IX
Estamos, outra vez, no Bom Jesus do Monte.
O leitor conspira, porém, contra o poder de ubiquidade que o romancista possue e deseja saber que maviosos dialogos suspiraram Eduardo Valladares e Maria Luiza, ao clarão saudoso das estrellas. O que disseram não o repetiram os échos da noite. Suppomos, todavia, que elle conservara a mesma timidez e que ella não se apartou da alegre tranquillidade que momentos antes revelava. Mas se assim foi, n’aquelle dialogar, apparentemente frivolo, insensivelmente se iam alliando duas almas, a julgar pela leitura das seguintes linhas.
Vamos encontrar Eduardo Valladares e Maria Luiza subindo ambos a alameda sombria da Mãe d’Agua.
—Parece-me hoje mais triste que da primeira vez que estivemos aqui! disse Maria Luiza.
—Creio que não tem v. ex.ᵃ razão para se admirar. É que hoje já vou procurando recordações por entre estas sombras deliciosas.
—Recordações? Ah! recordações da visão mysteriosa que inspirou o seu madrigal.
—Se fôra assim, a presença de v. ex.ᵃ dissiparia essas recordações, ousou pronunciar Eduardo Valladares.
—Eu!
—V. ex.ᵃ mesma. Ha de perdoar-me, continuou elle com a voz extremamente trémula, mas resolvi-me, ao cabo de muitas horas de hesitação, a usar d’uma sinceridade que não pode e não deve melindrar v. ex.ᵃ. Que hei de fazer eu senão pensar, meditar, eu que vivo aos dezeseis annos longe da terra que me viu nascer, dos sitios que recordam as horas alegres da minha infancia, dos meus amigos queridos, do conchego da familia, das consolações de minha mãe, do braço protector de meu pae? Ah! se v. ex.ᵃ comprehendesse como tudo isto é profundamente triste, e se depois se lembrasse tambem de que venho acceitar um futuro que me offerece a generosidade d’um parente, porque o trabalhar constante de meu pae não basta para abrir á felicidade a porta da nossa casa, se v. ex.ᵃ comprehendesse tudo isto, ouvir-me hia como se ouve um amigo que vem entregar ao nosso coração o segredo das suas maguas.
—Jesus! Como me entristece!
—Ah! V. ex.ᵃ tem soffrido tambem, é verdade, porque conserva ainda na alma os vestigios d’uma longa saudade. Hoje, que é domingo, o dia em que v. ex.ᵃ costumava ir depôr um ramo de flores sobre o tumulo de sua irmã, ouvir-me-ha, pois, como se eu lhe estivesse falando á beira d’esse tumulo querido...
—Despedaça-me o coração... Tenha piedade.
—Supponha que o repellido da fortuna poz um dia os olhos n’uma esperança, e que vêl-a tornada realidade seria o mesmo que subitamente enriquecer de tudo o que lhe falta agora, de tudo o que deixa na alma d’elle um vácuo tão profundo como sombrio. Supponha que o desventuroso peregrino pedia gasalhado ao seu coração, e que via pendente dos labios de v. ex.ᵃ toda a sua vida, toda a sua felicidade, todo o seu futuro... Mas...
—Fale, fale...
—Mas quem me diz, quem me prova que o coração de v. ex.ᵃ tem ainda a liberdade de entregar-se? Quem me diz, quem me prova que v. ex.ᵃ não deu já a outrem a felicidade que eu lhe estava pedindo? Mas quem me diz, quem me prova que v. ex.ᵃ tem a abnegação de ligar o seu destino a um destino incerto e sombrio como o que me espera talvez amanhã? Ah! não fala, não responde... Que está lendo v. ex.ᵃ na veia d’agua, em que fixou o seu olhar? Talvez esteja lendo o meu futuro, que é decerto o futuro de todos os desgraçados... Nasce a agua entre estas sombras queridas que pendem dos troncos seculares. O destino impelle-a para longe. Ella lá vae, descendo de fonte em fonte, afastando-se cada vez mais do seu berço querido, até que se some, ao sopé da montanha, nos abysmos da terra. Quer v. ex.ᵃ que lhe desenhe melhor o quadro d’uma vida obscura e triste como ha de ser a minha? Oh! diga, diga, que estava lendo o meu destino na corrente d’esta floresta sagrada...
—Quer saber o que estava pensando? respondeu Maria Luiza no tom firme d’uma resolução inabalavel. Não pensava no seu destino, pensava no meu. Olhe como a agua corre livre vencendo o dique d’aquella folha verde que encontrou no caminho. Pois bem. A agua da montanha é tão livre como eu.