9. Appendix:

(Indo Gonçalo seu caminho, apartando-se do Clerigo, topa hum Negro grande ladrão, e entra cantando buscando hum mulato: e diz Gonçalo, depois de cantar o Negro:)

gonç. Dize, negro, es dacôrte?
gonç.Maistredor era orascote
Que m'a mim furtou a lebre.
neg.Qu'esso?
gonç.

S'es dacôrte?

neg.Qu'hequesso que tefurtai?
neg.Ja a miforro, nam sa cativo.
Boso conhece Maracote?
Corregidor Tibão he,
Elle comprai mi primeiro;
Quando já paga a rinheiro,
Daita a mi fero na pé.
He masa tredora aquelle,
Aramá que te ero Maracote.
gonçHũa lebre demeu pae,
De meu cunhado huns capões,
E marmelos e limões;
Abonda tudo lá vai.
neg. Jesu,Jesu, Deoso consabrado!
Aramá tanta ladrão!
Jesu! Jesu! hum caralasão:
Furunando sá sapantado.
Jesu! cralasam.

Pato nosso santo paceto ranho tu e figo valente tu e cinco sego, salva tera pão nosso quanto dão dá noves caro he debrite noses ja libro nosso gallo. Amen Jeju, Jeju, Jeju.

Sa pantaro Furunando.
Dize, rogo-te, fallai:
Conhece tu que furtai?
Porque tu nam bruguntando?
Grande canseira:
Firalgo sôlto, canseira;
Chovere muto, canseira;
Não póde chovere, canseira:
gonç.Perguntarei por meu pae. Muito filho, canseira;
neg.Cal-te: Deoso cima sai,
Que furtai ere oiai.
Deoso nunca vai dormi,
Sempre abre oio assi,
Tamanha tu sapantai.
Guarda mar esso mal,
E senhora Prito santo.
Nunca rirá homem branco
Furunando furta real.
Não sabe mi essa careira:
Para que? para comê?
Muto comê muto bebê
Turo turo sa canseira.
Nunca pariro canseira;
Papa na Roma canseira;
Essa ratinho, canseira;
Não vamo paraiso, grande canseira;
Vira reza mundo turo turo he
Canseira.
Mi nam falla zombaria.
Pos para que furtai?
Que riabo sempreza!
Abre oio turo ria.
Mi busca mulato bai.
Ficar abora, ratinho.
Vira mundo turo canseira:
Senhor grande, canseira;
Home prove, canseira;
Muiere fermoso, canseira;
Muiere feio, canseira;
Negro cativo, canseira;
Senhoro de negro, canseira;
Vai missa, canseira;
Prégação longo, canseira;
Crerigo nam tem muiere, canseira;
Crerigo tem muiere, canseira;
gonç.Eu aguardo meu padrinho,
Que va comigo a meu pae.
Eu vou ao rio perem,
Porque hei sêde e beberei,
E sicais que nadarei
Emquanto o clerigo vem.
Leixarei o chapeirão
Mettido nesta mouteira,
E o cinto e esmoleira,
Porque lá logo o verão,
Não me aqueça outra tal feira.

(Espreita o negro como Gonçalo esconde o chapeirão e o al, e tanto que se vai entra dizendo:)

neg.A mi abre oio e ve
Ratinho tira besiro:
Ere dexa aqui condiro:
Não sei onde elle mettê.
Senhora Santo Francico,
Santa Antonia, San Furunando!
Pois mi ha d'andar buscando,
E levare elle na bico
O servo Santa Maria.

Sabe a regina Matho misercoroda nutra d'hum cego savel até que vamos. A oxulo filho d'egoa alto soso peamos ja mentes ja frentes vinagre qu'elle quebrárão em balde ja ergo a quante nossa ha ilhos tue busca cordas oculos nosso convento e geju com muito fruta ventre tu ja tremes ja pias. Seuro santa Maria dinhero me lá darão he ve esa carta da me mucho que furte cantara Furunando.

Ei-lo aqui sa! Deoso graça.
Graça Deoso esse he capote;
Nunca dexa aqui palote:
Ratinho, quem te forcasse!
Aramá que te ero villão!
Que palote saba sam,
Barete também bo era.
Mi cansai e á deradera
A mior fica sua mão.
Vejamos bolsa que tem: Hum pente para que bo?
Tres ceitil sa qui so:
Ratinho nunca bitem.
O riabo ladarão!
Corpo re reos consabrado!
Essa villão murgurado
Sa masa prove que cão.
Quando bolsa mi achase
Fernão d'Alvaro, esse si;
Nunca pente sa alli.
Ah reos! quem te furtasse
Bolsa, Nuna Ribeiro!
Home bai busca rinheiro:
A toro ere rise:
Ja rinheiro feito he.
Aramá que tu ero gaiteiro!
Fernão d'Alvaro m'acontenta;
Elle nunca risse nam.
Logo chama ca crivam,
—Crivaninhae esormenta;
Toma rinheiro, vas embora.
Boso, home de bem, que buscae?
—Mi da cureiro agarba sae.
—Boso que buscai corte agora?
—Buscae a Rei jam João,
Paga minha casaramento.
—Dá ca, moso, trae esormento;
Crivaninhae boso, crivão:
Home, tomae hum dos quatro sete:
Vas embora turo turo.
Sua rinheiro sa segura,
Mioro que elle promete.
Marco Estevez moladeiro.
Elle rise: Santa Maria!
Rinheiro boso queria?
Bai bai dormir paieiro.—
Boso que pedir, muieiro?
—Tanta filho mi tem qui...
—Quem manda boso pari,
Boso grande parideiro?
—Boso seria muito bô:
Vaca ne Francico paia;
Tenha seis filho e mi so
Nam temo comere ni migaia.
Elle rise:
Que culpo tem a Rei jam João
Boso parir como porco,
Bai buscai sua pae torto,
Que dai a sua fio pão.
Velha, que boso querê?
—Molla, que a mi pobre sai.
Elle rise:
Porque boso nan guardai
Rinheiro que boso bebê?—
Jesu! Jesu! moladeiro
Sa riabo aquella home:
Quando a mi more da fome
Nunca buscai sua rinheiro,
Porém graça a Reos, a mi
Nunca minga que furtá;
Pouco ca, pouco relá,
Pouco requi, pouco reli,
Grão e grão gallo fartá,
Quem furta, home sesuro:
E louvar a Reos com turo
E senhoro Prito Santo.
A mi bai furta emtanto
Camisa que sá na muro.

Gil Vicente, O Clerigo da Beira.