher que não te invejasse,

Nem pintor que a face linda

Te não fôsse copiar.

Seculos tens.—E ah!... ja sei

Quem es, quem foste e hasde ser:

Bem te eu estava a conhecer

Quando primeiro te olhei

Sem te podêr estranhar.

Com Deus e co’a Liberdade

De nossas terras fugiste

Quando perdidos nos viste,

E te foste á soledade

Do novo-mundo acoitar.

Pois que ora piedosa vens

E nos sentes resurgir,

Oh! não tornes a fugir,

Que melhor patria não tens

Nem que mais te saiba amar.

Teu natal celebraremos

Hoje e sempre: teus amigos

Somos na lealdade antigos,

E no ardor novos seremos,

No desvéllo em te adorar:

Porque tu es o Ideal

Da só belleza—do Bem;

Não es estranha a ninguem,

E de ti só foge o mal

Que te não póde incarar.

XIII.
ADEUS, MÃE!

—‘Adeus, mãe! adeus, querida,

Que eu ja não posso co’a vida,

E os anjos chamam por mim.

Adeus, mãe, adeus!... Assim,

Juncta os teus labios aos meus,

E recebe o último adeus

N’este suspiro... Não chores,

Não chores: aquellas dores

Ja sinto accalmar em mim.

Adeus, mãe, adeus!... Assim,

Juncta os teus labios aos meus...

Um bejo—um último... Adeus!’

E o corpo desanimado

No collo da mãe cahia;

E ella o corpo... só pesado,

Só mais pesado o sentia!

Não se lamenta, não chora,

E quasi a surrir, dizia:

—‘Que tem este filho agora,

Que tanto pésa? Não posso...’

E uma a uma, osso por osso,

Com a mão trémula tenta

As mãosinhas descarnadas,

As faces cavas, myrradas,

A testa inda morna e lenta.

—‘Que febre, que febre!’ diz;

E em tudo pensa a infeliz,

Tudo que ha mau lhe occorreu,

Tudo—menos que morreu.

Como nos gelos do norte

O somno traidor da morte

Ingana o desfallecido

Que imagina adormecer,

Assim cançado, esvahido

De tam longo padecer,

Ja não ha no coração

Da mãe fôrça de sentir;

Não tem ja lume a razão

Senão só para a illudir.

Acorda, ó mãe desgraçada,

Que é tempo de despertar!

Anda ver a eça armada,

As luzes que ardem no altar.

Ouves? É a rouca toada

Dos padres a psalmear?...

Vamos, que a hora é chegada,

É tempo de o amortalhar.

E os anjos cantavam:

‘Alleluia!’

E os sanctos clamavam:

‘Hosanna!’

Ao triste cantar da terra

Responde o cantar do ceu;

Todos lhe bradam:—‘morreu!’

E a todos o ouvido cerra.

E os sinos a tocar,

E os padres a rezar,

E ella ainda a accalentar

Nos braços o filho morto,

Que ja não tem mais confôrto,

Mais socêgo n’este mundo

Que o jazigo humido e fundo

Onde hade ir a sepultar.

Levae, ó anjos de Deus,

Levae essa dor aos ceus.

Com a alma do innocente

Aos pés do Juiz Clemente

Ahi fique a sancta dor

Rogando á Eterna Bondade

Que extenda a immensa piedade

A quantos peccam d’amor.

XIV.
AVE, MARIA!

Maria, doce mãe dos desvalidos,

A ti clamo, a ti brado!

A ti sobem, senhora, os meus gemidos,

A ti o hymno sagrado

Do coração de um pae voa, ó Maria,

Pela filha innocente.

Com sua debil voz que balbucia,

Piedosa mãe clemente,

Ella ja sabe, erguendo as mãos tenrinhas,

Pedir ao Pae dos ceos

O pão de cada dia. As preces minhas

Como irão ao meu Deus,

Ao meu Deus que é teu filho e tens nos braços,

Se tu, mãe de piedade,

Me não tomas por teu? Oh! rompe os laços

Da velha humanidade;

Despe de mim todo outro pensamento

E van tenção da terra;

Outra glória, outro amor, outro contento

De minha alma desterra.

Mãe, oh! mãe, salva o filho que te implora

Pela filha querida.

Demais tenho vivido, e só agora

Sei o preço da vida,

D’esta vida, tam mal gasta e prezada

Porque minha só era...

Salva-a, que a um sancto amor está votada,

N’elle se regenera.

XV.
OS EXILADOS.
Á SENHORA ROSSI-CACCIA.[14]

Elles tristes, das praias do destêrro,

Os olhos longos e arrazados de agua

Estendem para aqui... Cravado o ferro

Da saudade têem n’alma; e é negra mágua

A que lhes ralla os corações afflictos,

É a maior da vida—são proscrittos.

Dor como outra não ha, é a dor que os matta!

Dizer eu: ‘Essa terra é minha... minha,

Que nasci n’ella, que a servi, a ingrata!

Que lhe dei... dei por ella quanto tinha,

Sangue, vida, saude, os bens da sorte...

E ella, por galardão, me intrega á morte!’

Morte lenta e cruel—a de Ugolino![15]

Bem lhes quizeram dar...

Mas não será assim: sôpro divino

De bondade e nobreza

Não o póde apagar

Nos corações da gente portugueza

Esse rancor de fera

Que em almas negras, negro e vil impera.

Tu, genio da Harmonia,

Tu sólta a voz em que triumpha a glória,

Com que suspira amor!

Bella d’enthusiasmo e de fervor,

Ergue-te, ó Rossi, tua voz nos guia:

A tua voz divina

Hoje um echo immortal deixa na historia.

Inda no mar d’Egina

Soa o hymno d’Alceu;

E atravessaram seculos

Os cantos de Tyrtheu.

Mais poderosa e válida

A tua voz será;

A tua voz etherea,

Tua voz não morrerá.

Nós no templo da patria pendurâmos

Ésta c’roa singela

Que de myrtho e de rosas intrançâmos

Para essa fronte bella:

Aqui, de voto, ficará pendente,

E um culto de saudade

Aqui, perennemente,

Lhe daremos no altar da Liberdade.

NOTAS DE RODAPÉ:

[14] Cantando em um baile de subscripção que se deu em Lisboa em 29 de Março de 1845 a favor dos que n’esse anno estavam emigrados por fugir ás perseguições do Govêrno.

[15] Foi morto á fome com os filhos.

XVI.
PREITO.

É lei do tempo, Senhora,

Que ninguem domine agora

E todos queiram reinar.

Quanto vale n’esta hora

Um vassallo bem sujeito,

Leal de homenage e preito

E facil de governar?

Pois o tal sou eu, Senhora:

E aqui juro e firmo agora

Que a um despotico reinar

Me rendo todo n’esta hora,

Que a liberdade sujeito...

Não a reis!—outro é meu preito:

Anjos me hãode governar.

XVII.
NO LUMIAR.

Era um dia de Abril; a primavera

Mostrava apenas seu virgineo seio

Entre a folhagem tenra; não vencêra,

De todo, o sol o mysterioso inleio

Da nevoa rara e fina que extendêra

A manhan sôbre as flores; o gorgeio

Das aves inda timido e infantil...

Era um dia de Abril.

E nós iamos lentos passeiando

De vergel em vergel, no descuidado

Socêgo d’alma que se está lembrando

Das luctas do passado,

Das vagas incertezas do porvir.

E eu não cançava de admirar, de ouvir,

Porque era grande, um grande homem devéras

Aquelle duque—alli maior ainda,

Alli no seu Lumiar, entre as sinceras

Bellezas d’esse parque, entre essas flores,

A qual mais bella e de mais longe vinda

Esmaltar de mil côres

Bosque, jardim, e as relvas tam mimosas,

Tam suaves ao pé—muito ha cançado

De pisar alcatifas ambiciosas,

De tropeçar no perigoso estrado

Das vaidades da terra.

E o velho duque, o velho homem d’Estado,

Ao fallar d’essa guerra

Distante—e das paixões da humanidade,

Surria malicioso

D’aquelle surrir fino sem maldade,

Que tam seu era, que, entre desdenhoso

E benevolo, a quanto lhe sahia

Dos labios dava um cunho de nobreza,

De razão superior.

E então como elle a amava e lhe queria

A ésta pobre terra portugueza!

Velha tinha a razão, velha a experiencia,

Joven só esse amor.

Tam joven, que inda cria, inda esperava,

Inda tinha a fe viva da innocencia!...

Eu, na fôrça da vida,

Tristemente de mim me invergonhava.

—Passeavamos assim, e em reflectida

Meditação tranquilla descuidados

Iamos sós, ja sem fallar, descendo

Por entre os velhos olmos tam copados,

Quando sentimos para nós crescendo

Rumor de vozes finas que zumbia

Como enxame de abelhas entre as flores,

E vimos, qual Diana entre os menores

Astros do ceo, a fórma que se erguia.

Sôbre todas gentil, d’essa extrangeira

Que se esperava alli. Perfeita, inteira

No velho amavel renasceu a vida

E a graça facil. Cuidei ver o antigo

O nobre Portugal que resurgia

No venerado amigo;

E na formosa dama que surria,

O genio da subida,

Rara e fina elegancia que a nobreza,

O gòsto, o amor do Bello, o instincto da Arte

Reune e faz irmãos em toda a parte;

Que affere a grandeza

Pela medida só dos pensamentos,

Do stylo de viver, dos sentimentos,

Tudo o mais como futil desprezando.

Pensei que a saudar o velho illustre

Em seus ultimos dias

E a despedir-se, até Deus sabe quando,

De nossas praias tristes e sombrias,

Vinha esse genio... Tristes e sombrias,

Que o sol lhe foge, lhe esmorece o lustre,

E onde tudo o que é alto vai baixando...

O triste, o que não tem ja sol que o aqueça

Sou eu talvez—que, á míngua de fe, sinto

O cerebro gelar-me na cabeça

Porque no coração o fogo é extincto.

Elle não era assim,

Ou, sabía fingir melhor do que eu!

—Como o nobre corcel que invelheceu

Nas guerras, ao sentir o aureo telim

E as armas sôbre o dorso descarnado,

Remoça o garbo, em juvenil meneio

Franja de espuma o freio,

E honra os brazões da casa em que foi nado.

Nunca me hade esquecer aquelle dia!

Nem os olhos, as fallas, e a sincera

Admiração da bella dama ingleza

Por tudo quanto via;

O fructo, a flor, o aroma, o sol que os gera,

E ésta vivaz, vehemente natureza,

Toda de fogo e luz,

Que ama incessante, que de amar não cança,

E continua produz

Nos fructos o prazer, na flor a esp’rança.

Alli as nações todas se junctaram,

Alli as várias línguas se fallaram;

A Europa convidada

Veio ao festim—não ao festim, ao preito.

Vassallagem rendida foi prestada

Ao talento, á belleza,

A quanto n’alma infunde amor, respeito,

Porque é devéras grande:—que a grandeza

Os homens não a dão;

Põe-na por sua mão

N’aquelles que são seus,

Nos que escolheu—só Deus.

Oh! minha pobre terra, que saudades

D’aquelle dia! Como se me aperta

O coração no peito co’as vaidades,

Co’as miserias que ahi vejo andar álerta,

Á sôlta, appregoando-se! Na intriga,

Na traição, na calúmnia é forte a liga,

É fraca em tudo o mais...

Tu, socegado

Descança no sepulchro; e cerra, cerra

Bem os olhos, amigo venerado,

Não vejas o que vai por nossa terra.

Eu fecho os meus, para trazer mais viva

Na memoria a tua imagem

E a dessa bella Ingleza que se esquiva

De nós entre a folhagem

Dos bosques de Parthenope. Cançado,

Fito n’esta miragem

Os olhos d’alma, em quanto que arrastado,

Vai o tardio pé

Por este que inda é,

Que cedo não será, bem cedo—em mal!

O velho Portugal.[16]

NOTAS DE RODAPÉ:

[16] Estes versos foram inspirados pela visita da celebrada Mrs. Northon á quinta do Lumiar, onde o fallecido duque de Palmella reuniu, para a festejar, alguns poucos amigos escolhidos. Foi nos ultimos tempos de sua vida. Mrs. Northon reside actualmente em Napoles, a Parthenope de que falla o texto.

XVIII.
A UM AMIGO.

Fiel ao costume antigo,

Trago ao meu joven amigo

Versos proprios d’este dia.

E que de os ver tam singelos,

Tam simples como eu, não ria

Qualquer os fara mais bellos,

Ninguem tam d’alma os faria.

Que sôbre a flor de seus annos

Soprem tarde os desinganos;

Que emtôrno os bafeje amor,

Amor da espôsa querida,

Prolongando a doce vida

Fructo que succeda á flor.

Recebo este voto, amigo,

Que eu, fiel ao uso antigo,

Quiz trazer-te n’este dia

Em poucos versos singelos,

Qualquer os fara mais bellos,

Ninguem tam d’alma os faria.

XIX.
OS LUSIADAS.

EPILOGO DE PAGGI.
I.

Co’a doce voz o cysne lusitano

Assim as proprias feras abrandava;

Mas nem o Tejo, de seu canto ufano,

Nem as ingratas Tagides tocava:

De seu impio destino deshumano

Nunca as íras fataes, nunca domava;

Nem achou entre os seus humanidade

Quem moveria as pedras á piedade.

II.

Ingrata patria, o ingenho sublimado

Digno de um capitolio em Roma antiga,

Tu não o ergueste d’esse baixo estado

Em que só por tua glória se affadiga!

O ingenho que te inveja mallogrado

Toda a nação de meritos amiga,

Tu na vida em miserias o deixaste,

E em leito vil á fome o assacinaste!

III.

Vai! Sua glória é mais hoje a maravilha

Das gentes, porque mais o perseguiste;

Morre o teu nome quando o seu mais brilha,

Despojam delle a tua lingua triste;

Iberia o adoptou, França o perfilha,

Britannia o quer; e agora eterno existe,

Que n’um e n’outro italico idioma

Entre os seus vates o colloca Roma.

IV.

Tu fica-te c’os ossos deshonrados

Que te accusam de ingrata ao ceo e á terra;

Seu spirito, esse vai onde prezados

São virtude e talento, e onde ímpia guerra

Stulto o podêr não faz aos mais honrados:

Mais de outros ja que teu, ja não se incerra

N’um canto do orbe sua altiva fama,

Que Augusto a ampara e um Alexandre a acclama

V.

Lá onde surge de alto monte, e brilha

Sôbre a escolhida grey de Deus a estrêlla,

E egual áquella antiga maravilha

Que os reis guiou a Deus, sôbre os reis véla,

Lá onde ao merito o podêr se humilha,

Beja a paz da justiça a face bella,

E de illustre carvalho á sombra amena

Descança Roma no velar de Siena,[18]

VI.

Lá vai, minha obra, e d’esta luz roubada

Tu leva á patria musa esses primores;

Em falla ignota estava sepultada,

Raios de extranho sol são seus fulgores.

Vai, viverás: tambem com luz furtada

Deu vida Prometheu. Se mais não fores,

Serás reflexo de belleza, lustre,

E de eterno splendor émula illustre.[19]

XIX.
LA LUSIADA.

EPILOGO DI PAGGI.[17]
I.

Cotal cantava il lusitano cigno

Molcendo con sue voce anco le fere,

Non che l’amato patrio Tago e’l Migno,

E le del canto suo Tagide altere:

Che pur del suo destino empio e maligno

Non puote unqua addolcir l’ire severe;

Non trovando fra suoi humanitade

Quei ch’i scelsi avria mossi anco a pietade.

II.

Potesti, ingrata patria, un spirto degno

D’un campidoglio in una Roma antica,

Non sollevar da basso stato, indegno

Di cui fiè per te gloria ogni fatica?

Un spirto che t’invidia al maggior segno

Ogni altra nazion di mer’ti amica,

Veder soffristi vivo egro e scontento

Ed in vil letto di disagio spento!

III.

Ma vanne pur che, quanto iniqua, austera

Fusti com lui, tanto fra l’altre genti

Sorgerá la sua gloria ove tua pera,

Fino a caciarne i tuoi nativi accenti.

Adotteranlo la nazione ibera,

La franca, use adottar spirti eminenti,

L’angla; ed ambe le italiche favelle

Vorran che viva fra suoi poeti anch’elle.

IV.

Tienti pur l’ossa inonorate ancora

Che t’accusan d’ingrata anco sepulte;

Che lo spirto di lui, gia di te fuora

Non errará, ne fien sue pene inulte;

Vedrailo accolto ove virtu s’onora:

Gia piu d’altri che tuo, fra le piu culte

Genti del orbe, e maturar sua speme

Sotto un Augusto e un Alessandro insieme

V.

La ve ad illuminar da eccelso monte

Astro di Dio, l’eletta gregia, sorge,

Che al par di quel che ad inchinar la fronte

Condussi i regi a Dio, i regi scorge,

La dove il merto abbatte sforzi ed onte,

La giustizia à la pace il labro porge,

E di quercia Feretria à l’ombre amena

Riposa Roma al vigilar di Siena.

VI.

Or la vanne, opra, ed à le patrie muse,

Quasi terzo cristal le luci rendi

Che sotto ignoto dir sepolte e chiuse

Da sol che altrove splende or furi e prendi.

Vanne, e qual gia Prometteo anima infuse

Con le luci non sue, tu vita attendi:

Spechio del altrui bello, emulo industre

E d’eterno splendor riflesso illustre.

NOTAS DE RODAPÉ:

[17] Paggi esteve muitos annos em Lisboa, e aqui publicou duas edições da sua traducção dos LUSIADAS, que, se não tem o valor poetico da de Nervi, nem a fidelidade da de Briccolani, é todavia muito apreciavel. Este epilogo foi tirado da seg. edic. de 1659—que é a mais correcta, conservando-se-lhe a propria orthographia.

[18] Cidade do gran’-ducado de Toscana, patria do papa Alexandre VII, a quem a versão dos Lusiadas foi dedicada.

[19] Publicando-se a primeira vez ésta traducção dos versos de Paggi no 2.º num. do vol. II do jornal, a SEMANA, appareceu com uma introducção, da qual julgâmos dever extractar alguns paragraphos:

‘Um nome illustre e portuguez, germanado pela inspiração e pelas tradicções patrias com a glória de Camões, associa-se hoje á nobre desaffronta que um estrangeiro soube, ha seculo e meio, escrever no fim dos Lusiadas em honra das esquecidas cinzas de Camões. O estrangeiro foi Carlos Antonio Paggi, que na sua traducção italiana dos Lusiadas accrescentou, como epilogo, seis formosas strophes em honra do poeta que a patria, ou antes a côrte do seu tempo, votára á humiliação e á indigencia. O nome glorioso na historia contemporanea das nossas lettras, é o de Almeida Garrett, que em bellissimos versos portuguezes trasladou a elegia melancolica com que o italiano Paggi apostrophou a indifferença, ou o desprêzo que foram em vida de Camões a tença mais avultada que os poderosos lhe destinaram no seu livro de mercês.

‘Quem gravou mais estes versos na loisa de Camões, quem lhe refrescou as cinzas com mais esta saudade, foi o poeta, que resume no seu nome, como n’um traço conciso, toda uma regeneração litteraria, o poeta que marca no stadio das lettras um repoiso ameno depois do servilismo, ou da inanição da poesia nacional; o mesmo que celebrou Camões em versos ungidos de sentimento e de saudade íntima; aquelle que interrogou os portuguezes sobre o logar onde jaziam os ossos do maior genio da nossa terra; foi o proprio que em Portugal, onde só a opulencia tem monumentos, e a nullidade estátuas, levantou o mais clamoroso brado a favor daquella pobre ossada, perdida, profanada, pisada talvez sacrilegamente pelos filhos degenerados d’uma patria invilecida; foi aquelle mesmo que rematou tambem um dos seus mais graciosos e sentidos poemas, com ésta apostrophe, temerosa e solemne, ja tantas vezes citada por nacionaes e extrangeiros:

Onde jaz, portuguezes, o moimento

Que do immortal cantor as cinzas guarda?

Homenagem tardia lhe pagastes

No sepulchro siquer? Raça d’ingratos!

XX.
O TEJO.
AO SENHOR VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT.
PELO CONDE DE CAMBURZANO.

N’essas margens risonhas do Tejo

Não ha som que não cante de amor;

Em suas ondas azues o lampejo

Das estrêllas, no albor, se espelhou.

XX.
IL TAGO.
AL SIGNOR VISCONTE DE ALMEIDA-GARRETT.
DAL CONTE DI CAMBURZANO.

Sule sponde ridenti del Tago

Dice ogni eco canzone d’amore;

In que’ flutti d’azzuro sì vago

Ogni stella al mattin si spechiò.

Essa terra produz a violeta

Ao primeiro surrir da manhan,

Vago Zephyro a flor indiscreta,

Sussurrando, lascivo beijou.

É loquaz este bosque sombrio,

Cheio ainda do canto dos bardos;

Aqui é Tempe, aqui o Menalo frio,

E o Meandro que os cysnes produz.

Oiço uns echos de magica lyra

Pela noite ir ao longo da praia...

Quem é esse tam fero que ahi gyra

E do dia desdenha da luz?

É Catão,[20]—só a este não doma

Quem a terra fez muda a seu mando;

É Catão—a infamia de Roma

Na sua frente jamais não pesou.

Quella terra produce la viola

Al primiero dell’ alba sorriso,

Zefiretto che lene trasvola

Susurrando quel fiore baciò.

Son loquaci le brune foreste,

Piene ancora del canto de’ bardi;

Quivi è Tempe, quì Menalo agreste,

E’l Meandro che i cigni nutrì.

Odo un suono di magica lira

Lungo il lido sull’ umida sera...

Chi è colui che sì fiero s’aggira

E disdegna la luce del di?

Egli é Cato[21], lui solo non doma

Chi la terra fè muta á suoi cenni;

Egli é Cato, l’infamia di Roma

Sul suo capo giammai non pesò.

Como geme alva pomba ferida,

Assim Merope[22] geme e lamenta;

Soam trompas guerreira alarida,

E a alegria ao seu peito voltou.

Nas cumiadas de Herminio[23] nevosas,

Que dos horridos gelos se c’roam,

Ve a aurora coberta de rosas

De belleza em que pompa surgiu!

Na hástea debil as tenras florinhas

Vão o puro rocio bebendo,

Cada gotta do ceo, nas hervinhas,

Ricca perola ardente luziu.

Mas o Genio do monte, que horrendo

Entre as sombras impera da noite,

Bate as azas, ja foge e fremendo

No profundo do mar mergulhou.

Come gemon le bianche colombe,

Cosi Merope[24] piange e lamenta;

Ma improviso squillare di trombe

Alta gioja in suo cuore versò.

Su le cime d’Erminio[25] nevose,

Cui fan gl’orridi ghiacci corona,

Ve’ l’aurora cosparsa di rose

Qual fa pompa di rara beltà!

I fioretti sul gracile stelo

Van bevendo la pura rugiada,

Ogni stilla caduta dal cielo

Fra l’erbette una perla si fa.

Ma lo Spirto del monte, che orrendo

Tiene impero fra l’ombre di notte,

Bate l’ali, gia fugge e fremendo

Nel profondo dei mari piombó.

Repentino lá surge um guerreiro,

Torvo o cenho, a armadura de ferro...

É Viriato... a seus pés—o primeiro!—

Calca as Aguias que o mundo adorou.

Da caverna que os ossos lhe incerra

Surde a voz... Inclinae as cabeças

Ante o livre que impavido á terra

—Ou morrer—ou salvá-la jurou...

Immudece a harpa.—O nome adorado

Da sua Julia[26] as Driades cantem!

Sôbre a fronte ao poeta sagrado

Phebo proprio os seus loiros poisou.

Un guerriero repente si desta,

Torvo il ciglio, rachiuso nell’arme,

É Viriato... un vessillo calpesta

Che tremante la terra mirò.

Dallo speco che l’ossa ne serra

Una voce si parte—t’inchina

A colui che la libera terra

O far salva o perire giurò...

Tace l’arpa... Di Giulia[27] ripeta

Ogni Driade il nome soave!...

Su la fronte del sacro poeta

Febo istesso l’alloro posò.

NOTAS DE RODAPÉ:

[20] Allude á tragedia CATÃO do Sr. Garrett.

[21] Idem.

[22] Allude á tragedia Merope do Sr. Garrett.

[23] Do mesmo modo allude á CAVERNA DE VIRIATO, publicada ultimamente nas FLORES SEM FRUCTO, com a traducção franceza por M.ˡˡᵉ de Flaugergues.

[24] Idem.

[25] Idem.

[26] Allude egualmente á ode ou canção II do livro primeiro—FLORES SEM FRUCTO.

[27] Idem.

XXI.
CANÇÃO DA DONZELLA FINLANDEZA.

Oh! se o meu Bem me volver,

Se quem d’antes via, eu vejo,

Traga elle a bôcca a escorrer

De lobo em sangue, lh’a bejo;

E a mão vou-lh’a apertar,

Cobras lh’a andem a inroscar.

Ah! se o vento alma tivera,

Lingua o ar da primavera,

Fôra a sua voz bastante:

Novas levára e trouxera

Entre um e outro amante.

Desprézo finos guizados,

Deixo ao cura os seus assados;

Só quero amar, ser constante

A quem o verão me deu

E o hinverno affez a ser meu.[28]

NOTAS DE RODAPÉ:

[28] O original é phenico ou finlandez.

Esta pequena Runa, canção em metro runico, é considerada no Norte como um d’esses raros exemplares da litteratura primitiva dos povos, que a characterisam. Como tal tem sido traduzida em muitas linguas com auxílio das versões litteraes, que para isso se publicara em Stokolmo.

Por este modo se fez a portugueza: e creio ser a primeira que apparece nas linguas do Sul. Dou com ella as versões todas, poeticas e litteraes, que me chegaram á mão. Muito approveitaria ao estudo das linguas e litteraturas da Europa se os nossos litteratos se dessem com o mesmo impenho ao estudo das runas e sagas do Norte com que alli se dão ao das nossas xacaras e soláos.

XXI.
EYTON RUNO SUOMALAISEN.

Jos mun tuttuni tulisi,

Ennen nähtyni näkyisi,

Sillen suuta suikkajaisin;

Jos olis suu suden weressä;

Sillen kättä käppäjäisin,

Jospa käärme kämmen-päässä.

Olisko tuuli mielellisnä,

Ahawainen kielellisnä:

Sanan toisi, sanan weisi,

Sanan liian liikuttaisi,

Kahden kaunihin wälillä.

Ennen heitän herkku-ruuat,

Paistit pappilan unohdan,

Ennenkun heitän herttaseni,

Kesän kestyteltyäni,

Talwen taiwuteltuani.[A]

XXI.
CARMEN FENICAE FUELLAE.

Ille si meus veniret,

Visus ante si veniret;

Illitum lupi cruore

Os libenter oscularer;

Si ter implicaret anguis,

At manum manu tenerem.

Si qua mens adesset austro,

Si qua lingua veris aurae;

Ferret aura, ferret auster,

Et referret usque verba,

Nuntians, amanti amantis.

Nil moror dapes opimas,

Presbiter nihil quod assat,

Dum mihi meum reservem,

Quem mihi subegit aestas,

Bruma quem dedit domandum.

A. Hedner

Praepositus Ydriensis.

XXI.
ΕΙΔΥΛΛΙΟΝ ΦΕΝΝΙΚΟΝ

Ὡς ἴκοιθ’ ὁ προσφιλής μοι,

Τὸν πάλαι φανέντ’ ἴδοιμι,

Τόνδε κἀκ λύκου φιλοῖμ’ ἄν

Αἱματοσταγῆ τὰ χείλη,

Ἐν χεροῖν αὐτοῦ δὲ φῦσα

Ὄφιος οὐ ταρβοῖμ’ ἑλιγμούς.

Εἰ γένοιτ’ ἔμφρων μὲν αὔρα,

Εἰ πνοὴ δ’ ἔναυδος ἦρος,

Σὺν τάχει πρόσω πάλιν τε,

Τοὺς ἂν ἀλλήλων ἐρώντων,

Πίστεως λόγους κομίίζοι.

Πλὴν λιχνεύματ’ ἂν μεθείην,

Ὀπτὰ κρέα θ’ ἱρέως ἔγωγε

Μᾶλλον, ἢ τἀνδρὸς λαθοίμην,

Τοῦπερ ἐν θέρει δαμέντος,

Ἐν κρύει κατεκράτησα.

J. Spongberg

Professor Linguæ Græcæ

TRADUCÇÕES LITTERAES.

I.
ALLEMAN.

Oh! wenn mein Geliebter[29] kommen würde,

Der früher gesehene, wenn er erschiene (erscheinen würde):

Sogleich würde ich einen Kuss auf seinen Mund drücken,[30]

Auch wenn er (der Mund) mit Wolfsblut besudelt[31] wäre!

Seine Hand würde ich zugleich auch warm (herzlich) fassen,[32]

Wenn auch eine Schlange sich um seine Finger schlängelt!

Ach! wenn der Wind Verstand hätte,[33]

Der frische Lenzeshauche, wenn er einer Sprache mächtig wäre:[34]

Ein Wort würde er hinbringen,[35] ein Wort würde er zurückbringen;

Mit Nachrichten würde er schnell eilen[36]

Zwischen zwei Liebenden.—

Lieber verschmähe ich die kostbarsten Speisen,[37]

Vergesse lieber den Braten auf des Priesters Tische,[38]

Als dass ich meines Herzens Geliebten verlasse,

Den, welchen ich im Sommer mir ergeben machte[39]

Den, welchen ich im Winter (an mich) befestigte.[40]

NOTAS DE RODAPÉ:

[29] Eigentl.: mein Bekannter.

[30] Ganz wörtlich: ihm den Mund ich sogleich hinhalten würde, d. h. ihn küssen

[31] Ganz wörtl.: wäre auch sein Mund in Wolfsblut, d. h. wäre er mit Wolfsblut befleckt.

[32] Wörtlicher: ich würde ihm einen leichten Handschlag geben.

[33] Ganz wörtlich: wäre der Wind als Verstand-besitzend.

[34] Oder: wäre als sprachmächtig.

[35] Eigentl.: holen.

[36] Ganz wörtl.: ein Wort zur Genüge, würde er (der Wind, der Hauch) in Bewegung bringen (rege machen), d. h. würde er wechselweise bringen zwischen, etc. (Dieser Vers ist, wie man sieht, an Geist und Sinn, nur ein Parallelism zu dem nächst vorangehenden. Solche findet man nicht selten in der finnischen Runen-Dichtung.)

[37] Oberhaupt: Herrenessen.

[38] Ganz wörtl.: des Pfarrhauses Braten (Plur.) ich lieber vergesse.

[39] Oder: mir anlockte, d. h. machte dass er sich an mich schloss.

[40] Oder: bändigte, d. h. nach meinem Sinne lenkte.

II.
INGLEZA.

Oh! If my beloved[41] would come,

The before seen, if he would appear;

Instantly I should press a kiss on his mouth,[42]

Even though it (the mouth) were stained with the blood of a wolf.[43]

His hand I should at the same time warmly (cordially) seize,[44]

Even though a snake wound round his fingers!

Oh! if the wind had understanding,[45]

The fresh zephyrs of the spring, if they were capable of speech:

A word they would bring hither,[46] a word they would return,

With intelligence they would quickly hasten[47]

Between two lovers.—

I should sooner give up the nicest dishes[48],

Forget rather the roast-meat on the priest’s table[49]

Than I forsake my dear beloved,

Him, whom in the summer I made attached to me,[50]

Him, whom in the winter I captivated.[51]

NOTAS DE RODAPÉ:

[41] Or: intimate; properly: well-known.

[42] Literally: to him I should instantly offer my mouth, that is to say: kiss him.

[43] Quite literally: even though his mouth were in the blood of a wolf; that is to say: if it were besmeared with the blood of a wolf.

[44] More literally: I should give him a light squeezing of the hand.

[45] Quite literally: if the wind were as if possessing understanding.

[46] Properly: fetch.

[47] Literally: a word which were sufficient, they (the winds, the zephyrs) would set a-going, that is to say: they would alternatively bring between, etc (This verse forms, as it appears, in sense and thought, a parallelism with the preceeding verse. Such are not seldom met with in the Finlandian rune-poetry)

[48] Very-near: the gentlemen’s (the lord’s) meat.

[49] Quite literally: forget rather the roast-meats of the priest’s house.

[50] Or: attracted to me, that is to say: caused him to become attached to me.

[51] Or: tamed, that is to say: made him submit to my mind or will.

III.
LATINA

O, si ille familiaris meus veniret,

Antea visus mihi appareret!

Statim ei os porrigerem,[52]

Etiamsi esset (os) lupi cruore maculatum.[53]

Manum ejus calide[54] premerem,

Etiamsi anguis digitos cingeret.[55]

O! si ventus esset mente praeditus,[56]

Si flamen[57] veris alacre[58] linguae esset potens;

Verbum huc ferret, verbum referret,[59]

Nuntium vicissim motu ageret[60]

Inter duos amantes.—

Rejiciam potius lautissimas cupedias,

Quin carnis assae de mensa presbyteri[61] obliviscar,

Quam meum ex corde amatum deseram;

Quem aestate mihi deditum reddidi,[62]

Quem hieme satis mansuefeci.[63]

NOTAS DE RODAPÉ:

[52] Eum mox oscularer.

[53] Proprie: etiam si in lupi cruore os esset, i. e. etiamsi lupi cruor in ore ejus esset.

[54] Proprie: facile.

[55] Proprie: etiamsi anguis in extrema manu (esset).

[56] Sive: O, si ventui esset intellectus!

[57] Sive: aura.

[58] Recreans.

[59] Sive: verbum adduceret, verbum reportaret.

[60] Proprie: verbum plus quam sufficiens in motum ageret (moveret).

[61] Proprie: de villa presbyteri, i. e. quae in villa presbyteri solet esse Carnis assae frusta presbyteri mensae apposita.

[62] Sive: quem aestate ita tractavi, ut ea mihi dederet.

[63] Sive: quem hieme ita tractavi, ut mihi obediret.

IV.
FRANCEZA.

Ah! si mon bien-aimè[64] voulait venir,

Celui que je voyais jadis, voulût-il reparaître!

A l’instant je presserais un baiser sur sa bouche,[65]

Si même elle était tachée de sang de loup.[66]

Je saisirais ardemment sa main[67]

Quand même un serpent fût roulé autour de ses doigts.

Oh! si le vent avait de la raison,[68]

La fraiche haleine du printemps, si elle savait une langue;

Elle irait chercher un mot, un mot elle rapporterait;

Vite elle se hâterait avec des nouvelles[69]

Entre deux amants.—

Plutôt je me passerais des mets les plus delicats,[70]

J’oublierais plutôt le rôti sur la table du pasteur,[71]

Que je n’abandonne le chéri de mon cœur,

Celui qu’en été je m’attachai,[72]

Celui que j’enchainai pendant l’hiver.[73]

NOTAS DE RODAPÉ:

[64] Proprement dit: mon bien-connu.

[65] Littéralement: je lui tendrais à l’instant la bouche, c’est á-dire: je le baiserais.

[66] Tout-á-fait littér.: fût même sa bouche dans le sang d’un loup, c.-a-d.: fût-elle souillée de sang de loup.

[67] Plus littér.: je lui donnerais un liger serrement de main.

[68] Tout-á-fait littér.: si le vent était possédant de la raison.

[69] Plus littér.: un mot, qui suffirait déjà, elle le mettrait en mouvement, c.-a-d.: elle le porterait alternativement entre, etc. (Ce vers ne forme, comme il le parait, qu’un parallélisme d’esprit et de pensée avec le vers précèdent; on en trouve souvent dans la poésie runique finoise).

[70] A peuprés: nourriture des Messieurs.

[71] Tout-á-fait littér: j’oublierais plutôt des rôtis du presbytère.

[72] Ou: attirai vers moi, c.-a-d.: fis qu’il s’attacha à moi.

[73] Ou: apprivoisai, c.-a-d. que je fis plier à ma volonté.

NOTAS.

NOTAS
ÁS FÁBULAS E CONTOS.

Nota A.

Um tal poeta lá da tua terra

Que faz Orientes e baptiza Gamas pag 36.

Este verso, e um soneto, que é o X na collecção do presente vol., são as duas unicas debilidades em que cahi mostrando má vontade satyrica ao bem conhecido Padre José Augustinho de Macedo, homem de estudo e talento, mas o mais atrabiliario escriptor que ainda creio que tivesse a lingua portugueza. O rancor que toda a vida professou a quantos professaram as lettras no seu tempo, uma inveja impropria de talento tam verdadeiramente superior, o arrastou a desvarios que deslustraram o seu nome e mancharam a sua fama. Nem o furioso e sanguinario que foi em seu partido, nem a perseguição politica de que a mim proprio me fez victima, poderam mover-me a desacatar n’elle o homem de lettras que todavia honro ainda. Sei que no A. do RETRATTO DE VENUS, no redactor principal do PORTUGUEZ, elle perseguia principalmente o ainda mais odioso A. do poema CAMÕES. Todas as suas offensas porém foram só politicas; litterariamente não me aggravou jamais. Perdoe-lhe Deus como lhe perdoei sempre. A posteridade não lhe perdoará decerto a sua stulla rivalidade com o A. dos LUSIADAS: foi a essa que os versos annotados alludiram. Queimava-os se fôra a outra coisa. Metter as lettras nas nossas questões politicas e nas mesquinhas e soezes paixões individuaes que d’ellas nascem, é para a baixa villania dos insultadores publicos, despreziveis rans do charco stagnado da intriga que nem siquer para si coaxam, mas para quem os faz coaxar por sua conta.

Nota B.

Conto academico pag. [42].

Este conto é uma verdadeira gaiatice de estudante de Coimbra que despede chufas á direita e á esquerda como pancadas de cego. Se o diccionario da nossa academia ficou no azzurrar, a collecção de suas preciosas memórias cantou bem alto e sonoro: muito receio que fôsse cantar de cysne!

Nota C.

O famoso direito de accrescer pag. [61].

O direito de accrescer é o que em qualquer sociedade resulta ao todo dos socios da renúncia tacita ou expressa que de seu quinhão faz um d’elles. No meu primeiro anno da Universidade era a explicação d’este romanismo um dos pontos mais graves do curso de direito.

Nota D.

O menino e a cobra. pag. [65].

É imitação ésta fábula de uma composição alleman do seculo passado, não me lembro de que auctor.

Nota E.

A Saude e a Medicina. pag. [69]

Imitação, e quasi traducção em muita parte, da fábula de Pignotti do mesmo nome.

Nota F.

Fui prêso por Verdeaes pag. [79].

Até a côr das fardas dos archeiros da Universidade mudaram os fomentadores de 1834-5. Dizem que os pintaram de azul! Não tenho ânimo de ir a Coimbra, nem olhos com que tal veja. Os verdeaes azues! Que reforma!

Nota G.

O Casquilho. pag. [88].

Imitação de um apologo ingles, cujo auctor me não lembra tambem.

AOS SONETOS.

Nota A.

A certa tragedia pag. [110].

Vej. a [nota A das Fábulas].

ÁS FOLHAS CAHIDAS.

Nota A.

Coquette dos prados pag. [171].

A palavra coquette não é portugueza. Mas não ha remedio senão acceitá-la e dar-lhe a carta de naturalização desde que a coisa se afforou tanto entre nós.

Nota B.

Voz e aroma. pag. [219].

Parece-me, e quero confessá-lo, que estes versos são uma reminiscencia de Lamartine.

Nota C.

No Lumiar. pag [239].

Tinha promettido estes versos sôbre a visita de Mrs. Northon ao Lumiar, ha tres para quatro annos, ao nosso commum amigo S. de L. Perdoe-me elle se tam tarde cumpro a minha prometa.—Dezembro. 1851.

Nota D.

O Tejo. pag. [256].

O Sr. Conde de Camburzano, secretario da Legação de Sardenha em Lisboa, foi aqui mui pouco conhecido da nossa sociedade, nem o sería com vantagem, porque dançar e jogar, jogar e dançar, de verão e de hynverno, nossa occupação exclusiva e unica, não podia ser a de um homem de forte pensar e de vehemente sentir.

Manda-lhe aqui éstas saudades um dos poucos Portuguezes que tiveram a fortuna de o conhecer.

Nota E.

Deixo ao cura os seus assados. pag. [264].

Este pequeno poema foi-me enviado de Stockolmo pelo illustre litterato o Sr. Zetterquist, com as traducções poeticas e litteraes que publíco junctamente com o texto, e que me serviram para fazer a traducção portugueza que com tanta instancia me pediram. Veio tudo acompanhado da seguinte explicação em Francez, que aqui ponho textualmente tambem para melhor esclarecimento do assumpto:

REMARQUES DIVERSES SUR CETTE RUNA FINOISE[74]

Ce petit poème, que l’on peut appeler une réminiscence de l’état d’innocence primitive des peuples et des langues, fut composé il y a peut-être quelques siècles, par une jeune paysanne finoise. Comme le chant l’indique, elle parait avoir eu un amant auquel elle avait donné son cœur et son premier amour, mais qui, plus tard, pour une cause quelconque, l’abandonna, malgré les promesses de mariage qu’il avait jurées à sa fiancée. Une circonstance pareille n’a jamais été et ne sera jamais rien d’extraordinaire: c’est, nonobstant, le thème de ce chant si simple. Simple, il est vrai; mais il ne manque pas pour cela d’originalité, ni même de poésie, pareil en cela, du reste, à tous les vieux et sublimes chants nationaux du Nord. Je pourrais même à cet égard soutenir sans exagération que celui qui nos occupe est l’un des plus beaux produits de la poésie populaire. Où trouver, par exemple, une pensée plus sublime que celle de la seconde stance, où cette Sapho, quoique n’étant pourtant pas de Lesbos, donne sous l’inspiration du moment, l’essor aux brûlants sentiments de son cœur: “Oh! si le vent était douè de raison, et la fraîche haleine du printemps, si elle savait une langue: ils porteraient alors un mot d’amour et le rapporteraient entre deux amants.” Mais que l’on n’oublie pas non plus que c’est l’amour, chez cette poète toute d’inspiration naturelle, née et grandie dans un pays de forêts couvertes de neiges et de glaces, qui lui a mis sur les lèvres ces paroles d’une si douce poésie. Quant à la 3ème ou dernière stance, il me semble aussi nécessaire d’y fixer l’attention plus spéciale du lecteur. On pourrait, par aventure, regarder comme une espèce d’étrangeté les expressions suivantes: “Plutôt je me passerais des mets les plus délicats, j’oublierais plutôt le rôti sur la table du pasteur, que je n’abandonne le chéri de mon cœur.” Pour celui qui ne connaît pas les particularités caractéristiques des paysans findandais, et leur appréciation des choses, une image ou un objet concret pareil au rôti sur la table du pasteur, pourrait paraître quelque chose d’étonnant en poésie: mais cette pensée ou cette image ne présente par contre rien d’étonnant, lorsque l’on est initié à la vie nationale de la Finlande, et surtout, si l’on sait quelle profonde vénération les paysans finois avaient jadis pour leur prêtre, pour leur instituteur religieux; mais outre cette saint vénération, qui touchait presque à une adoration mystique, ils donnaient à ses biens matériels une valeur et leur montraient un respect non moins grands. La jeune fille, inspirée par le dieu de l’amour, n’aurait donc voulu pour les friandises les plus recherchées au monde, pas même pour les mets les plus délicats que la table du pasteur pût offrir, se départir de l’objet aimé. Cette strophe renferme aussi, en conséquence, une pensée tout aussi raisonnable que belle.—Et quoique ce petit morceau lyrique soit un modèle de style simple et naturel, il ne se fait, on vient de le voir, pas moins remarquer par un sentiment ardent, par sa force, et surtout par de ces images hardies comme des poètes plus exercés et plus instruits en cherchent en vain.

J’ose dans tous les cas espérer qu’on ne m’imputera raisonnablement pas à blâme, d’avoir, comme base de mon entreprise choisi de préférence ce simple chant antique, au lieu de prendre un morceau moderne d’une autre tendance. Un original de caractère religieux, n’aurait, par exemple, indubitablement pas convenu; d’autant plus que comme il s’agit ici d’obtenir le plus grand nombre possible de traductions, non seulement en langues écrites mais encore en idiomes provinciaux, le morceau que j’ai choisi me paraît plus que tout autre propre a conduire à ce résultat.

Si j’en viens maintenant au but même de mon travail, je crois pouvoir déclarer à ce sujet, qu’à tous égards, une collection polyglotte semblable doit indubitablement être fort intéressante pour les personnes possédant des connaissances philologiques plus ou moins grandes, et surtout pour celles qui s’occupent de linguistique comparée, Un résultat pareil dépend naturellement de la fidélité, de l’exactitude qui sera apportée à chaque traduction. L’on ne doit, en conséquence, pas considérer cette entreprise comme une affaire de curiosité, ni comme un simple amusement, mais comme un travail utile, autant que possible, pour l’histoire générale des langues.

Sous le point de vue de la réunion d’un si grand nombre de traductions, tant en dialectes qu’en langues écrites mortes et vivantes, elles seront rangées en ordre systématique basé sur leurs origines et leurs affinités. Le nombre d’idiomes dont cette carte philologique se composera, dépendra naturellement de la quantité de traductions que j’obtiendrai. Cependant, me fondant sur la bienveillance dont j’ai déjà été l’objet pendant le cours de quelques années, j’ose espérer que la collection se composera d’environ 200 ou 300 idiomes, dont je possède déjà un nombre assez considérable. Cet ouvrage sera encore augmenté de quelques appendices de musique, et d’une introduction philologico-historique. Ensuite, les traductions seront autant que possible imprimées avec les caractères particuliers à chaque langue.

Enfin, que l’on me permette d’ajouter au sujet de cette Runa finoise, qu’avant moi déjà, diverses personnes l’ont remarquée avec intérêt; je dois nommer entr’autres le Conseiller d’État suédois S. E. Mr. A. F. de Skjöldebrand, lequel publia en 1810 à Stockholm une magnifique collection de gravures sur la Suède, la Finlande et la Laponie, suivie d’une description en langue française, et portant le titre de: “Voyage pittoresque au Cap Nord.” La Runa que j’ai choisie se trouve dans cet ouvrage, tant en original, qu’en traduction française en prose. L’auteur y annonce qu’elle lui fut communiquée par Fr. Mich. Franzén (alors professeur à l’Academie d’Abo) comme un des meilleurs échantillons de la poésie runique finoise, et l’un des plus propres à montrer à quel riche degré la nation finoise possède l’inspiration poétique. Mais la langue finoise est aussi sous le point de vue grammatical singulièrement flexible, elle est surtout fort mélodieuse, ce que lui donne une certaine ressemblance avec le Grec antique.

A peu près vers le même temps que l’ouvrage de Mr. de Skjöldebrand, apparut en Anglais, d’un certain Joseph Arcebi, une description de Voyage en Suède, en en Finlande et en Laponie, dans laquelle se trouve aussi la même Runa, en traduction anglaise, faite toutefois assez librement. Cette description de Voyage, fort intéressante, a été traduite en Français et en Allemand. Mais ces deux auteurs ne son pas les seuls: le célèbre poète allemand Göethe a fait aussi de ce chant une traduction imprimée dans ses: «Poetische und Prosaische Werke

QUELQUES INDICATIONS PARTICULIÈRES POUR LES TRADUCTEURS DE CE CHANT.

1.º MM. les traducteurs voudront bien suivre, aussi fidèlement que possible, l’une des trois traductions verbales ci-dessous. 2.º Quant aux idiomes dans lesquels il serait difficile et peut-être même impossible de faire des traductions en vers, l’on devra, dans un tel cas, se contenter de les faire en prose, plutôt que de n’en point faire du tout. Je désire toutefois que ces traductions soient en vers blancs (non-rimés), como les trois traductions verbales. 3.º Si le traducteur voulait communiquer quelques explications grammaticales sous forme de notes, elles seraient reçues avec la plus grande reconnaissance. 4.º De même, si quelqu’un voulait se charger, en cas que ce fût possible, de procurer de la musique à l’une des traductions; ce serait aussi une chose que je désirerais volontiers. 5.º MM. les traducteurs sont priés d’écrire leurs traductions aussi distinctement que possible, pour éviter les fautes typographiques qui pourraient s’y glisser. 6.º L’on ne doit pas oublier de traduire le titre: Chant d’une jeune paysanne finoise. 7.º Chaque traducteur voudra bien signer sa traduction.

C. G. ZETTERQUIST

NOTAS DE RODAPÉ:

[74] Runa est un mot finois qui signifie: Chanson. Les plus anciens caractères des peuples germaniques et scandinaves, qu’ils employaient surtout dans le style lapidaire, portent, comme l’on sait le nom de Runas, d’où le terme Runagraphie pour désigner ce genre d’écriture.

INDICE.

A quem ler pag. [V]
PRIMEIROS VERSOS [XXVII]
Advertencia [XXIX]
Fábulas e Contos [33]
I. Introducção [ib.]
II. Pelo zurro o burro [42]
III. Amor e vaidade [48]
IV. Esopo e o burro [59]
V. O menino e a cobra [65]
VI. A saude e a medicina [69]
VII. O gallego e o diabo [78]
VIII. O casquilho (janota) [88]
IX. Os amantes generosos [92]
Sonetos [99]
I. Porfia d’amor [101]
II. Camões náufrago [102]
III. A uma feia com linda voz [103]
IV. Suffoque as íras, calle e sinta e gema [104]
V. É dos olhos gentis da minha amada [105]
VI. Nas froixas, debeis azas da saudade [106]
VII. O Campo de Sanct’Anna [107]
VIII. Virtude sem prazer não é virtude [108]
IX. A flor sêcca [109]
X. A certa tragedia [110]
XI. Maria e Carolina [111]
XII. Saudade [112]
Ultimos Versos pag. [113]
Dos Editores [115]
Advertencia [116]
Folhas Cahidas [123]
Livro Primeiro [ib.]
I. Ignoto Deo [ib.]
II. Adeus [126]
III. Quando eu sonhava [132]
IV. Aquella noite [134]
V. O anjo cahido [142]
VI. O album [145]
VII. Saudades [148]
VIII. Este inferno de amar [151]
IX. Destino [153]
X. Gôso e dor [155]
XI. Perfume da rosa [157]
XII. Rosa sem espinhos [160]
XIII. Rosa pallida [162]
XIV. Flor de ventura [166]
XV. Bella d’amor [169]
XVI. Os cinco sentidos [171]
XVII. Rosa e lirio [173]
XVIII. Coquette dos prados [177]
XIX. Cascaes [179]
XX. Estes sitios [184]
XXI. Não te amo [187]
XXII. Não es tu [190]
XXIII. Belleza [193]
XXIV. Anjo es [196]
XXV. Vibora [199]
Livro Segundo [201]
I. Barca bella [ib.]
II. A Coroa [203]
III. Sina [205]
IV. Ai Helena [208]
V. A rosa—um suspiro pag. [210]
VI. Retratto [212]
VII. Lucinda [213]
VIII. As duas rosas [215]
IX. Voz e aroma [219]
X. Seus olhos [221]
XI. A Délia [223]
XII. A joven americana [224]
XIII. Adeus, mãe! [228]
XIV. Ave Maria [232]
XV. Os exilados [234]
XVI. Preito [237]
XVII. No Lumiar [239]
XVIII. A um amigo [246]
XIX. Os Lusiadas [248]
XX. O Tejo [256]
XXI. Canção da donzella finlandeza [264]
Notas [273]