OS DOMINGOS
No Parocho, romance religioso de Roselly de Lorgues, ha um periodo que diz: «Newton, extasiado perante as maravilhas da creação, observou que de todos os dias do anno é o domingo aquelle em que os vapores da atmosphera nos encobrem menos o astro brilhante.»
Assim devia ser.
O domingo é o dia do repouso, da tranquillidade, do lar. «Ha sueto geral—diz ainda Roselly de Lorgue;—está suspensa a lei do trabalho.»
É portanto este o dia em que se lê, em que o povo procura o jornal, em vez do jornal ir procurar o povo, como acontece durante a semana. O jantar do artista tem ao domingo mais um prato e mais um copo. Urge pois que o homem de trabalho procure tornar-se digno da modesta opulencia da sua mesa. D'aqui procede a[{64}] ancia de se nobilitar, de se illustrar; de lêr ao domingo. Viveu na fabrica toda a semana; vive ao domingo no lar.
Ora a leitura é um laço que prende á familia, um prazer sereno que requer silencio. O operario senta-se a uma restea de sol, com o seu jornal debaixo do braço, com o seu cigarro na mão. O tabaco—embora o neguem pessimistas—torna a percepção mais clara. Fuma e lê. Quer encontrar o seu jornal variado, alegre, leve e crystallino. Entende. Um cerebro inculto é como um estomago fraco. Demanda alimento ao mesmo passo substancial e de facil digestão.
Pelo jornal se identifica o artista com a sociedade. Sabe o que se passa nas altas regiões de que elle vive esquecido toda a semana.
É então que trava conhecimento com os actos do governo. Ás vezes deprehende da leitura que tem de pagar mais. Fica triste. Tem filhos, e recebe pequeno salario. Mas desce com a vista ao folhetim, e o folhetim serena-o por isso mesmo que lhe não falla de impostos.
Lê com curiosidade, ás vezes sorri, e levanta-se para ir comer o seu guisado e beber o seu copito, supplementos domingueiros do jantar, mais lembrado do folhetim que do imposto.
Senta-se á meza, e como é força que o folhetim d'um jornal popular seja candido na ideia e singelo na fórma, o artista facilmente reproduz o folhetim á mulher que não sabe lêr.
Não adquiriu sciencia, nem elle estava intellectualmente preparado para recebel-a; o que adquiriu, e já[{65}] não é pouco, foi amor á leitura,—á leitura, este elemento de moralidade, quando prudentemente adoptado, porque preservera da orgia e affasta da ruina.
Estas foram as rasões que me levaram a escolher o domingo para o folhetim semanal,—conversação facil, que eu procurarei guiar sempre por caminho desatravancado d'espinhaes, sejam quaes forem os cataclismos da sociedade, e por mais brutalmente que escouceiem os onagros nas selvas visinhas.
É justo dar ao povo o que nasceu do povo,—o folhetim.
Preciso porém dizer-lhes que eu faço distincção entre o antigo folhetim e o moderno folhetim. Um é aristocrata; o outro democrata. O primeiro saiu dos palacios d'Athenas; o segundo dos theatros, dos botiquins de Paris.
O primeiro rojou-se aos pés de Aspasia e Lais quando os gregos as mandavam entrar ao dessert na sala do banquete, justamente ao contrario dos inglezes, que é ao dessert que expulsam as mulheres. O segundo saiu da caixa de rapé do abbade Geoffroy, uma noite, na Opera, quando elle a abria para offerecer uma pitada a mr. Bertin, que o tinha acompanhado. O primeiro recebeu ao nascer o baptismo dos vinhos de Corintho, de Samos, e de Chios. O segundo mergulhou na onda nacarada do Bordeus ou do Champagne.
No seu Grande diccionario de cosinha, recentemente publicado, escreveu Dumas pae: «Foi n'estes elegantes jantares (de Athenas) que se formou a conversação grega,[{66}] conversação ao depois copiada por todos os povos, e da qual a nossa era, asseguro-o, antes da introducção do cigarro, uma das mais vividas e mais rapidas copias. D'aqui a expressão sal attico.»
Assim foi que nasceu o folhetim aristocrata, passando de bocca em bocca, borboleteando entre os convidados, que eram ordinariamente sete, em honra de Pallas, rematado provavelmente com um beijo de Phryné ou com um sorriso d'Aspasia. Depois passou da Grecia para Roma. Os banquetes d'Augusto, conversados por Virgilio, Horacio e Pollion, deviam de ser folhetins delicadamente cinzelados como os cyathos imperiaes. Todavia o grande espirito de Augusto amava a publicidade, e permittia que circulassem em Roma as anecdotas dos seus opiparos folhetins. Conta-se, por exemplo, que certo dia, em que jantava com Virgilio e Horacio, se desculpara d'umas sombras de tristeza dizendo que estava entre os suspiros e as lagrimas, porque um d'estes escriptores soffria dos pulmões e o outro tinha uma fistula lacrimal.
No tempo d'Augusto já o povo romano conhecia a publicidade. Julio Cesar foi o verdadeiro creador do jornal. Nos primeiros tempos de Roma os pontifices escreviam dia a dia os acontecimentos do céo e da terra. Julio Cesar arrancou o privilegio aos pontifices fazendo redigir e publicar os actos quotidianos do senado e do povo. O que, segundo uma bonita phrase de Julio Janin, foi passar duas vezes o Rubicon, desvelando d'uma vez para sempre os tenebrosos mysterios do senado romano.[{67}]
Tão inveterado estava porém entre os patricios o habito do folhetim á mesa, tanto o banquete era mais uma recreação para o espirito que um prazer para o estomago, que Heliogabalo reunia á mesa anões, zarolhos e corcundas para os vêr da galeria e os ouvir conversar durante o jantar. Era um folhetim burlesco, como ás vezes por ahi apparecem alguns, o que Heliogabalo queria.
Fallemos agora do folhetim democrata, nado e creado em Pariz, teudo e manteudo pelo abbade Geoffroy. Nominalmente o folhetim data de 1789, do nascimento do jornal politico em França. Chamava-se assim o espaço em que o jornalista escrevia, na parte inferior da pagina, a resenha dos trabalhos que a Assemblêa deixára indicados para o dia seguinte. Mas o folhetim só começou a existir de facto no fim do seculo XVIII. Um homem de letras havia a esse tempo, ao mesmo passo escriptor e clerigo, o abbade Geoffroy, que, entediado das noitadas do caffé Procope, voluntariamente se desterrou de Pariz. Um certo dia, porém, mr. Bertin, que comprara aos irmãos Baudonim a propriedade do Journal des Debats, lembrou-se de ir procurar o espirituoso abbade ao seu remoto escondrijo. Foi e arrastou-o.
—Que quer de mim, Bertin? perguntou-lhe o abbade.
—Que venha jantar commigo a Pariz, que vá á noite commigo á Opera, e que ámanhã me escreva um artigo para o primeiro numero do Journal des Debats.
O abbade lembrou-se dos seus tempos, e foi.
As palmas, os bravos, as acclamações espiritaram-n'o.[{68}] Ao outro dia fez a critica da opera na parte interior de duas columnas, e a terceira encheu-a Bertin com anunncios de theatro.
O artigo, occupando o logar do folhetim, chamou-se folhetim. O povo leu e gostou. Correu a comprar o jornal, chegou a disputal-o, o successo foi ruidoso, e Geoffroy não só fez a sua celebridade senão que tambem tornou celebre o Journal des Debats.
Geoffroy d'alli em deante applaudia, acclamava, pateava e assobiava no folhetim. O povo seguia-o, acompanhava-o, o povo pensava com Geoffroy e Geoffroy pensava pelo povo. Foi o povo que lhe deu nome, a elle e ao folhetim, e era para o povo que Geoffroy escrevia. Não havia trova popular, caricatura, retrato e lanterna magica—até lanterna magica!—que não reproduzisse o abbade folhetinista. Quando elle morreu, annunciou-se nos collegios a sua morte depois do Benedicite. Geoffroy festejado! Geoffroy applaudido! Geoffroy... cantado!
O successor de Geoffroy no folhetim foi Charles Nodier. Não o excedeu mas não o deshonrou.
Depois de Nodier vieram Etienne Bêquet, Duvicquet, e outros, sempre acclamados e sempre attendidos pelo povo, até que chegámos á revolução litteraria de 1830. Então appareceram Sainte-Beuve, Dumas, Janin e Gautier. O dia que o movimento litterario do romantismo designou ao folhetim foi a segunda feira. D'ahi o chamar-se ao folhetim causerie du lundi, e aos folhetinistas les rois du lundi. Os reis da segunda-feira! Reis,[{69}] porque? Porque empunhavam elles o sceptro da opinião? Porque eram os soberanos absolutos da critica?
Nada d'isto. Porque cada folhetinista da segunda-feira tinha sua côrte d'admiradores, seus salamaleques, e seus subditos. Alexandre Dumas chama a Sainte-Beuve um poeta; a Janin um phantasista, e a Gautier um esmaltador. «Sainte-Beuve,—continua a escrever Dumas pae,—não se quer indispor com ninguem.» «Janin é um escravo do seu estylo.» «Gautier o Benvenuto Cellini do periodo».
Era-lhes o folhetim vitrine onde estadeavam as pompas da sua linguagem finamente rendilhada. Os aulicos da sua côrte eram as mulheres da Opera, os academicos e os virtuoses. Janin pertence actualmente ao numero dos quarenta da academia franceza. Como havia o povo de entender um escriptor que traduzia Horacio e dispunha de recursos para chegar a ser academico?
O folhetim, aristocratisado, era para os erudictos, para as salas, e para os gabinetes. Vestia casaca, lenço branco, e trazia flôr na boutonnière. O povo, que comprehendia Geoffroy, não entendia Janin.
Mas como o jornal depende essencialmente do povo, começou o jornalismo a folhetinisar o noticiario, a fazer espirito, a contar anecdotas, de sorte que o povo comprava o jornal, não por causa do folhetim, como no tempo de Geoffroy, mas por causa do noticiario.
Isto foi, e isto é ainda em França.
Ora eu que não posso ser academico, que não cinzelo a phrase, que não disponho de recursos para ser[{70}] Janin e Gautier, escreverei n'um jornal do povo unicamente para o povo. O folhetim veiu do povo; é preciso portanto que elle vá para o povo, quando o povo o póde receber,—ao domingo. Que vá, que lhe falle de assumptos que elle conhece, que não seja nubloso na phrase, impuro na ideia, que não tenha subtilezas, mas que se faça lêr, que se faça applaudir se poder, e que uma vez por outra nobilite a caixa de rapé do abbade Geoffroy.[{71}]