OCTAVIA
TRAGEDIA EM 5 ACTOS
DE
representada no theatro Lyrico Fluminense na noute de 2 de Agosto de 1869
PELA SENHORA
ADELAIDE RISTORI
E SUA COMPANHIA
EM BENEFICIO DA
SOCIEDADE PORTUGUEZA DE BENEFICENCIA
RIO DE JANEIRO
TYPOGRAPHIA IMP. E CONST. DE J. VILLENEUVE & C.
RUA DO OUVIDOR N. 65.
1869.
NOTICIA HISTORICA
Octavia era filha do Imperador Claudio e da mais que famosa Messalina. Apenas chegada á puberdade foi promettida em casamento a Lucio Silanno; mas a ambição politica e os ardis de Agrippina, mãi de Néro, fizèrão abortar este projecto, tornando-a a tão desgraçada esposa desse monstro, que de tal mãi foi digno filho. Pouco tempo depois este repudiou-a pretextando que era ella esteril, mas realmente por causa do amor que consagrava a Poppéa, que effectivamente substituio-a no leito nupcial e no throno de Néro. Poppéa, entretanto, não se julgava segura emquanto Octavia vivia. Querendo descartar-se della, accusou-a, ou mandou que alguem a accusasse de entreter relações criminosas com um de seus escravos. As servas da accusada forão sujeitas a tormentos, porque recusavão confirmar essas falsas imputações; mas entre as torturas proclamarão a sua virtude e innocencia, a ponto tal que, não sendo possivel condemna-la á morte, mandárão-a em degredo para a Campania. Tão injusta condemnação provocou tal indignação e murmurio no povo, que Néro, politico medroso, julgou dever chama-la a Roma. Com a volta de Octavia, a quem o povo accolheu entre ruidosas manifestações, renascerão, e mais vivamente os terrores de Poppéa. Atirou-se ella aos pés do Imperador seu esposo, e alcançou delle, por fim, que, sob diversos pretextos, Octavia fosse de novo affastada de Roma e em seguida assassinada. Mandárão, pois, a infeliz princeza degradada para uma ilha, onde viu-se obrigada, contando apenas vinte annos de idade, a deixar que lhe abrissem as veias. Apenas a virão morta, cortarão-lhe a cabeça innocente que foi enviada á sua indigna rival.
PERSONAGENS
Octavia Sra. A. Ristori. Poppéa Sra. Matilde Pompili Trivelli. Néro Sr. Jacomo Glech. Seneca Sr. Alessandro Grisanti. Tigellino Sr. Ludovico Mancini. Soldados e povo romano.
A acção passa-se no palacio de Néro em Roma.
OCTAVIA
ACTO PRIMEIRO
SCENA I.
NÉRO, SENECA.
SENECA.
Senhor do mundo inteiro, o que te falta?
NÉRO.
Tranquillidade.
SENECA.
Te-la-hias, se aos outros não a tirasses.
NÉRO.
Doce e calma seria a minha vida, se odiosos laços não me prendessem a Octavia.
SENECA.
E terias por ventura de Julio Cesar sido successor, terias augmentado a gloria e o poder herdado, se Octavia te não desse a mão de esposo? Ella foi quem te abrio caminho para o throno; e entretanto hoje morre á mingoa, em cruel e injusto degredo, essa mesma Octavia, que longe de ti, sabendo que abres os braços á sua orgulhosa rival, misera, ainda te ama!
NÉRO.
A principio talvez fosse ella instrumento de minha grandeza; mais tarde, porém, tornou-se a causa de todas as minhas desgraças, e ainda o é hoje, posto que repudiada. E este povo, a quem desprezo, ousa murmurar! atreve-se a queixar-se de seu senhor nos mesmos lugares onde reino e domino? De hoje em diante não se dirá mais em voz alta o nome de Octavia, nem se quer o murmuraráõ baixinho labios tremulos, que o não quero eu, Néro!
SENECA.
Senhor, nem sempre julgaste indignos de ti os meus conselhos. Bem sabes como, com a arma poderosa da razão, moderei o ardor de tua impetuosa mocidade. Eu predisse que, repudiando Octavia e, mais que tudo, condemnando-a a cruel desterro, chamarias sobre ti a censura, as accusações e as injurias. O coração do povo, dizia, eu, inclina-se para Octavia; Roma inteira manifestou sua dôr ao saber que havias marcado para sua residencia os campos de Plauto e a habitação de Burrho, eu dizia...
NÉRO.
Basta. Disseste tudo isso, é certo; e entretanto fizeste o que eu quiz! Durante algum tempo, talvez, me ensinasses a governar, mas, a não errar, jámais o fizeste; nem o pódes tu ensinar, nem póde o homem adquirir esta sciencia. Já basta que Roma me tenha ensinado a ser prudente por algum tempo. Enganei-me, julgando que devia desterrar esta mulher, que, pelo contrario, eu não devera affastar de mim.
SENECA.
Estás por ventura, arrependido? É verdade o que acabo de ouvir? Volta á Roma Octavia?
NÉRO.
Sim.
SENECA.
Finalmente tiveste della compaixão?...
NÉRO.
Compaixão?... É verdade, tive.
SENECA.
E virá ella de novo partilhar com vosco o leito e o throno?...
NÉRO.
Dentro em pouco voltará ella ao meu palacio; e então saberás para que volta. Oh! Seneca, tu, sabio entre os sabios; tu, que já foste meu ministro e meu guia em circumstancias mais criticas e mais melindrosas; não te mostrarás hoje contrario ao que foste outr'ora.
SENECA.
Tens por costume pedir inutilmente conselhos quando já tomaste crueis resoluções. Não conheço quaes sejão teus pensamentos; mas tremo por Octavia ouvindo as tuas palavras.
NÉRO.
Dize-me: tremeste por ventura naquelle dia em que meu irmão cahia morto, victima de um crime necessario? E no dia em que proferiste a sentença de minha orgulhosa mãi, tua cruel inimiga, tremeste por ventura?
SENECA.
Que escuto?... Como ousas recordar estas scenas infames, e execrandas? Não, eu não tingi minhas mãos nesse sangue que era tambem teu, tu, sim; o bebeste! Calei-me, é certo; calei-me obrigado. Foi criminoso meu silencio, nem poderei jámais expiar um tal crime. Louco! Acreditei que Néro ficasse farto de sangue depois de ter derramado o de sua propria mãi! Hoje conheço que alli apenas começavão as atrocidades. Quando commettes um novo crime, não sei porque, cobres-me de dadivas odiosas, de favores que me pezão na consciencia. Tu me obrigas a aceital-as e o povo, que isto presencêa, diz que essas dadivas são o preço do sangue derramado. Ah! Eu t'os entrego, toma-os e deixa-me que conserve a estima de mim proprio.
NÉRO.
Eu t'a deixo; conserva-a, se é que ainda possues. Prégas moral e virtude como homem de experiencia, mas bem sabes que não convem sempre seguir seus dictames. Se querias conservar intacta a reputação, se querias conservar o coração immaculado, porque trocaste o obscuro lar paterno pelo esplendor da côrte? Bem o vês; eu, que não sou stoico, ensino te as regras do stoicismo, e entretanto tudo quanto sei a ti o devo. Se, pois, demorando-te por tua propria vontade nesta côrte, arriscaste a primitiva candura, se perdeste o nome de homem honrado, nome este que nunca mais se recupera, auxilia-me agora; sei que o pódes. Já desculpaste meus erros passados, continua. Dá mais branda côr aos meus actos, louva-os. A tua opinião é aqui respeitada, o povo te julga menos culpado do que os outros; acredita que tens sobre mim grande influencia. Estás, emfim, tão intimamente ligado á minha côrte, que partilhas das censuras que me são dirigidas.
SENECA.
Agrada-te, bem o sei, que outrem pareça mais culpado do que tu; o crime repartido pesa-te menos na consciencia. E eu innocente, como o sabes, carrego com o castigo dos teus crimes; sobre mim recahem as consequencias do modo porque reinas; sou, emfim, odiado por todos. Qual será a nova infamia cuja execução me reservas, para augmentar ainda...
NÉRO.
Cumpre que destruas no coração do povo o amor que elle consagra a Octavia.
SENECA.
Não se destróem facilmente as affeições de um povo, não são como as tuas, senhor; o povo não sabe fingir.
NÉRO.
Quando é preciso, o sabio muda de parecer e de linguagem; e tu és sabio. Vai, aproveitar-me-hei de teus conselhos no dia em que possa dizer que o imperio é só meu. Por emquanto sou eu senhor; o teu dever é executar as minhas ordens; agora sou eu o mestre e tu o discipulo; mostra-te, pois, docil. Não te ameaço com a morte, bem sei que ella não te assusta; mas o nome de que ainda gozas, a consideração que te rodêa, tudo isso depende de mim. Posso destruir tudo. Cala-te, pois, e faze o que mando; vai.
SENECA.
Acabo de ouvir as tuas ordens tyrannicas, odiosas e sanguinarias; mas esperarei os acontecimentos quaesquer que elles possão ser: Todo o auxilio de minha parte seria inutil para os teus projectos, e eu ainda mais criminoso. Pois que! Néro ja não basta para derramar sangue? Quem o crêra?!
SCENA II.
NÉRO
Vai, soberbo stoico, de uma vez porei termo á tua vida e a esta virtude que alardêas. Até hoje tenho te punido cobrindo-te de dons, mas no dia em que te houver rebaixado e reduzido á condição dos mais vis e despreziveis d'entre os homens, então te darei a morte. Que vale este meu poder soberano, immenso, absoluto, quando tantas difficuldades me contrarião? Odeio Octavia, amo Poppéa mais do que posso dizê-lo; e terei de occultar este amor e este odio? O que não prohibem as leis ao mais vil de meus escravos, prohibir-me-hão a mim, Néro, as murmurações do povo?
SCENA III.
NÉRO E POPPÉA.
POPPÉA.
Poderoso senhor, por cujo amor só vivo! Porque sempre pensativo foges para longe de mim, e me deixas entregue a crueis angustias? Pois que, não será possivel que esta minha affeição te dê alguns momentos de alegria?
NÉRO.
É justamente o teu amor que me affasta de ti algumas vezes, Poppéa, nada mais. Soffri longo tempo, venci muitas difficuldades antes de conquistar teu coração; agora devo esforçar-me por conserva-lo; bem sabes que ate á custa do proprio throno quero que sejas sempre minha.
POPPÉA.
E quem poderá tirar-me de teu poder se não tu mesmo? A tua vontade, um gesto teu dão a lei em Roma. Em troca do meu amor deste-me o teu; podes tirar-m'o, é certo, mas eu não sobrevivirei a tamanha perda.
NÉRO.
Quem poderá separar-me de ti? Nem o proprio céo! Entretanto appareceu entre o povo criminosa agitação, ainda não acalmada: ousão censurar as minhas affeições, e vejo-me obrigado a prevenir...
POPPÉA.
E que te importa a grita do povo?
NÉRO.
Espero mostrar em breve o caso que della faço; mas não quero deixar erguida uma só cabeça dessa hydra furiosa; rolará, pelo chão a ultima em que Roma basêa sua esperança, e ao mesmo tempo cahirá abatida, muda, despedaçada, esta plebe orgulhosa. Roma ainda não me conhece, arrancar-lhe-hei do coração seus antigos e loucos prejuizos de liberdade. Octavia é a ultima descendente dos Claudios, seu nome está na boca de todos, chorão a sua sorte porque me odeião, não porque a amem: no coração do povo não ha lugar para o amor; mas a plebe insolente recorda-se saudosa da fraqueza do reinado de Claudio, inepto, e suspira pela licença de que hoje não póde gozar.
POPPÉA.
É certo; Roma não sabe conservar-se calada; mas o que poderão fazer hoje os Romanos mais do que murmurar; porventura os temes?
NÉRO.
Escolhi mal o lugar para exilio de Octavia; é ameno de mais, e pouco prudente seria conserva-la alli. Está nas vizinhanças da Campania o exercito, onde ainda se conserva memoria de Aggripina. No coração dos soldados agita-se ainda o espirito de revolta; perfidos, fingem-se doidos pela sorte da filha de Claudio; criminosa esperança ainda está enraizada em seus peitos. Fiz mal em escolher para seu degredo tal lugar, e maior imprudencia seria conserva-la alli.
POPPÉA.
Porque motivo esta mulher merece tanta solicitude? Porque não a envias para os confins do teu vasto imperio? Qual será o degredo mais seguro? Qual a praia deserta e remota que mais longe de ti conservará esta mulher que ousa gabar-se de te têr dado o throno?
NÉRO.
Para que eu possa tirar-lhe a força e o poder de ser-me nociva nenhum lugar é mais proprio do que Roma, e em Roma o meu palacio.
POPPÉA.
Que ouço? Octavia volta para Roma?
NÉRO.
Deixa-me explicar-te o motivo...
POPPÉA.
O que será de mim?... Ella...
NÉRO.
Escuta-me!...
POPPÉA.
Entendo... adevinho tudo... serei em breve repellida, expulsa...
NÉRO.
Escuta-me!... Não é para teu mal que Octavia volta a Roma; será antes em seu damno esse regresso.
POPPÉA.
Talvez o seja para o teu. No emtanto ouve: Octavia e eu não pudemos viver juntas, nem um só momento, nem no mesmo palacio, nem na mesma cidade. Volte pois, a Roma a mulher que elevou Néro ao throno do mundo; volte para d'ahi expelli-lo. É por tua causa que me afflijo e não por mim; eu estou prompta a voltar para junto do meu fiel Othon; amou-me tanto!... deve amar-me ainda; e podesse eu recompensar tão constante affeição! Mas, não, no coração de Poppéa não cabem dois amores, nem quer ella um coração partido, não quer partilhar com uma odiada rival o teu amor. Não me seduzio o esplendor do throno, mas tu sómente. Ah! ainda me seduz; o amor que tanta ventura me dava, não era o do poderoso senhor do mundo, mais sim o do meu querido Néro; se me tirares agora uma parte dessa affeição, se eu não reinar como unica soberana, então nada quererei, cederei tudo. Ah! misera, que não possa eu arrancar de meu coração a tua imagem tão facilmente como o fazes commigo!
NÉRO.
Eu te amo, Poppéa, bem o sabes; prova-o tudo quanto por ti tenho feito e o que ainda tenciono fazer; mas tu...
POPPÉA.
O que queres que eu faça? Poderei viver vendo a teu lado essa mulher que odeio? Poderei deixar de pensar em ti? Oh! indigna! que não póde, não sabe, não quer amar a Néro e ousa fingir que o ama!
NÉRO.
Tranquillisa-te, põe de parte os receios e os zelos; mas respeita por algum tempo ainda a minha vontade. É necessario que Octavia volte agora a Roma; já moveu os primeiros passos; amanhã aqui deve chegar. Assim o exigem o teu socego e o meu; tal é a minha vontade e não estou habituado a que se oponhão aos meos designios. Nem me satisfaz, senhora, esse amor que me offereces, calmo e sem receios. Quem mais me teme e melhor me obedece, sabe-o, é quem mais me ama.
POPPÉA.
O receio de perder-te tornou-me por demais ousada. Mas, que maior mal me poderás fazer do que privar-me do teu amor? Ah! tira-me antes a vida; menor será meu soffrimento.
NÉRO.
Basta, Poppéa, confia em meu amor, nem receies que se abale a minha constancia; mas nunca te opponhas á minha vontade. Odeio, mais que tu mesma, essa mulher a quem chamas de rival. Apenas eu conseguir separa-la de seus turbulentos amigos, ve-la-has cercada pelos meus guardas; não terás nella uma rival, mas antes uma vil escrava, e dentro em pouco, ou eu nada sei da arte de reinar, ou ella propria te dará a corôa.
ACTO SEGUNDO
SCENA I.
POPPÉA, TIGELLINO.
POPPÉA.
Corremos hoje o mesmo perigo, Tigellino; devemos pois procurar um mesmo asylo.
TIGELLINO.
O que podes receiar da parte de Octavia?
POPPÉA.
Quanto á belleza nada temo; a rainha sempre prevalecerá aos olhos de Néro; temo, sim, o seu fingido amor, a sua dissimulada meiguice; temo os ardis e a eloquencia de Seneca, a grita da plebe e o remorso do proprio Néro.
TIGELLINO.
Ama-te elle ha tanto tempo e ainda não o conheces? Elle só sente remorsos de não ter feito maiores males. Fica certa de que, se chama Octavia a Roma, é só com o fim de tirar della completa vingança. Deixa-me despertar-lhe o odio innato e profundo que em seu coração se une ao rancor que vota á esposa. É este o asylo que devemos buscar ante o perigo que corremos.
POPPÉA.
Estás tranquillo, eu, porém, não me julgo segura, mas a franqueza com que fallas convida-me á franqueza. Bem conheço Néro, bem sei que nelle o remorso nada póde; mas o medo, dize, não tem grande influencia sobre seu espirito? Quem não o vio tremulo junto da mãi que odiava? Amava-me elle já então loucamente e no entanto ousou porventura dar-me a mão de esposo emquanto ella foi viva? Não bastava a presença silenciosa de Burrho para o fazer tremer! Enfim o proprio Seneca, sem poder e sem influencia, não o intimida ás vezes com suas palavras vãs? São estes os unicos remorsos de que o julgo capaz. Ajunta a isso as murmurações e as ameaças dos romanos...
TIGELLINO.
Tudo isto só servirá para arrastar Octavia ao laço onde já cahirão, Agrippina, Burrho e tantos outros. Se desejas a morte de tua rival, deixa que novo terror augmente no corarão de Néro o medo antigo. Elle ainda não manifestou todo o sou pensamento, mas eu sei que nada ha que tanto o domine como a sua pusilanimidade. Roma, pedindo o regresso de Octavia, pronunciou a sentença de morte da propria Octavia.
POPPÉA.
É certo; mas, se ella conseguir reconquistar por um momento só a antiga influencia...
TIGELLINO.
Não, não o receies; Octavia não conhece o caminho que vai ter ao coração de Néro; sua virtude austera irrita o espirito do esposo; sua obediencia, seu amor, sua timidez desagradão-lhe igualmente; Néro detesta em Octavia todos estes meios de seducção que a nós tanto approveitão. Falla, o que deverei fazer?
POPPÉA.
Emprega toda a tua perspicacia em saber o que se passa e todo o zelo em dizer-m'o; cumpre prever tudo; tornar Octavia ainda mais desprezivel; descobrir mil meios de perdê-la e lembra-los a Néro; inventar crimes de que ella nem sequer tenha idéa; desinvolver toda a astucia de que és capaz; ir, vir, occupar o espirito do imperador, engana-lo, cega-lo e estar sempre alerta. Eis aqui o que te cumpre fazer.
TIGELLINO.
Assim o farei, mas creio que os projectos de Néro já estão assentados. Fica certa de que elle não precisa de lições para exercer vinganças e bem sabes que lhe exacerba a colera quem quer mostrar que sabe tanto como elle.
POPPÉA.
Tudo o irrita, bem o sei; ainda ha pouco o excesso de meu amor excitou-lhe o furor; já não era o amante quem fallava, mas sim o feroz senhor que ordenava do alto do throno.
TIGELLINO.
Não o provoques jámais. Tens grande influencia sobre seu coração; mas a colera impetuosa, a embriaguez do poder e a sede feroz de vingança dominão no mais facilmente do que o faz o amor. Afasta-te daqui, é esta a hora em que elle tem por costume vir fallar-me; confia em mim.
POPPÉA.
Juro-te, que, se me servires agora, ninguem terá, mais do que tu, poder e influencia junto de Néro.
SCENA II.
TIGELLINO
É verdade que se Octavia triumphasse, a nossa desgraça seria certa; mas eu gozo da confiança de Néro. Seu odio é tão feroz e a innocencia de Octavia tão completa, que ella não póde evitar sua triste sorte. Cumpre-me, entretanto, mostrar-me habil; disfarçar seus terrores com o nome de prudencia e dizer-lhe que a justiça é mais criminosa que a vingança. Senhor do mundo, tens em mim teu senhor, unico, absoluto: eu só posso despertar-te n'alma o terror ou dissipa-lo. Desgraçado de mim, se o medo não tivesse influencia sobre a tua alma! É este o unico meio que me resta para impellir-te ao mal; e quem poderia deter teus passos e dirigir-te para o bem?
SCENA III.
NÉRO, TIGELLINO.
TIGELLINO.
Ah! senhor, porque não chegaste mais cedo? Ouvirias ainda os soluços de uma mulher que te ama loucamente. A duvida, o receio, o amor trávão luta medonha no coração sensivel e fiel de Poppéa. Porque assim affliges quem te adora?
NÉRO.
Allucinada por injustos ciumes, Poppéa desconhece a verdade; a ella só amo.
TIGELLINO.
Isto mesmo acabo de dizer-lhe; mas quem poderá melhor abrandar as angustias de um coração repleto de zelos do que o amante adorado? Occulta junto della a terrivel magestade que brilha em teu semblante. Um gesto, um sorriso, um olhar teu podem acalmar a tormenta que agita aquelle coração. Ousei jurar-lhe em teu nome que nunca tiveste tenção de abandona-la; que fôra para altos fins, de mim desconhecidos, que chamaste Octavia a Roma, mas que o seu regresso não seria um mal para Poppéa.
NÉRO.
Fiel interprete de meus sentimentos, disseste-lhe a verdade. Já eu lhe fizera igual juramento, mais ella foi surda a meus protestos. O dia, que agora começa, não se acabará sem que o destino de Octavia esteja decedido e desta vez para sempre.
TIGELLINO.
E eu espero que haverá tranquillidade, se quizeres patentear ao povo quanto Octavia é criminosa.
NÉRO.
Incorreu ella no meu odio; queres maior crime? Mas, é porventura preciso que eu motive a minha vontade?
TIGELLINO.
Demais! Ainda não podeste reduzir este povo impio á degradação que elle tanto merece. Conservou-se silencioso, é certo, em face das fogueiras de Agrippina e de Claudio; calou-se ainda ao ver a de Britannico; entretanto hoje deplora a sorte de Octavia e atreve-se a murmurar. Patentêa-lhe os crimes de Octavia e a plebe emmudecerá.
NÉRO.
Nunca amei esta mulher; pelo contrario, aborreci-a sempre; ella teve a audacia de chorar por seu irmão; vi-a obedecer cegamente á cruel Agrippina; mais de uma vez tem repetido o nome de seus antepassados que empunhárão o sceptro; cada um destes actos é um crime e tanto me basta para julga-la digna de castigo. Sua sentença está lavrada! Chegue ella, e minha vontade será feita. Roma saberá que Octavia deixou de viver; são estas as contas que de minhas acções devo aos Romanos.
TIGELLINO.
Senhor, tremo por ti. Não é prudente affrontar a plebe enfurecida. Se podes inflingir a essa mulher justo castigo, porque queres que ella pareça victima de tua vontade absoluta? Não fôra melhor desvendar os seus maiores delictos, mostra-la ao povo criminosa como ella é, emquanto a julgão innocente?
NÉRO.
Commetteu ella porventura outros crimes... e maiores?
TIGELLINO.
Ninguem ousou ainda revelar-t'os; mas deverei calar-me por mais tempo, agora que, repudiada por ti, e com razão, ella não é mais tua esposa? Essa mulher indigna estava ainda em teu palacio, partilhava comtigo o leito e o throno, usurpava as homenagens devidas á imperatriz, e já se rebaixára mais do que o faria a mulher mais víl e criminosa; já resolvêra esquecer seu illustre sangue, sua honra, a dignidade propria e a de seus avós, junto de um miseravel citharista, para quem voltava olhares amorosos.
NÉRO.
Que infamia! que audacia!
TIGELLINO.
O escravo Eucéro tocára-lhe o coração; dahi a calma com que supportou o repudio, o desterro, tudo! Eucéro compensava-lhe amplamente a perda de Néro: companheiro inseparavel, fazia-lhe esquecer o desterro... Desterro? digo mal. Ameno refugio os seus criminosos amores encontrárão na tranquilla Campania. Alli, reclinada na relva, entre flôres, á margem de um brando regato, ella escutava os sons suaves que a dextra imbelle de seu amante tirava da cithara e aos quaes se casava o seu canto: alli não invejava ella as perdidas honras nem a anterior posição.
NÉRO.
Filha de Messalina, ella não podia desmentir o sangue de que nasceu. Mas, dize, será possivel provar o que acabas do contar-me?
TIGELLINO.
Muitas de suas creadas sabem os pormenores deste caso; e os contaráõ quando forem interrogadas. Eu não te revelaria este segredo, se Octavia tivesse em algum tempo possuido o teu amor. Mas que digo? louco! se elle merecesse a tua affeição, ter-te-hia jámais ultrajado assim? nem se quer lhe occorreria tal pensamento. Razões politicas, contra a tua vontade, derão-te Octavia por esposa: ella conheceu que não era digna de ti e rebaixou seu coração vil em vis amores.
NÉRO.
Receio expór a luz infamante tão obscuro crime!...
TIGELLINO.
A infamia é só de quem commetteu o delicto.
NÉRO.
É certo.
TIGELLINO.
Tenha cada um a paga merecida; ella a de ré, tu a de justiceiro, e o podes ser sem perigo.
NÉRO.
Tens razão no que dizes; faze, pois, o que resolveste e sem demora.
SCENA IV.
NÉRO, TIGELLINO E SENECA.
SENECA.
Senhor, já Octavia transpôz os umbraes de teu palacio; se é infausta ou grata a noticia que te trago, não sei. Ninguem quiz disputar-me a preferencia em dar-te esta nova; o que me parece triste presagio.
NÉRO.
Vai, Tigellino, executa as minhas ordens, e tu volta pelo mesmo caminho por onde vieste; vai ao encontro de Octavia e dize-lhe que aqui estou só e que a espero tambem só.
SCENA V.
NÉRO.
É assaz culpada Octavia; posso duvidar de seus crimes? Lamento só que não fosse eu o primeiro a quem occorresse a idéa de accusa-la. Será possivel que Néro precise aprender com outrem os meios de derrubar seus inimigos? Mas approxima-se o dia em que, para livrar-me de quantos aborreço, bastar-me ha fazer um gesto do alto do meu throno.
SCENA VI.
NÉRO, OCTAVIA.
OCTAVIA.
Por entre os horrores de uma noite tenebrosa, rodeada de soldados armados, sou arrastada a este mesmo palacio, de onde, ha dois mezes, fui expellida á viva força. Ser-me-ha licito perguntar ao meu senhor a razão desta mudança?
NÉRO.
Para altos fins nossos paes ligárão-nos pelo laço do casamento desde os mais tenros annos. Sempre porém, tuas palavras e tuas acções contrariárão a minha vontade; tolerei tudo isto por tempo longo de mais; e ainda o supportaria, se ao menos me houvesses dado real descendencia, numerosa e bella, que me servisse de consolo a tantos desgostos. Debalde o esperei: eras planta esteril; o throno ficava sem herdeiros por culpa tua, e o doce nome de pai me era negado; por isso te repudiei.
OCTAVIA.
Fizeste bem. Se é certo que encontraste outra esposa, que mais feliz do que eu fui, póde dar-te numerosos filhos a quem ames e assim tornar-te alegre a vida. Outra que te ame tanto como eu, bem sei que não encontraste ainda, nem encontrarás jámais. Mas que fiz eu? Oppuz-me por ventura á tua vontade? Vendo-te nos braços de outra, chorei, é certo, e choro ainda; mas ouvio alguem de mim jámais palavras de censura, ou apenas foi meu pranto silencioso, meus gemidos e suspiros abafados pelo respeito?
NÉRO.
Tens muita doçura nos labios, mas não tanta no coração; adevinha-se em tuas palavras o fél occulto; mal disfarças o odio que tens a Poppéa, bem como a ambiciosa recordação de pretendidos direitos.
OCTAVIA.
Oh! podesses esquecer, como eu esqueço, esses meus direitos assaz legitimos pois que soffro por elles tantas desgraças!... O odio e o furor brilhão em teus olhares!... Misera! Bem conheço que me odeias mais do que pudera um marido odiar consorte esteril. Infeliz, tanto mais te offendi, tanto mais te amei! Mas o que te pedi eu? O que te peço hoje? apenas uma vida obscura, solitaria e liberdade para chorar!...
NÉRO.
E eu, certo de que te contentarias com essa existencia obscura, t'a havia concedido; mas depois...
OCTAVIA.
Mas depois te arrependeste e tiveste remorsos de não me haveres tornado bastante infeliz. Quizeste que eu fosse testemunha de tuas novas affeições; quizeste tornar-me escrava de tua nova esposa, quizeste que eu fosse ludibrio do mundo e objecto de desprezo para tua côrte. Aqui estou, obediente ao gesto do meu senhor; o que devo agora fazer? Ordena. Mas na tua mesma côrte não me poderás tornar inteiramente infeliz, se a minha desgraça te der alguma alegria. Responde-me, estás satisfeito? Reina a tranquillidade em tua alma? Entre os braços da nova esposa gozas do somno calmo que tiras aos outros? Esta Poppéa, a quem não privaste de um irmão, torna-te por ventura mais feliz do que eu o fiz?
NÉRO.
Nunca soubeste avaliar o coração do senhor do mundo; sabe-o Poppéa.
OCTAVIA.
A Poppéa agrada o esplendor do throno, para o qual ella não nasceu; a mim agradas-me tu só. Não tentes comparar o meu amor ao della. Possue ella o teu affecto, mas só eu o merecia.
NÉRO.
Não, não podes amar-me.
OCTAVIA.
Dize antes que o não devêra; mas pelo teu não julgueis do meu coração. Bem sei que o meu nascimento me privará eternamente do teu amor; bem sei que tua imagem manchada com o sangue de meus parentes não devêra ser acolhida em meu coração, mas a força do destino obriga. E se eu me esqueço de meu irmão e de meu pai, mortos por ti, como ousas accusar-me em nome desse irmão desse pai?
NÉRO.
O crime de que te accuso é o que commetteste com Eucéro vil.
OCTAVIA.
Com Eucéro!... eu?...
NÉRO.
Sim, é elle o amante digno de ti.
OCTAVIA.
Ah! justo céo! tu o ouves?...
NÉRO.
Houve quem ousasse accusar-te de impudico amor com elle; por isto só de novo te chamei a Roma. Prepara-te, pois, para desmentir tal accusação, ou para receber o merecido castigo.
OCTAVIA.
Oh! quanta maldade! que horrendo trama! Onde está o meu iniquo accusador?... Ai de mim! Louca, o que procuro? É Néro o accusador, o juiz e o proprio algoz!
NÉRO.
É assim o teu amor! Dá expansão a todo o odio que tens no coração, se é certo que elle ainda não transbordou todo, depois que descobri as tuas secretas infamias.
OCTAVIA.
Ai de mim!... O que mais me resta?... Não me bastava ter sido expellida do leito nupcial, do throno, do palacio, e até de minha patria?... Oh! céo! só a minha reputação permanecia intacta; e isto me compensava todos os bens de que fui privada... um dote tão precioso era-me debalde invejado por aquella que já o não possue; agora esse mesmo querem roubar-me antes que me privem da vida? O que te detem, oh! Néro? Não poderás viver tranquillo, bem o sabes (se a tranquillidade cabe em tua alma), emquanto eu existir... Faltar-te-hão porventura meios de assassinar uma mulher fraca e desarmada? Ordena que eu seja encerrada nas profundas masmorras deste palacio, funesto asylo da traição e da morte, e alli manda que me tirem a vida. Ou antes, porque com a propria mão não me assassinas?... Minha morte não só te dará prazer, sei que ella é já necessaria! Só ella te satisfará. Já te perdoei o assassinio de meus parentes, agora te perdôo de antemão o meu proprio: mata, reina, mata ainda, sempre! Conheces os sangrentos caminhos do crime... Roma está habituada a colorir os teus actos de vingança... O que pódes temer? Commigo se extinguirá a raça dos Claudios, e acabará assim o amor e a lembrança do povo por ella... Os deuses estão já acostumados ao fumo do teu incenso sanguinario; pendem nos templos signaes evidentes, horríveis offertas de cada um de teus crimes!... são estes os teus trophéos; são teus triumphos occultos assassinatos!... Baste minha morte para applacar-te o furor... Porque cobrir-me de nodoa infamante, quando eu não fujo á morte?
NÉRO.
Para tua defesa concedo-te inteiro o dia de hoje; folgarei se não fores culpada. Nada receies do meu odio, mas sim da enormidade do crime que commetteste.
SCENA VII.
OCTAVIA.
Misera!... Néro cruel, sempre banhado em sangue, e sempre de sangue sequioso!...
ACTO TERCEIRO
SCENA I.
OCTAVIA, SENECA.
OCTAVIA.
Vem, ó Seneca, vem, seja-me licito ao menos chorar comtigo; já não me resta outra pessoa com quem possa desafogar meus sentimentos.
SENECA.
Será possivel, senhora? Que uma falsa e infame accusação...
OCTAVIA.
Tudo eu esperava de Néro, mas nunca este derradeiro ultraje, que por si só excede tudo quanto tenho soffrido até agora.
SENECA.
Mas, não passa de loucura accusar-te de crime tão infame; a ti, modelo vivo de amor e de fidelidade, a ti tão boa, tão modesta, tão piedosa, a ti que, não obstante, o laço que te prendia a Néro, te conservaste pura; será possivel que manchem tua reputação? Não, assim, não acontecerá; eu o espero. Ainda estou vivo, eu que fui testemunha de todas as tuas virtudes...... Roma me ouvirá proclamar tua innocencia emquanto me restar um sopro de vida. Qual será o coração empedernido que de ti não terá compaixão? Ah! é inutil que contes teus soffrimentos, nem conta-los saberias... Eu sinto e partilho tuas dôres.
OCTAVIA.
É em vão que esperas, Seneca; Néro não ficará satisfeito emquanto não houver manchado o meu nome. Tudo aqui se curva á sua vontade: tu mesmo, te perderias e de balde. Ah! é por ti que eu tremo. É certo que defendem teu nome conhecidas virtudes. Ah! porque não acontece assim commigo! Mas sou joven, sou mulher e cresci, fui educada no meio de uma côrte corrompida... Oh! céo! E podem julgar-me ré do crime vil que me imputão! Ninguem acredita, ninguem póde acreditar que eu tenha conservado no coração o antigo amor que consagrava a Néro. E entretanto, sabe que o meu coração espesinhado mil vezes e de mil maneiras, não sente maior dôr de que a de vê-lo amar outra mulher.
SENECA.
Néro ainda me conserva a vida; porque o faz, não sei; ignoro porque se afasta de mim sorte igual á de Burrho e de alguns outros poucos virtuosos; mas, posto que demore o momento da vingança, sei que escreveu meu nome no seu livro de morte. Eu com minhas proprias mãos já teria posto fim a meus dias, se não me contivese uma esperança (esperança illusoria!) de chama-lo novamente ao caminho do bem. Espero entretanto que me seja dado, antes de morrer, arrancar de suas mãos um innocente...... Se fosses tu, se eu pudesse ao menos poupar-te a infamia...... oh! morreria feliz.
OCTAVIA.
Ao entrar de novo neste palacio, perdi a esperança de viver mais tempo. Não penses que eu não receie a morte; debil mulher, como poderia eu ter tal coragem? Temo-a, é certo, e no entanto chamo-a de todo o coração, e, entre gemidos, volto os olhos para ti, meu mestre, que tão bem ensinas a morrer!
SENECA.
Ah! cala-te; assim me despedaças o coração... Ai de mim!...
OCTAVIA.
Tu só podes salvar-me, pelo menos da infamia! E vê quem me accusa... É ella, Poppéa, quem me exprobra semelhantes amores!
SENECA.
Ó digna esposa do feroz Néro!
OCTAVIA.
Não é a virtude de certo que mais agrada a Néro; o gesto desenvolto, a audacia são o jugo que a domina; a ternura, a meiguice, parecem-lhe fastidiosas... Oh! quanto não fiz por agradar-lhe! Seus menores desejos erão leis para mim, sua vontade foi-me sempre sagrada. Chorei occultamente a morte de meu irmão, se não felicitei Néro por este crime, tambem não ousei lançar-lh'o em rosto. Chorei longe delle; em sua presença calei-me. Fingi acreditar que não fôra elle quem derramára o sangue dos meus: foi tudo em vão... O meu cruel destino quer que eu lhe desagrade sempre!
SENECA.
Porventura Néro poderia jámais amar-te, a ti que não és impia nem cruel? Mas deixemos isto de parte, tranquillisa o espirito. Já vem rompendo o dia. O povo, apenas souber que estás de volta, quererá ver-te e dar-te provas de sua affeição; espero muito delle. Suas murmurações erão já violentas quando partiste, nem cessárão durante a tua curta ausencia. Néro é iniquo, mas é ainda mais cobarde; não ousa realisar todos os seus desejos porque sempre teme o povo. É cruel e orgulhoso, mas não se julga ainda bem seguro no throno; virá um dia em que...
OCTAVIA.
Que tumulto é este? que escuto?
SENECA.
Parece ser o povo de Roma...
OCTAVIA.
Oh! céo, approxima-se deste palacio...
SENECA.
Ouço os gritos do povo em revolta.
OCTAVIA.
Ai de mim! o que terá acontecido!...
SENECA.
Nada receies; nós somos os unicos que estamos seguros neste palacio indigno.
OCTAVIA.
Cresce o tumulto. Ah! infeliz! talvez que Néro esteja em perigo... Mas que vejo?...
SENECA.
É Néro; ei-lo que para aqui se encaminha.
OCTAVIA.
Oh! quanta cólera brilha no seu olhar feroz! Eu tremo!...
SCENA II.
NÉRO, OCTAVIA E SENECA.
NÉRO.
Quem és tu, quem és tu mulher perfida, cuja volta provoca perturbações no povo de Roma e cujo nome elle ousa acclamar?... O que fazias aqui? O que planejavas com este réo, este traidor? Estás ambos em meu poder. Em vão o povo insensato reclama a tua presença. Ah! se tiver de mostrar-te á plebe, espero mostrar-te morta como mereces.
OCTAVIA.
Faze de mim, ó Néro, o que quizeres, mas, crê, sou innocente, não tive parte na revolta popular. Ao povo, juro, nada peço, nada delle espero; mas, já que contra minha vontade vos fiz mal, castiga meu crime involuntario.
NÉRO.
Antes de punir-te, quero que todos saibão quanto és criminosa.
SENECA.
Esperas illudir o povo com mentiras tão torpes?
NÉRO.
Tu tambem, cobarde instigador de revoltas, que aqui te escondes, chefe ignorado do tumulto popular, sentirás um dia o peso da minha cólera e da minha vingança.
SCENA III.
TIGELLINO, OCTAVIA, NÉRO E SENECA.
TIGELLINO.
Senhor...
NÉRO.
Que novas trazes, Tigellino, falla.
TIGELLINO.
A revolta cresce de minuto em minuto; o unico recurso agora é a tua presença. O povo, apenas soube que por ordem inesperada Octavia voltára a Roma, quiz immediatamente vê-la. Julga, ignorante, que mudaste de opinião; ha quem affirme que Octavia partilha de novo o leito imperial. Alguns correm ao Capitolio, e alli manifestão sua alegria e os votos que por ella fazem; outros coroão de louro triumphal as estatuas de Octavia, ha tanto tempo abandonadas; outros, ebrios de prazer, derribão as estatuas de Poppéa; outros, emfim, mais que audazes, arrastão-as pelas ruas, gritando, amaldiçoando-a. Por toda a parte ouvem-se contra Poppéa accusações infames; cobrem-na de ridiculo; entoão louvores a Néro, mas querem que, pelo menos, Poppéa seja expulsa de Roma; os mais temerarios ousão em gritos pedir a sua morte. Ouves daqui os cantos de alegria, depois as ameaças, depois as supplicas. Reina por toda a parte a agitação; ninguem quer mais obedecer. Os soldados e os chefes debalde se esforção por oppôr um dique á multidão furiosa, debalde; o povo rompe as fileiras da tropa, espalha em torno a confusão; já houve mortes; cumpre não perder um momento. O que deverei fazer? O que ordenas, Senhor?
NÉRO.
O que fazer?... Mostre-se Octavia ao povo, mostre-se já... e depois, morra.
OCTAVIA.
Eis o meu peito inerme, fere, se o queres, comtanto que minha morte te aproveite... Mostra-me moribunda ao povo revoltado; acalmar-se-ha logo essa criminosa alegria. Só peço uma graça: sejão as minhas cinzas guardadas na mesma urna que encerra as de Britannico. O nosso tumulo servirá de base inabalavel ao throno de Néro. O que te detém? tira-me a vida, e cesse o teu furor.
SENECA.
Se queres, ó Néro, porder ao mesmo tempo o throno e a vida, o meio é certo: manda assassinar Octavia.