II
A côrte das Tulherias, descripta por madame Carette, revela a vida um pouco frivola, e até um pouco mexeriqueira, de todas as côrtes, mas tinha a vantagem de ser, quanto á belleza das damas que rodeiavam a imperatriz, constituida em harmonia com a celebre phrase de Francisco I: uma côrte sem mulheres é um anno sem primavera, e uma primavera sem rosas.
A entourage feminina era numerosa, e gentil. Os lyrios da belleza floresciam nas Tulherias como n'um jardim que a primavera esmalta. Madame Carette esboça o perfil de todas as grandes damas que rodeiavam a imperatriz Eugenia. Faz passar diante dos nossos olhos a viscondessa de Aguado, marqueza de las Marismas, bella e espirituosa, mãi da duqueza de Montmoreney, uma mulher elegante que morreu aos trinta annos. A insinuante condessa de Montebello, que tinha sido a amiga intima da duqueza de Alba, e que fôra embaixatriz em Roma, onde brilhára como estrella no corpo diplomatico. Madame de Malaret, de uma rara elegancia de linha. A marqueza de Latour-Maubourg, filha do duque de Trévise, sempre muito ciumenta do marido. Um dia perguntaram-lhe o que ella faria se soubesse que o marido a enganava. Morreria de espanto, respondeu a marqueza. A baroneza de Pierres, que era a mulher da França que montava melhor a cavallo. A condessa de la Bédoyère, uma virtuose distinctissima, que tinha a belleza das mulheres do tempo de Luiz XIV. Viuva em 1869, casou com o principe de Moskowa, porque a sua belleza chegava á vontade para fascinar dois maridos. A condessa de la Bédoyère tinha uma irmã, a condessa de la Poëze, e ninguem como estas duas irmãs possuia em grau mais eminente o que póde chamar-se l'esprit des cours. A condessa de Rayneval, formosissima, não casou nunca: era chanoinesse n'uma ordem da Baviera. Foi ella que serviu de modelo para a Musa, que no celebre quadro d'Ingres corôa a cabeça de Cherubini. A baroneza de Viry-Cohendier, em cujo rosto brilhavam dois olhos, que pareciam carbunculos. A princeza Anna Murat, d'uma belleza loira, fresca, primaveril. A duqueza de Malakoff, o mais puro typo da belleza andaluza. A duqueza de Morny, uma flôr de neve da Russia, colhida pelo duque que alli fôra embaixador, e que representára olympicamente a França na coroação do czar Alexandre II. A duqueza de Persigny, loira como Daphne. A esta pleiade de mulheres encantadoras viera reunir-se, nos ultimos dez annos do imperio, a famosa princeza de Metternich. E occupando o centro d'este systema planetario de bellezas femininas, um sol: a imperatriz.
Havia nas Tulherias um salão azul que a imperatriz quizera dedicar exclusivamente á belleza, povoando-o com os retratos das mais formosas damas da sua côrte. Nas telas que revestiam as paredes, cada dama personificava uma das grandes nações da Europa. A princeza Anna Murat representava a Inglaterra, a duqueza de Malakoff a Hespanha, a duqueza de Morny a Russia, a condessa Walewska a Italia, e no meio de toda esta constellação desenhava-se o perfil da imperatriz sobre um medalhão sustentado por figuras allegoricas.
O incendio das Tulherias, depois da quéda do imperio, carbonisára essas notaveis télas, de que ficaram apenas, aqui, alli, fragmentos indemnes, vestigios d'esses retratos que resumiam toda a graça feminina da França imperial.
De resto a vida das Tulherias agitava-se nas mil intrigasinhas e rivalidades de que as mulheres, ainda que sejam encantadoras, não sabem emancipar-se. Eram frequentes as tempestades n'um copo d'agua. Por exemplo. Um anno, no dia da festa da imperatriz, a 15 de novembro, resolveu-se fazer quadros vivos, reproduzir o Déjeuner champêtre de Watteau. Foi a princeza de Metternich, que tinha uma rara habilidade para este genero de divertimentos, quem ficou encarregada da distribuição dos personagens e dos costumes.
A duqueza de Persigny devia entrar no quadro, mas, não tendo gostado do costume que a princeza lhe distribuíra, declarou que se vestiria a capricho, e que appareceria com os cabellos soltos,—uns bellos cabellos loiros, opulentos como uma floresta.
—Quero, dizia a duqueza, que me vejam o cabello.
—É impossivel! replicava a princeza de Metternich. Isso desarranja o quadro!
A condessa insistia com a terrivel logica que até nos caprichos é um dos poderosos apanagios do seu sexo:
—Nós fazemos isto para nos divertirmos, e a mim diverte-me apparecer com o cabello solto.
—Nada, não! Ou a condessa ha de submetter-se como nós todas, ou não entra no quadro.
Mas a condessa continuou a reagir.
A princeza de Metternich, exasperada, correu ás Tulherias, foi levar ao conhecimento da imperatriz este grave negocio de estado.
A imperatriz sorriu, e aconselhou:
—Deixe lá, princeza. É uma novidade que talvez produza effeito.
—É uma festa estragada!
—Mas, princeza, o que quer fazer? A condessa, de qualquer modo que appareça, ha de ser sempre bonita. Seja indulgente com ella. De mais a mais sabe que a mãi de madame de Persigny está doida?
—Ah! ripostou a princeza. A mãi de madame de Persigny é doida? Pois meu pai tambem o é. Não cederei.
E assim era, realmente. O conde Chandor, pai da princeza de Metternich, que era o melhor sportman da Europa, avariou o cerebro á força de trambolhões com que se vingavam do seu calção audacioso os cavallos insubmissos.
Outro exemplo das mil coisissimas nenhumas que preoccupavam ás vezes a côrte das Tulherias.
A condessa de Wagner, que tinha setenta annos, mas que havia sido uma bonita mulher, appareceu uma vez nas Tulherias com uma cabelleira loira similhante á que a Schneider exhibia na Bella Helena.
Madame Carette desatou a rir quando a viu, e a imperatriz, que n'esse momento sahia do seu gabinete, quiz saber o motivo de tamanha hilaridade. Madame Carette disse-lh'o, e a imperatriz quiz vêr, através de uma vidraça, a cabeça de Medusa da condessa de Wagner. Viu, e tambem desatou a rir. Mas, passado o primeiro momento, ordenou a madame Carette:
—Diga da minha parte á condessa que lhe peço para tirar immediatamente a cabelleira. Que ridiculo para a minha côrte, se se soubesse!
Nem nas altas espheras sociaes o espirito feminino perde a fragilidade pueril que lhe é propria. A imperatriz, que dirigiu muitas combinações politicas, e que para esse effeito era sempre a mulher do imperador, deixava-se enleiar muitas vezes, como qualquer simples mortal, nas espiras d'essas duas serpentes graciosas que se enroscavam nos seus nervos de mulher: o sangue de hespanhola e a frivolidade parisiense.
Sempre que o ciume lhe cravava no coração a garrasinha adunca, apparecia na imperatriz a mulher, e só a mulher.
O imperador que, como sabemos, tivera pela imperatriz uma paixão de Romeu, principiára, dentro da primeira década da vida conjugal, a morder a maçã do paraiso terrestre.
Ora a condessa de Castiglione, filha das primeiras nupcias do marquez de Oldoini, ha pouco fallecido, fizera sensação quando pela primeira vez appareceu n'um baile costumé das Tulherias. A condessa ainda vive hoje. Deve estar velha, como todas as bellas damas d'aquelle tempo, mas a sua belleza era, em 1860, a de uma estatua grega, esculptural, posto que dura.
A imperatriz ardia em ciume por causa da condessa de Castiglione, que conseguiu distanciar da côrte. N'um dos ultimos bailes das Tulherias, em que a imperatriz appareceu em costume de Marie Antoinette,—a imperatriz teve sempre uma viva sympathia pela memoria de Marie Antoinette,—a condessa de Castiglione, que não tinha sido convidada, foi reconhecida n'uma esplendida toilette negra, de viuva, representando Marie de Medicis. A imperatriz, sabendo que era a condessa, mandou-lhe ordem por um camarista para que sahisse immediatamente.
Em 1860, o principe Jeronymo déra uma festa no Palais-Royal em honra da imperatriz, que deslumbrou todos os olhos quando entrou na sala com um vestido de tulle branco e uma grinalda de violetas de Parma, porque a imperatriz fez da violeta a flôr imperial.
Á uma hora da noite sahiam o imperador e a imperatriz, encontrando-se na escada com a condessa de Castiglione.
—Chega muito tarde, condessa! disse-lhe galantemente o imperador.
—Sois vós, sire, que sahis muito cedo! respondeu a condessa.
Póde calcular-se a scena de ciume que se passára dentro do landeau imperial, caminho das Tulherias.
Li ha dois dias um livro de Philibert Audebrand, Un café de journalistes sous Napoleão iii, em que toda a historia dos amores do imperador com a condessa de Castiglione é contada sem refolhos, até com visivel acrimonia, que é a nota predominante de todo o livro.
Essas relações amorosas, segundo Audebrand, chegaram até ao ponto de a imperatriz partir precipitadamente para a Escocia com a duqueza de Hamilton, tendo voltado a Paris só depois da promessa formal do imperador de que romperia com a sua amante.
De passagem, um traço da vida conjugal da condessa de Castiglione. O marido não pudera nunca reconcilial-a com a sogra, a marqueza de Castiglione. Um dia em que ambos sahiram de trem, o conde dera secretamente ordem ao cocheiro para conduzil-os a casa da marqueza. A condessa percebeu a intenção reservada do marido e, descalçando furtivamente os sapatos, no momento de passarem uma das pontes do Sena, atirou-os ao charco.
E, voltando-se para o marido:
—Quero crêr que me não forçarás agora a fazer visitas descalça!
Mas, sempre que os nervos da mulher estavam tranquillos, a imperatriz reapparecia com todos os seus instinctos de interesse dynastico, porque a imperatriz adorava o filho.
Era ella que recolhia e colleccionava cuidadosamente, todos os dias, os papeis politicos do imperador.
—Eu sou, dizia a imperatriz referindo-se á correspondencia das Tulherias, como um rato que apanha as migalhas do imperador.
Toda a correspondencia pôde ser salva, e a imperatriz tem-n'a conservado religiosamente.
Deve ser interessantissima, mas, nas mãos da imperatriz, é uma arma partida. Não é preciso que a doblez dos caracteres se affirme por documentos: essa prova é inutil. Todos sabemos como em todos os tempos e lugares o caracter humano varía com a altura do sol. Mas no occaso da sua grandeza, a imperatriz ainda conseguia encontrar algumas dedicações inabalaveis. Citarei desde já dois nomes: o duque de Bassano, e mr. Rouher.
A imperatriz teve, na politica imperial, uma acção energica. O general Trochu attribue-lhe a desgraçada operação franco-hespanhola do Mexico, que desacreditou o imperio, e a desastrosa guerra de 1870, diante da qual Napoleão III recuava instinctivamente.
Mas, sob o ponto de vista politico, Trochu, apesar de ter procurado defender-se no tribunal do Sena, e n'um grosso volume, que tenho presente, de todas as accusações que o Figaro fizera ao governador de Paris, Trochu, repito, é um pouco suspeito.
A imperatriz viu sempre n'elle um orleanista. Não sei se tinha razão. Mas a impressão que me ficou de todo o livro de Trochu, um enorme volume de mais de 500 paginas, é que a imperatriz foi muito abandonada, na hora do perigo, pelos elementos officiaes que tinham feito a sua carreira á sombra das Tulherias. Só o almirante Jurien se offereceu para acompanhal-a; só madame Mebreton Bourbaki a acompanhou. O maior auxilio recebeu-o de dois estrangeiros: o embaixador de Austria, principe de Metternich, e o embaixador de Italia.
Não admira que a imperatriz, arrastada pelo seu caracter energico de hespanhola, se envolvesse nos negocios politicos. Ha uma phrase sua, que a define. Os prussianos avançavam sobre Paris, o general Trochu parecia desalentado, mas a imperatriz dissera-lhe:
—Eh bien, si les prussiens arrivent, j'irai moi-même sur les remparts, et là je montrerai comment une femme sait braver le danger, quand il s'agit du salut du pays.
Mas as horas do imperio napoleonico estavam contadas.
A Providencia ia ajustar as suas contas, em nome de Maximiliano, com Napoleão III e com o marechal Bazaine, e a imperatriz Eugenia, sobrevivendo a estes dois actores responsaveis da tragedia do Mexico, principiava a vêr cahir do ceu as primeiras sombras da sua longa noite de agonia.