I
Castello de Paiva, junho de 1873.
MEU AMIGO.
Como tem navegado Douro acima e conhece bem as planicies e montanhas que a uma e outra margem se encontram, umas espraiando-se ao nivel da corrente, outras erguendo-se ameaçadoras e aridas para o ceo, não me dispenso de contar-lhe um caso triste e verdadeiro, porque o presenciei eu, se bem que mal possa ser chronista, porque estou ainda na commoção da surpreza.
Encontrei-o no Porto, e disse-lhe que tinha de partir para Castello de Paiva. Effectivamente parti no dia fixado. Não jornadeei por terra, o que seria incomparavelmente mais rapido, porque me julguei obrigado, a bem de meus proprios interesses, a acompanhar o barco carregado por minha conta. Larguei do caes da Ribeira, cerca{6} da meia noite, para aproveitar a maré até Pé de Moira. Obedeço a um pedido não declarando o dia. Cerca das onze horas da manhã estava em Pé de Moira, onde os marinheiros e arraes almoçaram, comendo uns peixes fritos na barraca de ramas de pinheiro, que o meu amigo conhece, e bebendo pela tradicional bilha de barro vermelho.
Ahi me prophetisou o arraes que o termo da viagem seria moroso, porque não havia vento e o barco ia muito carregado.
Resignei-me.
Armou-se um tolde com a vela, accendi o meu cachimbo, bebi tambem, e comecei a lêr os jornaes que trazia no bolso, disposto a viver sobre agua o tempo que fosse preciso.
Oh! enfadonha coisa este ante-diluviano processo de locomoção! Digo ante-diluviano em rasão de Noé se ter salvo embarcado no dia da grande submersão da terra.
Li os jornaes de fio a pavio, como se diz não sei se em bom portuguez, reli-os, decorei-os. Cheguei a devorar os annuncios com uma soffreguidão de cannibal. Enguli e digiri todos os barateiros e todos os precisa-se. Comprehendi então o que ha de profundamente triste em precisar; eu tambem precisava de chegar a casa o mais breve possivel e todavia a terra firme estava para mim como a agua para Tantalo. Vi-a; e tudo se ficava em vêl-a.
Foi-me anoitecendo ainda a grande distancia de casa. Custou-me a transigir com a necessidade de passar segunda noite no rio. Que me importava a mim o luar, a ardentia das aguas, as vaporações embalsamadas da natureza? Não sou poeta; já tive um pouco d'isso, é verdade,{7} mas o que mais ambiciono presentemente é dormir na minha cama, comer á minha mesa, e calçar as minhas botas.
Finalmente não havia remedio senão conformar-me ás circumstancias; o homem nasceu para joguete; fui pois o que tem sido e ha de ser perpetuamente o meu similhante.
Cerrou-se-nos inteiramente a noite ao sopé das Victoreiras. O arraes deu voz de lançar ferro; os marinheiros iam cansados de tirar o barco á sirga e logo saltaram em terra para queimar sobre gravetos o seu bacalhau. Puxei do meu taleigo e comi uma fatia de presunto de fiambre e outra fatia de queijo.
Depois que gregos e troyanos se banquetearam com o frugal repasto, tractou-se de acamar e dormir.
Os marinheiros acobertaram-se com as mantas e romperam, tarauteando pelos narizes, em hymnos a Morpheu. Eu é que não nasci pagão; fui remisso em render culto á tetrica divindade mythologica. Mexi-me, remexi-me, rebuli-me e por mais d'uma vez accendi o meu rolinho de viagem para dar batalha a pulgas, persevejos e demais bicharia, que passava dos marinheiros para mim e de mim para os marinheiros.
Cerca das onze horas da noite pareceu-me ouvir de repente o baque de um corpo em terra, mas um segundo depois não pude duvidar ao ouvir um grito surdo como o de quem cahia contra o solo. Chamei afflictivamente os marinheiros, que despertaram roncando interrogações.
—Que foi? Que é? perguntaram elles.
—Ahi fóra cahiu gente!
—Quem havia de cahir, senhor!
—Ouvi distinctamente a queda, e um grito depois.{8}
—Um grito!
—Posso affirmar; ouvi gritar com toda a certeza.
Instiguei-os, pedi-lhes instantemente que me acompanhassem. Elles accenderam o seu lampeãosinho e seguiram-me. Fomos marinhando pelas fragas á procura d'agulha em palheiro. Os marinheiros começavam a rir alvarmente e a dizer que eu era dado a medo de bruxas. De repente pareceu-me porém ouvir gemer. Intimei silencio. Os marinheiros trocaram entre si um olhar ironico, que para logo se volveu credulo, porque distinctamente ouviram um gemido.
—É alma perdida! disse um com voz tremula.
—É naturalmente corpo perdido, objectei eu. Calem-se. Vamos a vêr se nos orientamos.
Apoz um longo intervallo, ouvimos gemer do novo, se bem que mais debilmente. Podemos orientar-nos. Eu marinhei á frente dos homens, arrancando da mão d'um a lanterna. A pequena distancia pareceu-me vêr um vulto estendido no chão. Baixei o lampeão e reconheci um corpo de mulher. Os marinheiros estavam attonitos e como que receiosos d'approximar-se. Fui eu quem, poisando o lampeão, levantou o corpo. E—surpreza extraordinaria!—vi uma bonita mulher, se bem que mortalmente pallida, nova, franzina, com o rosto ferido, ensanguentado. Estaria viva ou morta? Não sabiamos. A verdade é que estava fria como cadaver. Os marinheiros, capacitados de que não era bruxa, ajudaram-me a transportal-a ao barco. Deitamol-a, aspergimol-a, lavamos-lhe os ferimentos e nem tempo tivemos—eu pelo menos—para pensar no extraordinario do acontecimento. Hoje é que eu, ainda que mal, reflexiono e me confirmo que não ha romance que seja absurdo.{9}