SCENA XIV

O ESPECTRO DE D. AFONSO VI, que entra alucinado, hemiplégico, azorragando, furioso, uma matilha de cães imaginária:

Ah, marotos! ladrões!… ladrões!… perros danados!…
Vão inda perseguir-me à tumba êstes malvados!
Assassinos! ladrões! Nem no sepulcro existe
Repouso para um morto, alívio para um triste!
Nem debaixo da terra emfim, víboras más,
Me deixais, me deixais apodrecer em paz!
Nem morto dormirei… coitada criatura!
E como o sono eterno é bom, ó noite escura!…
Ah, como é bom dormir… dormir… dormir… dormir!…
Não ter alma, não ver, não gemer, não sentir!…
Sem reino, sem mulher, sem irmão, sem cuidado,
Dormir… dormir!… Que brando leito de noivado!…
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Mas foram-me acordar, os malditos!… Já sei…
O que querem de mim… Já sei… Já sei… És tu, El-Rei?
Foi mandado d'El-Rei… Já sei… lembro-me agora!…
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Assina tudo… assina tudo e sem demora.
Tens mêdo de perder o trono, de o largar?
Ah, deixa-o ir, deixa levar, deixa roubar!…
Que leve trono e scetro e c'roa quem quiser…
Para ti… para ti… guarda os cães e a mulher.
Guarda a mulher… guarda a mulher! Bem conta nela!
Tens irmão? Tens irmão!… Pobre de ti!… cautela!…
Não há crer em irmãos, nem há fiar em mães!
Que levem tudo, tudo… excepto a amante e os cães!…
Oh, as noites d'amor!… oh, as manhãs de caça!…

Indo a saír e parando de repente, ao ver os cães:

Tens fracos cães… Adeus… Fracas ventas… má raça!…

O DOIDO, na escuridão:

Quem me roubou da fronte o meu diadema?…
Quem ostenta na fronte o meu diadema?…
—Teu irmão!
Teu irmão!

Quem abraça a raínha no meu leito?…
Alva, loira e mimosa no meu leito?…
—Teu irmão!
Teu irmão!

Quem bate as brenhas com meus cães de caça,
Ao luzir d'alva com meus cães de caça?…
—Teu irmão!
Teu irmão!

Quem nesta campa me enterrou em vida?!…
Quem nesta campa me enterrou em vida?!…
—Teu irmão!
Teu irmão!

Ai, arranca-me os olhos por piedade!
Ai, arranca-me a vida por piedade!
Irmão! irmão! irmão!!…

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O ESPECTRO DE D. AFONSO VI, assomando ao balcão:

Um doido enorme! alêm… na escuridão… alêm…
Doido sou eu tambêm… doido sou eu tambêm…
Pobre doido!… infeliz… coitado! algum irmão
Lhe roubou a mulher…

Ao rei:

Tens mulher?… Tens irmão?…
Não há crer em irmãos, nem há fiar em mães…
Guarda a mulher…

Desaparecendo:

Oh, que estupor de cães!… oh, que estupor de cães!…