SCENA XIII

O ESPECTRO DE D. JOAO IV, ar untuoso, manhoso, beato, falso e pusilânime:

Tens mêdo de assinar? Pesa-te a assinatura?
Vais ouvir meu conselho:
Ânimo bravo e ardente,
Em lacaios fieis predicado excelente.
Num monarca já não… A fraqueza traiçoeira,
D'olhos de lince e passos mortos de toupeira,
Vence tudo… Precisa um rei de heroismo audaz?
Serve-se dos heróis e fica êle em paz.
Nada que nos perturbe a digestão e o sono;
Para dar bom assento é que se fez o trono.
Os reis são reis e os homens cães, em vário estado:
Ou cães de caça ou cães de fila ou cães de gado…
Mas tudo cães. Chicote a uns e a outros festa,
Eis do govêrno a arte; é bem clara; só esta.
Com os homens, assim. Com Deus, trato diverso.
Tu és o rei dum povo, êle o rei do universo.
Depois da morte há inferno e paraíso; então
Lida sempre com Deus, como bom cortesão.
Vale a pena. Medita as chamas infernais,
As mil cobras de fogo em doudas aspirais,
Enleiadas a nós!… que tortura! que horror!
Ah, vale a pena servir Deus e ter-lhe amor!
Não só a Deus; aos santos todos! E a Maria,
À Virgem-Mãe, oh filho! a essa, noite e dia
É rezar; é rezar de joelhos na capela!
A nada atende Deus como a um pedido dela.

Firma o tratado. Firma-o de pronto e sem receio.
Entre as hostes iguais a dúvida, no meio,
Hesita, é bem de ver… Mas neste caso, em suma,
Não encontra a razão hesitação alguma.
O teu povo dum lado e o bretão do outro lado;
Ora, entre um borrego e um leopardo esfaimado,
Não há brio a atender, há vida a defender.
O leopardo é o mais forte: assina… tem de ser.
A fera vem bramindo e quer do teu jantar;
Chicoteá-la? Não; pode-te estrangular.
Dividirás com ela; e tu, quietinho e manso,
Fica à mesa comendo o resto com descanso.
Creio que para ti e para herdeiros teus
Há-de ainda chegar talvez, graças a Deus.
Graças a Deus e à Virgem-Mãe, a quem eu dei
A tutela do reino e o coração do rei.

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Dum duque fiz um rei; e o rei me disse: Vamos
Ouvir à igreja (era de noite) o meu Te-Deum laudamus.
Era de noite… era de noite… na encruzilhada,
Quando me viu, cantou um galo preto uma alvorada.
Bonita festa, (disse eu entrando) bonita festa!
Que igreja esta
Tantos panos escuros… tantos panos escuros,
Velando os muros!
E um esquife sombrio
Num catafalco… um grande esquife negro, inda vazio!…
Mas coisa horrenda e de pasmar,
O altar! o altar!
Crucificado num madeiro um cordeirinho branco exangue
E treze tochas de gangrena azul, chorando sangue!…
Veio da sacristia a cleresia… Olhai, olhai
O padralhame que aí vai!
Raposas sarnentas e lôbos gordos ulcerados,
—Dominus vobiscum!—todos paramentados e mitrados.
E era um bode de andaina vermelha o sacristão,
Um bode carcunda, ventrudo e lanzudo, galhetas na mão.
E quem cantou a missa de pontifical
Foi o rei! era o rei… tal e qual! tal e qual!
Mas tinha rabo de raposa e tinha olhos de chacal!
Cantava de papo, cantava de papo,
E a bôca imunda, sem tirar nem pôr, uma bôca de sapo!
O Espírito baixou então divinamente,
Poisou no rei, e o rei lhe disse:—Olá! olá, Vicente—
E as dois órgãos ao fundo, que rouquidões!
Grunhindo trovões por entre os cantochões!
E toda a padralhada, no seu cartimpácio,
—Oremus! Oremus! Santo Inácio e mais Santo Inácio!—
E ao levantar a Deus emfim,
De hóstia e cálix na mão, o rei voltou-se para mim:
—Êste vinho é o meu sangue. Êste pão negro é o meu corpo:
Toma lá o meu sangue, toma lá o meu corpo.—
Cuspiu no cálix, deu-mo a beber, bebi… bebi…
E a hóstia impura, nem sei de azêda como a enguli!
E envenenado fiquei… envenenado fiquei
Pelo corpo do rei, pelo sangue do rei!
Envenenado e paralisado,
Mas inda a ver, inda a sentir… como um dormir
De defunto acordado…
Então o rei pegou num cutelo, abriu-me o peito,
Meteu as mãos… e tirou-me a alma com todo o geito!
Era uma virgem, corpo de deusa, branca e nua,
Como que feita, num sonho triste, do alvor da lua…
A minha alma aquela! a minha alma aquela!
Oh, nunca a imaginei assim, tão formosa e tão bela!
Mas que ar de nojo e de amargura
Envolvendo-a, pálida e branca, em noite escura!
Deitaram-na ao caixão, pregaram-lhe a tampa às marteladas,
E o rei,—Oremus! Oremus! Oremus!—
Às gargalhadas.
E no madeiro o cordeiro manso, dolorido,
Deu o seu último gemido…
E expiraram no altar
As treze velas bentas de rosalgar…
E a cleresia pela noite, em chusma, como assombros,
Debandando e levando o esquife, aos encontrões, nos ombros…
E a mim deitaram-me a dormir num fraguedo deserto,
Sem alma, com o peito um rasgão de sangue, todo aberto!…
Ei-lo aqui… ei-lo aqui… Nunca o deixei cicatrizar…
Que é para a alma, quando me volte, poder entrar…
As almas não morrem…
As almas não morrem…
Nem Deus, tendo-as feito, é capaz de as matar!…