VII

A esta sincera exteriorização de piedosa ternura não teve a suave rapariga uma palavra de comentário... porêm a comoção empanou-lhe os olhos e um sôpro de enternecida gratidão lhe fundiu a alma.
—Como te chamas?—familiar o Silveira tornou.
Luisa, servidora de Usted.
—E então agora vais p'r'á tua casa?
Si, pues.
—Muito distante?
Sesenta cuadras, no más.
—Se queres, eu te acompanho.
Bueno, señor.
Numa instintiva e afável confiança, ela avançou dois passos, o Silveira tomou-lhe a mão esquiva, e os dois acercaram-se então do cavalo, a que o dono tomou a rédea. E queria que a pequena montasse, e cortêsmente insistia, para furtá-la à fadiga molesta de tam longa caminhada. Porêm a gentil rapariga, tenazmente, escusava-se.—Que no, qué esperanza!—E por seu turno, desprendida e solícita, teimava em que êle é que tinha de aproveitar a montada. Era o natural... Um senhor da cidade, tam fino, tam delicado!—Por fim, a rodear amigávelmente a dificuldade, resolveram por mútuo acôrdo seguirem, já agora, ambos a pé.—Passariam trabalhos iguais... assim, nem um nem outro teriam que dizer.—E foi como alegremente iniciaram então a penosa jornada, pronta e infantilmente acamaradados, com o cavalo à mão e marchando a par e passo os dois,—ela mocanqueira e feliz por tam fidalga companhia, vaidoso êle e arrogante por ver-se o depositário ocasional daquele tesouro,—mano e mano divagando, mansos e graves, na luz indecisa do crepúsculo, pela orla sinuosa dos caminhos.
Nesta hora recolhida e melancólica, já o sol baixava a rasar a purpurina fímbria do horizonte, envolto numa conflagração de nuvens que o toucavam, redondas e infladas, como o penacho dum elmo rutilante. E o seu estirado reflexo incendia o imenso lençol pampeano em fulvas reverberações, como um vasto clarão de incêndio, no mais puro e mordente contraste com a leveza espelhada do céu, infinitamente calmo, fundo e diáfano, cuspido apenas ao alto de breves nuvens policromas.—Andando sempre, amavelmente o Silveira ensaiava, a curtos intervalos, travar diálogo e entabolar conversa, a fazer um pouco o conhecimento da sua misteriosa companheira. Luísa porêm tinha dificuldade em compreendê-lo, fazia-o a miúdo repetir as frases; e apenas se ela consentia depois em deixar escapar alguns raros, intervalados, curtos e soltos monossílabos, como gotas de água reçumando num subterrâneo. E a seguir logo ela recaía no mesmo mutismo concentrado e apático, fechava-se na sua invariável reserva, na sua tímida esquivança, marchando silenciosa e humilde, ao lado do seu generoso amigo, com a repousada majestade da paìsagem nua do deserto.
Contudo, a poder de paciência e mimo, o Silveira conseguiu inteirar-se de que ela vivia separada e longe do pai e da mãe, por contendas de família; e que trabalhava a jornal, mais um irmão, na fazenda dum dos mais acaudalados chacareiros da redondeza. Igualmente conseguiu torná-la sabedora do motivo da acidental aparição dêle por ali. E então era de ver como a graciosa morochita vivamente se interessava.—Ah, a estancia Amália?... Conhecia muito bem: una ricura! Qué buena señora a D. Teresa! Señorita Célia, una santa... Por sorte, era p'r'os mesmos lados da sua chácara. Não havia dúvida, ela lhe ensinaria... E tudo mais que êle quisesse... Não havia por'li assim rincão nem caminho que ela no supiera al dedillo. Conhecia-os com'os os seus dedos.—E, dizendo, tornava-se comunicativa, e afogueada, risonha, saltitava de prazer, tôda na vibração exultante de poder ser útil a êste bravo e loução desconhecido a quem ela devia mais que a vida.
Porêm, súbito, a atraente campesina estremeceu, e, dando um salto, atirou-se contra o flanco protector do amigo.
La lechuza! la lechuza!—murmurou com supersticioso terror a timorata rapariga.
E apontava um pequeno ponto escuro sôbre um poste telegráfico, à ilharga do caminho.
Ergueu o Silveira, alarmado, na mesma direcção os olhos e pôde distinguir uma pequena ave, de côr àquela hora indecisa, e que lhe pareceu um pouco mais volumosa que os tordos que êle sabia tam bem caçar, na sua terra; porêm com uma grande cabeça chata, solene e doutoral, vagamente humana, e poisado com uma gravidade que lhe dava o mais estranho ar, uma bizarra mescla de ridículo e de mistério. Confrangida e de cabeça baixa, apertando os braços, a pobre Luísa entaramelava,—que aquilo era uma ave má, agoireira, sinistra! Mal ia aos que la lechuza fitava assim... como a ela estava fazendo agora! Era o mais temido avejão do campo, o mensageiro da fatalidade, um prenúncio certo de desgraça.—Animoso e incrédulo, o Silveira buscava tranqùilizá-la.—Que não désse fé a essas estúpidas crendices dos vélhos tempos. Quem cria agora em agoiros?... Tonterias! Era um pobre animal inofensivo e simples, como tantos outros.—Luísa porêm convictamente protestava.—Que não! todos os dias se estava a ver... Ainda não havia muito tempo que um tio dela caíra e morrêra afogado num pôço, por ir perdido a querer furtar-se à perseguição duma aventesma destas, por uma noite assim... E a amásia última do patrão? E a filhinha do sr. juiz de paz?... Não havia nada peor! Tinha a sua vida cortada...
E, num mixto de ansiedade e horror, de quando em quando ela indagava a presença, pelo espaço, dessa azarenta mancha indecisa... a qual por seu turno, de poste para poste, de bouça para bouça, surda e fantástica, avoejando, implacávelmente os ia seguindo sempre,—na sua grande cabeça redonda, invariávelmente sôbre os dois apontada e fixa, luzindo ameaçadores e preságos dois pontos fosforecentes.
Sentindo contra o seu flanco a palpitação do corpinho fresco e tremulante da rapariga, o Silveira aquecia. Dirigia-lhe palavras de carinho, cingia-a pelos ombros, afagava-lhe paternalmente o cabelo. Neste delicado momento, senhoreava-o uma ácida perturbação, desdobrava-se-lhe a alma numa inquietante duplicação de sentimentos, participando a um tempo da piedade e do orgulho, da vaidade e do desejo. Quando considerava a justa oportunidade, o êxito feliz da sua cavalheiresca aventura, isento e honesto o coração alargava-se-lhe; e, ao mesmo tempo, por todo o seu ser em alvoroço despertava uma sensação de terna e estranha voluptuosidade,—o apetite vago de possuir a sua linda e frágil tutelada para continuar a protegê-la...
Assim foram longamente caminhando, na progressiva invasão da tréva e do silêncio, minúsculos e sós os dois na imensidade, alumiados já pelo sonambulismo errante das estrêlas. Por aquela agonia dulcíssima de tarde, o crepúsculo da luz e o crepúsculo da tradição fundiam-se. Era o charro e vazio esbatimento, era a definitiva eliminação de todo êsse mundo de encantadoras e imaginosas ficções que, antes, volitando irisadas e leves, como borboletas, esmaltavam de poesia a esfumada atmosfera dêste país fantasista e ingénuo,—hoje irremissívelmente dispersas, trituradas e desfeitas pelo industrialismo feroz da hora presente. Não mais serenatas, encantamentos, fadas, demónios surdindo dos poços, virgens penteando-se ao luar, bruxas alucinando donzelas, sereias a adormecer gigantes... No repouso letárgico da planura, o único ruído perceptível era por acaso o rouco soluço de alguma locomotiva, raspando ao longe. E neste apaziguamento sem termo, na absoluta desolação desta soledade infinita, a monotonia sem fim da pampa alastrava como uma imensa mortalha,—era um mar morto num país de olvido.
Haviam atingido o ponto obrigado da separação, o teimo fatal à deliciosa e imprevista caminhada. Foi quando gravemente o Silveira estacou frente à sua linda sócia de jornada, e tomando-lhe as duas mãos, encarando-a bem nos olhos, suasivo e meigo:
—Então, muito cansada?
No... aunque fuera doble del camino,—murmurou Luísa docemente.
—Espero que nos tornaremos a ver...
Quien sabe?—devagar ela suspirou, furtando os olhos, com um peganho vago de tristeza.
E dos dois as mãos trémulas e frias deslaçaram-se, houve um mútuo breve acêno de despedida e voltaram-se costas, num eloqùente mutismo, seguindo cada qual o seu caminho.
O Silveira, porêm, tam pronto deu no seu novo rumo os primeiros passos e sentiu que lhe faltava o que quere que fôsse... e contra o seu querer não despegava de pensar, apiedado, quente, com uma devoção enternecida, na misteriosa aparição dessa adorável e paradoxal criatura, tam sobranceira ao mal, tam pura em meio de tanto lôdo, tam segura da sua imunidade, tam resoluta diante do perigo. Quis vê-la uma vez mais.... parou, voltou-se. Mas, impelida por idêntico desejo, ela voltára-se tambêm... E nesta simultânea permuta de olhares, confusa ao ver-se surpreendida, a alvorotada criança deu logo rápida a espalda e disparou, correndo.