SCENA II

*Os mesmos e o rei*

Os três cães acodem festivos ao monarca

O REI, sombrio e melancólico, repelindo os cães:

Que noite!

CIGANUS:

Vendaval furioso!

OPIPARUS:

Noite rara
Para uma ceia de champagne e mulher cara…

O REI:

Faz-me nervoso a noite…

MAGNUS:

É da atmosfera espessa…
Eléctrica… Atordôa e desvaira a cabeça…

O REI, apontando o pergaminho:

O tratado?

CIGANUS:

O tratado.

MAGNUS:

Um pouco duro… El-rei…

O REI, indiferente:

Seja o que fôr… seja o que fôr… assinarei…

Vai ao balcão, ficando abstracto, a olhar a noite.

MAGNUS:

Não há dúvida; el-rei anda enfêrmo… é evidente…

OPIPARUS:

Galhofeiro, jovial, bom humor permanente,
Scéptico, dando ao demo as paixões e a tristeza,
Caçador, toireador, conviva heróico à mesa…
Pobre do rei… quem o diria!… que mudança!
Oxalá que a loucura, a vir, lhe venha mansa…

CIGANUS:

O ratão do cronista é que o tem posto assim,
Com mistérios em grego e aranzeis em latim…

Trovão formidável.

O REI, voltando do balcão:

Que noite!

MAGNUS:

Uma trovoada enorme!… Causa horror!…

Ciganus desdobra o pergaminho e vai ler o tratado.

O REI:

Leitura inútil… Deixa lá… Seja o que fôr…
Seja o que fôr… adeus!… assinarei…

CIGANUS:

Perfeito.
Não há balas? Resignação; não há direito.
Se entra no Tejo de surpresa um coiraçado,
Quem vai metê-lo ao fundo, quem? A nau do Estado
Com bispos, generais, bachareis, amanuenses,
Pianos, pulgas, mangas d'alpaca e mais pertences?
A esquadra? vai a esquadra rial, um meio cento
De alcatruzes, bidés e banheiras d'assento?
Sacrificar a vida à honra? Acho coragem,
Mas a honra sem vida é de pouca vantagem;
Não se goza, não vale a pena. A vida é boa…
Defendamos a vida… e salvemos a C'roa.

MAGNUS, eloqùente:

E salvemos a C'roa! A vida eu da-la-ia
Pela honra da Pátria e pela Monarquia!
Somos filhos de heróis! mas nesta conjuntura
A resistência é um crime grave, uma loucura!
Um país decadente, isolado na Europa,
Sem recursos alguns, sem marinha e sem tropa,
Tendo no flanco, àlerta, o velho leão de Espanha,
Arrojar doidamente a luva à Gran-Bretanha,
Oh, pelo amor de Deus! digam-me lá quem há-de
Assumir uma tal responsabilidade?!!…
A pátria de Albuquerque, a pátria de Camões
Abolida era emfim do mapa das nações!
Guardemos nobremente uma atitude calma!
Recolhamos a dôr ao íntimo da alma,
E o castigo do insulto, o prazer da vingança
A nossos netos o leguemos, como herança!
Que Deus há-de punir (é justiceiro e é bom)
A moderna Cartago, a triunfante Albion!
Saiba, porêm, El-rei que o brio português
O defendemos nós ante o leopardo inglês,
À fôrça de critério e sisuda energia,
No campo do direito e da diplomacia!
Com as Instituìções por norte e por escudo,
Fizemos tudo quanto era possível!—tudo!!

OPIPARUS, ao rei, galhofando:

Quer o duque dizer que ambiciona o colar
Do Elefante Vermelho e do Pavão Solar…

MAGNUS, com indignação e nobreza:

Não requeiro mercê tão grandiosa e tão alta,
Conquanto seja ela a que ainda me falta.
O Elefante e o Pavão! Um colar e uma cruz
A que sómente os reis e os príncipes tem jus!
Não ouso… Mas, se um dia a gran munificência
Da C'roa houver por bem, (florão duma existência!)
Conceder-ma!……………………………..
Que, deixem-mo explicar: eu, medalhas e fitas,
Não é por ser vaidoso ou por serem bonitas,
Que as ostento… Plebeu nasci, de bom quilate…
Não o escondo a ninguêm: meu pai era alfaiate.
Ora, num peito humilde e franco uma medalha,
Como que atesta e diz ao homem que trabalha,
Ao povo que moireja em seu ofício duro,
Que hoje na monarquia é dado ao mais obscuro
Guindar-se à posição mais alta e mais egrégia,
Por direito,—que é nosso! e por mercê,—que é régia!
Escritura de luz que em vivo amplexo abarca
O Povo e a Sob'rania augusta do Monarca!

CIGANUS:

Meu caro duque, muito bem… Vamos agora,
Resolvida a questão, assinar sem demora
O pergaminho…

O REI:

Assinarei… Deixem ficar.

CIGANUS:

E emquanto às convulsões do leão popular,
Como diria o nobre duque, afoitamente
Respondo pelo bicho: um cão ladrando à gente:
Dobrei guardas, minei as pontes à cautela,
E fica a artilharia em volta à cidadela.
Não há p'rigo nenhum. Durma El-rei sem temor.
Boa noite, Senhor…

MAGNUS, curvando-se até ao chão:

Meu Senhor!

OPIPARUS:

Meu Senhor…

Saem os três.

MAGNUS, vai pensando:

Ora, se o filho do alfaiate qualquer dia
Inaugurava ainda a quinta dinastia!…
Eu sentado no trono!… Eu rei de Portugal!!…
Que, rei ou presidente, emfim é tudo igual…
Muita finura agora e muita vigilância,
Observando e aguardando as coisas a distância!…
Magnus! lume no ôlho e não te prejudiques…
Eu suceder, caramba! a D. Afonso Henriques!!…