NOTAS FINAES
Pag. [10]
Ácerca da synonymia das palavras Fado e discurso, esqueceu-nos citar Max Muller, que diz: «Fatum, a fatalidade; significava primitivamente o que tinha sido dito; e antes que a fatalidade se tornasse uma potencia superior ao maior dos deuzes, esta palavra significava o que tinha sido dito por Jupiter, e que o proprio Jupiter não podia alterar.» La science du langage, traducção franceza.
N’estas poucas palavras fica bem assignalada não só a correlação existente entre aquelles dois vocabulos, como tambem o caracter fatalista, irremediavel, de Fatum, que nós bem propriamente traduzimos por Fado (discurso em verso, acompanhado de musica).
Pag. [18]
Encontramos mais uma prova da não existencia do Fado no seculo XVIII.
Vem no tomo XIV do Theatro de Manuel de Figueiredo:
«... a imperfeição d’alma, que eu padeço pela minha ignorancia, me não deixou nunca esquecer da graça, que achei nos tocadores de viola, e rebeca nos proprios lugares, que juntos ião á Penha, e ao Beato nos Domingos, e dias Santos de tarde (ainda no tempo das espadas) com a banda direita do capote lançada por cima do hombro esquerdo, ficando-lhes as mãos fóra delle, e o cotovelo direito: as gentes corrião atraz daquella repetida tonadilha da fofa, e do fandango, como o rancho das galinhas atraz da feliz, que tem a lagartixa no bico».
Estas palavras são de Francisco Coelho de Figueiredo, editor e commentador do Theatro do irmão.
Francisco C. de Figueiredo nasceu em 1738 e morreu em 1822.
O tomo a que nos referimos sahiu em 1815.
Pag. [28]
A expressão «Nascemos de um grupo de lusitanos» não importa mais que uma vaga e tradicional referencia aos tempos anteriores á constituição da nacionalidade portugueza.
Bem sabemos como Herculano se empenhou em negar qualquer especie de unidade nacional entre os portuguezes e a tribu ou tribus de celtas hespanhoes conhecidos pelo nome de lusitanos.
Mas tambem sabemos que o proprio Herculano reconheceu quanto seria difficil vencer a força da tradição, «a crença nacional e quasi popular» que nos dava como successores e representantes dos lusitanos.
Esta crença é alimentada até pelo titulo da grande epopea portugueza—Os Lusiadas.
Escrevendo para o povo, encostamo-nos insensivelmente á formula popular, salvaguardando, é claro, o respeito devido á formula erudita.
Pag. [63]
O methodo de guitarra de Ambrosio Fernandes Maia teve a sua 1.ª edição em 1877, e a 2.ª em 1897.
Este methodo é figurado por algarismos: e ao seu auctor parece ser o mais facil que tem apparecido, segundo declara.
No prologo da 2.ª edição diz Fernandes Maia:
«A guitarra, esse instrumento de vozes tão melodiosas, que, como nenhum outro, fere tão intimamente as fibras do coração fazendo-nos ouvir os cantos, as canções mais populares de nossa terra, esse pequeno instrumento, que traduz a alma do povo portuguez, jazeu longos annos no mais completo abandono; a ella votaram os nossos antigos o mais completo desprezo, e ai d’aquelles que se atrevessem a dizer «toco guitarra».
«Durante annos viveu nas espeluncas mais ordinarias, e eram d’uma má reputação, todos que dedilhavam as suas cordas.
«Destinos do acaso: o piano entrou nos cafés, elle, que nascera na opulencia, e a guitarra sempre modesta, com os seus tons tão melancholicos, com os seus gemidos, entrou triumphante nos salões da nossa primeira sociedade!»
Pag. [238]
O sr. Affonso Lopes Vieira, que ha pouco deixou os bancos da Universidade, consagrou uma das suas poesias á psychologia do Fado.
Transcrevo algumas quadras:
Fados de Portugal suspiros e ais,
Fados que sois a nossa alma! Fados
Que de tristes saudades me falais,
Oh suspirados, oh amargurados!
Nas cordas da viola enforca a Dor,
Oh povo, e canta! É desafogar!...
Canta o teu fado á terra, oh cavador!
E o teu á onda, oh cavador do mar!
Nas viellas do amor á noite passa
O fado da miseria e humilhação.
Oh vozes roucas, harpas da desgraça,
Oh! versos côxos, cheios d’emoção!
Cegos, cantais o grande e horrivel crime!
E por aldeias, pelos povoados,
Arrastais a lamuria onde se exprime
A velha voz d’Homeros desgraçados!