HISTORIA D'UM COLLAR

PERSONAGENS

Raymundo Savedra—leão.

Dolores—leoa.

Baroneza de Faiães—ex-leoa.

Principia ás 9 horas para haver tempo de preparar a jaula.[{146}]

Scena I

Boudoir de Dolores.—Tapetes de Susa, espelhos de Veneza, e uma bilha d'Extremoz. Raymundo e Dolores.

RAYMUNDO—Amo-a!

DOLORES (despeitada)—O senhor ama todas as mulheres!

R.—Não confunda os fogos-fatuos d'uma noite canicular, estiva, apopletica com a chamma do sol, intensa, continua, deslumbrante, esplendida.

D. (bocejando)—Que estylo!

R.—Não faço estylo. Eu fallo assim.

D.—Oh! então o nosso amor é impossivel, atroz. O senhor, se alguma coisa ama, é... os adjectivos.

R. (carinhoso)—Perdão, Dolores, a minha eloquencia é filha do meu amor. O rouxinol da balseira só descanta quando a primavera enflora os prados. O carneirinho...

D.—Não sabe que embirro tanto com os carneirinhos como com os bachareis! Que está o senhor a bacharelar!

R.—Perdão. Entre bacharelar e ser bacharel medeia a distancia da reprovação. Eu não tenho cartas.

D.—Com que então não joga! Virtuoso moço!

R.—É implacavel, Dolores!

D.—N'esse caso peça treguas.

R.—Pedirei.

D.—Com a condição de me satisfazer um capricho, uma velleidade. Preciso dum collar. Estou doidamente[{147}] namorada d'um que vi esta manhã em casa do meu ourives. Vá comprar-m'o.

R. (pegando no chapéo)—Voltarei em breve. O collar será seu, e a felicidade será minha. (Sae.)

Scena II

DOLORES (cahindo no sophá)—Puff! Que xarope de morphina o estylo d'este homem! Como elle me aborrece, me adormenta! Me adormenta, é phrase d'elle! E não se lembrar este doido de que é casado, de que tem filhos...

UM CRIADO, que podia ser de papelão, se alguem fallasse por elle entre scenas:—A snr.ª baroneza de Faiães.

Scena III

BARONEZA—Minha senhora!

D. (erguendo-se)—Senhora baroneza!

B. (sentando-se a convite de Dolores)—Eu espero que a justiça da minha causa me absolverá da ousadia da visita.

D. (para a frisa do lado direito)—Que quererá ella? Não sei que me adivinha o coração!

B.—Ha realmente assumptos tão melindrosos, que eu não sei se deva...

D.—Minha senhora!

B.—Peço toda a sua benevolencia para a justa defensa dos direitos de minha cunhada...[{148}]

D.—Mas...

B.—Sim, eu sei que ama delirantemente meu irmão, que o verdadeiro amor é cego para todas as conveniencias sociaes, mas é ao coração doente que eu venho trazer o cauterio da piedade. Lembre-se, Dolores, de que meu irmão é casado com uma senhora nova e extremosa, e pae de cinco filhos.

D.—Mas... eu queria dizer a v. ex.ª que não amo seu irmão.

B. (admirada)—Como!

D.—Que o não amo.

B.—Pois será possivel! Meu irmão suppõe-n'o, acredita-o, jural-o-ia.

D.—Eu creio que o snr. Raymundo Savedra é facil em acreditar tudo: o espirito simples é, por via de regra, credulo. Agora lhe pedi eu um collar de preço fabuloso para vêr se conseguia que o sacrificio lhe fosse lição.

B. (áparte)—Piedosa lição! Esta mulher! (para Dolores)—Muito bem! Está, pois, concluida a minha missão. Saio d'aqui com a felicidade na alma, e creia que jámais me esquecerei da nobre franqueza que encontrei nas suas palavras (comprimentando).

D. (correspondendo)—Senhora baroneza!

Scena IV

RAYMUNDO (entrando açodado)—Que veio aqui fazer minha irmã? Ouvi-a fallar n'esta sala, e escondi-me no corredor. Que disse ella?[{149}]

DOLORES (com indifferença)—Perdão! E o meu collar?

R.—Oh! O seu ourives só sabe propôr negocios leoninos! Pede uma quantia fabulosa!

D. (no mesmo tom)—Quanto?

R.—Um conto de reis!

D.—Ah! Acha muito!

R.—É que realmente eu tenho dispendido comsigo, Dolores, loucamente, e receio que um dia a pobreza vá encontrar meus filhos amaldiçoando o tumulo do seu pae.

D. (tocando a campainha)—Que entranhas paternaes as suas! (Ao criado) Diga a este senhor que estou incommodada. (Sae.)

R. (fulo de colera)—Eu me vingarei, infame! Ficará sem collar! (Sae.)

Scena V

DOLORES (entrando pela mesma porta porque saira)—Não ficarei sem collar, não. Eu serei infame, mas tu és... parvo. (Escrevendo) Duas linhas ao meu ourives: «Snr.: Queira aceitar a offerta, qualquer que seja, feita pelo snr. Raymundo Savedra. Eu completarei o preço da compra do collar. Exijo absoluto segredo.» (Tocando a campainha; ao criado) Leve esta carta ao meu ourives. (Erguendo-se) É preciso que elle fique inteiramente derrotado. É uma fonte de receita que se vae eliminar do meu orçamento, e convém não[{150}] prescindir da ultima verba. Tu receberás a correcção devida a todos os parvos.

Scena VI

Raymundo entra timidamente. DOLORES (sentindo-lhe os passos)—Que amor o d'aquelle homem, que recua deante d'uma velleidade! Vão lá fiar-se no amor! (RAYMUNDO avançando)—Não faça esse conceito de mim, Dolores, bem sabe se a amo, doidamente, perdidamente, mas é que...

D.—É que talvez nem mesmo agora saiba ser cavalheiro. O meu ourives acaba de avisar-me de que resolvera acceder á offerta do senhor.

R.—N'esse caso...

D.—Quanto offereceu o senhor?

R.—Quinhentos mil reis.

D.—(á parte) É muito! Tenho de dar outros quinhentos. (Alto) Não lhe convém ainda? Acha cara a felicidade que lhe custa quinhentos mil reis! Que largueza d'animo a sua!

R. (apaixonado)—Não, vou já, Dolores. Á noite fulgirá o collar no seu seio, e as estrellas desmaiarão no céo. Não será mais formosa a huri quando as exhalações calidas da noite...

D. (com aborrecimento)—Quer que lhe faculte o adresse do meu ourives? É de suppôr que a imaginação lhe anniquille a memoria.

R.—Até já, Dolores. Vou buscar as estrellas para completar o meu céo de felicidade. (Sae.).[{151}]

Scena VII

DOLORES (olhando para a porta)—Bonita figura... a do homem! O amor dá azas. Voará. Dentro em pouco estará aqui. O collar será meu. Deital-o-hei ao pescoço. Mirar-me-hei ao espelho, e intimarei o snr. Raymundo Savedra a que saia para nunca mais voltar. E depois um collar d'um conto de reis não é caro por metade do preço. (Chegando á janella) Já desappareceu. Não tardará. O caso é que estou impaciente pelo desfecho d'esta pequena comedia. (Tocando a campainha; ao criado) Já vieste ha muito? Ficou entregue? (O criado bole affirmativamente a cabeça) Está bem; vae-te. Mal persintas o snr. Raymundo Savedra, avisa-me. Não sei o que hei-de fazer! Ah! o meu piano! (Senta-se arpejando e monologando) E dizerem que a felicidade é isto! Quantas vezes m'o não teem dito! Se soubessem como estou aborrecida agora! E as minhas canções! Vamos, Marcó, desafia-te a ti mesma; vence o teu proprio fastio. Póde ser que venhas a amar um dia; entôa o teu cantico d'esperança! Não, não posso! Que demora!

Scena VIII

O CRIADO (com uma carta)—Da snr.ª baroneza de Faiães.

DOLORES (impaciente, levantando-se do piano)—Vejamos. Que terá a baroneza ainda que dizer-me![{152}] «Snr.ª Acabo de escrever a meu irmão desenganando-o. Antecipei-me, porque lhe seria menos doloroso o golpe vibrado por mim.» (O criado: Chega o snr. Raymundo Savedra) DOLORES: Ah! (escondendo a carta).

Scena IX

RAYMUNDO (entrando de chapéo na cabeça, com uma caixa na mão esquerda e uma carta na mão direita. Ameaçador, tetrico)—Sei tudo. Minha irmã teve a feliz ideia de me deixar esta carta em casa do seu ourives, minha senhora. Esteja tranquilla. Não será preciso que o sacrificio me seja lição. Esta carta desvendou-me; chamou-me á realidade. O sorriso da amante não vale o coração da esposa.

D.—O que?

R.—Oh! socegue! As pedras falsas inventou-as o homem para as falsas mulheres. Mas estas, as que são realmente preciosas, creou-as a natureza para as mulheres honestas. Adeus. Vou offerecer este collar a minha mulher. (Sae.)

D. (cahindo fulminada no sophá)—E os meus quinhentos mil reis! Ó castigo! (Cae o panno.)[{153}]