IV
Conta o archiduque que assistíra com a rainha D. Maria II e com el-rei D. Fernando a um espectaculo no theatro de S. Carlos, que, apesar das suas amplas dimensões, considera inferior ao San Carlo de Napoles.
Exhibia-se n'essa noite o panorama do Mississipi, que tinha já feito, diz Maximiliano, le tour du monde.
Ao passo que o panorama se desenrolava lentamente, a rainha conversava com seu primo o archiduque, fallando-lhe com saudade do Brazil, onde nascêra. Maximiliano estranha que D. Maria II exprimisse tamanho enthusiasmo por um paiz, como o Brazil, onde o calor é intenso. E observa: qualquer que seja o paiz em que se nasceu, o amor á patria é sempre o mesmo! Esta observação fica muito áquem dos meritos litterarios do archiduque. É de uma banalidade que lhe não faz honra.
Fallou-se tambem de Lisboa, de Portugal. D. Fernando citou com louvor o livro do principe de Lichnowsky[[6]], o unico que tinha por exacto, parecendo, diz Maximiliano, fazer pouco caso do que a condessa Hahn-Hahn escreveu sobre o mesmo assumpto.
A rainha mostrou-se resentida da surpreza com que a condessa viu na camara real o bastidor em que sua magestade costumava bordar. Uma pessoa que governa, havia dito a condessa, não deve occupar-se de taes coisas. A rainha, que é uma mulher da sua casa (une femme d'intérieur), diz o archiduque, glosava a observação da condessa ironisando-a: «Queria talvez que eu escrevesse livros!»
Maximiliano teve occasião de assistir á festa do Coração de Jesus na basilica da Estrella.
«A rainha entrou na igreja ladeada pelo rei-esposo e pelo Deus ex-machina (o marechal Saldanha), os quaes exhibiam, sobre os seus respectivos uniformes, uma mantilha de rendas: é, nas ceremonias de apparato, a bizarra insignia dos gran-cruzes portuguezes. D. Maria collocou-se sob o docel, entre estes dois personagens, e assistiu de pé ao santo sacrificio da missa. S*** (Saldanha) que, além das suas funcções officiaes parece desempenhar tambem o papel de bobo da côrte, dizia infinitas jovialidades á rainha. Que effeito produziria no povo este mau exemplo! D'onde virão a obediencia e o respeito para com a magestade terrena, se ella propria se não souber curvar perante a magestade divina!»
É textual. Apesar de parente da rainha, o archiduque não lhe poupa este epigramma publico. Maximiliano ficou tão indignado, que chamou bobo ao marechal por estar fazendo espirito na igreja da Estrella. Nós, os portuguezes, não somos certamente o povo que mais compostamente assiste aos actos religiosos. Mas no seculo XVII ainda era peor. Foi preciso tomar medidas repressivas contra as liberdades que se praticavam nos templos.
«A mais encantadora e seguramente a mais espirituosa pessoa da côrte é a imperatriz viuva Amelia, segunda esposa de D. Pedro. Um cruel destino tem perseguido com cega obstinação esta soberana desde a sua primeira mocidade. Ao tempo da minha viagem a Lisboa, a imperatriz vivia em Bemfico (masculinisação de Bemfica) com sua amavel filha, princeza distincta, peregrinamente prendada, e que a morte não tardou a arrebatar. Bemfico é uma deliciosa quinta, onde recebi o mais cordeal e o mais digno acolhimento de uma boa parenta.»
Maximiliano revela, em todas as suas apreciações, uma refinada intransigencia tudesca. Ora é sabido que a imperatriz Amelia era bávara, e é justamente a esta princeza que o archiduque elogia sem restricções. Não podendo deixar de reconhecer as virtudes domesticas da rainha D. Maria II, não se abstem comtudo de fazer esvoaçar sobre o seu retrato a sombra de mais de um epigramma. Nem mesmo lhe perdoou o ser nutrida, e chega a dizer que a rainha convidava sempre para os jantares de gala a duqueza de Palmella, que, por ser igualmente nutrida, servia para lhe fazer contrapeso.
Maximiliano assistiu com a rainha a uma tourada. Os principes não foram, mas as infantas, duas creanças encantadoras, acompanharam sua mãi.
O archiduque, a respeito das touradas portuguezas, dá inteira razão á propaganda que contra ellas tem feito no parlamento o snr. Carlos Testa.
Não as considera um combate cavalheiresco como na Hespanha. Chama a este divertimento, tal como ainda hoje o temos, um brinquedo ignobil e despiciendo; uma mascarada, uma jonglerie. Acha cobardes os nossos picadores, e sente a falta do bello matador, que tão habilmente sabe provocar o enthusiasmo.
Ralha dos intervallos comicos dos pretos, que ficavam espapaçados na arena, e da exhibição dos forcados que, enchumaçados com almofadas, se atiravam á cabeça dos touros. Classifica de arlequinada insipida este espectaculo, onde a coragem brilha pela sua ausencia, e que faz rir o povo n'uma hilaridade boçal.
«Estes vis tormentos por que fazem passar o animal e os homens constituem um espectaculo que não póde deixar de exercer sobre o povo uma influencia perniciosa; é um alimento fornecido aos seus instinctos grosseiros, ao passo que em Hespanha uma lucta ardente e generosa põe em evidencia o homem. Lá, o touro empenha toda a sua força, o homem toda a sua coragem; combatem corpo a corpo, o sangue corre, e ha commoções extraordinarias n'essa lucta; o homem não desce até ao nivel da besta, e a besta até ao nivel das coisas inanimadas. Em Hespanha, onde ha um combate, aliás leal, este divertimento popular não chega a parecer cruel; mas aqui, onde apenas se trata de uma folia baixa e ignobil, a menor desgraça avulta revoltantemente. Em Sevilha vi cahir numerosos touros, sem que homem algum fosse ferido; aqui, dois dos luctadores, encarregados de pegar o touro, ficaram horrivelmente maltratados; cahiram entre as pontas do animal que os lançou por terra, rasgando-os no ventre e no peito com temerosas marradas; finalmente, arrastaram-nos para fóra da arena todos ensanguentados e semi-mortos. Asseguraram-me, porém, que uma pouca de terra do circo, deitada n'um copo d'agua, bastaria a cural-os prodigiosamente, e que poderiam reapparecer na lide do domingo seguinte. Tudo isso me fazia horror, ao passo que em Hespanha senti-me, á vista do combate, emocionado e arrebatado.»
Mas o archiduque confessa que o divertiu muito o facto de um touro ter saltado duas vezes á trincheira, e de um outro touro ter investido com um cavalleiro, que se não desestribou, mas que no embate perdeu a cabelleira.
Então o archiduque riu francamente com o povo.
«N'esse momento, diz Maximiliano, todo o ardor hespanhol despertou em mim, e por bravos involuntarios, que não seriam talvez muito convenientes na presença da rainha, testemunhei a minha satisfação ao bravo animal, desejando-lhe um successo mais decisivo.»
Parece que Maximiliano quereria que o touro houvesse derrubado e amolgado o cavalleiro.
Como o infeliz archiduque haveria gostado, se lh'a tivessem dado a lêr, da Ultima corrida de touros em Salvaterra, de Rebello da Silva!
Aquillo é que eram touros á castelhana, no tempo do senhor D. José!
Maximiliano foi convidado para um dos grandes bailes do marquez de Vianna, n'aquella época tão faustosos. Viu ahi a primeira sociedade de Lisboa. Mas o seu exclusivismo germanico não ficou lisonjeado com os cabellos negros e as faces morenas que se estadeavam no palacio do Rato. Poucas ou nenhumas bellezas viu.
Faz justiça á opulencia das salas, que eu proprio ainda pude vêr no dia do leilão. Por isso digo que faz justiça. Mas accrescenta que denunciavam uma absoluta falta de gosto, um verdadeiro luxo de «parvenu». Ora isto não é exacto. O que seria se Maximiliano tivesse entrado em salas menos remotamente fidalgas que as do marquez de Vianna!
Á chegada do archiduque e durante o baile, o hymno austriaco lisonjeou-lhe sobremodo os ouvidos patriotas.
Apesar de ter appellidado o nobre marquez de «grande senhor da época rococó» e de haver notado falta de gosto nas esplendidas alfaias do palacio do Rato, não pôde deixar de exclamar, graças ao hymno austriaco toda a noite soprado pela fanfarra: «Este simples traço basta a caracterisar o bom marquez.»
Maximiliano já antes tinha estranhado que no Paço das Necessidades as bandas militares não houvessem tocado o hymno austriaco, mas unicamente o hymno real portuguez, quando alli foi convidado a jantar duas vezes.
Muito hymneiro este infeliz archiduque!
E a proposito d'aquelles dois jantares de gala diz Maximiliano que, não obstante a parcimonia habitual da côrte, a mesa era esplendida, e a cosinha primorosa; que, a ter que queixar-se de alguma coisa, seria da abundancia dos pratos.
Se não se houvessem esquecido do hymno austriaco, Maximiliano, apesar de declarar-se abstemio, ter-se-ia levantado da mesa trauteando mentalmente o antigo vaudeville:
Et la frouchette de Camus
Est le sceptre du monde.
Foi pena!