AS ITALIANAS
A esta hora fogem as que estiveram entre nós. Deixem-me porém fazer uma observação.
As italianas de que vou fallar não são as mulheres de Italia,—são as mulheres da Opera. Não nasceram para viver,—nasceram para cantar. Por isso andam cantando de paiz em paiz, e chegam no inverno, quando a natureza emudece, partindo na primavera, quando as andorinhas regressam... São ricas, opulentas, e todavia o mais que guardam na sua mala são os seus anneis de cabello, as suas fitas e as suas rendas, coisas tão leves que o vento póde agital-as. O thesouro d'ellas está na garganta; lá é que guardam as notas, que trocam em qualquer paiz, sem desconto, antes com o premio das palmas e dos applausos. Cantando atravessam o mundo, as tempestades sociaes, os cataclismos da humanidade. Cabe-lhes perfeitamente a anecdota que se[{72}] conta do guitarrista Phillis, pae da celebre cantora do mesmo nome. Uma vez, durante o Terror, um magistrado chamou-o e perguntou-lhe:
—Como se chama?
—Phillis.
—Que faz?
—Toco guitarra.
—Que fazia no tempo do tyranno?
—Tocava guitarra.
—Que vae fazer pela republica?
—Tocar guitarra.
Ellas tambem atravessam todos os regimens, a republica, a monarchia, a propria tyrannia, cantando, sempre cantando, sem que o imperador Guilherme recuse ouvil-as por haverem cantado na presença de Grant ou de Thiers. Constituem ellas mesmas a unica realeza perduravel, porque lá está a Sass em Madrid sendo rainha, victoriada, festejada, acclamada, e todavia a Hespanha acaba de emergir a fronte do baptismo republicano. O certo é que a nobreza lhes é instinctiva, que se habituam a reinar, a viver baloiçadas nos seus briskas, deslisando sobre tapetes, roçagando sedas, colhendo flores e joias, revendo-se em espelhos, e admirando-se tanto de receber o bouquet d'um burguez como um bracelete que lhes envia um monarcha. Uma rainha parece haver alienado a delicada sensibilidade dos seus nervos quando atravessa as multidões que se precipitam sobre o coche saudando-a doidamente; a cantora domina com um sorriso a tempestade dos applausos, sem[{73}] chorar de commoção, sem tremer d'alegria, sem se desvairar d'orgulho. Rasão de sobra tinha madame de Pompadour quando disse depois de ouvir cantar Sophia Arnauld:
—D'aqui havia com que fazer-se uma princeza.
Parece que é de todas ellas a legenda das pastoras que ao depois foram czarinas. Nascera da obscuridade, o destino atira-as aos braços da gloria,—é por via de regra um empresario que as ouve cantar uma tonadilha e as aggremia logo á sua troupe—chegam a ser muito ricas, como se houvessem encontrado thesouros encantados, e já fiam tanto da sorte, que esperam encontrar collares e braceletes por toda a parte sem se darem o incommodo de procural-os.
Ainda outro dia, na Russia, na noite em que a Nilson se despedia cantando o Fausto, lhe fizeram a surpreza de encher de preciosos brindes o cofre que devia abrir ao cantar a aria das joias, e ella, sem se admirar, sem se agitar de commoção, foi examinando-as e cantando, cantando sempre, até chegar a repetir toda a aria, porque uma cantora de verdadeiro talento bem sabe que a sua voz é a vara de condão que faz surgir os thesouros. No quarto acto, depois da scena da igreja, deram-lhe um annel todo liso, do qual pendia uma grossa lagrima, formada d'um só diamante. Felizes mulheres, para as quaes a saudade do publico se desentranha em lagrimas de... diamantes! Quando acabou o espectaculo, tiraram-n'a nos braços para a carruagem, que rodou vagarosamente, escoltada por gentis cavalleiros, á luz[{74}] de fachos, cujos reflexos vivissimos permittiam vêr a diva. Ás vezes, como as pastoras da legenda, chegam a ser esposadas por titulares, como a Patti, hoje marqueza, e ainda algumas vezes chegam a enamorar os principes. Frederico II quiz a todo o custo reter na Prussia a Mara, e, quando ella tentou fugir das algemas da admiração real, expediu emissarios para lhe tomarem o passo e reconduzil-a á capital.
A poesia desde muito tempo que reconhece a realeza das italianas. Depois que no Porto se introduziu o costume de espalhar versos no theatro lyrico, em todos elles encontro eu, revolvendo as collecções, alguma coisa que denuncia vassallagem. Ha quarenta e oito annos dizia um poeta anonymo á Varesi:
Harmonia, ó Deidade encantadora,
Da naturesa magico thesouro,
Legisla aos corações teu sceptro d'ouro,
Incenso universal teu throno escora.
Ha vinte e nove annos outro poeta anonymo cantava á Rossi Caccia:
Rainha das canções! ó nobre filha
Do portentoso Lacio, onde inda ovante,
Em mil padrões de fabrica pujante,
A gloria dos Heroes avulta e brilha.
Cento e onze annos vão decorridos desde que o governador general João d'Almada e Mello inaugurou o theatro lyrico do Corpo da Guarda fazendo ouvir aos[{75}] seus governados a primeira italiana, a Giuntini, na opera Trascurato. Desde então para cá quasi todas ellas têm atravessado o theatro do Porto calcando tapetes de flores, rompendo florestas de applausos, colhendo nos loureiraes da scena as corôas que para ellas pendem, e sentindo esvoaçar sobre a fronte o bando alado dos versos, muitas vezes com azas de setim, como aconteceu á Laura Geordano e á Luisa Ponti.
Depois, porque ellas são como as aves migrantes—deixam após si o rastro brilhante do seu talento, e vão levar a Italia aos gelos da Russia, aos nevoeiros da Inglaterra ou aos lagos da Suissa. Vão, algumas vezes desprotegidas, sós com a sua Italia, com a recordação dos explendidos horisontes da patria, das gondolas do seu Adriatico, da sua lingua pittoresca e harmoniosa, que não podem fallar em todo o longo caminho. Vão passando de festa em festa, de theatro em theatro, e ás vezes, depois do espectaculo, algumas d'ellas se sentirão tristes na sua pavorosa solidão, ainda ao pé das flores que lhes atiraram, e das joias que lhes offereceram. É por isso talvez que muitas casam com artistas, para terem um coração que as defenda e um braço que as proteja. Procuram talvez mais um coração que as defenda do que um braço que as proteja. A Schmoehling casou com o violoncellista Mara, cujas faces eram hediondas de variola, perdeu o appellido de seu pae para acceitar o appellido d'este homem, ella, a formosa captiva de Frederico II, só porque o Mara era musico e[{76}] podia entender-lhe as tristezas sem causa, os desconfortos do triumpho...
Uma noite, ao entrar no camarim para poisar os seus bouquets e as suas corôas, recebe uma d'ellas um telegramma de Napoles, porque os talentos mais doces são talvez os de Napoles. Até já um escriptor notou que em Italia parece haver um dialecto para cada classe de gente. O de Veneza convém á sensualidade das cortezãs, o de Florença á elegante nobreza dos grandes senhores, o da Sicilia ás graças simples e rusticas dos pastores de Teocrito, o de Roma á bonhomia maliciosa dos burguezes, mas o dialecto de Napoles é o dos artistas, do povo-poeta, da população que nasce a cantar e que vive a cantar sem saber lêr nem escrever. O que era o pae da italiana? Por ventura um pescador ou então um canta-storie, um canta-historias, a quem os lazzaroni faziam circulo, sempre que elle apparecia na praça.
A diva tem ainda de cantar o final da opera, mas deseja mais partir para Napoles, porque o telegramma lhe diz que o pae está moribundo, do que subir ao proscenio. Não ha transigir com o dever. Vae cantar, a sua voz tem lagrimas, é admiravel, é sublime, e só o empresario sabe talvez que ella está cantando e sentindo dilacerar-se o coração fibra a fibra. E que se está lembrando de que na véspera da festa da Piedigrotta, reunidos na gruta de Pausilippe, o pae cantara para o povo a Finestra bassa, no seu pittoresco dialecto:
Finestra bassa e padrona crudele,
Quanti sospiri m'hai falto gettare,[{77}]
e de que ella mesma cantára com a sua voz infantil e vibrante aquella formosa aria napolitana Te voglio ben'assage, e de que os guaglioni a applaudiram, os guaglioni que em Paris, com o nome de gamins, lhe venderam algumas vezes jornaes á sahida do theatro.
Quem lhe dera a ella encontrar ainda vivo o pae, vel-o com a sua jaqueta azul e o seu collete vermelho, como na noite da Piedigrota, mas o publico chama-a, e acclama-a, e ella sente deslisar-lhe nas faces a chuva das petalas, algumas das quaes rolam humedecidas com uma lagrima! Finalmente a ovação extinguiu-se, é livre, e sae do theatro sosinha, cantando e suspirando ao mesmo tempo:
Finestra bassa e...
Quer chegar a tempo de receber a benção paterna, e vae chorando, chorando, porque se lembra de que se o pae a chamou para lhe assistir ao passamento, ella não terá por quem chamar no leito da morte...
Pois a gloria? Oh! a gloria é só para a vida, é a illusão, a embriaguez, o delirio, e a morte é a realidade, a pedra do sepulchro, o silencio do cemiterio, e o mysterio da eternidade...
A gloria deixou-a ella com as flores que ficaram no camarim, sobre as corôas de louros que dentro em pouco estarão ressequidas...[{78}]
E todavia, á hora em que ella vae chorando sosinha pelo caminho, correm o mundo as italianas, e toda a gente diz—Chegaram!—Viu-as?—Eil-as! e ella vae já muito perto de Napoles, e só com vêr o céo da sua terra teve coragem para enxugar as lagrimas e soluçar:
Finestra bassa e padrona...[{79}]