NOTAS DE RODAPÉ:

[1] A lingua portuguesa, noções de glottologia geral e especial portugueza, por F. Adolpho Coelho.

[2] Historia do theatro portuguez no seculo XVIII, pag. 153.

[3] O sr. visconde de Castilho (Julio) quando, ao descrever uma noite de S. João na quinta da Boa Vista em Carnide, põe Vieira Luzitano, que nasceu em 1699, a arranhar na banza, como outros rapazes, «os accordes lacrimosos e dulcissimos de um fado», dá a esses accordes um nome que se não podia referir á epoca do serão, mas emprega uma designação generica em o nosso tempo, por dar a impressão da indole melancolica que sempre tiveram entre nós as canções populares.

Tomada ao pé da lettra, com relação áquella época, a palavra Fado seria um anachronismo.

[4] «É um canto plangente, estremamente singelo em estylo de fabordão. Pode-se por isso acreditar na sua origem popular; tem pelo menos esse caracter.» Ernesto Vieira, A arte musical, n.ᵒ 79, IV anno.

[5] A ultima nau portugueza, reminiscencias por Theodoro José da Silva, Lisboa, 1891.

[6] O Povo Portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. I, pag. 62.

[7] O Povo Portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. I, pag. 385.

[8] Pag. 321.

[9] Ainda em 1886 o sr. Borges de Figueiredo escrevia no seu livro Coimbra antiga e moderna: «A viola foi sempre um dos instrumentos mais favoritos dos conimbricenses. Nas serenatas do Mondego e n’outras pelas ruas e suburbios da cidade, reina ella a par da flauta e do violão (viola franceza), já enchendo os ares de suas harmonias, já formando o acompanhamento de graciosos cantares.»

[10] Revista Portugueza, n.ᵒ 6, 1894-95.

[11] No mesmo periodico, n.ᵒ 1.

[12] Os nomes d’estas canções variam, segundo o seu genero, de terra para terra: são cantigas, modas, lôas, reisadas, chulas, trobos, remances (nos Açores, aravias) jacras (xácaras) etc.

[13] Ernesto Vieira, Dicc. Mus.

[14] A Tradição, revista de ethnographia portugueza, IV anno, n.ᵒ 1.

[15] Historia da poesia popular portugueza, pag. 89, e Epopeas da raça mosarabe, pag. 321.

II
Fadistas

O facto de termos encontrado nos Mysterios do Limoeiro a palavra fadista (como termo de calão e por isso graphada em italico) sem que até essa epoca (1849) appareça qualquer vestigio do vocabulo Fado ou Fadinho na accepção de cantiga popular, leva-nos á conjectura de que foi da moderna nomenclatura da classe que derivou o nome da canção, em vez de ser da canção que proviesse o nome á classe.

Entende-se por fadista a pessoa que cumpre um mau destino; seja homem ou mulher, prostituta ou rufião. E aqui ha a notar que o vocabulo fado tomou em calão um sentido exclusivamente pejorativo: Vida do fado, a má vida; moça do fado, a rameira. Umas palavras geram outras: de fado (destino) veio fadista; fadistar, levar vida de fadista; afadistar-se, adquirir ares e modos de fadista; fadistagem, a conectividade da gente de mau fado, a pratica de suas tunantadas e proezas; fadistice, a chibança ou prosápia de fadista; Fado ou Fadinho (e Faduncho, aliás menos vulgar) canção em que os faditas lastimam o seu destino.

«O Fado, escreve Palmeirim, é de ordinario a historia veridica e romanesca do homem que de guitarra em punho extasia os ouvintes, narrando-lhes as tribulações da sua vida ou os incidentes e peripécias dos seus amores. O mote, a divisa do fadista é:

Eu hei de morrer cantando

Pois que chorando nasci.»[16]

De cantar o seu fado veio a dizer-se, por generalisação, «cantar o Fado». E esta palavra tomou a accepção de cantiga de fadistas: como em italiano barcarola é a canção dos barcaiurolos (gondoleiros) e no portuguez—serrana—é a canção dos habitantes das montanhas (serranos).

É claro que em todos os tempos existiram na sociedade portugueza, e nas outras, como escumalha vil da civilisação, os representantes da classe a que hoje se dá o nome collectivo de fadistas.

Os autos de Gil Vicente e do Chiado deixam uma nitida impressão do que era essa despresivel classe no seculo XVI em Portugal.

N’elles apparece a par da boneja (prostituta) o rufião, que a explora; o rascão bebado e desordeiro, ocioso e libertino, trovista e tangedor de taberna; o vaganau, etc.

No seculo XVIII encontramos, segundo a lição de Bluteau, «marotos», ganisaros ou janisaros, etc.

Typos de Fadista

(Copias de bonecos de barro)

Só desde o fim da primeira metade do seculo XIX nos apparece, porém, a designação fadistas, com a de faias,[17] faiantes,[18] bailhões,[19] etc; e a de Fados como nome generico das suas canções.

O Fado, n’esta accepção, é uma palavra adoptada ha meio seculo ou pouco mais.

O Fadista, no seu aspecto moderno, tem surgido aos nossos olhos como um typo social que os escriptores contemporaneos observam e descrevem.

«Chama-se Fadista—diz Theophilo Braga—ao vagabundo nocturno que no meio das suas aventuras modula essas cantigas (Fados); no velho francez, Fatiste significa poeta, e Edelestand Du Meril pretende que esta designação vem do scandinavo fata, vestir, compor.»[20]

Apoiado na chronologia, crêmos, como já exposémos, que não foram as canções que deram o nome aos fadistas; mas que, pelo contrario, d’elles o receberam as canções.

Tanto mais que, entre nós, a palavra fadista não tem a significação restricta de tangedor e cantor ou poeta de Fados, mas é commum a todos os individuos que vivem no mesmo meio de depravação e libertinagem, sejam de um ou de outro sexo.

E n’esta accepção generica parece tel-a já empregado o padre Rabecão em 1849, porque o seu fadista da taberna da Madragôa bebe e não canta.

A evidencia do typo—fadista,—de que Lisboa é alfòbre copioso, tem-se imposto, repetimos, á observação dos bellos-espiritos da litteratura moderna, alguns dos quaes, e dos mais brilhantes, o retrataram com uma fidelidade flagrante, como vamos vêr.

Ramalho Ortigão, nas Farpas, lança uma affirmação demasiado absoluta quando diz: «Em cidade alguma da Europa existe uma palavra de significação analoga a esta—o fadista

É claro que o typo humano não apresenta o mesmo aspecto em todas as raças e nações. O clima e a civilisação modificam-n’o, alteram-n’o. Mas ha um fundo cosmopolita, de equivalencia social, que supprime as distancias e as fronteiras.

Assim, pelo que respeita á escoria da sociedade, existe em Hespanha o chulo, e em França o souteneur, que correspondem ao nosso rufião.

Todos elles vivem á custa de mulheres perdidas, cantando e bebendo nas tabernas e nos bordeis, como os fadistas portuguezes.

Em Roma ha os camorristi, gente de «mala vita», que dão uma facada por gosto, e vivem na devassidão, como os bailhões e faias da fadistagem de Lisboa.

Em Napoles o lazarone, representando a ultima classe do povo, é um inutil perigoso como o nosso fadista.

Fóra da Europa, no Brazil, existe o capoeira.

Em toda a parte a sociedade tem a sua bôrra immunda, e uma palavra, ou mais de uma palavra, para definil-a.

Precisamos, pois, investigar qual seria o pensamento de Ramalho Ortigão, que não desconhece todos estes factos, ao escrever aquella phrase, em que parece conter-se uma affirmação gratuita por demasiadamente extensiva.

Quereria, provavelmente, dizer que, apesar do povo ser em toda a parte fatalista, em nenhuma outra lingua ha uma palavra que lance unicamente á fatalidade do destino a responsabilidade dos actos praticados pela ultima classe social.

O illustre escriptor lembra que o fadista moderno continua os espadachins populares que, no seculo XVIII, suciavam com os fidalgos em arruaças e espancamentos nocturnos.

Depois fixa o perfil do fadista, a seguros traços, dizendo:

«O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um cobarde e um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são frageis, as pernas cambadas; as mãos, finas e pallidas como as das mulheres, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e ennegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fétida, enfarinhada de poeira e de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma guitarra e de um Santo Christo, que assim chamam technicamente a grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de constituição normal desconjuntar-lhe-hia o esqueleto, arrombal-o-hia com um sôco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto de inferioridade. Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular—as escovinhas. Não ha senão uma defeza para o modo como elle aggride: o tiro ou a bengala, quando esta seja manejada por um jogador estremamente destro. A guitarra debaixo do braço substitue n’elle a espada á cinta, por meio da qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo XVII. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas touradas da Alhandra e da Aldea Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, onde depois da meia noite se vai comer o prato de desfeita, acepipe composto de bacalhau e grão de bico polvilhado de vermelho por uma camada de colorau picante.»

Em seguida pormenorisa o traje tradicional do fadista: «a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do pé, a cinta, a jaleca de astrakan e o chapeu arremessado para a nuca pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande estylo canalha.»

Apenas lhe esqueceu um complemento da toilette: o penteado, as melenas cuidadosamente lisas e repuxadas sobre as orelhas.

Descreve-o, finalmente, cantando o Fado:

«A guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um desfastio impávido, deixando pender o cigarro do canto do beiço pegajoso, gretado e descahido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação imbecil; o tronco do corpo cahido mollemente para cima do quadril; a perna encurvada com o bico do pé para fóra; o cachucho da amante reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta algumas vezes, apoiando a mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta, esticando as cordoveias do pescoço e entoando a melopéa dos fados, em que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e miseravel.»

Uma exuberante tatuagem é um dos caracteristicos do corpo do fadista; ás vezes, não só exuberante, mas tambem muito complicada de figurações caprichosas, algumas das quaes, como o signosamão, cuja interpretação ethnographica está por fazer, livram, segundo a superstição tradicional, de maus olhados e de espiritos ruins.

Na vida do fado este facto é commum tanto ao homem como á mulher.

O rufião tatúa a amante, pacientemente, como se estivesse produzindo, com ternura e enthusiasmo, uma obra de arte; ou se tatúa a si mesmo ou se deixa tatuar pelos seus pares.

Luiz Augusto Palmeirim tambem descreveu o fadista.

Nota que não tem familia, é engeitado da Santa Casa, para assim ir ao encontro da predestinação, do mau fado, que vem do berço, e com que o fadista pretende desculpar toda a sua existencia de vicio e torpeza.

Mas ha muitos que teem familia, paes conhecidos, e que são levados á fadistagem por uma espontanea tendencia de baixos instinctos, pela companhia e convivencia de faias, pela desmoralisação do Limoeiro onde foram uma primeira vez expiar qualquer rapaziada leve; ou ainda pela suggestão nociva do bairro em que nasceram e moram.

A Bisnaga escolastica, «colhida do Campo da Cotovia pelo lavrador do Palito Metrico», conta as brigas e contendas travadas entre os rapazes do Bairro Alto e os de Alfama, a murro e calhau.

Estes dois bairros, antigas escolas de fadistagem, habilitavam, assim, praticamente, desde a infancia, os continuadores das suas tradicionaes escarapelas e zaragatas, ainda hoje não extinctas completamente.

Alfama e o Bairro Alto vem, pois, educando por suggestão local os fadistas do futuro.

Pato Moniz, na Agostinheida, querendo mostrar que o padre José Agostinho de Macedo arranchava com faias e bailhões, recebendo d’elles apoio, tambem se refere a essas pugnas, ás vezes cruentas, que preparavam cidadãos para a vida do fado:

«Andava n’este tempo accêsa a guerra

Entre a malta de Alfama e Bairro Alto,

Gingantes campeões afragatados,

Miqueletes[21] revéis, cujas façanhas

Em macarróneo metro celebradas[22]

Tem dado assumpto a um par de gargalhadas.

E no sitio da Penha[23] aos dias santos

Com poitas,[24] e com fundos de garrafa,

A dente, á unha, á bordoada, a ferro,

Latindo tão raivosos como um pêrro,

Travavam cruentissimos combates;

Não que morresse algum, mas abundavam,

Entre o furor de punhos e pedradas,

Bolas partidas, ventas esmurradas!

De uma das taes guerrilhas tinha o mando

O General Luneta, homem provindo

De linhagem illustre, e por seus séstros

Entre a mais bréjeiral, çáfia[25] cambada,

Entre a relé mais pifia confundido;

E por seus capitães eram com elle

Claros pimpões, a flor da pangayada.[26]»

Pato Moniz illustra o texto com a seguinte nota: «Bem sabida, e bem fallada foi em Lisboa a guerra da rapazia no sitio da Penha de França; e muito mais depois que n’ella entraram o General Luneta (Dom Th. d’A., cujo rival no generalato era um façanhoso Pretalhão)[27] e alguns outros, que, posto serem geralmente havidos em ruim conta, nunca se esperou que chegassem a tanto.»

Vê-se mais uma vez que no principio do seculo XIX ainda não eram correntes as palavras fadista e fadistagem. A 1.ª edição da Agostinheida é de 1817. Pato Moniz usa todas as expressões que podem pintar a escumalha social: çáfia cambada, gingantes campeões afragatados, relé mais pifia, flor da pangayada, etc. só lhe faltava ainda a palavra fadistagem. Se já então pudesse dispôr do vocabulo—fadistão, com certeza o haveria atrambolhado ao padre José Agostinho, que alguma coisa teve de isso, em verdade.

Casos ha em que os fadistas provéem de pais honestos, de familias decentes e remediadas, e até, facto que já foi mais vulgar do que hoje,—porque as raças nobres tendem a extinguir-se,—tem havido fadistas descendentes de familias illustres.

Estes, eram jovens fidalgos que viviam com picadores e cocheiros, toureiros, arruaceiros e espadachins.

D. Affonso VI, quando infante, e D. Francisco, irmão de D. João V, viveram com a ralé que hoje se chama fadistagem.

D. Miguel de Bragança foi creado no mesmo teor de vida; mas depois, no exilio, regenerou-se completamente.

Outros fidalgos houve, porém, que menos felizes chegaram até á facada, ao homicidio, e tiveram de ir cumprir no ultramar uma pena infamante.

Para ser fadista é necessario um longo tirocinio: aprender a tocar guitarra e cantar o Fado, a fazer «escovinhas», riscar, a esconder a navalha na manga da jaleca, a puxar as melenas, a enfiar as calças esticadas, e a fallar o calão.

Vemos ás vezes rapazes do povo trabalhando em qualquer officio, mas já vestidos de fadistas: andam na aprendizagem, por vocação e por gosto.

Não esperam senão a monção favoravel que os ha de levar definitivamente para a vida do fado.

Essa monção é qualquer acontecimento de familia—a morte do pai, da mãe ou de algum outro parente que ainda lhes impunha certo respeito.

Partido esse laço, adeus trabalho, adeus honra, adeus dignidade e consciencia.

Até o seu appellido perderão: hão de passar a ser conhecidos por um alcunha.

Ha só um caso em que o noviço do fado ainda pode salvar-se: é se não conseguiu livrar-se, por debilidade physica, de sentar praça no exercito.

Palmeirim nota com razão: «O fadista, feito soldado, deixa de ser homem, é um automato! Os artigos da guerra arrefecem-lhe a inspiração, entibiam-lhe o enthusiasmo pela poesia, sua irmã de infortunio.»

Mas isso não acontece sempre, não é regra geral, porque muitas vezes o iniciado na fadistagem, depois de ter sentado praça no exercito ou na armada, conserva os seus amores nos bordeis, frequenta os bairros e botequins suspeitos, arma desordens com a policia e com os soldados da guarda municipal, e chega o ser um heroe... da Mouraria.

O marinheiro é muito mais fadista do que o soldado: talvez por que a guitarra de bordo seja o traço de união que o põe em constante communicação espiritual com os outros fadistas.

Nos mares da India ou da China o Fado, tangido por elle ao luar, no convés do navio, lembra-lhe Lisboa, a Mouraria e Alfama; lembra-lhe a sua terra, se é saloio ou se é natural do Ribatejo.

O fadista saloio, diga-se de passagem, tambem tem tanto «caracter de classe», que se conhece pela apparencia: a carapuça ou o chapeu desabado, a melena repuxada, a calça de bocca de sino, o ar gingão e canalha.

Traz na carroça a guitarra e toca o Fado nas tabernas da estrada: ás vezes combina, com os maltezes, fazer um crime, assaltar um casal solitario e matar os donos.

Ainda outro escriptor portuguez descreveu o fadista: é Julio de Castilho no 1.º volume da sua Lisboa antiga.

«Deixal-o lá (o Fadista) sentado na borda do mocho da taberna, arranhar na banza truanesca os amores do conde de Vimioso, mais os seus; deixal-o ir saracotear-se na espera dos toiros, todo chibante com a sua calça de bocca de sino, e a sua jaleca de alamares; deixal-o ir para as hortas ao domingo, deleitar, com os chistes ambiguos do ultimo fadinho corrido, os bulhentos freguezes da Perna de Pau e do Alto do Pina.

«Estou-o a ver encostado a uma ombreira, de chapeu para traz e mãos cruzadas nas costas, com os olhos piscos do fumo azul de um cigarrito engelhado, que de quando em quando lhe pende ao canto da bocca, exprimir no rosto encorreado, na fronte baixa e estreita, na nuca de cão de agua, e na melena recurva, que elle enxota com as costas da mão, todos os segredos ignobeis dos antros que lhe são theatro. A sua voz avinhada e rouquenha come umas palavras, e estropia outras, ao prantear a morte da Severa, n’um tom silvestre de acre melancolia indescriptivel.


«O fadista do Bairro Alto é o marialva do rés do chão da sociedade, escória das tendencias elegantes de uma cidade grande, producto bastardo da ociosidade e do vicio. É o triste frequentador da galeria das causas crimes; e muita vez o pobre Othello obscuro da parte de policia. O fadista é um aleijão nos costumes; tarde lhe chegará a sua vez de regeneração, lôbrego vadio inconsciente, a quem o Limoeiro fascina, com o magnetismo escancarado de um sapo collossal.»

O fadista tem, nos seus bairros, botequins e tabernas especiaes, que frequenta todos os dias ou todas as noites: ahi se discutem os assumptos da classe, rixas, amores, ciumes, crimes da vespera ou do dia seguinte...

Fialho d’Almeida, nos Gatos,[28] coloriu com duas pinceladas intensamente descriptivas um botequim da Carreirinha do Soccorro:

«Ás oito horas, no corredor estreito e comprido que é a sala do botequim de fadistas que lhes disse, todo occupado com duas filas de mesas onde os freguezes abancam, sentados em mochos de pau, para saborear a pequenos goles, uma cerveja que parece feita d’ourina albuminurica, ou qualquer chavena d’esse café negro e pegajoso que a Mouraria designa pelo pittoresco nome de carócha; ás oito horas não ha no botequim um unico logar, devoluto. Por um rótula de dois porticos, ao fundo, intercalada de prateleiras de garrafas, d’onde se franjam, por transparencia, fogos de rubis de creme rosa d’aguardente de ginjas, esmeraldas de Kermann, grandes topasios de licor de canella e tangerina, pousa o busto do cafézeiro, em camisola, um gordanchudo, barbaceno e alvar, que trata a freguezia por gajos, e coça as piugas nos entreactos da confecção dos capilés. De roda, outros gallegos ajudam, indo do fogão para o balde das lavagens, da gaveta das colhéres para os trés-fonds da baiuca, d’onde nos intervalhos de silencio vem um guinchar d’enormes ratazanas. Nas paredes, quadrinhos de mulheres offerecendo os seios á sucção de quem nas observa—bicos de gaz flambando sob tulipas de loiça pendentes do taboado; e por entre as filas de bancos onde mal cabe a perna do moço que faz o serviço, atravessa de quando em quando uma especie de rodeuse da rua Suja, chuchada, vestida de branco, com tamancos nos pés e lesmas de cabello ruivo sob a testa.»

A pintura é fiel, palpitante de realidade, e o scenario dos botequins fadistas não muda essencialmente de bairro para bairro.

O publico dá-lhes o nome de botequins de lepes; em calão, lepes quer dizer dez réis. Esta designação exprime a miseria dos habitués, e está um pouco antiquada, porque hoje a despesa a fazer n’aquelles botequins excede a de outros tempos. Todos elles ou quasi todos elles teem piano e pianista, que exige uma diaria certa; e as camareras, que servem as bebidas, vão arteiramente induzindo os freguezes a maiores gastos.

De todos os botequins fadistas da actualidade o mais amplo é o do Veiga no largo Silva e Albuquerque, onde aliás ha outro, o do Peres, afamado pela ginjinha; na rua d’aquelle mesmo nome o botequim do Ramalho tem uma roda abundante de habitués da Mouraria.

No Bairro Alto o botequim da rua da Atalaya, n.ᵒ 100; em Alcantara, o da Praça d’Armas, n.ᵒ 5; em Alfama o da Rosa Maria são os de maior nomeada na fadistagem hodierna de Lisboa.

Nas tabernas, onde as iscas vieram desthronar a chanfana, tão decantada no seculo XVIII por Tolentino e pelo Lobo da Madragôa, tambem o fadista tem preferencias especiaes, segundo os bairros.

Em Alcantara, na rua do Livramento, a taberna do Otero é conhecida pelo «armazém da meia noite», designação popular que por si mesma dá ideia de um coio de fadistas noctivagos.

Na rua da Guia a taberna do Manuel do Jogo, na rua da Amendoeira a taberna do Cego, no largo do Limoeiro a taberna do Pateo do Carrasco, e na rua de S. Miguel a taberna do Batalha são fócos vulcanicos da vida airada, onde o cheiro das frituras, do tabaco e do vinho condensam uma atmosphera crassa, capaz de congestionar um Hercules.

Tanto aos botequins como ás tabernas se liga a tradição do Fado no piano, na guitarra ou na voz soluçante dos «filhos da Desgraça», elles a ellas.

O fadista do Bairro Alto dir-vos-ha, se fôr consultado, que a guitarra de Alda Gracinda, rameira da rua do Diario de Noticias, vale um thesouro quando ella lhe põe as mãos.

Um dos primeiros cantadores do Fado, segundo a chronologia e a fama, foi José Norberto, o saloio de Campolide. Em 1848 teria uns 50 annos de idade. Era sympathico: boa cara, physionomia desanuveada.

Bulhão Pato conserva de memoria algumas glosas que lhe ouviu, e que são muito caracteristicas da vida tradicional dos Fadistas n’aquella epoca e... ainda hoje.

Lembras-te tu, meu bemsinho,

De quando eu cantava o Fado

Na taberna do Córado?

Choviam copos de vinho:

Foi dia de S. Martinho.


Estavas tu a assar castanhas

Quando os meus olhos te viram.

Quando nós fomos ás hortas,

Passeiamos todo o dia.

Á noite, ao passar as Portas,

Me perguntaram p’la guia.

Eu com a piella com que ia,

Como ia trocando os passos,

Fiz a «banzara» em pedaços

E no fim da brincadeira

Fui coser a bebedeira

Na cadeia dos teus braços.

Quando dei co’um matacão

N’aquelle gajo á Esperança,

Para arranjar a fiança

Andaste em passo de cão.

Vendestes o teu cordão,

Teu capote se empenhou.

Se hoje solto e livre estou,

A ti o devo em verdade.

E por tanta caridade

Minha alma presa ficou.

Banzara é uma paragoge do calão—banza—synonymo de guitarra.

O bom cantador do Fado requebra a voz com «sentimentalidade canalha» e com a «intermissão de uns oras e de uns ais mui langorosos, o zing fadista de cervejarias e botequins de lacaios.»[29]

Curvado sobre a guitarra, como para ouvir melhor a voz d’esse instrumento querido e suave, que parece dizer-lhe confidencias, ergue de quando em quando a cabeça e põe os olhos no alto, acompanhando assim as notas agudas que parece fugirem da terra para as regiões do sonho...

É um enlevo, um extasi, como podem sentil-o as almas que vegetam no lôdo da crápula; é a «sentimentalidade canalha», de que falla Camillo; a poesia da devassidão; é a mariposa que roçou no monturo e adeja para seccar as azas no ar e na luz do espaço infinito.

Outro eximio cantador do Fado foi o Pitalcante, filho do famoso jogador de pau que se chamou José Maria Saloio.[30].

Presava-se de saber musica, pois estudára no Conservatorio. Chegou a ser um Orpheu popular. Encantava as patrulhas com os seus descantes, a ponto de algumas vezes o não prenderem ou de o soltarem depois de preso.

Foi verdadeiramente uma celebridade no seu genero, fazendo pendant no sexo masculino á Severa, que foi a mais insigne cantadora do Fado e que, por este e outros motivos, terá capitulo especial.

Bulhão Pato esteve para levar o Pitalcante a Alexandre Herculano, quando o grande historiador já residia em Val-de-Lobos.

A tysica, fim vulgar nos fadistas e nos bohemios, cujos excessos os consomem rapidamente, foi a doença que victimou o Pitalcante.

Devemos agora fallar do Salles Patuscão.

Era, como quasi todos os fadistas de um e outro sexo, enthusiasta pela tauromachia, grande aficionado.

Tomou parte n’uma tourada de fidalgos, que se realisou na praça do Campo de Sant’Anna, a 28 de agosto de 1859.

N’esta corrida foi cavalleiro o conde de Vimioso, então maior de quarenta annos.

Salles era «moço de forcado»; e muito da intimidade do Vimioso.

Alto, moreno, bexigoso; pulso rijo: um valentão.

Diga-se desde já que foi elle o auctor do Fado da Severa, quando ella falleceu:

Chorae fadistas, chorae, etc.

Não obstante a sua corpulencia e robustez, o Salles Patuscão morreu tysico, como Pitalcante.

O Sousa Casacão (ainda hoje muito lembrado na tradição popular) teve notoriedade como cantador do Fado, e conservou essa evidencia até depois de 1870.

Um dos seus Fados predilectos fôra-o tambem da Severa; é o que principia dizendo:

É pena que o meu José,

Sendo um esperto rapaz,

Não saiba dizer Thomaz,

Não possa dizer Thomé.

Dizer nunca pôde o T

Quando vem junto com O;

O outro dia disse só

Todo o b a ba por si,

Mas chegou ao ta, te, ti,

E não pôde dizer .[31]

De 1860 a 1880 figuraram como cantadores do Fado: José Borrègo, José Petiz, José Maria Enguia, José Carlos, Saldanha da Porcalhota, José Maior, José Montaurino, Caetano, o Calcinhas, João Campanudo, José Bento d’Oliveira, Patusquinho, etc.

Tambem, continuando as tradições fadistas da Severa, se tornaram notaveis: Maria Cezaria (a quem foi dedicado um Fado pelo guitarrista Ambrosio Fernandes Maia), Luiza Cigana e Maria Paus.

Como guitarristas adquiriram renome, além de Ambrosio Fernandes Maia, Antonio Candido, o Visinho; Thomaz dos Santos, o Thomaz do Bairro Alto; Antonio Casaca, Manuel Casaca e José Casaca; José Gualdino, João da Preta, Augusto Trajano o Palhetas e João Maria dos Anjos.

Tanto o Anjos como Ambrosio Fernandes Maia publicaram methodos de guitarra: o do 1.º foi editado pela livraria Pereira; e o do 2.º pelo proprio auctor.

O Maia ainda vive e d’elle, por interposta pessoa, colhi interessantes informações, sendo uma d’ellas que o Fado mais antigo que conhece é o do Marinheiro.[32]

Por isso o reproduzimos n’este livro.

Conheci, e ouvi muitas vezes, o João Maria dos Anjos.

Era eximio no Fado; sem embargo, gostava de tocar, em concertos publicos, peças de maior responsabilidade artistica, como trechos de opera, etc.

Uma d’essas composições era a Marcha funebre de Luiz XVI; de difficil execução.

Sempre lhe manifestei opinião contraria a esta aristocratisação artistica da guitarra; elle respondia-me:

—É para mostrar que a guitarra pode dar tudo.

Mas na praia da Ericeira (aonde elle ia todos os annos dar um concerto) era encantador ouvil-o, por noites de luar, nas Ribas e nas Furnas, variar prodigiosamente o Fado.

Diz a seu respeito o professor Vieira no Dicc. biog. dos musicos portuguezes: «Entre varias pessoas distinctas que o apreciavam como excellente tocador do instrumento nacional, conta-se a sr.ᵃ duqueza de Palmella, que algumas vezes o mandou chamar para abrilhantar as suas reuniões mais intimas.»

Tambem uma vez foi ao Paço no reinado de el-rei D. Luiz.

João Maria dos Anjos deixou um filho, que sentou praça no exercito ultramarino.

Ainda ha pouco, vindo á metropole, me procurou.

O Anjos foi um guitarrista da epoca em que o Fado entrou nas salas; e em que a guitarra passou da mão do povo para a das damas illustres.

Diz-se que concorreu muito para esta ascensão nobilitante sua magestade a rainha D. Maria Pia, encantada com a melodia simples e doce, que constitue o fundo nacional dos nossos Fados.

Manuel Roussado (hoje barão do seu appellido) explorou no theatro a corrente aristocratica do Fado, escrevendo a comedia Ditoso Fado, que fez carreira na Trindade, representada por Taborda e Rosa Damasceno.[33]

O assumpto da comedia é simples: Violante e o Doutor Saraiva, pessoas de boa sociedade, descobrem, momentos antes do seu casamento, que são ambos doidos pelo Fado, e essa harmonia de pensamentos completa a felicidade das suas almas.

Julio Cesar Machado refere-se á epoca da aristocratisação do Fado lamentando-a como adaptação violenta e desnaturada.

«O fado é talvez filho bastardo do landum,[34] mas é mais bonito que elle: os filhos bastardos, não se sabe por que, são quasi sempre mais bonitos que os legitimos: este foi mais adiante, e logrou ser mais formoso que o pai. O vagabundo nocturno assenhoreou-se d’elle durante muito tempo; chegou a pensar que era preciso ter desenhos emblematicos na mão, gravados com tinta e polvora, caracoes sobre a orelha e uma morte ás costas para se poder entender bem a poesia d’essa musica, que significa a tristeza das desgraças, amores que hajam tido por capella o Aljube e o Limoeiro, o ciume da faca de ponta, o amargar ventura entre grades, as saudades da patria, o suspirar do degradado...

«Isso não impediu que em todo o tempo um ou outro fidalgo tenha querido dar-se a estudar os segredos d’aquella musica tão vaga, que pede a maior parte do seu encanto ao sentimento do tocador e á doçura plangente dos descantes: citam-se o marquez de F.[35], o conde de V.[36]; ultimamente, uns poucos de mancebos, grandemente amadores d’essa musica, e prendados com os dotes mais requeridos para tirarem d’ella effeitos admiraveis, reunem-se ás noites n’alguma quinta dos suburbios da cidade, e não seria facil dizer-se com que inspiração ardente, n’aquelle campo, á luz das estrellas, suspiram as vozes dos cantadores e as cordas maviosas das suas guitarras, poetica, melancolicamente, como raios da lua por entre uma chuva de lagrimas.


«Mas, desde que os fidalgos e os janotas gostam de ser fadistas, estão os fadistas a querer parecer janotas e fidalgos, e não se pode contar com elles; saiem-se já de casaca, em grande seriedade de virtuoses, a dar concertos no Casino e no Circo, e o mais que se alcança d’elles é contarem-nos a vida de Salomão e de David...

«Uma massada!»[37]

Effectivamente, no Casino do largo da Abegoaria, chegou a haver concertos publicos em que se ouvia o Fado, com grande aprazimento do auditorio fidalgo, cantado por algumas coristas dos theatros da capital.

O empresario d’estes concertos está ainda vivo e são: era Ernesto Desforges.

Quando elle tratou de arrendar o Casino, perguntou-lhe o velho Figueira:

—Para que é?

Desforges respondeu com lealdade:

—Para dar concertos de guitarra.

Figueira replicou-lhe:

—Isso é um instrumento que se ouve de graça em todas as ruas. Ninguem vai pagar para o ouvir.

Enganou-se. Os concertos, sob a direcção de João Maria dos Anjos, tiveram um grande exito. No primeiro tocaram apenas 12 guitarristas; no ultimo eram já 50.

Depois um allemão de appellido Gruder, que mais tarde figurou como lithographo n’um processo de notas falsas, tambem foi explorar o Fado e a guitarra para o Gymnasio.

A generalisação do Fado explica a apparição de publicações, que lhe diziam respeito, e tinham grande voga.

Publicaram-se:

A guitarra, de Souto Maior Judice.

A Lyra do Fado, de Manuel Antonio da Luz, que foi morrer a Rilhafolles.

O Piano e a Guitarra, de Ernesto Cesar dos Santos, que a tuberculose victimou aos 20 annos de idade.

O Fado Liró e o Fado do Marinheiro, collaborados por Luiz F. da Costa Soromenho (já fallecido), Patricio José de Mattos, a quem uma paralysia atormentou os ultimos annos de existencia, e F. Napoleão da Victoria, que tem hoje uma loja de livros (principalmente theatro) na travessa de S. Domingos.

O Fado Universal, A Lyra do Fadinho, a Lyra do Cantador (todos de 1878) collaborados por Domingos Fernandes (Salazar Guerreiro), fallecido; Patricio José de Mattos, A. Feliciano Corrêa, tambem fallecidos; J. Rodrigues Chaves (actor, ainda vivo), Ernesto Cesar dos Santos, J. Cordeiro (fallecido) e F. Napoleão da Victoria.

O Pianinho,[38] principalmente redigido pelo sr. José Ignacio de Araujo, que ainda floresce com distincção em todos os generos de poesia popular, apesar da sua idade avançada.

O Cantador Popular e o Fado Novo, collaborados por P. J. Mattos, A. F. Corrêa, Xavier de Paiva; o Vianna que foi collaborador do Pimpão (Antonio Vigas), já fallecidos; e F. Napoleão da Victoria.

Fado Chic, Fado Maritimo, Fado dos Jesuitas, glosas de diversos, limadas por F. Corrêa.

O Fado Politico, em que se apreciava a marcha dos partidos.

Ignoro quem fossem os collaboradores.

O Fado exdruxulo, para piano e guitarra, de Salazar Guerreiro.

Cantigas do Fado, de Luiz de Araujo.

Apenas vi a 3.ª edição, que é de 1881.

Outra collecção editada por Casimiro Baptista.

Appareceram alguns Fados licenciosos, que a policia apprehendeu.

N’este genero tem-se publicado a Guitarrinha innocente (innocente por antiphrase, é claro) e o Almanach do Fado brejeiro, Fado da Padralhada, etc.

Dá perfeita ideia do gosto com que o Fado se ia generalisando, o seguinte mote publicado em um dos folhetos que deixamos mencionados:

Se isto assim continuar,

Onde irá parar não sei!

Veremos andar pela rua

De guitarra o proprio rei.

Começaram a apparecer almanachs de cantigas do Fado, para acompanhar e satisfazer o gosto publico:

Almanach do Cantador (1871). Editor, Verol Junior.

Almanach do bom fadista (1875), de Joaquim José de Mattos, já fallecido.

Almanach dos bons Fadinhos. Editor, Verol Junior, Está publicado o de 1902.

Almanach dos cantadores. Editor, F. Silva, rua de Santo Antão. No 6.º anno.

Almanach dos fados das salas. Editor, o mesmo F. Silva.

Quasi todos os almanachs populares, para obter maior acceitação, não deixam de conter alguns Fados.

O da Terra e mar, para o anno de 1902, insere, por exemplo, o Fadinho da cerração do mar e o das Duas fragatas.

Tambem o sr. Verol Junior iniciou o Almanach da Severa, a que mais de espaço nos referiremos.

Os fadistas classificam os Fados segundo os assumptos que n’elles são tratados.

Assim dizem:

Fados á terra (assumptos terrestres).

Fados ao mar (assumptos maritimos).

Fados á campa[39] (assumptos funebres).

Fados á Escriptura (assumptos biblicos).

Tambem pertencem ao genero Fados as «Cantigas a atirar», ou de provocação e despique.

Conheço uma publicação exclusivamente dedicada a esta especie de Fados. Intitula-se Cantigas a atirar, Fadinhos para quem fôr pimpão. Por um fadista de pé leve. Lisboa, Typographia Luso-Britannica, 1873.

E conheço muitas outras cantigas da mesma especie espalhadas pelos diversos almanachs de Fados.

Exemplo de «cantiga a atirar»:

Venha o diabo á escolha,

Não sei qual mais approvar;

Que tu a cantar fadinhos

És mesmo um gato a miar.

Amigo, por compaixão,

Não estafes esta gente,

Que sabe perfeitamente

Qual a tua presumpção:

P’ra nossa satisfação

Mette na bôcca uma rolha;

Assim escondes a bolha

E passas por mais sensato:

Entre a tua e a voz do gato

Venha o diabo á escolha.

Quem nos ouvidos soffrer

Do teu canto o som bravio,

Sentirá um arrepio

E febre julgará ter.

D’um caldeireiro o bater

É custoso de aturar;

Inda assim se o comparar

Á tua voz desabrida,

Não sei por qual me decida,

Não sei qual mais approvar.

Os cães á lua ladrando,

Os burros a darem zurros,

Os leões soltando urros,

Corvos aos mil crocitando;

Todos vão atordoando

Os ouvidos, coitadinhos!

Mas não sei se estes brutinhos

(Sem pretenções a encantar)

São menos de apoquentar

Que tu a cantar fadinhos

Deixa essa balda ruim,

Não te mettas a finorio,

Se não queres que o auditorio

Te rogue pragas sem fim.

Vae-te já com tal chinfrim

De cantigas p’ra enfadar;

Não tens voz para cantar,

Jamais serás cantador,

Porque, sem tirar nem pôr,

És mesmo um gato a miar

Outro:

Quando ás vezes a mostarda

Chegar sinto ao meu nariz,

Tenho cá um vinagrinho

P’ra os piar no almofariz.

Suas basofias insanas

Pôem-lhe os queixos em perigo;

Se me conhecesse, amigo,

Deixaria essas lampanas;

Metto-o no rol dos parranas,

Apesar de vestir farda...

Tambem traz o burro albarda

E eu não tenho medo d’ella.

É bom fazer-se de vella

Quando ás vezes a mostarda...

Se você, seu borra-botas,

De ser valente tem fama,

Eu já fiz lá para Alfama,

Fugir duzias de janotas;

Não sou de soffrer chacotas,

Repare bem no que diz:

Nem dez policias civis

Me põem na casa da guarda

Quando cá certa mostarda

Chegar sinto ao meu nariz!

Seu palerma atrevidete,

Pergunte aqui e acolá,

Depois logo saberá

A firma com quem se mette!...

Se p’ra traz lanço o barrete

E torço um pouco o focinho,

Vae tudo por mau caminho,

Porque nunca fui dos mansos;

E p’ra dar ensino a tanços

Tenho cá um vinagrinho...

Saiba você, seu marau,

Meu senhor, rei dos pandilhas,

Que vae parar a Cacilhas

Se lhe atiro um chimbalau.

Vou fazer-lhe o catatau,

Se o que disse não desdiz.

Se tem dó do seu nariz

Perca as basofias insanas,

Porque me não faltam ganas

P’ra o pisar no almofariz.

Nas provincias do norte tambem ha certamens poeticos entre a gente do povo, especialmente no Minho. É o que lá chamam «cantar ao desafio.» E nas provincias do sul, fóra da classe dos fadistas, diz-se—cantar á desgarrada. Mas em Lisboa e seus arredores resalta uma profunda differença entre as «cantigas a atirar» e os duellos a verso das outras classes, tanto do norte como do sul.

Começa a avultar a differença na propria designação: a atirar.

Esta expressão dá logo ideia de uma classe bulhenta e desordeira, que deseja «ferir» o adversario, em vez de o vencer apenas.

Nos «desafios» e nas «desgarradas» usa-se geralmente a quadra; nas «cantigas a atirar», a décima.

É a influencia da fórma estrophica do Fado com seu mote e suas glosas.

A disputa assenta sobre a competencia ou incompetencia para cantar Fadinhos; póde o adversario ser um rouxinol, mas se não entrar bem no rythmo do Fado, é peior do que um cão a ladrar, na opinião dos fadistas seus pares.

Toda a pimponice do fadista se arreganha nas «cantigas a atirar.»

A si mesmo se exalta, elle, na recordação das suas grandes «zaragatas» em Alfama e Mouraria:

Eu já fiz lá para Alfama

Fugir duzias de janotas.

Desvanece-se de afugentar os janotas e de «resistir á policia»:

Nem dez policias civis

Me põem na casa da guarda.

É a prosapia do «bailhão,» o mais desordeiro e implicante dos fadistas; como quem diz a «quinta essencia» da classe.

Tem seus Fados especiaes, o «bailhão». Celebra-se a si mesmo; canta a sua Odyssea.

Ha familias, dynastias de bailhões, que se fazem temer: dizem-no estas glosas, que são paginas de auto-biographia:

Quando as costellas n’um feixe

O amigo ao outro fazia,

E allumiava a Mouraria

A luz do azeite de peixe;

(Não é mau que isto se deixe

Escripto como passou)

Alto nome conquistou

Meu avô, pae do barulho;

E, eu o digo com orgulho,

Bailhão foi o meu avó!

Pimpões em cantar mil fados

Nos sujos becos d’Alfama,

Meus manos tiveram fama,

Dando baixa de soldados.

Mesmo p’la pinga azoinados

Ninguem lhes dava bananos.

Um d’elles fazia abanos,

Outro fazia gaiolas,

E ambos de finas escolas

Foram bailhões os meus manos...

Com familia tão honrada,

Seria grande desgraça

Que eu desdissesse da raça

Que sahiu tão apurada!

Mas, sem basofia e sem nada,

Direi que mais se apurou.

Sabei, de pêtas não sou,

E presto culto á verdade,

Quando digo á sociedade:

O rei dos bailhões eu sou.

E, quanto ás proprias proezas, continuando as tradições de familia:

Tenho armazem de cantigas,

O que se chama o beijinho,

E por mim dão o beicinho

As mais bellas raparigas;

Não me tem faltado as brigas

Em que sempre fui pimpão;

Tenho dado ao escrivão

Boa quantia em metal...

Já disse a um juiz criminal:

Eu sou fadista bailhão.

Quando o bailhão, nas «cantigas a atirar», arremessa para a nuca o barrete preto, que no trajo da classe toma a alternativa do chapéu de aba direita, é tremer d’elle: está disposto a ir passar uma temporada ao Limoeiro:

Se p’ra traz lanço o barrete

E torço um pouco o focinho,

Vai tudo por mau caminho.

É o caminho da cadeia ou do degredo.

As «cantigas a atirar» não se confundem, pois, nem pelo texto, nem pela forma, com os «desafios» do norte e com as «desgarradas» do sul.

São o proprio Fado n’uma intenção provocante, de «zaragata» e de facada.