Á ACADEMIA DE COIMBRA
Se no organismo das nações, como no organismo do homem, é indispensavel um coração que alimente a vida publica, deve o sangue portuguez jogar em systole e diastole, ahi, onde vós estaes, nos paços da Universidade.
Coimbra é o coração de Portugal.
Para ahi confluem as veias cavas cujo sangue negro da mocidade inculta ahi vae ser purificado no pulmão da eloquencia, e d'ahi é que nasce a aorta que revigora os vasos capillares d'este grande homem collectivo chamado Portugal.
E digo grande, porque sois vós que fazeis mover as valvulas do coração portuguez, vós, a intelligencia de quatrocentos homens, garantia de existencia futura, vós o futuro mesmo.[{98}]
Ahi aprendeis a deletrear o passado da vossa patria nos traços architectonicos do paço das Alcaçovas, na contemplação dos retratos dos illustres varões que revestem as paredes da sala dos actos grandes, e d'alli aprendeis a amar o futuro embalados nas santas aspirações que mutuaes no desenfadado conversar da via latina ou no suave bordejar do vosso Mondego.
Sois, vós todos os que passaes por esse grande chrysol, duas vezes portuguezes: portuguezes pelo passado, portuguezes pelo futuro.
E para ser nobre, e generoso, e digno, basta haver nascido portuguez.
Mas vós quereis mais, deixaes os vossos lares, a vossa familia e a vossa aldeia para vos irdes juramentar no exercito do futuro, cuja cazerna se levanta como reducto venerando a dominar a vossa Coimbra, a praça do militarismo intellectual, onde a intelligencia faz sentinella, e se aprende a manejar armas nos combates incruentos do espirito.
Tinheis a serenidade lareira das vossas arvores, e ides procurar a sombra menos consoladora dos claustros do vosso annoso baluarte. Tinheis a aldeia e os seus remanços, e quereis a lucta e os seus alvoroços. Tinheis a familia que é o ocio, e procuraes a patria que é a grande batalha, onde todos combatem.
Vós sois os defensores e a causa, os soldados e a bandeira.
Defensores, porque ahi estaes retemperando as armas do combate; a causa, porque sois a geração nova,[{99}] e a geração nova é o amanhã, e a patria depende do amanhã.
Soldados, porque tendes a vossa bandeira; bandeira, porque combateis por vós mesmos.
Hoje sois a academia; amanhã sereis a sociedade.
Hoje vestis a batina; amanhã cingireis a toga do magistrado, os talares do sacerdote, a opa do tribuno, a banda do militar, os arminhos do ministro.
Hoje sois a nau do futuro; amanhã sereis o leme.
Hoje ides na tolda cantando ao luar os poemas das vossas navegações amorosas; amanhã estudareis á luz da bitacola os contornos coloridos do atlas.
Hoje sois a almenara do acampamento; amanhã sereis o pharol da sociedade.
Hoje ouve-vos o Mondego; amanhã ouvir-vos-ha o mundo.
D'ahi sahireis apostolos e soldados: apostolos da religião do bello e do bem; soldados das tradições gloriosas da patria.
A vossa palavra fecundará o solo portuguez, e vossos filhos recolherão no celleiro nunca exhaurido das memorias gloriosas a colheita que vós lhes preparardes em cinco annos de suado e ininterrompido agricultar nos campos do pensamento.
A charrua é o instrumento da fecundação, e vós conduzireis a charrua, que é a mãe da abundancia universal.
De vós, que sois o futuro, provirão os destinos do[{100}] futuro, e assim vos perpetuareis nas idades porvindoiras da patria.
Vós sois a madrugada do vosso dia; e se a aurora repontar rosada e loira, o vosso dia será ameno e tranquillo.
Se agricultardes a terra, a terra fructificará.
É preciso portanto que derrubeis os velhos preconceitos, as antigas usanças da vossa vida academica, nocivas a vós e á patria.
O agricultor, que, ao alvorejar da manhã, sae do tugurio, d'enxada ao hombro, primeiro derruba as parietarias que lhe comem o pomar do que desbrava os matagaes que lhe ensombram a sementeira.
Sêde como o agricultor, e primeiro extirpae as tradições anachronicas da academia do que as tradições anachronicas da sociedade.
A troça é um velho habito da vida escholastica da Universidade.
Vós, que vos estaes preparando para defrontar os mais nublosos problemas do futuro, retrocedeis ao passado pelas chacotas truanescas da troça.
Troçar é ridicularisar.
Fundi a estatua da humanidade, não traceis a caricatura do homem.
No caloiro ha o embryão que póde ser flôr, a chrysalida que se volverá borboleta.
É uma recruta que vem procurar o vosso regimento.
Recebei-o, não o amedronteis.[{101}]
Aquella alma não está tão vasia que não tenha uma aspiração.
Não é tão cega, que não procure a vossa luz.
Não é tão inerte, que não queira lidar comvosco.
Dentro dos muros da vossa praça d'armas todos devem de ser soldados; a divisa é una, e uno o exercito; una a bandeira, e uno o triumpho.
Hoje sois irmãos; amanhã sereis homens.
Hoje viveis na communidade da vossa aspiração; amanhã vos apartareis para os vossos destinos.
A vossa Universidade é o tabernaculo onde desde o reinado d'el-rei Diniz se archiva a taboa da lei.
Ahi aprendeis vós a respeitar o direito, a observar o dever.
A troça é uma offensa ao direito primittivo; por tanto, vós, almas generosas e nobilissimas, extinguireis a velha tradição academica.
Conheceis, melhor que eu, o artigo 2383 do Codigo.
Breve sereis chamados a pedir nos tribunaes justa punição á violação dos direitos adquiridos. Breve tereis de sahir a propugnar pelos interesses materiaes externos dos vossos clientes.
Começae pois por defender os direitos primitivos de vós mesmos; por impôr respeito á personalidade physica e moral da vossa numerosa familia universitaria.
A troça abriu recentemente, no seio da academia, a sepultura de Antonio de Barros Coelho de Campos.
Não caveis sepulturas entre vós.[{102}]
A morte é a saudade, e vós sois a esperança.
A morte é o occaso e vós sois a aurora.
A morte é o passado e vós sois o porvir.
A morte é a quietação e o silencio; vós sois o movimento e a vida.
Sobre o vosso arraial não deve pairar a morte, porque as vossas lides são incruentas.
A ampulheta, que regula a vossa vida, deve medir o tempo; não deve descançar na eternidade.
Uma sepultura é uma coisa inutil entre vós.
Amaes os salgueiraes do Mondego, porque n'elles remurmura o ecco dos vossos cantares.
Amaes a onda limpida do vosso Pactolo, porque ella deslisa sobre a areia doirada do álveo.
A sepultura é muda a todas as interrogações.
O unico movimento que a sepultura permitte é o ondular das hervagens que a cobrem.
Onde havia uma intelligencia e um coração, ha agora um comoro e uma cruz.
A morte não admitte exforços: é o irreparavel.
Luctar com a morte é esgrimir com o silencio e com o pó.
A vossa rasão é lucidissima, para que queiraes luctar com o impossivel; o vosso animo valorosissimo para que tenteis bater-vos com phantasmas.
Vós deveis estar n'um polo, e a morte no outro.
Que a cinza esteja no cemiterio, e o fogo na Universidade.[{103}]
Que o chorão abrigue a urna, e o loureiro ensombre o livro.
Que descance o nada, e que o germen elabore.
Tudo é festa em derredor de vós, e a saudade é inimiga da festa.
O lucto é triste: reservae-o para a velhice.
E todavia vós estaes de lucto.
Ha um cadaver e não houve assassinio.
Ha victima e não houve algoz.
Houve apenas uma grande fatalidade.
Correu sangue, e não raivou odio.
Eram tudo irmãos, e morreu Abel sem haver Caim.
A logica dos acontecimentos é terrivel.
Foi ella, e só ella, que comprimiu a academia nos rostros d'este dilemma: Carcere e Sepultura.
Foi ella, e só ella, que abriu o carcere, a sepultura da vida, e lhe atirou para dentro um corpo vigoroso e uma alma innocente; que descerrou a sepultura, o carcere da eternidade e deixou cahir no fosso um corpo inanimado, viuvo d'uma alma sonhadora.
D'um lado o cemiterio; do outro a prisão.
Ambos frios, calados, tenebrosos, vastos, medonhos.
N'um o repouso dos vivos, n'outro o repouso dos mortos: em nenhum a liberdade.
E, sepultos na frialdade, no silencio e nas trevas,—dois corpos.
Sob a abobada um corpo que desejara a morte; sob a terra um corpo que tinha direito á vida.
Quem os matou a ambos?[{104}]
Foi a troça.
A troça é homicida.
Dispensae a intervenção da policia academica.
Onde ha intelligencia, é a intelligencia que governa.
Pouco importa abolir de direito a troça; vós a abolireis de facto.
Fazei dos vossos peitos muralha para oppôr á logica terrivel dos acontecimentos.
A vossa poderosa vontade esmigalhará para sempre o fatal dilemma; não é preciso intervir a alabarda do archeiro.
Eu quizera vêr abolida a troça não pela Universidade mas pela Academia.
E assim ha-de ser.
Sabereis vingar com a vossa provada grandeza o irmão que está no carcere e o irmão que está na sepultura.
A abolição da troça ficará para sempre vinculada á memoria por igual pungente e sublime da catastrophe de 3 de maio.
Triste, porque foi uma dupla desgraça.
Sublime, porque se as lagrimas da academia inteira nobilitaram a memoria do morto, o perdão do pae inconsolavel, antecipando-se á decisão piedosa da justiça, nobilitou a desgraça do vivo.
Quando o coração de pae não achou culpa, Themis não achará peso na balança.
O coração de pae, ferido por tão excruciante dôr, é o verdadeiro ideal da justiça.[{105}]
E a justiça do pae perdoou.
A justiça do tribunal perdoará tambem, esperemol-o.
Porque, vós o sabeis melhor que eu, a justiça é para a sociedade o que o pae é para a familia: o poder supremo.
A vara, que representa a auctoridade, é cajado e látego: o mesmo na familia que na sociedade.
E sendo esta dupla auctoridade uma personalidade moral, que póde symbolisar-se em Jano, o deus bifronte, não esperemos vêr umas faces illuminadas pela luz evangelica do perdão e outras avincadas pelas rugas sinistras da severidade.
E esta grandissima catastrophe ficará para sempre archivada na tradição de Coimbra, com justos applausos da historia, porque ella porá a descoberto a grandeza de muitas almas: da victima que morreu sem odio; do encarcerado que chora o arrependimento de culpa que não teve: do pae que perdoou; e de vós todos, que não consentireis mais que dentre vós saiam desgraçados para o carcere e cadaveres para o cemiterio.[{106}]