AOS ESTIMAVEIS LEITORES
O auctor deste programma agradecerá muito quaesquer informações que sirvam para completá-lo ou corrigí-lo e que lhe podem ser enviadas para a *Sociedade de Geographia*—Lisboa.
OBSERVAÇÕES PREVIAS, IDEIA, E DIVISÕES PRINCIPAES DO PROGRAMMA
OBSERVAÇÕES PREVIAS
Apesar de existirem varias publicações que têem por objecto o estudo do povo português sob diversos aspectos, póde affirmar-se resolutamente que a nossa ethnographia se acha na infancia, já porque muitos desses aspectos, entre os quaes alguns da maior importancia, têem sido apenas levemente tocados, já porque a muitas daquellas publicações falta a precisão scientifica. Carecemos nós, sobretudo, de um trabalho de conjuncto sufficientemente completo, impossivel de organisar pela ausencia de numerosos dados que a diligencia dum só investigador ou até dum pequeno grupo de investigadores associados não teria capacidade de reunir.
O estudo do povo português sob o aspecto physico está apenas iniciado: o que falta fazer, ainda dentro dos limites do estrictamente indispensavel, é quasi tudo!
Não foi ainda realisada nenhuma investigação séria, baseada, portanto, sobre dados sufficientemente numerosos e seguros, acerca da alimentação das classes populares.
A habitação portuguesa, cujos typos são variados e interessantes, apesar da estreiteza do nosso territorio, é um objecto, por assim dizer intacto. A alfaia e o mobiliario domesticos esperam ainda um estudo que não seja um fragmento.
O vestuario das classes populares não foi ainda descripto e desenhado no seu conjuncto, comparativamente, na sua distribuição geographica: tem sido apenas objecto de notas destacadas, de reproducções de curiosos de momento. Algumas publicações destinadas a figurá-los pela estampa (photographia, gravura, aguarella, etc.) ficaram incompletas, e apenas nalgumas exposições, nalguns museus (industrial do Porto, agricola de Lisboa) figuram uns raros manequins representando exemplares avulsos.
Artigos de publicações periodicas, memorias e notas soltas, inqueritos agricolas e industriaes têem accumulado numerosas observações sobre o trabalho popular nas suas diversas fórmas; mas ainda quando tudo isso se conglobasse num só livro, ficaria muito incompleto e inconsistente. Carecemos de conhecer esse trabalho, sobretudo no que elle tem de caracteristico, de tradicional, em todas as suas minudencias, em todas suas as applicações, em todas as suas condições, para apreciação justa e completa do nosso povo.
Um capitulo do trabalho nacional, dos mais interessantes sem duvida, começou a ser estudado nos ultimos tempos com carinho—a pesca; mas apesar de valiosas publicações, entre as quaes avulta a do sr. Baldaque da Silva, não pouco resta ainda que fazer.
Os meios de transporte tradicionaes, carros, embarcações maritimas e fluviaes, etc., esperam ainda um estudo comprehensivo, assim como o commercio nas suas fórmas populares.
As bellas artes populares, propriamente ditas, salvo a poesia, não foram ainda estudadas a serio. A musica tem sido objecto de varias publicações destinadas, ao que parece, a darem della ideia falsissima.
Não é nessas publicações anti-scientificas, em que o genuinamente popular, transcripto sob o imperio de preoccupações pedantes, se envolve com composições de origem não popular evidente, não é nas rapsodias dos compositores que iremos estudar a musica do nosso povo, que espera ainda quem saiba fixá-la em notas veridicas e perscrutá-la na sua historia e correlações ethnicas. E que diremos da esculptura, da pintura popular, que não equivalha ao que enunciámos ao referirmo-nos á habitação portuguesa, que nos interessa por variados aspectos, e entre elles tambem pelo pensamento artistico?
É no dominio da poesia popular, dos contos, das superstições, dos jogos, das festas e outros actos solemnes do nosso povo que mais se tem feito; mas ainda assim bastante resta averiguar para conhecimento completo dessas tradições e de outras.
É mister estudar de modo mais serio do que se tem feito até hoje o temperamento, o typo moral e o caracter do nosso povo nas suas variantes; o conjuncto de sentimentos que nelle se revelam; as ideias que o agitam relativamente ao mundo sobrenatural, á natureza, á sociedade; fazer um inquerito completo ácerca do que elle sente, do que elle sabe, do que elle pensa e do modo por que elle sente, sabe e pensa e apreciar ainda sobre dados seguros o grau da sua energia volitiva, fazer emfim a sua psychologia ethnica (não receamos empregar essa expressão, embora objecto de ardentes criticas).
Para tornar possiveis esses estudos, cujo programma completo está sendo preparado, é necessario, entre outros elementos, o conhecimento cabal de todos os dados materiaes da vida do nosso povo, dos que lhe ministra immediatamente a natureza em cujo seio se move e dos que são producto da sua apropriação, do seu trabalho. A colleccionação desses dados é um primeiro e grande passo a dar para a realisação do estudo ethnologico do nosso povo. Dois meios se nos offerecem para a levar a effeito: a organisação de um museu de ethnographia nacional e as exposições. A existencia de um similhante museu está decretado; mas não torna inutil as exposições, onde poderão apparecer elementos de difficil acquisição que os estudiosos tenham, durante tempo sufficiente, ao seu alcance. De outro lado essas exposições facilitarão o enriquecimento do museu.
A antiga philosophia punha acima de todos os preceitos o expresso nas palavras [Grego: gnôthi seauton], conhece-te a ti mesmo. O pensamento moderno declarou que o objecto de estudo mais digno do homem é o proprio homem. Qual poderá, pois, ser o estudo mais digno de um povo senão o estudo de si proprio?
Se nelle ha evidentemente para nós aspectos profundamente desconsoladores, ha-os porventura tambem fortificantes.
Viajantes que têem percorrido o nosso territorio poseram em relevo as boas qualidades nativas do nosso povo em contraste com a corrupção das classes dirigentes e basearam sobre essas qualidades a esperança da nossa futura regeneração. Mas ao povo falta a fé, falta a firmeza da resolução que só nasce do espirito sufficientemente esclarecido ácerca dos seus deveres e dos seus direitos; falta-lhe portanto a vontade collectiva: elle agita-se apenas dentro do circulo dos interesses individuaes, familiaes e locaes; é a materia prima de um povo e não verdadeiramente um povo como a complexidade da vida moderna exige que seja. Dahi o indifferentismo pela politica, a venalidade do voto, a emigração, a falta da ideia nitida e do sentimento firme da patria e da humanidade, que um vago patriotismo não póde substituir.
No momento historico actual da nossa nacionalidade achâmo-nos numa alternativa que não póde prolongar-se muito tempo: ou continuâmos a acceitar o systema de governação espoliativa que levou o país ao fundo abysmo em que se acha, para favorecer individuos, ou tratâmos de elevar pela educação o povo á noção da vida collectiva, dos interesses geraes e ideaes, de salvar para uma vida historica um povo que mostrou pelos factos que vamos commemorar em 1897, ser digno de occupar logar proeminente no convivio das nações.
Que todos os que têem em si uma particula do fogo sagrado, que se chama dedicação pelas nobres causas, se reunam e dêem as mãos e consagrem á obra do renascimento nacional, pela educação do povo.
Estudar o povo é já eleval-o, é preparar o caminho para acudir ás suas necessidades moraes, intellectuaes, technicas e economicas.
Eis porque propomos como elemento da celebração do centenario da primeira viagem de Vasco da Gama á India, uma exposição ethnographica portuguesa cujo programma vamos esboçar.