AS COLHEITAS

Eia, ceifeiros! Começam a arroxear os pampanos e a loirejar as messes...

Vá de limpar a eira, e preparar a adega; de varrer o lagar e ventilar o celeiro.

Ri no campo a conta amarella do milho, na vide o bago roxo da uva.

Foi Deus que da primavera ao outomno os preparou no mysterioso laboratorio da terra.

A ambos deu côr, e fórma, e prestimo: no interior d'uma pôz o cereal que ha-de ser pão; no interior do outro a gota que ha-de ser vinho.

E d'estas pequenas coisas vae sair a fartura, a abundancia, a alegria, a festa, a riqueza!

Tão contingente é a felicidade do homem, que um sopro de vento póde prostrar os milheiraes, e um insecto, tão pequeno como a uva, inutilisar o cacho...[{154}]

Mas se Deus vos protegeu o campo e o vinhedo, se loirejam n'um os cabellos de Daphne, e no outro vergam os sarmentos com os pêsos côr da amethista, vá de azafamar para a colheita, de afinar a viola do descante, de phantasiar as alegrias da esfolhada, de escolher corpo gentil onde caia o abraço do milho-rei.

Quem não conhece agora a aldeia, quando

Abre a romã, mostrando a rubicunda
Côr com que tu, rubi, teu preço perdes;

quando

Entre os braços do ulmeiro está a jucunda
Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;

quando mais se amacia o velludo do

...pomo, que da patria Persa veio,
Melhor tornado no terreno alheio

e

Mil arvores estão ao céo subindo
Com pomos odoriferos e bellos

e

... a tapeçaria bella e fina
Com que se cobre o rustico terreno,
Faz ser a de Acheménia menos dina,
Mas o sombrio valle mais ameno!

É agora que desce dos montes o pregão de festa, e que fogem da cidade para as sombras do bosque, como aves a procurar abrigo, as almas entediadas da vida ruidosa das cidades.

Borboletas, cuja vida irá queimar-se na chamma fatal, querem povoar os campos, cujos fulgores illuminam[{155}] mas não matam, porque descem do céo, e ou são do sol ou do luar.

Á tarde, desencalmado o ar, vão os ranchos festivos ribeira abaixo, pela relvosa alea ladeada de arvores que vergam ao pezo dos pomos.

Vão charlando os moços, rindos os velhos, doidejando as crianças.

Haverá por ventura no enxame quem leve seu livro para meditação?

Qual será elle?

Livro puro e são, como as aguas, como o ar, como tudo alli.

Manon Lescaut e Margarida Gauthier não entram ao santuario d'aquellas sombras, porque as flores silvestres dos vallados lhes diriam:

—Aqui não ha camelias, peccadoras. Os vossos ramos banharam-se no champagne das ceias, e crestaram-se; nós florimos banhadas no orvalho da manhã, e perpetuamo-nos. Somos pequenas e singelas. Enchemos apenas o nosso canteirinho rustico; vós encheis o mundo com a cauda roçagante dos vossos ricos vestidos. Olhae bem e procurae camelias... Não as ha. Eu sou a madre-silva, aquella é a violeta branca, aquell'outra é o malmequer. Riquezas para a pastora, que vive para colher a laranjeira! É a sua ultima flor. Não lh'a venhaes empestar com as vossas camelias, que trazem veneno como os vossos labios.

Werther tambem lá não entra, porque lhe diz o[{156}] camponez ancião, sentado á porta da cabana com o neto nos joelhos:

—Elá, poltrão! Os nossos lares são tranquillos e sagrados,—não se invadem. Eu sei que esta criança é filha de meu filho, e por isso a amo. Não conhecemos cá o desespero do amor illicito que leva á morte. Aqui vive cada um o tempo das arvores que plantou. Por isso eu tenho estes cabellos brancos, e é porque me não aborrece a vida, que os vês, ainda confundidos com os cabellos loiros d'esta criança.

O santo reitor, que serviu porventura de modelo ao evangelico personagem do primeiro livro de Julio Diniz, encontra no caminho a sombra de Voltaire, e entre sereno e austero lhe falla:

—Não ha quem te comprehenda aqui; vae-te, sabio peior que o rustico. São tudo camponezes. Nem a minha palavra rude e clara elles entendem, porque não precisam entendel-a. Deus conhecem-n'o de o vêr n'estes campos que ora fructificam, e que na primavera riem. Estão estas serranias tão habituadas ao silencio, que não encontrarias pelas quebradas echos para as tuas tempestades. Vae-te em paz, e adeus.

É preciso que os livros, na aldeia, tenham alguma coisa do chilriar dos passarinhos: que sejam candidos e bons.

Servem os Contos do tio Joaquim, porque na alma de Thomaz, o philosopho amoroso da estrella phantastica, não modilhavam só os passarinhos, a que do coração queria,—chilreava uma primavera perpetua.[{157}]

Servem os Serões da provincia, que se diriam outras tantas flores perfumadas pela alma de Julio Diniz. Não teem mau feitiço os novellos da tia Philomena, nem os versos do doutor Jacob queimam como as estrophes de Byron...

Esses livros cabem á solidão, porque é no despovoado que se rememora, e ambos elles valem hoje duas saudades redivivas.

Do rancho urbano uns lêem, outros fallam, e nenhum está triste.

Vae descendo o sol.

Passam no caminho as ceifeiras, contentes do lidar d'um dia inteiro. Na voz d'algumas canta-lhes a alma; nas faces de todas alvoreja, áquella hora do entardecer, a alegria do descanço. Metade da noite, a seroam: outra metade, dormem-n'a.

Sol nado, toca a encastelar os cestos da ceifa e da vindima, e partem cantando. No palacete de gradarias de ferro acorda ao matinal concerto uma das formosas do rancho que na vespera estava lendo A flôr d'entre o gelo. E, lembrada de ter lido n'um poeta portuense esta quadra, sorri ao primeiro raio de sol que lhe brinca nas rendas do leito, e abençoa:

Ide ceifar! Deus vos encha
Os açafates d'espigas.
Deus vos dê boa colheita,
Rapazes e raparigas.

E o serão![{158}]

As rumas de milho no meio da eira; raparigas d'um lado, rapazes do outro; a requinta a distancia. Ao longe, presentidos já pela turba, os mascarados.

Emquanto não chegam, o desafio:

—Não penses em ser esquiva,
Que se eu estender os braços,
Tu vaes ficar prisioneira
N'uma cadeia d'abraços.

—Que se me dá de cadeias!
Sempre um élo é menos forte...
Cadeias que se não quebram
São as do amor e da morte.

Chegam os mascarados.

Irrompe a vozeria:

—É elle!

—É ella!

—Não é elle nem ella: é outro!

Sempre me ha de lembrar o caso da menina do Pedregal, que tinha amores contrariados.

Na noite da esfolhada obteve licença para ir dançar na festa vestida de camponeza.

Foi, e disse falseando a voz:

—O primeiro abraço é meu!

Respondeu um camponez:

—Pertence-me!

Era senha. E depois? Depois a menina do Pedregal não voltou a casa, e o capitão-mór, apesar de vêr a filha radiosa da felicidade do casamento, nunca mais deixou andar mascarados nas esfolhadas.[{159}]