II
A formosa desconhecida continuava a estar immovel e fria, apesar dos cuidados que lhe prodigalisamos e que, attentas as nossas circumstancias, não podiam ser completos.
Sabe que eu não sou piegas nem romantico,—o que significa o mesmo, porque o romantecismo é a pieguice do espirito—mas confesso-lhe francamente que me horrorisaram a solidão, a escuridade, a massa negra das aguas e a massa negra das serras, o desamparo do homem entre a agua que é fria e a rocha que é dura, entre ambas que são mudas e surdas,—finalmente, o desagasalho, a impossibilidade de encontrar soccorro!
Como o Douro me pareceu differente d'aquelle extenso e caudaloso rio nosso conhecido, meu e seu, quasi sempre placido, povoado de barcos, animado de cantares, marginado de casinhas e campanarios que de longe a longe{10} se penduram das fragas, n'uma palavra, accidentado de tons variados e por mais d'uma vez festivos!
Ordinariamente, quando se viaja, tem-se saude. Vem a gente a lêr no barco, a fumar, a conversar os marinheiros, a incital-os a que cantem ao desafio, a comer a sua canja e a beber a sua pinga!
Nada nos apavora então! Quando o barco passa por baixo das Victoreiras, e se vê lá no alto, ameaçando eternamente despegar-se, aquella enorme avalanche negra, informe, nem siquer lembra que os fraguedos, que se encastellaram um dia, por uma evolução da natureza, podem rolar e precipitar-se alguma hora, por outra evolução imprevista. Contenta-se a gente com ouvir da bocca dos marinheiros uma tradição do sitio.
—Alli, dizem elles, é que os homens trahidos trazem as mulheres a despenhar-se.
Elles não dizem isto por estas palavras, mas digo eu. E a gente facilmente acredita que haja homens que se dêem ainda o incommodo de jornadear por algumas horas para despenhar as mulheres adulteras, que já estão despenhadas, e que haja mulheres, que depois de conhecerem o vicio, tenham a virtude de se deixar morrer!
A viagem pelo Douro, de dia, em boa disposição d'espirito e corpo, tem alguma coisa de idyllio, d'Arcadia, de creendice, coisas impossiveis de encontrar hoje em qualquer outra parte. É uma especie de Pantana, onde o carneiro assado parece saltar-nos aos dentes, e a borracha trepar-nos aos beiços, e onde a gente, olhando para as mãos, encontra cinco facas e cinco garfos! Onde é hoje que se póde encontrar a realidade d'este ideal de Pantana, a não ser n'uma viagem pelo Douro? Quem é hoje que come com{11} a mão, desde que o Monteverde publicou o Manual encyclopedico, e nos exames do lyceu se ensina a dar ao queixo, quer dizer, a comer com as mandibulas?
Mas como o quadro muda de noite, santo Deus! quando terra, ceo e agua são escuros, e está ao pé de nós um corpo frio, immovel, quando o nosso espirito pergunta a si mesmo, para resolver um mysterio, se aquella mulher, formosa e inanimada, gentil e desconhecida, será morta ou viva!
E não haver um sal que se lhe dê a respirar! um espelho para lhe receber o halito, se ainda o tem! uma voz que nos anime! um espirito que comprehenda a nossa tribulação! porque os marinheiros do Douro são os puros cadeirinhas do rio! Fazem tudo mechanicamente; teem força: puxam por ella. Perdão, pelo que elles puxam é por nós, pelo barco, e por elles mesmos. Podiam ter nascido bois, e nasceram homens. Tambem os cadeirinhas podiam ter nascido burros de carga e nasceram gallegos. Que a natureza emendasse a mão em qualquer feitura humana, comprehende-se, porque tambem aquelle artista, que estava a fazer o demonio calcado pelo archanjo, mudou de tenção, por quebrar os chifres ao demonio, e aproveitou a esculptura para fazer um santo deitado.
O que é certo é que a natureza humana, tirante os marinheiros de riba-Doiro e os cidadãos de riba-Minho, é tão nobre, tão dedicada,—e perdoe-se-me a vaidade de a estudar em mim mesmo—que logo me esqueci da urgencia de abreviar a viagem, de descarregar em Castello de Paiva os meus generos, e concentrei todas as minhas attenções n'aquella mulher que não conhecia, que vagueava a deshoras por uma serra, com risco de rolar ao Douro,{12} sósinha com a sua ideia, que era provavelmente uma grande dôr.
Permitta-me—entre parenthesis—que chame á dôr moral uma ideia e não um sentimento. Isto é philosophia minha. Quando se acorda pela manhã, e se lembra a gente do soffrimento da vespera, é que continua a sentir o que na vespera sentiu. E que tal! approva? Eu quando fui d'uma vez ao Porto, acompanhar o meu patricio Barros que ia fazer concurso para uma cadeira de philosophia n'um lyceu do sul, e ouvi argumentar um tal Albuquerque d'oculos verdes, adquiri a convicção de que tambem podia ser philosopho, mais pelo que ouvi ao Albuquerque do que pelo que ouvi ao Barros.
A verdade é, meu amigo, que a nossa alma verga ao perigo como o aço ao joelho.
Pozessem no meu barco um farrabraz, um mata-mouros, um espadachim, ao pé d'aquella mulher, e ainda que esse stentor não tivesse esposa, nem filha, nem—ó prodigio!—tivesse mãe, elle sentiria o que eu senti, a abnegação das situações anormaes, a ancia de valer a quem está carecido de soccorro, a necessidade de saber se aquella mulher estava morta ou viva!
Cobri-a com todas as mantas que havia no barco, as dos marinheiros e as minhas, a vêr se provocava a reacção; lembrei-me de que tinha aguardente comigo, friccionei-lhe os braços e os pés, e, ao agasalhal-a, ao conchegar-lhe a roupa, senti que tinha no bolso papeis.
Bem podia ser que alli estivesse a chave do enigma.{13}