III
Com quanto eu seja um pouco preguiçoso em escrever, e ainda hontem lhe tenha enviado a segunda carta sobre o extraordinario caso das Victoreiras, não posso resistir á tentação de voltar hoje ao assumpto para lhe communicar que por carta recebida agora do correio do Porto fui ameaçado de não sei que medonhos perigos no caso de proseguir na veridica historia da morta ou viva.
Em nenhum acto da minha vida blasono de valente, mas tambem não é meu costume recuar por cobarde. Continuarei pois a narrativa encetada, em proveito da humanidade, porque, repetindo o que dizia na primeira carta, é uma tremenda lição. E depois que ideia se fará no Porto da policia de Castello de Paiva? Julgarão isto sertão de feras, serra deserta, região ignorada? Eu não sei. O que posso affirmar é que a tenebrosa carta nem me cheirou a{14} certidão d'obito, nem estou em terra onde a supradita carta, dado que eu fosse simplesmente poltrão, podesse converter-se em realidade impunementemente.
Não, meu amigo, eu protesto contra todas as mordaças açaimadoras de escandalos. Isto assim não póde ser,—que triumphe sempre o forte e soffra sempre o fraco. Bem sei que é costume recatar os escandalos e, quando muito, publical-os desfigurados. Mas—erro imperdoavel!—o escandalo é muitas vezes a lição e algumas vezes póde ser a cura. É preciso que se espalhe, que se discuta, que se commente, com vagar, como eu estou fazendo, para que a precipitação não cegue o entendimento.
Este caso da morta ou viva tem surprehendido muita gente, mesmo em Castello de Paiva. Era eu a unica pessoa que estava na confidencia d'elle, porque fui a unica testimunha occular. A principio julguei dever guardar segredo. Ao cabo, porém, de muitas noites de insomnia, resolvi dar-lhe publicidade. Sabido apenas por mim, não aproveitaria a ninguem; divulgado, algum proveito poderá levar á sociedade.
Ha que tempos se anda ahi a fallar da emancipação da mulher! Mentira, hypocrisia, infamia!
A sociedade lança mão da these-emancipação para mais escravisar a mulher, como os governos costumam exhibir o rotulo melhoramentos materiaes quando tentam vexar os povos com novos tributos.
Querem estes philosophos de má morte emendar a natureza. A mulher não nasceu para senhora nem para escrava; a mulher é companheira. Como esta palavra está a dizer, ella deve compartir comnosco alegrias e dores, risos e lagrimas, flores e espinhos. Fallar-lhe em emancipacão{15} é suppor que havemos sido despotas ao ponto de lhe roubarmos a liberdade relativa que lhe deviamos ter dado, e que lhe queremos restituir; é proclamar a nossa propria vileza; é arrogar-nos fatuamente a importancia de libertadores do genero humano. Escravisal-a é aviltar nossos filhos até á condição de filhos d'escrava e julgarmo-nos nós mesmos nas circumstancias de nossos filhos.
Não ha emancipação nem escravidão: o que deve haver simplesmente é sociedade conjugal.
Portanto eu, philosopho montanhez, estarei sempre na brecha para atacar qualquer das duas falsidades, qualquer dos dois extremos, que são viciosos, estando pois a virtude mais uma vez no meio-termo.
Estas cartas são um brado ardente contra o aviltamento da mulher, cuja honra se quer subjeitar a um capricho, esquecendo-nos de que deshonrando-a a ella nos deshonramos a nós mesmos. Não façamos da mulher a guitarra com que nos recreamos durante uma serenata e que ao romper do dia, ebrios de mau vinho e mau prazer, atiramos pela janella fóra. Quem a recolherá depois de a vêr no monturo? O trapeiro, apenas. E todavia a guitarra era mimosa, quando suspirava ao luar; tinha uma voz doce e melodiosa que despertava vagos pensamentos na alma; podia ainda murmurar cadencias se continuasse a ser dedilhada por mãos delicadas. Mas nós, que a principio mal poisavamos os dedos nas cordas, que a julgavamos intermedio entre a nossa alma e a natureza, porque era ella, a guitarra, que estava fallando por nós e respondendo pela natureza, deixamos por ultimo cahir em cheio a mão sobre o fragil instrumento e fizemos estalar uma corda, que precedeu o estalar de todas as outras.{16}
Pois a corda que estalou chamava-se—honra; depois d'ella estalaram todas as outras, que se podem chamar—pundonor, brio, fé. A mulher, quando chega a este destino da guitarra, já não tem pundonor, porque não se peja de haver cahido; não tem brio, porque não pensa em rehabilitar-se; não tem fé, porque já não acredita na propria rehabilitação nem na rehabilitação das outras.
Vai, como a guitarra partida, para o muladar do trapeiro ou para a loja do adello.
Ou morre ou se vende.
Não, philosophos da philosophia de Mahomet, que sustentaes o crê ou morres, não, em nome de nossas mães, de nossas irmãs, de nossas esposas, de nossas filhas, havemos, nós, os que temos dignidade e coração, de quebrar aos vossos pés essas duas laminas d'aço cortante que limitam o vosso perfido dilemma. E como o havemos de fazer? Desvendando a mulher, avisando-a, apontando-lhe o exemplo.
Meu amigo,—perdoe-me esta dissertação que era precisa, depois de lhe haver annunciado a recepção d'uma carta ameaçadora, e previna os seus leitores de que eu d'aqui em diante entrarei directamente no assumpto.{17}