VIII

do céu, peneirado duma subtil poalha de oiro que era como uma alvorada de bênçãos, apenas alguns farrapitos de nuvens, brancas e altas como asas de anjos, erravam levemente... E desde as primeiras horas que, algarreira e abundante, a multidão começou afluíndo, todos em salteiros grupos endomingados,—con sus trapitos de cristianar,—fundidos no guloso ímpeto do mesmo apetite místico e folião, porêm distanciados pelo traço diorâmico dos costumes e pelo desenho ideal das crenças. Vinham em alegres volatas, em chireantes golfadas, em cordas de riso uns após outros vitoriando, cantando e dançando, como se nesse dia de glória a amplidão ridente da planura se vestisse duma grande e viva alfombra cosmopolita, realçada em matizes de tôdas as latitudes, de todos os países, de tôdas as religiões, de tôdas as raças. Assim decorreram entre festivas e ingénuas pompas as anunciadas cerimónias do dia, cingidas no atropelado abraço de tôda essa grossa onde espectante. A bênção comovedora da Santa e a sua processional trasladação, depois, àquele improvisado altar da selva, foram, a um tempo, duas maviosas sinfonias de movimento e de côr, e duas tocantes demonstrações de lisa fé e piedoso entusiasmo. A vitoriosa culminação da festa estava porêm reservada para mais tarde, quando, ao cerrar da noite, aqueles quantos milhares de pequeninos globos, serpeando como vermes de fogo, saltando, faíscando aqui e ali, errantes e vagos como pirilampos, começaram de acender de roda a sua aleluia policróma. Um outro dia apontava agora, suave e discreto, não cortado já na prosaica nitidez das evidenciadoras flamas do astro-rei, porêm pela atenuada sarabanda dessa infinidade de minúsculos sóis arredondado em claridades de sonho, sôlto e ideal campo aberto, agora, às fugas da imaginação, aos arroubos do amor e aos vôos da poesia. Era todo o vasto e bigarrado recinto dos seus fundos de sombra jorrando esplendentes fontes de luz, palpitando e ardendo numa estonteadora profusão de lumes caprichosos, que definem linhas arquitecturais, que festoam silhuetas de árvores, que espirram para o espaço, que da relva rompem ou no ar se baloiçam em largas figurações de fantasia, e em que o uso das novas lâmpadas de fio metálico multiculôr dá motivo às mais deliciosas projecções de côr, às nuanças mais fantásticas e imprevistas. E por sôbre tôda essa orquestração lampejante é ainda e sempre a carcassa mégaloide do vélho ombú que mais destaca e mais realça, todo inflamado em recamos de gala, casquilho, remoçado agora e como que ufano do seu destino, iluminando afável e protector a passividade muda do deserto,—o polipo colossal das raízes, que poderosas esgarçam a terra, mosqueado de tijelinhas de côr, como tentáculos luminosos, no amplo seio amostrando com orgulho e abrigando com carinhos de avoengo o nicho tremeluzente, e pelo atormentado e largo bracejar da ramaria o múltiplo rosário das lâmpadas pingendo, facetadas, límpidas, fulgurantes como lágrimas de alegria.
Entretanto pela ampla e redonda extensão que êste luaceiro de festa abrangia, apinhada e confusa a ronda do populacho crescia, amontoava-se... o vago marulho da sua agitação fanfurriava em ritmos bárbaros, vibrava em cânticos, era avivado em singelas dolências pela sublinha sensual das tocatas e descantes... e a quando em quando, sob a estralada esfusiante dos fogos de artifício, à flor dêsse revôlto mar, reverberava então cá em baixo, em pinceladas goyescas, por instantes, a floresta alvar das suas cabeças em delírio.—Fazia aprazívelmente o Silveira o interessado circuìto do recinto, quando súbito, na compacta maré montante de figuras que do exterior vinham ávidas colar-se à grade do jardim, lhe pareceu distinguir um rosto seu conhecido. Irresistivelmente, adiantou-se... e, com efeito! era Luísa, a linda e fresca morenita, que na sua adorável rusticidade ali viera poisar, e que enlevada e imóvel, por um alheamento de indizível beatitude os sentidos presos e a atenção suspensa, no perfil garboso e enérgico do seu bravo defensor cravava encantada os grandes olhos negros.
Então o Silveira, entre lisonjeado e surprêso, com uma doçura cantante na expressão aproximou-se.
—Ó Luísa! A minha querida amiguita tambêm por aqui?... Como vais tu?
Por única resposta, ela teve um breve sorriso de êxtase a encrespar-lhe os lábios, e logo, còrando ligeiramente, baixou os olhos. O Silveira tornou:
—Que bôa idéa tiveste! Mas que fazes aí assim? porque não entras?
Sem articular palavra, sem se mover, Luísa manteve a mesma atitude retraída e humilde.
—Anda!—carinhoso e afável o Silveira insistiu.—Não queres comer?... não vens dançar?
Luísa movia a cabeça negativamente, fechada sempre na mesma inércia contemplativa, sem romper o seu mutismo.
—P'ra que vieste então?
Ela agora por fim, com voluptuosa pausa volvendo a abrir as brumas pálpebras, e na cálida demanda do seu galhardo interlocutor o fogo latente do olhar chispando, numa velada ternura balbuciou, singelamente:
Para verlo...
O Silveira sorriu e num estremeção de vaidade, medíocremente sensível à tímida e incontida expansão da rapariga, insinuou a mão pelos ferros e acariciou-lhe ao de leve a face tostada e redonda.
E partiu a seguir, por que em cima, junto à residência, uma salva de morteiros anunciava o início do concurso coreográfico, e êle fazia parte do júri. Então a pintalgada e densa coluna das várias músicas e bailados que insofrida se achava a postos, começou montando a ladeira suave do jardim para ir marcialmente desfilar e luzir seus méritos frente ao estrado posto a meio da galeria,—ante a mirada crítica de Maria Mercedes, tôda de branco,—e seguindo num grosso e infindável coleamento, apartados por castas, distintos pelas côres, opostos pelos ritmos, todos cantando, vibrando, saltitando, numa grande coreia dionisíaca que era a encantadora revivescência de algum atrevido fresco pagão, na espontânea impetuosidade e na vida instintiva do seu movimento afirmando a irmanação genésica do homem com a Natureza, das almas com as coisas. Foi primeiro o tango, êsse gracioso hino da lascívia, impregnado de malícia picaresca, uma dança de perdição feita de lânguidos requebros, a um tempo trágicos e sensuais, exprimindo líricamente a conjunção fatal do amor e da morte; depois as corriqueiras vidalitas, acompanhadas a viola e tamboril, crónica leve e sugerente de façanhas guerreiras, de zombeteiros chismes e cómicas aventuras; a seguir, os tristes, lembrando os nossos fados, gemendo um ritmo atormentado e dolorido, quáse religioso, que dá a vaga sensação do mistério, da solidão, do infinito; as jotas e sevillanas no seu saracotear febricitante, a tarantela no seu académico balanceio, o trepák no seu simbolismo ingénuo; e o desenvôlto gato, o mesurado pericón; as baturras, soleares, farandolas, chulas, fandangos... e quantos mais.—Durante horas seguidas, assim na calma benéfica da noite, sob o jôrro delirante dos aplausos e na sua estúrdia ronda aquecendo a fria majestade do deserto, se agitou dançando tôda essa corda guizalhante de rústicas melopeias. E quando já os primeiros alvores da manhã clareavam o horizonte, ainda, na debandada final, a sua interminável cola sonora se via impetuosa e louçã, desparramada a rabejar pelos caminhos.