IDEIA GERAL DA EXPOSIÇÃO ETHNOGRAPHICA PORTUGUESA

Esta exposição comprehenderá sobretudo objectos materiaes proprios para dar ideia da vida do povo português (Portugal e ilhas adjacentes) no que elle tem de proprio, de caracteristico e tradicional, embora resultado de assimilações realisadas ha mais ou menos tempo. Excluem-se em geral portanto todos os materiaes e productos de introducção ou imitação recente, todos os typos modernos de construcção, de vestuario, de ferramentas e machinismos.

Trata-se principalmente de fazer representar os elementos da vida do povo, das classes trabalhadoras, em especial das regiões ruraes.

Ao lado de objectos materiaes, taes como o povo os emprega, têem cabimento os modelos de dimensões reduzidas e as representações pelas artes graphicas, e não se excluem as descripções pela palavra, antes se deseja que a exposição comprehenda o maior numero possivel de obras, estudos, simples notas de que o povo português tenha sido objecto.

Não deve esquecer-se tambem o meio geographico, este bello Portugal, que em vão se quer culpar de vicios que só derivam dos homens, e os «paraisos desprezados» das ilhas adjacentes.

Emfim será o mais apreciavel ornamento da exposição uma serie de typos vivos, humanos, dos nossos diversos districtos, com as suas vestes caracteristicas, em construcções representando as suas casas, com o seu mobiliario, os instrumentos e productos de suas industrias—uma imagem, em resumo, do povo português.

*Divisões principaes do programma*

Um estudo completo do povo português comprehenderia os seguintes elementos:

I. A terra.
1. A constituição geologica do solo.
2. A riqueza mineralogica do solo.
3. A geographia physica.
4. A meteorologia.
5. A flora.
6. A fauna.

II. O homem.
1. Caracteres somaticos.
2. Caracteres psychicos.

III. A historia.
1. Origens ethnicas (migrações, invasões, etc.)
2. Influencias externas, sem mistura ethnica.
3. Factos historicos reveladores do caracter do povo ou que
sobre elle actuaram.

IV. A vida hodierna.
A. Fórmas da vida pratica.
1. Fórmas individuaes.
a) A alimentação.
b) A habitação.
c) O vestuario e as armas.
d) O trabalho (processos, productos, etc.)
2. Fórmas individuo-sociaes.
a) A organisação economica do trabalho.
b) O commercio.
c) Associações, companhias, confrarias, (antigas corporações
de officios, como appendice).
d) A linguagem, os gestos, a escripta (tentativas,
independentes da graphia corrente, etc.)
e) O decoro, o porte pessoal.
f) As fórmas de polidez e de respeito (cumprimentos, saudações,
etc.)
g) O jogo (passagem para as fórmas artisticas).
3. Fórmas sociaes.
a) A familia (casamento, criação e educação dos filhos,
organisação domestica, relações parentaes; em
especial vestigios de antigas fórmas de casamento,
etc.)
b) Os laços da sociedade.
c) Sentimento da communidade nacional e politica.
4. Fórmas humanas.
a) Sentimentos de humanidade em geral.
b) A amizade.
c) A hospitalidade.
d) A beneficencia.
e) Relações internacionaes.
B. Fórmas da vida artistica (esthetica).
1. Danças.
2. Musica.
3. Litteratura.
4. Desenho, pintura.
5. Esculptura.
6. Architectura.
C. Fórmas da vida religiosa.
1. Crença no sobrenatural, em geral.
2. Vestigios de crenças mythicas, de praticas que se referem
aos cultos pagãos.
3. A crença nos espiritos. Apparições.
4. Superstições diversas.
5. Conceito de Deus, dos anjos e dos santos.
6. O diabo na crença popular.
7. O céu na crença popular.
8. O inferno.
9. Orações.
10. Offerendas.
11. Festas religiosas.
12. Objectos materiaes empregados no culto, nessas festas,
ou que de qualquer modo se ligam ás crenças religiosas.
D. Fórmas da vida especulativa (saber popular propriamente dito).
1. Emquanto ás fontes.
a) Observação, experiencia.
b) Conversação, tradição.
c) Reflexão.
2. Emquanto ao objecto.
a) A natureza.
b) O homem.
c) As causas ultimas.

Não é aqui o logar de defender essa classificação, naturalmente sujeita a criticas, nem de indicarmos como fomos levados a estabelelecê-la, o que tencionamos fazer noutra parte. Observaremos que, como noutras classificações, póde nessa um mesmo objecto entrar em mais de uma divisão, segundo o modo por que é considerado. As fórmas individuaes da vida, possiveis ao homem isolado, como a um Robinson na sua ilha, desenvolvem-se sob a acção social por certo e é dentro do meio social que aqui são introduzidas, mas a classificação não deixa por isso de ter base.

Muitas das divisões do programma não podem ser representadas na exposição senão por descripções, analyses, estudos, isto é, litterariamente, por não se referirem a objectos materiaes; das que o podem ser pelos proprios objectos materiaes ou modelos, entendemos que a exposição deve attender principalmente ás sub-divisões da classe IV, A vida hodierna, que estão nesse ultimo caso. O que entra nas divisões I a III, com excepção dos typos populares vivos, será representado sobretudo por livros, memorias, notas, impressos ou manuscriptos, e reproducções graphicas, mappas e objectos analogos.

No desenvolvimento que segue não nos cingimos com todo o rigor á classificação apresentada acima, por vantagem pratica.