V
Finalmente, ao recolher d'uma das viagens ao extrangeiro, casou com uma senhora da primeira sociedade lisbonense. Quasi o surprehendeu o ser amado.
Não conhecia o amor senão da capa dos livros e dos vaudevilles. O casamento era para elle apenas uma comedia que vira em França e na qual homem e mulher se davam excellencia e cumprimentavam ao jantar. Pensava pouco mais ou menos em observar o regimen matrimonial da comedia, mas completamente se enganou, porque, sentindo-se amado, começou de encontrar no amor thesouros que lhe eram desconhecidos desde a mocidade. Atravessara o mundo, sem atravessar a familia: não conhecia o amor, porque só na familia o ha. A alegria das festas, fóra do lar, irradia como a espuma do champagne á luz de candelabros, mas entorna-se e dissipa-se como ella.
Suppunha elle haver-se apaixonado uma vez, aos vinte{22} annos. A 2 de abril de 1829, fazendo a primeira viagem a Pariz, ouvira cantar a Malibran, que era então a rainha da opera, n'um concerto matutino dado na rua Taitbout, em favor dos orphãos adoptados pela «Sociedade de moral christã.» Ficara doido, embriagado, e logo obteve uma apresentação á cantora, que o recebeu ao dessert.
N'essa mesma noite cantava a Malibran o papel de Desdemona no theatro dos Buffos. O theatro trasbordava de espectadores; a receita do espectaculo subiu ao algarismo de 18,000 francos.
Não obstante ser immensa a multidão, a cantora pareceu enxergal-o e distinguil-o com um sorriso,—d'estes sorrisos que as mulheres de theatro espalham como bilhetes de beneficio...
Isto acabou de enlouquecel-o. Todo o theatro tinha visto: a Malibran sorrira-lhe!
N'esse mesmo anno foi a cantora a Londres. Acompanhou-a, seguindo por toda a parte o rastro de gloria que ella abrira ao passar por entre a admiração britannica.
Em janeiro de 1830, estavam ambos em Pariz: ella e elle.
Foi n'esse mez e anno que Pariz a ouviu cantar o segundo acto do Matrimonio segretto, com as duas maiores notabilidades cantantes da epocha,—a Sontag e a Damoreau-Cinti.
A vida do nosso touriste foi, durante o tempo que seguiu a Malibran, uma serie de viagens,—as mesmas que ella fazia,—de ceias, de pic-nics, de prazeres, que acabavam sempre ao amanhecer, porque os falsos sorrisos desmascarar-se-iam á luz da manhã, e, digamol-o tambem, foi um inferno de ciume.{23}
Elle tinha tamanha emulação de quem lhe dava a ella um broche, como de quem lhe dava simplesmente um bravo. Isto, meu amigo, acho eu desarrasoado; mas diga-me se não tenho rasão, visto que vive em terra onde ha theatros.
Ora o nosso heroe, que, para maior facilidade, chamaremos X, julgava-se perdidamente amado, e perdidamente namorado.
Duplo erro!
O que lhe sustentava essa rosada illusão eram as flores, as luzes, os crystaes, as ovações, as perolas e os sorrisos da Malibran, o publico, as ceias, os bailes, toda essa vida exteriormente seductora, apenas architectada sobre este pedaço de vidro, que no mundo se chama a gloria.
Mas—desapontamento horrivel!—o pedacinho de vidro quebrou, cessaram as scintillações prismaticas, e o castello encantado desabou.
Foi n'esse mesmo anno de 1830 que a Malibran atou com o celebre violinista Beriot as intimas relações que os tornaram inseparaveis.
Foi n'uma ceia que elle soube a fatal noticia por intencional chocarrice de um conviva.
Esteve para erguer-se e reptar Beriot, mas Beriot era um homem serio, e não o havia offendido.
Desistiu.
Amuou, corou, empallideceu, começou a tornar-se ridiculo.
Malibran, que fez reparo no despeito do seu admirador, levantou-se e apresentou-lhe a Lablanche, que estava á mesa.
Coruscou no cerebro de X a ideia da vingança. Começou{24} a galantear a Lablanche, a ponto de que em 1832 percorreram todos a Italia: Malibran, Lablanche, Beriot e X.
Já viu o meu amigo mais doida mocidade, mais desbaratada vida, e ao mesmo passo tamanha nudez d'alma ainda mesmo na epocha em que o corpo se involve na ampla capa de D. Juan?
Um beneficio recebeu porém d'esse divagar pelos prazeres ruidosos. Saturou-se do mundo. Felizmente, a sua vinda a Lisboa facilitou-lhe o unico meio de conhecer a unica coisa que desconhecia,—a familia. Entrou no lar pela porta do casamento quando pela janella sahia a extravagancia ainda desgrenhada das ceias e de charuto na bocca.
A proposito de charuto, meu amigo: de-me tempo de fumar um.{25}