SCENA I
CIGANUS, apontando o pergaminho e rindo:
Necrológio a assinar pelo defunto!
MAGNUS, com gravidade:
É urgente:
Salvamo-nos…
OPIPARUS, acendendo um charuto:
Perdendo a honra… felizmente!
Inda bem! inda bem! vai-se a ária das Quinas…
MAGNUS, convicto:
Glorioso pendão sôbre um castelo em ruínas…
OPIPARUS:
O pendão! o pendão!… um trapo bicolor,
A que hoje o mundo limpa o nariz… por favor.
CIGANUS:
Emquanto a mim, que levem tudo, o reino em massa,
Pouco importa; o demónio é que o levem de graça.
Mas agora acabou-se!… e, em logar de protesto,
Vejamos antes se o ladrão nos compra o resto…
Um bom negócio… hein?!… manobrado com arte…
OPIPARUS, soprando o fumo do charuto:
Dou por cem libras, quem na quer? a minha parte…
MAGNUS, grandioso:
Quando d'ânimo leve o príncipe assim fala,
Não se queixem depois que a dinamite estala,
Nem se admirem de ver o país qualquer dia
Na mais desenfreada e tremenda anarquia!
Prudência! haja prudência, ao menos, meus senhores…
É grave a ocasião… gravíssima!… Rumores
De medonha tormenta andam no ar… Cuidado!
Não desanimo, é certo… Um povo que deu brado,
Uma nação heróica entre as nações do mundo,
Há-de viver… É longo o horizonte e é fecundo!…
Creio ainda no meu país, na minha terra!…
Guardo a esp'rança…
OPIPARUS:
Bem sei, no Banco de Inglaterra…
A esp'rança e dois milhões em oiro, tudo à ordem…
Não é isto?…
MAGNUS, embaraçado:
Exagêro… exagêro… Concordem…
Sim, concordem… pouco me resta e pouco valho…
Mas o suor duma vida inteira de trabalho…
Economias… bagatela… um nada… era mister…
No dia d'àmanhã, com filhos, com mulher…
Entendem, claro está… era preciso, emfim,
Segurança… Não me envergonho… Emquanto a mim,
Posso falar de cara alta… o meu passado…
OPIPARUS:
Se é mesmo a profissão do duque o ser honrado!
É o seu modo de vida, o seu ofício… Creio
Que é daí… que é daí que a fortuna lhe veio:
Ninguêm lho nega… O duque é dos bons, é dos puros…
E a virtude a render, a dignidade a juros
Acumulados… Francamente, eu noto, eu verifico
Que era caso de estar muitíssimo mais rico…
O duque foi modesto: a honra de espartano
Não a deu nem talvez a dois por cento ao ano!
MAGNUS, sorrindo constrangido:
Má língua!…
CIGANUS, com seriedade irónica:
O nosso duque a ofender-se… que asneira!
O príncipe graceja… histórias… brincadeira…
À honradez do duque, inteiriça e macissa,
Todo o mundo lhe faz a devida justiça…
Mas vamos ao que importa,—ao bom pirata inglês…
MAGNUS:
El-rei assinará?… o que julga, marquês?
OPIPARUS:
El-rei nesse tratado é rei como Jesus,
E, portanto, vão ver que o assina de cruz.
CIGANUS:
Sem o ler. Quem duvída? Assinatura pronta!
Paris vale uma missa e Lisboa uma afronta.
E, em suma, concordemos nós que um mau reinado,
Por um bom pontapé, fica de graça, é dado.
A el-rei àmanhã nem lhe lembra. Tranqùilo,
Dormirá, jantará, pesará mais um kilo.
Uma bóia de enxúndia; um zero folgazão,
Bispote português com toucinho alemão,
OPIPARUS:
Sensualismo e patranha, indif'rença e vaidade,
Gabarola balofo e glutão, sem vontade,
Às vezes moralista, (acessos de moral,
Que lhe passam jantando e não nos fazem mal)
Eis el-rei. Um egoismo obeso, alegre e loiro,
Unto já de concurso e de medalha d'oiro.
Termina a dinastia; e Deus, que a fez tamanha,
Põe-lhe um ponto final de oito arrobas de banha…
Laus Deo!
MAGNUS:
Que má língua! El-rei, coitado! uma criança,
Nem leve culpa tem nos encargos da herança…
Não se aprende num dia a governar um povo…
E em casos tais, em tal momento, um homem novo,
Habituado á lisonja, habituado ao prazer…
Maravilhas ninguêm as faz… não pode ser!…
El-rei é bom! El-rei é um espírito culto,
Ilustrado… Não digo, emfim, que seja um vulto,
Um talento, uma coisa grande de espantar;
Mostra, porêm, cordura, o que não é vulgar…
Cordura e senso… Eu falo e falo com razão…
Não minto… sou cortês, nunca fui cortesão!
Duque e plebeu… vim do trabalho honrado que magôa…
Não lisonjeio o povo e não adulo a C'roa.
Os defeitos d'el-rei?… Não me custa o dizê-lo:
Eu quisera maior int'resse… maior zêlo…
Mais idade, afinal… Deixem correr os anos,
E hão-de ver o arquetipo exemplar dos sob'ranos.
OPIPARUS, sorrindo:
Ingénua hipocrisia, duque… Olhe que el-rei
Conhece-nos a nós, como nós a el-rei…
CIGANUS:
Sabem? Dá-me cuidado el-rei… dá-me cuidado…
Melancolia… um ar de nojo… um ar de enfado…
Sem comer, sem dormir, não repousa um minuto,
E é raríssima a vez que êle acende um charuto.
OPIPARUS:
Indício bem pior: ha já seguramente
Três dias que não vai à caça e que não mente.
Ora, se el-rei não mente e não fuma e não caça,
É que não anda bom, não anda…
MAGNUS:
Que desgraça!
Pudera! hão-de afligi-lo, e com toda a razão,
As tremendas calamidades da nação.
Cada hora um desastre, um infortúnio… Eu scismo,
Eu olho… e vejo perto o cairel dum abismo!
OPIPARUS:
Oh, nunca abismo algum tolheu el-rei, meu amo
De aldravar uma pêta ou de caçar um gamo.
CIGANUS:
E depois o cronista-mór, tonto e velhaco,
A insinuar-lhe, a embeber-lhe endróminas no caco,
Telepatias, bruxarias, judiarias
Do Livro das Visões, Sonhos e Profecias.
O que vale é que el-rei, um gordo hereditário,
Pesa de mais para profeta ou visionário.
Não me assusta…
MAGNUS, confidencial:
Marquês… dum amigo a um amigo!
Entre nós… fale franco: a ordem corre p'rigo?…
O mal-estar… desassocêgo… uma aventura…
Os quarteis… Diga lá: julga a C'roa segura?…
CIGANUS:
Segura e bem segura. Equivocar-me hei,
No entretanto, parada feita: jógo ao rei!
Neste lance… No outro… A inspiração é vária,
E bem posso mudar para a carta contrária.
OPIPARUS:
De maneira que apenas eu, sublime idiota,
Guardo fidelidade ao rei nesta batota!
Alapardou-se em mim o dever e a virtude!
Quando o trono de Afonso Henriques se desgrude,
Eu cá vou com el-rei… Isto da pátria e lar
É boa fêmea, bom humor e bom jantar,
O ditoso torrão da pátria!… que imbecis!
No globo não há mais que uma pátria: Paris.
A nossa então, que choldra! Infecta mercearia,
Guimarães, Policarpo, Antunes, Braga & C.^a!
Um horror! um horror! Não temam que proteste,
Se emigrando me vejo livre de tal peste.
Fico por lá… não torno mais… fico de vez…
O que é preciso é bago… Ora, você, marquês,
Adorável canalha e salteador galante,
Não me deixa embarcar el-rei como um tunante,
El-rei que vai viver por côrtes estrangeiras,
Sem duas dúzias de milhões nas algibeiras…
Eu sou trinchante-mór, e conservo o lugar,
Havendo, claro está, faisões para trinchar!…
MAGNUS, imponente:
Incrível! No momento grave em que a Nação
Dorme (ou finge dormir!) à beira dum vulcão,
Nesta hora tremenda, hora talvez fatal,
Há quem graceje como em pleno carnaval!
E assim vamos alegremente, que loucura!
Cavando a todo o instante a própria sepultura…
No dia d'àmanhã ninguêm pensa, ninguêm!
Os resultados vê-los hão… caminham bem…
Divertem-se com fogo… Olhem que o fogo arde…
E extingui-lo depois (creiam-me) será tarde…
Já não é tempo… As lavaredas da fogueira
Abrasarão connosco a sociedade inteira!
A mim o que me indigna e ruborisa as faces
É ver o exemplo mau partir das altas classes,
Sem se lembrarem (doida e miserável gente!)
Que as vítimas seremos nós… infelizmente!
Não abalemos, galhofando, assim à tôa,
A égide do Scetro, o prestígio da C'roa!
Quando a desordem tudo infama e tudo ameaça,
A Rialeza é um penhor…
CIGANUS:
Destinado a ir à praça.
Questão d'anos, questão de mês ou questão d'hora,
Segundo ronde a ventania lá por fora…
Observemos o tempo… anda brusco, indeciso…
Não arme o diabo algum ciclone d'improviso!…
O trono, defendê-lo emquanto nos convenha;
Depois… trono sem pés já não é trono, é lenha.
Queima-se; e no braseiro alegre a chamejar
Cozinhamos os dois, meu duque, um bom jantar!…
O duque a horrorizar-se!… Eu conspiro em segrêdo…
Pode ouvir, pode ouvir… duque, não tenha mêdo!
A república infame, a república atroz,
Uma bela manhã será feita por nós,
Meu caro duque!… E o presidente…
Ora quem… ora quem, duque de S. Vicente?!…
O duque! Não há outro, escusado é lembrar!…
Um prestígio europeu… a independência… o ar…
Não há outro!… d'arromba!… à verdadeira altura!…
Todas as condições, todas… até figura!
Parece um rei! que nem já sei como se move
Com as trinta gran-cruzes…
MAGNUS, lisonjeado:
Upa!… trinta e nove!
CIGANUS:
Trinta e nove gran-cruzes, hãn! no mesmo peito…
Caramba, duque!… é bem bonito… é de respeito!
E o povo gosta, deixe lá… De mais a mais
Duque e plebeu…
MAGNUS, com dignidade:
Não me envergonho de meus pais!
Filho dum alfaiate… Honra-me a origem!…
CIGANUS:
Sei…
E nobreza tão nobreza é que a não dá el-rei.
Nobreza d'alma! Emfim, meu duque, nem pintado
Se encontraria igual para chefe do Estado!
Queira ou não queira, pois, o meu ilustre amigo…
MAGNUS, solene:
Eu lhe digo, marquês… eu lhe digo… eu lhe digo…
Devagar… devagar… Um problema importante,
Que exige reflexão, maturação bastante…
Sou monárquico… Fui-o sempre!… Inda hoje creio
O trono liberal o mais sólido esteio
Do Progresso e da Paz e a melhor garantia
Da justa, verdadeira e sã Democracia.
Não precisamos outras leis… Há leis à farta!
Executem-nas!… Basta executar a Carta!
Cumpram as leis!… Dentro da Carta, realmente,
Cabem inda à vontade o futuro e o presente…
É êste o meu critério… e já agora não mudo!…
Honrosas convicções, filhas dalgum estudo
E muitas brancas… Mas, emfim, se as loucuras alheias…
Desvairamentos… circunstâncias europeias…
Derem de si em conclusão regímen novo,
Acatarei submisso os ditames do Povo!
Monárquico e leal… no entretanto, marquês,
Antes de tudo, sou e serei português!!
Ao bem da Pátria em caso urgente, em horas críticas
Não duvido imolar opiniões políticas!
Darei a vida até, quando preciso fôr!!
CIGANUS:
El-rei que chega…
MAGNUS, curvando-se:
Meu Senhor!
CIGANUS:
Meu Senhor!
OPIPARUS:
Meu Senhor!