IV

Quer que lhe explique o meu demorado silencio?

Dias depois de publicada a terceira carta, recebo pelo correio outra de letra desconhecida.

Abro e leio:

«Ill.mo snr:

«Vejo que é um homem esforçado e brioso, para quem todas as ameaças são nullas. Perdoe-me o havel-o comprehendido mal, tomando-o como pusillanime. Lance tudo á conta do meu desespero de me vêr justamente accusado em muitos relanços das suas cartas, e falsamente incriminado n'outros. Foi uma infamia, que a sua magnanimidade perdoará, e que o meu arrependimento redimirá. Peço-lhe porém—se alguma confiança lhe mereço ainda depois de perdoado—que me ouça, antes de continuar as suas cartas, para que, melhor informado, possa conhecer as particularidades da veridica narrativa. Um inconveniente obsta{18} porém á minha ida a Castello de Paiva: é o ser uma terra muito pequena e açular eu a curiosidade do publico ocioso com a minha presença ahi, depois da publicação das suas cartas.

«N'esta conjunctura não será grosseira impertinencia pedir-lhe um sacrificio por amor da imparcialidade com que quer ser juiz na minha causa? Pois bem, ao magistrado que me tem de julgar perante a opinião publica, e que deve escutar com igual benevolencia reu e queixoso, exoro, supplico vivamente que se digne marcar sitio onde me possa dar audiencia para ouvir da minha justiça.

«Não receie ciladas. Se não fosse realmente um homem corajoso, lembrar-lhe-ia que prevenisse a authoridade da hora e local da entrevista.»

Respondi immediatamente:

«Ill.mo snr:

«Tenho de ir a Penafiel depois d'amanhã. Portanto, se não quer ser visto, espere-me ás onze horas da noite na capella de S. Roque.

«Não receio ciladas. Deixemos a authoridade em paz.»

Fui.

Effectivamente pude orientar-me melhor nos episodios que precederam o caso das Victoreiras, o que de nenhum modo quer dizer que eu modificasse absolutamente o meu primeiro juizo.

Ainda assim cumpre-me restabelecer a verdade dos factos.

Da parte d'elle não houve a minima culpa no incidente d'aquella noite. Foi sim um grave erro da sua parte, o erro de ceder á loucura d'um momento, que deu logar a esse acto de desespero da formosa desconhecida.{19}

Elle, porém, não estava avisado da fuga, como pude verificar pelo confronto dos depoimentos d'ambos.

O que é certo é que o vi chorar...

Nunca o seu coração está tão endurecido que não tenha a sensibilidade que refrigera com lagrimas as dôres intimas.

Todavia aguardemos o desfecho dos acontecimentos, esperando, como o dr. Pangloss, que tudo seja pelo melhor no melhor dos mundos.

Isto até aqui, meu amigo, foi para si.

D'aqui em diante vae proseguir a narrativa, reatando-se no ponto em que ficara, como se não se houvera dado este episodio que acabo de referir, e que todavia me permittirá ser mais explicito.

Senti, disse eu na segunda carta, que a desconhecida tinha no bolso papeis.

Só alli podia estar a chave do que para mim era enygma.

Mas, ao mesmo passo, um escrupulosito: Ser-me-ia permitlido lêr essa correspondencia?

E logo a contrapôr-se ao escrupulosito uma reflexão: Não a traria ella comsigo, prevendo que as suas debilitadas forças lhe faltariam no caminho, para esclarecimento de quem quer que a encontrasse morta ou viva?

Resolvi lêr os papeis.

Eram um maço de cartas, atadas com torçal vermelho.

Á primeira vista, fiquei perplexo.

Reparando melhor, dei tino de haver entalado, entre o torçal e o rolo, um bilhete.

Esse devia ser o esclarecimento desejado.

Era, em verdade.{20}

Dizia simplesmente isto:

«Chamo-me F., da casa de... vou para..., fugida á justa punição de meu pai e apenas confiada na protecção do pai de meu filho, que deve nascer se a morte não surprehender a mãe n'esta ousada resolução.

«Tu, que me lêres, perdoa-me.

«Se és pai, põe todos os teus cuidados na guarda de tuas filhas: se és mulher, e estás descida a iguaes abysmos, vê no espelho da minha desgraça a profundeza do teu erro.»

Tinha-se feito a luz.

Aquella mulher era filha d'um homem respeitabilissimo que ha muitos annos se soterrara n'umas serras do Douro depois de haver percorrido o mundo, semeando dinheiro e anecdotas, batendo os melhores cavallos, baloiçando-se nos melhores tilburys, jogando, bebendo, reptando, apostando nas corridas, atirando aos pombos, pompeando nas aguas de Spa, debruçando-se n'um camarote da Grande Opera, merecendo referencias a Julio Janin, enchendo o mundo, o folhetim, o romance e até o theatro.

Ha quem diga que o nosso conhecido Antony, transportado do lar deshonrado para a scena igualmente deshonrada, fôra apenas uma copia desenhada pelo crayon ultra-romantico de Alexandre Dumas n'uma hora mais ultra-romantica que o proprio crayon.{21}