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Rita Farinha (Jan. 2008)

OBRAS

DE
J. B. DE A. GARRETT.
VIII.
(PRIMEIRO DAS VIAGENS)

VIAGENS NA MINHA TERRA

POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.

I

LISBOA NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS. 1846.

Os editores d'esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella tinha publicada em fragmentos na Revista, intenderam fazer um serviço ás lettras e á gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um livro, para melhor se podêr avaliar a variedade, a riqueza e a originalidade de seu stylo inimitavel, da philosophia profunda que incerra, e sôbre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas.

As Viagens na minha terra, são um d'aquelles livros raros que so podiam ser escriptos por quem, como o auctor de Camões e de Catão, de D. Branca e do Portugal na Balança da Europa, do Auto de Gil-Vicente e do Tractado de Educação, do Alfageme e de Fr. Luiz de Souza, do Arco de Sanct'Anna e da Historia Litteraria de Portugal, de Adozinda e das Leituras Historicas e de tantas producções de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando uma lingua de immenso podêr, a costumou a servir-lhe e obedecer-lhe;—por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna, entra no gabinete nas graves discussões e demonstrações da sciencia—voa ás mais altas regiões da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as fortes paixões do drama, e baixa ás não menos difficeis trivialidades da comedia;—por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, póde dar-se todo ás mais aridas e materiaes ponderações da administração e da politica, e redigir com admiravel precisão, com uma exacção ideologica que talvez ninguem mais tenha entre nós, uma lei administrativa ou de instrucção pública, uma constituição politica, ou um tractado de commercio.

Orador e poeta, historiador e philosopho, crítico e artista, jurisconsulto e administrador, erudito e homem d'Estado, religioso cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas—educado na pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras litteraturas—da meia-edade, da renascença e contemporanea—o auctor das Viagens Na Minha Terra é egualmente familiar com Homero e com o Dante, com Platão e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Camões e Calderon, com Goethe e Virgilio, Schiller e Sá-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire, Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradicções sanscritas, com tudo o que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente se ve d'este que agora publicâmos apezar de composto bem claramente ao correr da penna.

Mas ainda assim, e com isto somente, elle não faria o que faz se não junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas, do coração humano e da razão humana; se não fosse, além de tudo o mais, um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas côrtes com os principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os diplomaticos e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas academias, com todas as notabilidades de muitos paizes—e nos salões emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e com as falsidades do seculo.

De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua, é ésta talvez, tornâmos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas é tambem a que, em nossa opinião, mais mostra os seus immensos podêres intellectuaes, a sua erudição vastíssima, a sua flexibilidade de stylo espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural indulgente e bom de um coração recto, puro, amigo da justiça, adorador da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma.

Tem sido accusado de sceptico: é a accusação mais absurda e que so denuncia, em quem a faz, ou grande ignorancia ou grande má fe. Quando o nosso auctor lança mão da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que elle maneja com tanta fôrça e dexteridade, e que talvez por isso mesmo, conscio de seu podêr, elle rara vez toma nas mãos—veja-se que é sempre contra a hypocrisia, contra os sophismas, e contra os hypocritas e shopistas de todas as côres, que elle o faz. Crenças, opiniões, sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem, não as dirige nunca sôbre individuos; ve-se que despreza a facil vingança que, com tam poderosas armas, podia tomar de inimigos que o não poupam, de invejosos que o calumniam, e a quem, por cada dicterio insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, elle podia condemnar ao eterno oppróbrio de um pelourinho immortal como as suas obras. Ainda bem que o não faz! mais immortaes são as suas obras, e quanto a nós, mais punidas ficam os seus emulos com esse desprêzo do homem superior que se não appercebe de sua malignidade insulsa e insignificante.

Voltando á accusação de septicismo, ainda dizemos que não póde ser septico o espirito que concebeu, e em si achou côres com que pintar tam vivos, characteres de crenças tam fortes como o de Catão, de Camões, de Fr. Luiz de Sousa,—e aqui n'esta nossa obra, os de Fr. Diniz, de Joanninha, da Irman Francisca.

Não analysâmos agora as Viagens Na Minha Terra: a obra não está ainda completa e não podia completar-se portanto o juizo; dizemos somente o que todos dizem e o que todos podem julgar ja.

A nosso rôgo, e por fazer mais digna da sua reputação ésta segunda publicação da obra, o auctor prestou-se a dirigi-la elle mesmo, corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes, e a illustrou com as notas mais indispensaveis para a geral intelligencia do texto: de modo que sahirá muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu.

VIAGENS NA MINHA TERRA.

Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraitre tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une cométe inattendue étincelle dans l'espace!

X. DE MAISTRE.

CAPITULO I.

De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os Bordas-d'agua: os da calça larga levam a melhor.

Que viage á roda do seu quarto quem está á beira dos Alpes, de hynverno, em Turim, que é quasi tam frio como San'Petersburgo—intende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o proprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo até á minha janella para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me inganar com uns verdes de árvores que alli vegetam sua laboriosa infancia nos intulhos do Caes-do-Sodré. E nunca escrevi éstas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica.

Era uma idea vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha ha muito de ir conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quiz incabeçar em designio politico determinado a minha visita.

Pois por isso mesmo vou:—pronunciei-me.

São 17 d'este mez de julho, anno de graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro-do-Paço. Chego muito a horas, invergonhei os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praça, quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d'ancien règime: é o nosso chefe e commandante, o capitão da impreza, o Sr. C. da T. que chega em estado.

Tambem são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate.
Partimos.

N'uma regata de vapores o nosso barco não ganhava decerto o premio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou olympicos para este genero de carreiras—e se para ellas houver algum Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor que vai coroar de seus hymnos immortaes—não cabe nem um triste minguado epodo a este cançado corredor de Villa-nova. É um barco serio e sizudo que se não mette n'essas andanças.

Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que é, vista de fóra, a mais bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui e alli, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundição para baixo tudo é prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um periodo da Deducção Chronologica, aqui e alli assoprado n'uma tentativa ao grandioso do mau gôsto, como alguma oitava menos rasteira do Oriente.

Assim o povo, que tem sempre melhor gôsto e mais puro do que essa escuma descórada que anda ao decima das populações, e que se chama a si mesma por excellencia a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extensão e podêr, que alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados todos a recordações grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que se compare em belleza com ésta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim, Bellem é mais arido.

Já saudámos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal restauração cahiu, como a todas as restaurações sempre succede e hade succeder, em odio e execração tal que nem uma pobre villa a quiz para sobrenome.

—'A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um govérno de patuscos, que é o mais odioso e ingulhoso dos governos possiveis.'

É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a respeito de Villa-franca.

Mas eu não tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que lá foi fazer à velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das coisas, e que por fôrça havia de succeder. Este necessario e inevitavel reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade ser contrastado por muita reacção antes de completar-se…

No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos aristocraticos da ré: á proa, que é paiz de cigarro livre!

Não me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a bórdo. È notavel esquecimento no poeta mais imbarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o injôo, a mais prosaica e nauseante das miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram mollemente as narcoticas exhalações de um bom cigarro da Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo.

Fummemos!

Aqui está um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me vai imprestar lume.

'Dou-lh'o eu, senhor…' accode cortezmente outra figura mui diversa, cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do musarabe ribatejano.

Accenderam-se os charutos, e attentámos mais de vagar na companhia em que estavamos.

Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura hybrida de trajos e feições descharacterizadas e vulgares—que abunda nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.—Não assim este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns dôze homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que vão todos os domingos colher o pulverem olympicum da praça de Sanct'Anna, e que, á voz soberana e irresistivel de: á unha, á unha, á cernelha!…. correm a arcar com mais generosos, não mais possantes, animaes que elles, ao som das immensas palmas, e a trôco dos raros pintos por que se manifesta o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multidões. Voltavam á sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de praça, ainda esmurrados e cheios de glória da contenda da vespera. Mas aopé d'estes cinco e de altercação com elles—ja direi porquê—estavam seis ou sette homens que em tudo pareciam os seus antipodas.

Emvez do calção amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da familia pelasga: feições regulares e moveis, a fórma agil.

Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a questão fôra interrompida com a nossa chegada á proa do barco. Mas um dos Ilhavos—bella e poetica figura de homem—voltando-se para nós, disse n'aquelle seu tom accentuado:—'Ora aqui está quem hade decidir: vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais que ninguem, que não ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de Lisboa, hãode dizer que sim. Mas nós…'

—Nenhum de nós é de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora.

Era o C. da T. que chegava.

—'Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso é verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle por sol e por chuva, e hade saber o que é um boi de lei, e o que é lidar com gado.'

—'Pois oiçamos lá a questão.'

—'Não é questão'—tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca o outro dia, e hoje é um jardim, benza-o Deus!—mas não foram os campinos que o fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e fez terra das areas da charneca.'

—'Lá isso é verdade'.

—'Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aqui aos nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoira que a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não fazem elles, que nem sabem ter mão n'esses monchões c'o plantio das arvores: so lá por cima é que algumas teem mettido, e é bem pouco para o rio que é, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.—Mas nós, pe no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca, como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar n'area por não haver agua… mas sempre labutando pela vida'.

—'A fôrça é que se falla'—tornou o campino para estabelecer a questão em terreno que lhe convinha.—'A fôrça é que se falla: um homem do campo que se deita alli á cernelha de um toiro que uma companha inteira de varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores pelo rabo!..'

E reforçou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os debates.

Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua superioridade, mas acanhados pela algazarra.

Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes razões dos seus oradores.

Mas o orador ilhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus antagonistas:

—'Então agora como é de fôrça, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual é que tem mais fôrça, se é um toiro ou se é o mar'.

—'Essa agora!..'

—'Queriamos saber'.

—'É o mar'.

—'Pois nós que brigâmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais fôrça?'

Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por ésta vez a opposição, e o Vouga triumphou do Tejo.

CAPITULO II.

Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha D. Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pança.—Chegada a Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.—A virtude galardão de si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.—Azambuja.

Éstas minhas interessantes viagens hãode ser uma obra prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; não cuide que são quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da sciencia e do adiantamento da especie.

Primeiro que tudo, a minha obra é um symbolo… é um mytho, palavra grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se explica tudo… quanto se não sabe explicar.

É um mytho porque—porque… Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente ao benevolo leitor a profunda idea que está occulta debaixo d'esta ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada com um livro novo da feira de Leipsick, não das taes brochurinhas dos boulevards de Paris.

Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho d'alêm Rheno, que escreveu uma obra sôbre a marcha da civilização, do intellecto—o que diriamos, para nos intenderem todos melhor, o Progresso. Descobriu elle que ha dois principios no mundo: o espiritualista, que marcha sem attender á parte material e terrena d'esta vida, com os olhos fittos em suas grandes e abstractas theorias, hirto, sêcco, duro, inflexivel, e que póde bem personalizar-se, symbolizar-se pelo famoso mytho do cavalleiro da Mancha, D. Quixote;—o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal d'essas theorias, em que não crè, e cujas impossiveis applicações declara todas utopias, póde bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.

Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tam avessos, tam desincontrados, andam comtudo junctos sempre; ora um mais atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre.

E aqui está o que é possivel ao progresso humano.

E eisaqui a chronica do passado, a historia do presente, o programma do futuro.

Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina elrei Sancho.

Depois hade vir D. Quixote.

O senso commum virá para o millenio: reinado dos filhos de Deus! Está promettido nas divinas promessas… como elrei de Prussia prometteu uma constituição; e não faltou ainda, porque—porque o contracto não tem dia; prometteu mas não disse para quando.

Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba está symbolizada a marcha do nosso progresso social: espero que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado de lh'o lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça.

Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha, que é o mais feio pedaço de terra alluvial em que ainda poisei os meus pés. O sol arde como ainda não ardeu este anno.

Um immenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos espera n'aquelle descampado africano. É forçoso optar entre os dois martyrios da caleça ou do macho. Do mal o menos… seja este.

E acolá—oh supplício de Tantalo!—vejo duas possantes e nedeas mulas castelhanas jungidas a um vehiculo que, n'estas paragens e ao pé d'aquell'outros, me parece mais esplendido do que um landaw de Hyde-Park, mais elegante que um caleche de Long-champs, mais commodo e elastico do que o mais acrio briska da princeza Hellena. E com tudo—oh magico podêr das situações!—elle não é senão, uma substancial e bem apessoada traquitana de cortinas.

Togados manes dos antigos desimbargadores, venerandas cabelleiras de anneis e castanhola, que direis, ó respeitadas sombras, se d'esse limbo onde estais esperando pela resurreição do Pêgas… e do livro quinto—vêdes este degenerado e espurio successor vosso, em calças largas, frak verde, chapeu branco, gravata de côr, chicotinho de caoutchouc na mão, prompto a cavalgar em mulinha de Palito-Metrico como um garraio estudantinho do segundo anno, e deitando olhos invejosos para esse natural, proprio e adscripticio modo de conducção desimbargatoria? Oh que direis vós! Com que justo desprêzo não olhareis para tanta degradação e derogação!

Eu commungava silenciosamente commigo n'estas graves meditações, e revolvia incertamente no ânimo a ponderosa dúvida:—se o administrar justiça direita aos povos valia a pena de andar um desimbargador a pé!… Luctava no meu ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote do espirito—quando a Providencia, que nos maiores apertos e tentações nos não abandona nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo e companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua a invejada carroça, e n'ella me deu logar até á Azambuja.

A virtude é o galardão de si mesma, disse um philosopho antigo; e eu não creio no famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga seja um sophisma. O mais moderno é o mais velho, não ha dúvida; mas o antigo que dura ainda, é porque tem achado na experiencia a confirmação que o moderno não tem. Jeremias Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer outro.

Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto marachão que poucos palmos se eleva do nivel baixo e salgadiço do solo: de hynverno não se passará sem perigo; ainda agora se não anda sem incómmodo e receio. Estamos em Villa-Nova e ás portas do nojento caravanseray, unico asylo do viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino.

Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruinas este asqueroso logarejo, desde que alli aopé tem a estação dos vapôres, que são a commodidade, a vida, a alma do Ribatéjo. Imagino que uma aldeia de Alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e commoda.

Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinarás entre nós! Cahiu o carunchoso throno de teu predecessor, antagonista e ás vezes amo; açoitaram-te essas nadegas para desincantar a formosa del Toboso, proclamaram-te depois rei em Barataria, e n'esta tua provincia lusitana nem o paternal govêrno de teu estupido materialismo póde estabelecer-se para commodo e salvação do corpo; ja que a alma… oh! a alma…

Fallemos n'outra coisa.

Fujamos depressa d'este monturo.—É monótona, arida e sem frescura de árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e desiguaes espaços, mostra o seu tronco rachitico e braços contorcidos, ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porêm, com raras excepções, é optimo, e a trôco de pouco trabalho e insignificante despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa.

Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga.

Ahi está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visiveis signaes de vida, aceadas e com ar de confôrto as suas casas. É a primeira povoação que dá indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo portuguez.

Corrémos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo cumulla as tres distinctas funcções, de hotel, de restaurant e de café da terra.

Sancto Deus! que bruxa que está á porta! que antro lá dentro!… Cai-me a penna da mão.

CAPITULO III.

Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A. d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de litteratura romantica?—Suspende-se o exame d'esta grave questão para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de economia-politica e de moral social.—Quantas almas é preciso dar ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um ricco n'este mundo.—Como se veio a descobrir que a sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.—Rei de facto, e rei de direito.—Belleza e mentira não cabem n'um sacco.—Põe-se o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.

Vou desappontar decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois primeiros capitulos d'esta interessante viagem.

Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensações, das descripções a traços largos e incisivos que se intalham n'alma e entram com sangue no coração?

No fim do capitulo precedente parámos á porta de uma estalagem: que estalagem deve ser ésta, hoje no anno de 1843, ás barbas de Victor Hugo, com o Doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os Mysterios de Paris nas mãos de todo o mundo?

Ha paladar que supporte hoje a classica posada do Cervantes com o seu mesonero gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo, aquelle por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e afferem o justo! Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da epocha.

Eu coroarei de trevo a minha espada,
De cenoiras, luzerna e betarrava,
Para cantar Harmódios e Aristógilons,
Que do tyranno jugo vos livraram
Da sciencia velha, inutil carunchosa,
Que elevava da terra, erguia, alçava
O que no homem ha de Ser divino,
E para os grandes feitos e virtudes
Lhe despegava o espirito da carne…

Não: plantae batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamisae estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Icaro, para andar a qual mais depressa, éstas horas contadas de uma vida toda material, massuda e grossa como tendes feito ésta que Deus nos deu tam differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pães, andae; reduzi tudo a cifras, todas as considerações d'este mundo a equações de interêsse corporal, comprae, vendei, agiotae.—No fim de tudo isto, o que lucrou a especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o número de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho desproporcionado, á desmoralização, á infamia, á ignorancia crapulosa, á desgraça invencivel, á penuria absoluta, para produzir um ricco?—Que lh'o digam no Parlamento inglez, onde, depois de tantas commissões de inquérito, ja deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, o número de corpos que se tem de intregar antes do tempo ao cemiterio para fazer um tecelão ricco e fidalgo como Sir Robert Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro—seja o que for: cada homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis.

Logo a nação mais feliz não é a mais ricca. Logo o princípio utilitario é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo…

There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.

A sciencia d'este seculo é uma grandessissima tola.

E como tal, presumpçosa e cheia do orgulho dos nescios.

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Vamos á descripção da estalagem. Não póde ser classica; assoviam-me todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura cava e funda desde a porta do Marrare até ao café de Moscow…

Mas aqui é que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade é materialista; e a litteratura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho rei de facto, Quixote rei de direito!

Pois é assim; e explica-se.—É a litteratura que é uma hypocrita: tem religião nos versos, charidade nos romances, fé nos artigos de jornal—como os que dão esmolas para pôr no Diario, que amparam orphans na Gazeta, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros.

E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hãode ver lá que nem a esquerda deve saber o que faz a direita…

Vamos á descripção da estalagem; e acabemos com tanta digressão.

Não póde ser classica, está visto, a tal descripção.—Seja romantica.—Tambem não póde ser. Porque não? É pôr-lhe lá um Chourineur a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e homem, quanto incontrar,—uma Fleur-de-Marie para dizer e fazer pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu, coitadinha!—e um principe allemão incoberto, forte no sôcco britannico, immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladrões… e ahi fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar á mais pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural!

É como eu devia fazer a descripção: bem o sei. Mas ha um impedimento fatal, invencivel—egual ao d'aquella famosa salva que se não deu… é que nada d'isso lá havia.

E eu não quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me não leam os taes, porque eu heide viver e morrer na fé de Boileau:

Rien n'est beau que le vrai.

Ja se diz ha muito anno que honra e proveito não cabem n'um sacco; eu digo que belleza e mentira tambem lá não cabem: e é a mais portugueza traducção que creio que se possa fazer d'aquelle ímmortal e evangelico hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na Thebaida. O pobre de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é melhor aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; mas dava-lhe o coração uma pancada, olhavam-lhe para os pés…—Cruzes maldicto! Os pés não podia elle incobrir. E ao primeiro abrenuntio do sancto, dissipava-se a belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum como quem é, e sempre foi o pae da mentira.

Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu chamar á velha suja e maltrapida que estava á porta d'aquella asquerosa casa?

Havia lá ésta velha, com a sua môça mais môça mas não menos nojenta de ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava para um canto com todo o geito e traça de quem vem folgar agora na taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella.

Matava-nos a sêde; mas a agua alli é beber quartans. O vinho era atroz. Limonada? Não ha limões nem assucar.—Mandou-se um proprio á tenda no fim da villa. Vieram tres limões que me pareceram de uns que pendiam, quando eu vinha a férias, á porta do famoso botequim de Leiria.

O assucar podia servir na última scena de M. de Pourceaugnac muito melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezões, bebémos, pozemo-nos em marcha, e até agora não nos fez mal, com ser a mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se póde imaginar.

Caminhámos na mesma ordem até chegar ao famoso pinhal da Azambuja.

CAPITULO IV.

De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo nome.—Do poeta grego e philosopho Démades, e do poeta e philosopho inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua profunda erudição.—Discute-se a materia gravissima se é necessario que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.—Admiraveis reflexões de zigzag em que se tracta de re politica e de re amatoria.—Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao seguinte.

Eu darei sempre o primeiro logar á modestia entre todas as bellas qualidades.—Ainda sôbre a innocencia?—Ainda sim. A innocencia basta uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella, a ésta so uma acção propria, determinada e voluntaria.

Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Démades que são forte argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais infeliz memoria. Heide pô-los aqui para que não falte a ésta grande obra das minhas viagens o merito da erudição, e lhe não chamem livrinho da moda: estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro.

Aid ôs te kalle ka aretês polis,
Prôtoê sgathis hamartia deuteron de ais chunê.

Da belleza e virtude é a cidadella
A innocencia primeiro—e depois ella.

Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu trago aqui na algibeira o meu Addison—um dos poucos livros que não largo nunca—e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico triumphante: porque Addison não põe nada acima da modestia; e Addison, apezar da sua casaca de penneiros, é muito maior philosopho do que foi Démades com a sua tunica e o seu palio atheniense.

O erudito e amavel leitor escapará d'ésta vez a mais citações: compre um Spectator, que é livro sem que se não póde estar, e veja passim.

Eu gósto, bem se ve, de ir ao incôntro das objecções que me podem fazer; lembro-as eu mesmo paraque depois me não digam:—'Ah, ah! vinha a ver se pegava!'—Não senhor, não é o meu genero esse.

Francamente pois… eis-ahi o que poderão dizer:—'Addison foi secretario d'Estado, e então…'—Então o quê? Não concebem um secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante, cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: teem a idea fixa de que um ministro d'Estado hade ser por fôrça algum semsaborão, malcriado e petulante. Mas isto é nos paizes adiantados em que ja é indifferente para a coisa-pública, em que povo nem principe lhes não importa ja, em que mãos se intregam, a que cabeças se confiam. Em Inglaterra não é assim, nem era assim no tempo de Addison. Fossem lá á rainha Anna que deixasse entrar no seu gabinete quatro calças de coiro sem criação nem instrucção, e não mais senão so porque este sabía jogar nos fundos, aquelle tinha boas tretas para o canvassing de umas eleições, o outro era figura importante no Freemasson's-hall!

Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allusão ao feliz systema que nos rege: estou fallando de modestia, e nós vivemos em Portugal.

A modestia comtudo quando é excessiva e se aproxima do acanhamento, do que no mundo se chama falta de uso—póde ser n'um homem quasi defeito inteiro. Na mulher é sempre virtude, realce de belleza ás formosas, disfarce de fealdade ás que o não são.

Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o coração do que é uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor ás faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras… Pouco lume que tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo é a virgem modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes…—De alguma belleza sei eu cujos olhos côr da noite ou de saphyra (dialec. poet. vet.), cujas faces de leite e rosas, dentes de pérolas, collo de marfim, transas de ebano (a allusão é surtida, ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos—no antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canções descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude. Comtanto que não seja lyra, que é classico, todo o instrumento, inclusivamente a bandurra, é egual deante da lei romantica.

Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo não-sei-quê de atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes, perde toda a graça e quasi a propria formosura de que a dotára a natureza…

Vêde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo botão de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?… Mas olhae agora como o riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada risada…

Desvaneceu-se o prestigio.

Não havia moço nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que não désse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so beijo d'aquella bôcca… Agora talvez nem repetidos avances lhe façam obter um namorante de profissão e officio… E hade pagá-lo adeantado, e porque preço!…

………………………………………………………………… …………………………………………………………………

Mas o que terá tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais íntima e verdadeira relação que é possivel. É que a pensar ou a sonhar n'estas coisas fui eu todo o caminho, até me achar no meio do pinhal da Azambuja.

Ahi parámos, e acordei eu.

Sou sujeito a éstas distracções, a este sonhar acordado. Que lhe heide eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de… Não, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho…

A minha opinião sincera e conscienciosa é que o leitor deve saltar éstas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que é outra casta de capitulo.

CAPITULO V.

Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo romantico.—Receita para fazer litteratura original com pouco trabalho.—Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.—Desce o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na triste mula de arrieiro.—Admiravel choito do animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.

Este é que é o pinhal da Azambuja?

Não póde ser.

Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de Mallas-artes, que logo, em imaginação, lhe não pozesse a scena aqui perto!… Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capitão Roldão e da dama Leonarda!… Oh! que ainda me faltava perder mais ésta illusão…

Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel, pois o pinhal da Azambuja é isto?… Eu que os trazia promptos e recortados para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de Schiller, e os elegantes facinorosos do Auberge-des-Adrets, eu heide perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto—não ter onde os pôr!..

Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo, depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.

Tracta-se de um romance, de um drama—cuidas que vamos estudar a historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do vivo da natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia… isso é trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sôbretudo um tacto!… Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.

Todo o drama e todo o romance precisa de:

Uma ou duas damas,

Um pae,

Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,

Um criado velho,

Um monstro, incarregado de fazer as maldades,

Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.

Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de Victor-Hugo, e recorta a gente, de cadaum d'elles, as figuras que precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, azul—como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks; fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os figurões, com os palavrões illuminam-se… (stylo de pintor pinta-monos).—E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura original.

E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi!

Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos quaes se estão quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. É o desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida—uma verdadeira logração em boa e antiga phrase portugueza.

E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geographica e topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do pinhal da Azambuja…

Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podêres da sua lyra, levasse atraz de si as árvores d'este antigo e classico Menalo dos salteadores lusitanos?

Eu não sou muito difficil em admittir prodigios quando não sei explicar os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a maravilha, isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, e cantam todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por acções, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se obraria então o milagre. É como hoje se faz tudo; é como se passou o thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiança… porque se não faria o mesmo com o pinhal da Azambuja?

Mas aonde está elle então? faz favor de me dizer…

Sim senhor, digo: está consolidado. E se não sabe o que isto quer dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos os votos de confiança; e se depois d'isto, não souber aonde e como se consolidou o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente não é a sua especialidade, e deite-se a finança, que tem bossa;—fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna—é o mesmo—vai para a commissão de fazenda—depois lord do thesoiro, ministro: é escalla, não offendia nem a rabujenta constituição de 38, quanto mais a carta……………………………………………….. …………………………………………………………………

O peior é que no meio d'estes campos onde Troia fôra, no meio d'estas areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei como o bom Xavier de Maistre quando, a meia jornada do seu quarto, lhe perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu—ou ia caindo, ja me não lembro bem—estatellado no chão.

Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando vi voltar para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada mulinha asneira que—ai triste!—tinha de ser o meu transporte d'alli até Santarem.

Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fôrça. Consolado com este tam verdadeiro quanto elegante proverbio, levantei o ânimo á altura da situação e resolvi fazer próva de homem forte e supportador de trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sôbre o cilicio do esfarrapado albardão, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e excentrico amigo, o marquez do F.

Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia de choitar aquelle notavel fidalgo—o último fidalgo homem de lettras que deu ésta terra. Mas adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em París nos ultimos tempos da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de praça que elle tinha marcado pelo sêcco e duro movimento vertical com que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel. Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes á concha do carro, tam inteiro e tam sem diminuição, o choito do execravel Babiéca! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico.

Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que tenho conhecido, aquelle fidalgo.

Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas missões por que sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar, guardava-o e desmanchava as fòrmas….—Não acabo se coméço a contar historias do marquez do F.

Piquemos para o Cartaxo, que são horas.

CAPITULO VI.

Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.—Da-se razão, e tira-se depois, ao padre José Agostinho.—No meio d'estas disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se n'este mundo, porque, quanto ao outro ja era sabido.—Os Lusíadas, Fausto e a Divina-Comedia.—Desgraça do Camões em ter nascido antes do romantismo.—Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.—Vai o A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta Alceu.—Partida de Whist entre os illustres finados.—Compaixão do marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.—Resposta d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.—Chegada a este mundo e ao Cartaxo.

O mais notavel, e não sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o mais indesculpavel defeito que até aqui esgravataram criticos e zoilos na Iliada dos povos modernos, os immortaes Lusiadas, é sem-dúvida a heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira fazer ao padre José Agustinho—ainda assim! ver o padre Baccho revestido in pontificalibus deante de um retabulo, não me lembra de que sancto, dizendo o seu dominus vobiscum provavelmente a algum acholyto bacchante ou corybante, que lhe responde o et cum spiritu tuo!.. não se póde; é uma que realmente… E então aquelle famoso conceito com que elle acaba, digno da Phenix-Renascida:

O falso deus adora o verdadeiro!

Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneço-me, chóro, insuberbeço-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no mundo, desde a Divina-Comedia até ao Fausto

O italiano tinha fé em Deus, o allemão no scepticismo, o portuguez na sua patria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande—não so poeta—grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua estrella, Lafayette creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem celebrare domestica facta, todos os nossos grandes homens ainda hoje creem, um na juncta do crédito, outro nas classes inactivas, outro no mestre Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade do systema constitucional que felizmente nos rege.

Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda creio no nosso Camões: sempre cri.

E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores, aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas—até ésta fatal edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creações do espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres movimentos do coração chymeras de enthusiastas—até ésta edade de saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gosos no presente—em que o amor da patria (tambem isto será phantasmagoria?), e o sentimento intimo do bello me dão na leitura dos Lusiadas outro deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro tempo me deram—eu senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude, por mais que buscasse, achar-lhe, justificação não digo—nem siquer desculpa.

Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é. E tambem é aphorismo de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar—é pôr-se uma pessoa nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.

Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade de o justificar, e prompto (assim são as charidades d'este mundo) a sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la com todo o antagonista que por aquelle fraco o atacar.—E porque será isto? Porque chegou a minha hora; e—si parva licet componnere magnis (a bossa proeminente hoje é a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema.

Ja preveni as observações com o texto acima: bem sei quem era Camões, e quem sou eu; mas tracta-se da intalação, que é a mesma apezar da differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a crença do seu paiz e as brilhantes tradições da poesia classica que tinha por mestra e modêlo.

Não havia ainda então romanticos nem romantismo, o seculo estava muito atrazado. As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado as de Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com os Tristes de Ovidio, porque se não lagrimejava com as meditações de Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas de Troia, Priamo supplicante aos pés do matador do seu filho, Helena luctando entre o remorso do seu crime e o amor de Páris, não tinham ainda sido eclipsados pelas declamações da mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate de Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos maus á metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas não tinha sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu Manel que vae para a India…

Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton não se tinha ainda sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron acima de todos: emfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto a marcha do intellecto no mesmo terreno, é tudo uma miseria.

Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, e—depois do Dante—da poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa com o seu credo poetico e fez, tranchons le mot, uma semsaboria.

E aqui direi eu com o vate Elmano:

Camões, grande Camões, quam similhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!

Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo? Apezar do exemplo da Divina Comedia, não me atrevo a fazer comedias com taes logares de scena,—e não sei, não gósto de brincar com essas coisas.

Não lhe vejo remedio senão recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge, do Cocyto e seu termo: são terrenos neutros em que se póde parlamentar com os mortos sem compromettimento serio, e….

Eis-me ahi no êrro de Camões—e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci….

Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante não sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Marão para lhe servir de cicerone nas regiões do inferno, do paraizo e do purgatorio christão, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisição nem o descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram para os dignos pares… Não se tinham ainda descoberto as mangações liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade ganha e sustentada á ponta da espada, com muito coração e poucas palavras, muito patriotismo, poucas leis… e menos relatorios. Não havia em Florença nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem ministros para pagar as tolices da gazeta.

O Dante foi proscripto e exilado, mas não se ficou a escrever, deu catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria.

Quem dera ca um batalhão de poetas como aquelle!

Que fosse porêm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a irreverencia; gentes que não teem religião, nem a de Mafoma, bradavam pela religião: entravam a pôr carapuças nas cabeças uns dos outros, cahiam depois todos sôbre o poeta, e—se o não podessem inforcar, pelo menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que é uma injúria muito grande.

Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso mistiforio; é a mais commoda invenção d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crítica quanto quizer.

Quero procurar no reino das sombras não menor pessoa que o marquez de Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta séria antes de chegar ao Cartaxo. E nós ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao pensamento as portas fataes—depressa a unctuosa sopetarra com que heide atirar ás tres gargantas do canzarrão. Vamos…

Mas em que districto d'aquellas regiões acharei eu o primeiro ministro d'elrei D. José? Por onde está Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho e outros maganões que taes? Não; esse é um bairro muito triste, e arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as orelhas.

Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaças classicos do mesmo jaez? Eu sei? tambem isso não. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas verduras, as almas tyrannicidas de Harmódio e Aristógiton…

Oh! ésta agora!… Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras, marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!… Ahi é que se ingánam; não ha amigos nem inimigos politicos em se largando o mando e as pretenções a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, é de fé que se não pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma portaria, ja tinha largado a penna quando chegou alli pelos Prazeres; quanto mais!…

O homem hade estar nas ilhas beatas. Vamos lá…

E ei-lo alli: lá está o bom do marquez a jogar o whist com o barão de Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve de ser interessante, talvez aposta essa gente toda—esses manes todos que estão á roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas não viu nada: o nobre marquez sempre soube esconder o seu jôgo.

A mim é que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sôbre um ponto importante.'

Deitou-me a tremenda luneta.

—'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?'

Apertou a luneta no sobrôlho e sorriu-se.

—'Ellas ahi estão centuplicadas, que até ja invadiram o pinhal de
Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora…'

'Agora quem bebe por lá todo esse vinho?'

Não sabía o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de anneis, virou-me as costas, deu o braço a Colbert, passou por-pé de Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os hombros em ar de compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista.

Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aopé do grande café do Cartaxo.

CAPITULO VII.

Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.—Dos cafés em geral, e de como são o characteristico da civilização de um paiz.—O Alfageme.—Hecatombe involuntaria immolada pelo A.—Historia do Cartaxo.—Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.—Shakspeare e Laffitte, Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.—Próva-se evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo.

Voltar á meia-noite do Bois-de-Boulogne—o bosque por excellencia, descer, entre nuvens de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios, entrever, na rapida carreira, o obelisco de Luxor, as árvores das Tulherias, a columna da praça Vandomma, a magnificencia heteroclyta da 'Magdalena', e emfim sentir parar, de uma soffreada magistral, os dois possantes inglezes que nos trouxeram quasi de um folego até ao 'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente os olhos, levantando meio corpo dos regallados cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos em Tortoni… que delicia um sorvete com este calor!'—é seguramente, é dos prazeres maiores d'este mundo, sente-se a gente viver; é meia hora de existencia que vale dez annos de ser rei em qualquer outra parte do mundo.

Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e dissabores d'este mundo, fie-se na minha palavra, que é de homem experimentado: o prazer de chegar por aquelle modo a Tortoni, o apear da elegante caleche balançada nas mais suaves mollas que fabricasse arte ingleza do puro aço de Suecia, não alcança, não se compara ao prazer e consolação de alma e corpo que eu senti ao apear-me de minha choiteira mula á porta do grande café do Cartaxo.

Fazem idea do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não sahem, se não vêem mundo ésta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a rua do Oiro e o theatro de San'Carlos, como hãode alargar a esphera de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, chegar á altura do seculo?

Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos á dama nova, ide, que não prestais para mais nada, meus queridos Lisboetas; ou discuti os deslavados horrores de algum mellodrama velho que fugiu assoviado da 'Porte-Saint Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes. Tambem podeis ir aos Toiros—estão imbolados, não ha perigo…

Viajar?.. qual viajar! até á Cova-da-Piedade, quando muito, em dia que lá haja cavallinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças d'este mundo são como a do Terreiro-do-Paço, todas as ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare.

Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.

O café é uma das feições mais characteristicas de uma terra. O viajante experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o, examina-o, estuda-o, e tem conhecido o paiz em que está, o seu govêrno, as suas leis, os seus costumes, a sua religião.

Levem-me de olhos tapados onde quizerem, não me desvendem senão no café; e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou se for paiz sublunar.

Nós entrámos no café do Cartaxo, o grande café do Cartaxo; e nunca se incruzou turco em divan de seda do mais splendido harem de Constantinopla com tanto gôso de alma e satisfacção de corpo, como nós nos sentámos nas duras e asperas tábuas das esguias banquetas mal sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento bordalengo.

Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade classica: será um parallelogrammo pouco maior que a minha alcova; á esquerda duas mezas de pinho, á direita o mostrador invidraçado onde campeam as garrafas obrigadas de liquor de amendoa, de canella, de cravo. Pendem do tecto, laboriosamente arrendados por não vulgar tesoira, os pingentes de papel, convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas. Reina uma frescura admiravel n'aquelle recinto.

Sentámo-nos, respirámos largo, e entrámos em conversa com o dono da casa, homem de trinta a quarenta annos, de physionomia experta e sympathica, e sem nada do repugnante villão-ruim que é tam usual de incontrar por similhantes logares da nossa terra.

—'Então que novidades ha por ca pelo Cartaxo, patrão?'

—'Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de Lisboa.—Ahi está a
'Revolução' de hontem…'

—'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos d'isso. Diga-nos alguma coisa da terra. Que faz por ca o…'

—'O mestre J. P., o 'Alfageme?''

—'Como assim o Alfageme?'

—'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois então! Uns senhores de Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama senão o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle não é Alfageme, ou não o hade ser muito tempo. Não é aquelle, não. Eu bem me intendo.'

A conversação tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos profundar o caso.

—'Muito me conta, Sr. patrão! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe que é coisa de?..

—'Parece-me o que é, e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle. O verdadeiro Alfageme diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e que não queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar os outros brigar, trabalhemos nós e ganhemos a nossa vida.' Mas que extrangeiros que não queria, que ésta terra que era nossa e co'a nossa gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram por traidor e lhe tiraram quanto tinha.—Mas que lhe valeu o Condestavel e o não deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo ás direitas. Pois não é assim que foi?'

—'É, sim, meu amigo. Mas então d'ahi?'

—'Então d'ahi o que se tira, é que quando havia fidalgos como o sancto
Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.'

—'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do
Cartaxo?'

—'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado. Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, pôs por ahi suas coisas a direito—Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem, bom será.—Os senhores não tomam nada?'

O bom do homem visivelmente não queria fallar mais: e não deviamos importuná-lo. Fizemos o sacrificio de bom número de limões que expremémos em profundas taças—vulgo, copos de canada—e com agua e assucar, offerecemos as devidas libações ao genio do logar.

Infelizmente o sacrificio não foi detodo incruento. Muitas hecatombes de myrmidões cahiram no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor que não sei se agradou á divindade, mas que injoou terrivelmente aos sacerdotes.

Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e a alegria do Ribatejo. Ja elle sabía da nossa chegada, e vinha no caminho para nos abraçar.

Fomos dar, junctos, uma volta pela terra.

É das povoações mais bonitas de Portugal, o Cartaxo, aceada, alegre; parece o bairro suburbano de uma cidade.

Não ha aqui monumentos, não ha historia antiga: a terra é nova, e a sua prosperidade e crescimento datam de trinta ou quarenta annos, desde que o seu vinho começou a ter fama. Ja descahida do que foi, pela estagnação d'aquelle commercio, ainda é comtudo a melhor coisa da Borda-d'agua.

Não tem historia antiga, disse; mas tem-n'a moderna e importantissima.

Que memorias aqui não ficaram da guerra peninsular! Que espantosas borracheiras aqui não tomaram os mais famosos generaes, os mais distinctos militares da nossa antiga e fiel alliada, que ainda então, ao menos, nos bebia o vinho!

Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordeos, e as acerbas limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como póde uma leal goella britannica, rascada pelos acidos anarchicos d'aquellas vinagretas francezas, intoar devidamente o God-save-the-King em um toast nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo, ousa um subdito britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa desafinação insular que lhe é propria e que faz parte de seu respeitavel character nacional—faz; não se riam: o inglez não canta senão quando bebe… alias quando está BEBIDO. Nisi potus ad arma ruisse. Inverta: Nisi potus in cantum prorumpisse… E pois, como hade elle assim bebido erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno popular Rulle-Britannia!

Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos inglezes; bebei, bebei a pêso de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha; chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe hoc, chamae-lhe hic, chamae-lhe o hic haec hoc todo, se vos dá gôsto… que em poucos annos veremos o estado de acetato a que hade ficar reduzido o vosso character nacional.

Oh gente cega a quem Deus quer perder! pois não vêdes que não sois nada sem nós, que sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, sciencia, valor, ides cahir infallivelmente na antiga e priguiçosa rudeza saxonia!

D'essas traidoras praias da França donde vos vai hoje o veneno corrosivo da vossa indole e da vossa fôrça, não tardará que tambem vos chegue outro Guilherme bastardo que vos conquiste e vos castigue, que vos faça arrepender, mas tarde, do criminoso êrro que hoje commetteis, ó insulares sem fe, em abandonar a nossa alliança. A nossa alliança sim, a nossa poderosa alliança, sem a qual não sois nada.

O que é um inglez sem Porto ou Madeira… sem Carcavellos ou Cartaxo?

Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, Milton com Chateaumargot—o chanceller Bacon que se dilluisse no melhor Borgonha… e veriamos os acidulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam.

Com todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg; Byron antes beberia gin, antes agua do Thamisa, ou do Pamiso, do que essas escorreduras das areias de Bordeos.

Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem mais teme que torneis a ter outro Nelson. Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos beber da sua zurrapa: são tantos pontos de partido que lhe dais no seu jôgo.

É M. Guizot quem perde a Inglaterra com a sua alliança; e tambem perde o
Cartaxo. Por isso eu ja não quero nada com os doutrinarios.

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Ha dôze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de
Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da última guerra de
successão, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de
Saldanha.

Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canções bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos hymnos constitucionaes.

Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleições, não é grande coisa para a indústria vinhateira, dizem. Eu não o creio porém; e tenho minhas boas razões, que ficam para outra vez.

CAPITULO VIII.

Sahida do Cartaxo—A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.—Ultima revista do imperador D. Pedro ao exército liberal.—Batalha de Almoster.—Waterloo.—Declara o A. solemnemente que não é philosopho e chega á ponte da Asseca.

Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montámos a cavallo, e cortámos por entre os viçosos pampanos que são a glória e a e tomado ânimo; breve, nos achámos em plena charneca.

Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem que exhalam éstas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que resistem verdes e viçosas a um sol portugez de julho!

A doçura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa temperada da primavera,—a amenidade bucolica de um campo minhoto de milho, á hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os caules com a agua que lhe anda por pé, e á roda as carvalheiras classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos—são ambos esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio, nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo.

A majestade sombria o solemne de um bosque antigo e copado, o silencio e escuridão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados pensamentos. Medita-se alli por fôrça; isola-se a alma dos sentidos pelo suave adormecimento em que elles cahem… e Deus, a eternidade—as primitivas e innatas ideas do homem—ficam unicas no seu pensamento…

É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da bôcca do gado—diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso n'aquelle quadro que não tem nenhum outro.

Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do valle. Não ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir positivamente. Ha a solidão que é uma idea negativa…

Eu amo a charneca.

E não sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser—ao menos, o que na algaravia de hoje se intende por essa palavra.

Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, áquella hora que a passámos, começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel.

Sentia-me disposto a fazer versos… a quê? Não sei.

Felizmente que não estava so; e escapei de mais essa caturrice.

Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo, porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distracção, de mudez—cessou-me a vida toda de relação, e não me sentia existir senão por dentro.

Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:—'Foi aqui!… aqui é que foi, não ha dúvida'.

—'Foi aqui o quê?'

—'A última revista do imperador'.

—'A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?…'

Então cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e desconsolação, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada ésta geração, Deus sabe para quê—Deus sabe se para expiar as faltas de nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros…

O certo é que alli comeffeito passára o imperador D. Pedro a sua última revista ao exército liberal. Foi depois da batalha d'Almoster, uma das mais lidadas e das mais insanguentadas d'aquella triste guerra.

Toda a guerra civil é triste.

E é difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o vencido.

Ponham de parte questões individuaes, e examinem de boa fé: verão que, na totalidade de cada facção em que a nação se dividiu, os ganhos, se os houve para quem venceu, não balançam os padecimentos, os sacrificios do passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro…

Eu não sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a guerra extrangeira, tudo são guerras que elle condemna—e não mais uma do que a outra… a não ser Hobbes o ditto philosopho, o que é coisa muito differente.

Mas não sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aopé do Leão de bronze sôbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de tantos mil, vi—e eram passados vinte annos—vi luzir ainda pela campina os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a não sei quê… Os povos disseram que á liberdade, os reis que á realeza… Nenhuma d'ellas ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria…

Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o coração com essas recordações, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli se obraram.

Porque será que aqui não sinto senão tristeza?

Porque luctas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e porque…

Eu moía comigo so éstas amargas reflexões, e toda a belleza da charneca desappareceu deante de mim.

N'esta desagradavel disposição de ânimo chegámos á ponte d'Asseca.

CAPITULO IX.

Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do capitulo antecedente.—Livros que não deviam ter titulo, e titulos que não deviam ter livro.—Dos poetas d'este seculo. Bonaparte, Rotchild e Silvio-Péllico.—Chega-se ao fim d'estas reflexões e á ponte da Asseca.—Traducção portugueza de um grande poeta.—Origem de um dictado.—Junot na ponte da Asseca.—De como o A. d'este livro foi jacobino desde pequeno.—Inguiço que lhe deram.—A duqueza de Abrantes.—Chega-se emfim ao val de Santarem.

Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra de Portugal, um figurão exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o instincto de descobrir assumptos dramaticos nacionaes—ainda, ás vezes, a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, não sem mérito, as figuras: mas ao pô-las em acção, ao collori-las, ao fazê-las fallar… boas noites! era semsaboria irremediavel.

Deixou uma collecção immensa de peças de theatro que ninguem conhece, ou quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representação; mas rara é a que não poderia ser arranjada e appropriada á scena.

Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que bellas e portuguezas coisas se não podem extrahir dos treze volumes—são treze volumes e grandes!—do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo! Algumas d'essas peças, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo, um stylo mais animado, fariam comedias excelentes.

Estão-me a lembrar éstas:

'O Casamento da Cadea'—ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto é este; comedia cujos characteres são habilmente esboçados, funda-se n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da prisão os que assim se suppunha podêrem reparar certos damnos de reputação feminina.

'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo nosso.

'As duas educações', bello quadro de costumes: são dois rapazes, ambos extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. É eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz á moda, 'palpitante de actualidade.'

'O cioso', comedia ja remoçada da antiga comedia de Ferreira e que em si tem os germens todos da mais ricca e original composição.