OBRAS
DO
V. DE ALMEIDA GARRETT
XV

(TERCEIRO DO ROMANCEIRO)


ROMANCEIRO

PELO
V. DE ALMEIDA GARRETT

III
ROMANCES CAVALHERESCOS ANTIGOS

TERCEIRA EDIÇÃO

LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1875


ADVERTENCIA DA PRIMEIRA EDIÇÃO

Por não fazer demaziado volume, dividiu-se o segundo livro d’esta collecção em duas partes, cada uma das quaes forma um tomo separado.

N’este segundo vão tambem em appendice as traducções inglezas de Sir John Adamson de alguns dos romances do primeiro livro.

O tomo quarto está destinado a conter o terceiro livro, que é o das lendas e prophecias. Se porêm apparecerem no intervallo alguns romances ainda não descubertos que pertençam á classe do segundo livro, accrescentar-se-ha uma terceira parte; e com ella começará, n’esse caso, o seguinte quarto volume.

Lisboa, agosto 9, 1851.


ROMANCEIRO
LIVRO SEGUNDO
PARTE SEGUNDA


XVII
A ROMEIRA

Aqui vai outra romeira, e não sei se de Sanctiago tambem; mas creio que não, porque o diria algures o texto do romance: não é orago que deixasse de se nomear.

É lindo, singelo, perfeito exemplar no seu genero. Não me consta que ande por mais terras nossas do que pelas do Minho e Tras-os-montes. So pelas duas versões d’estas provincias o tive de appurar; e sem muito custo, porque é simples de si, e pouco o alteraram na tradição. Tem todo o sabor e ingenuidade antiga, conserva perfeitamente os costumes crus da edade barbara a que se refere. Tambem não occorre nos romanceiros dos nossos vizinhos, e estou seguro que é ésta a primeira vez que se vê escripto e impresso.

As variantes que valem alguma coisa vão notadas á margem, e não são muitas.

A ROMEIRA

Por aquelles montes verdes

Uma romeira descia;

Tam honesta e formosinha

Não vai outra á romaria.

Sua saia leva baixa

Que nas hervas lhe prendia;

Seu chapelinho cahido

Que lindos olhos cubria!

Cavalleiro vai traz d’ella,

De má tenção que a seguia[1]!

Não a alcança, por mais que ande,

Alcançá-la não podia

Senão juncto a essa oliveira[2]

Que está no adro da ermida.

Á sombra da árvore benta

A romeira se accolhia:

—‘Eu te rogo, cavalleiro,

Por Deus e a Virgem Maria,

Que me deixes ir honrada

Para a sancta romaria.’

Cavalleiro, de malvado,

Nem Deus nem razão ouvia;

Cego no desejo bruto,

De amores a accommettia.

Pegaram de braço a braço:

Lucta de grande porfia![3]

A romeira, por mais fraca,

Emfim rendida cahia...[4]

No cahir, lhe viu á cinta

Um punhal que elle trazia;

Com toda a fôrça lh’o arranca,

No coração lh’o mettia.

O sangue negro saltava,

O negro sangue corria...

—‘Por Deus te peço, romeira[5],

Por Deus e a Virgem Maria,

Que o não digas em tua terra,

Nem te vás gabar á minha

Da vingança que tomaste,

Da affronta que te eu fazia.’

—‘Heide dizê-lo em tu’terra,

Heide me ir gabar á minha,

Que mattei um vil covarde

Co’as armas que elle trazia.’

Tocou a campa da ermida,

A campa que retinia:

—‘Ermitão, por Deus vos peço[6],

Bom ermitão d’esta ermida,

Tenhais dó d’essa má alma

Que inda agora se partia:

Dae terra benta ao seu corpo,

Que Deus lhe perdoaria.’


XVIII
CONDE NILLO

So se incontrou este bello romancinho do ‘Conde Nillo’ na provincia de Tras-os-montes e nas ilhas dos Açores. Nas collecções castelhanas é ommisso. Não sei porquê, mas sinto que tem o ar francez ou proençal. Ou talvez normando? Da nossa Hespanha é que elle me não parece oriundo. Tudo isto porêm é sentir; julgar não, que não tenho por onde.

Nillo não é nome portuguez, nem sei que fôsse castelhano, leonez ou de Aragão. De donde será? Ou é corrupção, como tantas, de outro nome? Mas de que nome? Series e series de dúvidas e perguntas ás quaes confesso a minha completa inhabilidade de responder.

Seja como for, o romance é bonito, elegante e gracioso, tem todo o cunho antigo verdadeiro, e não parece dos que mais padeceram na sua transmissão até nós.

CONDE NILLO

Conde Nillo, conde Nillo

Seu cavallo vai banhar;

Em quanto o cavallo bebe,

Armou um lindo cantar.

Com o escuro que fazia

Elrei não o póde avistar.

Mal sabe a pobre da infanta

Se hade rir, se hade chorar.

—‘Calla, minha filha, escuta,

Ouvirás um bel cantar:

Ou são os anjos no ceo[7],

Ou a sereia no mar.’

—‘Não são os anjos no ceo,

Nem a sereia no mar:

É o conde Nillo, meu pae,

Que commigo quer casar.’

—‘Quem falla no conde Nillo,

Quem se atreve a nomear

Esse vassallo rebelde

Que eu mandei desterrar?’

—‘Senhor, a culpa é só minha[8],

A mim deveis castigar:

Não posso viver sem elle...

Fui eu que o mandei chamar.’

—‘Calla-te, filha traidora,

Não te queiras deshonrar.

Antes que o dia amanheça[9]

Ve-lo-has ir a degollar.’

—‘Algoz que o mattar a elle,

A mim me tem de mattar;

Adonde a cova lhe abrirem,

A mim me têem de interrar.’

Por quem dobra aquella campa,

Por quem está a dobrar?

—‘Morto é o conde Nillo,

A infanta ja a expirar[10].

Abertas estão as covas,

Agora os vão interrar:

Elle no adro da egreja[11],

A infanta ao pé do altar.’

De um nascêra um cypreste,

E do outro um laranjal;

Um crescia, outro crescia,

Co’as pontas se iam beijar.

Elrei, apenas tal soube,

Logo os mandára cortar.

Um deitava sangue vivo[12],

O outro sangue real;

De um nascêra uma pomba,

De outro um pombo torquaz.

Senta-se elrei a comer[13],

Na mesa lhe iam poisar:

—‘Mal haja tanto querer,

E mal haja tanto amar!

Nem na vida nem na morte

Nunca os pude separar.’


XIX
ALBANINHA

Ésta pequena xácara, curta, simples e que mais parece alludir a uma anecdota sabida, do que recontá-la, não a incontrei senão na provincia de Tras-os-montes. Tres differentes, mas pouco differentes, versões d’alli me vieram; e, approveitando de todas, se restituiu o texto como aqui vai. Tem não sei que resaibo á sarcastica ‘sirvente’ do trovador. É mordaz, epigrammatica; e até se permitte fazer o seu calimburgo, quando a donzella requestada responde ao seductor:

‘Pouco tempo são tres horas,

Mas vem depois o contar.’

Onde a graça do equívoco está em que o verbo ‘contar’ tanto significa fazer ‘contas’ como ‘referir o que se passou.’

Não ha variantes que mereçam a pena de se conservar, nem licção castelhana que se ache nos romanceiros.

ALBANINHA

—‘Albaninha, Albaninha,

A filha do conde Alvar!

Oh! quem te vira Albaninha

Tres horas a meu mandar!’

—‘Pouco tempo são tres horas,

Mas vem depois o contar.’

—‘Usança de maus villões

Nunca a eu soubera usar.

Com ésta espada me cortem,

Com outra de mais cortar,

Donzella que em mim se fie

Se eu d’isso me for gabar.’

Inda bem manhan não era

Ja na praça a passeiar;

Aos tres irmãos de Albaninha

Se foi de braço travar:

—‘Ésta noite, cavalleiros,

Sabereis que fui caçar;

Em minha vida não tive

Noite de tanto folgar.

Era uma lebre tam fina

Que nunca vi tal saltar:

Com tres horas de corrida

Não a cheguei a cançar!’

Disseram uns para os outros:

—‘Bom modo de se gabar!

Será de nossas mulheres?

Das irmans nos quer fallar?’

Responde agora o mais môço

Discreto no seu pensar:

—‘Não vêdes que é de Albaninha,

Que o traidor quer diffamar?’

Foram-se os tres para um canto,

Poseram-se a aconselhar;

Diziam os dois mais velhos:

—‘Vamo’-lo nós a mattar?’

E o mais moço respondia:

—‘Vamo’-la nós a casar?’

—‘Sim! e o dote que ella tem,

Nós o temos de pagar.’

Vão ao quarto de Albaninha,

De voda a foram achar;

Duas aias a vestiam,

Duas a estão a toucar.

—‘Albaninha, Albaninha,

A filha do conde Alvar!

As barbas de teu pae conde

Que bem lh’as soubeste honrar!’

—‘As barbas de meu pae conde

Trattae vós de as honrar,

Pagando-me ja meu dote,

Que agora me vou casar.’


XX
A PEREGRINA

Não é dos que mais se cantam, nem tem a popularidade de outros muitos, o romance da ‘Peregrina’ que alguns tambem chamam da ‘Princeza’.—A licção que principalmente segui veio-me do Porto, e é a mais completa. Das outras provincias só obtive fragmentos muito interpolados. Comtudo approveitei bastante d’elles para restituir o texto e dar nexo e clareza á narrativa. O que se não utilisou para este fim, vai nas variantes.

O final, sublime e poetica idea que tanta predilecção mereceu aos antigos menestreis, é o mesmo de outros romances. Ja notei[14] que francezes e inglezes o usaram em suas composições. Entre nós apparece repetido muitas vezes. Fez-se um ‘logar commum’ romantico assim como tantas coisas bellas dos poetas gregos e latinos se fizeram, por sua popularidade, logares communs classicos. Que Homero ou que Virgilio da meia-edade foi o original inventor d’este? Não é possivel sabê-lo. E sabemos nós se eguaes bellezas da Iliada ou da Eneada são ou não repettições, reminiscencias de outros poetas mais antigos cujas obras ou cujos nomes não chegaram até nós?

A ‘Peregrina’ tem todos os characteres de antiga e original. É bella e simples e verdadeira. Nos romanceiros castelhanos não vem; nem se incontra nada parecido com a singella historia que ingenuamente narra. Mas d’estas historias houve tantas n’aquelles ditosos tempos da andante cavallaria! Mal haja o damninho talento de Cervantes que as fez acabar n’um Dom Quixote e na sua Dulcinea!

A PEREGRINA

Peregrina, a peregrina[15]

Andava a peregrinar

Em cata de um cavalleiro

Que lhe fugiu, mal pezar!

A um castello torreado

Pela tarde foi parar:

Signaes certos, que trazia

Do castello, foi achar.

—‘Mora aqui o cavalleiro[16]?

Aqui deve de morar.’

Respondêra-lhe uma dona

Discreta no seu fallar:

—‘O cavalleiro está fóra,

Mas não deve de tardar.

Se tem pressa a peregrina,

Ja lh’o mandarei chamar.’

Palavras não eram dittas,

O cavalleiro a chegar:

—‘Que fazeis porqui, senhora[17],

Quem vos trouxe a este logar?’

—‘O amor de um cavalleiro

Por aqui me faz andar.

Prometteu de voltar cedo,

Nunca mais o vi tornar;

Deixei meu pae, minha casa[18],

Corri por terra e por mar

Em busca do cavalleiro,

Sem nunca o podêr achar.’

—‘Negro fadairo, senhora,

Que tarde vos fez chegar!

Eu de vosso pae fugia

Que me queria mattar;

Corri terras, passei máres,

A este castello vim dar.

Antes que fôsse anno e dia

(Vós me fizestes jurar)

Com outra dama ou donzella

Não me havia desposar.

Anno e dia eram passados

Sem de vós ouvir fallar,

Co’a dona d’esse castello

Eu hontem me fui casar...’

Palavras não eram dittas,

A peregrina a expirar.

—‘Ai penas de minha vida,

Ai vida de meu penar!

Que farei d’esta lindeza

Que em meus braços vem finar?’

Do alto de sua tôrre

A dama estava a raivar:

—‘Levá-la d’ahi, cavalleiro[19],

E que a deitem ao mar.’

—‘Tal não farei eu, senhora,

Que ella é de sangue real...

E amou com tanto extremo

A quem lhe foi desleal.

Oh! quem não sabe ser firme,

Melhor fôra não amar.’

Palavras não eram dittas

O cavalleiro a expirar.

Manda a dona do castello[20]

Que os vão logo interrar

Em duas covas bem fundas

Alli junto á beira-mar.

Na campa do cavalleiro

Nasce um triste pinheiral[21],

E na campa da princesa

Um saudoso canavial.

Manda a dona do castello

Todas as canas cortar;

Mas as canas das raizes

Tornavam a rebentar:

E á noite a castellana[22]