III
Os aposentos particulares da imperatriz Eugenia, no palacio das Tulherias, compunham-se de uma série de dez salas, que davam sobre o jardim.
Entrava-se pelo salão dos alabardeiros, a guarda nobre da imperatriz, commandados por mr. Bignet, a quem as damas do palacio chamavam jovialmente la trezième dame du palais.
Era o chefe dos alabardeiros que inscrevia os nomes das pessoas que pretendiam ser recebidas pela imperatriz e, se as damas de serviço faltavam, elle proprio dava conta a sua magestade imperial do numero e qualidade das pessoas que solicitavam audiencia.
Bignet era um homem discreto, e muito dedicado á imperatriz; guardava sempre rigoroso silencio sobre as resoluções que a imperatriz lhe communicava, mas as damas da côrte tiravam pelos domingos os dias santos, e penetravam ás vezes os segredos de Bignet.
Por exemplo. A imperatriz não dispensava nunca do seu serviço de meza alguns objectos de estimação, entre os quaes havia uma pequena caixa de chá, de prata dourada, que tinha pertencido a Napoleão I. Quando este elegante objecto não apparecia alguma vez, as damas subentendiam que a imperatriz projectava uma viagem, e que mr. Bignet já tinha preparado as bagagens. Mas a caixa de chá reapparecia, e as damas ficavam sabendo que o projecto de viagem havia sido posto de parte. Bignet acompanhou a imperatriz ao exilio; e morreu em Inglaterra, inconsolavel pela queda do imperio.
Ao salão dos alabardeiros seguia-se a sala das damas, pintada a fresco sobre um fundo verde. O tecto representava uma enorme corbeille de flôres. A mobilia, estylo Luiz XVI, era de madeira dourada com estofos Gobelins. N'esta sala, como o seu nome indicava, estacionavam lendo, conversando, bordando, as damas de serviço.
Passava-se d'este a outro salão, côr de rosa, profusamente ornamentado de flôres: o tecto, representando Flora em triumpho, tinha sido pintado por Chaplin.
O salão rose communicava com o salão azul, a que já tivemos occasião de referir-nos, e cujas paredes eram revestidas pelos retratos das mais bellas damas da côrte, symbolisando as grandes nações da Europa.
Era n'este salão que a imperatriz dava audiencia, destacando-se a sua gentil figura n'uma atmosphera de saphira, que fazia lembrar o firmamento, porque a luz passava através de stores de gaze azul, adaptados ás janellas.
Seguia-se ao salão azul o gabinete da imperatriz. Era ahi que a primeira dama da França lia, escrevia, colleccionava os papeis do imperador, rodeiada de todos os objectos queridos que podiam fallar-lhe ao coração, avivar-lhe uma memoria, despertar-lhe uma saudade.
Forrado de sêda mate, com largas bandas de um verde suave, a mobilia capitonada, as cortinas côr de purpura, as portas de acajú com ferragens de cobre dourado, tal era o gabinete particular, o aposento predilecto da imperatriz.
Sobre o panno principal da parede pendia o retrato do imperador, corpo inteiro, de casaca, pintado por Cabanel. Exactissimo de semelhança. Á esquerda do fogão, um retrato da duqueza d'Alba coberto de gaze ligeira, como sorrindo através de uma nuvem. Entre as janellas, o retrato da princeza Anna Murat, pintado por Winterhalter. E por toda a parte, aqui, alli, mil obras primas do Oriente e do Occidente, uma bella estatua de mulher em marmore branco—A Estrella,—porque tinha uma estrella na fronte e, entre as recordações carinhosas, muitos objectos que tinham pertencido á duqueza d'Alba, e o chapeu, todo crivado, que o imperador levava na noite do attentado Orsini. A pintura tinha, no gabinete particular da imperatriz, um grande dominio. Havia um notavel quadro de Hébert, representando mulheres italianas n'uma fonte subterranea; e um cordão de sêda, pendente da parede, esperára durante algum tempo por um quadro de Cabanel. Mas o pintor demorára-se e, n'um dia de recepção, a imperatriz, conduzindo-o ao seu gabinete, dissera-lhe:
—Esta lacuna contraria-me. Ou me mandais depressa um quadro ou eu vos mando pendurar n'aquelle cordão,—em vez do quadro.
Cabanel tomou em consideração esta jovialidade da imperatriz, e enviou-lhe um primoroso quadro biblico,—Ruth, de tunica azul, coberto o rosto por um longo veu negro.
A imperatriz gostava muito de lêr sentada n'um fauteuil, junto do fogão e contra a luz, com os pés pousados n'uma cadeira mais baixa e inclinada.
Um biombo de sêda verde resguardava-a das correntes da luz e do ar.
Era n'esta posição que a imperatriz escrevia ordinariamente, com uma penna de pato, pondo o papel sobre os joelhos.
Ao alcance da mão havia uma pequena meza com livros, os mais queridos e, não longe, n'uma grande meza aberta, todo o trem de desenho, os pinceis, papel, caixas de tintas, porque a imperatriz tinha grande facilidade para a aguarella.
Seguia-se um outro compartimento destinado a bibliotheca, povoado de obras escolhidas na litteratura franceza, ingleza, hespanhola e italiana, linguas que a imperatriz fallava com destreza. Á mistura com os livros, muitos primores artisticos: Wouwermans de um valor incalculavel. E numerosos retratos, do conde de Montijo, do imperador, do principe imperial, da rainha da Hollanda, da rainha Sophia, etc.
Sahindo-se d'este compartimento, atravessava-se uma ante-camara sem janella, apenas illuminada por uma lampada accesa de noite e de dia. Vinha dar a esta ante-camara, que era o esconderijo dos papeis das Tulherias, a pequena escada que descia directamente para os aposentos do imperador. Todos os papeis, numerados e alphabetados, estavam ahi guardados n'um armario secreto.
D'esta ante-camara passava-se a uma vasta sala, allumiada por tres grandes janellas rasgadas sobre um balcão: era o gabinete de toilette da imperatriz, todo coberto d'espelhos. A meza de toilette tinha guarnições de renda branca e sêda azul. E do tecto descia, por um engenhoso machinismo, a que já tivemos occasião de alludir, o monte-charge que trazia os vestidos de que a imperatriz precisava.
Uma saleta com uma só janella communicava o gabinete de toilette com o quarto de cama, dividido em duas peças por um tabique em que, sobre um fundo de ouro, florejavam pinturas de delicado gosto. Era ahi que estava o oratorio particular da imperatriz, disfarçado, porque o tabique abria em dois batentes, para os actos do serviço divino. Foi n'esse oratorio que o principe imperial commungou pela primeira vez, e que, no dia 4 de setembro de 1870, a imperatriz ouviu missa, pela ultima vez, nas Tulherias.
O quarto de cama era de uma magnificencia verdadeiramente olympica. No tecto, grandes molduras douradas inquadravam antigas pinturas allegoricas. O leito, afofado de ricos estofos, e erguido sobre um estrado, era mais um throno do que um leito.
Reliquias preciosas velavam o somno da imperatriz: a rosa de ouro que lhe enviára Pio IX por occasião do baptisado do principe imperial, e o vaso, tambem de ouro, cheio de folhas e flôres do mesmo metal, finamente cinzeladas, que o Pontifice costumava offerecer aos seus afilhados de baptismo. Além de que, todos os annos, em domingo de Ramos, uma palma abençoada pelo Padre Santo vinha de Roma para o espaldar do leito da imperatriz.
Na côrte das Tulherias havia, como em todas as côrtes, um horario que apenas as grandes solemnidades officiaes faziam alterar.
Jantava-se ás sete horas e meia.
O pessoal de serviço esperava os imperadores no salão Apollo, illuminado por tres grandes lustres, que faziam reverberar o ouro do plafond,—uma glorificação de Apollo com as nove musas.
Este salão ficava entre o branco ou do primeiro Consul, assim chamado por ter um magnifico retrato do general Bonaparte, e a sala do throno, que era preciso atravessar para chegar ao salão de Luiz XIV,—a sala da meza.
Pouco depois das sete horas, o imperador subia aos aposentos da imperatriz, e desciam ambos ao salão de Apollo com o principe imperial, que tinha lugar á meza do estado desde os oito annos. A imperatriz dava ordinariamente a mão ao principe. Entrando no salão, a imperatriz cumprimentava com um sorriso e uma mezura as pessoas da côrte, como n'uma ceremonia official. Logo que o mordomo do palacio se inclinava silenciosamente diante do imperador, annunciando o jantar, o imperador, dando o braço á imperatriz, dirigia-se para a sala de Luiz XIV, e os dignitarios da côrte davam o braço ás damas, seguindo-o.
O imperador e a imperatriz sentavam-se á meza, junto um do outro. O principe imperial á esquerda do imperador, o ajudante de campo do imperador á direita da imperatriz, a primeira dama de serviço ao pé do principe imperial, a segunda dama á direita do general Rolin, seguindo-se os outros commensaes, entre elles os officiaes da guarda das Tulherias.
Por detraz da cadeira do imperador e do principe imperial postava-se um alabardeiro. Por detraz da cadeira da imperatriz, além de mr. Bignet, commandante da sua guarda, ficava Scander, um joven negro, que tinha vindo do Egypto, e que, emplumado e armado, produzia um bello effeito decorativo.
Scander tinha um grande orgulho da sua posição, e não obedecia a ninguem senão á imperatriz.
Um dia passeava elle no Jardim das Tulherias, e lembrou-se de macaquear os gestos e meneios de um desconhecido qualquer, que, não gostando da parodia, o admoestou. Mas Scander respondeu-lhe com um pontapé, e o desconhecido, filando-o por uma orelha, desancou-o com a bengala.
Furioso, mas poltrão, Scander gritava:
—Deixe-me, que eu sou o filho da imperatriz...
O serviço da cosinha era feito por meio de ascensores, e executado com grande regularidade e presteza.
O salão de Luiz XIV tinha uma grande meza, e ao fundo, sobre o fogão, um busto monumental d'aquelle soberano, além de um retrato do mesmo rei, pintado por Lebrun, de um retrato de Anna d'Austria, e de um quadro representando a apresentação do duque de Anjou aos embaixadores hespanhoes.
Depois do jantar, os imperadores dirigiam-se com a sua entourage para o salão d'Apollo, onde se servia o café, que Napoleão III tomava sem sentar-se fumando cigarrilhas.
Era geralmente n'esta occasião que o imperador conversava com os officiaes da guarda. Toda a côrte se conservava tambem de pé, mas o imperador convidava quasi sempre as damas a sentarem-se. Fazia-se então circulo, fallava-se principalmente dos acontecimentos do dia, o marquez de Havrincourt, o barão de Pieres, o duque de Trévise, dignitarios da côrte e deputados, commentavam os episodios da sessão do dia. A imperatriz era a alma, a alegria, a graça d'este circulo de conversação. O imperador acabava por fazer paciencias, e, para entreter o principe imperial, a côrte jogava algumas vezes o loto, marcando o imperador os seus cartões com moedas de 50 centimes, novas em folha.
Oh! ceus! quem havia de dizer, nos tempos aureos do imperio de Napoleão III, que os pamphletarios descreviam como nadando nos prazeres de uma orgia ininterrupta, que ás nove horas da noite, no salão Apollo das Tulherias, estava a côrte, os imperadores á frente, entregando-se paradisiacamente ao patriarchal loto, como a essa mesma hora acontecia decerto, em Portugal, na botica de Castro Daire e no club de Olhão!
Ás dez horas os creados punham, n'uma pequena meza, o serviço de chá, que as damas faziam. Madame Carette escreve textualmente: «Havia um bulle de chá de laranjeira que tinha um grande successo entre os homens, e n'um canto do salão um plateau com refrescos e café gelado. Geralmente o imperador retirava-se depois de ter tomado uma chavena de chá.»
Então a conversação animava-se mais, estimulada pela imperatriz, que a prolongava até ás onze e meia.
Os adversarios do imperio atacaram vivamente as festas das Tulherias, os quadros vivos de Compiégne; aqui tenho eu ao pé de mim Philibert Audebrand, que me diz ao ouvido, applicando-a a Nopoleão III, a celebre phrase de Agnés Sorel a Carlos VII:
—Não se perde mais alegremente um reino!
Mas, fóra das grandes festas, não me parece que o loto das Tulherias, marcados os algarismos com moedas de 50 centimes, seja babylonicamente escandaloso. Um certo conego conheci eu em Braga que, sem ter um throno na Sé, marcava os seus cartões com peças de 8$000 reis, e este mesmo conego tambem não desgostava de quadros vivos porque o vi, passados annos, assistir no Porto a um espectaculo de lanterna magica, realisado pelo Tasso (não confundir com o poeta nem com o actor) no theatro de S. João.
E o que aconteceu?
O conego—Deus o tenha lá!—morreu muito bem descançado na sua conezia. As gazetas nunca fallaram d'elle senão para lhe rezar uma necrologia louvaminheira. Mas Napoleão III perdeu a corôa, o que não aconteceu ao conego, foi descomposto pelas gazetas, crivado de epigrammas, e acabou no exilio.
Quanto a epigrammas, até os proprios parentes lh'os faziam. Lembro-me agora de um, que é do marido da princeza Clotilde, mais conhecido por uma alcunha grotesca.
Na noite do seu casamento com a condessa de Teba, disse-lhe Napoleão III que estava muito constipado.
O primo respondeu-lhe:
—Couche-toi avec tes bas (Tebá) cette nuit, et ça passera.
Foi talvez o unico epigramma que não soube mal a Napoleão III...