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Fez-se a luz.
Descerraram-se de par em par as portas d’esse olympo esplendido aonde só podem subir duas almas identificadas n’uma unica aspiração.
Eduardo Valladares sentiu n’um momento dissiparem-se todas as dúvidas, todos os receios, todas as angustias. Maria Luiza deixara-se fascinar pelos clarões rutilantes d’esse mundo que entrevira em sonhos e, irmã da mariposa, lançava-se á chamma sem curar de saber se encontraria a morte. São realmente dignas de estudo naturezas como a sua.
Ha certas creaturas que entraram no mundo com o coração a trasbordar d’alegria.
As scenas variegadas da vida absorvem-nas e enlevam-nas, como as cambiantes d’um caleidoscopo enlevam e absorvem uma creança.
Tudo as namora, tudo as fascina. Seguem com estremecimentos de jubilo as choreas caprichosas das borboletas e das aves; parecem querer luctar com a perfidia da onda, quando estão á beira mar, e deixar-se-hiam morrer se soubessem que a morte era... alegre. Mas—singular contradicção!—um ligeiro incidente as commove; derrubae um ninho e vel-as-heis chorar.
São porém nevoas que se dissipam com um sôpro. A alegria impelle-as, e ellas, as venturosas creaturas, deixam se deslizar suavemente por uma estrada de rosas...
Um dia quer Deus que lhes embargue o passo o leito d’um moribundo, permittam-me o exemplo. Admirae-as então. Sabeis o que são estremos de dedicação inegualavel? Se não sabeis, vinde apprendel-os com ellas. De tudo se esquecem, tudo alienam, a propria vida, a felicidade, a alegria para se absorverem n’um unico pensamento e n’uma unica afflicção.
É por isso que fomos encontrar Maria Luiza á beira do leito da pobre irmã como a mais solicita e dedicada enfermeira que jámais houve.
É por isso que pudemos vêl-a, a ella, a inquieta toutinegra, ajoelhada sobre o tumulo querido, como o anjo da saudade, orvalhando-o de abundantissimas lagrimas.
É por isso que a admiramos no momento de confiar o seu coração, immaculado e puro, ao homem que revelava, nos éstos d’uma paixão impetuosa, um coração egualmente puro e immaculado.
É por isso que teremos de contemplal-a...
Corre-nos obrigação de deixar a phrase incompleta. O romancista não pode accelerar a marcha dos acontecimentos com uma especie de velocidade electrica. Tem o dever de ser methodico e nós, que tentamos o primeiro passo no caminho do romance, devemos respeitar as tradições até hoje seguidas pelos fazedores de novellas veridicas e não veridicas.
O que devemos dizer é que Eduardo Valladares e Maria Luiza se carteavam quasi diariamente.
As dulcissimas phrases que se mutuavam adivinha-as o leitor.
Os namorados—especialmente os namorados como Maria Luiza e Eduardo Valladares—fazem lembrar aquelles celebres habitantes de que fala Camões:
Contam certos auctores
Que, junto da clara fonte
Do Nilo, os moradores
Vivem do cheiro das flores
Que nascem n’aquelle monte.
De que vivem os namorados? Embriagam-se nos celestiaes aromas das flores que desabrocham nos rosaes escondidos no coração. O que elles sabem dizer é um como frémito de rosas baloiçadas por uma viração suavissima;—linguagem quasi mysteriosa apenas entendida por duas almas. Em que é que pensam? Em que é que sonham?
Pensam e sonham nas amenidades do seu vergel encantado, nas flores do seu canteiro intimo, nas harmonias que uns desconhecidos rouxinoes gorgeiam por entre os invisiveis rosaes.
«Tenho dó dos demonios; pois se elles não amam!» creio que escreveu algures Santa Thereza, toda delirante de ternura, como notou o mais vernaculo dos nossos escriptores contemporaneos.
Oh! espiritos beatificos, que nascestes fadados para os arroubos asceticos, ó santos e santas da côrte celestial, até vós prelibastes as doçuras que resumbram do favo do amor!
Quero lembrar-me tambem agora de que S. Francisco de Salles disse «que o amor tem o primeiro logar entre as paixões da alma»; e não sei ao certo quantos mais santos discretearam ácêrca do amor. Que admira, porém? Não se resumia a doutrina e philosophia do vosso divino Mestre n’este dulcissimo preceito: «Amae-vos uns aos outros»?