SCENA XI
O REI:
Ouvi!
OPIPARUS:
O mar.
CIGANUS:
Não é o mar; a ventania.
O REI:
Tambêm não… Escutai… escutai…
OPIPARUS:
Dir-se-ia
O confuso estridor, desordenado e vário
Dum exército louco, em tropel tumultuário…
O rei com os validos assoma-se ao balcão. Hordas inúmeras de esfarrapados, multidões de mendigos, turbas espectrais, homens e mulheres, vélhos e crianças, ululando, gritando, praguejando, baixam a montanha em direcção à praia, numa torrente caudalosa, numa levada contínua de sofrimento e de miséria. E o porão tenebroso do navio-fantasma engulindo, aos cardumes, vertiginosamente, aquela humanidade enlouquecida. E a enxurrada sinistra, avolumando, alastrando, cada vez mais tumultuária e bramidora. Dir-se-ia um povo de malditos, debandando a um cataclismo inexorável! Povo imenso, não tem fim, mas o navio não tem fundo. Cabe tudo lá dentro. Os cães, na varanda, rosnam, sombrios e provocantes.
O REI:
Que quer isto dizer?! que chinfrineira é esta?!…
Que balbúrdia!… que multidões sombrias!… temos festa!…
Oh, com mil raios! temos festa… Há banzé novo…
Que 'stardalhaço… Um mar de gente!… um mar de povo,
A correr, a crescer… Gritos, uivos, bramidos…
Era uma vez, marquês!… Pronto! estamos perdidos!…
CIGANUS, fleumático, acendendo um charuto:
Coisa vulgar, Senhor: emigrantes, miséria…
O REI:
Cuidei que era chinfrim de novo… Ora a pilhéria!
Cuidei que era chinfrim… E antes o fôsse! Ao cabo,
Zurzia-os duma vez a pontapés no rabo!
Punha-os de môlho! A garotada jacobina
Hei-de-lhe eu amolgar as trombas numa esquina!
Chegando-me ó nariz os vinagres, cautela!
Dá-me a fúria… e caramba! é d'alto lá com ela!
Em Évora uma vez, há coisa de dois anos,
Salta-me num caminho um bando de ciganos,
Era de noite, mais escuro do que um prego,
Atiro-me, arremeto às doidas como um cego,
E esbandulhei quarenta e quatro!… Um bom chinfrim!…
OPIPARUS:
A canhão Krup?
O REI, sacando, da algibeira, um navalhão de ponta e mola:
A naifa!
Com um gesto esfaqueante:
Eu cá é isto: assim!
O DOIDO, na escuridão:
A fome e a Dor escaveiradas
Ululam roucas nas estradas,
Irmãs sinistras de mãos dadas…
Misericórdia! Misericórdia!
Na escuridão, entre lufadas,
Que pavorosas debandadas
De multidões desordenadas…
Misericórdia! Misericórdia!
Turbas gemendo esfarrapadas,
Por ventanias e nevadas,
Filhos ao colo, ao ombro enxadas,
Sem luz, sem pão e sem moradas!…
Misericórdia! Misericórdia!
E em salas d'oiro, iluminadas,
Há beijos, risos, gargalhadas…
Misericórdia! Misericórdia!
E, por outeiros e quebradas,
Tombam choupanas arruìnadas…
Mortas… desfeitas em ossadas…
Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia!
OPIPARUS:
Que bela voz! Dava um barítono estrondoso
O diabo do maluco!…
O REI:
A mim faz-me nervoso,
Não sei porque… Faz-me nervoso… Embirro, é doença…
Mas quanto poviléu! que turbamulta imensa
De esfaimados, de miseráveis no abandôno,
Rafeiros a latir, sem albergue e sem dono!
Vejam isto…
CIGANUS:
A miséria é lama, é sangue, e é pranto,
A fermentar em crime e em veneno. Portanto
Precisa esgôto; quer-se um esgôto e despejá-la
Contínuamente num porão ou numa vala.
Emigrar ou morrer; degrêdo ou cemitério.
O hálito da pobreza imunda é deletério.
De trapos de mendigo e lençóis de vilão
Faz a anarquia flamejante o seu pendão.
Curta distância vai da indigência à rapina,
Da mão que implora à que estrangula e que assassina.
Dorme em cada esfaimado um tigre. Há que evitar
Na rua aglomerações de ventres sem jantar.
A miséria despeja-a Deus, a Providência,
Do seu vaso nocturno ao saguão da existência.
Que fazer contra a lei de Deus, contra o Destino?
Arredar para longe o excremente divino,
Para bem longe, de maneira que a infecção
Não nos perturbe a nós, Senhor, a digestão…
O REI:
É triste, mas emfim que remédio lhe dar?!
OPIPARUS:
Comer, beber, dormir, jogar, caçar, dançar!
Festas, Senhor! Muitas e vãs, loucas e várias!
Não há jantar? Função. Não há pão? Luminárias.
A pobreza anda rôta, a canalha anda nua?
Girândolas ao ar e músicas na rua.
A fome e a dor bramem de noite, uivam nas eiras?
Matinadas, clarins, vivas ao rei, bandeiras.
Alegria! gozar! folgar! nada de luto!
Bombas! Salvem canhões de minuto a minuto!
E a cada grito de miséria ou de estertor
O cantar dum Te-Deum e o rufar dum tambor.
Dê-se à plebe faminta uma estrondosa orgia,
Um banquete real, monstro,—em scenografia!
Que bela idéa! Armar de improviso um galeão,
—Tábuas, cinábrio, gêsso, andrinopla e cartão,—
Pô-lo em rodas, tirado a parelhas d'Alter,
A côrte dentro, o patriarca, o chanceler,
El-rei de c'roa d'oiro, a raínha taful,
Asas novas de arcanjo, uma branca outra azul,
Eu ao leme, pendões, músicas, auriflamas,
Bispos e generais, o núncio, arautos, damas,
Com brilhantes a arder em veludo e em brocado,
—Tripulação emfim de baixel encantado,
A navegar de rua em rua, e praça em praça,
Atirando à miséria, à nudez, à desgraça,
A carga inteira a plenas mãos: lôdo em confeitos,
Gargalhadas, sermões de entrudo (alguns perfeitos!)
Drogas de charlatães, ditos de saltimbanco,
Cinza, areia, impudor, fome… e notas de banco!
…………………………………………
E por último a rir sentamo-nos à mesa,
A despejar champagne em favor da pobreza!
O REI:
Despovoa-se tudo!
CIGANUS:
Um êxodo…
OPIPARUS:
Senhor,
Grande mimo de Deus para um rei caçador!
Terra despovoada e morta, sem ninguêm,
É terra inculta. Bem, perfeitamente bem.
Ora uma terra inculta, (é, meu Senhor, um facto)
Não dá vinho, nem pão, nem meloais,—dá mato.
E o mato bravo e as brenhas virgens dão a caça
Com mais fartura, variedade e doutra raça.
Pelos jardins d'agora, em dez anos talvez,
Andaremos ao lôbo e ao cabrito montês.
Olivedos, vergeis, campos, lezírias, prados
Criarão a raposa, aninharão veados.
E onde hoje há couves e maçãs, El-Rei, feliz,
Galopando a primor, monteará javalis!
Trovão formidando. Um relâmpago lívido abrasa as profundidades cavas do horizonte. As árvores, de súbito, aparecem nuas e hirtas, sem uma fôlha. Dos ramos, batidos do vento, pendem enforcados. Dir-se-iam esqueletos de árvores gente. Nuvens de abutres pairam em volta, crucitando.
O REI:
Pavoroso!
OPIPARUS:
Ora adeus! nada mais natural:
A fome trás a morte, os mortos cheiram mal,
E o cheirete dum morto, assim dependurado,
Para um corvo é melhor que o dum faisão trufado.
O DOIDO, na escuridão:
Olha as macieiras que maçãs que dão:
Gangrena por fora, dentro podridão!
Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,
As maçãs escusam de ir ao madureiro…
Oh, que estranhos figos que há nos figueirais:
Mordidos d'abutres!… Figos que dão ais!…
Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,
Colhe-me essas bebras que já teem mau cheiro…
Se é fruta de embarque, vai pelo caminho
Desfazer-se toda nos caixões de pinho…
Fruta de tal raça, cavador lunar,
Só a quer a Morte para o seu jantar!…
O REI:
Dou às vezes razão ao tonto do cronista…
Que lhe querem! não é agradável à vista,
Por noite negra uma bandada de milhafres,
Grasnando e devorando, à maneira de cafres,
Uma ceia de carne podre…
CIGANUS:
Que limpeza!
Deixe-os comer… deixe-os comer… Varrem a mesa.
Mortos e mortos na floresta à dependura,
Um açougue… Não há còveiro, nem há cura,
Nem tochas, nem latim para tanta carcassa…
Os corvos, meu senhor, enterram-nas de graça.
Admiráveis glutões, em bambocha funérea
Liquidam numa noite a questão da miséria.
Jantam-na. Devorado o problema. Afinal
Restam ossos; convêm: tem fosfato de cal,
Bom adubo…
E no entanto o país, meu Senhor,
É uma beleza! uma beleza! encantador!
Trinta portos ideais, um céu azul marinho,
A melhor fruta, a melhor caça, o melhor vinho,
Balsâmicos vergeis, serranias frondosas,
Clima primaveral de mandriões e rosas,
Uma beleza! Que lhe falta? Únicamente
Oiro, vida, alegria, outro povo, outra gente.
Raça estúpida e má, que por fortuna agora
Torna habitável êste encanto… indo-se embora!
Deixe morrer, deixe emigrar, deixe estoirar:
Dois boqueirões de esgôto,—o cemitério e o mar.
Que precisamos nós? Libras! libras, dinheiro!
Libras d'oiro a luzir! Onde as há? No estrangeiro?
Muito bem; o remédio é claríssimo, é visto:
Obrigar o estrangeiro a tomar conta disto.
Impérios d'alêm-mar, alquilam-se, ou então
Sorteados,—em rifa, ou à praça,—em leilão.
E o continente é dá-lo a um banqueiro judeu,
Para um casino monstro e um bordel europeu.
Fazer desta cloaca, onde a miséria habita,
Um paraíso por acções,—cosmopolita.
Dar jôgo ao mundo, ao globo! uma banca tremenda!
Calculo eu daí uns mil milhões de renda.
O comércio, dez mil… O trânsito, sem conta…
Cifras, Senhor, de pôr uma cabeça tonta!
De minuto a minuto, expressos e vapores,
Sempre a golfar carregações de jogadores,
Montões de malas, sacos d'oiro, (libras, luíses!)
Nuvens de cortesãs, dançarinas e actrizes,
Equipagens, Barnoums, touristes, saltimbancos,
Vinte raças,—mongóis, negros, mestiços, brancos,
Um ruidoso vaivêm humano que circula,
Todo fausto, esplendor, alta luxúria e gula,
O mylord, o nababo, a Rússia, a Índia, a América,
Numa promiscuìdade esplêndida e quimérica!
E todo êste país, éden de regabofe,
Iluminado à noite a faróis Jablokoff!
Que maravilha! que surpresa! que grandeza!
E que tesoiros nesta rica natureza,
Cultivando-a a primor! Em logar d'erva e searas,
Plantas de luxo: coisas finas, coisas caras.
Eu imagino, (dando os máximos descontos)
Que o reino lucrará uns trezentos mil contos,
Sómente a produzir, ao ar livre e em estufas,
Ananazes, faisões, ópio, champagne e trufas.
Relâmpagos e trovões. Paisagem deserta. A nau fantasma, cortada a amarra, bamboleia nas ondas, prestes a largar. Uma sombra disforme, como de ave gigante, voa na escuridão.
O REI:
Um bacamarte! uma clavina! uma escopeta!…
Cheguem daí… salta depressa uma escopeta!
Salta depressa! que vão ver como rebento
Às escuras aquela águia… É num momento
Já duma ocasião, (que pontaria a minha!)
Com um balásio matei oito: iam em linha.
A escopeta, marquês!
CIGANUS:
Não lhe serve de nada;
É a bandeira do castelo. Uma rajada
Sem dúvida, Senhor, quebrou o mastro e leva
Num frangalho o pendão errante pela treva.
OPIPARUS:
Óptimo! de manhã flutuará no baluarte
Pendão novo. Tem cinco quinas o estandarte;
Uma quina de mais; suprime-se, é evidente:
Nos baralhos, Senhor, há quatro únicamente.
O navio fantasma, que levantou ferro, desaparece ao longe.
O DOIDO, na escuridão:
Ó nau gigante, ó nau soturna,
Galera trágica e nocturna,
Que levas, dize, no porão?…
O vento chora sôbre o mundo,
Chora de raiva o mar profundo…
Que levas, dize, no porão?…
A lua, aziaga e macilenta,
Olha-te exânime e sangrenta…
Que levas, dize, no porão?…
Asas carnívoras em bando
Poisam nas vêrgas crucitando…
Que levas, dize, no porão?…
Teu cavername exala miasmas,
Teus marinheiros são fantasmas…
Que levas, dize, no porão?…
Teu pendão negro vai a rastros,
São cruzes negras os teus mastros…
Que levas, dize, no porão?…
—Dentro do esquife, amortalhada,
Levo uma pátria assassinada,
No meu porão!…
O REI:
Êste ladrão do doido irrita-me! é demais!
Não se cala, caramba! é demais! é demais!
Já não posso… Marquês, se o diabo me enfernisa,
Outra noite co'a lenga-lenga; uma camisa
De fôrças, bom vergalho, e, sem dó nem piedade,
Enxòvia ou masmorra onde grite à vontade.
Abre um relâmpago o horizonte. As carcassas nuas dos enforcados baloiçam ao vento nas árvores despidas. Nem viv'alma. No cêrro dum monte erguem os piratas uma cruz descomunal, manchada de sangue. Uivam os cães.
O REI:
Uma cruz negra alêm!…
CIGANUS:
Onde?… Não vejo nada…
O REI:
Uma cruz toda negra e toda ensangùentada!…
CIGANUS:
Foi decerto ilusão…
Rindo:
É calvário feroz
Que espera alguêm…
OPIPARUS:
Nenhum de nós… nenhum de nós…
Poderemos dormir tranqùilos, sem receio
Dum calvário onde apenas haja a cruz do meio…
Uivam os cães sinistramente.
O DOIDO, na escuridão:
Em noite sem lua, numa nau sem leme, fui descobrir mundos,
Mundos pelo mar…
O vento sopra, o vento sopra…
Quanta areia negra faz turbilhonar!
—Mundos a voar… mundos a voar…
Por manhã doirada, galeão doirado vinha cheio d'oiro!…
Rubins scintilantes,
Pérolas, diamantes…
Vinha cheio d'oiro…
O vento sopra, o vento sopra…
Que cinza de campas se alevanta ao ar…
—Meu oiro a voar… meu oiro a voar…
Castelos nas praias, galeras nas ondas, reinos d'alêm-mar!…
O vento sopra, o vento sopra…
Que bandos de nuvens!… vão-se a desmanchar!…
Castelos… galeras… reinos d'alêm-mar…
Foi um sonho lindo… foi um sonho lindo…
Como é bom sonhar!…
Acordei sem alma… quem me encontra a alma…
Quem ma torna a dar!
Queimou-se o casebre… só tições escuros, só carvões escuros,
Inda a fumegar…
(Quem ma torna a dar!)
Que bem dormiria debaixo dos muros…
Tão quente!… debaixo das pedras do lar!
Oh, que inverneira! oh, que inverneira!
Crestou-me o vinhedo, secou-me o pomar!
A terra levou-a… deixou-me só fragas…
Deixou-me só fragas, para as eu calcar…
Peguei na minha dor, botei-a às fragas…
Não tinha mais que semear!
O que viria, o que viria
Da minha dor na primavera a rebentar?…
Um tronco despido me brotou das fragas,
(Que singular! que singular!)
Um tronco despido,
Sem ramos, sem fôlhas… um tronco no ar!
Depois medrou tanto, como por encanto,
Que andadas três luas era secular!
E nem uma fôlha e nem um raminho,
Onde um passarinho poisasse a cantar!…
Um tronco no ar!
Mas de repente, de repente
Deitou dois braços, logo um par!
Braços estendidos, abertos e nus,
Como que a chamar… como que a chamar…
Mas, oh Deus! que vejo! uma perfeita cruz,
Uma cruz erguida sôbre um grande altar!…
Minha dor nas fragas, entre uns estilhaços
De rochedos duros no que veio a dar!…
………………………………………
Inda bem! Ora inda bem que já no mundo há braços,
Para me abraçar!…
O REI:
Já 'stou farto de cantochões, de ventania
E dos agoiros!… Passa das três; é quási dia…
Vamos dormir…
Apontando o pergaminho:
Cá deixo esta léria assinada.
Falaremos depois. Rendez-vous na toirada.