V
Maximiliano viu o cemiterio dos Prazeres, e pareceu-lhe uma imitação do Père Lachaise.
Impressionaram-n'o mal os mausoleos ostentosos, que se lhe afiguravam verdadeiros templos pagãos. E achou pouco christão o contraste d'estes moimentos faustosos com o systema de enterrar os pobres na valla,—como cães. As edificações arruadas do cemiterio dos Prazeres deram-lhe a impressão de um Corso funerario ou de um Boulevard dos mortos, sem caracter religioso.
Para Maximiliano, os cemiterios antigos, em cujos cyprestes e plátanos as avesinhas cantavam n'uma grande paz melancolica, eram o unico typo admissivel para necropole. Sob este ponto de vista encantaram-n'o o Campo Santo de Pisa e as sepulturas da Turquia.
Ora eu posso dar ao leitor dois traços descriptivos do Campo Santo. Fornece-m'os madame Colet, a notavel touriste que tão minuciosamente visitou a Italia: «O Campo Santo fórma um longo quadrado fechado por quatro galerias muradas exteriormente, e cobertas de frescos; interiormente, elegantes columnas cingem o recinto destinado aos mortos. Estas arcadas são de uma leveza maravilhosa, constituidas por duas finas columnas que emmolduram um pilar quadrado. A sua base assenta sobre a herva verde e cuidada; o fuste desabrocha em ogivas que recortam flôres sobre o azul do céo. Aos quatro cantos do prado elevam-se outros tantos cyprestes enormes figurando guardas taciturnos dos sepulchros. Ao meio uma roseira, opulentamente florida, balouça-se de encontro ao fuste de uma columna; sorri aos mortos como um derradeiro amigo. Comecei a minha visita entrando pela porta do occidente. Antes de examinar os frescos attentei nas sepulturas cavadas no solo que eu ia pisando: cavalleiros das cruzadas, nobres, principes, cardeaes e monges estão ahi confundidos na terra. Sarcophagos antigos descobertos nas escavações e mausoleos modernos avultam de cada lado da galeria, traçando uma especie de alêa sepulchral.»
Como se vê, o Campo Santo de Pisa não é tão despido de ornatos esculpturaes como a referencia de Maximiliano poderia fazer suppôr. Eu acho que o melhor de tudo seria adoptar a incineração, e ter cada um no seu proprio lar as cinzas dos seus mortos queridos. Os romanos davam o nome de Columbaria aos nichos, abertos nas camaras sepulchraes, onde cabiam duas urnas com cinzas, á semelhança de dois pombos em um ninho. D'aqui a origem da palavra, que poderiamos traduzir por pombaes dos mortos. Sem embargo havia tambem em Roma os sepulchros faustosos, de dois e tres andares. Mas o que da civilisação dos romanos poderiamos adoptar era o systema da incineração. Emquanto o não fazemos, o meu ideal de cemiterio é muito mais exigente em simplicidade que o ideal de Maximiliano. Ha vinte e um annos publiquei n'um poemeto infantil, que Castilho se dignou prefaciar, o bosquejo de um cemiterio verdadeiramente christão, segundo o meu ideal:
D'aldeia o cemiterio era modesto,
Sem pompa e sem lavores:
Ao centro, a cruz a dominar c'os braços
O recinto dos mortos e os espaços...
De resto... algumas flôres!
Isto, ou então os tumulos aereos da Australia, que o infeliz poeta portuense Pedro de Lima descreveu por esse tempo:
São bellos os tumulos
D'Australia, suspensos
Nos plainos immensos
Á beira do mar.
Alli o cadaver
Pacifico dorme
E a lua—olho enorme—
O vem contemplar.
Para contrastar com a pagina melancolica em que discretêa sobre a morte, dá-nos Maximiliano a descripção de uma burricada em Cacilhas, a pretexto de um lunch, em que certamente foram convivas os officiaes da fragata Novara, porque o archiduque diz-nos que nem elle nem os seus companheiros de equitação sabiam uma palavra de portuguez.
Maximiliano não occulta os tormentos por que passaram as azemolas cacilheiras apertadas sob os joelhos dos cavalleiros austriacos. Era, diz elle, um steeple-chase furibundo, de collegiaes em gazeio. Volteavamos a galope—a galope! que sacrificio para um burro de Cacilhas!—punhamo-nos em pé sobre a sella (queria dizer albarda) fazendo proezas de equilibrio mais ou menos gracioso.
Os pobres burros é que não acharam decerto graça nenhuma á patuscada furiosa dos austriacos. Mas vingaram-se, olá! porque um burro vinga-se sempre. Cada burro de Cacilhas tem na vingança, mal comparado, o coração de D. Pedro I. Pregaram com os austriacos no chão, enrodilharam-n'os na poeira do caminho, fizeram d'elles, incluindo o archiduque, gato-sapato. Oh! triumpho do patriotismo asinino sobre a tyrannia estrangeira! Desconfio que os austriacos se deram finalmente por vencidos; pois que, desistindo da perigosa equitação, se agruparam n'um pinheiral para almoçar,—sur la verdure.
Quem imaginam os senhores que pretendeu estorvar-lhes o almoço? Os burros? Parece á primeira vista, attendendo a que almoçavam sobre a verdura, e os burros deviam ter fome. Não, senhores: foi uma velha, uma megera, diz Maximiliano, que os descompoz e ameaçou. Faço idéa das bonitas coisas que a velha lhes disse, e que elles decerto entenderam se a philippica da heroina foi acompanhada dos respectivos gestos... philippicos.
Ora, naturalmente, a velha era a burriqueira, que vinha desaffrontar os sendeiros escalavrados. N'aquelle tempo não estava ainda organisada, com uma succursal em Cacilhas, a sociedade protectora dos animaes. A velha demosthenava pro domo sua: domo é synonymo de burro.
O que aconteceu? Os austriacos ouviram tudo a pé quedo, com a impassibilidade de sphynges de Memphis, e então a velha, reconhecendo que os estrangeiros não tinham... sangue nas veias, entendeu que seria cobardia, deshonrosa para a Lusitania, correl-os a pau ou a pá, como fez a sua compatriota Brites d'Almeida em Aljubarrota.
Mas quem sabe se a derrota soffrida em Cacilhas não contribuiu para azedar a impressão com que Maximiliano sahiu de Lisboa!
As suas ultimas palavras são accentuadamente pessimistas. Acha que Lisboa não tem caracter proprio. As edificaçoes apresentam aspecto allemão; as toilettes são parisienses; a educação nacional é ingleza. Lisboa, emfim, é uma cidade de Marrocos, morta e triste. Culpa de tudo isto: os nevoeiros frequentes, a frialdade do ar, e os capotes das mulheres! Uma verdadeira descoberta do infeliz archiduque.
Achou-nos colonialmente decadentes, e n'isso não exaggerou. Mas, de descoberta em descoberta, pareceu-lhe que o abatimento nacional provinha da gordura hydropica dos nacionaes, que degenerava em lympha, e que nos arrastava á doença e á morte.
«Quando a decomposição começa, peróra Maximiliano, a vida evapora-se e, como diz o proverbio, «os ratos abandonam a casa que vai desabar.»
É uma ratice, que a historia desmente, porque nós ainda cá estamos, cada vez mais... gordos,—excepto eu.
Maximiliano tambem passou na ilha da Madeira, que descreve, mas eu cerro por aqui as suas impressões de viagem, para que o leitor não tenha motivo de se malquistar commigo pela monotonia do assumpto.