NOTAS DE RODAPÉ:

[16] Galeria de figuras portuguezas, pag. 112.

[17] Uma vaga tradição alfacinha diz que o fadista se deu por orgulho de classe a designação de faia, medindo-se, vaidosamente, com o aprumo e elegancia da arvore d’este nome.

[18] De faia.

[19] Bailarim, por comparação. O que pula jogando a navalha, risca, faz escovinhas, bate o Fado, etc.

[20] Epopeas da raça mosarabe, pag. 321.

[21] Antigos bandidos dos Pyrenéos.

[22] Allusão á Bisnaga escolastica.

[23] A Penha de França, segundo a Agostinheida; a Cotovia, segundo a Bisnaga. Em ambas estas eminencias, tanto ao oriente como ao poente da cidade, se feriam as batalhas garotaes. A Penha era reducto para os garotos de Alfama; e a Cotovia para os do Bairro Alto.

[24] Corpos pesados, ordinariamente pedra ou ferro, que os pescadores empregam para fundear os seus barcos.

[25] Sáfea, segundo a graphia de Gil Vicente. Reles, despresivel.

[26] Rancho de rapazes inuteis; vadios.

[27] N’outra publicação contra o padre José Agostinho, diz Pato Moniz, mais claramente, que o General Luneta era D. Thomaz de Almeida, e que o general do exercito opposto era «um preto caiandeiro.»

[28] N.º 2. 1889.

[29] Camillo, no Eusebio Macario.

[30] L. A. Palmeirim, Os excentricos do meu tempo, pag. 263.

[31] Esta decima, tendo por assignatura trez XXX, appareceu publicada no Almanach de lembranças para 1861.

[32] São fornecidas pelo Maia as seguintes relações, aliás um pouco baralhadas chronologicamente, de cultores do Fado.

Tocadores mais celebres:

Palmella, Maggyoli, José Vinagre, Thomaz do Bairro Alto, Francisco d’Alcochete, Antonio dos Fosforos, Constantino Marceneiro, Antonio, Manuel e José Casaca, João Maria dos Anjos, Paulo Pereira, Luiz Petrolino, Thomaz Ribeiro, Robles, Reynaldo Varella, Alberto Lima, Julio Silva Carvalhinho, Chico Padeiro, Carmo Dias, Julio Silva (Ourives), João da Preta, Palhetas. (Não deve esquecer o proprio Maia.)

Cantadores mais celebres: José Maior, Saldanha, José Carlos, José Borrêgo, José Petiz, Calcinhas, Pae Antonio, Patusquinho, Campanudo, Damas, José Maria Artilheiro, Sapateirinho, Batata d’Adiça, João da Matta, Isidoro Pataquinho, Serrano da Graça, Manuel Serpa, Russo do Chafariz, Manuel da Motta, Jorge Caldeireiro, Eduardo, Brazileiro, Manuel Serpa, Rosa Sapateiro, Carlos Arintho, Sepulveda, José Carlos, Zé Um, Luiz Palhinhas, José Cecilio, Chico Plainudo, Chico Torneiro, Ginguinha.

Antigos fabricantes de guitarras: mestre Jeronymo, largo da Annunciada; José Pedro o Mudo, Paço do Bemformoso; Manuel Guitarreiro, largo da Esperança; João Ramella, calçada dos Caldas.

[33] «Quando Taborda cantava na comediasita Ditoso fado algumas quadras á viola (aliás guitarra) o publico em altos gritos pedia mais, e mais, e mais, e o grande, o incomparavel Taborda entoava centenas de quadras entre applausos.» Julio de Castilho, Amores de Vieira Lusitano, pag. 127.

[34] Esta palavra tem-se graphado em portuguez dos seguintes modos: lundu, lundum, landum, londum.

[35] Marquez de Ficalho.

[36] Conde de Vimioso.

[37] Lisboa na rua, pag. 167 e seg.

[38] Pianinho é outro synonymo da guitarra, em calão fadista.

[39] Ultimamente publicou-se uma collecção de Fados infernaes, em que se encontram «Fados á campa».

III
Os assumptos do Fado

O fadista, como já vimos a respeito do «bailhão», não deixa o seu credito por mãos alheias.

Pouco lhe importa que os litteratos o descrevam; descreve-se elle a si mesmo, propagando uma litteratura, que é d’elle ou feita para elle, e que lhe dá celebridade.

Essa litteratura é o Fado.

O fadista canta as outras classes; tão tolo seria elle que não cantasse a classe a que pertence.

Ha Fados que o descrevem na vida e na morte, no prazer e no azar, em liberdade e no Limoeiro.

A conjugação de todos esses Fados, dá, completa e integra, a vida do fadista.


Na vida

O fadista na taverna

Passa a vida socegada;

A um gesto da prostituta

Vae dar n’outro uma facada.

Chame-se embora immoral

Á vidinha do fadista,

Das boas vidas na lista

Não se conhece outra igual.

Trabalho não lhe faz mal,

O andar não lhe cança a perna,

Tem ao lado a amante terna

Cheia de doce carinho,

E tem sempre muito vinho

O fadista na taverna.

Quando diz o fadistinha

Que não tem dinheiro, um dia,

O tasqueiro logo lhe fia

Porque... o medo guarda a vinha.

Porque elle usa a navalhinha

Sempre de ponta afiada,

E a barriguinha adorada

Não póde estar no seguro...

O fadista, pois, o puro,

Passa a vida socegada.

Do lupanar para a tasca

Anda sempre a passeiar,

Com a esbelta amante a par,

A quem forte e feio casca.

Ás vezes arma borrasca

Por ciumes com que lucta,

E arruma pancada bruta,

Ou leva p’ra seu tabaco,

Só dando parte de fraco

A um gesto da prostituta.

Se a amante não tem dinheiro

E deve á contrabandista,

Então o heroe, o fadista,

Trabalha... de ratoneiro.

E se vae p’r’o Limoeiro,

Lá vae soccorrel-o a amada;

E ao voltar á vida airada,

Os bolsos trazendo fracos,

Até por quatro patacos

Vae dar n’outro uma facada.


Na morte

Vou despedir-me da vida,

Ao som da banza sonora;

P’r’a derradeira cantiga

Dá-me, ó musa, um quarto d’hora

Parte alegre o cantador,

Ouvindo o estylo do Fado,

Para o logar onde é dado,

Aos bons o justo valor.

Mas antes que o teu rancor,

Ó parca vil, destemida,

No coração cave a f’rida

E d’agonia os tormentos:

Ao som de tristes lamentos

Vou despedir-me da vida.

A fragil voz não levanto,

P’ra cantar minhas proezas:

Não vou relatar emprezas,

Que a todos causem espanto.

O que ora incita o meu canto

Para essa turba que chora,

N’esta pequena demora

Que peço ao Deus das verdades,

É dictar minhas vontades

Ao som da banza sonora.

Não quero sinos plangentes,

Nem pompa mal empregada;

Só quero em cova apartada

Dormir o somno dos crentes.

Que um d’esses faias valentes

Que Portugal hoje abriga,

Empunhando a banza amiga

Me faça a necrologia.

Bem vêdes. Não ha folia

P’r’a derradeira cantiga.

Na minha campa, gravado.

Seja visto este lettreiro:

«—Dorme aqui faia brégeiro

«Que soube cumprir o fado.»

Sinto-me, ó faias, cançado,

Vou partir sem mais demora.

Deixem-me só; vão-se embora

Sem pranto nem algazarra,

Mas p’ra que eu beije a guitarra

Dá-me, ó musa, um quarto d’hora.


Testamento do fadista

Deixo a guitarra á Joanna,

Quatro beijos á Francisca,

Deixo á Thomazia uma praga

E o baralho para a bisca.

’Stou no ultimo momento,

Dentro em pouco... era uma vez.

E, portanto, oiçam vocês

Qual é o meu testamento

—O Constancio, toma assento

Á banca que já abana;

Não faças lettra parrana

Como o teu irmão Calixto,

E começa por pôr isto:

Deixo a guitarra á Joanna.

Á Marianna d’Aliça

Deixo as de panno mui fino

Calças de bocca de sino

E o collete de ir á missa.

Deixo á Josepha Carriça

Um vintem para uma isca;

Á Bonifacia Lambisca

Deixo-lhe um chapeu de côco;

Á Felicia deixo um sôcco,

Quatro beijos á Francisca.

Deixo o gato que anda côxo

Á brejeirota Maria,

Que sempre quando eu pedia,

Não faltava a dar-me um chôcho;

Um canapé e um mocho

Deixo á Joaquina gaga;

Deixo á Brites Bestiaga

O meu luzente cachucho;

Deixo á Anna um ai machucho.

Deixo á Thomazia uma praga.

Á Adelaide do olho torto,

Fadista de boa pinta,

Deixo a minha linda cinta

Que mandei comprar ao Porto;

Deixo, para seu conforto,

Um litro á Lucia Petisca;

Á Cunegundes Arisca,

Que canta ás mil maravilhas,

Dois tachos, quatro rodilhas

E o baralho para a bisca.

A guitarra é o porta-voz do fadista. O calão é a sua linguagem. O Fado é a sua eloquencia, a sua poesia.

Por isso elle se mostra reconhecido ao inventor da guitarra, cuja estatua desejaria erigir na praça publica, como se se tratasse d’um heroe.

Mas, não o podendo conseguir, quer ao menos levantar-lhe um monumento com as melhores canções de todos os cantadores do Fado, o que faz lembrar a lenda da cortezã Rhodopis, que levantou uma das pyramides do Egypto convidando cada um dos seus amantes a acarretar uma pedra.

Da suavissima guitarra

Quem seria o inventor?

Qu’ria erguer-lhe um monumento,

Uma estatua de primor.

Inventaram-se os pianos,

As cornetas e os flautins,

As flautas, os cornetins

E os orgãos ha muitos annos.

Mas o saber dos humanos,

Do qual tanto ahi se narra,

Deu a prova mais bizarra

Do seu poder e magia,

Inventando a melodia

Da suavissima guitarra.

Quem se lembrou de fazer

As marimbas e as cornetas,

Quem inventou as trombetas

Não me importa a mim saber:

Mas o que me faz arder

É não achar um doutor,

Antiquario sabedor,

Em alfarrabios um barra,

Que me diga da guitarra

Quem seria o inventor.

Qu’ria metter nas cantigas

O nome d’aquelle heroe,

Que no peito me destroe

As tristezas inimigas.

Qu’ria empregar mil fadigas

Cantando-o com todo o alento,

E nos mil versos que invento

E conservo na memoria,

Para sua eterna gloria

Qu’ria erguer-lhe um monumento:

Um monumento fundado

Em cantigas escolhidas,

Que seriam muito qu’ridas

Pelos amantes do Fado.

Pediria em alto brado

A todo o bom cantador

Que me fizesse o favor

De poupar parte do cobre,

Para erguer a homem tão nobre

Uma estatua de primor.

Depois da invenção da guitarra, nada parece ao fadista tão admiravel e sublime como o Fado em que elle póde traduzir tudo quanto pensa e sente, toda a expressão da sua alma, toda a synthese da sua existencia.

Quando ouço qualquer pequena

Largar uma piadinha,

Sinto logo sensações...

De fazer uma escovinha.

Eu gosto da castanhola,

E deleita-me a habanéra,

Idolátro a penetéra

Cantada por uma hespanhola;

Acho pilheria á manóla,

Se tem graça e é morena,

Que na sua cantilena

Nos mostra verbosidade:

De a imitar tenho vontade,

Quando ouço qualquer pequena.

Mas gosto mais do Fadinho

Tocado mui mavioso,

Por um typo conscencioso,

Que trine no corridinho;

Não posso estar quietinho,

Se ouço uma guitarrinha;

Dá-me logo vontadinha

De entoar uma canção,

Se ouço qualquer ratão

Largar uma piadinha.

Se uma serva de Cupido,

Com meiga voz o cantar,

Fico-me logo a babar...

Mui peixóla e derretido;

Sinto-me então decidido,

Cá para certas funcções...

E n’estas occasiões,

Em que o meu ser todo gosa,

Cá para coisas ó Rosa...

Sinto logo sensações...

Decerto, não fica mal

Gostar do mavioso Fado,

Pois só elle é acclamado,

Como o hymno nacional.

Gosto do Fado em geral,

Tocado por brégeirinha,

Que com a nivea mãosinha,

O dedilha com primor.

Dá-me ganas e furor

De fazer uma escovinha.

Para o fadista, cidadão dos bairros infamados, habitué das espeluncas e dos bordeis, todo o paiz se resume n’esse mundo, que é o seu, a «sua patria», o seu habitat.

Por isso considera o Fado um «hymno nacional».

FADO CORRIDO

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Quando a prima e a toeira[40]

Dão do Fado os sons divinos,

Esqueço todos os hymnos

Da Carta, mais da Terceira.

Eu despréso a petisqueira

De mais fino e bom sabor;

Despréso o vinho e o amor;

Das magoas fico esquecido:

Que ao som do Fado corrido

Não ha tristeza nem dôr.

E lisonjeia-se de que as classes superiores da sociedade executem o Fado no piano, em sumptuosas salas; como um estrangeiro se póde lisonjear de ouvir o hymno da sua nação, apreciado n’uma terra que não é a d’elle.

E não me venham dizer

Santarrões de idéas tortas

Que o Fado é bom para as hortas

Entre as furias do beber:

Já tive o gosto de o vêr

Nos salões muito acatado;

Vi-o por vezes cantado,

Em beneficio dos pobres,

Por senhoras muito nobres,

No piano acompanhado.

Se o Fado ajuda os folgares

Da pobre gente do povo,

Não deve ser caso novo

Louvar-lhe os dons singulares:

Triumphem, pois, os cantares

Em que a voz d’alma nos falla;

Sôe a guitarra que abala

O albergue dos desgraçados,

E sob tectos doirados

Por’hí se ouve em muita sala.

O Fado é, para o fadista, a melhor de todas as musicas, a mais dôce, a mais terna, a mais estonteadora: o que vale ao Padre Santo, para não ultrajar a dignidade da tiara, é «não saber o gosto que o Fado tem»; o Diabo, nas profundezas do inferno, arde menos no fogo das suas paixões quando se põe a cantar o Fado como um faia da Mouraria:

O diabo lá no inferno,

Onde nos leva ao chamusco,

Tambem o Fadinho canta

Como o mais bello patusco.

Um Fado infernal descreve a macabra alegria do Averno quando lá sôam os accordes de algum Fado mephistophélico:

Satanaz com voz possante,

Com sua voz d’estentor,

Canta o diabolico amor

Da sua infernal amante.

Recitam versos do Dante

Todas as furias do Averno,

E por entre o fogo eterno

Que mil almas tem queimado,

Os demos tocam o Fado

Nos grandes tan-tans do inferno.


Á gargalhada estridente

Succede o tristonho pranto,

E os diabos folgam tanto,

Que não ha um descontente.

Entra o Fado finalmente

Na região bacchanal,

Faz-se um enorme arraial

Que em brilho vae progredindo

E o Demo canta, sorrindo,

O seu Fadinho infernal.

O calão é a linguagem habitual do fadista. Parece um dialecto, sem o ser rigorosamente. Muito pittoresco, não se limita apenas a alterar phoneticamente as palavras como a giria infantil; além de lhes alterar o som, altera-lhes tambem a forma, e muitas vezes lhes desloca a significação, levando-a para outros objectos, n’um sentido tropologico, fundado na relação de semelhança.

Assim, a garrafa preta da taberna é viuva; os copos são filhos da viuva: uma viuva e dois filhos quer dizer—uma garrafa e dois copos.

Mas se o copo é maior que o da decilitração habitual, chama-se sino grande.

O cigarro é soldado de calça branca; a navalha, sardinha; a faca, sarda; o apito, rouxinol; a quantia que o rufião recebe da amante, queijada; o dinheiro, painço; o café com leite, mulato; a agua com café, meio-caiado; Deus, juiz do Bairro Alto; as pernas, juntas; a barriga, folle das migas; as notas de banco, filhozes; enfiar uma guitarra pela cabeça d’outra pessoa é fazer uma gravata; a bofetada é estampa; a meia-porta dos bordeis do Bairro Alto, avental de madeira, etc.[41]

Nas outras linguas encontra-se um vocabulario correspondente ao calão dos nossos fadistas: os hespanhoes chamam-lhe germania e chamavam-lhe antigamente gerigonza; os francezes jargon e argot; os italianos gergo e lingua furbesca; os inglezes cant, etc.[42]

Calão vem de caló, nome que os ciganos dão a si mesmos.

Portanto significa propriamente «cigano», «lingua de cigano.»

A giria portugueza, isto é, a linguagem especial usada pelas classes vis a fim de que as outras classes sociaes a não entendam, é muito antiga: já no seculo XVI Jorge Ferreira de Vasconcellos se refere aos que fallavam germanía.

No seculo XVII D. Francisco Manuel de Mello empregou alguns termos de giria na Feira dos anexins, que é, como se sabe, uma galante collecção de equivocos e jogos de palavra.

No seculo XVIII, o padre Bluteau organizou uma lista d’aquelles termos, que incluiu no seu Vocabulario, e que foi copiada em parte no Compendio de orthographia de Frei Luiz de Monte Carmelo.

No mesmo seculo, os Rasgos metricos, de Alexandre Antonio de Lima, e as Infermidades da lingua, a que já tivemos occasião de referir-nos, fornecem elementos subsidiarios para o estudo do calão.

No seculo XIX, a Historia do captiveiro dos presos d’estado na Torre de S. Julião da Barra, por João Baptista Lopes; a traducção dos Mysterios de Pariz, feita no Porto pelo dr. Pereira Reis; o romance Fr. Paulo ou os doze mysterios; o romance Eduardo ou os mysterios do Limoeiro pelo padre Rabecão; os artigos de Candido Landolt na Revista do Minho (1875) e os de Queiroz Vellozo na Revista de Portugal, 1890; os Ciganos de Portugal, por Adolpho Coelho, abrangendo um importante estudo sobre o calão, e o diccionario de giria ultimamente publicado pelo sr. Alberto Bessa constituem copiosas fontes para o vocabulario do calão portuguez.

Adolpho Coelho traz o seguinte Fado composto em calão, reproduzido por Alberto Bessa:

Ao fadista chamam faia,

Ao agiota intrujão;

Ao corcovado golfinho,

Ao valente bogalhão.

Entre o povo portuguez

Ha calões tão revesados,

Que deixam muitos pintados

Por mais de cento e uma vez.

Lá vão alguns—trinta e trez

(Não sei se n’elles dou raia):

Á prata chamam-lhe laia,

Ás nossas cabeças pinhas;

Aos porcos chamam sardinhas,

Ao fadista chamam faia.

Ás nossas mãos chamam batas,

Ao genio chamam ralé;

Á esperança chamam filé,

Ás bruxarias bagatas;

Ás velhas chamam cascatas,

Ao poupado sovelão;

Um gabinardo ao gabão;

Ao caldo chamam-lhe rola;

A um relogio cebola,

Ao agiota intrujão.

Ao fugir chamam raspar;

Chamam á casa mosqueiro;

Ao ébrio chamam-lhe archeiro,

Ao comprehender toscar.

Ao roubo chamam cortar,

Á guitarra pianinho,

Ao chapeu escovadinho;

Ao jogo chamam batota,

A uma sardinha aranhota,

Ao corcovado golfinho.

Á fome chamam peneira;

Tambem lhe chamam larica.

Chamam á cara botica,

Á aguardente piteira.

Chamam bico á bebedeira,

A uma mentira palão;

E tambem é de calão

Chamar-se ao vinho briol;

Ao nosso bucho paiol,

Ao valente bogalhão.

Ha, porém, outros Fados compostos em calão. Conhecemos quatro que não devemos deixar de transcrever, tanto mais que elles contéem alguns termos, como por exemplo antrames e gamotes, que não foram incluidos no diccionario do sr. Bessa.

Quem se metter c’um fadista

E o ouvir fallar calão,

Fica logo a ver navios,

’Té perde a mastreação.

Chamam ao bater suquir,

Á gazúa uma retanha,

Á bofetada uma sanha;

Roncar é estar a dormir;

Esgueirar é ter de fugir,

Um arranjo é uma conquista,

A taverna é uma modista,

Cemiterio se-m’entende;

Decerto o não comprehende,

Quem se metter c’um fadista.

Homem honesto e honrado,

É um gajo direitinho;

Bater é fazer joginho,

Mattar é deixar espalhado.

Ser pobre estar desarmado,

Gamote é reunião:

Pois quem se chegue a um bailhão

Passe-lhe logo as palhetas,

Quando o vir fazer caretas,

E o ouvir fallar calão.

Elles chamam laia á prata,

A um casebre um cortiço,

Namorar é um serviço,

A pancada é zaragata,

Um sôcco é uma batata;

Chapeus altos são cepios,

Aos ladrões chamam larpios,

Ás algibeiras antrames:

Quem ouvir dizer arames,

Fica logo a ver navios.

Arames é o dinheiro;

Ao vinho chamam briol;

Ao apito um rouxinol;

Jogador de pau, cocheiro;

Um bebado é um archeiro,

Um gabinardo um gabão,

Dois vintens um buzilhão,

Avésa quer dizer tem:

Quem os não percebe bem,

’Té perde a mastreação.

Passei os butes[43] á Annica,

Pois tinha naifa na liga:

Boas noites, meus senhores.

Vou cantar uma cantiga.

De briol tinha atirado

Duas viuvas e meia:

Sentou-se uma centopeia

Junto onde eu estava sentado.

Fiquei mais envinagrado,

Quiz dar cabo da futrica.

Já por ser feia e não rica

E me negar um paivante,

Em tempo que é já distante

Passei os butes á Annica.

Puz-me a mirar a gajona

E fez-me tanta arrelia,

Que por pouco a não enfia

A minha naifa, intrujona.

Tinha um ar de marafona,

De mulher que vende em giga.

Mas não quiz armar a briga,

Apesar já da piélla,

Não me quiz medir com ella,

Pois tinha naifa na liga.

A final engole a isca

Que tinha mandado vir,

E diz-me assim ao sair:

«Chamo-me Nuna Francisca.

Se você se não arrisca

A mostrar-me os seus valores,

Vá ler co’a Julia Dolores,

P’ra nos soccarmos com ella».

Vejam lá que bresundella!

Boas noites, meus senhores.

Se alguem d’aqui foi capaz

De saber o que eu cantei,

Uma prenda lhe darei,

Seja velhote ou rapaz.

Sabem o que aqui me traz,

O que a servil-os me obriga?

É essa amizade antiga

Que por mim lhes é bem dada.

Visto que fiz esta entrada,

Vou cantar uma cantiga.


Quando tenho uma carinha,

E um charuto a fumegar,

Já sou mais que o faroleiro,

É dar-lhe, toca a gimbrar.

O meu corpo não foi feito

P’ra se ralar...—isso pára!

P’ra gozança é que esta cara

Sempre leve todo o geito.

Se avélo por o direito,

Seja só uma rodinha,

Já dou mil voltas á pinha

A pensar como estafal-a,

E então isso não se falla

Quando eu tenho uma carinha!

Elle é a bella murraça,

É a bella rapioca,

Elle é a gostosa móca,

Elle é tudo que tem graça.

Lá p’ra fazer de panaça

Co’as mondongas a versar,

Nunca me esteve a calhar;

Prefiro bater a bisca,

Ou dar-lhe então d’uma isca

E um charuto a fumegar.

Se a cousa gruda ao domingo,

Dou girança até ás hortas,

E de lá por horas mortas

E já torto que me tingo:

Que eu tambem nunca me pingo

Até perder o carreiro;

Fico só um pouco archeiro,

A trez furos de pingado,

E assim mystico, orchatado,

Já sou mais que o faroleiro.

Todo o gajo que na orchata

Nunca entortou o pescoço,

Avezando bago grosso,

Tem a pitorra bem chata.

Devia logo uma data

De camolete apanhar,

Que era então p’ra se lembrar

Que o mundo é uma fumaça,

E emquanto n’elle se passa

É dar-lhe, toca a gimbrar.


Em calão a atirar

Dê-me a naifa, não se ponha

Comigo ás duas por trez.

Não passe os butes agora...

Que está na mão de má rez.

—Eu estafo-o, seu mariola.

—E eu cá chego-lhe amas todas.

—Não se me ponha com modas,

«Que o mando já p’r’o esfolla.

—Olhe que é de ponta e móla.

«Olhe que esta tem peçonha.

—Você perdeu a vergonha?

—Perdi a vergonha? Hom’essa!

—Vamos lá, que tenho pressa;

«Dê-me o naifa, não se ponha...

—Não me ponho a fazer vistas

«De fadista ou galopim;

«Lá está aberto o eslarim

«P’ra quem rentar com fadistas.

—Você porque faz conquistas...

«Que eu não sei já quantas fez,

«Vem cá fazer-se francez?

«Porque pertence á gentalha,

«Vem pôr-se aqui, seu canalha,

«Comigo ás duas por trez!...

«—Está nadando, meu amigo;

«Passe p’ra cá essa espinha.

—Isso, não; que é muito minha:

«Você, chamava-lhe um figo!

—Eu se lhe afinfo no embigo

«Um sôcco sem mais demora...

«Veremos, se você chora

«O seu empenho tão cego!...

«Eh! onde vai, seu gallego?

«Não passe os butes agora!

«—Arrede-se já d’aqui...

«Já o não vejo, percebe?

«—Pois já a comadre bebe?

«Seu pateta!... seu cri-cri!...

«—Eu cá logo quando o vi;

«Puxei da naifa outra vez:

«Vá, marche, seu montanhez,

«Ou dou-lhe quatro naifadas;

«Conte co’as guellas cortadas,

«Que está na mão de má rez.

Assim, pois, o fadista creou para si um mundo á parte, onde a linguagem, os usos, os costumes constituem uma vida exótica, de aberração, que se escôa por entre a sociedade portugueza como um enxurro negro e torvo.

N’essa vida destragada todos os mais nobres sentimentos da humanidade se abatem e enlameiam, attingindo ás vezes as proporções de um paradoxo.

Uma das coisas que mais custam a comprehender na vida do fadista é o ciume que elle tem da mulher perdida, que todos os dias se vende ao primeiro homem que passa.

Interesse? affeição? tudo isto talvez, porque o fadista vive á custa da depravação da amante, mas quando o ciume o domina dir-se-ha haver n’esse sentimento o que quer que seja superior ao interesse material.

Reconhecendo-se atraiçoado, o fadista procura matar a mulher que lhe foi desleal, e desprésa todas as conveniencias pessoaes que d’essa convivencia amorosa lhe resultavam.

É então que parece comprehender o amor e sentir o ciume como todos os outros homens.

Fóra d’esses lances, encara a prostituição da mulher como um commercio que exclue toda a idéa de sentimentalidade, e que o ajuda a viver.

Do que elle tem ciumes não é das caricias que a sua amante vende; é d’aquellas que ella pode dar por um impulso espontaneo do coração.

O mobil das grandes desordens entre os fadistas tem quasi sempre origem no ciume—este ciume de contrabando, paradoxal, que tanto custa a comprehender.

Nos Fados, a mulher perdida é cantada pelo fadista como sendo tambem uma victima da fatalidade do destino:

Não me prendeu sempre o vicio,

Tambem donzella nasci;

Mas meu candor deprimi,

N’um criminal desperdicio.

Na beira do precipicio,

Onde o meu fado me tem,

Não vê meus prantos ninguem,

Nem minha dor avalia,

Privada de quanto havia

No collo de minha mãe!


Tudo p’ra mim se acabou,

Beijos de mãe, meus folguedos;

Meus innocentes brinquedos,

Um sonho foi que passou.

O fado meu me votou

A toda a triste agonia,

Até que p’r’a valla fria

Meu corpo seja deitado,

Pois que dos bens do passado

Nada me resta hoje em dia.

Camillo, no Eusebio Macario, reproduz dois versos de um Fado da Escarnichia (Escarniche, na pronuncia popular), os quaes dão a impressão rapida da «má sorte» que, segundo a lenda fadista, a arremessou para a desgraça:

Nascêra n’um berço de ouro

E não teve uma mortalha.

Todas as rameiras mais populares, desde a Severa, a Escarnichia, a Joaquina dos Cordões,[44] etc., até á Borboleta[45], teem sido choradas pela guitarra e encontrado uma necrologia nas glosas sentimentaes do Fado.

Além da vida do fadista e da morte das mal-fadadas que viveram entre o povo, o Fado canta ainda outros assumptos, a saber:

a) O amor, como o fadista é capaz de o sentir; sem delicadeza e sem recato: o amor sensual, que principia por onde nas outras classes acaba.

Porém, se é o teu desejo

Saber isto mais a fundo,

Deixa lá fallar o mundo

E passa p’ra cá um beijo:

Só então, segundo vejo,

Serei grande explicador.

Só então, anjo d’amor,

Saberás p’la vez primeira,

Que te fallo de cadeira,

Que sou n’arte professor.

E muitas vezes o amor é declarado em calão, para ser melhor entendido:

Quando eu apenas tosquei

Essa facha tão formosa,

Senti coisinhas ó Rosa,

E apaixonado fiquei.

Sou feliz que nem eu sei...

Minh’alma se desatina

Só pôr ver que é papa fina

Sua elegante pessoa;

Palavra, que é toda boa,

Minha adorada menina!

b) Os trabalhos e soffrimentos das classes sociaes que estão em contacto com o fadista ou proximas a elle.

c) Os aspectos da vida popular e a chronica das ruas, como as hortas, os pregões, a noite de Santo Antonio.

d) Os grandes crimes e os grandes desastres terrestres ou maritimos, que impressionam a opinião publica.

e) A morte de personagens celebres.

f) Os conflictos politicos ou religiosos que provocam discussões na imprensa e no parlamento.

g) A nomenclatura popular de utensilios de trabalho nas artes e officios ou de animaes, arvores, plantas, flores, etc.

h) As cidades, seus bairros e ruas, as villas e aldeias do paiz, n’um jogo de metaphora ou de antithese; n’um sentido de orgulho local e patriotico ou de funda nostalgia.

i) Passagens da Biblia, assumptos religiosos, especialmente relativos á vida eterna, e episodios da historia de Portugal.

j) Descripção das esperas de touros, peripecias das touradas, triumphos e desastres dos toureiros mais evidentes.

k) Expressão de malicias e gaiatices, que ou é formulada brutalmente n’uma linguagem obscena ou recorre ao equivoco e ao trocadilho.

l) Floreios de palavras exdruxulas e arrevezadas que muitas vezes não fazem sentido.

Entre as classes sociaes que são cantadas no Fado, avulta a dos marinheiros, talvez pela razão, de que o marujo é meio fadista.

Já dissemos que, segundo a opinião do velho guitarrista Maia, o Fado do marinheiro é um dos mais antigos.

Tornou-se muito popular uma cantiga, que não seguia a metrica tradicional do Fado, mas que entrou logo no genero, a que realmente tinha direito não só pelo assumpto, como tambem pelo seu rythmo plangente:

Triste vida a do marujo,

Qual d’ellas a mais cansada.

Por’môr da triste soldada,

Passa tormentos,

Passa tormentos,

Don, don.

Anda á chuva e aos ventos,

Quer de verão, quer de inverno;

Parecem o proprio inferno

As tempestades,

As tempestades,

Don, don.


Foi um velho marinheiro

Que inventou esta cantiga;

Embarcado toda a vida,

Sem ter dinheiro,

Sem ter dinheiro,

Don, don.[46]

D’este Fado correm pelo menos duas versões, como se pode reconhecer confrontando a de Coimbra—que vem no Cancioneiro popular de Theophilo Braga—com a (de Lisboa) que vem appensa á Confissão geral do marujo Vicente, edição de Verol Junior.

No Almanach da terra e mar, tambem edição d’este livreiro, vem um novo Fado do marujo, decalcado sobre o antigo; além de outros Fados maritimos.

É muito original, pelo emprego da technologia nautica n’uma intenção amorosa, o seguinte Fado:

Do mar nas aguas salgadas,

Mais de trez annos andei

A navegar de bolina.

’Té que a final encalhei.

Como chaveco pirata

Andei correndo na alheta

D’uma velleira corveta,

Que me fugia, a ingrata!

Toda a manobra m’empata,

Virando sempre em bordadas;

Ora co’as vellas caçadas,

Ora com gávea, e latina;

Nunca vi barca mais fina,

Do mar nas aguas salgadas!

Quando largava os estaes,

E carregava o traquete,

Corria como um foguete,

Ou talvez mesmo inda mais!

Até os mastros reaes

Que tinha d’aço julguei;

Nunca por vante a pilhei,

Com brisa fresca ou escassa.

A dar-lhe sempre assim caça

Mais de trez annos andei!

Nos seus cachorros de proa

O meu sentido só tinha;

Porém p’ra fóra da linha

Da minha esteira ella vôa,

Como um safio s’escôa,

Que tem a quilha mui fina;

Já p’lo redondo a mofina

Zomba de toda a coragem,

Nem se lhe dá abordagem,

A navegar de bolina!

Senti-me desarvorado,

Nas ondas andando aos tombos,

O casco tendo com rombos,

E todo, emfim, adornado.

No tope, o signal içado

Pôr de soccorro mandei.

Ella então cedendo á lei,

Seja quem for que a invoque,

Trouxe-me tanto a reboque,

’Té que a final encalhei.

De outros Fados de classe daremos ainda alguns exemplos.


Fado dos calceteiros

Nossa arte chega ao apuro,

Posso-o dizer com verdade:

Vêde os mosaicos de cores

Nos passeios da cidade.

Para que os trens de estadão

Rodem por modo ligeiro,

Passamos o dia inteiro

Em difficil posição.

Sempre ao rigor da estação,

O nosso trabalho é duro;

Mas podemos, asseguro,

Dizer mesmo aos de Pariz:

No lusitano paiz

Nossa arte chega ao apuro.

Com um passadio escasso,

Entre o frio e o calor,

Trabalham com todo o ardor

Os nossos homens de masso:

Dando no progresso um passo,

Formámos sociedade;

Reina entre nós amizade,

Detestamos os vis pulhas;

Não somos homens de bulhas,

Posso-o dizer com verdade.

Ordens, que do mestre vem,

Cumprimos, como é dever,

Mas não sabemos soffrer

Um insulto de ninguem.

Se qu’reis saber onde tem

Chegado os nossos primores,

Tornae-vos passeiadores

Das ruas que são mais vistas,

E com olhos, mas de artistas,

Vêde o mosaico de côres.

O estrangeiro em Portugal,

De certo fica encantado,

Quando vê lá no Chiado

Obra boa nacional:

Se elle quizer ser leal

E não faltar á verdade,

Dirá, com ou sem vontade,

Que por lá não se apresenta

O que em Portugal se ostenta

Nos passeios da cidade.


Fado dos galuchos

Deixei minha cara terra,

Minha mãe, o meu amor;

Como agora uns vis feijões,

E marcho ao som d’um tambor.

Como eu não tinha dinheiro,

Nem um empenho por mim,

Lavrador, coitado, vim,

Servir a patria guerreiro.

Não perguntaram primeiro

Se eu tinha geito p’r á guerra,

«Marcharás por valle e serra,

Nunca fugirás á briga»

Ai! p’ra tão dura fadiga

Deixei minha cara terra!

Se era duro o meu lidar

Em que suei pingo a pingo,

Eu tinha sempre ao domingo

As festas no meu logar.

Ai! já não oiço o cantar

Do ceifeiro lidador!

Já do bando voador

Eu não escuto o gorgeio!

Já não aperto a meu seio

Minha mãe, o meu amor!

Obedeço ao capitão,

Mesmo ao cabo muito bruto;

Ao tenente, que é matuto,

E ao sargento aldrabão.

Attendidas jámais são

As minhas justas razões.

D’antes nas minhas funcções

Comi coelho guisado.

Da patria bravo soldado,

Como agora uns vis feijões.

Não se fartam de dizer:

«Defender-se a patria deve.»

Mas o diabo me leve

Se eu sei quem vou defender!

Devo sempre combater,

E matar, seja a quem fôr,

Sem nunca sentir amor.

Isto farei, vil galucho,

Que ora triste aperto o bucho

E marcho ao som d’um tambor.

Sobre os aspectos da vida popular e a chronica das ruas:


As hortas

Aos domingos, á tardinha,

Quem não sae fóra de Portas,

Não conhece a felicidade

De comer peixe nas hortas.

A gente cá de Lisboa

Gosta sempre, aos dias santos,

De se metter pelos cantos,

Comendo e bebendo á tôa;

Petisqueira toda boa

Procura a nossa gentinha:

Come pescada ou sardinha,

Com a maior alegria:

P’r’as hortas ha romaria

Aos domingos, á tardinha.

Por debaixo da folhagem

Enxuga do branco e tinto;

E creiam, que não lhes minto,

Bebe com toda a coragem:

No fim d’aquella viagem

Tudo tem as pernas tortas;

Parecem uns moscas-mortas,

Mesmo os que tocam a banza;

Pois só não fica zaranza

Quem não sae fóra de Portas.

Uns ficam inteiriçados

Debaixo ali d’umas bancas,

Outros vão movendo as trancas,

Mas bastante atrapalhados.

Tantos copos enxugados,

Com tal força de vontade,

Tiram logo a faculdade

De a gente mover as pernas.

Mas quem não vê taes tabernas,

Não conhece a felicidade.

Ir ás hortas de passeio,

É melhor que ser sultão:

Quem precisa distracção,

Procure logo este meio.

Podem ir lá sem receio

De virem co’as pernas tortas;

Pois lá por fora de Portas

Pouco bebe quem bem pensa;

Mas todos teem licença

De comer peixe nas hortas.


Pregões de Lisboa

Merca o tremoço saloio,

Merca laranja da China,

Saiu agora a dez réis:

Quem quer vêr a sua sina?

Merca a ginja garrafal,

Merca a cereja do sacco,

Marmello assado, a pataco,

Vá la da viva sem sal.

Quem merca a uva ferral

Que é mesmo trigo sem joio?

Quem compra a este maloio

Dois casaes de patos novos?

Quem me acaba a duzia d’ovos?

Merca o tremoço saloio.

Vá o par de bons melões,

Um quarteirão de tomates,

Vá peras quasi de gratis,

Rabanetes e limões.

Merca o mólho d’agriões,

Tinta fina, tinta fina,

Ricas postas de curvina,

Quarteirão de pêra parda,

Quem merca a couve lombarda?

Merca a laranja da China.

Vá o par de melancias;

Quem quer partidas á faca?

Merca o figado de vacca,

Pevides e alcomonias.

Bonitos, bijuterias

Dedaes, fitas e anneis,

Pentes, broches e paineis,

Canivetes com bons cabos

O Pimpão, Trinta Diabos

Saiu agora a dez réis.

Amola facas, tesouras;

Vá capachos e sapatos,

Vá lá carapau p’ra gatos;

Vá esteiras e vassouras.

Merca o mólho de cenouras,

Merca a boa tangerina;

Vá lá abob’ra-menina,

Figos quem quer almoçar?

Tam’ra doce p’ra jogar?

Quem quer ver a sua sina?


Noite de Santo Antonio

Em dia de Santo Antonio,

Toda a gente faz banzé;

Lá na praça da Figueira

Sempre ha socco e ponta-pé.

No Rocio ha bons bailados,

Na Praça muito empurrão;

Os que andam na multidão

Vem para casa estafados

Uns guinchos disparatados

Da flauta tira o laponio,

Sempre me lembra o demonio

Quando vejo mil fogueiras

E na rua as vendedeiras

Em dia de Santo Antonio.

Muita gente vae sornar

Lá p’ras bandas da Trindade;

E depois a liberdade

Lhe custa reconquistar.

Tem as custas de pagar

Por ter andado zaré.

N’estas noites de filé

Da nossa população

É jogar o cachação,

Toda a gente faz banzé.

Segue depois outro santo

S. João, santo adorado.

Novo motim é travado,

Ha riso, amor, odio, pranto

Á sombra do rico manto

Da policia sempre ordeira

Lá vae muita bebedeira

Parar á casa da guarda,

Pois quasi sempre ha bernarda

Lá na Praça da Figueira.

Segue S. Pedro, e o povinho

Da lucta não está cansado;

Toca a andar muito exaltado

Pelo fumo e pelo vinho.

Louvam mais a S. Martinho

Que a S. Pedro, o rei da fé!

Fazem grande fincapé

Nos palmitos e assucenas,

E por causa das pequenas,

Sempre ha socco e ponta-pé.

Os Fados sobre crimes notaveis são vulgarissimos; como já dissemos, apparecem frequentes vezes, em folhas volantes. Damos, por isso, apenas um specimen:


O crime do Bemformoso

Em pleno sec’lo das luzes...

Chega a par’cer impossivel!

N’uma cidade brilhante

Commetteu-se um crime horrivel!

Na rua do Bemformoso

(Por mostrar sua alforria)

Pôz loja de mercearia

Mais um caixeiro brioso;

Porém o Fado maldoso,

Peior do que os abestruzes,

Só por nos lembrar as cruzes

Do tempo do feudalismo,

Lhe cavou medonho abysmo

Em pleno sec’lo das luzes.

Quando todo mundo préga

Contra a pena derradeira,

É quando a mão traiçoeira

Mais sobre os homens carrega!

A vil ambição é cega,

Dos vicios, o mais terrivel!

Porque faz descer ao nivel

Do ladrão e matador;

Mas fazel-o ao bemfeitor,

Chega a par’cer impossivel!

Domingues foi tão malvado,

Que, além de fazer-lhe o roubo,

Por ter entranhas de lobo,

Quiz deixal-o estrangulado.

Dormindo mui socegado

Estava o pobre commerciante,

Quando um ferro perfurante

Lhe trespassou as guellas!

E dão-se scenas d’aquellas

N’uma cidade brilhante!

O desditoso Duarte

(Por dar aos homens abrigo)

Creou feroz inimigo,

Sem culpa da sua parte!

Não foi morto a bacamarte,

Nem por arma compativel;

Que, por tornar despresivel

Tanto a dita como o porte,

Não só se fez uma morte...

Commetteu-se um crime horrivel!

Sobre um desastre que impressionou Lisboa—a morte do conde de Camaride:

O conde de Camaride

(Por dispensar o cocheiro)

Morreu desastrosamente...

Sem ser pintor, nem pedreiro!

Na rua Nova do Almada

(Mesmo junto á Boa Hora)

Deu-se a scena aterradora,

Que jaz na mente gravada.

Não só á pobreza honrada

Destroe a mundana lide;

Como a sorte é quem decide

De tudo quanto é mortal,

Quiz destruir a final,

O conde de Camaride.

Que importa que fosse nobre,

Que tivesse ouro a valer?

Não pôde deixar de ter

A mesma sorte que o pobre.

Se, de finados o dobre,

Lhe coube por ter dinheiro,

Não teve a gloria do obreiro,

Que morre ao som do martello:

Nem por isso foi mais bello,

Por dispensar o cocheiro.

Se guiava o tal cavallo

Que lhe concorreu p’r’a morte,

Não partilhava da sorte

Dos que tinham de tratal-o;

Sómente por seu regalo

Governava o tal vivente,

Sem sentir o que se sente

Quando o trabalho é forçado:

Todavia o desgraçado

Morreu desastrosamente.

O seu famoso corsel

(Apesar de fina raça)

Foi o motor da desgraça

Que lhe deu cabo da pel’.

Se gosava o doce mel

De, no carrinho ligeiro,

Ter o logar sobranceiro

Que tanto dava nas vistas,

Teve a sorte dos artistas,

Sem ser pintor, nem pedreiro.

Na morte de personagens celebres apparecem sempre Fados, que encontram um grande exito na rua entre as classes populares.

O que se segue, escripto por occasião da morte de Antonio Feliciano de Castilho, cantou-se na Mouraria, posto accuse uma origem culta:

Chorae, Musas Lusitanas,

O nosso dilecto filho;

Desceu á estancia da morte

O grão poeta Castilho.

Á luz do mesmo astro santo

Que lhe sorriu na innocencia,

Desfez-se da humana essencia

O rei do moderno canto.

Destillae amargo pranto,

Ó Graças ovidianas,

Que as Parcas sempre tyrannas

Ceifaram mais um talento.

Com profundo sentimento

Chorae, Musas Lusitanas.

Como Milton na Inglaterra

Cantou sem ver a natura.

Como elle, na sepultura

Para sempre Deus o encerra.

Extinguiu-se em nossa terra

Um esforçado caudilho,

Dos trez astros de mais brilho

Que nos deram mais auxilio.

Chorae, manes de Virgilio,

O vosso dilecto filho.

Com o mau destino humano

Nenhum poder se intromette.

Perdemos o bom Garrett

Ha quasi vinte e um anno.

Já só nos resta Herculano

D’essa trindade tão forte.

Dos grandes genios a sorte

Choremos com dor sincera,

Que o cantor da Primavera

Desceu á estancia da morte.

Privado na curta edade

De ver o grande Universo,

Cantava em sonoro verso

D’este mundo a magestade.

Ensinou á mocidade

Da instrucção o bom trilho,

Cantou a flôr e o tomilho

Como cantar ninguem ousa;

E emfim descansa na lousa

O grão poeta Castilho.

Apontemos outro facto mais recente: o suicidio de Mousinho de Albuquerque.

Vendeu-se logo um folheto de 8 paginas contendo a noticia da sua vida e morte, glosada em decimas.

A catastrophe final é assim descripta:

O destemido guerreiro,

Que sempre a morte affrontou,

Quando a vida lhe sorria

A negra morte chamou.

Contra si erguendo o braço,

Que a tantos a morte deu,

Encarando a luz do céu,

Teve da vida o fracasso.

Seu corpo de puro aço

Teve o golpe derradeiro,

Mas tão fatal, tão certeiro,

Que a vida, n’elle, apagou-se;

Pois sem fraqueza matou-se

O destemido guerreiro.

A tão notoria coragem

Que de louros o cobriu,

Não fraquejou nem fugiu

N’esta ultima passagem.

Decerto alguma visagem

Falso p’rigo lhe mostrou,

E o bravo não hesitou

Em morrer bem dignamente,

F’rindo de morte o valente

Que sempre a morte affrontou.

Quem conheceu o soldado

Que lembra os passados feitos,

Tributa honrosos respeitos

Ao luctador denodado:

Nenhum mais galardoado

Pela sua valentia,

Pois nenhum mais merecia

O logar que se lhe deu,

Mas a vida aborreceu,

Quando a vida lhe sorria.

Quando gosava o descanso,

Da morte e do p’rigo ausente,

Pensou de modo diff’rente,

Buscou o eterno remanso.

De bemdizel-o não canso

Porque a sua patria honrou;

Briosamente luctou

Contra os revézes da sorte;

E sem ter temido a morte,

A negra morte chamou.

Os acontecimentos politicos e os conflictos religiosos, quando agitam fortemente a opinião publica, tambem encontram écco na poesia popular.

A questão do caminho de ferro de Salamanca (vulgarmente, Salamancada) inspirou em 1883 este Fado:

Casou Dona Salamanca

Com Dom José Portugal;

Foi padrinho o Dom Antonio

De tal... e coisas... e tal.

Zé povinho parvonez!

Salta... dança... canta... brinca...

Pois, como tu, ninguem chinca

Tantos coices d’uma vez:

Se o grande cantor de Ignez

Te visse, ó chanca-lha-chanca,

Na sua lyra tão franca

Gabaria o teu socego...

Que p’ra te fazer gallego,

Casou Dona Salamanca.

Casou a velha das covas

D’onde sae a estudantina;

Zombando da tua sina,

Das tuas ideias novas!

Depois de tantas mil provas

D’essa verdade fatal...

P’ra complemento do mal

D’alguns corações sinceros,

Casou a tal dos boleros,

Com Dom José Portugal!

Casou-se!?... não digo bem;

Fizeram-lhe o casamento

Com quem já foi o tormento

Do Portugal que Deus tem;

Assiste lá p’ra Belem

Quem o fez andar erroneo:

Se tu fizeste o demonio

Por causa do syndicato...

De tão nojento contrato

Foi padrinho o Dom Antonio.

Se não passas d’uma aranha...

P’ra que gritas, Zé-povinho?!

Deixa viver o ranchinho,

Como melhor lhe convenha;

Se querem os ares d’Hespanha...

Deixa-os ir, porque, a final,

Salamanca e Portugal

Hão de ser do homem raro,

Que se chama—Antonio Caro...[47]

De tal... e coisas... e tal.

A questão religiosa, ultimamente levantada a proposito do incidente Calmon no Porto, provocou Fados de occasião contra os jesuitas, os conventos e recolhimentos, etc.

Trecho de um Fado ironico contra os jesuitas:

É injusta a crua guerra,

Que contra os santos fazemos,

Pois mil feitos lhe devemos.

Do palacio até á serra

A sua doutrina encerra

O que o povo necessita:

Instrucção que a crença agita,

Conselho que o faz feliz;

Por isso é que o mundo diz:

Que mal faz o jesuita?

O virtuoso varão,

Tão respeitado e bemquisto,

Que só prega a lei de Christo,

Plantando a religião,

P’ra que chamar-lhe villão,

Se ao contrario é mui cordato?

Educador e pacato,

E devoto d’alto lote;

Se é um bello sacerdote,

Severo, grave e sensato!

No Porto havia um musico ambulante, de nome Marcolino, que improvisava Fados com caracter satyrico, entrando frequentes vezes pelo dominio da politica.

Aos Fados de nomenclatura (como os nauticos) que do caracter popular passaram ao caracter scientifico pela intervenção do famoso bohemio Luiz de Almeida, reservamos menção especial.

Exemplo de Fados toponymicos, a começar por Lisboa:

N’este semestre passado,

Houve grande confusão:

Foi uma familia séria,

P’r á rua do Capellão.

Um dandy todo liró

Poz escriptos no Chiado,

E mudou-o sôr Calado

P’r’ó becco do Falla Só.

Um excellente sol e dô,

Foi p’r’ó Pateo socegado

Mudou-se um trapeiro honrado

Para o Collegio dos Nobres.

Viram-se em pancas os pobres,

N’este semestre passado.

P’r á rua dos Sapateiros

Mudou-se um amolador,

E até um entalhador,

Foi p’r’ó Largo dos Torneiros.

Foram dois atheus brejeiros,

P’ra rua da Conceição;

Té se mudou o Paixão,

Para a Praça d’Alegria.

Foi immensa a berraria,

Houve grande confusão.

P’ra um bello primeiro andar,

Sito no Largo do Rato,

Foi o senhor João Gato

Com a familia morar.

Foi um de livre pensar,

Para a de Santa Quiteria

E a familia do Miseria

P’r’ á Calçada do Pombeiro;

P’r’ o Arco do Limoeiro

Foi uma familia séria.

Um céguinho se mudou

P’r á rua da Bella Vista,

E uma senhora modista

P’r’ós Ferreiros se passou.

N’ Alegria casa achou

O senhor Pena Tristão;

Mudou-se um avarentão

P’r á rua da Caridade,

E foi o Dr. Verdade

P’r á rua do Capellão.

Um barbeiro de Bucellas quiz lembrar-se, para me dizer, de certo Fado composto sobre o onomastico locativo do Termo de Lisboa, mas não se recordou senão d’estes quatro versos:

Deu Bucellas uma facada

Na ribeira do Trancão.

Acudiu-lhe a Ponte Nova,

Camarate e Appellação.

O Fado saloio tem já hoje vida propria e autónoma. Quero dizer que os fadistas do Termo não se limitam a copiar os Fados de Lisboa, mas já por sua vez os compõem sobre assumptos locaes: portanto é natural que lhes dêem um caracter toponymico.

N’esta especie de Fados a quadra substitue a decima, que é de mais difficil improvisação; mas já ouvi quadras locaes da Ericeira—por mim recolhidas em outro livro—[48]cantadas no rythmo do Fado.

Sem embargo tambem ha Fados saloios em décimas, que Lisboa exporta nos almanachs, com o fim de conquistar leitores entre as povoações suburbanas:


Fado saloio

Sou saloio, honro-me d’isso,

P’ra casacas não sou mau;

Os janotas atrevidos

Sei correr a varapau.

Que andamos no ramerrão

Dizem lá os de Lisboa;

Porém entre nós já sôa

O brado da illustração:

Escolas já cá estão

Fazendo bello serviço;

Eu cá já tenho toutiço

Para entender os jornaes,

Tenho ideias liberaes,

Sou saloio, honro-me d’isso.

Aos comicios vou tambem

E lá sei fallar em barda

Contra quem me põe albarda,

E nos deixa sem vintem:

É certo que não vou bem

Com quem se me faz marau;

Mas jámais corro a calhau

Quem me sabe respeitar;

Se não veem cá namorar

P’ra casacas não sou mau.

P’r’ as madamas que cá veem

Com o fim de tomar ares,

Temos modos singulares

E attenções como ninguem;

Nós cantamos muito bem

Os doces fados corridos;

D’amor mil versos sentidos

Sabemos improvisar.

E com elles castigar

Os janotas atrevidos.

E saiba qualquer senhor

Que eu, saloio esperto e girio,

Não soffro manguem co’o cirio

A que tenho tanto amor:

Se vem com ar zombador

Algum janota marau

Fazer o serviço mau

De quem a crença me ataca,

Verá como eu um casaca

Sei correr a varapau.

O Algarve tem o seu Fado, que abrange toda a provincia:


Fado algarvio

Dos seus fructos abundantes

O Algarve se ensoberbece;

Graças ao trabalho honrado,

De dia a dia enriquece.

Quem é que torceu a venta,

Quem fez, acaso, careta,

Ao bom vinho da Fuzeta

Que o nosso Algarve apresenta?

Quem é que se não contenta

Co’os nossos figos chibantes?

Quem não quer ver quanto antes

No prato o atum saboroso?

Pasma este solo, orgulhoso,

Dos seus fructos abundantes.

Abundante e variada

É no Algarve a pescaria,

E quem na vida porfia

Mantém sempre a vida honrada;

A figueira abençoada

Vigorosa aqui floresce;

Por parte alguma apparece

Outra que lhe seja igual.

De n’ella não ter rival

O Algarve se ensoberbece.

É bem formosa Tavira,

Villa Nova formosa é,

Formosissima Loulé,

Gloria a Faro ninguem tira:

Galharda brilha Odemira

Em o seu torrão fadado;

E de pobre ou rico estado,

Do Algarve a boa gente

Leva a vida alegremente,

Graças ao trabalho honrado.

Salve, pois, terra eminente

A que devo chamar nobre,

Onde o rico vale ao pobre

Tão briosa e christãmente!

O Algarve um brado valente

De toda a nação merece;

E é justo que aqui me apresse

Em offerecer a cantiga

A quem, graças á fadiga,

De dia a dia enriquece.

Os assumptos biblicos são muitas vezes aproveitados pelo cantador fadista n’um sentido religioso.

Por exemplo:

A doce mãe de Jesus,

Que remiu a humanidade,

Sentia a cruel saudade

Que ao nada a alma reduz.

Nos céus não havia luz

Desde o sul até ao norte,

Só ella chorava a sorte

E o seu tão horrivel trilho,

Porque, ali, do querido filho

A Virgem chorava a morte.

Quão amargo era o seu pranto,

Quantas lagrimas vertia

Ao pensar que lhe morria

Quem na vida amava tanto!

Seu coração puro e santo

Sentia-se aniquilado,

E ora erguia aos céos um brado

Repassado de desgosto,

Ora olhava o bello rosto

Do seu filho idolatrado.

Tambem o fadista investe ás vezes com os problemas mysteriosos de alem da campa, como n’este Fado:

Satanaz, rei do Averno,

Reunindo o seu conselho,

Mandou fazer a caldeira

Do grande Pero Botelho.

Clara ideia ninguem faz

Da sua monstruosidade,

Nem de quanta humanidade

Em suas fornalhas jaz.

Por ordem de Satanaz

Foi posta ao meio do inferno,

E á ordem do seu governo

E ali tudo queimado,

Depois de haver decretado

Satanaz, rei do Averno.

As bruxas em volta d’ella

Preparam enguirimanços,

E os mais negros manipanços

Vigiam-n’a, com cautella.

Ali cae desde a donzella

Ao condemnado mais velho.

Ha bem perto um apparelho,

Semelhante a uma lousa,

Onde o diabo repousa

Reunindo o seu conselho.

Os infernaes feiticeiros

Que do demonio são filhos,

Cantam tristes estribilhos,

Ateiam os seus brazeiros.

Horropilam os berreiros

Que saiem d’esta lareira!

Mas o rei vendo a maneira

Como as almas se perdiam,

Vendo que mais appar’ciam,

Mandou fazer a caldeira.

É ali que tudo finda,

Ali tudo se consome:

De Pero lhe deram o nome

P’la sua crueza infinda.

Quem para o céu se não guinda

Attente bem n’este espelho:

Pois quem segue mau conselho,

Ou caminha com cegueira,

Vae acabar na caldeira,

Do grande Pero Botelho.

Quanto á historia de Portugal, tenho ouvido Fados sobre os amores e morte de D. Ignez de Castro e ainda sobre outras epocas e assumptos, como por exemplo:

Fazer nos Lusos matança

Muitos tyrannos tentaram;

Mas á voz da Liberdade,

Elles seus fóros salvaram.

Foi Dom João o primeiro,

Quem, por seu punho real,

Para livrar Portugal,

Estafou o conde Andeiro.

Dona Leonor n’um berreiro,

Pedia ao povo vingança;

Porem fugindo-lhe a esp’rança

De recobrar o seu mando,

Deu-se á prisão; mas jurando,

Fazer nas lusos matança.

Lá se partiu p’r’as Hespanhas,

Pedir ao rei que a vingasse,

Que Portugal conquistasse,

Contando-lhe outras patranhas.

Umas taes artes, e manhas,

Sempre o hespanhol abalaram:

Logo os seus terços entraram

No reino, altivos e bravos;

E já fazer-nos escravos,

Muitos tyrannos tentaram.

Mas os famosos montantes

De Dom João, formidavel,

E do seu grão Condestavel,

Deram-lhes rijo, possantes.

Eis rôtos já, vacillantes,

Os hespanhoes, co’anciedade,

Fogem, ou pedem piedade;

Triumpham, pois, dos revézes

Esses leaes portuguezes,

Mas á voz da Liberdade!

Sempre em continuas batalhas

Seu nobre sangue vertendo,

Aos inimigos tecendo,

Com ferro, as negras mortalhas;

Eis como assim das migalhas

O reino todo alimparam;

Eis como, pois, alcançaram

Das nações todas respeito:

E á Liberdade com preito

Elles seus fóros salvaram!

Disse-me o sr. Verol Junior tencionar imprimir uma collecção de Fados, que abrange todos os periodos da historia de Portugal.

A vida do fado está intimamente relacionada com a tauromachia.

O fadista não falta a uma espera de touros, com a sua guitarra na mão; o fadista de um e outro sexo, mulheres e homens.

Antigamente o enthusiasmo era maior, no tempo da Severa e do Vimioso, quando os fidalgos, «amadores» e «cavalleiros», não perdiam uma espera, nem uma tourada.

A tradição tauromachica era então muito mais intensa do que hoje, porque no seculo XVIII tinhamos tido touros de morte, e o enthusiasmo pelas luctas cruentas do redondel conservava ainda, no espirito do povo, um rescaldo ardente.

No seculo XVIII havia em Lisboa nada menos de quatro praças de touros: a da Estrella, nas terras do Infantado; a da Parada, junto ao Rocio; a do Salitre, e a do Campo de Sant’Anna. Não fallando no Terreiro do Paço, onde se realizavam as touradas de maior pompa.

Quem fazia as cortezias era o neto[49], (meirinho da cidade); quem as recebia era o rei, o senado da camara, o tribunal da junta da casa do Infantado, e, ás vezes, Nossa Senhora!

Assim, no programma de uma corrida em obsequio da devotissima imagem de Nossa Senhora do Cabo, sendo o producto para os cultos da mesma Senhora, lê-se o seguinte: «Ás duas horas e meia estará tudo prompto, e feito o signal costumado, entrará o Neto a fazer as suas cortezias á devotissima imagem de Nossa Senhora, que ha de estar collocada em um logar proprio, e depois ao Tribunal».

Por esta não esperava de certo o leitor: que a propria imagem de Nossa Senhora, collocada em altar todo florente de galas, fosse quem recebesse as cortezias do cavalleiro.

O costume de fazer touradas em beneficio de Nossa Senhora e dos santos, era então vulgarissimo.

Em setembro de 1778 effectuou-se na Praça do Commercio um combate de touros, como n’esse tempo se dizia, a bem do adeantamento das obras da egreja de Santo Antonio d’esta cidade.

Assistiram suas magestades.

Em agosto d’esse mesmo anno realizou-se na Praça do Commercio uma tourada em beneficio de Nossa Senhora do Cabo, funcção promovida pelo capitão João Dias Talaia Souto Maior, como escravo que era, e toda a sua familia, da mesma Nossa Senhora.

Os touros, em numero de 25, afóra os que vinham sobrecellentes, eram offerecidos bizarramente pela casa real.

No mesmo anno pediu o padre Emygio José da Costa licença para organizar um combate de touros na Real Praça do Commercio, a fim de adquirir uma avultada esmola destinada aos enfermos particulares da capital.

«Os touros que hão-de morrer, dizia o programma, são dezeseis, que El-Rei N. Senhor e varios fidalgos d’esta Côrte deram para o presente dia.»

Aqui temos, pois, as touradas de morte, que tanto horrorisam os portuguezes que a ellas assistem hoje em Madrid, Badajoz ou qualquer outra praça hespanhola.

Quantum mutatus ab illo... o portuguez!

Outro programma dizia:

«Entrará Nicolau Theodoro, suhiço (sic), vestido á suhiça com uma lança na mão, e sobre uma mesa á porta do touril esperará um touro, e ao tempo que o investir lhe metterá a lança, e repentinamente saltará por sima d’elle; e ficando em pé metterá a mão á espada, e esperará o touro cara a cara, e promette matal-o ás estucadas ou ás cotiladas.»

Copio textualmente para conservar toda a feição historica do programma. Pela mesma razão não alterei a orthographia dos seguintes periodos que de outros varios programmas vou transcrever.

«Entrará o Neto a fazer as cortezias ao Tribunal, e depois um breve divertimento de algumas danças, em quanto os cavalleiros se põem promptos, e rodeando a praça sahirá tudo para fóra, entrarão os quatro contendores a fazer as cortezias do costume ao Tribunal, em primeiro lugar Theodoro Francisco Ribeiro, o qual já domingo passado entrou tambem em primeiro logar, e mostrou o quanto era destemido; em segundo logar Jacintho Pinto de Moraes, aquelle que domingo passado ficou sem capa, pelo Touro lha tirar dos hombros, e n’este dia a quer restaurar; em terceiro logar Thomaz Cesar, o polvilheiro, que por esta Cidade vende poz (sic), que tendo noticias, que domingo passado os cavalleiros fizeram tantas proezas, quer elle imital-os; em quarto logar Carlos Antonio Canute, Genovez de Nação, com logea defronte do Palacio do Excellentissimo Monteiro Mór, sujeito de muito valor, e forças, e a figura muito especial, tem viajado pela China, e Indias de Hespanha, e quer mostrar como n’estes paizes se tourea, etc.»


«Seguir-se-ha logo o Contendor Bernardo de Magalhães e Noronha, filho do Capitão Mór de Formoselha, assistente no campo de Coimbra, pessoa bem conhecida n’esta côrte, o qual pelo seu nascimento, e valor, executará acções muito distinctas. Terá para combater 15 touros escolhidos das melhores raças; irá acompanhado de seus criados ricamente vestidos, e capinhas, tudo com igual aceio.»


«E logo entrarão os contendores, que serão quatro cavalleiros do gosto dos senhores espectadores, em primeiro logar Lourenço Antonio de Moraes Bandeira, o qual desempenhará n’esta tarde o seu logar, pelas valorosas acções que se esperarão do seu animo; em segundo logar Sebastião Antonio de Mendonça, igual ao primeiro no mesmo valor; em terceiro lugar Francisco da Silva Alcantara, por appellido o fava secca, este promette á sua parte matar de rojão tres, ou quatro touros, por se obrigar a isso no ajuste que fez; em quarto lugar Thomaz Cesar, pulvilheiro d’esta cidade, e n’ella muito bem conhecido; entrarão estes quatro cavalleiros bem vestidos, e providos de bons cavallos, acompanhados dos seus criados, homens de forcado, e capinhas a fazer as cortezias, e acabadas sairão para fóra a mudarem de cavallos; entrarão novamente, e cada um occupará um angulo da praça, e se irão seguindo cada um quando lhe tocar, esperar o touro á sahida da porta do touril, ficando n’esta forma touriando, sem haver perturbação de logares, somente quando houver duellos os perderão para se desaggravarem.»

«Entrará logo o Neto e depois os contadores a fazerem as devidas cortezias ao Tribunal da Junta da Casa do Infantado, os quaes serão Caietano Romão, criado do Excellentissimo Conde de Arcos, e João Gaspar, Allemão de Nação, professor da arte de Cavallaria, de muitas forças e igual valentia, o que pertende fazer certo neste combate; para o que promette pôr-se a pé, e chamar hum touro, que esteja com todas as suas forças, e ao investir pegar-lhe em huma ponta, e passando-lhe o pé dar-lhe huma tão grande cutilada, que, se fôr no pescoço, lho deixará quasi separado; e se fôr no lombo, lhe cortará o espinhaço, de sorte que lhe sáião os intestinos pela ferida; e se pela violencia do touro lh’o não puder fazer da primeira vez, tentará segunda e terceira; e no caso que o não possa conseguir apezar de toda esta diligencia que promette fazer, chamará o touro de cara a cara, e pegando-lhe por ambas as pontas o deitará em terra de pernas assima, tudo com muita ligeireza, e desembaraço: e se não fizer destas tres valentias huma perderá dez moedas de ouro, que tem depositado; e se executar das tres valentias alguma, as ganhará, etc.»

Vejamos agora a nomenclatura que tinham os diversos logares occupados pelos espectadores:

«Adverte-se que os preços dos camarotes do primeiro andar são a 600 réis a vara, e do segundo andar a 480 réis a vara; e as trincheiras da sombra a 150 réis, e as do sol a 60 réis.»

N’outros espectaculos, que não fossem touros, mas que se déssem em qualquer das praças, baixavam os preços consideravelmente.

Assim, n’uma exhibição pyrotechnica, feita por um hespanhol de nação, os preços dos camarotes eram a 300 réis por vara, tanto no primeiro como no segundo andar, e todos os palanques a 40 réis.

Um outro programma, da Praça do Campo de Sant’Anna, diz:

«Os camarotes do andar de sima serão com mais comado, (sic).»[50]

Comprehende-se que o seculo XIX recebesse do seculo anterior uma viva tradição tauromachica, que enthusiasmava ainda o povo pelas antigas corridas, cujo brilho e perigo não tinham sido menores que nas praças de Hespanha.

As mulheres de má vida não ficavam indifferentes a essa tradição; não ficou a Severa, que zombava das suas collegas menos animosas do que ella, e que fez escola.

Algumas raparigas do fado chegaram a tomar parte em touradas.

Assim aconteceu n’uma corrida realizada em outubro de 1842.

A Revista Universal, redigida por Castilho, commemorou o acontecimento n’este suelto vernaculo, de que se perdeu já o feitio:

«A corrida de touros de domingo ultimo no Campo de Sant’Anna pouca menção merece. Sim eram bravos os animaes; mas, exceptuando algumas quédas, alguns corpos humanos marrados e pisados, e algumas saudes provavelmente arruinadas para sempre, não houve ahi successo por onde a tarde se podesse chamar boa.

«Semear morte em vultos de figura humana, é de pequeno interesse dramatico; é preciso dar-lh’a prompta e estrondosa; é doutrina corrente, é aphorismo entre os partidarios do curro. Para descontar porém a semsaboria da festa, houve n’ella a novidade (pomposamente annunciada em todas as esquinas da capital) de uma rapariga a cavallo n’um rossinante, correndo um toiro á vara larga: o toiro, que a podia ter morto, contentou-se fidalgosamente de dar-lhe uma licção; e mettendo os cornos pelos peitos ao cavallo, e arvorando-o a prumo, a despejou da sella, estirada de costas no meio da praça por entre os risos dos circumstantes.

«A mulher forte, com razão assomada da descortesia, recavalgou para se desaffrontar; e não duvidamos que o houvera conseguido, se o cavallo não discordasse manifestamente das opiniões da cavalleira: o exame phrenelogico dos dois craneos, se algum curioso de anatomia comparada o tiver de fazer lá para o futuro, deverá, se nos não enganamos, redundar todo em gloria do quadrupede.»

O brado de um poeta contra as touradas não encontrava écco; nem as mulheres nem os homens lhe davam ouvidos.

Qualquer Fadinho toureiro, como relembraremos no capitulo seguinte, o combatia e supplantava.

Resta-nos ainda fallar de duas especies de Fados.

Aquelles que tratam assumptos pornographicos, mais ou menos desbragados, encontram-se na Guitarrinha innocente e no Almanach do fado bréjeiro.

Quanto aos Fados exdruxulos, e outros que apenas visam a uma combinação artificiosa de palavras, technicas ou arrevezadas, havemos de incluil-os na secção dos Fados de nomenclatura, não porque propriamente o sejam, mas porque melhor ficarão ali do que em qualquer outro grupo.

FADO CHORADINHO

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