OBRAS
DO
V. DE ALMEIDA-GARRETT
XXI
O RETRATO DE VENUS
E
ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA
OBRAS LITTERARIAS
DO
VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT
THEATRO:
TOMO I—Catão.
» II—Merope, Gil Vicente.
» III—Frei Luiz de Sousa.
» IV—D. Philippa de Vilhena.
» V—A Sobrinha do Marquez, As prophecias do Bandarra, Um noivado no Dáfundo.
» VI—O Alfageme de Santarem.
VERSOS:
Camões.
D. Branca.
Lyrica.
Fabula, Folhas cahidas.
Flores sem fructo.
Romanceiro, 3 vol.
O Retrato de Venus.
PROSA:
Viagens na minha terra, 2 vol.
O Arco de Sanct’Anna, 2 vol.
Portugal na Balança da Europa.
Da Educação.
Helena (romance).
Discursos parlamentares e Memorias biographicas.
Escriptos diversos.
O RETRATO DE VENUS
E
ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA
PELO
VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT
Terceira edição
PORTO
Ernesto Chardron, Editor
1884
Porto: 1884—Typ. de A. J. da Silva Teixeira
62, Rua da Cancella Velha, 62
O RETRATO DE VENUS
ADVERTENCIA
Fui sempre muito pouco amigo de dar satisfações. Porém ésta minha repugnancia não é filha de presumpção, nem de orgulho. De todo o meu coração o digo, e todos os que me conhecem, o sabem. Nascem da persuasão, em que estou, de que a justificação d’uma cousa está na maneira por que essa cousa se faz. E applicando ésta generalidade ás composições litterarias, cada vez me convenço mais que os prologos, prefacios, avisos a leitores, etc. nada fazem, nem fizeram, nem farão nunca ao conceito que da obra se fórma.
E principio foi este, por que na faxada do meu poema não puz tal ceremonia. Revendo-o porem agora, examinando este Ensaio, e conhecendo-lhe infindos defeitos, que me tinham escapado; sendo-me impossivel emenda-los; resolvo-me a dar satisfação; não para pretender justifica-los, e salvar-me da crítica com subtilezas, e argucias; mas para fazer confissão pública d’elles.
Se me é licito porem dizer duas palavras em meu abono, direi que tanto o poema, como as notas, e ensaio são da minha infancia poetica; são compostos na idade de dezasette annos. Isto não é impostura: sobejas pessoas ha hi, que m’o viram começar, e acabar então. É certo que desde esse tempo ategora, em que conto quasi vinte e dous, por tres vezes o tenho corrigido; e até submettido á censura de pessoas doutas, e de conhecida philologia, como foi o Excellentissimo Senhor S. Luiz, que me honrou a mim, e a este opusculo com suas correcções. Mas todos estes cuidados não puderam (emquanto a mim) tirar-lhe o vicio do nascimento.
Eis aqui a minha confissão geral. Os que me absolverem ficar-lhes-hei muito obrigado; os que não quizerem, paciencia; não me mato por isso. Comecei esta obrinha por desenfado: acabei-a por divertimento: publico-a por amor das artes: se me criticarem, rio-me, e não fico mal com ninguem.
O RETRATO DE VENUS
POEMA
.... while it pursues
Things unnattempted yet in prose, or rhyme.
Milt. Parad. loste: book I. V. 15.
CANTO PRIMEIRO
Doce mãe do universo, ó Natureza,
Alma origem do ser, germe da vida,
Tu, que matizas de verdor mimoso
Na estação do prazer o monte, o prado,
E á voz fagueira de celeste gôso
De multimodos entes reproduzes
A variada existencia, e lh’a prolongas;
Que, no fluido immenso legislando,
Libras sem conto ponderosos mundos,
Que na ellipse invariavel rotam fixos,
Ó alma do universo, ó Natureza,
Teus sacros penetraes em vôo ardido
Busco, rasgo-lhe o véo, prescruto, e vejo
Insondaveis mysterios: puro, e simples
Nunca ouvidas canções na lyra entôo.
Nua d’enfeites vãos a face amena
Tu volve ao mundo, que te ignora errado.
Qual és, qual foste, qual te apura os mimos
A arte engenhosa, tu lhe amostra e ensina.
Como é dado aos mortaes bellezas tuas
C’o divino pincel, co’as magas tintas
Estremar com primor, colher-lhe o bejo,
Sem donosas ficções meu canto ensine.
Ficções!... E aureas ficções desdenha o sabio?
A douta, a mestra antiguidade o diga.
Não; fabula gentil, volve a meus versos;
Orna-me a lyra c’os festões de rosas,
Que ás margens colhes da Castalia pura:
Flores, que outr’ora de Epicuro ao vate
C’o austero assumpto lhe entrançaste amenas,
Essas no canto me desparze agora.
Venus, Venus gentil! Mais doce, e meigo
Soa este nome, ó Natureza augusta.
Amores, graças, revoae-lhe emtorno,
Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos;
Que inflamma os corações, que as almas rende.
Vem, ó Cypria formosa, oh! vem do Olympo,
Vem c’um mago surrir, c’um terno bejo
Fazer-me vate, endeusar-me a lyra.
E quanto pódes c’um surriso, ó Venus!
Jove, que empunhe o temeroso raio;
Neptuno as ondas tempestuoso agite;
Torvo Sumano desenfreie as furias...
Se dos olhos gentis, dos labios meigos
Desprender um surriso a Idalia deusa,
Rendido é Jove, o mar, o Averno, o Olympo.
Mas quanto é bello, é grato o vencimento,
Se á dor suave do pungir fagueiro,
Da ferida se encontra amigo balsamo,
E nos olhos da linda vencedora
Do ardimento o perdão brando se accolhe!
Tu, Marte, o dize, o Cyprio moço, o Teucro;
E vós, que ousais na terra imitar numes,
Que do summo prazer rompendo arcanos,
N’um momento gosais da eternidade.
Emquanto nas lidadas officinas,
Forjando o raio vingador dos numes,
Vive o coxo marido sem receios,
Ja deslembrado da traidora rede;
Do Cynireo mancebo entre os abraços,
Jaz a espôsa gentil ennamorada.
Nas languidas pupillas lhe transluze
O prazer divinal, que a opprime, e anceia;
Nos inflammados bejos, nas caricias,
No palpitar do seio voluptuoso,
No lascivo apertar dos braços niveos,
Nos olhos, em que a luz quasi se extingue,
Na interrompida voz, que balbucia,
Nos derradeiros ais, que desfalecem...
Quem do prazer não reconhece a deusa
No excesso do prazer quasi espirando?
Surri-lhe ao lado o filho de travesso,
E d’entre o myrtho as candidas pombinhas
C’o estremecido arrulho a dona imitam.
Ah! se o gôsto supremo a um deus não peja,
Porquê mesquinhas leis nos vedam barbaras
Tam suave pecar, doce delicto,
Antes virtude, que natura ensina!
Dest’arte as breves horas decorriam
Aos alheados, férvidos amantes;
E vezes tres rotára o disco argenteo
Trivia gentil, semque no Olympo, ou Lemnos
A espôsa de Vulcano apparecesse.
Ja na etherea mansão vagos juizos
Maliciosos forma a inveja, a intriga;
E surriso maligno ás deusas todas,
Do marido infeliz excita o fado.
Em zelosa vingança affana e freme
O despeitoso Marte; corre, voa,
E em busca da infiel vagueia o mundo.
Coxeando o segue o malfadado espôso,
Dos antigos errores esquecido:
Tal é, paixão zelosa, o teu imperio!
Eis do somno d’amor espavoridos,
Os dous amantes c’o ruido accordam.
De pavor esmorece o joven timido;
Por elle anceia a carinhosa amante,
Descuidosa de si; geme, soluça.
E do amado na dor, sua dor recresce.
Que fará?... vacillante... Adonis... Marte...
O espôso... Ideias, que alma lhe confundem!
Com o amante ficar, morrer com elle?
Defender com seu peito o peito amado?
E salval-o é possivel d’esta sorte?
Deixa-lo?... Fera ideia!... Ir as suspeitas
Dos numes dissipar com sua presença?
Que! deixa-lo! o seu bem! Venus a Adonis!
Tanto não póde a mesma divindade.
Mas este só lhe resta unico meio:
É forçoso: comsigo ao carro o sobe;
Voa a Paphos, e ás Graças lisongeiras
O precioso pinhor saudosa entrega,
Que n’um basto rosal mimoso o guardem,
Velem sempre por elle, té que aos deuses
Se esvaeça o furor. Subito ao Olympo,
Composto o vulto, serenando os olhos,
N’um momento chegou: mago atractivo
Que lhe spira dos labios, das pupillas,
Do todo encantador, odios, suspeitas
Desfaz, esquece em animos divinos:
Tam pouco, ó bellas, persuadir-nos, custa!
Arde voltar ao suspirado asylo;
Mas teme a vejam desconfiados olhos;
E em tanto Adonis geme, e o seu tormento
Mais que o proprio penar lhe punge n’alma.
Disenhos volve... Alfim um lhe suscita
Novo a mente engenhosa: ei-lo abraçado.
Jaz muito alem do tormentorio cabo,
(Sempiterno brasão da Lusa gloria)
Em não sabido mar, jamais sulcado,
Ilha aprazivel, deliciosa, e breve.
A mão dos homens destruidora, e barbara,
Mimos da creação não lhe estragára.
A seu grado crescia o bosque, a selva;
Vecejava sem leis o prado ameno;
D’alvas pedrinhas pelo leito amigo
Se espreguiçava o crystalino arroio,
Sem temer que impia dextra ouse perversa,
No brando curso interromper-lhe as aguas.
Prêsas não gemem fugitivas Nayas,
Nem Dryades gentis feridas choram:
Sem arte a natureza era inda a mesma.
No mais escuro do copado bosque
Ternas suspiram maviosas rôlas;
E em mais alegres sons, prazer mais ledo,
A meiga ave d’amor no arrulho exprime.
Outro vivente algum a aura fagueira
Não ousa respirar. Silencio eterno
Impera na soidão, dobra-lhe encantos.
Tam suave mansão nem mesmo os numes
No ceo conhecem. Da ternura a deusa,
Só Venus sabe do recanto ameno.
Tu, do universo creador principio,
Venus! oh mãe d’amor, oh mãe de tudo!
Que amor é tudo, que só tu com elle,
Ambos creastes e regeis o mundo,
Que a natureza sois, ou ella é vossa:
Cypria, Cypria gentil, pódes acaso
Ignorar uma só das obras tuas?
«Mãe, (lhe diz, entre alegre e malicioso,
Mas compassivo, o filho), «nessa ignota
«Ilha do Indico mar...»—Um doce bejo
O concelho pagou.—Subito parte.
Lá chega; e nova se difunde a vida
Na solitaria estancia; em novos germes
O deleite, o prazer renascem, pulam.
Quam doces d’antemão gosou delicias
A mui fagueira deusa! O sitio ameno
Extasiada contempla. «Oh! quam ditosos
(Clamou) «seremos! Ignorado, occulto,
Ó doce amante, viverás sem medo.
Aqui, no seio da ventura e gôso,
Nos meus braços...» Parou suspensa, e geme:
Cruel lembrança lhe assomou na mente;
Agros deveres, perfidas suspeitas,
Quantas vezes do amante hão de aparta-la!
Suspira: as rosas do prazer se esvaem
Das lindas faces niveas. Pensativa,
Melancolica, e triste... (Eis fausto agouro!)
Estremecido arrulho alvas pombinhas
Deram á sestra mão. Ah! sim: é elle:
Amor, apoz a mãe, veio ajuda-la.
«Filho (co’a voz lhe diz, que impera em Jove,
Que tam suave rege a natureza),
«Tu me feriste; não accuso o golpe:
Amo, adoro esse ferro, que me punge,
Que na chaga, que abriu, doçura entorna;
Só quero, só te peço (que não peja
De implorar-te soccorro a mãe ferida)
Derradeira mercê: oh! deixa um pouco
D’humanos corações facil conquista:
Cesse qualquer amor quando ama Venus.
A culta Europa rapido discorre,
E a progenie d’Apollo, almos, divinos,
Os pintores me traze aqui n’um ponto.
Pasmou c’o rôgo inesperado o numen:
A causa inquire. «Ah! não: (lhe torna a deusa)
Não cumpre ainda revelar-t’a, ó filho;
Cubra o véo do mysterio o doce intento.»
Mal disse: e o raio mais veloz não rue
Da rubra dextra do Tonante irado,
Do que a tuba dos candidos amores
Á voz da deusa fende os ares liquidos.
Quaes voam de Minerva ao sabio clima,
Hoje torpe, e servil c’o bruto imperio:
Quaes á augusta senhora do universo;
Senhora, emquanto Roma era inda Roma:
Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco:
Á formosa Bolonha, á gran Veneza;
Grande emquanto reinou sobre o Oceano:
Quaes á suberba Gallia, á Iberia, a Lysia;
Que de Lysia tambem, tam cara ás musas,
Da poesia a rival, a irman tem filhos.
De toda a parte a obedecer contentes
Correm ao mando de Cyprina bella,
Da natura em despeito, homens creadores,
Prometheus, que á materia informe e bruta
C’o divino pincel dão fórma, e vida;
Erguem da campa gerações extinctas;
Plantam copados, que enfloream, bosques;
Co’a viva historia os homens eternisam;
E, fitando no ceo audazes vistas,
Aos pasmados sentidos apresentam
Visivel, sem rebuço a divindade.
Da fertil em prodigios, d’alta Grecia
O pae d’arte divina, Apelles marcha,
Thimante, Zeuxis, e Parrhasio, e quantos
A culta Grecia, a deliciosa Roma
Famosos produziu em sec’los d’ouro.
Cimabúe famoso apoz caminha,
Que as esfriadas cinzas animando
Do engenho, do talento, o faxo vívido
Fez na Europa brilhar, e abriu de novo
O caminho gentil da natureza
Do barbaro furor fechado, ha muito.
Aos golpes crebros, incessantes, duros
Da ferrea mão do avaro despotismo,
Sem fôrças, sem vigor jazia, ha muito,
A misera Bysancio. Em surda guerra
Fallaz superstição d’infames bonzos,
Fanatismo cruel, bifronte, e iniquo,
Hypocrisia vil, perfida e dobre,
Ruina infausta lhe apressava, e morte.
Ávidos sorvos de Roman cubiça,
Da Latina ambição, riquezas, pompa
Roubado haviam insaciaveis, féros
De Constantino á côrte. Espessa nuvem
De negros vicios, de perversos crimes
Pousou medonha sobre os tristes netos
Degenerados, vis d’um povo illustre.
Crestadas, sêcas pelo sôpro ardente
Da tyrannia atroz definham, morrem
Apesinhadas as virtudes candidas;
Ao cûmulo chegou desdita, opprobrio
Dos fados teus, ó Grecia. Eis ante as portas
Da famosa cidade, audaz, suberbo
Musulmano feroz, Mahomet se ostenta.
Monstros, que o sangue do mesquinho povo
Impios bebestes, ah! tremei, que é elle:
Austero açoite das celestes iras
Sobre vós descarrega a mão divina.
Bonzos, no centro aos claustros profanados
Embalde a frente d’horridas maldades
Carregada escondeis: lá vai, lá chega;
Sobre as aras d’um deus, a um deus, que ousastes,
Incençando-o, offender, lá vos immola.
Artes, sciencias, a guarida extrema,
Perdeste’-a em fim: voltai, fugí; que Hesperia
Os carinhosos braços vos estende.
Ei-las: oh! folga, venturosa Europa.
Lá cai a pouco e pouco em terra o throno
Da barbara ignorancia: as trevas do êrro
Vai accossando da verdade o faxo.
Arte divina, magica pintura,
Foragida tambem, thesouros, mimos
Vens espalhar na mui ditosa Italia.
Italia! oh! folga: Raphaeis ja pulam.
FIM DO CANTO PRIMEIRO
CANTO SEGUNDO
Mas eis, distinctos esquadrões formando,
As escholas assomam; reina entre ellas
Vivaz emulação, que gera os sabios:
Vão-lhe na frente os affamados chefes,
Que a patria honraram c’o pincel divino.
No bello antigo modelando as graças,
Que em mais sabio pincel, mais bellas surgem,
A frente airosa sobre erguendo ás outras,
Vem tribu excelsa dos Romãos pintores.
Deram-lhe o grau supremo ardua sciencia
Das attitudes, d’expressão, verdade,
De audaz composição, nobre elegancia,
O correcto desenho, e puro, e grave,
E quanto inspira Apollo ás almas grandes,
Em extasi sublime altas ideias.
É filho seu (que mais sobeja glória!)
Raphael, o divino, o mestre, o numen
Da moderna pintura, eterno brilho,
Que os Apelles offusca, e Roma, e Grecia;
Que, as barreiras transpondo á natureza,
Olhou de face a face a divindade,
E as glórias do Thabôr fez ver ao Tybre,
E aos d’arte amantes desejar com Pedro
Junto ao prodigio habitação ditosa.[1]
Julio o mestre imitou, foi digno d’elle:
Forte, ardida expressão lhe anima os traços,
Que ás proficuas lições dão glória e lustre.
Em cêrca aos muros da gentil Parthénope,
Onde aprimora a natureza os mimos,
E a voz do creador soou mais bella,
Onde, entre montes de sulphureas cinzas,
Umas sobre outras, as cidades jazem,
E a rôdo os d’atro fogo horridos rios
A poeticas ficções dão ser terrivel;
Alli, silencio eterno ergueu severo
Religiosa mansão; firmou-lhe as bases
Austera, descarnada penitencia.
Sobre as azas do ingenho, á voz d’um numen,
Vigoroso, expressivo Spanholeto,
Lá foste, e a assomos do pincel terrivel
Em longas vestes surgem, pulam, vivem
Fatidicos anciãos; ás portas velam
Da estancia outr’ora silenciosa, e sancta.
E quando atroz, hypocrita veneno,
Lavrando a furto sob o sacco, e cinza,
Os muros profanou, que ergueu virtude,
Inda no mesto panno afflictos suam;
E a gloria do pintor fulge entre o crime.[2]
Fostes, como elle, heroes da arte divina,
Polidoro gentil, vivaz Fattore,
Saliente Caravaggio, que exprimiste,
Senão bella, fiel a natureza.
Nobre, altivo Cortona, quanto vivem
Scenas famosas da nascente Roma!
Nas mães trementes, pallidas filhinhas,
Ve como a mesma dôr redobra encantos!
E o fero aspeito dos Quirinos Martes,
Onde a furto da glória amor scintilla!
Ah! proximo o prazer vai dar ao mundo
Prodigios de valor, extremos d’honra,
Prole Romana... Eis o universo em ferros.[3]
Amavel, terno Sacchi, a ti surriram
Do mago cinto de Erycina as graças;
Meigos, suaves dons te esparzem n’alma,
Que nos quadros gentis reflectem doces.
Belligero Cerquozzi avulta aos olhos
Brandir no panno, lampejar mil ferros,
E aos roucos sons da sanguinosa guerra,
Entre as phalanges baralhadas rôtas,
Entre abysmos d’horror alçar-se a morte.[4]
Quam magos fulgem divinaes, sublimes,
Maratti encantador, facil Giordano,
Mimoso Dolce, e vós, que á nova Roma
Ingenhos tantos, insondaveis, grandes,
Por guerreiros tropheos, suberbos róstros,
Triumphos cem do ovante Capitolio,
Dais, se menos viril, menos heroico,
Ornamento gentil, belleza, encantos.
Ja de acurvados reis não brilha o fasto
Da escravidão contentes; não se antolha
Em cada senador um nume, um Jove.
Ja nas praças, nos templos não campeiam
Os despojos do mundo; o Circo, o Fóro,
Prodigios d’arte, da opulencia, e luxo,
Da barbara ignorancia ás mãos cederam.
Cheio de Livio o viajante absorto
Não ve do Capitolio a frente erguida
Torreada avultar com ferros cento,
Não ve povo d’heroes girar-lhe entôrno;
Da inesp’rada mudança pasma, e geme,
E no centro de Roma a Roma busca.
Porem, se amiga mão lhe guia os passos,
Se o Vaticano e mil prodigios nota,
Que do antigo explendor moderam fama;
Então Roma conhece, então venera
Nobres resquicios de gloriosos évos.
Taes da moderna Roma os filhos iam
Por travesso menino conduzidos;
E d’altiva belleza ornada a frente,
A magestosa, Florentina eschola
De perto os segue: no atrevido ensejo
Parece disputar-lhe o grau supremo.
Co’a sublime expressão, desenho ardido,
Gigantesca maneira, audaz, mas bella,
Se antolha ennobrecer a natureza.
Brandas graças d’amor, ternura, encantos
Feroz desdenha; só lhe avulta á mente
O nobre, a pompa da ideal grandeza.
Não foi sobre o Synai mais formidavel,
Que d’Angelo entre as mãos, Moysés terrivel;
Nem lá no extremo, derradeiro dia
Julgamento final será mais horrido.
C’o deus, que o peito vos perturba, anceia,
Mais pavorosas não rugís, Sibylas.
Da mão nervosa cada traço é raio,
Que espanta os olhos, que deslumbra a mente;
Que enxofrado clarão, medonhas larvas
Em todo o horror do Averno ostenta horrivel;
Que, se um deus pinta, é do castigo o numen,
Que em longa geração pune um só crime,
O deus, que no deserto, entre os relampagos,
Entre o rouco estampido das trombetas,
Pela voz do trovão legisla ao mundo.
Eis, desdobrando hydraulicos segredos,
E as mechanicas leis com sabia dextra
Movendo a seu sabor, á glória sua,
Vinci tam caro aos reis, de o ser tam digno,
Seu correcto, purissimo desenho,
Engenhoso compor o eleva aos astros,
Aos astros, onde fôra em vôo ardido
Os pinceis escolher, buscar as tintas,
Com que d’ultima ceia debuxára
Amor, transportes, mysteriosas scenas.
Ah! gire o teu prodigio o mundo inteiro;
E de grado a razão cede ao mysterio.
Côres roubando á natureza, e mimos,
Bello como ella, o inimitavel Porta
Ao gelado silencio de ermo claustro
Chamou das nove irmans o chôro arguto.
Urbino o conheceu; e o sceptro augusto
Curvou ante elle; e, confundindo os raios,
Os dous d’alma pintura astros brilhantes,
Sem negro eclypse, scintillaram juntos.
Vens, ó Sarto, apoz elle, ameno, e brando;
Vens, Peruzzi gentil, fertil Pantorma,
Que ao nobre assômo do pincel nervoso,
C’o doce encanto das mimosas tintas
Fizeste a Raphael, a Buonarrotti
D’arte a coroa estremecer na frente.
Sec’los famosos d’Alexandre, e Augusto
Na Italia renovou macio Allori;
E as meigas cores do pincel Lombardo
Quasi Ciogli usurpára ao grão Corregio.
Ah! veda a musa, e pequenez do ingenho
Seguir-vos todos, divinaes pintores:
Segura a fama vossa alteia a frente,
E o vate ao longe vos contempla os vôos.
Gentil Bolonha, que na Europa barbara
O faxo das sciencias accendeste,
Que o Gothico stupor tiraste ás artes,
E as cinzas da virtude apesinhadas
Por sanctos crimes de sagrados monstros
C’um Benedicto consolaste em Roma,
Eis vem dignos de ti, teus sabios filhos,
Numerosa familia, antiga e nobre,
Que o mel das graças delibando férvida
Em quantas flores produzíra Apollo,
Nobre desenho modelou no antigo,
Á natura usurpou vivaz belleza,
E o mago, o puro dos gentis contornos,
A verdade, a expressão, o rico d’ordem,
E o colorido inimitavel, bello,
Que emparelha com a arte a natureza.
Assim brilhou divino o gran Corregio,
Assim Francia gentil, assim Mantegna,
E Bolognese vigoroso, e forte;
E tu, que o terno amor, e seus encantos,
Simplices graças da natura virgem,
Da innocencia infantil o mimo, os jogos,
As singelas beldades exprimiste
No mavioso pincel, mavioso Albano.
Nem deslembre de Guido a fertil mente,
Talento universal, vago, mas bello...
C’a expressão de Zampieri ordem, nobreza,
Ve d’Agnese gentil a ardua constancia
Como os p’rigos desdenha, e ve risonha
Ja do ferro do algoz pender-lhe a morte.
Ferino aspeito dos ministros barbaros,
Da augusta religião viril triumpho
Aos engolfados olhos se apresenta,
E, arrebatando o esp’rito a deus, ao vate,
Um prodigio a prodigios amontoa.
Ve Guerccino tambem, que ora nervoso,
Ora sombrio, e fero, e terno outr’ora,
Mas sempre encantador, em cada rasgo
C’um portento de mais a arte enriquece.
Qual vira a Palestina o pae dos crentes[5]
De fe, de submissão dar nobre exemplo;
Tal vive no pincel, tal inda avulta
Co’as veneraveis cans, e honrado aspeito.
Misero velho! desgraçado infante!
Que! tu mesmo, infeliz! co’a mão paterna
Hasde cortar-lhe o fio á tenra vida,
Unica esp’rança de cançados annos,
De mui doces promessas? Como... ai triste!
Oh! como voltará sem elle á tenda?
Com que olhos fitará maternos olhos?
Com que voz lhe dirá?... Mas parte: e a dextra
Ja, ja quasi... Suspende: um deus o ordena;
Um deus é pae tambem: suspende o crime:
São leis da natureza as leis divinas;
Em premio da tua fe recebe o filho.
Ah! se ao nome Lombardo é pouco tanto;
Eis triplice ornamento á patria, ao mundo,
Doutos Caraccis, que o divino ingenho,
Ou co’a dextra gentil ornando a Italia,
Ou dando á juventude almos preceitos
Da arte formosa, perpetuando-a aos évos,
Nova, estremada lhe augmentáram glória.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] A transfiguração de Raphael.
[2] Quadros dos prophetas por Spanholeto, na Cartucha de Napoles.
[3] O roubo das Sabinas por Cortona.
[4] Pintor de batalhas.
[5] O sacrificio de Isach, quadro famoso de Guerccino.
FIM DO CANTO SEGUNDO
CANTO TERCEIRO
Musa, deixemos a mansão terrestre,
Sobre o infido elemento estende os vôos.
Eis sobre as ondas c’o pincel divino
Maga pintura, legislando ás vagas,
Enfreia as iras de Neptuno indomito.
Ve d’Adria o gôlpho tempestuoso, e fero
Á voz da liberdade agrilhoado.
Surge do seio das domadas aguas
A cidade gentil: pasmou de ve-la,
E corou de vergonha a natureza.
E a mão do creador, ao ver confusos,
Baralhados antigos elementos,
Se ao homem, que os trocou, não dera a vida,
Quasi, quasi um rival temêra nelle.
Alli, fugindo aos clamorosos brados,
Ao jugo, á servidão da tyrannia,
Homens, poucos, mas homens, começaram
Com ância a defender sacros direitos.
Emporio foi depois do rico Oriente,
E do alado leão tremeu gran tempo
O atrevido colosso Mussulmano.
Hoje (ideias de dor, lembrança amarga!)
Da poppa olhando o navegante ao longe:
«Veneza aquella foi»—exclama, e geme;
E segue a esteira das cortadas ondas.
Veneza foi: compridas, longas eras
Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios;
E as dadivosas musas lhe outorgaram
Egregios filhos, que o talento, as vidas
Á formosa sciencia consagraram;
Que imitando fieis a natureza,
Olhos seduzem, e deleitam alma,
Que nos toques graciosos, na belleza
Da gentil invenção, doce magia
Do claro-escuro, rico invento d’arte,
Aos mais sabios pinceis não cedem nada.
Deusa, acode á avidez, que o vate enleia,
Fere nas cordas da estremada lyra
Dos famosos varões o nome e os dotes:
Dize a Ticiano, dize quaes natura
Lhe entornou dadivosa encantos simples,
Que, ou arte ignoram, ou subtis a escondem;
Ja d’humanas feições transsumpto exacto,
Ja co’as nativas côres exprimindo
No ingenhoso pincel tudo o que existe.
Adriades gentís, oh! vinde, as frentes
Coroadas de dor, na campa avara
Humido pranto derramar saudoso!
Ai do triste mancebo! o fado iniquo,
Só por chora-lo, o concedêra ao mundo!
Oh! com quanta expressão, nobre altiveza
Castel-franco brilhou, fulgiu mais que homem!
E tam breve lhe deu a sorte a vida!
E no fuso cruel a Parca dura
Um fio tam gentil fiou tam curto!
Oh! suspendei as lagrimas formosas:
Longa carreira os ceos marcaram próvidos
Aos dous Bellinis, venerandos chefes
Da nomeada eschola; á glória vossa
Vivem padrões eternos; Piombo illustre,
Que a fama ousou balancear d’Urbino;
Pordenone inventor, de quem Ticiano
Temeu roubadas as divinas côres;
Completo Palma, a quem mostrou natura
Sempre formoso o variado aspeito;
Animado Bassano verdadeiro;
Fertil, e vivo Tintoreto rapido;
E tu, Paulo gentil, delicias, mimo
Dos voluptuosos olhos da donzella;
(Mui grato enlêvo do insoffrido amante)
Qual Verona folgou com seu Catullo,
Tal comtigo: mil graças, mil encantos
Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera
Nua de pompas vans, a natureza:
Seu renome inda vive; e o teu com elle,
Emque lhe péze á inveja, e seus furores,
Hade eterno brilhar. Assim raivosas,
Frustradas gralhas invejosas grasnam
Á ave olympia de Jove; e entanto os vôos
Ella ao sol remontando, as mofa, e burla.
Porem mais longe da rinhosa Hesperia
Voltemos a attenção: ve como em Flandres,
Scena outr’ora infeliz da glória Franca,
Da Cypria deusa demandando a estancia
Vai turba immensa dos rivaes d’Italia.
As graças naturaes, singellas, puras
Á porfia a accompanham: não se enfeita
Por suas mãos a simples natureza:
Em loução desalinho bella, e nua
Mimos lhe outorga, que ella só conhece,
Que a vós é dado só, magos pintores,
Com arte ignota do universo ao resto
No pincel exprimir fiel, divino.
Prodigios fallem de Van-Eick famoso,
Do correcto, vivaz, firme Duréro;
Dize-o por todos; se inda alguem no mundo
Ignora tanto, que te ignore os dotes;
Fertil, brilhante, verdadeiro Rubens.
Rubens! Oh nome! Ó filhas de Memoria,
Vós, que no Pindo entre o verdor mimoso
Lhe bafejastes divinal espirito,
Quando, librado sobre as azas d’ouro
De sublime, elevada allegoria,
Viu, pintou... Ah! fez mais: creou, deu vida
A chymericos entes, vãos, mas bellos,
Que o vivo imaginar lhe debuxara.
Quam doce, e meiga a enternecida Venus
Com suspiros, com ais, com ternos bejos
Tenta a furia applacar, retter nos braços
Gradivo impaciente! Olha do monstro
O torvo gesto, o faxo sanguinoso...
Ella!... a guerra cruel! a horrivel frente
Co’a máscara da glória esconde ao numen,
E o veneno lethal lhe infunde n’alma.
Lá baqueia de Jano o templo augusto;
As artes, as sciencias calca o monstro;
E a d’auradas espigas, rubros pomos
Gentil coroa á agricultura arranca.
Ternura, horror, assolação, belleza
Com portentosa mão juntaste, ó Rubens.[6]
Quam bello é na expressão Vaén correcto!
Hólbein sublime, vigoroso, nobre!
Van-Rin saliente, harmonioso, e doce!
Quam firme é Wanderwérff singello, e puro!
E tu, mimoso Van-Dernér, que em Gnido
Bebeste as graças, possuiste os risos.
Ah! ja cançada se me affrouxa a lyra:
Rouca, e sem voz mal associa ás cordas
Difficeis nomes de estremados mestres.
Um por tantos direi; e o nome illustre
Te baste, ó Flandria, a coroar-te a gloria:
O bello, o simples, verdadeiro, e grande,
Do mestre a obra maior, Vandick insigne.
Mas, qual ruido, que tumulto, ó musas,
Do Pindo a sacra paz impio disturba?
Quanto vivem!... Que heroes da patria raios!
Armas! guerra! o furor! o sangue! a morte!
Destrôço! horror! assolações! ruinas!
Eis dos Alpes franqueado o gêlo eterno;
Nada resiste: c’o rugido extremo
Baqueia exangue de Pyrene a fera.
Co’a Europeia ruina Africa nuta,
Asia treme; e nas praias de Colombo
A fugitiva liberdade apporta.
A longes terras se accolheu Minerva,
Sem rumo as artes desgrenhadas fogem,
A Roma de Catão, d’Augusto a Roma
Não é de Pio a effeminada côrte;
E em vez d’um Fabio tardador, d’um Quincio,
D’um Bruto, um Manlio; prostituta prole
No deshonrado Capitolio avulta.
Quem, bellezas d’Italia, hade amparar-vos?
Quem!... Animos cobrai; volvei sem medo
Artes, sciencias: já no Sena ovante
O proprio vencedor no seio amigo
Vos accolhe, e accarinha, e no alto alcaçar
Augusto solio perenal vos ergue.
No Sena ovante (oh do porvir assombro!)
Em quanto os filhos seus, terror do mundo,
Raios desferem, que o universo atterram;
Renasce mais gentil, vive mais fúlgido
O sec’lo de Luiz; succede á velha,
Á pedante Sorbona, almo Instituto.
Eis novos Raphaeis, arte divina!
Não lamentes Poussin, Gallia ditosa,
De Mignard, e Blanchard divinas côres,
De Lebrun a expressão, fieis costumes,
Paizagens de Lorrain, maga ternura
Do voluptuoso, encantador Santerre,
Grandioso stylo do vivaz Subleyras:
Teus modernos heroes excedem tudo;
E ao seio da opulencia amamentados,
Á voz da glória redobrando exforços,
Talvez irão com denodado arrôjo
Do solio d’arte derribar a Italia.
Se, entre barbaras mãos gemendo outr’ora,
Devêste a Belisario a vida, ó Roma;
Se das furias crueis d’horrida guerra
O juramento te isentou d’Horacios;
Se quanto foste em gloriosas quadras
A um necessario roubo, á paz, que o segue,
Ao ferro audaz de Romulo devêste;[7]
Treme d’elles agora, treme, ó Roma;
Que no heroico pincel David illustre
As cinzas lhe animou; marcham por elle
Tua fama a conquistar, roubar teus louros:
De Urbino, e Buonarrotti o throno prostram;
Eis campeia David!—Não longe d’elle
O terno Girodet, suave, e brando,
Que, do Meschacebeu vingando as margens,
C’o vate insigne emparelhou nos vôos,
E na pasmada Europa ergueu d’Americo
As pomposas florestas, e a nobreza,
Ornamento feroz d’um mundo virgem:
Que os encantos d’amor, e os seus furores,
O podêr da virtude, e os seus exforços
Dignos d’elle exprimiu, e fez de novo
Olhos sensiveis afogar em pranto.
Eis á voz de Gérard das campas rompem
Extinctas gerações: Saturno as azas
Indignado encolheu, e a prêsa antiga
Viu roubar-lh’a o pincel, quebrar-lhe os éllos
Da impreterivel, perenal cadeia.
Ruge fremente o mar, bramindo, e ronca
Nas oucas rocas, nas quebradas fragas
Do tormentorio mar... Lá se ergue ingente,
E immenso troa o colossal gigante.
Treme d’entôrno o mar, e a terra, e o mundo;
E a voz, que os polos com fragor desloca,
Pela primeira vez á gente Lusa
Pallida imprime a sensação do medo.
Só impavido, um só, Vasco lhe arrosta:
Pasma a ousadia d’um mortal a um nume.
Oh lagrimas d’Ignez, sangue innocente,
Correi, correi do milagroso panno;
E em lagrimas de sangue o applauso eterno
Aos vates recebei, aos vates ambos.
Oh Gérard! oh Camões! qual mão divina
Vos uniu, vos juntou? Oh! folga, ó patria!
E tu, Sousa immortal, grata homenagem
Recebe eterna da mui grata Elysia.[8]
Ve nas mãos de Guérin qual geme e anceia
Pincel, que hervou na dor, que embebe em pranto,
Que incestos, crimes (de Trezena horrores)
C’o Euripides Francez disputa ainda.
Quem de pavor, de compaixão não gela
Ao ver nas murchas, esmyrradas faces
Da bella ainda, miseranda Phedra
Surgir do panno, que as conter mal póde,
D’um criminoso amor, violencia, e fogo?[9]
Guerreira a mente de Vernet fulmina
Os raios de Mavorte, o horror das armas;
E sobre os quadros de Le-Gros famoso
Os manes folgam de Rollin, Voltaire.
Mas tanta glória inda não basta, ó Francos,
Para o completo, universal triumpho:
Que no Ibero pincel inda refulge
O nome de Ribera, o de Murillo,
E duvida d’Albion mosqueada fera,
Vaidosa d’West, conceder-te a palma;
Inda lhes guardam justiçosas musas
No bifido Parnaso um grau distincto.
Assim quando no ceu, callada a noute,
Candida brilha sup’rior Diana,
Se com menos fulgor, astros com tudo,
Gentis avultam nitidas estrellas.
NOTAS DE RODAPÉ:
[6] Quadro allegorico da guerra por R.
[7] Quadros celebres de David.
[8] Celebres pinturas de Gérard na edição dos Lusiadas pelo Sr. José Maria de Sousa.
[9] Pinturas de Guérin tiradas de Racine.
FIM DO CANTO TERCEIRO
CANTO QUARTO
Eia! colhamos as cançadas vélas,
Musa: o filhinho da amorosa Venus
Ja pelos ares liquidos se entranha,
E ledo corre co’as donosas tribus
Dos illustres rivaes da natureza.
Da Europa toda ja voaram férvidos
Da voz ennamorada ao som fagueiro,
Só Lysia falta... A minha Lysia, ó Venus!
A patria dos heroes, a mãe dos vates,
A patria de Camões, do teu Filinto!
Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes
Sempre em teu nome resoou na lyra!
Onde a teu culto, mais que em Roma, ou Grecia,
Em cada coração se eleva um templo!
Lysia, de Venus esqueceram filhos!
Ah! volve os olhos immortaes, divinos,
Aos seculos remotos; ve no Tejo
Como entre as sombras da ignorancia Gothica
Brilham nas trevas Lusitanas tintas;
Ve do gran Manoel na épocha d’ouro
Sobre as bellas irmans como se eleva
A divinal pintura; ve mais perto,
Em quanto geme c’o ferrenho jugo
A flor, a augusta das nações princeza,
Erguer das ruinas sobranceira a frente;
E alfim nas quadras que marcara o fado
Ao brio Lusitano extremo exforço;
Calcando a juba de Leões gryfanhos,
Parando ás Aguias remontados voos,
Como á porfia sobre o Tejo e Douro
Apelles mil e mil revivem, fulgem;
Brilha o Luso pincel... Ah! se aura amiga
Continúa a soprar... Não; ferrea pésa
A mão do despotismo, opprime, esmaga,
Destroe renovos das mimosas artes.
Mas qual ouço confuso borborinho!
E sois vós! Ah! perdoa, alma Erycina:
O teu povo fiel tu bem conheces;
Nem chama-lo cumpria: é-lhe sagrada,
Inviolavel lei um teu desejo.
Ei-lo corre: que luz, que ethereo brilho
De louro e rosas lhe engrinalda as frentes!
Olha entre a nevoa de allongados évos,
De atroz barbaridade embrutecidos,
Como Alvaro rebrilha, um Nuno, um Annes,
E do energico Vasco a fertil mente;
E Duarte, e Gomes tam famosos ambos,
Tam caros ao gran rei, Manoel ditoso.
Ve do illustre Resende a mão facunda,
Trocando a penna, que mandara aos évos
Os feitos dignos de perenne historia,
Pelo arguto pincel; o sabio Carlos,
Que ao divino Correggio usurpa as cores;
Dias, que á patria transportara ovante
O mel, e as graças dos famosos mestres;
Harmonioso Christovão, claro Sanches,
Que os monarchas d’Europa inteira vira
D’honras, de bens, accumulá-lo anciosos.
Eis sobre as azas de elevado arrojo
Vinga altivo Campello o cume erguido
Dos montes de Judá. La surge, e avulta
No mysterioso panno um deus, um homem.
Pasmou a natureza ao ver confusos
No seio maternal o pae e o filho.
Mago pintor lhe renovou prodigios;
E aos tormentos d’um deus tremeu de novo
A longa serie dos criados mundos.[10]
Sensiveis corações, vinde espelhar-vos
Nos ternos quadros, que sagrou virtude;
Vinde á sombra do vate, ao seio augusto
Da sancta religião, da mãe caroavel
De humanas afflições verter o pranto:
Vinde; e entre a dor vos surgirão prazeres,
Prazeres do Christão, doçuras d’alma.
Quanta glória Fernando ao sabio mestre,
Quantos louros grangeou! Lopes sublime
Juntou d’Urbino aos expressivos rasgos
A ardideza gentil d’Angelo altivo.
Vasques douto, e regrado os traços mede
No exacto petipé da natureza.
E tu, Leonor, d’entre a nobreza e fasto,
Origens sempre de brutal inercia,
Soubeste ás artes levantar o espirito.
Qual do Luso pincel nos fastos vive.
Hollanda creador! Deusas do Pindo,
Eis novo esmêro vosso, invento novo!
Vastos arcanos da pintura se abrem,
Accumulam-se a rodo almos tesouros;
Graças lhe admira o árbitro da Europa,
E na boca dos reis louvores fulgem.
Hollanda venturoso! Ah! de tuas ditas
Taes as menores são: mais déste ás musas,
Mais a ti, ao teu nome, á patria, ao mundo
No filho, o grande filho, a glória nossa,
Mimo ao patrio pincel do numen louro.
Cedendo á voz d’um deus, que o chama a nome,
O Cicero Africano erros abjura;
Sancto prelado o omnipotente invoca,
E d’agua exulta candido Agustinho.
Portento d’expressão, viva faisca
Do lume eterno, que lhe ardeu na mente.
Vate!... Ah! não vate: um anjo, um deus te guia,
Move o arguto pincel na sabia dextra.
Do Olympo eis surge a magestade, a pompa;
Olha d’Ambrosio o venerando aspeito,
Os olhos, onde em goso alma trasborda,
D’Agustinho a humildade, e o gesto vívido,
Onde a força transluz d’activa mente,
Da eloquencia viríl, saber profundo.[11]
Pereira natural, severo e forte
O terrivel pincel por entre ruinas,
Entre chammas e horror meneia ardido.
De novo a cinzas reduzida Troia
Por elle foi; por elle Pyrro ingente
C’o faxo assolador vagou por Illion.
Antolha ouvir-se em pavidos lamentos
O confuso ulular da mãe, que espira,
E no extremo bocejo aperta os filhos,
Do pae tremente, que a rugosa face
Entre o seio da filha esconde, e geme,
E quizera morrer no doce amplexo.
O crepitar das estridentes chammas,
O baquear dos templos, dos palacios,
E quantas vozes de terror, d’espanto,
Quantas scenas d’horror cantaram vates
Nas Gregas cordas, Mantuana lyra.[12]
Elementos, cedei-lhe ao mago encanto
Das vozes do pincel! Stridentes rompem
Com ruidoso estampido as cataratas;
Confunde a natureza a essencia, os termos,
Na face do universo impera a morte,
Mysterioso baixel ao longe avulta;
E de novo o castigo formidavel
Os olhos da razão cega d’espanto.[13]
Olha como apoz elle vem seguindo
Valle expressivo, delicado e grande,
Nobre Gonçalves, entendido e ornado,
Rebello audaz, o Buonarrotti Luso,
E as do patrio pincel divinas Saphos,
Ayalla, e Guadalupe, e Ritte, e Browne,
E Luiza gentil, que os sabios tempos
Ao Porto renovou da Grega Aspasia.
Fastoso monumento d’alta Iberia,
Voragem, golphão, que absorveste os rios
Do precioso metal, que a ti correram
Do Chily, e Potozi, das Indias duas,
Soberbo Escurial, onde se aninham,
Sob apparente sacco o vicio, o crime,
Tu de Claudio por mim celebra o nome,
Do Camões da pintura, a quem deveste
De teus ornatos o maior, mais bello.
Nem sorva o Lethes de confuso olvido
Victorino engraçado, André mimoso,
Verdadeiro Apparicio, simples Barros,
Vivaz Alexandrino, destro Senna,
Barreto original, brando Oliveira,
E tu, Rocha correcto, ameno e vívido,
Que obscuras scenas da marinha Pathmos,
E o confuso vêdor nos exprimiste.
Olhos em alvo, mysteriosos seguem
Prophetico furor, que o volve e agita.
Na dextra a penna mal segura fórma
Nunca entendidas, enredadas notas.[14]
Terra fertil d’heroes, solo fecundo,
Salve! Eis novo clarão, eis novos louros
Sobre a frente gentil pululam, vivem!
Eis do patrio esplendor eterna gloria,
Raios de Lysia, que a remotas praias,
Do magico pincel nas azas d’Iris
Levaram em triumpho o Tejo e Douro,
Dous Vieiras! Não ousa a minha lyra
Dotes brilhantes numerar nas cordas:
Assaz por meu silencio o dizem, cantam
Lysia, Hesperia, Britania, Europa, o mundo.
Dest’arte á voz da meiga Cytherea,
D’amor guiados, sobre as azas do éstro,
Rapidos voam num momento, e chegam:
Pasmam de vêr a face á natureza,
Tam bella e simples qual na infancia ao mundo;
Os bosques entram: no matiz do prado
Vão com delicia apascentando os olhos.
Eis outeiro gentil se eleva á dextra;
Sobre elle... Assombro quem já viu, que iguale
Dos illustres varões subito assombro?
Amor, o mesmo amor parou de espanto,
De maravilha subita cortado.
Sobre altas se ergue Doricas columnas
De fino jaspe cupula suberba.
Brilha c’o azul do ceo linda saphira
Nos capiteis, nas bases. Das cornijas
Scintilla em fogo do carbunculo a chamma.
Mimos, riquezas de pomposo fausto,
Quantas com larga mão semeou profusas
Nas entranhas da terra a natureza,
Na vastidão dos mares; tudo aos olhos
Extasiados se ostenta. Riu do encanto,
E a causa do prodigio amor conhece:
Entra; e apoz elle os estremados chefes.
Languidamente o braço repousado
Nos hombros niveos do formoso Adonis,
Ei-la ao encontro a deusa da ternura
Lhes sai, e assim lhes falla: «Ésta, que vêdes,
Consagrada ao prazer, mansão ditosa,
Ergueu á minha voz a natureza.
De per si se puliu, lavrou-se o marmor,
E se entalharam gemmas. N’um instante
Meu doce intento completado houvera,
Se o que vós só podeis, dar-lhe eu pudera.
Frio, e sem vida não me falla ao peito,
Não falla ao coração todo esse esmêro.
Oh! cortai-lhe a mudez, dai-lhe existencia,
E c’o mago pincel tornai-o á vida.»
Disse: e a divina voz do ouvido aos peitos
Chammas d’estro, e de ingenho accende aos vates;
E em breve espaço divinaes assomos
D’aqui, d’alli se apinham. Clio alteia
Com portentosa mão contados feitos;
Alem da natureza o vôo erguido
Alça a maga, gentil Alegoria;
Desalinhada, rustica beldade,
Singella, e pura a Paizagem doce
Sem mysterio, sem véo candida ostenta.
Ja vida é tudo; satisfeita a deusa
Vai alfim completar os seus intentos;
E c’um meigo surrir, c’um doce agrado,
Que vale tanto, que enamora tudo,
Assim lhes falla a carinhosa Venus:
«Vinde, ó filhos; que um nome tam suave
Vossos dotes merecem; vinde: e a empresa,
Que na mente revolvo, effeituai-me.
Não mando, peço... (Ah! d’uma bella o rogo
Quanto mais vale, que uma lei d’um nume!)
Retratai-me, ó pintores.» Nisto a deusa
O mimoso sendal, ja pouco avaro
Do thesouro, despiu. Quantas bellezas,
Que divinos encantos não descobrem,
Não pesquizam, não vem avidos olhos!
Sonhos da phantasia, ah! não sois nada!
Guindado imaginar, ideal belleza,
É frouxo o vôo, limitado o arrôjo;
Não tenteis franquear mysterios tantos.
Cai das mãos o pincel, sem que o percebam,
Aos pintores na vista embevecidos;
No Olympo os deuses, ignorando a causa,
De insolito prazer sentem banhar-se.
A natureza inteira revolveu-se;
Sonhada Pythagorica harmonia
Nas espheras soôu mais branda e doce.
Aos entes todos pelas veias lavra
O incentivo do gosto: gemem ternas,
Que ha pouco uivaram, pelo bosque as feras;
Arrulharam d’amor meigas pombinhas;
Correu á esposa o nadador salgado;
E nos olhos da amante leu ditoso
O constante amador perdão á culpa;
Á doce culpa tam querida e bella!
Ah! muitas vezes não descubras, Venus,
Magos encantos; ou verás que em breve
Á força de prazer se extingue o mundo.
Ja do extasi accordada um pouco a turba
Dos vates se prepara ao doce emprego.
Tintas fornece amor, pinceis as graças;
E eis no panno avultando a pouco e pouco
Assomos divinaes!... É ella... é Venus!
Eis a fórma gentil do corpo airoso
Salta, deslisa o fundo apavonado;
Roseos descurvam, se arredondam braços;
Ondeiam n’alva frente as tranças d’ebano;
Doce brilham d’amor os olhos meigos,
Os meigos olhos, que prazer scintillam,
Que o facho accendem dos desejos soffregos,
E contra o debil resistir do pejo
Do atrevido mancebo a audacia imploram.
Nas lindas faces purpureia a rosa,
Que insensivel esvai na côr de neve;
Surri nos labios o delirio, o encanto,
Que importuna razão tam doce affasta,
Que ávidos bejos, deliciosos, ternos,
Annuncios de prazer, mutuam fervidos.
Despontam no alvo, crystallino collo
Os arcanos d’amor, que anceiam d’elle,
Que a furto ousaste, mui ditoso Anchises,
Nas trevas do prazer palpar ardido;
Formosos pomos, que ao pastor Idalio
Pelo tam cubiçado outr’ora déste...
Déste; que bem o sei: (não te envergonhes)
Era pobre o pastor, e os seus thesouros
Juno lhe franqueou, seus mimos Pallas:
Sem troca tam gentil tu não vencêras.
Mas quanto voa nas mui sabias dextras
O divino pincel! Que eburneas fórmas
Voluptuosas surgir das tintas vejo!
Que exactas, lindas proporções esbeltas!
Que norma tam gentil as regra, as mede!
Ja, por milagre de Cyprina, é prompta
N’um momento a grande obra. Ei-los de novo
Á vista do retrato absortos, raptos,
E, novos Pygmaliões, por elle anceiam.
De transportada a deusa ao doce amante
Nas mãos a entrega; e: «Esta (lhe diz) conserva
Copia fiel da tua amada Venus.
Com ella, ausente, ó caro, te consola,
Quando longe de ti me retiverem
Crueis deveres, perfidas suspeitas.»
Admira o joven a belleza, as graças
Do mimoso traslado; beja, e rega
Com lagrimas d’amor qual um, qual outra.
Co’elle, em quanto viveu, sempre abraçado
As poucas horas, que ficava ausente,
Mitigava a saudade: e quando a morte
O mancebo infeliz roubou sem pejo,
No templo a deusa o collocou de Paphos,
E longas eras recebeu d’amantes
Ternas off’rendas, amorosos votos.
Alli, quando natura se empenhára
Em dar-te ao mundo, carinhosa Annalia,
Um e um copiou meigos encantos,
Que, ó minha Venus, te compõe, te adornam.
Alli, olhos no quadro, os teus formosos
Estremada rasgou; alli as faces
De neve, e rosas coloriu divinas;
Alli risonha boca, onde contino
Foi aninhar-se amor, te abriu mimosa;
Alli o collo d’alabastro puro;
Os lacteos pomos, que devoram bejos
Do faminto amador; lisas columnas,
Que sustentam avaras mil segredos;
Segredos, que... Perdoa: eis-me calado.
Volve a meus versos, compassiva amante,
Benignos olhos: para ti voando,
Da critica mordaz censuras fogem:
Se accolheres o rude offertamento,
Serão meus versos, como tu, divinos.
FIM DO ULTIMO CANTO
NOTAS DE RODAPÉ:
[10] Quadros da paixão de Ch. por Campello.
[11] Quadro do baptismo de S. Agustinho.
[12] Quadro da destruição de Troia.
[13] Quadro do diluvio.
[14] Quadro de S. João, escrevendo o Apocalypse.
NOTAS
Notas ao canto primeiro
«Alma origem do ser, germe da vida.»
..... Per te quoniam genus omne animantum
Concipitur, visitque exortum lumina solis;
......................................
....... tibi suaves dedala tellus
Summittit flores.
Lucret. de rer. nat. Lib. I.
«Que na ellipse invariavel rotam fixos.»
Todos sabem, que tal é a orbita, que todos os planetas descrevem.
«Qual és, qual foste, qual te appura os mimos
A arte engenhosa.»
Artes repertæ sunt, docente natura.
Cic. de leg. Lib. I, 8.
«Como é dado aos mortaes bellezas tuas.»
Platão, fallando da musica, diz: (De republ.) que se não deve conceituar pelo prazer, nem preferir a que não tem outro objecto, senão o prazer; mas a que em si contiver a similhança da bella natureza. Esta sentença é perfeitamente applicavel á pintura. E tal é d’ha muito a opinião de todos os rhetoricos e philologos. (Vid. Aristot., Le Batteux, Laharpe, Lemercier, etc.) Não nos enganemos porém com esta—natureza bella.—Nem só aquillo que tem bellas e lindas fórmas, é bello; e nem tudo aquillo, que as tem, o é. Boileau o declara manifestamente, e o prova:
Il n’est point de serpent, ni de monstre odieux,
Qui, par l’art imité, ne puisse plaire aux yeux.
D’un pinceau délicat l’artifice agréable
Du plus affreux objet fait un objet aimable.
Boileau: Art. Poet. Chant 3.
«A mestra, a sabia antiguidade o diga.»
Quid virtus, et quid sapientia possint
Utile proposuit nobis exemplar.
Horat. Ep. II, L. I.
......... Fabularum cur sit inventum genus,
Brevi docebo. Servitus obnoxia... etc.
Phoedr. Lib. III, prolog.
«Não: fabula gentil, volve a meus versos.»
......... Et, s’il est vrai, que la fable autrefois
Sut á tes fiers accents mêler sa douce voix;
Si sa main délicate orna ta tête altière;
Si son ombre embellit les traits de ta lumière,
Avec moi sur tes pas permets-lui de marcher.
Pour orner tes attraits, et non pour les cacher.
Voltaire: Henr. Chant I.
Cosia egro fanciul porgiamo aspersi
Di soave licor gl’orli del vaso, etc.
Tasso: Gerusalem Canto I, stanz. 3.
«....... O Cyprio moço, o Teucro.»
Adonis, filho de Cyniras, rei do Chypre (Cyprum) Anchises, Troiano etc.
Achises conjugio Veneris dignate superbo.
Virg. A En. Lib. 2.
«Em quanto nas lidadas officinas.M»
Retumbam nas lidadas officinas
Echos gostosos das nascentes almas,
Que novos corpos a habitar caminham.
Filint. Elys. Ode a Venus (Tom. 5).
«C’o estremecido arrulho a dona imitam.»
Presentem ja no estremecido arrulho
Os propinquos prazeres.
Filint. Elys. ibid.
«Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras
Tam suave pecar......»
Si il peccar è si dolce,
E’l non peccar si necessario; ò troppo
Imperfetta natura,
Che repugni ala legge!
O troppo dura legge,
Che la natura offendi!
Guarini: past fld.
Se este crime é tam doce,
Se tanto fugir delle é necessario;
Imperfeita parece a natureza,
Que fraca á lei repugna,
Ou lei muito severa,
Que a natureza offende.
Traducç. de Thom. Joaq. Gonzaga.
«E do amado na dor, sua dor recresce.»
Che l’esempio del dolore
È un stimolo maggiore,
Che richiama a sospirar.
Metastaz: Artass. atto I.
«Dos antigos errores esquecido.»
Errores é usado por Camões no sentido de—longas, e desvairadas viagens—; Ferreira porem, e outros classicos de igual nota o tomaram na mesma accepção, em que aqui se toma.
«Com o amante fugir, morrer com elle?»
Uma deusa não póde morrer: me diz ja algum critico, muito contente do quinau. Assim é, Sr. critico; mas no delirio das paixões quem se lembra da sua natureza?—Uma deusa com paixões!—Os deuses da mythologia, os numes dos Gregos, e Romanos não são o mesmo que o deus do philosopho (digno de tal nome) que, satisfeito de reconhecer a existencia d’um ente supremo, pára, onde se lhe acabam as forças, nem prosegue em investigações, onde se lhe apaga a luz da fraca razão; nem empresta á desconhecida causa das causas os habitos, as paixões, a fórma, e toda a natureza da fragil e apoucada humanidade. O orgulho de se occultar a si proprio a sua fraqueza, e de abaixar até á sua mesquinhez a idea de deus, por não poder subir até á altura d’ella, nasce da nossa vaidade, da nossa ignorancia e da nossa miseria. Por isso os theologos desbocadamente nos pintam, e nos querem fazer crer em um deus vingativo, irado, e capaz em fim de todos os crimes e vicios, que elles em sua alma alimentam e nos querem vender por virtudes.
«..... Comsigo ao carro o sobe.»
Subir é um verbo neutro; mas é este um idiotismo bem notavel da nossa lingua, usar de taes verbos com força activa, como o fazem os nossos classicos a cada passo.
«Que lhe spira dos labios, das pupillas.»
Aquelle não sei que,
Que spira não sei como,
Que invisivel sahindo, a vista o vê.
Camões: Ode 6.
Spirem suaves cheiros
De que se encha este ar todo.
Ferr. Castr. act.
«Arde voltar ao suspirado asylo.»
... Jamdudum errumpere nubem
Ardebant.
Virgil. AEneid. L. I. v. 580.
«Disenhos volve...........»
Esta palavra mui portugueza e antiga (embora de origem estrangeira) não é gallicismo; exprime bem o—dessein—francez, e tem por si a auctoridade d’um escriptor bem notavel e bem antigo, qual é Damião de Goes. (v. Chron. de D. Man. part. I, cap. 4, e passim).
«Que tam suave rege a natureza.»
......... Omnis natura animantium
Te sequitur cupide.
Lucret. Lib. I. v. 15.
«Mal disse; e o raio mais veloz não rue.»
Este verbo muito adoptado por Filinto Elysio, e pelo erudito traductor da lyrica de Horacio, Antonio Ribeiro dos Santos; e cujos compostos, e derivados ja tinhamos (correr, decorrer etc.) tem todas as qualidades necessarias para a sua naturalisação.
«Da rubra dextra do Tonante irado.»
........ Et rubente
Dextra sacras jaculatus arces
Terruit urbem.
Horat. Od. 2, Lib. I.
«Á voz da deusa fende os ares liquidos.»
......... Per liquidum aethera:
Virg. AEn. Lib. I.
«Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco.»
Florença na Toscana, ou antiga Etruria, dita mysteriosa em razão dos seus áugures.
«Á formosa Bolonha...»
De Bolonha conta Ganganeli (ou antes Carracioli) nas suas cartas, que um Portuguez, encantado de sua belleza, exclamara: «Não se devia mostrar senão ao domingo.»
«E fitando no ceo audazes vistas.»
Coelum ipsum petimus stultitia
Horat. Lib. II, Od.
«Aos golpes crebros, incessantes, duros.»
O imperio Grego acabou em 1448 pela morte do ultimo Constantino, e entrada de Mahomet II em Constantinopola, a cujos muros se limitava, ha muito, o vasto imperio Grego e Romano. Os horrores desta tomada de Cp., a immensidade de familias que fugiram para a Italia, e principalmente para Veneza, Genova e Florença, o adiantamento, que este successo causou ás sciencias e artes do occidente; são cousas sabidas de todo o mundo. (Vid. Anquétil: Précis de l’hist. univers. tom. 4, pag. 249, etc. e Chateaubriand: Génie du Christ. part. 3, liv. I).
Notas ao canto segundo
«Vão-lhe na frente os affamados chefes.»
Aquelles sam sós homens que se affamam.
Ferreir. Cart. 6, Liv. I.
«No bello antigo modelando as graças.»
O verbo modelar está geralmente adoptado mas que não seja antigo. Assim como de molde se fez, e deduziu moldar; de modelo se póde derivar modelar.
«Vem tribu excelsa de Romãos pintores.»
Gregos, Romãos, e toda a outra gente.
Ferreir. Cart. 3, Liv. I.
«E quanto inspira Apollo:......»
O fito que neste poema levei, foi simplesmente celebrar os louvores da pintura, e de seus principaes mestres. Sou apaixonado amador desta sublime poesia; contento-me de admirar; mas nunca dei a menor lapizada. A leitura, a observação curiosa, e exacta do pouco, que tenho visto, me deram os limitados conhecimentos, que em tam comprida materia possuo. Ideias vastas, ainda mesmo na historia só da pintura, apenas poderão ser o fructo de longos estudos, que a minha pouca idade, e mais sérias, mas que ennojosas occupações prohibem. Declaro pois que, se êrro encontrarem os professores, mui grata e grande mercê me farão de me avisar; e conhecerão pela minha docilidade na emenda a pouca presumpção do auctor.
«E aos d’arte amantes desejar com Pedro
Junto ao prodigio....»
Faciamus hic tria tabernacula.
Matth. Evang.
«Em cêrca aos muros da gentil Parthénope.»
Napoles, assim ditta antigamente de Parthénope, uma das sereias, que se enchêram de desesperação por não poder vencer Ulysses com o seu canto. Junto ao tumulo desta simideusa ou nympha se edificou uma cidade, que della tomou nome. Destruida ésta, se tornou em seu mesmo logar a edificar outra nova, dita Napoles (Neapolis—Νεαπὸλις—cidade nova) nome que inda hoje conserva.
«Umas sobre outras as cidades jazem.»
Pelos fins do seculo passado se descubriram nas visinhanças do Vesuvio as antigas cidades de Herculano e Pompeia. A cidade de Portici está quasi situada sobre a antiga Pompeia, que, assim como o Herculano, fôra submergida em uma explosão do Vesuvio.
«E a rôdo os d’atro fogo horridos rios.»
Nas grandes irrupções do Vesuvio corre do alto da montanha um, como rio, de fogo, que dá uma imagem das fingidas torrentes do sonhado Averno.—Virgilio, que de certo dos volcões de Napoles houve a idea do seu Phlegetonte, situou por aquelles logares os seus—Plutonia regna.—(Vid. Stael na Corin.)
«Inda no mesto panno afflictos súam.»
....... Sudant in marmore mœsto.
Sili. Ial. Lib. I.
«Saliente Caravaggio, que exprimiste.»
Saliente; porque as figuras de seus quadros tem um ar de relêvo, que engana. É necessaria metonymia, de que uso muitas vezes para caracterizar os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades.
«Ja de accurvados reis não brilha o fasto.»
O simples nome de Roma basta para fazer nascer uma infinidade de ideias grandes e de magestade. Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação póde crear, todas as sérias reflexões, que póde suscitar a razão, todas as memorias augustas, que a virtude e a humanidade podem fazer nascer, occorrem e borbulham associadamente na alma do homem pensador com a simples ideia de Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o patriotismo dos Fabios e Scevolas, a magnanimidade e valor dos Scipiões, a eloquencia dos Ciceros, o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos, a grandeza dos Trajannos, a humanidade dos Titos, tudo se recorda com a memoria illustre da cidade por excellencia.
Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia destas ideias, possuido de respeito e veneração, ao entrar em Roma.—Ruinas, sepulcros, templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas... são os miseraveis objectos, que lhe ferem os olhos, mui de longe preparados para admirar a senhora do universo. De espaço a espaço descobre (é verdade) um templo magnifico, um grande palacio; mas breve se desvanece este vislumbre de grandeza, e subito se esvai a nascente esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes palacios, estes templos, que se elevam do meio das choupanas (habitação da indigencia e da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados, serão acaso aquelles esmeros de architetura grande e magestosa, suberba e varonil dos edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se ao Fóro, ao Palacio, ao Amphitheatro? Descubrir-se-ha n’alguma d’estas modernas praças o menor vestigio dos Rostros? O Capitolio, o terrivel, o venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos das nações, onde os reis curvavam os sceptros, e depunham os diademas; d’onde sahiam os irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham da sorte dos povos, e legislavam ao universo, que é feito d’elle?—O solicito viajante ainda o descobre; o seu cicerone (guia) ainda lhe mostra o logar d’elle.—E será este?—Differente estrada conduz ao cimo do monte; o palacio do senador, alguns restos de quebradas estatuas, de desfigurados relevos são todas as riquezas, todos os tropheos, todos os despojos, que ornam o antigo alcaçar do mundo.
Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja a encarar nenhum edificio.—«Os habitantes ao menos (diz elle) talvez conservem alguma cousa ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza não podiam extinguir-se de todo.»—Um bando de miseraveis, uma plebe indigente, vil e sem costumes, são os successores do povo rei; uma côrte effeminada, e entregue aos deleites do ocio occupa o logar dos Brutos e Catões; declamadores sem gôsto, com affectadas e guindadas phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem retenir aquelle mesmo ar, que ouviu os eloquentes e numerosos sons de Cicero e Marco Antonio; assucarados trovadores infectam com os seus—concetti—a degradada lyra de Virgilio e Horacio; os Scipiões, os Emilios, os grandes generaes, as invenciveis tropas da triumphante republica são substituidas por um bando de assoldados Suissos, cujas grandes proesas e valor, cujos guerreiros exforços são o fazer a guarda do papa. Em vez do augusto e venerando senado, um ajuntamento d’homens ambiciosos, insaciaveis d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das nações, e deveres dos reis e povos pelas invariaveis leis da justiça, como os antigos conscriptos; mas o corpo invalido da igreja por elles arruinada e depravada, levando simplesmente o fito em pescar para a barca do humilde S. Pedro as riquezas das nações com o sagrado anzol das indulgencias, reliquias e breves.—«Roma! oh Roma! (exclamará o contristado viajante) tu ja não existes; a tua liberdade expirou em Catão, e tu com ella! A liberdade te conservava as virtudes, que, mais que tuas façanhas, te constituiram no imperio do orbe. Perdeste-a; e desde então caminhaste sempre com gigantescos passos ao abysmo de miseria e vileza, em que jazes sepultada para eterno exemplo do universo.
E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as nações! Florecem, reinam em quanto a liberdade, ou a larva della subsiste; apenas se eleva a tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das virtudes; a servidão embrutece o homem; a sociedade se muda em um rebanho de escravos; e a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma, assim Sparta, assim Hollanda, assim tantas outras. Que exemplos para os tyrannos, e que terrivel escarmento para os povos! Miseraveis despotas, embreve estendereis o sceptro de ferro sobre montões de ruinas. Os Vandalos, os Godos, os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais com tanta ancia![15]
NOTAS DE RODAPÉ:
[15] É facil de vêr que esta nota foi escripta antes do dia 24 d’Agosto. Felizmente ja se podem tratar estes assumptos com menos atrabilis.
Notas ao canto terceiro
«Enfrea as iras de Neptuno indomito.»
Imperio premit, et vinclis, et carcere frœnat.
Virg. AEn. Lib. I, v. 54.
«Ve d’Adria o golpho tempestuoso e fero.»
É o golpho de Veneza, antigamente chamado de Adria, ou Adriatico, d’uma cidade d’este nome.
«Alli, fugindo aos clamorosos brados.»
No meio do seculo V, foram destruidas por Attila, rei dos Hunos, as cidades de Aquilea, Altino, Concordia, Opitergo e Padua, todas visinhas ao golpho, então chamado Adriatico. Os habitantes destas cidades, fugindo ao furor irresistivel, e cruel ferocidade dos barbaros, se foram refugiar nas pequenas e desertas ilhotas do mar Adriatico, e fundaram assim o começo de Veneza. (Vid. Anquétil, Millot, e la Istoria de Vinegia per ***)
«Emporio foi depois do rico oriente.»
Antes que ha India fosse descuberta pelos Portuguezes, ha mayor parte da especiaria, droga, e pedraria se vazava pelo mar roxo, donde ya ter á cidade Dalexandria, e dalli ha compravão hos Venezianos, que a espalhaavão pela Europa.
Castanheda Lib. I, cap. 1.
«E do alado Leão tremeu gran tempo.»
Um leão com azas era o timbre, ou armas da republica, ou senhoria de Veneza.
«E segue a esteira das cortadas ondas.»
Esteira, ou esteiro, que assim, e indifferentemente escrevem e usam os nossos classicos, é aquelle sulco, que os navios vão fazendo e deixando depoz si nas aguas, e que bom espaço se conserva depois. Maior é talvez o numero das pessoas que sabem a simplicissima razão physica deste natural phenomeno, do que o das que o nome portuguez lhe conhecem.
«Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios.»
.......... All’ Adria in seno Un popolo d’eroi s’aduna......
Matest. Ezio: atto I.
«Adriades gentis, oh! vinde as frentes.»
Assim como de Tagus Latino fez Camões Tagides; e outros do Douro—Durius—Duriades etc.; quem me impede a mim, que de Adria, faça Adriades?
«Qual Verona folgou com seu Catullo.»
.......... Gaudet Verona Catullo, Pelignae dicar gloria gentis ego.
Ovid. Trist.
«......... Mil graças, mil encantos
Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera.»
Assim como Catullo, Paulo Veronese é notado de pouco honesto. Todos sabem a lascivia e voluptuosidade dos versos do primeiro: os quadros do segundo tem uma poesia d’este genero bem mais expressiva.
«Em que lhe peze á inveja, e seus furores.»
Eu, que apezar da inveja, e seus furores
Aos astros levo o nome Lusitano.
Elpin. Nonaer. Od. a Vasc. da Gam.
Em que lhe peze, e em que lhe pez são phrases dos melhores classicos: mil exemplos, por um, pudera appresentar; mas citarei o que tenho aqui mais á mão, que é o P. Vieira (Vozes saudosas: voz histor.)
«Scena outr’ora infeliz da gloria Franca.»
As provincias Flamengas foram um dos principaes theatros das ambiciosas guerras de Luiz XIV com a Hollanda. (Vid. Voltaire Siécl. de Louis XIV).
«Lhe bafejastes divinal espirito.»
Quasi divino quodam spiritu inflari.
Cicer. pro Arch. §. 8.
«E o veneno lethal lhe infunde n’alma.»
Sic effata, facem juveni conjecit, et atro
Lumine fumantis fixit sub pectore tædas.
Virg. AEn. Liv. VIII, v. 56, e seg.
«Quam bello é na expressão Vaén correcto.»
Porventura não serão os verdadeiros accentos da pronúncia nacional, os que ponho aqui neste e nos outros nomes dos pintores flamengos: puz-lhe os necessarios para o rythmo, que é a minha obrigação; dos outros não sei, pois que ignoro a tal lingua; no que, segundo creio, não perderei nada.
«Difficeis nomes d’estremados mestres.»
E bem difficeis, com effeito, para accomodar ao verso com os seus—kk—rr—etc.: não são daquelles, de que Horacio diz:
Verba loquor socianda chordis.
Horat. Lib. II, Od.
«Do mestre a obra maior, Wandik insigne.»
Voltaire diz algures, fallando de Tasso, que, se é verdade o que vulgarmente se diz, que os Lusiadas, e seu auctor formaram a Gerusalem do primeiro, fôra esta a melhor obra de Camões. Não estou absolutamente por este espirituoso dito de Voltaire; mas com justiça o appliquei a Rubens, e Wandick.
«E em vez d’um Fabio tardador......»
Assim traduziu Filinto Elys. o Fabius cuntactor dos Latinos. (Vid. Filint. Ode á Liberdade).
«......... Ja no Sena ovante.»
Sobre a margem feliz do rio ovante,
Donde arrancando omnipotencia aos fados
Impoz tropel d’heroes silencio ao globo.
Bocag. Od. a Filint.
«Que do Meschacebeu vingando as margens.»
Este é o verdadeiro nome do célebre rio da Luisiana, na America Septentrional, chamado vulgarmente Mississipi. (Vid. Chateaubriand: Génie du Christ. Part. III, Liv. 5).
«C’o Euripides Francez disputa ainda.»
Racine bem se póde assim chamar, não somente por suas absolutas e eminentes qualidades; mas pela relativa, e mui particular da similhança dos ingenhos, e feliz imitação de Racine. (Vid. Laharpe: Cours de Littér.; Lemercier: ibid.; e o P. Brumoy no Theatr. dos Gregos).
«Ao ver nas murchas, esmyrradas faces.»
J’ai langui, j’ai séché dans les feux, dans les larmes.
Racin. Phoedr. Act. II.
Desfalleci, murchei no ardor, no pranto.
Trad. ms. do Sr. H. E.
«D’um criminoso amor violencia e fogo.»
Quand je suis toute en feu, vous n’êtes que de glace.
Phoedr. Act. II.
«Os manes folgam de Rollin, Voltaire.»
Le-Gros é pintor historico; e Rollin e Voltaire foram historiógraphos francezes.
Notas ao canto quarto
«Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes.»
Outros quaesquer poetas, e de mais nomeada porventura, pudéra eu citar; mas quiz, quanto em mim era, e o permittia o assumpto e a obra, prestar homenagem a dous ingenhos, que honraram a patria e a lingua; e dos quaes o primeiro depois d’uma fama gigantesca, e maior que seu merecimento, passou a ser enxovalhado por quanto Mevio e Bavio sabe dizer—Traduziu, traduziu, traduziu tudo—como se um traductor como Bocage não fosse um poeta de muito merecimento, e de muito maior, que tantos originalistas de nome (de nome sim; que realmente deus sabe o que é); como se Pope, Dryden, Annibal Caro, João Franco Barreto, e tantos outros illustres traductores não figurassem mais na republica litteraria que tantos epicos modernos... Eu não sou dos apaixonados do privilegio exclusivo, que ha certo tempo obtiveram entre nós as traducções. Uma nação que assim obra por espirito de priguiça, ou menos-preço de si propria, em vez de enriquecer sua litteratura, empobrece-a e perde-a. De J. B. Gomes e da sua Castro tanto mal como bem se tem dito. Não a dou por uma tragedia perfeitamente regular, não a comparo ás grandes peças de Racine e Alfieri; mas sei que tem muitas bellezas, e que n’um theatro tam pobre, como o nosso, é digna de muita e muita estimação. Para criticar a Castro de Gomes é preciso enchugar muitas vezes as lagrimas, que ella excita continuamente.
«Calcando a juba dos Leões gryphanhos,
Parando ás Aguias etc.»
Revoluções de 1640 e 1808.
«........Ah! se aura amiga
Continúa a soprar......»
Em Roma, assim como na Grecia, se formariam Zeuxis e Apelles, se os Romanos dessem a Fabio as honras, que seus talentos mereciam. Diz Cicero algures nas Questões Tusculanas.
«Inviolavel lei um teu desejo.»
Nação nenhuma (diz Florian no avant propos de Sancho) possue a arte d’amar, como a portugueza.
«Os feitos dignos de perenne historia.»
........as cousas...........
Que merecerem ter eterna historia.
Camões. Lus. Cant. 7.
«Sensiveis corações, vinde espelhar-vos» etc.
Vidi sæpius inscriptionis imaginem, et sine lacrymis transire non potui.
S. Gregor. II. Concil. Nicen. act. 40.
«Prazeres do christão, doçuras d’Alma.»
Le nouveau testament change le génie de la peinture. Sans lui rien ôter de sa sublimité, il lui a donné plus de tendresse.
Chateaubriand. Gen. du Chr. part. III, Liv. I, cap. 4.
«Portento d’expressão, viva faisca
Do lume eterno...»
Les peintres... famille sublime que le souffle de l’esprit ravit au dessus de l’homme.
Chateaubriand, ibid.
«Fastoso monumento d’alta Iberia.»
Resta ainda resolver o grande problema: Se a descuberta da America foi util ou prejudicial á Europa; o qual, emquanto a mim, depende d’outro mais generico: Se as conquistas, principalmente longinquas, podem ser uteis a uma nação. Não me atrevo a resolver nem um nem outro. As theorias falham quasi sempre em politica, bem como em moral. So noto imparcialmente, que a Hespanha foi poderosissima nação antes do XVI seculo; que Portugal, se nos tempos de D. Manoel e João III floreceu, e deu brado na Europa e no mundo; depois não fez mais que luctar contra innumeraveis desgraças: que não tivemos mais um João II; e que as conquistas d’Asia e Egypto deram por terra com o imperio Romano.—Provêm isto das descubertas em si?—Provêm do uso que d’ellas se fez?—Continúa a minha ignorancia.—Os monarchas hespanhoes fundiram no Escurial, e n’outras cousas d’esta ordem, as immensas riquezas das Indias occidentaes, ganhas á custa de tantos crimes, barbaridades, irreligião, fanatismo e sacrilegios de Cortêz e de mil outros. Diminuiu no continente hespanhol a população; não se fez o menor caso da agricultura; o commercio não foi senão passivo; e, depois d’um breve esplendor, a suberba Hespanha cahiu na miseria d’uma nação pobre e falta de tudo, a pezar de toda a sua prata.—E que diremos de nós?—O mesmo, com alguma differença para peior. Todo o homem, que pensa, sabe o que eu poderia dizer neste artigo; como para estes só escrevo, elles me entendem; e eu, com o meu silencio, me poupo ás criticas da ignorancia e da sordida adulação. (É bem facil de ver que ésta nota foi igualmente escripta antes do dia 24 d’Agosto).
«Terra fertil d’heroes, solo fecundo,
Salve!........»
Salve magna parens frugum... tellus, Magna virum.
Virg. Georg.
«O mimoso sendal, ja pouco avaro.»
O véo dos roxos lirios pouco avaro.
Camões Lus. Cant. 9.
Diripui tunicam, nec multum rara nocebat.
Ovid. Eleg. Lib. I, Eleg. 5.
«Que divinos encantos não descobrem» etc.
E tuto ciò, che piú la vista alletti.
Tasso Gerusal. Canto XV, st. 59.
«Sonhada, pythagorica harmonia.»
A harmonia das spheras é um dos sonhos de Pythagoras. Póde-se ver a satyra galantissima destas e outras philosophicas extravagancias no celebre poema allemão—Musarion—de Wielland: Canto II.
«Arrulharam d’amor meigas pombinhas.»
Presentem ja no estremecido arrulho
Os propinquos prazeres.
Filint. Elys. Ode a Venus. (Tom. 5).
«Roseos descurvam, se aredondam braços.»
Ν’μος δ’ ὴῥιγυἑια φάυη ροδ οδ άϰλυλος ὴὠτ.
Homer, Odyssea B. (Lib. II.)
«Ondeiam n’alva frente as tranças d’evano.»
Os cabellos e olhos pretos eram os mais estimados dos Romanos—Nigra oculis, nigraque capillis: Horat.—Se é mau gôsto, confesso que o tenho. Quem amar mais os louros, não tem senão dizer:
«Ondeiam n’alva frente as tranças d’ouro.»
Assim, eu, e o leitor ficamos ambos satisfeitos. De mais, até lhe posso ensinar um texto, com que provar o seu gôsto. É a auctoridade de Petrarca, que não é pêca neste ponto:
L’auro, e i topazj al sol sopra la neve
Vincon le bionde chiome presso agli occhi.
Petrarca, rim. Part. I. cans. 9.
«Déste; que bem o sei........»
Assim é de crer piamente; e, comquanto o não digam os DD., eu o penso. O leitor póde ficar pelo que quizer—salva fide—pois estas materias são de mythologia, e não de theologia.
«Ja por milagre de Cyprina é prompta.»
Manca il parlar; di vivo altro non chiedi.
Ne manca questo ancor, se agli occhi credi.
Tass. Gerus. Cant. XVI.
«E novos Pygmaliões por elle anceiam.»
Pigmalion, quanto lo dar ti dei
Dell’ imagine tua, se mille volte
N’avesti quel, ch’io sol’ una vorrei.
Petrarca, rim. Part I, sonett. 58.