NOTAS DE RODAPÉ:
[68] Quando o sr. D. Antonio Ayres de Gouvea, hoje bispo de Bethsaida, foi cursar a Universidade em 1850, ainda os estudantes compunham e cantavam amphiguris. Segundo informação de s. ex.ᵃ, appareceu mais tarde o Fado de Coimbra e depois o da Figueira. Fado ainda não era então, em Coimbra, uma designação generica, mas apenas especial d’aquellas duas canções.
[69] Emquanto este livro esperava o momento de entrar no prélo, falleceu Urbano de Castro, ás 3 horas da manhã de 6 de novembro de 1902.
Aqui fica n’esta pagina um clarão do seu espirito tão finamente litterario. É como se eu plantasse aqui uma saudade.
[70] Leia-se: Vê zero.
[71] Leia-se: Vê dois ró.
[72] Leia-se: F (éfe) primo.
[73] Leia-se: M linha.
[74] Leia-se: Dêtê.
[75] Leia-se: Hidrogénio.
[76] Leia-se: Agua.
[77] Leia-se: Prata.
[78] Leia-se: Potassa.
[79] Leia-se: Chloro.
[80] Leia-se: Hydrogénio.
[81] Leia-se: Antimonio.
[82] Leia-se: Agua.
[83] Leia-se: Chumbo.
[84] Leia-se: Azote.
[85] Fasciculo 56.
[86] Ficára reprovado em alguns preparatorios e no 1.º anno d’esta faculdade.
[87] Esta quadra é de Guerra Junqueiro, na Morte de D. João.
[88] De Fausto Guedes.
[89] De Antonio Nobre.
[90] Presumo que esta quadra é do Hylario.
[91] Tambem attribuo esta quadra ao Hylario.
[92] De Francisco Bastos, estudante brazileiro, morto.
[93] De Fausto Guedes Teixeira.
[94] Repetimos esta quadra por causa do seu encadeamento com as duas seguintes. Suppomos que é do Hylario.
[95] É do Hylario.
[96] De Fausto Guedes Teixeira.
[97] De Fausto Guedes Teixeira.
[98] É do Hylario.
[99] Esta e as trez quadras seguintes são de Fausto Guedes Teixeira.
[100] Supponho que é do Hylario.
[101] Ha manifesta contradicção entre o Cancioneiro e o seu Catalogo, de modo que o leitor fica hesitante. O Cancioneiro é um vasto e importante repositorio de canções populares, mas carece de algumas rectificações e de muitas aclarações, o que aliás não admira em obra de tanto vulto. Assim, no fasc. 4., diz que o amphiguri Duzentos gallegos appareceu em 1846 e 1847, sendo porem certo que Filinto Elysio já se refere a elle. Reappareceu n’essa epoca, o que faz differença. No fasc. 56 traz sob o titulo Remar... remar... uma barcarola com a seguinte nota: «É esta barcarola, uma das canções orpheonicas do Mondego, hoje vulgarisada por todo o paiz.» Não cita o nome do auctor, e comtudo eu conheço-o muito bem. Sou eu mesmo, que dos 16 para os 17 annos a compuz: é a «Barcarola de Ismael» no poemeto A nereida.
Mais tarde, quando inclui este poemeto no livro Cantares, procurei corrigir algumas infantilidades, que me saltaram aos olhos. Fiz reparo nos dois seguintes versos:
Velas ao vento,
Remar, remar.
No commum dos casos, se o vento sopra não é preciso remar. Por isso modifiquei assim a barcarola:
Do mar no fundo,
Sobre as areas,
Cantam sereas,
Quando ha luar.
O mar é lindo
N’este momento!
Repoisa o vento,
Remar, remar.
Do mar no fundo,
Cheios de aljofres,
Ha muitos cofres,
Que te hei de dar...
O mar é lindo
E a tarde é calma.
Delira a alma!
Remar, remar.
Do mar no fundo,
Sobre as areas,
Cantam sereas,
Quando ha luar.
O mar é lindo!
O ceu convida!
O amor é vida...
Remar, remar.
A barcarola, tal como ella vem no Cancioneiro, chega a não fazer sentido logo no primeiro verso, que diz:
No mar, no fundo, etc.
E padece outras alterações, que facilmente podiam ter sido evitadas.
[102] Tambem publicado, com a lettra, nos Cantos populares editados no Porto por Eduardo da Fonseca.
[103] Tambem vem publicado na 2.ª série de Cantos populares, Porto, editor Eduardo da Fonseca.
[104] Consegui reunir na minha modesta livraria 24 volumes sobre a poesia popular das nações da Europa. Estimo muito esta collecção, não só porque não é facil juntal-a, mas porque n’ella encontro bellezas que deixam a perder de vista muitos poetas cultos e gloriosos.
[105] No jornal A Chronica, n.º 68, do 3.º anno.
VI
Bibliographia musical do Fado
É quasi impossivel coordenar um catalogo completo dos Fados (musica) hoje mais ou menos vulgarisados em Portugal.
Succedem-se uns aos outros. Apparecem, alguns d’elles gosam de certa popularidade, e demoram-se até que um novo Fado lh’a roube ou pelo menos cerceie; outros não encontram ecco no gosto publico, passam e esquecem rapidamente.
O catalogo alphabetico, que em seguida publicamos, abrange, ainda assim, mais de 100 Fados.
As indicações bibliographicas, que pudemos reunir, são por vezes deficientes, mas algumas não deixarão de ser interessantes.
De muitos Fados se ignora o nome do auctor.
A este respeito baldamos longas pesquizas e aturados esforços, mas tivemos de resignar-nos a mencionar apenas o titulo dos Fados por não haver meio de descobrir quaes foram os seus auctores.
É possivel que, n’uma nova edição, logrêmos preencher algumas lacunas.
Sempre que dissermos Fados, deve entender-se que são as composições musicaes d’este nome; quando se trata apenas da cantiga ou lettra, temos o cuidado de o fazer sentir para evitar equivocos.
Como entre a entrega do manuscripto ao editor e a publicação do livro mediaram largos mezes, pudemos addicionar a este capitulo alguns fados que foram publicados ou reeditados entretanto; bem como a noticia de outros que chegaram ao nosso conhecimento, e varias indicações que encontramos na imprensa relativas ao assumpto.
Posto isto, segue o catalogo.
Açoriano (Fado)
Pelo actor Roldão. Editora a livraria Avellar Machado; Lisboa.
Albertina (Fado)
Editor Raul Venancio, rua do Ouro, Lisboa.
Alcantara (Fado d’)
O sr. Fernando Diniz, professor lisbonense de guitarra, recolhe todos os Fados que vae ouvindo.
Possue uma collecção de mais de 60, mas não sabe o nome dos auctores de muitos d’elles.
Só por este colleccionador é que tive noticia do Fado d’Alcantara.
Alegre (Fado)
Auctora, Theodolinda E. Silva.
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Algarve (Fado do)
Musica de Alberto de Moraes; lettra de Bernardo de Passos.
Lettra:
Meu doce fado, és tão triste
Como á noite a voz do mar;
Tão triste, que a quem te canta
Dás vontade de chorar.
Eu não sei quem fez o fado,
Mas tenho d’isto a certeza:
Quem lhe deu esta tristeza,
Amou e não foi amado.
Se um dia a trança te ardesse
Nas chammas do teu olhar,
Nem talvez todo o meu pranto
Pudesse o fogo apagar.
Nada maior do que o ceu,
Que é immenso como o espaço,
Pois o ceu cabe em teus olhos
E tu cabes n’um abraço.
Teu chorar é uma aurora
E dizes que soffres tanto...
Mais triste do que o teu pranto
É meu rir a toda a hora.
Nos braços da cruz morreu
Por sina o proprio Jesus.
E eu morro longe dos teus,
Sendo tu a minha cruz.
Editores d’este Fado: Benjamin & Filgueiras, Lisboa.
Alijó (Fado de)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Amanhã (O) Fado.
Este Fado era cantado pelo actor Queiroz na revista do anno de 1895, Retalhos de Lisboa, por Eduardo Schwalbach Lucci.
Foi lithographada a musica na officina da rua das Flores, 13, Lisboa.
Basta citar uma ou duas copias para dar idéa da intenção do titulo:
De navios é preciso
Nossa esquadra guarnecer.
Amanhã se trata d’isso,
Hoje ha muito que fazer.
É força tomar juizo,
As finanças recompor.
Hoje não, oh que maçada!
Amanhã, se faz favor.
Amphiguri (Fado)
Publicado no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 49.
Anadia (Fado)
Este Fado nem foi composto pelo penultimo conde de Anadia, como muita gente suppõe, nem teve por berço a villa da Anadia.
Testemunha contemporanea (o fallecido Severo Ernesto dos Anjos) contou-me uma vez que o titulo d’este Fado lhe adveio de ter sido offerecido em Lisboa áquelle titular por um musico, de que me disse o nome, que infelizmente esqueci.
Vem publicado no 5.º fasciculo do Cancioneiro de musicas populares, e ahi se diz que «é uma das musicas no estylo moderno, do genero, mais distincta e não monotona.»
Incluido nas collecções das casas Lambertini, Sassetti, etc. de Lisboa, e da casa Eduardo da Fonseca, do Porto.
O conde de Anadia viveu na bohemia elegante, mas não cantava o Fado, e supponho que não tocava guitarra.
Antonino (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Armada (Fado da)
Este Fado foi aproveitado por Freitas Gazul na revista de Souza Bastos Sal e pimenta. Cantava-o actriz Carmen Cardoso, applicando-lhe quadras allusivas aos vehiculos do empresario Jacinto, que então faziam carreiras nas ruas de Lisboa. Por este motivo se lhe ficou chamando tambem Fado do Jacinto.
Vide Jacinto.
Artilheiro (Fado)
Vide Fado Robles.
Até Chora! (Fado)
Composição de Julio Neuparth.
Atroador (Fado)
Incluido na 1.ª série de Fados da casa Sassetti, de Lisboa, e na collecção da casa Eduardo da Fonseca, do Porto.
Ballada (Fado)
Original de Militão Lucio Garcia Coelho, professor de piano em Lisboa.
Beira (Novo Fado da)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz, professor de guitarra, na sua collecção.
Bohemio (Fado)
De Reynaldo Varella. Editado no Porto, para piano, por Eduardo da Fonseca.
Lettra:
Guitarra, minha guitarra,
Vamos correr esse mundo.
Será, vendo-te a meu lado,
Meu pesar menos profundo.
Quando eu gemer tu suspira,
Sorrirás quando eu sorrir.
Havemos assim, guitarra,
Prazer e dor compartir.
Quando a saudade da amante
Vier meus olhos turvar,
Tu cantarás, e cantando
Minha dor has de acalmar.
Entre as folhas orvalhadas
Dormem as rosas e os lirios.
Não dorme quem tem amores,
Porque amores são martyrios.
Branco e Negro (Fado do)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Brazileiro (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Brilhante (Fado)
Canto nacional para piano por N. S. Propriedade do auctor. Lith. R. das Flores—Lx.ᵃ.
Brisa (A) Fado
Composição de Francisco Jorge de Sousa Bahia, professor de musica em Lisboa.
Brisa e Rosa (Fado da)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Campestre (Fado)
Incluido (com o n.º 23) na 2.ª serie de Fados da casa Sassetti. Publicado no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 33.
Cantadores (Fado dos)
Incluido (com o n.º 22) na 2.ª serie de Fados da casa Sassetti.
Carmona (Fado)
Incluido (com o n.º 20) na 2.ª serie de Fados da casa Sassetti. Publicado no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 62.
Carriche (Fado de)
Pequena povoação da freguezia do Lumiar, arrabalde de Lisboa, Carriche é um sitio muito frequentado por occasião das esperas de touros, posto já o fosse mais, quando ali havia, ao fundo da calçada, o Hotel de Nova Cintra, com uma bella horta para comesainas ao ar livre. Hoje o dono do Hotel veio estabelecer-se no Campo Grande. No sitio, apenas restam algumas tascas, que ainda assim fazem bom negocio em noitadas de touros, e que são habitualmente visitadas pelos saloios que ali passam.
Cascaes (Fado)
Muito vulgarisado. Incluido (com o n.º 18) na 2.ª serie de Fados da casa Sassetti, e na collecção de 8 Fados da casa Lambertini. Publicado no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 56.
Cascaes é a praia aristocratica de Portugal; a praia da côrte.
Cascos de rolhas (Fado de)
Incluido (com o n.º 27) na 3.ª serie de Fados da casa Sassetti.
Casino Lisbonense (Fado do)
Original de João Maria dos Anjos.
Veja [pag. 68] d’este livro.
O guitarrista João Maria dos Anjos
Cega (Fado da)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Cegos (Fado dos)
Incluido (com o n.º 17) na 2.ª serie de Fados da casa Sassetti.
Celta (Fado do)
Publicado no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 72.
Cezaria (Fado da)
Este Fado para guitarra foi dedicado por Ambrosio Fernandes Maia, como já dissemos, a uma rapariga de nome Maria Cezaria, continuadora das tradições fadistas da Severa.
A ella se refere a ultima das seguintes glosas de um Fado moderno:
Quando a Severa cantava,
Dizem os faias antigos
Que a pedido dos amigos
Grande copasio empinava.
Sem isso bem não cantava,
Não trinava com paixão;
Mas se via um cangirão
Dizia, ao som do fadinho:
—Venha lá mais um copinho
D’esse vinho de tostão.
E houve ainda outra canaria
Que tambem fazia o mesmo
E bebia sempre a esmo,
De fórma extraordinaria.
Chamava-se ella Cezaria
E era como a toutinegra,
Que canta sempre com regra
Tendo vinho ou agua-pé,
Pois já dizia Noé:
Só o vinho nos alegra.
(Transcriptas do Almanach da Severa para 1902).
Chegou! chegou!
O mesmo que Fado Visconti. Vide Visconti
Chiado (Fado do)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz, professor de guitarra.
Choradinho (Fado)
O Cancioneiro de musicas populares (fasc. 18) traz este popularissimo Fado com a seguinte annotação: «Recolhido em Lisboa, em 1850. Este é um dos fados propriamente ditos, e dos mais antigos, por onde se moldaram outros muitos que posteriormente appareceram.»
Não ha duvida que é, chronologicamente, dos primeiros. Mas o primeiro decerto não foi. (Vide Fado do marinheiro). Bem podia elle ter estabelecido o typo d’este genero de canções a julgar pela sua grande espontaneidade de sentimento, singela e profunda. Todavia a designação de Fado choradinho parece indicar que já havia outros, e que este se distinguia por um tom ainda mais plangente, d’onde lhe viera o nome. Em verdade, dir-se-ia um rosario musical feito de gemidos e suspiros.
O Cancioneiro dá-lhe a lettra de algumas quadras populares, taes como esta:
Quem tiver filhas no mundo
Não falle das malfadadas:
Porque as filhas da desgraça
Tambem nasceram honradas.
É claro que se lhe póde applicar qualquer outra lettra.
Este Fado está vulgarisadissimo.
Em Lisboa anda nas collecções das casas Sassetti, Engestrom, Lambertini, etc.
No Porto, Moreira de Sá escreveu sobre elle variações para piano, para rabeca, bandolim ou flauta com acompanhamento de piano ou de violão e guitarra.
Em Lisboa, Rey Colaço tambem glosou o Fado choradinho; dizia o jornal Novidades, de 31 de janeiro de 1903:
«Foi agora posto á venda mais um trabalho do illustre pianista Rey Colaço, uma das mais poderosas organisações artisticas do nosso paiz. É um fado (choradinho), e, como todas as producções inspiradas na melopeia que é o caracteristico da nossa raça, esta de Rey Colaço é cheia d’uma melancolia de poente do outono, terna e triste como uma despedida.
«O delicioso fado, que é dedicado ao sr. Raul Lino e estampa no frontispicio a reproducção da casa portugueza que aquelle architecto anda a construir para Rey Colaço, está á venda em todos os armazens de musica.»
Choramigas (Fado)
Incluido (com o n.º 34) na 3.ª serie de Fados da casa Sassetti.
Cigarreiras (Fado das)
Incluido (com o n.º 26) na 3.ª serie de Fados da casa Sassetti.
Cinira Polonio (Fado)
É o nome da gentil actriz brazileira, que durante muitos annos viveu e representou em Portugal, e que está actualmente na sua patria.
Este Fado foi recolhido pelo sr. Fernando Diniz (logar citado).
Cintra (Fado de)
Auctor, A. dos Santos Garcez.
Coimbra (Fado de)
Publicado no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 29.
Incluido (com o n.º 8) na 1.ª serie de Fados da casa Sassetti.
Collecção de fadinhos
(Vide Fadinhos).
Corrido (Fado)
O Cancioneiro de musicas populares diz que este Fado já era popularissimo em 1870, e dá-lhe a lettra de algumas quadras que andam na tradição oral.
Mas o Corrido não é mais que o simples acompanhamento do canto.
Sobre este typo melodico teem sido bordadas muitas variantes por Alexandre Rey Colaço, Reynaldo Varella, Militão e outros, incluindo um compositor extrangeiro, Munier.
O Fado corrido anda em todas as collecções.
Cotovia (Fado da)
Não sei o nome do auctor.
Custodia (Fado da)
Auctora, Custodia Maria. É antigo.
Damas (Fado das)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz, na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Desfalque, O (Fado)
Cantado na revista do anno, Agulhas e alfinetes, de Eduardo Schwalbach Lucci.
Dez mandamentos (Fado dos)
Por uma referencia do livro In illo tempore, de Trindade Coelho, sabemos da existencia d’este fado: «um condiscipulo que nós tinhamos chamado Miguel Dias, que era doido por musica, e levava o tempo a tocar violão, e a cantar o fado dos Dez mandamentos».
Diario de Noticias (Fado do)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz, professor de guitarra.
Dias de Souza (Fado)
O sr. J. Dias de Souza é aspirante dos telegraphos no Porto, collaborador de varios jornaes, auctor de alguns fados e acompanhador, á viola, dos primeiros guitarristas portuenses.
Antonio Mouson não gosta de tocar sem ser acompanhado por elle.
Nascido no Porto, baixo e extremamente magro, Dias de Souza, que não conta mais de trinta e tantos annos, tem uma physionomia illuminada por uma dupla expressão de intelligencia e bondade.
Domingos de Campos (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Eduardo Silva (Fados)
1.º, 2.º e 3.º
Recolhidos pelo sr. Fernando Silva na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Elegante (Fado)
Nada pude apurar a respeito do nome do auctor.
Elite (Fado da)
Composição do sr. Carlos Stuart Torrie, actualmente residente em Lisboa, mas oriundo de uma familia portuense.
Este Fado, foi editado pelo proprio auctor, em 1900.
Tem segunda edição.
A lettra é do sr. Mattoso da Fonseca. Transcrevemos as primeiras trez quadras:
Morenas prendem á terra
Na graça do seu sorriso.
Louras levam-nos ao ceu,
Aos sonhos do Paraiso.
Tens a candidez dos lirios,
A graça das borboletas,
A modestia dos martyrios,
O pudor das violetas.
Através o veu subtil
O seu olhar feiticeiro
Brilha como o sol d’abril
Em manhãs de nevoeiro.
Estoril (Fado do)
É o n.º 25 da 3.ª serie de Fados da casa Sassetti.
O Estoril, sobre a linha ferrea de Cascaes, é hoje um dos sitios mais elegantes que a população de Lisboa procura para veranear. Possue lindos e numerosos chalets, um estabelecimento thermal, magnifico hotel, matta sombria, e uma excellente praia de banhos. Com o Mont’Estoril, S. João do Estoril e Parede, constitue actualmente uma nova serie de estações balneares, que se povoaram dentro de poucos annos, e que fazem grande concorrencia a Cascaes.
Estudante (Fado do)
Do seu auctor apenas sei que tem o appellido Leite.
Estudantes (Fado dos)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 56.
Fadinho liró
Composição de Francisco Jorge de Souza Bahia.
Fadinhos (Collecção de)
Auctor, Moraes. Esta collecção foi editada pela casa Moreira de Sá, no Porto.
Fadinhos Portuenses
Só a lettra, e sem valor litterario. Collecção publicada no Porto pela Livraria Portugueza, de Joaquim Maria da Costa, Largo dos Loyos, 5. Conheço o fasciculo 2.º, que comprehende: Fadinho Brazileiro, Fado dos Amantes, Fado de S. Martinho, Fado do Caminho de Ferro. Transcrevemos este ultimo:
Da estação de Lisboa
Ao Poço do Bispo salto,
Vi os Olivaes no alto,
Mais Sacavem, cousa boa;
Á Povoa fui dar á tôa,
De longe Alverca avistei,
De Alhandra me aproximei,
Villa-Franca tambem vi,
No Carregado desci,
Por Azambuja passei;
Eu vi do Reguengo a ponte,
E de Sant’Anna tambem;
Vi o Valle de Santarem,
Mais de Santarem o monte;
Valle de Figueira defronte,
Matto de Miranda a par,
Fui Torres-Novas passar,
Parei no Entroncamento;
De Paialvo n’um momento
A Chão de Maçãs fui dar;
De Caxarias—que tal?
Na Albergaria me puz;
De Vermoil—catrapuz!
Dei co’ os ossos no Pombal;
A Soure fui menos mal,
P’ra Formoselha voei,
P’ra Taveiro nem olhei,
Em Coimbra quiz descer;
Depois de Souzellas ver,
Á Mealhada cheguei;
P’ra Mogofores segui rumo,
Eu vi do Bairro Oliveira;
De Aveiro—que brincadeira!
Para Estarreja fiz fumo;
Em Ovar me puz a prumo,
No Esmoriz quiz saltar,
Pelo Espinho ali ficar,
Quiz ver a Granja primeiro,
P’ra Valladares fui ligeiro,
Té que ao Porto fui parar.
Fado (Novas cantigas do)
Por Jayme de Sá. É publicação anterior a 1882, e foi feita no Porto pelos editores Clavel & C.ᵃ, rua do Almada 119-123.
Fado (Um)
Vide Rey Colaço e Fado plagiario.
Fado (Um)
Para piano por D. Laura Gentil. Lisboa.
Fado Nocturno
Pelo actor Roldão. Editora a livraria Avellar Machado; Lisboa.
Fado Novo
Auctor, Raymundo Varella.
Fado Novo
Na revista Beijos de burro, representada em abril de 1904 no theatro do Rato em Lisboa.
Fado Serenata
Pelo actor Roldão. Editora a livraria Avellar Machado; Lisboa. Vide Sinhá.
Fados
Rapsodia de Fados, para piano, composição do professor da «Tuna do Diario de Noticias», Augusto Machado. Dedicados á sr.ᵃ D. Maria Guerra Quaresma Vianna. Estão impressos, mas já antes haviam sido executados em publico.
Fados
Por Veterano. Só a lettra, publicada no Porto, em 1902. São cinco fados, contendo allusões pessoaes, como os seus titulos indicam.
Fados
Para piano, «escriptos expressamente para o «Auto de Misericordia», do Ex.ᵐᵒ Snr. Severim de Moraes, peça representada no Theatro D. Amelia, no sarau dos distinctos estudantes da Escola Polythecnica por A. Mantua».
São dois Fados. A lettra, como acima se diz, é de Severim de Moraes.
Do 1.º Fado:
Não te cances a estudar,
Toma tento com a morte:
Que passar ou não passar
É tudo questão de sorte.
Do 2.º Fado:
Quando em noutes de luar
Sósinha cantas o Fado,
Ouve-se alguem soluçar
No velho quarto do lado.
Sou eu que sonho acordado,
Sou eu que estudo e versejo;
Sou eu que em sonhos te vejo,
Ó dona do triste Fado.
Fados modernos (Collecção de)
Só a lettra, e sem valor litterario. Publicada no Porto pela Livraria Portugueza de Joaquim Maria da Costa, Largo dos Loyos, 5. Contém:
Fado dos janotas (primeira parte), fado do adeus do degredado, fado do verdadeiro amor, fado da velha presumida, fado do pescador, fado do cego e o cão.
Fado do meu coração (segunda parte), fado do medo da trovoada, fado do beijo, fado do pastor, fado do meu anjo.
Fado da saudade (terceira parte), fado de Lisboa, fado da minha guitarra, fado do engeitado, fado da donzella e o espelho, fado do pastor.
Fado do exercito (quarta parte), fado do ramalhete, fado da ultima vontade, fado das tesouras, fado dos ladrões, fado das guitarras.
Fado do noivado (quinta parte), fado do meu desejo, fado do amor, fado do escravo, fado d’um baptisado, fado dos padeiros.
Fado dos animaes (sexta parte), fado do que eu amo, fado do jantar, fado das cosinheiras, fado das torradinhas.
Fado do engeitado (setima parte), fado dos dois esposos, fado da mulher, fado das eleições, fado do casamento, fado do bebado.
Fado das aves (oitava parte), fado do leque, fado da desgraçada, fado do desafio, fados das fructas.
Não sei se n’esta mesma collecção ou n’outra, da mesma casa, anda a lettra dos seguintes Fados: Do Marquez de Pombal, de Luiz de Camões, da Portugueza, da Deusa Venus, Lisboeta, Bréjeiro, do Exercito, Descriptivo, Tripeiro, da Maia, etc.
Estes dois ultimos já se vendiam (1884) na antiga Livraria Civilisação, do Porto, rua de Santo Ildefonso.
É curioso que no texto de qualquer dos dois Fados não haja nenhuma composição que justifique o titulo.
Sob a designação de Fadinho Tripeiro estão incluidos:
A joven seduzida, A phylloxera, Não posso deixar de amar, Poucos se affastam do vicio; e sob a designação Fadinho da Maia: O mendigo, A miseria, Não chores! As criadas de servir.
Vide Fadinhos Portuenses.
Fados modernos
Collecção de 99 cantigas sob o titulo—A Guitarra d’ouro. Collaboração de Augusto Garraio, Luiz de Athaide, Luiz d’Araujo, Joaquim dos Anjos, Armelindo Veiga, Baptista Diniz, A. Roldão, Carlos Harrigton, Celestino da Silva, Coimbra Lobo, Dupont de Souza, Eduardo Fernandes, Ernesto Varella, Feliciano Correa, J. Rodrigues Chaves, Julio Dumont, J. I. d’Araujo, Penha Coutinho, Salomão Guerra e F. Napoleão de Victoria.
Figueira da Foz (Fado da)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 28.
É o n.º 2, com o epitheto de «rigoroso», da 1.ª serie da casa Sassetti.
Tambem publicado pelas casas Engestrom e Lambertini, de Lisboa; e Eduardo da Fonseca, do Porto.
Fonte da Sereia (Fado da)
É o n.º 6 da Collecção do estudante Candido de Viterbo.
Editora, a viuva Paula e Silva, Coimbra.
A Fonte da Sereia, que deu o titulo a este Fado, pertence á bella Quinta de Santa Cruz em Coimbra.
Hoje construiu-se n’essa magnifica vivenda d’outr’ora um bairro novo, mas crèmos que a Fonte da Sereia subsiste de pé.
Furnas (Fado das)
Musica de Alberto de Moraes; lettra de Candido Guerreiro.
Este Fado deve ser de inspiração michaelense, porque o valle das Furnas é o sitio mais bellamente pittoresco da ilha de S. Miguel.
Garoto (Fado do)
Lettra e musica de D. Ernestina Leite.
D’este Fado, bem como do anterior, são editores Benjamin & Filgueiras, Lisboa.
Gato (Fado do)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 63.
É o n.º 6 na 1.ª serie da casa Sassetti.
O mesmo que Fado Taborda. Vide Taborda.
General Boum
O n.º 14 na 2.ª serie da casa Sassetti.
General Boum é o nome de uma das personagens da operetta A Gran-Duqueza de Gerolstein.
Graça (Fado)
A justificação do titulo está no facto de ter sido dedicada esta composição ao sr. Silva Graça, proprietario e director do jornal O Seculo.
Guitarra (A) d’Almaviva
Canções da plebe (collecção de Fados, cantigas) por Adelino Veiga. Porto, 2.ª edição, 1882.
Hylaria (Fado da)
Publicado pela casa Engestrom; Lisboa.
Hylario (Fado ao)
Veja-se o cap. V d’este livro, pag. 229.
Hylario (Fados do)
Veja-se o cap. V d’este livro, pag. 225.
Jacinto (Fado do)
Veja-se Armada.
Jacinto era o nome do empresario de uns vehiculos, que faziam carreiras nas ruas de Lisboa. Como os Ripperts, a empresa resistiu por muito tempo, e ainda mais do que elles, á concorrencia dos carros americanos.
Esta resistencia tornou-se celebre pela tenacidade, apesar da pesada contribuição que a camara municipal impoz ao Jacinto.
Por fim, a sua empresa seguiu o exemplo dos Ripperts e deixou-se absorver pela companhia dos americanos, com a qual se fundiu.
Agora vieram os carros electricos e metteram os americanos n’um chinelo, como estes tinham mettido os Ripperts e os Jacintos.
É a lei do progresso: Celi tuera cela.
Janotas (Fado dos)
Auctor, J. R. Cordeiro.
João Blach (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
João de Deus (Fado)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 73.
João e Helena (Fado)
É o n.º 21 na 2.ª serie da casa Sassetti.
João Maria dos Anjos (Fado)
Composto em 1868.
Jorge da Silva (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
José Ricardo (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz. José Ricardo é o actor d’este nome.
Lamparina (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Lapa dos poetas (Fado da)
É o n.º 5 da Collecção do estudante Candido de Viterbo. Editora, a viuva Paula e Silva.
A Lapa dos poetas é um logar celebre e pitoresco na quinta das Cannas em Coimbra.
Lazarista (Fado)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 73.
Leandro (Fado)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 69.
Leça (Fado de)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 59.
É o n.º 16 na 2.ª serie de Fados da casa Sassetti.
Leça da Palmeira, certamente. Assim se chama a villa que se defronta com a de Mattosinhos (arrabalde maritimo do Porto). O rio Leça, separando as duas povoações, deu o nome a uma d’ellas.
Tambem nos suburbios do Porto ha Leça do Bailio, notavel ainda hoje pelo seu templo gothico, que pertenceu á ordem militar de S. João de Jerusalem.
O Fado deve ser de Leça da Palmeira, terra de marinheiros e, por conseguinte, de guitarras.
Leixões (Fado de)
Este Fado é o n.º 35 na 3.ª serie da casa Sassetti.
Leixões, penedia distante meia legua da foz do Leça, deu o nome ao porto artificial que procurou evitar os perigos da barra do Porto para navios de maior tonelagem.
Tem um Fado, e já teve um poema (heroe-comico) As viagens a Leixões, publicado em 1855 por Alexandre Garrett, irmão do visconde de Almeida Garrett.
Limoeiro (Fado do)
Composição do Padre Borba.
Linda-a-Velha (Fado de)
Musica de Alberto de Moraes; lettra de Alfredo Portugal. Editores, Benjamin & Filgueiras, Lisboa.
Linda-a-Velha (Ninha-a-Velha se dizia antigamente) é uma graciosa povoação, que se ergue sobre um cabeço, na freguezia de Carnaxide, dominando o largo panorama do Tejo.
Liró (Fadinho)
Vide Fadinho liró.
Lisbonense (Fado)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 22.
É o n.º 5 na 1.ª serie da casa Sassetti.
Tambem publicado pelas casas Lambertini e Engestrom, de Lisboa; e Eduardo da Fonseca, do Porto.
Foi seu auctor João Maria dos Anjos.
Livro d’ouro do fadista
Nova collecção de fados para cantar ao piano e á guitarra, escriptos e recopilados por Faustino Antonio da Cunha. Porto, 1878, Editora—Livraria portugueza e extrangeira.
Luar (Ao)
Fado muito facil para piano por Antoine de Ferrière. Editora, a livraria Avellar Machado.
Lettra: duas quadras apenas.
Luiz Petroline (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Machado Corrêa (Fado)
Supponho que Machado Corrêa é o jornalista d’estes appellidos, que collaborou na Tarde, Dia e Novidades, foi ponto de theatro em Lisboa, auctor dramatico, e que tendo ido para o Pará, como secretario da empresa Sousa Bastos, por lá se deixou ficar, passando depois para o Rio de Janeiro. Ultimamente regressou a Lisboa.
Madrugada (Fado)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 27.
Maggioly (Fado)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 5.º.
Maggioly é o appellido de um dos nossos melhores tocadores de guitarra.
Veja pag. 63 d’este livro, nota.
Marinheiro (Fado do)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 68.
Marinheiro (Fado do)
Este Fado é differente do anterior.
Parece ser dos primeiros que se vulgarisaram em Lisboa, segundo informa o velho guitarrista Ambrosio Fernandes Maia.
Elle não tem ideia de outro qualquer Fado mais antigo.
Maritimo (Fado)
É o n.º 9 na 1.ª serie da casa Sassetti.
Meiguinho (Fado)
Por Alberto Pimenta: Porto, 1901. Lettra de Campos Monteiro.
Meu (O) enlevo
Fado muito facil para piano por A. Dourade. Editora, livraria Avellar Machado, Lisboa.
Lettra: duas quadras apenas.
Monchique (Fado de)
Lettra e musica de Alberto de Moraes.
Editores: Benjamin & Filgueiras, Lisboa.
Monchique é, como se sabe, a «Cintra» do Algarve.
Mondego (Fado)
Editor, Raul Venancio; rua do Ouro, Lisboa.
Morenas (Fado das)
Editado no Porto, para piano, por Eduardo da Fonseca.
Crêmos que foi recolhido na provincia.
Tem lettra, que não pudemos obter.
Mouraria (Fado da)
É o n.º 31 na 3.ª serie da casa Sassetti.
Tambem anda nas collecções das casas Lambertini e Engestrom, de Lisboa; e da casa Eduardo da Fonseca, do Porto.
Mouraria é, como se sabe, um dos bairros fadistas de Lisboa.
Mousão (Fado)
O sr. Antonio Mouson (é assim que o seu appellido deve escrever-se) nasceu no Porto e foi discipulo, em guitarra, de João Maria dos Anjos.
O seu nome inscreve-se entre os dos primeiros guitarristas portuenses, que são, além d’elle, Chico Brandão e Guilherme de Campos.
Dizem-me d’aquella cidade, a seu respeito:
«É o mais fecundo auctor de fados, o mais sentimental na expressão e no canto, fino rapaz de sala, fallando distinctamente o castelhano, o francez e italiano, um dos melhores vivants da troupe bohemia.»
Outra informação acrescenta:
«De altura regular, robusto e valente, é, a par d’estas qualidades physicas, um excellente rapaz, coração de ouro e alma educada para comprehender e sentir todos os grandes affectos, todas as grandes dores. O Porto inteiro o conhece e estima; tem muitos amigos e admiradores.
«É frequentador dos theatros, bailes de mascaras e dos cafés, especialmente do Portuense, onde se encontra todas as noites.
«Apesar de ter a cabeça quasi branca, não conta mais de 36 annos.
«Dedilhando a guitarra, entoa fados deliciosos, que as mulheres escutam com enlevo.
«Já se tem feito ouvir nos nossos theatros e nas praias, portuguezas e hespanholas, sempre com vivo enthusiasmo e ruidosos applausos.»
Mulher (Fado da)
Recolhido pelo sr Fernando Diniz, professor de guitarra.
Muller fils (Fado)
Tambem recolhido pelo sr. Fernando Diniz.
Nacional (Fado)
Composto por João Maria dos Anjos.
Vem incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 54.
É o n.º 12 na 1.ª serie da casa Sassetti.
Nazareth (Fado da)
Nazareth, praia de banhos na Extremadura, districto de Leiria. Terra celebre pelo famoso milagre com que ali foi favorecido D. Fuas Roupinho.
Noite serena (Fado)
Na collecção da casa Engestrom, de Lisboa.
Notas falsas (Fado das)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz, professor de guitarra.
Novo fado
Tambem recolhido pelo sr. Fernando Diniz.
Olinda (Fado serenata)
De Jacinto Freire. Editor, Eduardo da Fonseca, Porto.
Lettra:
Musa, dá-me inspirações
Para o meu fado cantar,
Que enterneçam corações
E que os façam palpitar.
Cordas da minha guitarra,
Soltae uns tristes gemidos,
Lembranças da mocidade,
D’esses tempos tão queridos.
As minhas tristes canções,
Repassadas de amargura,
São saudades desfolhadas
Pelas noutes sem ventura.
Teus olhos de côr tão negra,
Brilhantes, meigos e lindos,
Desejos accendem n’alma
De beijos loucos, infindos.
Palmyra Bastos (Fado)
Pelo actor Roldão. Editora, a livraria Avellar Machado; Lisboa.
Este Fado chamou-se assim em razão de ter sido cantado por aquella actriz na revista Tim-tim por tim-tim.
Traz o retrato de Palmyra Bastos, a lettra em verso, e um artigo em prosa assignado por Julio de Menezes.
Parodia (Fado da)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz, na sua collecção.
Pedro Rolla (Fado)
Tambem recolhido pelo sr. Fernando Diniz.
Pedrouços (Fado de)
O sr. Simões Ratolla, excellente consultor sobre tudo que diz respeito a Pedrouços, teve a gentileza de me fornecer a seguinte informação:
«O Fado de Pedrouços não tem lettra. A musica é de Antonio e Eduardo Castello Branco. Possuo um exemplar impresso, para piano, com 12 pautas, e com o n.º 982, que julgo ser de chapa.
«Nas caixas de musica, de 4 Fados, encontra-se um com a indicação: Fado de Pedrouços—Branco.
«É o mesmo Fado; evidentemente só ha um Fado de Pedrouços.»
Penedo da meditação (Fado)
É o n.º 1 da Collecção do estudante Candido de Viterbo, publicada em Coimbra.
Editora, a viuva Paula e Silva.
O «Penedo da Meditação», que fica nas proximidades de Cellas, é um dos sitios mais pittorescos e mais decantados dos arrabaldes de Coimbra.
Penedo da saudade (Fado do)
É o n.º 4 da Collecção do estudante Candido de Viterbo.
Editora, a viuva Paula e Silva, Coimbra.
O «Penedo da Saudade» é uma das mais encantadoras paragens do formoso aro que circumda a cidade de Coimbra. Sitio predilecto dos estudantes, como o «Penedo da meditação». Diz a lenda que D. Pedro I frequentava muito este logar, onde desafogava saudades da sua querida e desditosa Ignez.
Pimpão (Fado do)
Para piano e canto. Lettra de Pan Tarantula. Musica de Arthur Davis Tavares de Mello.
Na capa reproduz em miniatura o frontispicio de um numero do periodico O Pimpão.
Duas quadras, das seis que constituem a lettra:
O Pimpão é rei da troça,
O Pimpão é rijo d’aço!
O Pimpão entra na choça,
O Pimpão entra no paço!
Do Pimpão nasce a Folia,
Do Pimpão Jubilo brota,
Do Pimpão surde a Alegria
Do Pimpão salta a Risota!
Este Fado foi publicado pela empresa da folha humoristica O Pimpão.
Pina (Fado do)
Composição de Julio Neuparth.
Pintasilgo (Fado do)
Auctor, Rey Colaço. Veja-se este nome.
Pisões (Fado dos)
É o n.º 32 na 3.ª serie da casa Sassetti.
Pitada (Fado do)
É o n.º 19 na 2.ª serie da casa Sassetti.
Plagiario (Fado)
Por A. B. Ferreira Junior.
Editor, Eduardo da Fonseca; Porto.
O auctor intitulou assim a sua composição, porque n’ella imita outra de Rey Colaço, Um Fado, que está incluido nos 5 a que fazemos referencia no principio da noticia Rey Colaço.
Pobre preto (Fado do)
Na collecção da casa Engestrom, de Lisboa.
Popular (Fado)
Na 2.ª serie da casa Eduardo da Fonseca, do Porto.
Porto (Fado)
Encontro uma referencia a este Fado no Livro d’ouro do fadista, Porto, 1878.
Diz assim:
Conhecendo o meu destino,
Julgando-me um desgraçado,
Dediquei-me d’alma e vida
Ás raparigas do fado.
Cantava ao som da guitarra
(Quantas vezes já tão torto!)
Um fadinho muito usado,
Chamado o Fado do Porto.
Povo (Fado do)
Na collecção da casa Engestrom, de Lisboa.
Primavera, A (Fado)
Editado no Porto, para piano, por Eduardo da Fonseca.
Vem acompanhado de lettra, que principia:
De tarde, virei da selva,
Sobre a relva,
Os meus suspiros te dar;
E de noite, na corrente,
Mansamente,
Mansamente te embalar!
Primeiro Fado
De Luiz Pinto d’Albuquerque. Offerecido a Rey Collaço. Publicado no Porto, por Moreira de Sá.
Traz as seguintes quadras:
O meu amor, que exquisito...
Sendo rosa desmaiada,
De cada vez que eu a fito
Torna-se logo encarnada!
Sei os segredos das rosas,
Da branca e da encarnada.
A encarnada anda d’amores;
Da branca não digo nada...
Quinta das lagrimas (Fado da)
É o n.º 3 da Collecção do estudante Candido de Viterbo.
Editora, a viuva Paula e Silva, Coimbra.
A Quinta das lagrimas, em Coimbra, é uma propriedade celebre pela sua belleza e pela lenda. Uma fonte, chamada dos amores, ainda hoje mantem a tradição.
Dos amores de Ignez, que ali passaram.
Vêde que fresca fonte rega as flores,
Que lagrimas são a agua, e o nome amores.
Rabicha (Fado da)
É o n.º 30 na 3.ª serie da casa Sassetti; Lisboa.
Rabicha é o logar que fica sob o arco grande do aqueducto das Aguas Livres, em Lisboa. Ha ali hortas, retiros, muito frequentados por fadistas e outra gente de vida airada. Não ha dia em que se não cante o Fado n’aquelle rincão votado ao prazer do canto e do copo.
Recreio musical (Fado do)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz, professor de guitarra.
Rey Colaço (Fados de)
Estão publicados 8. Cinco d’elles não teem nome especial. Os outros intitulam-se: Hylario, Corrido e Pintasilgo. Um d’aquelles cinco é offerecido á sr.ᵃ duqueza de Palmella.
Alexandre Rei Colaço é um brilhante pianista, professor do Conservatorio.
Os seus Fados são verdadeiras rapsodias portuguezas, variações artisticas sobre motivos populares.
Quasi todos são acompanhados de uma ou duas quadras colhidas na tradição oral.
Lia-se no Diario de Noticias, de janeiro de 1904:
«N’uma linda edição feita por uma das primeiras casas editoras de musica da Allemanha, acaba de ser posta á venda a encantadora e popularissima collecção de fados do nosso eminente pianista e professor Rey Colaço.
«A impressão é muito nitida e perfeita. A capa, para que tudo tenha o sabor portuguez, é uma curiosa e magnifica reproducção a côres do nosso lenço popular, o celebre lenço da estamparia do Bolhão, orlado d’arabescos com caracter genuinamente oriental.
«A collecção comprehende oito fados—os que são propriedade do compositor, porque o 2.º é do sr. Sassetti—entre esses fados ha o «Choradinho», o «Corrido», o «Hylario», o «Pintasilgo» e esse «primeiro fado» que tem corrido o paiz e que todos os amadores gostam de tocar, e toda a gente gosta d’ouvir.
«Este «primeiro» fado foi levemente modificado n’um sentido mais artistico e musical.
«A mencionar ainda a deliciosa «Canção das Serras», talvez a mais bella pagina de Colaço, n’um rythmo originalissimo—o mesmo da «Canção do Mondego»—digna de figurar ao lado das «Feuilles d’album» do Grieg. Pediriamos ao delicadissimo compositor que nos desse mais d’estas «Feuilles d’album», genero que elle, como ninguem, póde cultivar entre nós com exito.
«Uma collecção que todos os «dilettantes» devem ter sobre a sua estante.»
Ribatejo (Fado do)
Conheço muito bem a musica d’este Fado, que pela primeira vez ouvi em 1901. Não sei quem é o auctor. Tambem não sei se ha apenas a musica ou se anda acompanhada de lettra especial.
Creio que a sua área de divulgação se circumscreve ás povoações ribeirinhas mais proximas de Lisboa. Em Santarem não é conhecido, como d’ali me diz o sr. João Arruda, redactor do Correio da Extremadura, em carta que vou transcrever, porque n’ella se encontram algumas rapidas informações que confirmam asserções minhas, expostas no texto d’este livro.
Diz o sr. Arruda:
«Não se conhece nenhum fado do Ribatejo e quanto a fados locaes diz-me um regente de musica muito distincto, que ha aqui, que todos nascem em Lisboa. Por aqui temos o verde-gaio, o balhariló e outras cantigas.
«Tambem consultei o mestre da banda de caçadores 6, e um amador de musica, que muitos annos dirigiu a Academia Bellini, e elles nada conhecem, tendo aliás feito alguns fados baseados no que existe.»
Ribeira Nova (Fado da)
Na collecção da casa Lambertini.
Rigoroso (Fado)
O mesmo que Fado corrido. Vide Corrido. É o simples acompanhamento para as trovas de qualquer Fado.
Palmeirim diz a respeito da Severa:
«O orgulho de se considerar a primeira da sua classe, de ouvir o seu nome celebrado em todas as banzas, e os seus amores assoalhados em todos os fados, «desde o rigoroso, que não consente variações», até ao mais artistico, em que a voz adormece, e acorda em requebros languidos, tornavam-n’a surda á voz da consciencia».
Robles (Fado)
J. R. Robles, que foi 1.º sargento de cavallaria e agora é empregado da Companhia dos Tabacos, em Lisboa, já vem mencionado a pag. 63 d’este livro entre os melhores tocadores de guitarra.
Este Fado anda na 2.ª série da casa Eduardo da Fonseca, Porto, e foi incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 57.
O seu auctor compol-o de 1879 a 1880. Estando por esse tempo em Evora, ahi se generalisou o seu Fado. Em 1900, havendo tido baixa no exercito, deu-o a rever em Lisboa a pessoas competentes, e depois o publicou.
O Fado Robles, que algumas pessoas denominam Artilheiro, tambem é popular no Porto, onde o auctor fez serviço militar até janeiro de 1891.
Roldão (Fado)
Este Fado foi cantado pelo actor Roldão na peça José João (parodia) que se representou no theatro do Principe Real em Lisboa.
O auctor da peça, e, portanto, das coplas é o sr. Eduardo Fernandes (Esculapio), antigo redactor do Seculo, hoje do Diario.
A musica e a lettra foram editadas pela Livraria Popular, de Francisco Franco, travessa de S. Domingos, Lisboa.
O frontispicio é illustrado com dois retratos do actor Roldão e com uma scena da peça.
Um dos retratos representa aquelle actor vestido de fadista, guitarra em punho, tal como apparecia no palco.
Dizeres do frontispicio: Fado Roldão, cantado pelo auctor, etc.
Ora, como já dissemos em outro logar, este Fado é, com leves alterações, especialmente na 2.ª parte, a canção Hija del Guadalquivir, que estava publicada desde 1894, no Porto, em o Cancioneiro de musicas populares.
Não dizemos isto como censura, mas apenas para notar uma coincidencia casual, que muitas vezes se tem dado na poesia e na musica.
O actor Jorge Roldão nasceu em 1859: foi musico de infantaria 16; entrou para o theatro como executante na orchestra; depois passou a ponto, e de ponto a actor. Trabalhou no Porto, nos theatros D. Affonso e Carlos Alberto; em Lisboa tem trabalhado nos theatros da Rua dos Condes, Principe Real, Trindade e Avenida.
Artista de merito secundario, é comtudo uma «utilidade».
Roldão cantava o «seu» Fado em ré maior.
No folheto Fados modernos vem a lettra de um Fado para o Roldão.
Rosa de Vila (Fado)
Composto pelo sr. Julio Neuparth expressamente para ser cantado pela artista d’aquelle nome na festa de caridade realizada no Colyseu dos Recreios, a 26 d’abril de 1904, em beneficio da classe dos vendedores de jornaes de Lisboa, após a gréve dos typographos.
Rosas (Fado das)
Pelo actor Roldão. Editora a livraria Avellar Machado; Lisboa.
Ruas (Fado das)
É o n.º 23 na 3.ª serie da casa Sassetti, de Lisboa.
Salas (Fado das)
Na collecção da casa Engestrom e da casa Sassetti, de Lisboa; e na de Eduardo da Fonseca, Porto.
Santo Thyrso (Fado de)
Apenas existe a lettra, que recolhi no livro Santo Thyrso de Riba d’Ave, e que foi composta por um pobre carpinteiro d’aquella villa, Narciso Ferreira d’Araujo, o Ferreirinha, quando partiu para o Brazil, onde falleceu.
Adaptava esta lettra a qualquer Fado dos até então conhecidos.
Saudade (Fado)
Para piano, por Herminio dos Anjos. Homenagem ao inconfundivel poeta das «Peninsulares». Editora, livraria Avellar Machado.
Traz no frontispicio o retrato de Simões Dias, e n’uma folha appensa esta «silva de cantigas» do mesmo poeta, para serem cantadas com a musica do Fado:
O peixe vive nas aguas,
Vive a flor entre abrolhos,
Só eu não vivo um instante
Longe da luz dos teus olhos.
Cada vez que a tua falla
Vem morrer nos meus ouvidos,
De sobresalto e de gosto
Perco de todo os sentidos.
Tu és o raiar da aurora
Que no puro azul divaga,
Eu, frio sol que descora,
E pouco a pouco se apaga.
Saudades que me vão n’alma
Ninguem as póde contar,
São tantas como as estrellas,
Como as areias do mar.
Meu amor se andas perdido
Sem saber quem te perdeu,
Nos meus olhos tens a escada
Por onde se sobe ao céu.
Como a rosa desfolhada
Vae boiando na corrente,
O meu pensamento vôa
Para ti constantemente.
Se eu soubesse que te rias
Quando eu suspiro e dou ais,
Tirava os olhos da cara
Para nunca te ver mais.
Quando foi á despedida,
Quando te apertava a mão,
Dobrou o sino a finados,
Morria o meu coração.
Quando eu morrer vae á cova
Sobre o meu corpo chorar,
Que ao sentir que por mim chamas
Hei de aos teus braços voltar.
Não te faças tão esquiva,
Não digas que me não queres,
Que eu por mal de meus peccados
Bem sei o que são mulheres.
Se tu suspiras, suspira
Cá dentro o meu coração;
Se tu choras, tambem choro,
Vê lá se te quero ou não.
Mandei lêr a minha sina,
E a sina me respondeu
Que um triste fugir não póde
Á sorte que Deus lhe deu.
Sonhos d’amor e ventura
Quando tornareis a vir?
Só se fôr na outra vida
Quando d’esta me partir.
Se souberes que estou morto
Não te ponhas a chorar,
Mais vale acabar a vida
Do que viver a penar.
Teu corpo é feito de cêra,
Tão tenrinho que mais não;
Amor, quem t’o derretera
Ao calor do coração!
Teus olhos são mais escuros
Do que a noite mais fechada,
E apesar de tanto escuro
Sem elles não vejo nada!
Sebenta (Fado da)
Composto por D. Laura Escrich e offerecido á Tuna academica de Coimbra, em 1899, a proposito de se celebrar n’aquella cidade o centenario da Sebenta, hilariante festa escolar promovida e realizada pelos alumnos da Universidade.
A Sebenta é, como se sabe, a synopse, redigida por um estudante e adquirida pelos outros, da prelecção feita pelo professor em cada cadeira.
Tradição universitaria, tem resistido á troça dos estudantes e á opposição de alguns lentes.
Em 1852 escrevia o dr. Adrião Forjaz, da faculdade de direito:
«Continuarão as sebentas? quer dizer continuará a trocar o maior numero de alumnos juristas o indispensavel estudo dos seus compendios e das obras magistraes, que os elucidam, pela tomada de cór d’uma papeleta, que o agiota-alumno autographou á pressa dos apontamentos tomados durante a exposição do professor? Receamos que a molestia não diminua. Ajuda-a grande numero de empresarios, a preguiça que favorece em muitos dos alumnos, e a falta talvez d’uma combinação e energica decisão dos professores.»
Referindo-se ao prematuro fallecimento da auctora d’este Fado, dizia a folha lisbonense, O Dia, no seu numero de 12 de novembro de 1902:
«Ha existencias affastadas e calmas, tão serenas que parecem ter direito a que a desgraça as esqueça.
«A senhora que acaba de fallecer, loura, elegante e distincta, com trinta e cinco annos apenas, tinha uma vida de grande simplicidade e dedicação—iamos quasi a dizer d’heroismo.
«Só com sua mãe, uma senhora de altas virtudes e raro caracter, trabalhava incessantemente, para que no seu lar houvesse o agasalho sufficiente a uma senhora de cabellos brancos, que n’um momento via partir-se-lhe dolorosamente o coração. A morte leva-lhe assim, inesperadamente, a sua unica filha!
«A sr.ᵃ D. Laura Escrich, filha do sr. Frederico Alexandre Meiners, allemão, ha muito tempo no Rio de Janeiro, vivia entregue ás suas licções de pintura, em que era distinctissima, adorada pelas suas discipulas. Compunha tambem valsas e musicas de grande harmonia e valor.
«Cinco dias bastaram para espesinhar e dispersar toda esta existencia de serenidade e trabalho. Hontem ás 11 horas bruscamente morria. Curvemo-nos perante a grande Dôr d’aquella que viu ao mesmo tempo morrer-lhe nos braços a filha e com ella fenecerem-lhe as ultimas esperanças de felicidade na terra.»
Sebenta (Fado da)
É a serenatella do «Auto da sebenta», composta pelo estudante Candido de Viterbo.
Veja-se o que dizemos a este respeito no capitulo V, quando tratamos dos Fados litterarios.
Sello (Fado do)
Referindo-se á romaria do Senhor da Serra, em Bellas, anno de 1902, dizia o Diario de Noticias, de Lisboa:
«Dançou-se animadamente durante a tarde, em varios sitios da quinta, não deixando tambem de ouvir-se um ou outro cantador de fado, que ao som do «pianinho» largava a sua cantiga mais ou menos engraçada, como a que segue:
Eu não sei cantar o fado
Pois que não tenho capello,
E p’ra largar a piada
Não quero pagar o sello.»
É possivel que o cantador enfiasse outras quadras allusivas ao mesmo assumpto. Mas esta basta como prova de que o sello já entrou alguma vez nos dominios do Fado.
Sem nome (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Sentimental (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz na sua collecção, manuscripta, de Fados.
Sepulveda (Fado do)
Sepulveda é o sr. Julio Cesar Affonso Sepulveda, despachante na Alfandega de Lisboa, mais conhecido entre os rapazes pela abreviatura Veda.
D’este Fado fez ultimamente uma edição, impressa na Allemanha, o sr. Raul Venancio, estabelecido em Lisboa na rua do Oiro.
Serenata (Fado)
Composto por Manuel Luiz Ferreira Tavares para a recita do curso do 5.º anno theologico-juridico, 1900-1901.
Lettra de Nanzianceno de Vasconcellos:
O rouxinol quando trina
Escolhe a luz do luar,
Mas a tua voz divina
Canta á luz do teu olhar.
Têm o som tão puro e lindo
As fallas da tua bocca!...
Parecem ’strellas cahindo
Em chuva dourada e louca.
Se Deus te pudesse ouvir
Lá no ceu entre mil lumes,
Deixava Deus de existir,
Deus morria de ciumes!
Têm o som tão puro e lindo, etc.
Eu de mil vidas, nenhuma
Te negava, minha huri!
Mas mesmo tendo só uma
Morro d’amores por ti.
Têm o som tão puro e lindo, etc.
Serenata (Fado)
Vide Olinda.
Severa (Fado da)
Vide cap. IV, pag. 158.
Sinhás (Fadinho das)
É o n.º 36 na 3.ª serie da casa Sassetti, de Lisboa.
Soffrimento (Fado do)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 55.
Sol e dó (Fado)
Supponho que é edição da casa Sassetti.
Syndicateiros (Fado dos)
É o n.º 29 na 3.ª serie da casa Sassetti.
Taborda (Fado)
Vide Gato.
Talvez te escreva (Fado)
Da revista do anno, de Eduardo Schwalbach Lucci, intitulada Nicles.
Tancos (Fado de)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 70.
É o numero 7 na 1.ª serie da casa Sassetti.
Tancos, villa da Extremadura, concelho da Barquinha, onde Fontes Pereira de Mello mandou construir em 1865 um campo de manobras.
Theodolinda (Fado)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz.
Torrinha (Fado da)
É o n.º 33 na 3.ª serie da casa Sassetti.
A antiga quinta da Torrinha, situada no casalinho do Carvoeiro a Valle de Pereiro (alto da Avenida da Liberdade) em Lisboa, foi uma horta muito frequentada por gente patusca, que ali ia merendar e ceiar n’uma tasca.
Trez horas (Fado das)
Musica de Reynaldo Varella. Lettra:
Pela calada da noite,
Emquanto não surge a aurora,
Que esta minh’alma se affoite,
Suspira, guitarra, chora.
Voga, barco, mansamente
Pelas aguas prateadas.
Leva este canto dolente
Aos peitos das namoradas.
Cada nota tão sentida
Que a minha guitarra envia,
É uma canção dolorida
D’amor e melancolia.
E estas canções eu trago-as
Presas nas azas da brisa,
Para espalhar sobre as aguas
Emquanto o barco deslisa...
Este Fado foi composto n’uma noite de patuscada, exactamente á hora que lhe serve de titulo, e editado, no Porto, pela casa Eduardo da Fonseca.
Triste (Fado)
Composição de Augusto Machado.
Triste (Fado)
Musica do professor de guitarra Julio Silva; lettra de Armando de Araujo.
Cantou-se no sarau da imprensa realizado em 1902 no Colyseu dos Recreios.
É dedicado á memoria do poeta portuense Antonio Nobre, cujo retrato, em traje academico, orna a capa da musica.
Oh! alvôr das madrugadas
Já tenho saudades tuas,
Do choro das guitarradas
Gemendo o fado das ruas...
’Inda vem distante a aurora
E á luz que se escôa triste
Minha alma cantando, chóra
Alguem que já não existe...
Vae subindo oh! triste canto,
—Nunca a tristeza te sóbre!
Vae levar ao céu meu pranto,
Pelo poeta Antonio Nobre...
Pois no céu decerto anda
Quem tamanha dôr cantou,
Quem sabe se na demanda
Da paz que não alcançou!
A capa de seda escura,
Na qual andavas envolto,
Era a noite da tortura,
Que não te deixava solto!...
N’uma tristeza sem calma,
O teu pensar exquisito,
Com pedaços da tua alma,
Deixou teu soffrer escripto...
É um livro amargurado,
...Já não se escreve outro assim.
—São prantos d’um desgraçado,
—Uns prantos... quasi sem fim!
N’essa magua que venero
Quem de ti não teve dó!...
Se tu fôste o auctor sincero
Do livro chamado: Só!
Em cada sinistro verso
Teu olhar chóra, talvez...
E que de pranto disperso
No livro d’um portuguez!
Quem essas paginas olha
Assim te julgou na terra:
—Um lyrio rôxo que esfólha,
Na solidão d’uma serra!
Tiveste um ribeiro d’agua
Que manso beijou teu pé...
—Refresco á febre da magua,
—Imagem santa da Fé...
E tu soffrias!... emquanto
O ribeiro, a murmurar,
Pedia pelo seu Anto,
Padre-Nossos a rezar!
E tanto, tanto soffreu
Seu desgraçado menino,
Que finalmente... morreu,
D’aquelle mal, tão mofino!
Oh! velhinha amargurada
Por causa d’aquella dôr,
Já rompeu a madrugada,
Já socega o teu amor.
Descança agora, velhinha,
De quem elle tanto falla,
Que toda a flôr se definha
Após o aroma que exhala.
O luar, seu companheiro
Das confidencias d’amor,
Foi com elle ao extrangeiro,
Como o servo e o seu senhor!
Mas, na volta de Pariz,
Onde lhe escutou a voz,
Saudades d’esse infeliz
Veio gemer entre nós...
E esta capa, irmã da tua,
Vem acenar-te saudosa...
Já quando o pranto da lua
Em neve amortalha a rosa!
Trovadores (Fado dos)
Auctor, Avelino Baptista.
Vaporosas (Fado das)
Recolhido pelo sr. Fernando Diniz, professor de guitarra.
Victor Hussla (Fados de)
Victor Hussla nasceu em S. Petersburgo a 16 de outubro de 1857. Veio para Lisboa em 1887 como director da Real Academia de Amadores de Musica. Violinista distincto e professor bem orientado, prestou importantes serviços artisticos áquella associação e a Lisboa.
A seu respeito escreve Ernesto Vieira no Diccionario biographico dos musicos portuguezes:
«Como compositor produziu Hussla trabalhos de muito valor. De todos o mais importante é a sua grande symphonia, obra vasta e trabalhada com grande esmero no mais puro estylo allemão. De igual auctor é a «Abertura», composição menos extensa mas do mesmo modo trabalhada.
«Não foram porém estas as suas producções que mais lisonjearam o nosso ouvido meridional. Sobrelevaram-lhes no effeito as celebres «Rapsodias portuguezas», em que os nossos cantos nacionaes tiveram pela primeira vez a honra de ser luxuosamente revestidos de uma orchestração primorosa e em alguns pontos verdadeiramente admiravel.»
Nas «Rapsodias» foram por elle comprehendidos alguns Fados.
Nomeado professor do Conservatorio em 1897, falleceu repentinamente, indo a entrar para aquelle edificio, na manhã de 14 de novembro de 1899.
Vida (A) Fado
Composição de Julio Neuparth.
Vimioso (Fado)
Vide capitulo IV d’este livro, pag. 183.
28 (Fado do)
Publicado no Porto, para piano, pela casa Eduardo da Fonseca.
Tem sido attribuido ao Hylario, como dissemos no cap. V, pag. 229.
Mas o seu auctor foi um rapaz cego que viveu em Braga e era protegido do reverendo abbade de S. João do Souto, padre José do Egypto Vieira.
Este cego tinha no asylo o n.º 28, e toda a gente o conhecia mais pelo numero que pelo nome.
D’ahi o titulo com que o seu Fado se generalisou.
Visconti (Fado)
Visconti, um cançonetista de circo, veio a Lisboa, onde o rythmo das suas canções comicas se tornou popular.
Esse rythmo é o que se chama Fado Visconti. (Está incluido na collecção de Fados da casa Eduardo da Fonseca, Porto.)
Lettra de algumas das canções:
Hespanhol p’ra malaguenha,
Portuguez p’r’o lindo fado.
Já não ha nem póde haver
Canto a estes comparado.
Puz os pés na campa fria
De quem na vida amei tanto.
Uma voz ouvi dizer:
Não me pises, ó tyranno.
Se eu soubera que voando
Alcançava o teu amor,
Ia pedir á sopeira
As azas... do assador.
Zé povinho (Fado do)
Incluido no Cancioneiro de musicas populares portuguezas, fasciculo 72.
FIM