ANIMAES E VEGETAES
Outro dia ia eu passeando ao longo d'aquella extensa avenida do Prado do Repouso, quasi ao anoitecer, á hora em que os visitantes saem e o coveiro entra.
Fui andando, andando, com os vagos pensamentos que dá o estar entre tumulos, e mais d'uma vez me pareceu ouvir murmurar as grandes arvores que ladeiam a avenida pendidas aos sarcophagos.
E insensivelmente me occorreram os versos de Lamartine:
Tout parle. Et maintenant, homme, sais tu pourquoi
Tout parle? Ecoute bien. C'est que vents, ondes, flammes,
Arbres, roseaux, rochers, tout vit! Tout est plein d'ames.
E entrei de contemplar pensativamente as arvores a vêr se lhes encontrava coisa que fosse vestigio d'alma.[{90}] Murmurar, murmuravam ellas; ora se a gente falla porque pensa, claro está que os vegetaes teem sensibilidade e intelligencia.
Depois fui-me lembrando de que Lamartine havia descoberto outrosim que tudo n'este mundo tinha, alem de voz e alma, modo de vida:
... l'abime est un prêtre et l'ombre est un poête
e completei os meus pensamentos pela ideia de que,—assim como os vegetaes possuiam alguma coisa de gente humana, bem podia a gente humana ter alguma coisa de vegetal.
E fortifiquei-me na philosophia de Lamartine tentando averiguar que casta de planta ou arvore seriam algumas pessoas, das que a phantasia me ia configurando alli mesmo.
Ah! bem sei, disse-me eu, tu, uma rapariguinha corada, muito aceiadinha, com dois signaes pretos nas duas faces, tu, que podes ser mestra de meninas ou femme de comptoir nos bazares do Palacio, que nasceste mais para andar em cima d'um prato do que em cima dos tacões, tu, haverias nascido morango, sim, morango, d'aquelles de que se comem duas duzias, pela manhã, antes d'almoço.
E tu, ó rapariga que vendes os morangos, que nasceste na Magdalena, que tens a robustez das organisações retemperadas pelo mar e pelo acre salutar dos pinheiros,[{91}] tu, que tens perna de varina, que vens á cidade por baixo d'um sol abrasador, de modo que chegas á Ribeira cheirando a saude e a sol, tu serias fatalmente, irremessivelmente,—maçã camoeza.
E tu, ó morena de faces tostadas e pennugentas, de boas cores carregadas, cheia, refeita, tu, que não nasceste á beira do mar, mas nasceste á beira da serra, tu nascerias, se teus paes fossem vegetaes, tu nascerias pêcego.
E tu, ó camponeza quarentona, com as tuas enormes argolas a cahirem nos refegos do pescoço, tu, que vens á cidade em dias de romaria com os teus pesados grilhões d'ouro e as tuas grandes soletas de verniz e setim, tu, que és talvez mãe de dez ou doze raparigas-pêcegos, tu serias uma rotunda bolina, não das que os lavradores vendem, mas das que dão de presente ao administrador ou ao juiz de direito.
E tu—ó contraste!—tu, menina esverdeada, que tens escrophulas ou soffres do figado, tu que pareces sahir d'um banho de verdete e que tens uma mamã com o mau gosto de te dar vestido verde, e brincos de esmeralda, tu, pendida do teu camarote, para melhor ouvires o Santos ou a Emilia Adelaide, tu, n'essa mesma inclinação em que te vejo, tu haverias nascido, ó desventurosa menina—como isto é triste!—tu haverias nascido—vagem.
E tu, ó borracho encartado, que tens o unico modo de vida de passar os dias nos armazens, que trazes a cara colorida dum vermelho-roxo que dá o abuso do[{92}] vinho, tu, que és tão inutil para o mundo como o é a amora para o lavrador, tu apparecerias n'este mundo, se teu pae se chamasse Silva,—feito amora.
E tu, que nasceste fadado para seres caixeiro de teu pae, que poderias chegar a aperfeiçoar o artefacto com que elle se enriqueceu se não desses a escrever versos e a lêr poetas allemães, a pintar olheiras, a fazer-te triste, a andar com a cabeça pendida, a escrever o teu artigosinho para o jornal, tu, que andas curvado a procurar pelas ruas os pensamentos que os outros deixaram, tu, se não fosses o que és, meio litterato e meio negociante, tu serias o que devias ser—chorão.
E tu, que és alto, magro, escuro, que trazes bengalão e não bates em ninguem, que serves quando muito para fazer inflammar a gente, tu nascerias pinheiro, e darias pinhas, que são boas para atear o fogo.
E tu, ó calumniador insupportavel, que appareces entre os homens para aborrecel-os e para incommodal-os, tu, de quem todos fogem e que só serves para incommodar e aborrecer, tu, se nascesses n'um jardim, serias com toda a certeza—arruda.
E tu, ó feia de boas qualidades, mal feita de corpo e bem feita da alma, tu, que não tens graça propria e soccorres a desgraça alheia, tu nascerias marmello, fructo pouco sympathico, de que se faz a marmellada, que é realmente muito peitoral para os que soffrem.
E tu, ó parasita, que andas sempre encostado aos outros, que te vaes mettendo á viva força por entre os que teem um vintem de seu, que nos vaes perseguindo[{93}] á medida que te vamos enxotando, tu bem sabes o que serias, ó parietaria social, tu serias—hera.
E tu, que és anguloso, que trazes sempre o casaco a dançar nas protuberancias osseas e os joanetes a luctar com as botas, tu, que és uma pessima figura e talvez uma boa alma,—tu nascerias pêra de sete cotovellos.
E tu, ó languido Romeu, que estás sempre doente, que não pensas em ganhar a vida porque teu pae tem bom emprego, que precisas de muito resguardo, segundo diz a mamã, e que passas quasi todo o anno mettido no mar, a conselho do medico, tu és para a sociedade o que a alface é para a mesa,—uma coisa molle e transparente, que não fortalece o estomago e que se come por luxo—portanto tu serias—alface.
E tu, ó aborrecido grosseirão, que nos deixas sempre indigestos da tua presença, que só és supportavel quando estás ao pé de tua irmã, que são uns bons trinta annos, e de tua filha, que são uns bons vinte contos, tu serias pepino, sim, tu serias pepino, fructo que só se póde tolerar, em salada, com azeite e vinagre á mistura.
E tu, ó pequenina graciosa, que pareces contar eternamente vinte annos, que dás á gente vontade de te passear ao collo em vez de te passear pelo braço, que tens não obstante a elegancia da tua pequenez, tu serias forçosamente, pequenina e gentil como és,—tu serias—avellã.
E tu, ó conductor de mala-posta, queimado e musculoso como um athleta, tu, que atravessas serras e serras[{94}] ao pino do meio dia, e estás sempre apto para o serviço, tu és a uva da humanidade, porque a uva tambem vive entre fragas, e recebe côr do sol que apanha, e tem o prestimo que tu lhe costumas utilisar muitas vezes ao dia,—e por isso, ó conductor de mala-posta, tu, a seres vegetal, serias—uva!
E tu, ó menino que cursaste sete annos o lyceu, e incommodaste os professores com grandes empenhos e teus paes com grandes despezas, para ao cabo de sete annos de luctas e dispendios alcançares unicamente certidão de exame de francez, tu, ó inutilsinho, ó pedantesinho, que te dás a importancia da tua ignorancia, sabes como se chamaria teu pae, se fosse arvore, e como te chamarias tu, a seres filho de teu pae? Pois bem, eu t'o digo, para que o fiques sabendo, d'uma vez para sempre, entende bem,—d'uma vez para sempre,—elle chamar-se-ia Carvalho e tu serias—bugalho.
E tu, ó eterno pretendente, que vives aos pés dos ministros, que te dás bem na humidade das secretarias, que encaras como modo de vida o ser pretendente, que não serves senão para seres o que és,—que te parece que serias se a philosophia de Lamartine não fosse apenas um devaneio poetico? Tu serias tortulho.
E tu, ó agiota, ó fraca figura que tens a força do dinheiro, que és preciso para tudo, que tens o que dá luz ao homem e sabor á vida, que tens na tua algibeira o azeite com que se tempéra e allumia a existencia, tu nascerias—azeitona.
E tu, ó irascivel, ó atrevido, ó petulante, que pareces[{95}] arder e fazes arder a gente, que te dás a conhecer em toda a parte pela rudeza agreste de teus gestos e palavras, tu, a não seres o petulante, o atrevido, o irascivel que és,—tu serias malagueta.
E tu, ó espirito lucido e malicioso, que tens graça, que tens alegria, que dás colorido e relevo ás mais relamborias semsaborias, tu que és a animação e a vida, que desembotas o paladar e abres o apetite, tu nascerias—pimento.
E tu, ó alma angelica, ó pallida enfermeira do filho moribundo, ó nobre coração que enthesouras todas as riquezas n'esse cofre em que se torna o coração da mulher quando chega a ser mãe, ó santa, ó mãe, tu serias o que de mais delicado póde haver entre as flores,—tu serias—lyrio.
E tu, ó irmã carinhosa, formosa e boa, terna e gentil, mixto de innocencia e formosura, ó pura amiga, ó doce amparo, que te escondes do mundo se nós soffremos, e que lhe sorris se o sol da felicidade nos doira a vida, tu serias, porque o és,—sensitiva.
Ó insipida menina, que dizes não meu senhor, sim meu senhor, que não sabes sorrir, que não sabes fallar, que não sabes viver—tu serias—lima.
Mas teu primo, aquelle azougado rapaz, que é a alegria da tua casa, que está sempre a metter-te á bulha, e que parece ter sido dado á luz por tua tia para compensar o disparate que tua mãe fez gerando-te, teu primo, que deve ter um appellido similhante ao teu, teu primo seria—limão.[{96}]
E tu, ó filha do burguez, que não vaes ao theatro, porque teu pae só gostava da Degolação dos innocentes, e acha estes dramas modernos pataratas, tu, que não és gentil, mas que pezas cincoenta contos de reis, tu, que tens muito que comer em... dinheiro, tu, ó invejavel burgueza!—tu serias melancia.[{97}]