XIX
Rodrigues d’Abreu costumava abraçar-se, quando a sua alma carecia de confôrto, ao esteio d’um coração amigo, que era urna de balsamos para todas as afflicções.
Frei Domingos do Amor-Divino, o conselheiro, o arrimo, o cyreneu do bibliothecario bracharense, tinha purificado o seu coração nas asperezas da disciplina conventual, nas tribulações da miseria e nas lagrimas choradas na solidão, deante d’um crucifixo.
Carmelita descalço, foi sempre modêlo e exemplo nos cargos que teve de exercer em hospicios differentes por decisão do definitorio geral da sua ordem.
Na rigorosa observancia do regimen monastico e na prática constante da virtude lentamente se mundificara a alma do religioso carmelita, já de natural propensa ao bem.
O convento foi-lhe sempre chrysol desde que solemnemente professou no convento de Nossa Senhora dos Remedios, em Lisboa, até que, silencioso e compungido, sahira com o resto da communidade do convento do Carmo de Braga, dizendo para sempre adeus á casa que lhe devia ser tumulo.
Nunca Frei Domingos do Amor-Divino se entrincheirou com as reixas do mosteiro para, a coberto de perseguições, accender odios partidarios e soprar injurias a qualquer das duas facções que por longo tempo se degladiaram em accêsa lucta civil.
Não lhe ouviram nunca razoamento, nem sequer monosyllabo, que denunciasse o rumo das suas inclinações politicas.
Quando chegava ás cellas do convento um echo das tempestades exteriores, costumava dizer Frei Domingos do Amor-Divino:
—Não curemos de profundar essas negruras. A porta que se fechou sobre nós é uma como barreira que nos separa das desgraças que pesam sobre Portugal. Que o espirito do Senhor desça sobre nós e seja comnosco, irmãos.
Retumbou finalmente aos ouvidos do carmelita um como trovão que parecia abalar os alicerces do convento: era a voz de debandada que se repercutia ao mesmo tempo no seio de todos as ordens religiosas de Portugal. Frei Domingos do Amor-Divino cruzou com os seus confrades um olhar afogado em lagrimas e desceu á claustra para se despedir da lage sob a qual esperava dormir o somno eterno. N’esse momento, voltavam umas andorinhas que tinham fabricado o ninho no friso da crasta.
Foi dilacerante aquelle lance. As andorinhas, ficavam e a communidade... sahia.
Frei Domingos do Amor-Divino foi um dos religiosos portuguezes que emmudeceram na sua dôr, e procuraram na solidão o refugio que não podiam encontrar em qualquer outra parte.
Dissolvida a grande familia monastica portugueza e serenadas as tormentas politicas que mergulharam em rios de sangue as decantadas boninas das varzeas de Portugal, Frei Domingos do Amor-Divino assentou residencia em Braga.
—Quero vêr a toda a hora o ninho das andorinhas, dizia elle referindo-se ao convento do Carmo. Ali lhes escutei o alegre chilrear e alli esperava morrer com ellas. O meu coração precisa d’este consôlo.
Sua grande affeição á casa onde tinha vivido, esquecido do mundo, levou o a escolher cubiculo d’onde ao menos pudesse espreitar as torres do seu convento. Recolheu se Frei Domingos a uma pobre mansarda da rua do Carvalhal e ahi viveu a vida angustiada da miseria e da solidão. Muitas pessoas, que ajoelharam a seus pés com o coração requeimado, levantaram se do confessionario com os olhos marejados de lagrimas.
Isto diz-se para até certo ponto se explicar o respeito com que os vizinhos o olhavam e cumprimentavam quando sahia e entrava.
João Nicolau, se acertava vêl-o, dizia ordinariamente:
—Ó mulher, estes pobresinhos dos frades, sem casa e sem pão, fazem realmente despedaçar a alma a quem os vê. E olha como o nosso vizinho vive resignado, que até se lhe rie o semblante! Deus perdôe a quem...
E deixava quasi sempre a phrase incompleta para não evocar recordações pungentes que tinha recalcadas no coração.
Um dia uma viuva desvalida, mãe de quatro filhos, ajoelhou supplicante aos pés de Frei Domingos.
O virtuoso carmelita levantou-a compassivo e disse-lhe:
—Se na minha mão estivesse remediar a vossa miseria, remediada estava. Não desanimemos porém. «Pedi e dar-se-vos-ha, buscae e achareis, batei e abrir-se-vos-ha» disse o Divino Mestre no sermão da Montanha. Sigamos pois o conselho de quem nol-o podia dar.
E foi-se de porta em porta, seguido da viuva e das creancinhas, esmolando para a mãe e para os filhos.
Rodrigues d’Abreu foi um dos não muitos corações que se enterneceram a lagrimas deante d’aquelle edificante e extranho espectaculo. Desde então nunca na alma do bibliothecario bracharense passava uma dôr intima, que elle não fôsse desafogal-a no coração de Frei Domingos do Amor-Divino.
A sorte desventurosa do filho do bacharel Valladares trazia trabalhado de crueis angustias o espirito do bibliothecario bracharense. Foi pois n’umas das horas de doloroso cogitar a tal respeito, que na alma de Rodrigues d’Abreu passou um lampejo d’esperança, ao lembrar-se do muito que podia fazer, em tão apertado caso, Frei Domingos do Amor-Divino.
Não hesitou um momento. Tinha pedido ao Céo a luz da inspiração e á conta d’inspiração celeste tomara elle o pensamento que o impellia para o religioso carmelita.
Foi procural-o, falou-lhe, desdobrou-lhe o quadro das afflicções que eram d’outrem e que sentia como suas. Frei Domingos attendeu-o e escutou-o humilde e compassivo, respondendo finalmente:
—É grave e trabalhoso demover o proposito d’um ánimo resoluto. Operemos e esperemos todavia. Deus autem noster in cælo; omnia quæ cumque voluit, fecit.[6]
Depois que Rodrigues d’Abreu sahiu do cubiculo da rua do Carvalhal, Frei Domingos do Amor-Divino ajoelhou-se deante do seu crucifixo invocando as graças do Céo. Durante a oração illuminou-se-lhe o espirito, e quando o carmelita se levantou, tinha já traçado o plano da obra espinhosa que tomara sobre si, esperançado no auxilio divino, como revelam estas palavras que murmurara ao oscular o crucifixo:
—In tribulatione mea invocavi Dominum, et ad Deum meum clamavi.[7]
Depois desceu as escadas com extranhavel vigor, atravessou a rua e aldravou á porta de João Nicolau de Brito.