SCENA IX
O REI, sentando-se cómodamente ao fogão:
Ora do doido estou eu livre! Agasalhei-o,
Matei-lhe a fome, e agora quente, o ventre cheio,
Cama bem farta, vai dormir e repousar,
E não volta por certo esta noite a cantar…
Repotreando-se alegremente.
Uff! sinto-me bem! volto a mim…
Trincando um charuto e voltando-se para Ciganus:
Dá-me lume.
Ia perdendo o vício… É da regra… é o costume…
Em não fumando, mau negócio! ando esquisito…
Pois àmanhã caçada e toirada, 'stá dito!
Hei-de abater, e sem fazer lá grandes fôrças,
Dôze toiros, trezentas lebres e cem corças.
OPIPARUS, àparte:
Já mente… Vai melhor!
Tiros ao longe. Clamor distante. Os cães ululam.
O REI, sobressaltado:
Ouvi… ouvi!… ouvi!…
Tiros… detonações… é próximo daqui…
Fusilaria!… Ouvi… Que demónio se passa?!…
CIGANUS:
São os guardas d'El-Rei, que andam de noite à caça…
O REI:
De noite à caça!
CIGANUS:
Montaria aos lôbos, meu Senhor…
O REI:
Dei cabo dum aqui há tempos… Que vigor,
E que tamanho! Era de noite… foi na estrada…
Caíu logo no chão à primeira mòcada!
Tenho morto dúzias de lôbos e de lôbas,
Nenhum assim: pesava umas quarenta arrobas.
OPIPARUS, àparte:
Sim senhor, eis El-Rei já no estado normal!
Ouvem-se marteladas cavas e repetidas nos subterrâneos profundos do palácio.
O REI:
Que barulho lá baixo!… Um estrondo infernal
De marteladas!… Santo Deus! nem trinta diabos juntos,
Pregando a toda a pressa esquifes de defuntos!
OPIPARUS, rindo:
Gente carpinteirando em tábuas e barrotes,
Não para esquifes, meu Senhor; para caixotes!
Mandei encaixotar (a providência é boa)
Os milhões do tesoiro e as baixelas da c'roa.
E em quanto à c'roa, Senhor meu,
Ninguêm lha roubará, ninguêm!, defendo-a eu.
O trono… o que é um trono? uma simples cadeira
De veludo já gasto e de vélha madeira.
É, pois, minha profunda e sábia opinião
Deixá-lo ir sem resistência… A c'roa, não!
A c'roa é d'oiro fino, esmeraldas, diamante,
Turquezas e rubins… (uns dois milhões cantantes!)
E portanto, Senhor, havemos de levá-la,
Há-de ir connosco, ao pé de nós, dentro da mala!
CIGANUS, pensando e rindo:
C'roa de procissão… rica para um andor:
Pedras falsas; troquei-lhas eu; vidros de côr.
OPIPARUS, continuando:
E comido o banquete e devorada a presa,
Bem nos importa a nós erguermo-nos da mesa!
Partiremos a rir, terminado o dessert,
Levando cada qual na algibeira o talher…
Com três milhões de renda, um pecúlio feliz,
Grande vida a dum rei destronado em Paris!…
O REI:
É cínico, mas tem pilhéria êste demónio!…
OPIPARUS:
Bom estômago e ventre livre: um património!
A vida é bôa ou má, faz rir ou faz chorar,
Conforme a digestão e conforme o jantar.
Pode crê-lo, Senhor, toda a filosofia,
Ou tristonha ou risonha ou alegre ou sombria,
Deriva em nós, tão orgulhosas criaturas,
De gastro-intestinais combinações obscuras.
O REI:
E a moral?
OPIPARUS:
Rica farça a moral! Não me ilude.
Examinem qualquer vendedor de virtude,
Casto como um carvão, magro como um asceta:
A abstinência é impotência, o jejum é dieta.
O diabo, meu Senhor, já vélho e desdentado,
Sifilítico, a abanar como um gato pingado,
O trazeiro sarnoso, em gangrena a medula,
Exaurido a chupões de luxúria e de gula,
Sentindo-se perdido e rabiando, afinal
Quis vingar-se do mundo… e inventou a moral!
O REI, pensando:
E, se eu ós pontapés desancasse esta corja,
Ia às malvas… adeus! tinha banzé na forja!…
Fundeou na praia uma galera de corsários. Desembarcam.
O DOIDO, na escuridão:
A lua morta bóia nas nuvens toda amarela…
Corvos marinhos, corvos daninhos poisam sôbre ela…
Tiram-lhe os olhos, comem-lhe a bôca, já com grangrena…
Astros errantes, agonizantes, choram de pena…
Choram de pena, tremem de mágoa, morrem de dôr…
Na noite escura canta a Loucura, grita o Pavor…
Lôbas tinhosas d'olhos d'enxofre saltam valados…
Pobres dos gados!… pobres dos gados pelos montados!…
O REI:
Olha o doido!… Lá torna o doido… Eu logo vi…
Canta p'raí até 'stoirar… canta p'raí!…
Bom telhudo! em pelote e com êste nordeste,
A ladrar cantochões à lua!… Que lhe preste!
CIGANUS:
Deixe lá! faz-lhe bem… faz-lhe bem… P'rá mania
Não há nada melhor do que o vento e água fria.
Rebenta, fora, um grande tumulto. O rei e os validos assomam-se ao balcão. Vem debandando, clamorosa, a revolta vencida. Soldados, prisioneiros, feridos, moribundos em macas. Ais de estertor, pragas, vivas avinhados, gritos de mulheres, choros de crianças. Os cães, truculentos, ululam na varanda.
O REI:
Que é isto?!… que estardalhaço!… que chinfrineira!…
Gritarias… um rodilhão… Temos asneira…
Temos coisa… não há que ver, temo-la armada…
CIGANUS, rindo:
É a guarda d'El-Rei, de volta da caçada.
Os monteiros são bons… a matilha é valente…
OS SOLDADOS, em clamor:
Viva El-Rei! viva El-Rei!
O REI:
Compreendo. Excelente!
Ora que espiga! por um triz, hãn! por um triz,
Não vou às malvas! Ando em sorte!… fui feliz!…
Iam-me empandeirando! um cheque e mate ao rei!
Ora a cáfila! ora a cambada!… Se eu o sei,
Com mil bombas! que os desfazia!… Eu lhes diria!
Oh, que porradaria! oh, que porradaria!
Rebentava-os! dava-lhes conta do bandulho
E dos cornos, mas à paulada! era a 'stadulho!
Quando o trono cair, sem lenha é que não cai…
Mostarda rija! O banazola de meu pai
Tinha-os em mau costume… Isto agora é p'rigoso…
Aqui há unhas p'ros coser… olá, se os coso!
Entra um cavaleiro, portador duma mensagem.
CIGANUS, depois de a ler:
Montaria real! Foi covil por covil:
Feras mortas oitenta e prisioneiras mil.
O REI:
Dois gajões duma cana! Obra de lei!… Entrego
Nas vossas mãos o meu destino, como um cego.
Marquês, faço-te duque; e ao ducado acrescento
Quinze milhões… Encaixa a história no orçamento…
Opiparus, a ti, reinadio e marau,
Pago-te os cães: trezentos contos…
OPIPARUS:
Não é mau;
Recebendo eu o bôlo e fazendo a partilha;
O meu grande credor sou eu. Quanto à matilha,
Que se esfalfe a ganir… Não me incomoda nada…
O REI, voltando-se para os cães:
Iago, aboca! Olha o petisco: uma embaixada!
Faço-te embaixador! hãn, que empanzinadelas!…
Que vidinha!… Um sultão num harem de cadelas!…
A êste Judas circunspecto que hei-de eu dar?
O Conselho d'Estado; é próprio e é bom logar.
Conselheiro, portanto. E o Veneno? O Veneno,
Conde e ministro. Um felizardo o meu pequeno!
Um catita!
Acendendo um charuto e indo à varanda:
Perfeitamente! Ora Deus queira
Que abichemos um dia bom p'ra pagodeira!
Um dia alegre! O tempo muda… ronda ao norte…
Magnífico! hão-de ver dôze toiros de morte,
Desembolados! Inauguro emfim a minha praça:
Vai o Botas, o Pintassilgo e o Calabaça.
O DOIDO, na escuridão:
Ao luzir d'alva semeei de flores
Uma encosta deserta ao pé do mar
Cravos, lírios, jasmins, goivos, amores,
Açucenas e rosas de toucar.
Ao redor vinha verde e trepadeiras,
Medronheiros, figueiras, romanzeiras…
Lindo jardim! Lindo pomar!
Como no monte não havia fonte,
Desatei a chorar para o regar…
Depois, oh meus feitiços!
Enchi de abelhas d'ouro cem cortiços
E dez pombais com pombas de luar…
Olha o lindo jardim!… olha o lindo pomar!…
E enxada ao ombro, já raiava a aurora,
Abalei a cantar!…
Foi há mil anos… Venho mesmo agora
De ver a linda encosta à beira mar…
Lindo jardim! lindo pomar!
As açucenas deram-me gangrenas
E os jasmins podridões a fermentar!…
Os cravos deram cravos… mas de cruzes!
E as roseiras espinhos de toucar…
Sôbre as ervas no chão crepitam luzes,
Fogos fátuos de larvas a bailar…
Só dos goivos, Senhor, brotaram goivos,
Destilando loucura e rosalgar…
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
Os figos das figueiras são caveiras
E os medronhos são balas de matar…
Oh, que lindas romãs nas romanzeiras!
Corações fusilados a sangrar!…
Inda bem, que em vez d'uvas nas videiras
Há rosários de dor para eu rezar…
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
De dentro dos cortiços, que feitiços!
Voam corvos e c'rujas pelo ar…
E dos pombais, aos centos,
Nuvens de abutres agoirentos,
Que sôbre as romanzeiras vão poisar!…
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
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É de encantar a natureza!… ai que beleza!
Quantas florinhas para a minha mesa!…
Deus, quanta fruta para o meu jantar!…
Lindo jardim… lindo pomar!…