EMILIO CASTELAR
Sabeis o que é ir correndo mundo, com os olhos fitos n'uma esperança, vencendo todos os obstaculos, dormindo á sombra d'uma arvore á espera da aurora, que é o pharol dos que navegam no mar da vida, deixando-se bater dos temporaes que passam mugindo e alastrando a estrada de folhas e flores? Os viandantes apenas relanceiam um olhar de surpreza ou desdem ao peregrino que vae absorto no seu pensar, e logo desviam a vista a procurar horisonte, sem se importarem mais com a sombra que se afastou, d'olhos baixos, porque o horisonte que procura ainda está longe, porque o céo coberto de nuvens sinistras não côa ainda os fulgores iriados do sol...
A sombra que perpassou por vós, ó caminheiros da vida, levava uma ideia comsigo, um proposito, um desejo, uma esperança.[{80}]
Vós ides com a vossa ideia; elle vae com a sua. Vós procuraes um horisonte; elle procura outro. Vós quereis aproveitar o dia; elle quer esperar a alvorada. Ris-vos! Pois se o sol desencadea das alturas torrentes de luz, dizeis vós, se tudo é azul e oiro no céo, elaboração e abundancia na terra, como é que o peregrino vae a procurar a aurora que se illumina apenas de palidos diluculos, e não aquece o mundo, e não fecunda a gleba, e não doira as aguas? Toda a gente vos dará rasão, porque a humanidade costuma legislar para as circumstancias normaes da vida, para as temperas vulgares que seguem a rotina do vicio ou da virtude, para as abelhas que volitam em inalteravel rotação em derredor da grande colmea do mundo, e não vos obrigam a suppôr o caso extraordinario de desertar uma do enxame e ir procurar em jardins remotos os sucos com que ha-de encher de mel o seu favo. Ah! não riaes. É que o espirito d'elle não foi vasado nos moldes communs do vosso; é que a sua alma não se póde medir pela bitola que põe limites ao vulgar dos homens; é que o peregrino que passou tem o seu ideial n'umas alturas que só a aguia com a sua vista audaz e penetrante logrará devassar. Ride pois.
Chamae-lhe devaneador, utopista, poeta, visionario... Notae porém que nobreza a sua! Vós não vos contentaes com o vosso riso banal, e chegaes ao insulto; elle vae com a sua ideia e com o seu silencio, á procura do seu sol. Vós transigis com todos os accidentes da jornada para vos dardes repouso e conforto; elle não[{81}] entra ás pousadas, porque lá dentro ha rumor de vozes, e cada um dos convivas ha de ter uma opinião que póde não ser a sua. Senta-se pois á sombra de uma arvore, por entre cujas frondes descem as fitas do luar ou as ondulações do sol, porque a arvore póde dar sombra a todos, e porque sobranceiro á arvore fica o céo que é o abrigo universal... Alli tem as suas visões, as suas luctas, alli se retemperam as suas esperanças, e ainda o horisonte tão vasto e tão limpido, sem um contorno que denuncie a architectura dos castellos sonhados na phantasia!
Não importa. Bastará uma hora de descanco physico para reanimal-o. Depois, lá irá pela estrada deserta, rompendo as trevas, expondo a fronte ao açoite dos vendavaes, á procura da sua luz. É o peregrinar continuo do sonhador que não encontra, dizeis vós, a realidade, porque o seu ideal não terá realidade. Ah! vós sabeis lêr no futuro, escrutar os segredos do amanhã, sondar o destino que é intangivel? E elle, o peregrino, tambem se podia rir de vós, porque elle bem sabe que muitas vezes na nuvem rosada do occaso referve latente a tempestade da noite.
Não se ri, não vos insulta: caminha. Mas sabei, porém, que o sonhador que vós chasqueaes é o audaz Colombo que vae á procura d'um mundo novo; o velho Noé que anda recolhendo madeiras para construir a arca em que se ha de salvar no diluvio sonhado; o inquebrantavel Demosthenes que erra de montanha em montanha para afinar pela orchestra das tempestades a[{82}] revolta eloquencia com que ha de oppôr uma enorme barreira ás hostes conquistadoras de Philippe. Todos tres pareciam devaneadores, e todavia a visão de Colombo abrange um hemispherio, e a arca de Noé depõe nas faldas do Arará a familia que ha de ser humanidade, e Demosthenes com um só decreto lucta contra os exercitos de Philippe.
Se o visseis, tambem vos ririeis do louco que andava acordando os echos dos fragoedos para domar as rebeldias da palavra, que devia de ser a primeira espada hellenica. E todavia o devaneador solitario das montanhas mereceu aos athenienses seus irmãos este epitaphio: «Ó Demosthenes, se a tua força fosse igual á tua eloquencia, jámais o Marte da Macedonia haveria submettido a Grecia!»
Demosthenes dos tempos modernos, Emilio Castelar, o sonhador da republica hespanhola, errava desde os primeiros annos na indefessa peregrinação do seu ideial. Quando mais brilhavam de clarões festivos os paços de Castella, e o throno de S. Fernando se recamava de custosos brocados, ia elle mundo alem, de capital em capital, ouvindo os homens e estudando os acontecimentos para tirar horoscopos com a credulidade do sonhador que só vive do seu phantasiar.
Quem no caminho o encontrava, ficava-se dizendo aos companheiros: Visionario! E os companheiros repetiam: Visionario!
E elle caminhava, caminhava, medindo-se com a voz da tempestade, como Demosthenes, e expondo a[{83}] ampla fronte ao turbilhão que arrastava na passagem o sceptro de Napoleão III, a corôa d'Izabel, o manto de Maximiliano, folhas soltas da arvore da realeza...
Corria o mundo, visitava Paris, estudava Roma, e a peregrinação não tinha ainda acabado, e havia tantos annos que partira! D'onde partira elle, o visionario? Da praia do seu pensamento, das regiões da liberdade, da sancta sanctorum onde guardava este evangelho da sua religião politica:
«A liberdade, a igualdade, prégadas no Golgotha, selladas com o sangue de Christo, verdades religiosas no Evangelho, vieram a ser na austera Suissa, n'esses Estados Unidos que se sacrificam pelo escravo, grandes verdades sociaes. O mundo moderno, a civilisação moderna, não farão mais que estender essas verdades e applical-as á vida. São como a lei definitiva da historia. Passarão ás gerações arrastadas pela corrente dos seculos, e não darão de si ideal superior ao ideal da liberdade.»[2]
Para onde ia elle, o sonhador das Hespanhas? Ia para o futuro que devia chegar fatalmente, para a realisação do seu ideal, para as paragens sonhadas que o seu espirito procurava. Acabava de vibrar o seu grito de liberdade no Atheneu de Madrid e ia para a Republica de Hespanha. E, nem por affrontado do caminho, levava o coração cheio d'odio contra os reis. Amava os principes, quando fossem magnanimos; o que elle[{84}] não queria era a corôa, o throno e o sceptro, porque a corôa averga a fronte, porque o throno eleva o homem e o homem é uno, e porque o sceptro fatiga o braço que o sustenta. Queria liberdade, e até para os principes a queria. Por isso, quando a generosa alma do filho de Victor Manoel, espavorida dos horrores da grandeza, quiz sacudir de si os arminhos da magestade, e aspirou á liberdade do seu principado, do seu lar, da sua patria, Emilio Castelar, redigindo a resposta á mensagem d'el-rei Amadeu, generosa como a renuncia do monarcha, fez votos porque a liberdade, que o principe deixára nos seus jardins de Italia, voltasse a sorrir-lhe de novo, deposta a corôa que comprime a fronte...
Quando elle viu descer do throno o ultimo rei d'Hespanha, não parou para dizer—Emfim!—mas antes o ficou abençoando, porque comprehendeu a alma do principe, que não tivera uma palavra d'azedume para os que o elegeram e o desampararam, e porque o julgava tão feliz como elle proprio, porque para ambos havia terminado a trabalhosa peregrinação, a de um pelas regiões do poder, a do outro pelos dominios da phantasia.
E a visão convertera-se em realidade, e a Hespanha, o paiz das tradições monarchicas, patria de reis que chegariam para occupar muitos solios, a Hespanha, dizia eu, deixava vazio o unico throno que tinha, e sem dar tempo a que resfolegasse a ambição dos pretendentes á realeza, arvorava a bandeira da republica sem havêr derramado uma gota de sangue nos despojos da magestade...[{85}]
E os que tinham gritado: Visionario! ficaram olhando estupefactos para o horisonte que no céo da peninsula apparecia refulgente dos clarões matinaes da ideia nova.
E o peregrino despia a esclavina do caminho e lançava ao povo hespanhol, da tribuna do poder, construida pelo povo, as primeiras palavras do crédo republicano, porque, como disse Fenelon d'um periodo analogo da historia grega, «tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra».
Se a eloquencia é chamada a representar um papel activo nos destinos d'um paiz, se ella tem necessidade de ser uma instituição do estado e um meio de governo, é de certo quando se desencadeam todas as forças vivas d'uma raça que readquire a consciencia da sua individualidade e do seu poder. Então á torrente infrene da vontade popular, da seiva que rebenta em cachões do coração do povo, é preciso oppôr a torrente da eloquencia reflectida, a luz d'um grande espirito, que desempenhe a missão do sol, e aqueça a seiva, para que possa fructificar e revigorar todas as sinuosidades do organismo nacional.
A Grecia, no periodo fecundo que seguiu o grande movimento das guerras médicas, quando a alma popular respirava desopprimida do jugo de Pisistrato, teve Pericles que appareceu ao mundo como a mais completa encarnação da força nova, dirigindo com a palavra, durante vinte annos, os destinos do paiz. «Pericles, fallando, diz um historiador francez, tinha a força[{86}] e a serenidade do Jupiter homerico, tal como o cinzel de Phidias acabava de creal-o. O que dominava no orador era um sentimento profundo da gloria de Athenas e do papel que ella lhe havia confiado.»
A Hespanha d'este que póde ser periodo fecundo, á similhança da Grecia, tem tambem o seu Pericles, digno como elle do cognome de Olympiano, cuja palavra alternadamente poderá servir de barreira e de leme, de sol e de tufão, de correcção e de guia.
O mundo antigo costumava vencer com a espada; o mundo moderno deve convencer com a palavra. Convencer é vencer duas vezes: vencer-se a si e vencer aos outros.
Esta dupla missão pertence ao nosso seculo; seja pois a palavra que derrube, a palavra que construa, a palavra que persuada, que arraste, que conquiste. E a Hespanha, no por emquanto breve periodo da sua fórma republicana, já por mais d'uma vez tem carecido da força e da serenidade do Jupiter homerico, já comprimindo a impaciencia popular n'este dilemma pungente: Ou rei ou dictador, já serenando as facciosas tempestades parlamentares, como na sessão do dia 14 de março, com o seu verbo incisivo, pensado e ardente.
Elle tem, como Pericles, o sentimento profundo da gloria d'Hespanha, e é sobre as aguas da democracia que pretende estender a sua vara de Moysés apontando a liberdade nascente.
Trabalhará, fallará, persuadirá. O que elle pede é a liberdade collectiva, a felicidade da sua patria, mas se o[{87}] destino lhe fôr adverso, contentar-se-ha com a liberdade individual, volverá á modesta posição de escriptor, aos seus jornaes americanos, á sua velha propaganda até que resurja de novo a aurora, porque Emilio Castelar morrerá republicano, sorrindo á liberdade.[{88}]