SCENA VIII

Entram Opiparus e Astrologus.

O REI, ao cronista-mór:

Conheces porventura
Êste doido?

ASTROLOGUS:

Conheço.

O REI:

É doido?

ASTROLOGUS:

Na figura,
Na voz, no olhar, em tudo o podeis ler, Senhor.

O REI:

E como endoideceu?

ASTROLOGUS:

De miséria e de dôr.

O REI:

Há muito?

ASTROLOGUS:

Vai fazer três séculos…

CIGANUS:

A vista
Do espantalho endojou a mioleira ao cronista…

O REI:

Três séculos!… caramba! então que idade tem?
Mil anos?…

ASTROLOGUS:

Quási…

OPIPARUS:

Pronto! endoideceu tambêm!

ASTROLOGUS:

A mil não chega ainda; oitocentos…

CIGANUS:

Coitado!
Endoideceu! doido varrido e confirmado!

O REI:

Gracejas?

ASTROLOGUS:

Não perdi a razão, nem gracejo…
Acaso, meu Senhor, não vedes, como eu vejo,
Neste gigante, em seu aspecto e seu fadário,
O quer que seja de extra-humano e de lendário?
Maior que nós, simples mortais, êste gigante
Foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
Seu torrão dilatou, inóspito montado,
Numa pátria… E que pátria! a mais formosa e linda
Que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro,
Hortas a rir, vergeis noivando em frutos d'oiro,
Trilos de rouxinóis, revoadas de andorinhas,
Nos vinhedos pombais, nos montes ermidinhas,
Gados nédios, colinas brancas, olorosas,
Cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas,
Selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
D'olivais, por nogais frautas de pegureiros,
Rios, noras gemendo, azenhas nas levadas,
Eiras de sonho, grutas de génios e de fadas,
Riso, abundância, amor, concórdia, juventude,
E entre a harmonia virgiliana um povo rude,
Um povo montanhês e heróico à beira-mar,
Sob a graça de Deus, a cantar e a lavrar!
Pátria feita lavrando e batalhando: Aldeias
Conchegadinhas sempre ao torreão de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
Por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas.
E a dar a fé, a dar vigor, a dar o alento,
Grimpas de catedrais, zimbórios de convento,
Campanários de igreja humilde, erguendo à luz,
Num abraço infinito, os dois braços da cruz!
E êle, o herói imortal duma empresa tamanha,
Em seu tuguriosinho alegre na montanha
Simples vivia,—paz grandiosa, augusta e mansa,
Sob o burel o arnês, junto do arado a lança.
Ao pálido esplendor do ocaso na arribana,
Di-lo-íeis, sentado à porta da choupana,
Ermitão misterioso, extático vidente,
Olhos no mar, a olhar sonambólicamente…
—«Águas sem fim! ondas sem fim!… Que mundos novos
De estranhas plantas e animais, de estranhos povos,
Ilhas verdes alêm… para alêm dessa bruma,
Diademadas de aurora, embaladas de espuma!…
Oh, quem fôra, através de ventos e procelas,
Numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas,
A demandar as ilhas d'oiro fulgurantes,
Onde sonham anões, onde vivem gigantes,
Onde há topázios e esmeraldas a granel,
Noites de Olimpo e beijos d'âmbar e de mel!»
E scismava e scismava… As nuvens eram frotas
Navegando em silêncio a paragens ignotas…
—«Ir com elas… fugir… fugir!…»—[~U]a manhã,
Louco, machado em punho, a golpes de titã
Abateu impiedoso o roble familiar,
Há mil anos guardando o colmo do seu lar.
Fez do tronco num dia uma barca veleira,
Um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira…
Manhã d'heróis… levantou ferro… e, visionário,
Sôbre as águas de Deus foi cumprir seu fadário.
Multidões acudindo ululavam de espanto.
Vélhos de barbas centenárias, rosto em pranto,
Braços hirtos de dor, chamavam-no… Jàmais!
Não voltaria mais!… oh, jàmais… nunca mais!…
E a barquinha, galgando a vastidão imensa,
Ia como encantada e levada suspensa
Para a quimera astral, a músicas de Orfeus…
O seu rumo era a luz, seu piloto era Deus!
Anos depois volvia à mesma praia emfim
Uma galera d'oiro e ébano e marfim,
Atulhando, a estoirar, o profundo porão
Diamantes de Golconda e rubins de Ceilão.
Naiades e tritões e ninfas, ao de leve,
Moviam-na a cantar sôbre espáduas de neve.
No estandarte uma cruz esquartelando a esfera;
E Vénus, voluptuosa, à proa da galera

Com o anjo cristão, virgem risonha e nua,
A mamar alvorada em seus peitos de lua!…
O argonauta imortal, quimérico gigante,
Voltava dos confins da epopeia radiante,
Estasiados ainda os olhos vagabundos
D'astros de novos céus, floras de novos mundos!

Epopeia inaudita! Herói, êle a viveu,
Sonhador, a cantou: Éschilo e Prometeu!
Inda em hinos de bronze, em estrofes marmóreas
Vibra eterno o clangor dessas passadas glórias…
Mas a glória entontece e mata… Deslumbrado,
Trocou por armas d'oiro as armas de soldado,
Vestiu veludo e sêda e lhamas rutilantes,
Estrelou de rubins, aljófares, diamantes
Sua espada de côrte e seu gibão de gala,
E, em vez do catre duro e pão negro de rala,
As molesas do Oriente e as orgias faustosas,
Com baixelas d'Olimpo e emanações de rosas…
Perdida a antiga fé, morta a virtude antiga,
Seu ânimo d'herói, caldeado na fadiga
De mil empresas, mil combates de titãs,
Domaram-no por fim braços de cortesãs.
Com o ferro vencera o oiro; em desagravo,
O oiro, que é mau, venceu-o a êle, tornando-o escravo.
Ingrato abandonara o teto paternal,
Em cuja mesa à ceia aldeã, herói frugal,
Eram de sua estreme e rústica lavoira
O pão moreno, o vinho claro e a fruta loira.
Deixou morrer o armento; e campos e vinhedos
Cobriram-se de tojo, ortigas e silvedos.
Em seus castelos e palácios rendilhados,
Sôbre leitos de arminho e veludo e brocados,
Entre beijos de harem e pompas de rajá,
Desfalecera o velho herói, caduco já.
Mas era bravo ainda, e por vezes nas veias,
Acordava-lhe o sangue, alvorando epopeias…
Num ímpeto de febre, aceso, arrebatado
Na visão deslumbrante e fulva do passado,
Ergueu-se um dia, louco e triste, alma quimerica,
Olhos em brasa a arder na face cadavérica…
Aparelhou galeões, velas brancas arfantes,
Cavaleiros aos mil, juvenis e brilhantes,
Galopando a cantar, descuidados e ledos
Lanças na mão, a pluma ao vento, aneis nos dedos,
Cada bôca uma flor, cada arma um tesoiro,
Rodelas d'oiro, arnezes d'oiro, espadas d'oiro,
Pedrarias astrais em setins e em veludos,
Drapejar de pendões, reverberos de escudos,
E as trombetas varando o céu leve de anil
Co'o estridente clangor do seu furor febril!
E, olhos em brasa a arder na face cadavérica,
Lá partiu, lá partiu, alma errante e quimérica,
À epopeia da glória, ao sonho aventureiro,
Ao sonho lindo… oh, sonho triste o derradeiro!…
Num mar d'areia, fogo em pó turbilhonando,
Sob o vitríolo da luz redardejando,
Entre as carnagens do combate desvairado,
Já trucidado, espostejado, aniquilado
Seu exército louco,—oh sonho louco e vão!—
O calmo herói, noite no olhar, gládio na mão,
Negro de fumo e pó, rubro de chama e sangue,
Os ilhais estoirando ao seu corcel exangue,
Arrojou-se, como um destino, erecto e forte,
À sangrenta hecatombe, à paz de Deus, à morte!
E a morte não no quis: exânime e desfeito,
De lançadas crivado o arnez, crivado o peito,
Sob o corcel tombou, por milagre inda vivo!
Levaram-no depois sem acôrdo e cativo.
Meio século preso e débil… De repente,
Num assomo de fúria e de cólera ardente,
Partiu grilhões, abriu o ergástulo fatal
E voltou livre, livre! ao seu torrão natal!…
Mas então, oh tristeza, oh desonra, oh desgraça!
Feras do mesmo sangue, homens da mesma raça
Envenenaram-no!…

Iago atira-se furioso ao cronista.

O REI, dando-lhe um pontapé:

Silêncio! deixa ouvir…
Tem cada uma êste cronista!…

Iago não obedece. Outro pontapé.

Deixa ouvir!
E quem foi?… e quem foi?…

Rosnam os cães, fusilando os olhos ao cronista.

ASTROLOGUS, embaraçado e perplexo:

Quem foi?… Mistério obscuro… enigma que se esconde…
Já li sôbre isso, não sei quando, nem sei onde,
Uma lenda qualquer…

Os cães enfurecem-se.

O REI:

Iago! Judas!… caluda!

ASTROLOGUS:

Mas nesse ponto, meu Senhor, a história…

Os cães ameaçam, desvairados.

é muda!…
…………………………………………….
Envenenaram-no, eis o facto, eis a verdade.
E às escuras, extinta a imortal claridade,
Louco autómato errante, alma cega e funérea,
Veio andando através do tempo e da miséria,
Mendigo como um cão e mártir como um Cristo,
Até chegar, meu Deus, vergonha eterna! a isto!!…
Vêde-o bem, vêde-o bem, o rude herói d'outrora:
Teve o mundo nas mãos, nos olhos d'águia a aurora.
E hoje, oh destino atroz! sem amparo e sem lar,
Tem andrajos no corpo e escuridões no olhar!…
Não no mandeis prender, eu vo-lo peço e requeiro!
É inofensivo… é manso e bom como um cordeiro…
Causam-vos mêdo, porventura, umas baladas
Que anda à noite a cantar, canções d'almas penadas?…
É a doudice, hórrida e má, que tumultua
Ou nas voltas do tempo ou nas fases da lua…
Não afronta ninguêm… Deixem-no ir, coitado!
Deixem-no com seu mal e seu negro cuidado,
A trovar pelo escuro e a viver pelos montes
De luz do sol, d'erva do campo e água das fontes…
…………………………………………….
Trás um livro na mão, reparai bem, Senhor:
Um livro usado, um livro gasto e sem valor…
Sem valor?!… Um tesoiro, uma história de encanto,
Que êle escreveu com sangue e hoje rega com pranto…
Não a larga da mão, anda-lhe tão afeito,
Que até dorme com ela escondida no peito…
Mas que miséria a sua e que destino o seu!
Quer ler… e não soletra o livro que escreveu!
Muitas vezes de tarde encontro-o a meditar
Sôbre rocha escarpada e nua à beira-mar…
Pega no livro então, abre-o sôfregamente,
E fica olhando, olhando, atónito e demente,
A epopeia d'outrora, a bíblia do passado,
Que lágrimas de fogo em sec'los tem queimado…
Mas ai! que serve olhar, se os olhos são janelas,
E se a alma é quem vê, quem espreita por elas!…
Fica a olhar… fica a olhar, hesitante e perplexo,
Balbucia, articula umas coisas sem nexo,
E, por fim, taciturno e torvo, aniquilado,
Como quem vislumbreia, horror!, o seu estado,
Fita as nuvens do azul… fita as ondas do mar…
E desata, em silêncio, a chorar!… a chorar!…
E depois vem a noite… e ali dorme ao relento,
Desamparado, abandonado, ao frio, ao vento,
Té que algum pescador, de manhã, pela mão
O recolha ao seu lar e lhe dê do seu pão!…
………………………………………

CIGANUS:

Bem o dizia eu… bem o dizia eu…
Êste cronista não regula… endoideceu!
Que histórias que êle inventa, o mágico!…

OPIPARUS:

Perlendas
De visionário tonto, inquiridor de lendas…
Vagueiam-lhe no caco obscuro, entre miasmas,
Lemures, avejões, duendes, monstros, fantasmas…

CIGANUS:

E no entanto calcula e discorre direito,
Se lhe cheira a questão de ganância ou proveito…

O REI:

Tantas magicações, tanto grego e latim
Turvaram-lhe a razão, deram com êle assim.
Pobre cronista! anda na lua… As trapalhadas,
As pandangas que êle arquitecta!… E bem armadas!
Bem armadas!… com certo dedo… Francamente,
Às vezes o ladrão quási embarrila a gente!
Põe-se-me a fantasiar uns casos de mistério,
Com tamanho palavriado e tanto a sério,
Que fico bêsta!… Ora o ratão! ora a inzonice!
Vejam lá, vejam lá, tudo que p'raí disse!
Os maranhões, a lenga-lenga, a choradeira
Sôbre um doido, coitado, a caír de lazeira!

Designando o doido:

Coitado! meio nu, faminto, vagabundo,
De charneca em charneca, aos tombos pelo mundo,
Sem ninguêm… vê-se bem que esta doida alimária
É de família pobre, é de gente ordinária.
E eu com receios e com mêdo! Visto ao longe,
Tão alto, um vozeirão, as barbaças de monge,
Era um horror! coitado! um maluco, afinal…

Aos guardas:

Deixem-no em liberdade e não lhe façam mal.
Não o espanquem… Ninguêm lhe bata… ordens severas!
Ninguêm bate num doido; os doidos não são feras.
Tratem-no bem… com caridade… Para a ceia
Uma côdea de pão e a gamela bem cheia.
Desgraçado! E dormir… dorme perfeitamente
Na estrebaria ao pé dos cães: é limpo e é quente.
Roupa grossa… Avisai lá em baixo a canalha…
Duas mantas de lã e três feixes de palha.
Não se esqueçam! cumpram as ordens que lhes dei!

ASTROLOGUS, curvando-se humildemente:

Ó alma generosa! Oh magnánimo rei!
Que agradável não é ser o cronista obscuro
De espírito tão alto e coração tão puro!

O doido sai acompanhado dos guardas. Os cães perseguem-no, ladrando, até à porta. Desencadeia-se a tormenta. Raios, trovões, aguaceiros, ventanias lúgubres. O rei e os validos dirigem-se ao balcão. O cronista acaricia os cães, galhofeiramente, sorrindo amável.

O CRONISTA, afagando Iago:

Iago, meu bom amor! faz'as pazes comigo!
Sabes quanto te quero e sei que és meu amigo…
Não te zangues… perdão… congracemo-nos, vá!
O doido foi-se embora e não torna a vir cá…
Havia de eu perder afeições como a tua,
Por causa dum maluco a divagar na lua?!…
Anda, não sejas mau… faz'as pazes comigo…
Meu protector… meu defensor… meu vélho amigo!…

Ameigando Judas:

E êste Judas!… tão bom… tão leal… tão sincero!…
Como eu gosto de ti, Judas! como eu te quero!…

Pegando no Veneno ao colo:

E o meu Veneno! o meu bijou! a rica prenda!…
Que amor de cão!… que perfeição!… Nem de encomenda!…
É de apetite o meu Veneno, o meu tesoiro…
Uma beijoca, vá, no focinhito loiro!…

Afagando os três cães simultaneamente:

E, para liquidar agravos duma vez,
Disponho-me esta noite a cear com vocês!

O REI, despedindo o cronista:

Cronista, vai dormir… boa noite… Deus queira
Que o sono te refresque um pouco a maluqueira…

O CRONISTA sai, pensando:

Na batalha da vida evidente se torna
Que ou havemos de ser martelo ou ser bigorna.
Conclusão natural do dilema singelo:
Evitar a bigorna triste… e ser martelo.
Monstruoso, feroz, horrível, mas em suma
Ponderemos que a vida é curta,—e que há só uma!