SCENA XV
O ESPECTRO DE D. PEDRO II, tipo de valentão de cavalhariças, brigão de estúrdias, sanguinário e crapuloso, sifilítico e bêbado:
Tu sabes escrever? Assina. Porque não?
Ora o grande poltrão,
Que é preciso borrar-se e andar de nágoas sujas,
P'ra lançar no papel, conho! três garatujas!
Mêdo de quem? Do povo? O povo com que lidas
É cavalo velhaco e de manhas sabidas.
Monta-lo com temor? Adeus! cospe-te fóra.
Mas, sentindo-te firme e nos ilhais a espora,
Cai-te em breve a mão e a preceito o governas.
E, se escabreia, ai dele! estoira-lo entre as pernas.
Vamos nós a saber, diz-me lá sem rodeios:
És homem? quer dizer:—tem-los bons?—tem-los cheios?
Meu irmão não os tinha,
E por isso ficou sem reino e sem raínha.
Para inimigos forca; ou antes emboscadas,
Despachando-os de vez a tiro e a cutiladas.
Pedem tais aventuras
Gente rija; hás mister de quadrilhas seguras:
Mulatos, valentões, brigões, ralé feroz,
Que te adivinhe o olhar, pronta à primeira voz.
Tive-os duros de lei! homens sem embaraços
Para estoirar, de frente, o diabo a clavinaços!
À nobreza mercês e favor… mas cautela!
Desconfia, vigia… e reparte com ela.
Emfim, guarda bem paga, álerta e satisfeita,
E atrás de cada muro um cão de lôbo à espreita.
E nada mais, e nada mais! gozar, gozar
À vontade e sem mêdo, até Deus te levar:
Correr toiros, domar corceis, adestrar fôrças,
Batidas pelo monte ao javali e às corças,
Mesa opulenta, vinho antigo, cama vasta,
E fêmeas boas e a granel, de toda a casta!
Mulherio de truz, às dúzias, sejam elas
Freiras ou barregãs, com marido ou donzelas.
E agora, adeus. Assina. Os ingleses, que diabo!
É quem nos vai guardando os fagotes, e ao cabo,
A trôco duns sertões com negros de má raça,
Mercam-nos inda a pinga e vestem-nos de graça!
Desaparece.
O DOIDO, na escuridão:
Era a raínha uma sereia,
Corpo de neve… Ameia-a e desejei-a.
Meu irmão era o rei; sem dor e sem abalo,
Mandei matá-lo.
Arranquei-lhe do peito o coração:
Batia inda por ela… Dei-o a um cão.
E fomos para a igreja iluminada
Eu, meu irmão e a minha amada.
Nós a casar,
Êle a enterrar.
Quem me casou a mim
Disse-lhe a êle o último latim.
A sepultura
Tinha quarenta braças de fundura.
Despenhado o caixão, entulhou-se o coval
De pedra e cal.
Boas noites, irmão!…
Boas noites, irmão!…
E fui-me alegremente, oh, que ventura a minha!
A noivar co'a raínha.
Deitamo-nos na cama, apagámos a luz,
E ao irmos enlaçar, furiosos e nus,
Como doidas serpentes,
Os desejos ardentes
Abraçámos, horror! na escuridão,
Entre nós dois, amortalhado e morto, meu irmão!
Meu irmão! meu irmão!… Era êle… apalpeio-o…
Lá estava escancarada a facada no seio…
Meti-lhe dentro a mão…
Não achei coração…
Era êle! era êle! era êle!
Cuidei em no matar, sem me lembrar
Que já morrera!… Louca, a raínha tremia…
Quis atirá-lo ao chão… era de bronze! era de bronze, não podia.
Quisemos-nos erguer, fugir, fugir!… e de repente
Quedamo-nos os dois paralíticamente,
Ali imóveis, sem um gesto, sem um grito,
De sentinela toda a noite ao cadáver maldito!…
Oh, noite imensa!
Oh, noite imensa!
Oh, noite imensa!
Que eternidade!… Emfim, desmaiada e gelada,
Eis a alvorada!
Erguemo-nos do leito…
E o morto, aconchegando o sudário no peito,
Cravou em nós, indo-se embora,
Aquele olhar nocturno e triste que apavora!…
Fitamo-nos então os dois amantes:
Oh, que semblantes!
Nosso cabelo em desalinho,
Alvo de arminho,
Acusava dez séculos de dor!
Brando leito d'amor!… brando leito d'amor!…
Todas as noites depois dessa, todas, todas,
Vem meu irmão às minhas bodas!
Deita-se entre nós dois amortalhado
Até ser dia… Que noivado!… oh, que noivado!…
…………………………………………..
Não te quero ver mais, ó meu algoz, ó meu espectro!
Leva a raínha… leva a c'roa… leva o scetro…
Leva-me tudo e deixa-me dormir,
Dormir em paz!… dormir! dormir! dormir! dormir!…